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DISCURSO DO PAPA PAULO VI NA
CLAUSURA DA TERCEIRA SESSÃO DO CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II
21 de Novembro de 1964
Veneráveis Irmãos
Ao cabo de dois meses de intensos esforços
fraternos, damos graças a Deus pela feliz celebração deste Concílio Ecuménico
Vaticano II, cujo terceiro e laborioso período hoje concluímos com esta solene e
sagrada sessão. Oh! verdadeiramente temos o dever de elevar a Deus a expressão
das nossas almas agradecidas e exultantes, por nos haver Ele concedido a imensa
fortuna de assistirmos, ou, melhor, de darmos nós mesmos, humildes e felizes
protagonistas, consistência, sentido e plenitude a este histórico e providencial
acontecimento! Oh! verdadeiramente devemos escutar, como para nós pronunciadas,
as palavras do Senhor: «Vestri autem beati oculi quia vident, et aures vestrae
quia audiunt!» (1).
Eis diante de Nós, nas pessoas dos seus pastores, por detrás
dos quais se comprime a falange dos rebanhos respectivos, a Igreja santa de
Deus, por Ele, mediante a Nossa voz, convocada a reunir-se; eis a Hierarquia
católica, à qual incumbe formar e guiar o Povo santo de Deus, reunida numa única
sede, num só sentimento, com uma única prece, uma única fé, uma única caridade
nos lábios e nos corações; eis esta incomparável assembleia, que nunca Nos
cansamos de admirar, como também nunca poderemos esquecer, toda aplicada à
confissão da glória do Pai e do Filho e do Espírito Santo, toda atenta a evocar
as palavras benditas da revelação e a perscrutar-lhes o sentido verdadeiro e
profundo; eis uma assembleia de homens, livres como ninguém de interesses
próprios e vãos, e, como ninguém empenhados no testemunho das verdades divinas;
homens, fracos e falazes como somos, porém convictos de poder pronunciar
verdades que não admitem nem contestação nem limites; homens, filhos do nosso
tempo e da nossa terra, mas erigidos por sobre o tempo e por sobre a terra, para
tomarem nos ombros o peso dos seus irmãos e para os conduzirem à salvação
espiritual, e com dedicação total, com amor maior do que os próprios corações
que o abrigam, com uma tensão que poderia parecer temerária e é cheia de serena
confiança, para investigar o sentido da vida humana e da história, e dar-lhes
valor, grandeza, beleza, unidade em Cristo, só em Cristo Nosso Senhor! É estupendo, Irmãos que aqui estais! É estupendo, homens
que lá fora nos observais! Poderemos ver jamais cena mais grandiosa, mais
comovedora e mais solene?
Avulta ainda esta Nossa alegria se, neste extremo
momento do período conciliar que estamos para concluir, apenas recordamos o que
foi discutido, o que foi finalmente definido: foi estudada e descrita a doutrina
sobre a Igreja; foi completada também a obra doutrinal do Concílio Ecuménico
Vaticano I; foi sondado o mistério da Igreja e traçado o plano divino da sua
constituição fundamental.
Ainda uma vez: agradeçamos ao Senhor este feliz
resultado, e deixemos que as nossas almas se encham de legítimo júbilo;
poderemos, doravante, gozar de melhor inteligência do pensamento divino a
respeito do Corpo místico de Cristo, e daí poderemos haurir normas claras e mais
seguras para a vida da Igreja, maiores energias para o seu incessante esforço de
conduzir os homens a salvamento, melhores esperanças para o progresso do Reino
de Cristo no mundo. Bendigamos o Senhor!
Sobejas coisas haveria que dizer em
comentário ao trabalho realizado: o estudo piedoso e severo, para que ele fosse
perfeitamente conforme à verdade bíblica e à genuína tradição da Igreja; o
esforço para descobrir o íntimo significado e a verdade substancial sobre o
direito constitucional da própria Igreja, para saber o que nele é imóvel e
certo, e o que dos princípios deriva por via de natural e autorizado
desenvolvimento; o zelo de considerar todos os aspectos do mistério da Igreja,
de modo que a cada parte, a cada função, a cada finalidade da vida do Corpo
místico fosse dado igual tratamento; e assim por diante. Resulta, todavia, que o
ponto mais árduo e mais memorável deste trabalho espiritual girou em torno da
doutrina sobre o Episcopado; e só sobre este ponto seja-Nos lícito abrir
brevemente a Nossa alma.
Diremos sòmente: estamos satisfeitos de que esta
doutrina tenha sido tratada com suficiente amplitude de estudos e de discussões,
e com similar clareza de conclusões. Era dever fazê-lo, em complemento do
Concílio Ecuménico Vaticano I. Era o momento de o fazer, dado o desenvolvimento
assumido pelos estudos teológicos de hoje em dia, dados os problemas com que o
governo eclesiástico se defronta na experiência diária da sua actividade
pastoral, dada, finalmente, a expectativa que muitos Bispos alimentavam acerca
do esclarecimento da doutrina a eles relativa. Era também o modo de o fazer; de
forma que, tendo em conta as explicações dadas acerca tanto da interpretação a
dar aos termos usados, como da qualificação teológica que este Concílio pretende
dar à doutrina tratada, com a ajuda de Deus não hesitámos em promulgar a
presente Constituição sobre a Igreja.
E melhor comentário afigura-se-Nos não
poder fazer-se do que dizendo que esta promulgação verdadeiramente não muda
coisa alguma na doutrina tradicional. Aquilo que Cristo quis, queremo-lo também
nós. O que estava, fica. O que a Igreja por séculos ensinou, ensinamo-lo
igualmente. Sòmente aquilo que era simplesmente vivido, é agora expresso; aquilo
que era implícito, fica esclarecido; o que era meditado, discutido e em parte
controvertido, chega agora a uma serena formulação. Verdadeiramente podemos dizer que a Providência divina preparou para nós uma hora luminosa; ontem
lentamente amadurecida, hoje resplandecente, amanhã certamente rica de
ensinamentos, de impulsos, de melhoras para a vida da Igreja.
E satisfeitos
dir-Nos-emos ainda, pela honra que esta Constituição tributa ao Povo de Deus:
nada pode alegrar-Nos mais do que vermos proclamada a dignidade de todos os
nossos irmãos e filhos que compõem o Povo santo de Deus, a cuja vocação, a cuja
santificação, a cuja direcção, a cuja salvação está dirigido, como a seu fim, o
ministério hierárquico. E não menos satisfeitos Nos diremos pelo que esta
Constituição diz de Nossos Irmãos no Episcopado: quanto folgamos de ver
proclamada a dignidade deles, celebrada a sua função, reconhecidos os seus
poderes! Como agradecemos a Deus que a Nós tenha cabido a sorte de honrar a
sacralidade do vosso ministério e a plenitude do vosso sacerdócio, de reconhecer
a solidariedade que vos estreita entre vós mesmos e a Nós, Irmãos venerados e
amados!
Com edificação notamos como o ofício primário, singular e universal,
confiado por Cristo a Pedro e transmitido aos seus sucessores, os Pontífices Romanos
— de quem Nós, indignos, revestimos hoje o poder
— é amplo e repetidamente
reconhecido e venerado no solene documento que há pouco promulgámos; e não
pudemos deixar de comprazer-Nos com isto, não tanto pelo prestígio que daí advém
à Nossa pessoa, de tamanho ofício temerosa e não ávida, quanto, de preferência,
pela honra tributada à palavra de Cristo, pela coerência confirmada mediante a
tradição e o magistério da Igreja, pela garantia sancionada em favor da unidade
da própria Igreja e da eficácia harmoniosa e segura conferida ao governo dela. E
de suma importância era que esse reconhecimento das prerrogativas do Sumo
Pontificado fosse explicitamente expresso no momento em que devia definir-se a
questão da autoridade episcopal na Igreja, de modo que tal autoridade aparecesse
não em contraste, mas sim em justa e constitucional concórdia com o Vigário de
Cristo e chefe do Colégio episcopal.
E esta íntima e essencial união é que faz
do Episcopado uma classe unitária, que encontra no Bispo sucessor de Pedro não
um poder diverso e estranho, mas sim o seu centro e o seu chefe, que por Nossa
parte nos faz solícitos em celebrar, com as Nossas, as vossas prerrogativas, em
Nos rejubilarmos com a exaltação delas, em lhes reivindicarmos a excelência, em
promovermos a sua integração com as Nossas. Reconhecendo, assim, na sua
plenitude, o múnus episcopal, sentimos crescer em torno de Nós a comunhão de fé,
de caridade, de corresponsabilidade, de colaboração. Não receamos ver diminuída
nem estorvada a Nossa autoridade ao confessarmos e celebrarmos a vossa; antes,
mais fortes Nos sentimos pela união que juntos nos irmana; mais idóneos para a
direcção da Igreja universal, por vos sabermos, cada um, tendendo ao mesmo fim,
mais confiante na ajuda de Cristo por estarmos e querermos estar, todos juntos,
mais estreitamente unidos em seu nome.
Que desenvolvimentos práticos terá este
esclarecimento doutrinário, não é fácil dizer; mas não é difícil prever que eles
serão fecundos de aprofundamentos espirituais e de ordenações canónicas. O Concílio Ecuménico terá a
sua conclusão definitiva com a próxima quarta sessão; mas a aplicação dos seus
decretos comportará uma rede de Comissões pós-conciliares, nas quais será
indispensável a colaboração do Episcopado; como também o aparecimento de
questões de interesse geral, aparecimento próprio e contínuo no mundo moderno,
tornar-Nos-á ainda mais dispostos do que já estamos a convocar e consultar, em
momentos determinados, alguns de vós, venerados Irmãos, oportunamente
designados, para termos em torno de Nós o conforto da vossa presença, o auxílio
da vossa experiência, o apoio do vosso conselho, o sufrágio da vossa autoridade;
será isto útil também pelo facto de a renovação da Cúria Romana, a qual está
sendo cuidadosamente estudada, poder ajudar-se com a obra experimentada de
pastores diocesanos, integrando-se assim os seus quadros, já tão eficientes no
seu fiel serviço, com Prelados provenientes de vários países e portadores da
ajuda de sua sabedoria e de sua caridade. Talvez que esta pluralidade de estudos
e de discussões acarrete algumas dificuldades práticas: a acção colectiva é mais
complicada do que a acção individual, mas, se ela corresponde melhor à índole a
um tempo monárquica e hierárquica da Igreja, e se a vossa cooperação conforta
melhor o Nosso esforço, com prudência e caridade saberemos superar os obstáculos
próprios de uma ordenação mais complexa do regime eclesiástico.
Queremos esperar
que a doutrina sobre o mistério da Igreja, ilustrada e proclamada por este
Concílio, tenha desde já felizes repercussões nas almas, antes de tudo dos
católicos: vejam os fiéis todos, melhor traçado e revelado, o rosto genuíno da
Esposa. de Cristo; vejam a beleza de sua mãe e mestra, vejam a simplicidade e a
majestade das linhas de tão veneranda instituição, admirem um prodígio de
fidelidade histórica, de estupenda sociologia, de exuberante legislação, um
reino progressivo, onde o elemento divino e o elemento humano se fundem para reflectir sobre a humanidade crente o desígnio da Encarnação e da Redenção, o
Cristo total como diz Santo Agostinho-o nosso Salvador.
Com tão grandioso espectáculo alegrem-se e inebriem-se especialmente aqueles que da busca da
perfeição cristã fazem profissão única e constante, queremos dizer os
Religiosos, que da Igreja são os membros exemplares, os generosos sustentáculos,
os filhos caríssimos.
E alegrem-se outrossim, e consolem-se aqueles Nossos
irmãos e filhos que vivem nas regiões onde até hoje é negada ou muito diminuída
a suficiente e condigna liberdade religiosa, de forma que na Igreja do silêncio
e das lágrimas devemos inscrevê-los: gozem também eles do fulgor doutrinal que
ilumina a santa Igreja, à qual os seus sofrimentos e a sua fidelidade oferecem
um estupendo testemunho, merecendo eles, assim, por si mesmos, a glória maior: a
de Cristo, vítima pelo resgate do mundo. Queremos também esperar que a própria
doutrina da Igreja seja benevolamente e favoràvelmente considerada pelos irmãos
cristãos ainda separados de nós; integrada essa doutrina pelas declarações
contidas no Decreto sobre o Ecumenismo, igualmente aprovado por este Concílio,
quiséramos que eles tivessem nas suas almas a virtude de amoroso fermento para a
revisão de pensamentos e de atitudes que maiormente possa aproximá-los da nossa
comunhão, e finalmente, se Deus quiser, possa nela reuni-los; enquanto que a Nós
esta mesma doutrina proporciona a surpreendente alegria de observarmos como,
traçando as linhas da sua figura exacta, a Igreja não restringe, mas sim alarga
os limites da sua caridade e não susta o movimento da sua progressiva,
multiforme e convidativa catolicidade. Neste ponto, lícito Nos seja exprimir,
nesta ocasião, a Nossa reverente saudação aos Observadores que aqui representam
as igrejas ou confissões cristãs de nós separadas, o Nosso agradecimento pela
sua grata assistência às reuniões conciliares, o Nosso voto vivíssimo pela sua
cristã prosperidade.
E quiséramos, enfim, que também sobre o mundo profano, no
seio do qual a Igreja vive e pelo qual está cercada, a doutrina da Igreja
irradiasse algum reflexo atraente: deve ela, a Igreja, aparecer como aquele
sinal no meio dos povos (2), para oferecer a todos a orientação no seu próprio
caminho em demanda da verdade e da vida. Como, efectivamente, cada um pode
observar, a elaboração desta doutrina, atendo-se ao rigor teológico que a
justifica e magnífica, nunca se esquece da humanidade que conflui na Igreja, ou
que constitui o ambiente histórico e social em que se desenvolve a sua missão. A
Igreja é para o mundo. A Igreja outro poder terreno não ambiciona para si senão
aquele que a habilita a servir e à amar. Aperfeiçoando o seu pensamento e a sua
estrutura, não visa ela a apartar-se da experiência própria dos homens de seu
tempo, senão que, antes, tende a compreender estes melhor, a melhor lhes
compartilhar os sofrimentos e as boas aspirações, a confortar melhor o esforço
do homem moderno em mira à sua prosperidade, à sua liberdade, à sua paz. Mas
este já longo discurso terá o desenvolvimento no final do Concílio, quando os
esquemas que devem coroar os seus trabalhos, um acerca da liberdade religiosa, o
qual sòmente por falta de tempo no final desta sessão não foi possível levar a
termo, e outro acerca das relações entre a Igreja e o mundo, o qual já foi
apreciado na presente sessão, terão o seu complemento na sessão seguinte e
última.
Agora, para terminar, outro pensamento Nos atrai.
Não pode, veneráveis
Irmãos, o Nosso pensamento deixar de elevar-se, com sentimentos de sincera e
filial gratidão, também à Virgem Santa, Aquela que Nos apraz considerar como protectora do presente Concílio, como testemunha das nossas labutas, como a
nossa amabilíssima conselheira, porque a Ela, como a uma celeste Padroeira,
juntamente a S. José, pelo Papa João XXIII desde o início foram confiados os
trabalhos das nossas assembleias ecuménicas (3).
Animado por estes mesmos
sentimentos, o ano passado quisemos oferecer a Maria Santíssima um solene acto
de comum obséquio, reunindo-nos
na Basílica Liberiana, em torno à imagem venerada sob o glorioso título de «Salus
Populi Romani».
Este ano, a homenagem do nosso Concílio apresenta-se bem mais
preciosa e significativa. Com a promulgação da actual Constituição, que tem como
vértice e coroamento um capítulo inteiro dedicado a Nossa Senhora, justamente
podemos afirmar que a presente sessão se conclui com um incomparável hino de
louvor em honra de Maria.
Com efeito, é a primeira vez — e dizê-lo enche-Nos a
alma de profunda emoção — é a primeira vez que um Concílio Ecuménico apresenta
síntese tão vasta da doutrina católica acerca do lugar que Maria Santíssima
ocupa no mistério de Cristo e da Igreja.
Isto corresponde ao fim que este
Concílio se prefixou, de manifestar o rosto da santa Igreja, à qual está
intimamente unida, e da qual, como notàvelmente foi afirmado, é Ela «portio
maxima, portio optima, portio praecipua, portio electissima» (4).
Em verdade, a
realidade da Igreja não se esgota na sua estrutura hierárquica, na sua liturgia,
nos seus sacramentos, nas suas ordenações jurídicas. A sua íntima essência, a
fonte primeira da sua eficácia santificadora deve buscar-se na sua mística
união com Cristo; união que não podemos pensar dissociada d'Aquela que é a Mãe
do Verbo Encarnado, e que o próprio Jesus Cristo quis tão intimamente unida a Si
para a nossa salvação. De modo que é na visão da Igreja que deve enquadrar-se a
contemplação amorosa das maravilhas que Deus operou em sua santa Mãe. E o
conhecimento da verdadeira doutrina católica sobre Maria constituirá sempre uma
chave para a exacta compreensão do mistério de Cristo e da Igreja.
A reflexão
sobre estas estreitas relações de Maria com a Igreja, tão claramente
estabelecidas pela actual Constituição conciliar, faz-Nos pensar ser este o
momento mais solene e mais apropriado para satisfazermos um desejo que, por Nós
acenado no fim da sessão precedente, muitíssimos Padres conciliares fizeram seu,
pedindo instantemente uma declaração explícita, durante este Concílio, da função
maternal que a Virgem exerce sobre o povo cristão. Para tal fim, julgámos
oportuno consagrar, nesta mesma sessão pública, um título em honra da Virgem,
sugerido de várias partes do orbe católico e a Nós particularmente caro, porque
em síntese admirável exprime o lugar privilegiado que este Concílio reconhece à
Virgem na santa Igreja.
Portanto, para glória da Virgem e para nosso conforto,
proclamamos Maria Santíssima «Mãe da Igreja», isto é, de todo o Povo de Deus,
tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos
que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por
todo o povo cristão.
Trata-se, veneráveis Irmãos, de um título que não é novo
para a piedade dos cristãos; porque antes é justamente com este nome de Mãe, de
preferência a qualquer outro, que os fiéis e a Igreja toda costumam dirigir-se a Maria. Em verdade, ele pertence à genuína substância da devoção a
Maria, achando sua justificação na própria dignidade da Mãe do Verbo Encarnado.
Efectivamente, assim como a maternidade divina é o fundamento da especial
relação de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação operada
por Jesus Cristo, assim também constitui essa maternidade o fundamento principal
das relações de Maria com a Igreja, sendo Ela Mãe d'Aquele que, desde o primeiro
instante da Sua Encarnação no seu seio virginal, uniu a si, como Cabeça, o seu
Corpo místico, que é a Igreja. Maria, pois como Mãe de Cristo, também é Mãe dos
fiéis e dos pastores todos, isto é, da Igreja.
Portanto, é com ânimo cheio de
confiança e de amor filial que elevamos o olhar para Ela, não obstante a nossa
indignidade e fraqueza. Ela, que em Jesus nos deu a fonte da graça, não deixará
de socorrer a Igreja, agora que esta, florescente pela abundância dos dons do
Espírito Santo, com novo alento se empenha na sua missão salvadora.
E ainda mais
reavivada e corroborada é a nossa confiança se consideramos os laços estreitíssimos que ao género humano prendem esta nossa Mãe celeste. Embora na
riqueza das admiráveis prerrogativas com que Deus a exornou para a fazer digna
Mãe do Verbo Encarnado, está Ela, todavia, pertíssimo de nós. Filha de Adão como
nós, e por isso nossa irmã por laços de natureza, ela é, todavia a criatura
preservada do pecado original em vista dos méritos do Salvador, e que aos
privilégios obtidos junta a virtude pessoal de uma fé total e exemplar,
merecendo o elogio evangélico de «beata quae credidisti». Na sua vida terrena,
realizou a perfeita figura do discípulo de Cristo, espelho de todas as virtudes,
e encarnou as bem-aventuranças evangélicas proclamadas por Cristo. Pelo que,
n'Ela, toda a Igreja, na sua incomparável variedade de vida e de obras, acha a
forma autêntica de perfeita imitação de Cristo.
Auguramos, pois, que, com a
promulgação da Constituição sobre a Igreja, selada pela proclamação de Maria Mãe
da Igreja, isto é de todos os fiéis e pastores, o povo cristão se dirija à
Virgem santa com maior confiança e ardor, e a Ela tribute o culto e a honra que
lhe competem.
Quanto a nós, da mesma sorte que a convite do Papa João XXIII, a
11 de Outubro de 1961, entrámos na aula conciliar juntamente «cum Maria, Matre
Jesu», assim também, ao terminar a terceira sessão, deste mesmo templo saímos no
nome santíssimo e suavíssimo de Maria Mãe da Igreja.
Em sinal de gratidão pela
sua amorosa assistência a nós prodigalizada durante este último período
conciliar, cada um de vós, veneráveis Irmãos, empenhe-se em manter alto entre o
povo cristão o nome e a honra de Maria, aponte n'Ela o modelo da fé e da plena
correspondência a todo o convite de Deus, o modelo da plena assimilação ao
ensino de Cristo e da sua caridade, a fim de que, unidos em nome da Mãe comum,
sintam-se sempre todos os fiéis mais firmes na fé e na adesão a Jesus Cristo, e
ao mesmo tempo mais fervorosos na caridade para com seus irmãos, promovendo o
amor aos pobres, o apego à justiça, a defesa da paz. Como já
exortava o grande Santo Ambrósio, «sit in singulis Mariae anima ut magnificet
Dominum: sit in singulis spiritus Mariae ut exultet in Deo» (5).
Sobretudo
desejamos seja claramente evidenciado que Maria, humilde serva do Senhor, é toda
relativa a Deus e a Cristo, único mediador e Redentor nosso. E igualmente sejam
ilustradas a verdadeira natureza e as intenções do culto mariano na Igreja,
especialmente lá onde se acham muitos irmãos nossos separados, de modo que os
que não fazem parte da comunidade católica compreendam que, longe de ser fim em
si mesma, a devoção a Maria é, ao contrário, meio essencialmente ordenado a
orientar as almas para Cristo, e assim uni-Ias ao Pai, no amor do Espírito
Santo.
Enquanto em ardente prece volvemos a Nossa alma para a Virgem, a fim de
que abençoe o Concílio Ecuménico e a Igreja toda, apressando a hora da união
entre todos os cristãos, o Nosso olhar abre-se para os horizontes sem fim do
mundo inteiro, objecto das atenções mais vivas do Concílio Ecuménico, e que o
Nosso predecessor Pio XII, de veneranda memória, não sem inspiração do alto,
solenemente consagrou ao Coração Imaculado de Maria. Esse acto de consagração
julgamos oportuno recordá-lo hoje de modo particular. Para este fim, resolvemos
enviar próximamente, por meio de uma missão especial, a Rosa de Ouro ao
Santuário de Nossa Senhora de Fátima, tão caro não só ao povo da nobre nação
portuguesa — sempre, porém hoje particularmente, a nós caro — como também conhecido
e venerado pelos fiéis de todo o mundo católico. Destarte, também Nós
pretendemos confiar aos cuidados da celeste Mãe a inteira família humana, com os
seus problemas e as suas ânsias, com as suas legítimas aspirações e as suas
ardentes esperanças.
Ó Virgem Maria Mãe da Igreja, a Ti recomendamos a Igreja
toda, o nosso Concílio Ecuménico.
Tu, «auxilium Episcoporum», protege e assiste
os Bispos na sua missão apostólica e todos quantos, sacerdotes, religiosos,
leigos, os coadjuvam na sua árdua tarefa.
Tu, que por teu próprio divino Filho,
no momento da sua morte redentora foste apresentada como Mãe ao discípulo predilecto,
lembra-te do povo cristão, que em Ti confia.
Lembra-te de todos os teus filhos; valoriza junto de Deus as suas preces;
conserva-lhes sólida a fé; fortalece-lhes a esperança; aumenta-lhes a caridade!
Lembra-te dos que se acham nas tribulações, nas necessidades, nos perigos, e
sobretudo dos que sofrem perseguições e se encontram encarcerados pela fé. Para
esses, ó Virgem, impetra a fortaleza e apressa o suspirado dia da justa
liberdade!
Olha com olhos benignos os nossos irmãos separados, e digna-te unir-nos, Tu que
geraste a Cristo, ponte de união entre Deus e os homens!
Ó templo da luz sem sombra e sem mácula, intercede junto a teu
Filho unigénito mediador da nossa reconciliação com o Pai (6), a fim de que
conceda misericórdia às nossas faltas, e afaste todo o dissídio dentre nós,
dando às nossas almas a alegria de amar!
Ao teu Coração Imaculado, ó Maria,
recomendamos finalmente o género humano inteiro; leva-o ao conhecimento do único
e verdadeiro Salvador, Jesus Cristo; afasta dele os flagelos provocados pelo
pecado, dá ao mundo inteiro a paz na verdade, na justiça, na liberdade e no
amor.
E faze que a Igreja toda, celebrando esta grande assembleia ecuménica,
possa elevar majestoso ao Deus das misericórdias o hino do louvor e do
agradecimento, o hino da alegria e da exultação, porque grandes coisas operou o
Senhor por meio de Ti, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria (7).
Notas
1. Mt. 13, 16.
2. Cfr. Is. 5, 26.
3. Cfr. AAS 53 (1961) p. 37 s.; 211 s; 54 (1962), p. 727.
4. Ruperto, In Apoc. I VII, c. 12: PL 169, 1043.
5. S. Ambrósio, Exp. in Luc. 2, 26: PL 15, 1642.
6. Cfr. Rom,
5,11.
7. AAS 56 (1964), p, 1007-1018.
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