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DISCURSO DO SANTO PADRE PAULO VI
AOS PARTICIPANTES DO II CONGRESSO EUCARÍSTICO NACIONAL
DE PORTUGAL
Quarta-feira 8 de junho de 1974
Ao Venerável Irmão Francisco Maria da Silva
Arcebispo de Braga
Em cinquentenária evocação do primeiro, o II Congresso Eucarístico
Nacional vai levar outra vez os fiéis de Portugal, com os seus Pastores, a essa
histórica cidade de Braga. Guia-os o comum intento de aí render um preito solene
e público, de fé, amor e devoção a Cristo Senhor, na Eucaristia. Nele irão
participar, certamente, todos os católicos desse dilecto País, profundamente
irmanados em torno da mesa do Altar pelo amor com que Deus a todos nos amou
primeiro (Cfr. Io. 4, 10) como a filhos, ao enviar-nos o seu Filho.
Queremos afirmar-Nos presente nessa comunhão de amor, na qualidade de
Sucessor de Pedro e de Vigário de Cristo; e qual «perpétuo e visível princípio e
fundamento da unidade de toda a Igreja, não só dos Bispos que compõem o Colégio
Episcopal, mas também da multidão dos fiéis» (Cfr. Lumen Gentium, 23),
com idêntico afecto como se aí estivéssemos em pessoa e acompanhando o bem
programado Congresso com a Nossa oração, a todos desejamos «graça, misericórdia
e paz, da parte de Deus Pai e da de Jesus Cristo, nosso Senhor» (2 Tim.
1, 2).
Numa só alma e num só coração, a parcela da Igreja aí congregada vai entoar
jubilosos hinos de louvor ao Deus connosco, no Sacramento do Altar, e celebrar a
Eucaristia também como «sinal de unidade, vínculo da caridade e banquete
Pascal». Peregrinar-se-á precisamente para isso: para urna comunháo em Igreja,
pela Comunhão eucarística.
Na herança perene da doutrina católica - formulada já por Santo Agostinho em
uníssono com outros Padres e claramente reafirmada pelo recente Concílio
Ecumênico - diz-se-nos que na celebração da Eucaristia vem à luz, de modo
particular, a Igreja universal como Corpo de Cristo.
Assim, ao tomarem a «verdadeira comida» e «verdadeira bebida», penhor de vida
eterna prometida (Cfr. Io. 6, 55-58), os fiéis comungam e afirmam tanto
mais a presenta da Igreja, nas suas legítimas Comunidades locais, quanto mais
testemunharem a unidade na caridade.
Conscientes desta realidade e conhecedores de que, de per si sacramento e
instrumento da união dos homens com Deus, a Igreja é ao mesmo tempo sinal
levantado diante das nacões para incentivar a unidade do género humano, os
congressistas vão certamente dar-se as mãos, numa comum atitude de testemunho e
de procura, na fé, na esperança e na caridade, «á luz que veio a este mundo, a
fim de que todo aquele que crê não permaneça nas trevas» (Cfr. Io. 12,
46).
Momento privilegiado de procura, pois, para cada vez mais se captar e
assimilar o mistério da morte e da ressureição de Cristo, da sua Páscoa
perpetuada na Eucaristia, o «Mistério da Fé», como fonte de «vida nova». E,
neste Ano Santo, essa procura irá ser particularmente aderente às coordenadas da
grande iniciativa eclesial - a renovação e a reconciliação - aliás, uma
constante de mesma «vida nova em Cristo», condição para dignamente «apresentar a
oferenda ao altar» (Matth. 5, 23) e participar na Eucaristia (Cfr. 1
Cor. 11, 27); e, ademais, constituem o núcleo da evangelização cometida à
Igreja: na hora da despedida, de facto, ao abrir aos discípulos a mente para
entenderem as Escrituras, o Senhor falou-lhes assim: «Está escrito que o
Messias teria de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que se teria
de pregar, em seu nome, penitencia e perdão dos pecados, a todas as nações» (Luc.
24, 46-47).
Ao redor da mesa do Altar, em que se renova o único Sacrificio redentor da
Nova Aliança, começa um convívio fraterno em assembleia, adoradora de Cristo,
Sacerdote e Vítima, e participante, se bem que de modo essencialmente diverso,
do seu único Sacerdócio. Convívio com Cristo, que há-de ter continuidade, após a
adoração comunitária, na adoração pessoal, no aconchego da própria intimidade e
no silencio indispensável para a oração e reflexão a sós com o mesmo Cristo, bom
Pastor e Amigo, sacramental e realmente presente nos muitos sacrários da terra.
Pela Eucaristia, o encentro com Deus que se oferece sempre para o diálogo de
amor a quem o busca com simplicidade de coração, levará o fiel a ter sempre
consciência de si como pessoa e da sua identidade cristã, com a própria
dignidade e responsabilidade: valores em que há-de assentar a fidelidade ao
convívio ou comunhão com os irmãos, ou ao «mandamento novo» - «que vos ameis uns
aos outros como eu vos amei» (Io. 15, 12).
Bem se andou, pois, ao apontar como objectivos do Congresso «reavivar a fé e
a devoção ao Santíssimo Sacramento, procurar dar a Cristo Sacramentado o lugar
que Lhe pertence, no culto e na vida cristã, pelo estudo da Liturgia e da
Pastoral do II Concílio do Vaticano»; e, igualmente, ao dar-lhe como lema «a
Eucaristia fonte de vida».
Procurar vivificar a própria fé e, no amor comungado, alentar a esperança,
para a caminhada por vezes penosa no mundo e com o mundo, que há-de ser
contagiado por tal esperança e unidade no amor, tem de levar ao testemunho com
que o Pai será glorificado (Cfr. Eph. 1, 12) e se demonstrará ser
discípulo atento do divino Mestre, o qual se entregou precisamente «pela vida do
mundo». Assim, a santidade pessoal, a par das «rupturas» constantes com tudo o
que é resíduo ou indício do «homem velho», comporta o crescimento do «homem
novo», até se alcançar a medida da plena estatura de Cristo (Cfr. Eph. 4,
13).
Nesta vivencia da condição cristã, porém, mais do que situado e mais do que
simples companheiro de peregrinação dos outros homens, o fiel tem de descobrir
e actuar a fraternidade com todos os membros da família humana, que Deus quis
fosse uma só e em Cristo alcançou uma nova dimensão. Na estrada de Emaús,
outrora, dois homens desiludidos e mesmo desalentados, por não terem descoberto
ainda Cristo redivivo, deram-se conta dessa dimensão, quando o terceiro
companheiro de jornada que se lhes viera juntar - o próprio Cristo - lhes
«partiu o pão» (Cfr. Luc. 24, 13 ss.). E essa descoberta fez com que não
pudessem conter-se, sem ir logo compartilhar com outros a sua felicidade.
Sim, a Eucaristia sensibiliza para o dever de repartir com os outros, antes
de mais, o «pão» da mensagem e da obra da Salvação, na integridade das suas
riquezas; mas a caridade impelirá o cristão a repartir o «pão» dos demais bens
que desfruta e de que o seu semelhante se ache porventura carecido ou faminto;
isto é, há-de levá-lo a tornar-se presente aos irmãos, com o testemunho vivido e
bem concreto do amor de Deus, como exigência de verdade, de justica, de
respeito, de liberdade, de concórdia, de fraternidade e de paz, bens em que
hão-de comungar todos, como urna família.
Daqui nasce urna responsabilidade solidária, no salvaguardar e no promover o
bem comum de toda a grei, dos grupos intermediários e dos indivíduos que a
integram, por urna participação esclarecida e generosa na vida da comunidade a
que se pertence, assente em opcões genuinamente cristãs, sempre respeitadoras,
dignas e dignificantes da Mensagem do Evangelho e da própria vocação e condição
eclesial.
Estamos confiante em que a assembleia que vai congregar-se nessa gloriosa
cidade de Braga, repositório de tantos documentos da conhecida tradição
portuguesa de fidelidade à Igreja e de devoção ao Santíssimo Sacramento e berço
de Pastores e mentores insignes das mesmas, irá servir realmente para o seu
incremento e renovação e, sobretudo, para um culto cada dia mais adorante do
Pai, pelo Filho, no Espírito Santo, centrado na Eucaristia e tornado vida, por
um corajoso e sereno testemunho cristão.
E na fidelidade aos valores perenes de tal tradição e sob a guia sapiente e
firme dos seus Pastores, à luz do programa de evangelização e de renovação e
reconciliação, que de momento empenha a Igreja inteira, estamos certo de que a
reforma litúrgica, em actuação a nível eclesial, seguindo as directrizes do
Concílio, também aí continuará a contribuir para urna mais consciente
participação dos fiéis no mistério de Cristo e, pela sua vida, mais o exprimirem
e o manifestarem aos outros.
Com os melhores votos por que seja coreado de bom êxito e fecundo em frutos
espirituais esse II Congresso Eucarístico Nacional, invocamos sobre todos os
participantes, pelo valimento de Maria Mãe da Igreja, as luzes e a assistência
divinas. E, em penhor destas, concedemos ao Senhor Arcebispo e a todos os demais
Irmãos Bispos de Portugal, bem como aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas
e a todos os fiéis dessa dilecta Nação, como testemunho da Nossa especial
benevolência, uma paterna e propiciadora Bênção Apostólica.
Vaticano, 25 de Maio de 1974
PAULUS PP. VI
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