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CARTA DO PAPA PAULO VI A DOM ALOÍSIO LORSCHEIDER, BISPO DE SANTO ÂNGELO E
PRESIDENTE DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
Ao Venerável Irmão Aloísio Lorscheider, Bispo de Santo Ângelo e Presidente da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Apresta-se essa Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para mais urna
Assembleia Geral. De per si, mais um encentro de procura, reflexão e oração em
comum, a partir de fraterna permuta de pontos de vista e de experiências atuadas
e vividas, e do interesse com que os seus Membros acompanham no plano vital e
doutrinal, a marcha do Povo de Deus no nosso tempo.
Foi-nos grato tomar conhecimento do Programa Geral dos trabalhos. Nele perpassa
a preocupação nítida de urna serena e fiel renovação e atualização, ao ritmo do
mundo atual. Com referência ao II Concílio do Vaticano, a dez anos da sua
abertura, e na linha de antiquíssima tradição - segundo a qual os Bispos de todo
o orbe sempre comunicaram entre si e com o Bispo de Roma, no vínculo da unidade,
da caridade e da paz, e se reuniram para decidir em comum coisas importantes,
depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos (Lumen Gentium, 22)
- vai abrir-se aí um diálogo, de grande interesse e alcance, tendo como tema
central «a dimensão comunitária da Igreja particular».
Unido na oração, queremos também nós inserir-nos, de algum modo, nesse diálogo,
começando por exprimir a nossa complacência pelo acerto na escolha dos assuntos
a tratar e a estudar, e urna palavra estimulante a todos os intervenientes, a
dedicarem-lhes a
sua habitual e generosa atenção. A
isso os impelirá, sem dúvida, o zêlo
apostólico e os propósitos de comunhão
eclesial que os animam, para tornar mais visível e irradiante a sua unidade em
Cristo, garantia e incentivo para as comunidades de fé, de esperança e de amor,
onde se desenrola a sua atividade pastoral, que, no desempenho do nosso supremo
ministério apostólico, bem conhecemos e apreciamos.
A amplidão, profundidade e rapidez
das transformações no mundo em que vivemos e
a repercussão destas sobre os
indivíduos e os grupos humanos, conjuntamente com a facilidade e o evidente
influxo das comunicações que - quase
poderíamos dizer - tornam os homens, hoje, sempre presentes uns aos outros, seja
qual for a latitude em que se achem, obrigam a aplicar-nos, constantemente,
para, em Igreja, nos situar, aperceber e discernir os sinais dos tempos. E isso,
levados por evangélico e sereno interêsse de urna presença a êste mundo, atual,
adaptada e operante, da mesma Igreja, multissecular
«instituição, sempre viva e
coerente com as suas raízes, e, ao mesmo tempo, sempre receptiva daquilo que é
susceptível de fazer desabrochar, em perene primavera, a linfa do Espírito Santo
que sem cessar a percorre» (Cfr. nosso Discurso na Audiência
Geral de 8 de Novembro de 1972: em «L’Osservatore Romano» de 9 de Novembro de
1972).
Dada a necessária solidariedade de intentos entre os Pastores - para secundar
esta contínua e misteriosa ação do
Espírito Santo na Igreja, para conservar íntegro e vivo o Evangelho e fazer com
que este responda aos apêlos peculiares das situações
concretas onde os homens transcorrem a sua vida - no desempenho da sua tríplice
função de ensinar, santificar, «com
Pedro e sob Pedro», hão-de os seus
esforços de atualidade seguir sempre determinadas coordenadas : urnas, com
caráter perene, traçadas por Cristo e pela Igreja e avivadas amiúde pelo
Magistério; outras, ditadas pela prudência e eficácia pastorais e aferidas pela
comunhão responsável na Colegialidade
Episcopal e pelo bem de toda a Igreja.
Dêste modo, apoiados na forca da união
mútua e na graça do Espírito Santo e visando confirmar os homens na vivência
plena da própria condição eclesial ou
trazê-los à fé, os mesmos Pastores, ao renovarem-se continuamente, serão
exemplo e estímulo, também neste ponto, para os seus colaboradores e para as
instituições católicas, em ordem a urna
sempre crescente conjugação de esforços, na
irradiação atual, serena e simpática da
Boa-Nova, que se processa, antes de tudo, na paz e na alegria de urna santidade
cada vez maior, que é sempre, «para todo o gênero
humano, o mais firme germe de unidade, esperança e salvação»
(Lumen Gentium, 9).
Nêste sentido, porque em tudo feitos modelos do rebanho do Senhor e
comprometidos, a título especial, na sequela do «Unico Mestre», convém aos
encontros entre Bispos o caráter de diálogo, com Cristo a presidir, porque
entabulado em seu nome, e sob o olhar complacente do Pai, porque prosseguido
para a sua glorificação. E assim, com as
luzes do Espírito Santo, em clima de amor e de confiança, assentes na aceitação
e compreensão recíprocas, brilhará a verdade
aliada com a caridade, e a fortaleza com a humildade e mansidão;
e, acima de tudo, se verá resplandecer a unidade do tão
ardente anelo do Senhor, expresso em oração
interessada, num momento bem significativo na presença do Colegio dos Doze,
continuado no tempo pelo Colégio Episcopal: que «. . . também
êles sejam um em nós, para que o mundo creia
que tu me enviaste» (Io. 17, 20-21).
Certo de que é nêste tom de diálogo que vai desenrolar-se a Assembleia Plenária
dos Veneráveis Irmãos Bispos do Brasil,
queremos aproveitar a ocasião para lhes
testemunhar o nosso aprêço pelos esforços generosos envidados no campo da
pastoral das vocações e da formação
do clero; igualmente, pelo modo como acompanham, assistem e tratam os
sacerdotes, que já compartilham das suas funções
e solicitude em prol do Reino de Deus. Que, com a graça do Senhor, possam
continuar e colher êxitos cada vez maiores nesta louvável aplicação!
Quanto aos sacerdotes, em particular, como «filhos e cooperadores da Ordem
Episcopal» e, ,ao mesmo tempo, «como irmãos
e amigos», insidiados, por vezes, por nuvens que podem colhê-los desabrigados,
em solidão, com a perturbação,
o desalento, ou a insatisfação pessoal, que
êles, encontrando no Presbitério estima e
afeição e um ambiente de confiança fraterna,
de amizade franca e de caridade firme, vejam sempre, no Bispo que o preside,
alguém que tem muito a peito o bem dêles,
quer material, quer sobretudo espiritual (Presbyterorum Ordinis, 7).
Conhecemos ainda a preocupação dos Membros
dessa Conferência, urgida, em não
poucos casos, por angustiante escassez de clero, por inserir os leigos nas
atividades eclesiais, dado o papel insubstituível, apesar de subsidiário do
sacerdócio ministerial, que aí lhes cabe. Que continuem, assim, a atuar a
exortação do recente Concílio: «apascentar
os fiéis e reconhecer-lhes os serviços e carismas, de tal maneira que todos, a
seu modo, cooperem unânimemente na tarefa comum» (Lumen
Gentium, 30).
Salientamos, por fim, na agenda dos trabalhos da Assembleia, o estudo de urna
melhor organização dos Tribunais
Eclesiásticos, no território da sua competência.
Dado que a comunhão na realidade orgânica,
que é a Igreja, não dispensa urna forma
jurídica, do fácil acesso e bom funcionamento, sempre animado pela caridade, dos
mesmos Tribunais, podem advir grandes vantagens pastorais e espirituais, para
todos aqueles que deles precisam de servir-se.
Na certeza do interêsse com que constantemente acompanhamos a solicitude
pastoral dos Veneráveis Irmãos Bispos desse
Dileto País, com a nossa caridade fraterna, concluímos com os votos pelos
melhores frutos desta sua Assembleia Geral. Para isso, invocamos sobre todos as
luzes do Espírito Santo, para que, guiados por Cristo-caminho, sintonizados com
Cristo-verdade, e confortados em Cristo vida, aí façam resplandecer o rosto sem
mácula da Igreja, Mãe e Mestra: com a nossa
Benção Apostólica, extensiva a todos os
fiéis brasileiros!
Vaticano, 20 de Janeiro de 1973.
PAULUS PP. VI
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