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DISCURSO DO PAPA PAULO VI
AOS MEMBROS E CONSULTORES
DO CONSELHO DOS LEIGOS

Sexta-feira, 20 de Março de 1970

 

É com grande satisfação que vos recebemos, no término dos vossos trabalhos, caros filhos e amigos, Membros e Consultores do Conselho dos Leigos. Sentimo-Nos feliz por ouvir, através das vossas palavras, o eco do magnífico apostolado do Povo de Deus no mundo. Vós sois, de um certo modo, os Nossos peritos e os Nossos conselheiros neste campo, e foi por este motivo que permitimos que alguns de vós tomassem a palavra durante esta audiência. Estamos grato, de um modo particular, a Dom Derek Worlock, a Dona Branca Alves e ao Senhor Rienzie Rupasinghec, por terem sido os vossos porta-vozes diante de Nós.

Eles exprimiram muito bem o orgulho e a alegria que sentis pela grande missão que a Igreja vos confiou, sem dissimular as dificuldades encontradas: as «tensões» que se tornaram, como parece, uma característica da nossa época e que também afectam o campo do apostolado — tensão entre a Igreja e o mundo, entre a fé e a vida, entre o clero e o laicado, etc... Mas, parece-Nos entrever no vosso tríplice testemunho uma decidida vontade de dominar estas tensões, transformando-as em diálogo, para depois as colocardes ao serviço do bem. Louvamos o vosso propósito de prosseguir na obra empreendida, sem deixar de a aperfeiçoar e aprofundar. De muito bom grado vos asseguramos que, no vosso precioso trabalho ao serviço da Igreja, o estímulo e a bênção, que Nos viestes pedir, não vos hão-de faltar.

Desejamos agora aproveitar da ocasião que a vossa presença nos oferece, para reflectir convosco sobre a figura do leigo na Igreja. O que é o leigo ? O que é o leigo católico ? Que auxílio espera a Igreja do vosso Conselho para promover o apostolado dos leigos no nosso tempo? Há um ensinamento em que deveis meditar para garantir a sua realização no Povo de Deus, segundo três dimensões essenciais.

1.Em primeiro lugar, a pessoa humana. Cada pessoa, é preciso recordar, é criada à imagem de Deus, é superior a todo o universo visível e tem um destino eterno.

Mas esta pessoa humana, que Nós consideramos sob o aspecto específico de leigo, é chamada a realizar o seu destino no coração do mundo profano, a partilhar dos sofrimentos e das alegrias da comunidade humana, a assumir em si as solidariedades sociais e culturais que lhe dão direitos e deveres e também lhe oferecem inúmeras possibilidades de exercer influxo na organização e no dinamismo do mundo.

Tudo isto indica, por outras palavras, o papel eminente e a dignidade da pessoa humana, e também a obrigação que a sociedade tem de a respeitar, tanto por si própria como nas suas relações familiares e sociais.

2.Depois, a pessoa cristã. O facto de ter sido baptizada dá à pessoa humana outro título, que aumenta a sua grandeza. Pelo baptismo entra num mundo novo, de horizontes infinitos: o mundo da fé, o mundo da graça.

O leigo aparece, então, na sua dignidade superior de membro do Povo de Deus, elevado ao plano sobrenatural, com a possibilidade de se tornar cidadão do Céu, com novos direitos e deveres, que, mesmo na vida terrestre, o homem, apenas com as próprias forças, não poderia pretender nem realmente possuir.

3.Por fim, o leigo católico, membro da Igreja Corpo Místico — que é uno e ao mesmo tempo tão diferenciado —, o leigo considerado não só como sujeito passivo, como muitas vezes sucedeu no passado, mas também como sujeito activo na Igreja, segundo a doutrina formal do II Concílio Ecuménico do Vaticano.

Não é certamente a vós que devemos relembrar que a Constituição Lumen Gentium, depois de ter enunciado o dever da obediência e da oração dos fiéis, pede aos Sagrados Pastores que « reconheçam e tornem efectivas a dignidade e a responsabilidade dos leigos na Igreja; aproveitem de bom grado o seu conselho prudente, confiem-lhes serviços para o bem da Igreja, e deixem-lhes liberdade e campo de acção; animem-nos mesmo a empreender outras obras por iniciativa própria. Considerem atentamente, diante de Deus e com paternal afecto, as iniciativas, as propostas e os desejos manifestados pelos leigos (Cfr. 1 Tes 5, 19 e 1 Jo). Enfim, hão-de os Pastores reconhecer respeitosamente a justa liberdade que a todos compete na sociedade temporal» (n. 37).

Quem não vê o vasto campo de acção que foi aberto ao Conselho pelos ensinamentos do Concílio? Em que direcção irá trabalhar, para que se realizem as grandes perspectivas de apostolado dos leigos, delineadas nos diversos Decretos ou Constituições do II Concílio do Vaticano ? O seu papel deverá ser desempenhado, segundo Nos parece, em função de dois polos: os leigos e a Hierarquia.

Com respeito aos leigos, o vosso Conselho deve manter-se numa atitude de escuta e de diálogo, pronto a avaliar, nos meios em que eles vivem, as necessidades e as possibilidades de salvação. Para tanto, procurará suscitar, em união com os Episcopados das diversas partes do mundo, as formas de apostolado que, muito embora respeitando a índole e o carácter de cada cultura, se unem todas na comunhão da Igreja, pela afirmação clara da sua identidade católica. Ao agir deste modo, deveis lembrar-vos e provar que o zelo e a dedicação não são suficientes; também é preciso servir-se da reflexão, da meditação e do confronto constante com o Evangelho e com o Magistério da Igreja.

Nesta perspectiva, impõe-se um confiante intercâmbio de ideias e experiências entre sacerdotes e leigos que, examinando em conjunto as mesmas situações, os mesmos acontecimentos e as mesmas necessidades do mundo, trabalhem para realizar as respectivas vocações e missões.

Consideramos que a primeira responsabilidade do Conselho dos Leigos, dilectos filhos, é precisamente esta. A segunda não é menos importante: diz respeito à articulação do apostolado dos leigos com o da Hierarquia, duas forças que a própria constituição da Igreja não permite sejam consideradas divergentes. Também neste ponto, o vosso testemunho deve ser exemplar.

Ao ouvirdes as vozes do mundo, podeis considerar-vos intérpretes qualificados dos inumeráveis filhos que o Pai comum desejaria poder ouvir. Como também no ano passado vos afirmámos, contamos convosco, para que sejais os porta-vozes da solicitude pastoral que temos por eles. Aliás, o lugar que o Conselho dos Leigos é chamado a ocupar actualmente entre os órgãos centrais da Igreja autoriza-o a procurar os melhores meios para conjugar e harmonizar a sua missão com a dos diversos Dicastérios, Secretariados e Comissões da Cúria Romana, respeitando as competências de cada um destes organismos. Com esta visão de conjunto, que deveis adquirir, vireis a conhecer a vossa função nos seus limites e também as vossas responsabilidades em toda a sua extensão e nas suas específicas características. Deste modo, aumentará em vós, cada vez mais, o sentido de Igreja hierárquica, na qual tudo deve ser examinado em termos de confiança, de serviço e de comunhão.

No que diz respeito à missão que acabámos de delinear a grandes traços, estamos certo de que podemos contar com a vossa fidelidade à Sé de Pedro e com a seriedade da vossa reflexão. Ambas são necessárias, hoje mais do que nunca, neste período tão atormentado para a Igreja e para o mundo.

Embora a vossa proveniência, a vossa formação e os vossos compromissos sejam diversos, única deve ser a vossa preocupação: pregar Jesus Cristo, anunciar com alegria a boa-nova da salvação. O mundo tem tanta necessidade desta boa-nova, como de alimento. E um dos vossos intérpretes no-lo disse com muita felicidade, há bem pouco. Pode-se mesmo dizer que raramente na história se verificou, com mais clareza do que hoje, a urgente necessidade de cristianizar o mundo, este mundo evoluído e inquieto, que se tornou capaz de explorar o cosmos e também de se destruir a si mesmo. Mais do que nunca, esta é a hora do Evangelho, a hora da penetração do lêvedo do cristianismo em toda a sociedade. Sede, pois, dilectos filhos, no lugar específico e importante que ocupais, o Conselho dos Leigos, os bons artífices desta obra imensa, e para tanto vos estimule e vos acompanhe a Nossa Bênção Apostólica.

 

 

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