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Hermano
Pedro de São José Betancurt
(1626-1667)
PEDRO DE SÃO JOSÉ BETANCUR nasceu em Villaflor de Tenerife, nas
Ilhas Canárias, Espanha, no dia 19 de Março de 1626, tendo sido baptizado
logo no dia 21. Seus pais, Amador González Betancur de la Rosa e Ana Garcia
educaram-no cristãmente e Pedro descobriu os valores da fé e da caridade, de
modo especial. E ele nunca esqueceu os ensinamentos recebidos; ouvindo falar
dos trabalhos missionários que muitos homens e mulheres estavam a empreender
nas terras da América, deixou-se entusiasmar pela ideia de ir anunciar o
Evangelho, emigrando para a Guatemala em 1651 com esse propósito.
Ali começou a viver como se fosse essa a
sua pátria, depressa captou a simpatia das famílias do lugar, que desejavam
a presença de Pedro em suas casas, pela sua afabilidade e interesse pela
situação de cada um; pagava a hospedagem com os trabalhos humildes que podia
fazer.
Dele disse o seu biógrafo: "Todo
o tempo em que conhecemos Pedro de Betancur, conhecemo-lo como um homem
virtuoso. Nele, a virtude parecia natural. Era tão amável como virtuoso e
todos os que o conheciam, o estimavam e quem o estimava, gostava de comunicar
com ele. Todos desejavam tê-lo em sua casa e muitos o procuravam". Fez
da pobreza sua companheira de vida, para não ter outro tesouro a não ser
Jesus Cristo e não ter outra preocupação senão o amor dos pobres. Viveu em
Santiago de los Caballeros, entrava livremente na casa de todos os que ali
habitavam, saindo como tinha entrado: livre de apegos materiais, alma
limpa e coração desprendido, mas com a convicção firme de que tinha
deixado a semente do Evangelho no seio daquelas famílias. O seu biógrafo
diz, mesmo, estas palavras bem elucidativas da sua presença: "o
Irmão Pedro deixava as casas onde entrava banhadas de luz e saía delas sem
detrimento da sua pureza". Por isso, ele pode ser chamado um
"mensageiro do amor de Deus na América".
Possuía a sabedoria própria de um homem
simples. Por esta razão, a sua vida se lê melhor nas suas acções do que
nos seus discursos. Por dificuldades nos estudos, não conseguiu ser
sacerdote, não foi membro de uma Ordem religiosa, o que o convenceu de que
Deus o chamava à santidade por outro caminho; seguiu o da caridade,
tornando-se um verdadeiro apaixonado pelo pobres por amor a Cristo. Sincero e
humilde, mas de um singular intuição e prática na vida, soube reconhecer
Deus e encontrar Cristo nas ruas da cidade. Os seus compatriotas chegavam em
busca de poder e de riquezas; ele procurou as suas honras na catequese, na oração
e no alívio dos sofrimentos humanos dos pobres. Essa era a sua ambição, que
realizava "sempre ocupado em obras de misericórdia", aliviando o
sofrimento do seu Salvador nas cruzes dos mais pobres.
Era homem de oração; reconhecendo-se como
humilde servo da Santíssima Trindade, distinguiu-se por uma vida de comunhão
contínua com Deus Pai através da oração e da perseverança em fazer o bem,
às vezes à custa das maiores dificuldades, incompreensões e contrariedades,
mas espalhando sempre a caridade a mãos cheias, dele se podendo dizer como de
Cristo: "passou pela terra fazendo o bem" (cf. Act 10,
38). Deixando-se guiar pelo Espírito Santo, permaneceu sempre aberto à sua
inspiração, para orientar os seus passos, palavras e acções.
Peregrino e contemplativo, traçou um itinerário
de lugares de oração, de recolhimento e de contemplação, para que aqueles
povos pudessem gozar de momentos de contacto com o Senhor.
Ainda hoje, a tradição fala desses
lugares: o Calvário, o Outeiro da Cruz, os pátios da Pousada de Belém,
o Templo de S. Francisco, bem como as ruas de pedra abençoadas pela sua
passagem continuam a ser sinais da sua presença permanente naqueles lugares.
Soube cimentar a piedade popular na devoção aos mistérios de Cristo e da
Virgem Maria, na frequência dos sacramentos e na meditação, acompanhadas
pela preocupação constante da salvação da alma.
Por isso, não nos admiremos de que ele
fosse um "leigo fundador de uma Ordem religiosa". Assim se expressam
os Bispos da Guatemala em Carta Pastoral, escrita a propósito da sua canonização.
Tendo vestido o hábito da terceira Ordem de
penitência franciscana, continuou a sua vida na prática das obras de
caridade, consolidando a sua devoção a Maria; rezava o terço na Capela da
casa com os escravos, os mais simples, sem deixar de se retirar para o
"seu" Calvário (tinha-o construído com as suas próprias mãos),
pelos pátios da Pousada de Belém, onde, no dizer do seu biógrafo, "os
pobres podiam encontrar pão material para o sustento do seu corpo e o pão da
doutrina para alimento da sua alma". Alguns deixaram-se seduzir pelo seu
exemplo e congregou à sua volta os que julgou idóneos para dar cumprimento
aos seus desejos. Com eles acerta uma vida regular de oração e austeridade
que, ao trabalho com os pobres, uniam uma espiritualidade muito rica de
fidelidade a Deus e vida comunitária. Assim nasceu a Ordem Betlemita, fundada
na Guatemala e ainda hoje viva naqueles meios, ao serviço das pessoas mais
humildes e sem lar.
Destacam os Bispos da Guatemala três caminhos na herança espiritual legada
por Pedro de São José:
a) Caminho espiritual, baseado na
adoração do Verbo Encarnado, na meditação constante da paixão de Cristo,
no amor e adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, amor à Mãe de
Deus e a devoção do santo Rosário, a que se juntava a prática da mortificação,
da penitência e do jejum.
b) Caminho misericrdioso, caracterizado pelo amor aos pobres e a
solidariedade para com todos. Para isto, não hesitou em escrever uma carta ao
Rei de Espanha, pedindo autorização para construir um hospital para
convalescentes, o primeiro do mundo para este género de doentes.
c) Um caminho profético, onde se
descobrem os valores perenes de uma autêntica evangelização. Assim o
evangelizador verdadeiro não deve condenar ninguém definitivamente, pois o
plano de Deus quer a salvação de todos e que todos cheguem ao conhecimento
da verdade (cf. 1 Tim 2, 4), o evangelizador propõe o plano de Deus a
um mundo dominado pelo afã das riquezas, a ambição do poder e a indiferença
orientada pelo prazer.
Beatificado por João Paulo II em Roma, no
dia 22 de Junho de 1980, vai ser canonizado ainda pelo mesmo Sumo Pontífice,
na Guatemala, em 30 deste mês de Julho.
Fizemos algumas referências à Carta
Pastoral com que os Bispos da Guatemala quiseram preparar as suas comunidades
para esta celebração. A Igreja presente neste país da América Central
rejubila com esta jornada, que ficará na memória do seu povo cristão; com
ele, alegrar-se-á também a Igreja no México, onde uma canonização e duas
beatificações marcarão positivamente a sua vida. Sabemos bem que a
santidade não tem fronteiras, para ela não há limites de tempo ou espaço.
Graças a Deus!
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