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PAPA PAULO VI

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 27 de Outubro de 1971

 

O carisma do sacrifício na Igreja missionária 

A nossa alma ainda está comovida, com a cerimónia que, no domingo passado, foi celebrada nesta Basílica, por ocasião do Dia das Missões. Se alguém, entre vós, estava presente, com certeza poderá compreender e também compartilhar os nossos sentimentos. De resto, cada um de vós, mesmo que não tenha tido a ventura de estar presente, poderá, com facilidade, experimentá-la, ao pensar no significado desta cerimónia. Isto porque o seu significado, ainda mais do que o rito, que foi tão bonito e eloquente, nos parece digno de recordação e reflexão, especialmente da parte de quem, como vós, olha com amor, juntamente connosco, para a Igreja, que só pode ser compreendida por meio do amor, isto é, por meio da inteligência do amor (cfr. Dante Alighieri, La Divina Commedia, Purgatório, 24, 51).

O significado daquela Missa não podia deixar de ser missionário. Podeis recordar, por exemplo, algumas das suas características exteriores que, merecidamente, a qualificaram como missionária. Estava presente um grupo de peregrinos de Samoa, que se distinguiam pelos seus trajes vistosos, vindos da Oceânia para nos retribuir a visita que lhes fizemos, o ano passado. Havia peregrinos de outros países distantes; bispos que participam no Sínodo, representantes de toda a família da Igreja Católica, espalhada pela terra; fiéis de todas as raças e cores; numa palavra, um variado mostruário da humanidade que vive no nosso globo. A universalidade da Igreja, ou seja, a sua catolicidade era evidente. Pensávamos naquele canto do Apocalipse: « ... resgataste para Deus, com o teu sangue, almas de toda a tribo e língua, de todo o povo e nação » (Apoc 5, 9), e na narração dos acontecimentos que se verificaram no dia de Pentecostes, quando todos, ébrios de Espírito Santo, anunciavam, nas próprias línguas, as grandezas de Deus (cfr. Act 2, 11). Pensávamos nisto com a mesma admiração suscitada naquele dia, e sempre, quando se vê que, também nas nações que estão para além das fronteiras do Antigo Testamento, se efunde a graça do Espírito Santo (cfr. Act 10, 45). E, então, perguntámos: aquela profecia, segundo a qual « a sua voz difunde-se por toda a terra e chegam até aos confins do mundo as suas palavras » (Sl 19 [18], 5; cfr. Rom 10, 18), a voz e as palavras dos Apóstolos e dos Missionários, ter-se-á realizado? Naquela ocasião tínhamos uma imagem do aspecto humano, étnico, social e ilimitado da Igreja, um aspecto extraordinàriamente variado, bonito e pacífico.

Dissemos pacífico porque também resplandecia outro aspecto, mais profundo e ainda mais bonito e eloquente: o da unidade. Pessoas tão diversas e, ao mesmo tempo, tão unidas; que não se conheciam, mas se sentiam irmanadas; tão orgulhosas e ciosas da própria cultura diversificada, mas que ofereciam, a uma comunhão, sem ambiguidade e sem reservas, o que tinham de mais seu e de mais pessoal, o próprio pensamento e o próprio coração, na mesma fé, na mesma caridade, convictas de construírem um só corpo, com um só Espírito animador, no júbilo de uma solidariedade aberta a todos, e, ao mesmo tempo, pessoas bem distintas de quem não a compartilha, exprimindo, com a própria experiência, na mais híbrida variedade de línguas, a mesma voz, a mesma oração, o mesmo hino ao único Deus, Pai de todos (cfr. Ef 4, 3-6).

A unidade católica é um fenómeno incomparável. A unidade é a suma aspiração da humanidade, mas a sua realização, no plano temporal, ainda é difícil e imperfeita. Aqui, pelo contrário, já é uma unidade verdadeira e real, no plano espiritual, visível e orgânico; um só povo, o Povo de Deus; um só corpo, o Corpo Místico de Cristo; a Igreja, a Igreja una e católica.

É esta a Igreja? Mas como se realiza este prodígio? Naquela ocasião, também pudemos observar que este prodígio se revelava, de certo modo, nos seus elementos humanos, que se tornaram sinais, isto é, sacramento do elemento divino, a graça cristificante, que chama e transfigura homens e mulheres deste mundo, deste nosso mundo culto, refinado e corrompido, cuja grandeza e baixeza conhecemos, assim como as qualidades e as fraquezas, os heroísmos e a mesquinhez. Homens e mulheres — desta vez encontravam-se mais de quatrocentos na nossa cerimónia —, que, num determinado momento, saíram do meio da multidão dos fiéis, subiram os degraus do altar, para vir até nós, servo dos servos de Deus, dizendo — com este acto silencioso e, no entanto, mais expressivo do que qualquer palavra, em resposta à dupla vocação: a vocação da Igreja exterior, que convida e implora; e a vocação de Cristo, interior, que murmura doce e dramaticamente, nos corações fidelísimos —, as palavras proféticas: «... Eis-me aqui, envia-me » (Is 6, 8), quero ser « escolhido para anunciar o Evangelho de Deus » (Rom 1, 1; Gál 1, 15; Act 13, 2). A eles, que vieram para ser reconhecidos como missionários, que lhes havíamos de dar, perguntávamos a nós mesmo, senão o crucifixo, que significa tudo e que, na mão trémula e corajosa de quem o recebe, parece constituir, imediatamente, um presságio de uma história de imitação, dedicação, amor e vitória, qualquer que venha a ser a história do missionário que está prestes a partir? O sacrifício de Cristo, o sacrifício que salva o mundo, continua.

Mas, nos nossos dias, ainda existe o carisma do sacrifício? Sim, existe, em grande abundância. O nosso tempo, que sofreu a experiência das guerras, bem o sabe. Depois, porém, não o aceita, fazendo do egoísmo e do prazer o programa de vida ideal. Conhece o sacrifício e presta-lhe honras; porém, mais nos outros do que em si. Cada um, aliás, evita-o. Mas, para dizer a verdade, não se trata de todos. Há quem o aceite, também na sua mais autêntica expressão, a voluntária. Neste caso, a honra torna-se glória. E, graças a esta glória, ainda se alimentam as melhores virtudes da nossa convivência civil. O que significou, para a nossa geração, o exemplo de Schweizer! Unimo-nos, de bom grado, ao tributo de admiração e encómio, que um homem como ele merece. Mas seja-nos permitido, sem inveja e emulação, render homenagem análoga, embora humilde e silenciosa, às inumeráveis legiões de missionários e missionárias, que ofereceram e oferecem a vida inteira, com ilimitado sacrifício e sem publicidade, sem elogios e sem qualquer recompensa, aos sofrimentos físicos e às necessidades morais dos seus infelizes irmãos, porque os consideram irmãos em Cristo, nas terras de missão, que ainda se encontram no limiar da cultura moderna. Que tesouro de sacrifício possui, hoje mais do que nunca, esta Igreja de Deus, Igreja comunitária e hierárquica, Igreja institucional e operante, que a Providência nos permitiu chamar nossa!

A nossa apologia da Igreja pretende ser pedagógica, para todos aqueles que duvidam da sua autenticidade, se subtraem à sua comunhão vital, ficam embaraçados e envergonhados por militarem nas suas fileiras. A Igreja missionária julga-nos com a sua fé apostólica, com o seu amor positivo, com a sua dedicação total ao nome de Cristo, ao serviço e à liberdade dos irmãos. Ela não nos ensina estéreis críticas, amargas contestações, veleidades retóricas nem espiritualismos efémeros. Ê uma escola de realismo evangélico. Convida-nos à seriedade e à alegria do seguimento positivo de Cristo. Mas haveria ainda muito para dizer. Estimemos a Igreja missionária e tudo isto será claro para nós. Damo-vos a nossa Bênção Apostólica.

 

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