
Construir "sociedades justas", nas quais todos "recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homens" e "a justiça seja vivificada pelo amor". Esta é a tarefa para a qual o Papa exorta os cristãos na Mensagem para a Quaresma de 2010, apresentada na manhã de 4 de Fevereiro.
A justiça está manifestada
mediante a fé em Jesus Cristo
(cf. Rm 3, 21-22)
Queridos irmãos e irmãs
Todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida à luz dos ensinamentos evangélicos. Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o vasto tema da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cf. Rm 3, 21-22).
Justiça: "dare cuique suum" Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra "justiça", que na linguagem comum implica "dar a cada um o que é seu dare cuique suum", segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romano do século iii. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele "seu" que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido apenas gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado à sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena à morte centenas de milhões de seres humanos por falta de alimentos, de água e de medicamentos mas a justiça "distributiva" não restitui ao ser humano todo o "seu" que lhe é devido. Como e mais do que o pão, de facto ele precisa de Deus. Nota Santo Agostinho: se "a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu... não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus" (De civitate Dei, XIX, 21).
De onde vem a injustiça? O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: "Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos" (Mc 7, 14-15.20-21). Para além da questão imediata relativa ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem "de fora", para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação. Esta maneira de pensar admoesta Jesus é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista: "Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me no pecado" (Sl 51, 7). Sim, o homem tornou-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram a lógica de confiar no Amor com aquela da suspeita e da competição; a lógica do receber, da espera confiante do Outro, com aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cf. Gn 3, 1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza.
Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?
Justiça e Sedaqah No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que "levanta do pó o indigente" (Sl 113, 7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem. De facto sedaqah significa, por um lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; por outro, equidade em relação ao próximo (cf. Êx 29, 12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva (cf. Dt 10, 18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das Tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei, pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e "desceu para o libertar do poder do Egipto" (cf. Êx 3, 8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre (cf. Ecli 4, 4-5.8-9), o estrangeiro (cf. Êx 22, 20) e o escravo (cf. Dt 15, 12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto-suficiência, daquele estado profundo de fecho, que é a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um "êxodo" mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente para realizar. Existe portanto esperança de justiça para o homem?
Cristo, justiça de Deus O anúncio cristão responde positivamente à sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: "Mas, agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus... mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes, pois não há distinção. Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vítima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé" (3, 21-25)
Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que se cura a si mesmo e aos outros. O facto de que a "expiação" se verifique no "sangue" de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si "a maldição" que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a "bênção" que toca a Deus (cf. Gl 3, 13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção: que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é "seu"? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.
Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo e óbvio: é necessário humildade para aceitar que é preciso que um Outro me liberte do "meu", para me dar gratuitamente o "seu". Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Graças à acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça "maior", que é aquela do amor (cf. Rm 13, 8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar.
Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor.
Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Tríduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autêntica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar toda a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 30 de Outubro de 2009.
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Caridade e verdade linhas-guia de quem quer que seja chamado a administrar a justiça favorecem a indissolubilidade do matrimónio. Recordou o Papa aos componentes do Tribunal da Rota Romana na audiência realizada na manhã de 29 de Janeiro, por ocasião da inauguração do Ano Judiciário. Bento XVI recomendou quesejam evitadas evocações pseudopastorais para satisfazer exigências subjectivas. No início do encontro, que teve lugar na Sala Clementina, o Santo Padre foi saudado em nome de todos pelo Decano, D. Antoni Stankiewicz, e depois dirigiu aos presentes o seguinte discurso.
Caros Componentes do Tribunal
da Rota Romana
Estou feliz por me encontrar mais uma vez convosco para a inauguração do Ano Judiciário. Saúdo cordialmente o Colégio dos Prelados Auditores, a começar pelo Decano, D. Antoni Stankiewicz, a quem agradeço as palavras que me dirigiu em nome dos presentes. Saúdo também os Promotores de Justiça, os Defensores do Vínculo, os outros Oficiais, os Advogados e todos os Colaboradores deste Tribunal Apostólico, assim como os Membros do Estudo da Rota. É de bom grado que aproveito o ensejo para vos renovar a expressão da minha profunda estima e sincera gratidão pelo vosso ministério eclesial, reiterando ao mesmo tempo a necessidade da vossa actividade judiciária. O precioso trabalho que os Prelados Auditores são chamados a desempenhar com diligência, em nome e por mandato desta Sé Apostólica, é sustentado pelas tradições autorizadas e consolidadas deste Tribunal, em cujo respeito cada um de vós deve sentir-se pessoalmente empenhado.
Hoje desejo reflectir sobre o núcleo essencial do vosso ministério, procurando aprofundar as suas relações com a justiça, a caridade e a verdade. Farei referência sobretudo a algumas considerações expostas na Encíclica Caritas in veritate que, embora sejam consideradas no contexto da doutrina social da Igreja, podem iluminar também outros âmbitos eclesiais. É necessário considerar a tendência difundida e arraigada, embora nem sempre evidente, que leva a contrapor a justiça à caridade, como se uma excluisse a outra. Nesta linha, referindo-se mais especificamente à vida da Igreja, alguns consideram que a caridade pastoral poderia justificar cada passo rumo à declaração da nulidade do vínculo matrimonial para ir ao encontro das pessoas com uma situação matrimonial irregular. A própria verdade, mesmo invocada com palavras, tenderia assim a ser vista numa perspectiva instrumental, que a adaptaria vez por vez às diversas exigências que se apresentam.
Partindo da expressão "administração da justiça", gostaria de recordar antes de tudo que o vosso ministério é essencialmente obra de justiça: uma virtude "que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido" (cic, n. 1807) da qual é mais importante do que nunca redescobrir o valor humano e cristão, também no interior da Igreja. O Direito Canónico, às vezes, é subestimado, como se fosse um mero instrumento técnico ao serviço de qualquer interesse subjectivo, também não fundado na verdade. Ao contrário, é preciso que tal Direito seja sempre considerado na sua relação essencial com a justiça, na consciência de que na Igreja a actividade jurídica tem como finalidade a salvação das almas e "constitui uma peculiar participação na missão de Cristo Pastor... na actualização da ordem desejada pelo próprio Cristo" (João Paulo ii, Alocução à Rota Romana, 18 de Janeiro de 1990, in aas 82 [1990], pág. 874, n. 4). Nesta perspectiva há que ter presente, qualquer que seja a situação, que o processo e a sentença estão ligados de modo fundamental à justiça e que se põem ao seu serviço. O processo e a sentença têm uma grande relevância quer para as partes, quer para toda a assembleia eclesial, e isto adquire um valor totalmente singular quando se trata de se pronunciar sobre a nulidade de um matrimónio, que diz respeito directamente ao bem humano e sobrenatural dos cônjuges, e também ao bem público da Igreja. Além desta dimensão, que poderíamos definir "objectiva" da justiça, existe outra, inseparável dela, que diz respeito aos "promotores do direito", ou seja, aqueles que a tornam possível. Gostaria de sublinhar como eles devem ser caracterizados por um alto exercício das virtudes humanas e cristãs, em particular da prudência e da justiça, mas também da fortaleza. Esta última torna-se mais relevante, quando a injustiça parece a mais fácil de seguir, enquanto implica condescendência aos desejos e às expectativas das partes, ou então aos condicionamentos do ambiente social. Em tal contexto, o juiz que deseja ser justo e quer adaptar-se ao paradigma clássico da "justiça viva" (cf. Aristóteles, Ética a Nicómaco, v, 1132a), experimenta a grave responsabilidade diante de Deus e dos homens pela sua função, que inclui outrossim a devida tempestividade em cada fase do processo: "quam primum, salva iustitia" (Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Instrução Dignitas connubii, art. 72). Todos aqueles que trabalham no campo do Direito, cada um segundo a própria função, devem ser norteados pela justiça. Penso em particular nos advogados, que devem não somente prestar toda a atenção ao respeito pela verdade das provas, mas também evitar com cuidado de assumir, como advogados de confiança, o patrocínio de causas que, segundo a sua consciência, não sejam objectivamente defensáveis.
Depois, a acção de quem administra a justiça não pode prescindir da caridade. O amor a Deus e ao próximo deve informar toda a actividade, também aquela aparentemente mais técnica e burocrática. O olhar e a medida da caridade ajudará a não esquecer que se está sempre diante de pessoas marcadas por problemas e sofrimentos. Também no âmbito específico do serviço de promotores da justiça vale o princípio segundo o qual "a caridade supera a justiça" (Encíclica Caritas in veritate, 6). Por conseguinte, a aproximação às pessoas, mesmo tendo uma sua modalidade específica ligada ao processo, deve inserir-se no caso concreto para facilitar às partes, mediante a delicadeza e a solicitude, o contacto com o tribunal competente. Ao mesmo tempo, é importante esforçar-se efectivamente todas as vezes que se entrevê uma esperança de bom êxito, para induzir os cônjuges a validar eventualmente o matrimónio e a restabelecer a convivência conjugal (cf. cdc, cân. 1676). Além disso, não se deve abandonar o esforço de instaurar entre as partes um clima de disponibilidade humana e cristã, fundada na busca da verdade (cf. Instrução Dignitas connubii, art. 65 2-3).
Todavia, é necessário reiterar que cada obra de caridade autêntica abrange a referência indispensável à justiça, ainda mais no nosso caso. "O amor "caritas" é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, nos campos da justiça e da paz" (Encíclica Caritas in veritate, 1). "Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é "inseparável da caridade" é-lhe intrínseca" (Ibid., n. 6). A caridade sem justiça não é tal, mas somente uma contrafacção, porque a própria caridade exige aquela objectividade típica da justiça, que não deve ser confundida com insensibilidade desumana. A este propósito, como pôde afirmar o meu Predecessor, o venerável João Paulo ii, na alocução dedicada às relações entre pastoral e direito: "O juiz [...] deve evitar sempre o risco de uma compaixão mal entendida que decairia em sentimentalismo, só apatentemente pastoral" (18 de Janeiro de 1990, in aas, 82 [1990], pág. 875, n. 5).
É preciso evitar evocações pseudopastorais que situam as questões sobre um plano meramente horizontal, nas quais o que conta é satisfazer as exigências subjectivas para chegar à declaração de nulidade custe o que custar, com a finalidade de poder superar, de resto, os obstáculos à recepção dos sacramentos da Penitência e da Eucaristia. O bem altíssimo da readmissão à Comunhão eucarística depois da reconciliação sacramental exige, ao contrário, que se considere o bem autêntico das pessoas, inseparável da verdade da sua situação canónica. Seria um bem fictício e uma grave falta de justiça e de amor, aplainar-lhes de qualquer modo o caminho rumo à recepção dos sacramentos, com o perigo de os fazer viver em contraste objectivo com a verdade da própria condição pessoal.
Acerca da verdade, nas alocuções dirigidas a este Tribunal Apostólico, em 2006 e em 2007, confirmei a possibilidade de alcançar a verdade sobre a essência do matrimónio e sobre a realidade de cada situação pessoal que é submetida ao juízo do tribunal (28 de Janeiro de 2006, in aas 98 [2006], págs. 135-138; e 27 de Janeiro de 2007, in aas [2007], págs. 86-91); assim como sobre a verdade nos processos matrimoniais (cf. Instrução Dignitas connubii, arts. 65 1-2, 95 1, 167, 177 e 178). Hoje gostaria de sublinhar como, quer a justiça quer a caridade, postulam o amor à verdade e comportam essencialmente a busca da verdade. Em particular, a caridade torna a referência à verdade ainda mais exigente. "Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, "rejubila com a verdade" (1 Cor 13, 6)" (Encíclica Caritas in veritate, 1). "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida [...] Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada, chegando a significar o oposto do que é realmente" (Ibid., n. 3).
É necessário ter presente que um esvaziamento semelhante pode verificar-se não só na actividade prática do julgar, mas também nos delineamentos teóricos, que tanto influenciam depois os juízos concretos. O problema apresenta-se quando é mais ou menos ofuscada a própria essência do matrimónio, arraigada na natureza do homem e da mulher, que permite expressar juízoes objectivos sobre cada matrimónio. Neste sentido, a consideração existencial, personalista e relacional da união conjugal nunca pode ser feita em detrimento da indissolubilidade, propriedade essencial que no matrimónio cristão alcança, com a unidade, uma estabilidade peculiar em virtude do sacramento (cf. cdc, cân. 1056). Também não se deve esquecer que o matrimónio goza do favor do direito. Portanto, em caso de dúvida, ele deve entender-se válido enquanto não for provado o contrário (cf. cdc, cân. 1060). Caso contrário, corre-se o grave risco de permanecer sem um ponto de referência objectiva para as declarações acerca da nulidade, transformando toda a dificuldade conjugal num sintoma de malograda actuação de uma união cujo núcleo essencial de justiça o vínculo indissolúvel é de facto negado.
Ilustres Prelados Auditores, Oficiais e Advogados, confio-vos estas reflexões, conhecendo bem o espírito de fidelidade que vos anima e o compromisso que assumis ao dardes plena actuação às normas da Igreja, na busca do verdadeiro bem do Povo de Deus. Como conforto para a vossa preciosa actividade, sobre cada um de vós e sobre o vosso trabalho quotidiano, inovoco a protecção maternal de Maria Santíssima Speculum iustitiae e concedo com afecto a Bênção Apostólica.
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A caridade é "o distintivo do cristão" e "a síntese de toda a sua vida", recordou o Papa durante o Angelus de domingo, 31 de Janeiro, com os fiéis na Praça de São Pedro.
Queridos irmãos e irmãs!
Na liturgia deste domingo lê-se uma das páginas mais belas do Novo Testamento e de toda a Bíblia: o chamado "hino à caridade" do apóstolo Paulo (cf. 1 Cor 12, 31-13, 13). Na sua primeira Carta aos Coríntios, depois de ter explicado, com a imagem do corpo, que os diversos dons do Espírito Santo concorrem para o bem da única Igreja, Paulo mostra o "caminho" da perfeição. Este diz não consiste em possuir qualidades excepcionais: falar línguas novas, conhecer todos os mistérios, ter uma fé prodigiosa ou fazer gestos heróicos. Ao contrário, consiste na caridade ágape ou seja, no amor autêntico, o que Deus nos revelou em Jesus Cristo. A caridade é o dom "maior", que dá valor a todos os outros, mas "não se ufana, não se ensoberbece", mas "rejubila-se com a verdade" e com o bem do próximo. Quem ama verdadeiramente "não procura o próprio interesse", "não se irrita", "tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (cf. 1 Cor 13, 4-7). No final, quando nos encontrarmos face a face com Deus, os outros dons faltarão; o único que permanecerá eternamente será a caridade, porque Deus é amor e nós seremos semelhantes a Ele, em comunhão perfeita com Ele.
Entrementes, enquanto estamos neste mundo, a caridade é o distintivo do cristão. É a síntese de toda a sua vida: daquilo em que crê e do que faz. Por isso, no início do meu pontificado, quis dedicar a minha primeira Encíclica precisamente ao tema do amor: Deus caritas est. Como recordareis, esta Encíclica compõe-se de duas partes, que correspondem aos dois aspectos da caridade: o seu significado, e depois a sua actuação prática. O amor é a essência do próprio Deus, é o sentido da criação e da história, é a luz que dá bondade e beleza à existência de cada homem. Ao mesmo tempo, o amor é, por assim dizer, o "estilo" de Deus e do homem crente, é o comportamento de quem, respondendo ao amor de Deus, orienta a própria vida como dom de si a Deus e ao próximo. Em Jesus Cristo estes dois aspectos formam uma unidade perfeita: Ele é o Amor encarnado. Este Amor é-nos revelado plenamente em Cristo crucificado. Fixando o olhar n'Ele, podemos confessar com o apóstolo João: "Nós reconhecemos o amor que Deus nos tem e acreditamos nele" (cf. 1 Jo 4, 16; Enc. Deus caritas est, 1).
Queridos amigos, se pensarmos nos Santos, reconheceremos a variedade dos seus dons espirituais, e também das suas características humanas. Mas a vida de cada um deles é um hino à caridade, um cântico vivo ao amor de Deus! Hoje, 31 de Janeiro, recordamos em particular São João Bosco, fundador da Família salesiana e padroeiro dos jovens. Neste Ano sacerdotal gostaria de invocar a sua intercessão para que os sacerdotes sejam sempre educadores e pais dos jovens; e para que, experimentando esta caridade pastoral, muitos jovens acolham a chamada a dar a vida por Cristo e pelo Evangelho. Maria Auxiliadora, modelo de caridade, nos obtenha estas graças.
Uma oração pela Terra Santa e um apelo pela tutela dos postos de trabalho ressoaram no final do Angelus. O Papa saudou também os jovens da Acção Católica de Roma.
O último domingo de Janeiro é o Dia mundial dos doentes de lepra. O pensamento dirige-se espontaneamente ao Padre Damião de Veuster, que deu a vida por estes irmãos e irmãs, e que no passado mês de Outubro proclamei santo. À sua celeste protecção confio todas as pessoas que infelizmente ainda hoje sofrem devido a esta doença, assim como os agentes de saúde e os voluntários que se prodigalizam para que possa existir um mundo sem a lepra. Saúdo em particular a Associação italiana "Amigos de Raoul Follereau".
Hoje celebra-se também a segunda Jornada de Intercessão pela Paz na Terra Santa. Em comunhão com o Patriarca Latino de Jerusalém e com o Guardião da Terra Santa, uno-me espiritualmente à oração de tantos cristãos de todas as partes do mundo, e saúdo de coração quantos estão aqui reunidos para esta circunstância.
A crise económica está a causar a perda de numerosos postos de trabalho, e esta situação exige grande sentido de responsabilidade da parte de todos: empresários, trabalhadores e governantes. Penso em algumas realidades difíceis na Itália, como, por exemplo, Termini Imerese e Portovesme; associo-me portanto ao apelo da Conferência Episcopal Italiana, que encorajou a fazer o possível para tutelar e aumentar o número de empregos, garantindo um trabalho digno e adequado ao sustento das famílias.
Trazem-nos uma mensagem de paz também os jovens da Acção Católica de Roma. Ao meu lado estão dois deles, que saúdo juntamente com todos os outros que se encontram na Praça, acompanhados pelo Cardeal Vigário, pelos familiares e educadores. Queridos jovens, agradeço-vos porque, com a vossa "Caravana da paz" e com o símbolo das pombas que daqui a pouco soltaremos em voo, transmitis a todos um sinal de esperança. Ouçamos agora a mensagem que preparastes.
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Os religiosos e as religiosas são "superabundância de gratuidade e de amor o que se tornar ainda mais verdadeiro num mundo que corre o risco de ficar sufocado na vertigem do efémero", ressaltou o Santo Padre na homilia pronunciada durante a celebração das Vésperas na Basílica de São Pedro, na tarde de terça-feira, 2 de Fevereiro, festa da Apresentação do Senhor no Templo e Dia mundial da vida consagrada.
Queridos irmãos e irmãs!
Na festa da Apresentação de Jesus no Templo celebramos um mistério da vida de Cristo, ligado ao preceito da lei moisaica que prescrevia aos pais, quarenta dias depois do nascimento do primogénito, de subir ao Templo de Jerusalém para oferecer o seu filho ao Senhor e para a purificação ritual da mãe (cf. Êx 13, 1-2.11-16; Lv 12, 1-8). Também Maria e José cumprem este rito, oferecendo segundo a lei um casal de rolas ou de pombas. Lendo as coisas mais em profundidade, compreendemos que naquele momento é o próprio Deus quem apresenta o seu Filho Unigénito aos homens, mediante as palavras do velho Simeão e da profetiza Ana. De facto, Simeão proclama Jesus como "salvação" da humanidade, como "luz" de todos os povos e "sinal de contradição", porque revelará os pensamentos dos corações (cf. Lc 2, 29-35). No Oriente esta festa era chamada Hypapante, festa do encontro: com efeito, Simeão e Ana, que encontram Jesus no Templo e reconhecem n'Ele o Messias tão esperado, representam a humanidade que encontra o seu Senhor na Igreja. Sucessivamente, esta festa expandiu-se também ao Ocidente, desenvolvendo sobretudo o símbolo da luz, e a procissão com as velas, que deu origem à palavra "Candelora". Com este sinal visível pretende-se significar que a Igreja encontra na fé Aquele que é "a luz dos homens" e acolhe-o com todo o arrebatamento da sua fé para levar esta "luz" ao mundo.
Em concomitância com esta festa litúrgica, o Venerável João Paulo ii, a partir de 1997, quis que fosse celebrado em toda a Igreja um Dia especial da Vida Consagrada. Com efeito, a oblação do Filho de Deus simbolizada pela sua apresentação no Templo é modelo para cada homem e mulher que consagra toda a própria vida ao Senhor. Tríplice é a finalidade deste Dia: antes de tudo, louvar e agradecer ao Senhor pelo dom da vida consagrada; em segundo lugar, promover o seu conhecimento e a estima por parte de todo o Povo de Deus; por fim, convidar quantos dedicaram plenamente a própria vida à causa do Evangelho a celebrar as maravilhas que o Senhor realizou neles. Ao agradecer-vos por terdes vindo aqui tão numerosos, neste dia a vós particularmente dedicado, desejo saudar com grande afecto cada um de vós: religiosos, religiosas e pessoas consagradas, expressando-vos cordial proximidade e vivo apreço pelo bem que realizais ao serviço do Povo de Deus.
A breve leitura tirada da Carta aos Hebreus, que há pouco foi proclamada, une bem os motivos que estão na origem desta significativa e bonita celebração e oferece-nos alguns temas de reflexão. Este texto trata-se de dois versículos, mas muito densos abre a segunda parte da Carta aos Hebreus, introduzindo o tema central de Cristo sumo sacerdote. Verdadeiramente seria necessário considerar também o versículo imediatamente precedente, que diz: "Tendo, pois, um Sumo Sacerdote que penetrou nos Céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a fé que professamos" (Hb 4, 14). Este versículo mostra Jesus que sobe para o Pai; o seguinte apresenta-o enquanto desce em direcção aos homens. Cristo é apresentado como o Mediador: é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, por isso pertence realmente ao mundo divino e ao humano.
Na realidade, é precisamente e só a partir desta fé, desta profissão de fé em Jesus Cristo, o Mediador único e definitivo, que tem sentido uma vida consagrada na Igreja, uma vida consagrada a Deus mediante Cristo. Só tem sentido se Ele é verdadeiramente mediador entre Deus e nós, de outro modo tratar-se-ia apenas de uma forma de sublimação ou de evasão. Se Cristo não fosse verdadeiramente Deus, e não fosse, ao mesmo tempo, plenamente homem, faltaria o fundamento da vida cristã como tal mas, de modo totalmente particular, faltaria o fundamento de qualquer consagração cristã do homem e da mulher. De facto, a vida consagrada testemunha e exprime de modo "forte" precisamente o recíproco procurar-se de Deus e do homem, o amor que os atrai; a pessoa consagrada, pelo próprio facto de existir, representa como que uma "ponte" rumo a Deus para quantos a encontram, uma chamada, um reenvio. E tudo isto em virtude da mediação de Jesus Cristo, o Consagrado do Pai. O fundamento é Ele! Ele, que partilhou a nossa fragilidade, para que pudéssemos participar da sua natureza divina.
O nosso texto insiste, mais do que sobre a fé, sobre a "confiança" com a qual podemos aproximar-nos do "trono da graça", dado que o nosso sumo sacerdote foi Ele mesmo "posto à prova em todas as coisas como nós". Podemos aproximar-nos para "receber misericórdia", "encontrar graça", e para "ser ajudados no momento oportuno". Parece-me que estas palavras contenham uma grande verdade e ao mesmo tempo um grande conforto para nós que recebemos o dom e o compromisso de uma especial consagração na Igreja. Penso em particular em vós, queridas irmãs e irmãos. Vós aproximastes-vos com plena confiança do "trono da graça" que é Cristo, da sua Cruz, do seu Coração, da sua divina presença na Eucaristia. Cada um de vós se aproximou d'Ele como da fonte do Amor puro e fiel, um Amor tão grande e belo que merece tudo, aliás, mais que o nosso tudo, porque não é suficiente uma vida inteira para retribuir o que Cristo é e o que fez por nós. Mas vós aproximastes-vos, e todos os dias vos abeirais d'Ele, também para serdes ajudados no momento oportuno e na hora da provação.
As pessoas consagradas são chamadas de modo particular a serem testemunhas desta misericórdia do Senhor, na qual o homem encontra a própria salvação. Elas mantêm viva a experiência do perdão de Deus, porque têm a consciência de serem pessoas salvas, de serem grandes quando se reconhecem pequenas, de se sentirem renovadas e envolvidas pela santidade de Deus quando reconhecem o próprio pecado. Por isso, também para o homem de hoje, a vida consagrada permanece uma escola privilegiada da "contrição do coração", do reconhecimento humilde da própria miséria mas, de igual modo, permanece uma escola da confiança na misericórdia de Deus, no seu amor que nunca nos abandona. Na realidade, quanto mais nos aproximamos de Deus, quanto mais nos aproximamos d'Ele, tanto mais somos úteis aos outros. As pessoas consagradas experimentam a graça, a misericórdia e o perdão de Deus não só para si, mas também para os irmãos, sendo chamadas a levar no coração e na oração as angústias e as expectativas dos homens, sobretudo dos que estão distantes de Deus. Em particular, as comunidades que vivem na clausura, com o seu compromisso específico de fidelidade no "estar com o Senhor", no "estar sob a cruz", desempenham com frequência este papel vigário, unidas ao Cristo da Paixão, assumindo sobre si os sofrimentos e as provas dos outros e oferecendo com alegria todas as coisas para a salvação do mundo.
Por fim, queridos amigos, queremos elevar ao Senhor um hino de agradecimento e de louvor pela própria vida consagrada. Se ela não existisse, como seria mais pobre o mundo! Deixando de lado as avaliações superficiais de funcionalismo, a vida consagrada é importante precisamente pelo seu ser superabundância de gratuidade e de amor, o que se torna ainda mais verdadeiro num mundo que corre o risco de ficar sufocado na vertigem do efémero (cf. Exort. apost. pós-sinodal Vita consecrata, 105). A vida consagrada, ao contrário, testemunha a superabundância do amor que estimula a "perder" a própria vida, como resposta à superabundância de amor do Senhor, que foi o primeiro a "perder" a sua vida por nós. Neste momento penso nas pessoas consagradas que sentem o peso da fadiga quotidiana escassa de gratificações humanas, penso nos religiosos e nas religiosas idosos, doentes, em quantos se sentem em dificuldade no seu apostolado... Nenhum deles é inútil, porque o Senhor os associa ao "trono da graça". São ao contrário um dom precioso para a Igreja e para o mundo, sequioso de Deus e da sua Palavra.
Cheios de confiança e de reconhecimento, renovamos portanto também nós o gesto da oferta total de nós próprios apresentando-nos no Templo. O Ano sacerdotal seja uma ulterior ocasião, para os religiosos presbíteros, para intensificar o caminho de santificação e, para todos os consagrados e consagradas, um estímulo a acompanhar e apoiar o seu ministério com uma oração fervorosa. Este ano de graça terá um momento culminante em Roma, no próximo mês de Junho, no encontro internacional dos sacerdotes, para o qual convido quantos exercem o Sagrado Ministério. Aproximemo-nos do Deus três vezes Santo, para oferecer a nossa vida e a nossa missão, pessoal e comunitária, de homens e mulheres consagrados ao Reino de Deus. Cumpramos este gesto interior em profunda comunhão espiritual com a Virgem Maria: enquanto a contemplamos no acto de apresentar o Jesus Menino no Templo, venerámo-la como primeira e perfeita consagrada, levada por aquele Deus que toma nos braços; Virgem, pobre e obediente, toda dedicada a nós, porque toda de Deus. Na sua escola, e com a sua ajuda materna, renovemos o nosso "eis-me" e o nosso "fiat". Amém.
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