PONTIFÍCIA OBRA PARA AS VOCAÇÕES ECLESIÁSTICAS
NOVAS VOCAÇÕES PARA UMA NOVA EUROPA
(In verbo tuo...)
Documento final do Congresso sobre Vocações para o Sacerdócio
e a Vida Consagrada na Europa
Roma, 5-10 maio 1997
*
Preparado pelas Congregações para a Educação
Católica, para as Igrejas Orientais, para os Institutos de Vida
Consagrada, e as Sociedades de Vida Apostólica
INTRODUÇÃO
Demos graças a Deus
1. Bendito seja Deus Onipotente que abençoou a terra da Europa
com toda a bênção espiritual, em Cristo e no seu Santo Espírito
(Ef 1,3).
Nós Lhe damos graças porque, desde os inícios da era
cristã, chamou este Continente a ser centro de irradiação
da boa nova da fé, e a manifestar no mundo a sua universal paternidade.
Damos graças, porque abençoou este solo com o sangue dos mártires
e o dom de inumeráveis vocações para o sacerdócio, o
diaconato, a vida consagrada nas suas várias formas, da vida monástica
aos institutos seculares. Damos graças porque, ainda hoje, o seu Santo
Espírito não cessa de chamar os filhos desta Igreja a se fazerem
anunciadores da mensagem de salvação em todas as partes do mundo,
e ainda outros a testemunhar, na vida matrimonial e profissional, na cultura e
na política, na arte e no esporte, nas relações humanas e
de trabalho, a verdade do Evangelho que salva, cada qual segundo o dom e a missão
que recebeu. Damos-lhe graças, porque Ele é a voz que chama e
infunde a coragem da resposta, é o pastor que guia e sustenta a
fidelidade de cada dia, é caminho, verdade e vida para todos aqueles que
são chamados a realizar em si o projeto do Pai.
O Congresso Vocacional Europeu
2. Reunidos em Roma, de 05 a 10 de maio de 1997, para o Congresso sobre as
Vocações para o Sacerdócio e a Vida Consagrada na
Europa,(1) colocamos nas mãos do Dono da messe os trabalhos do Congresso
mas, sobretudo, a ansiedade da Igreja que está na Europa, neste tempo difícil
porém formidável, juntamente com a gratidão para com Deus,
fonte de toda consolação e autor de toda vocação.
Reunidos em Roma, entregamos a Maria, imagem perfeita da criatura chamada
pelo Criador, aqueles que ainda hoje Deus continua a chamar. Agora entregamos
este documento aos santos Pedro e Paulo e a todos os santos e mártires
desta e de cada cidade e Igreja européia, do passado e do presente. Que,
como no passado os mártires e os santos deram testemunho do Eterno, assim
hoje ele consiga expressar e compartilhar a riqueza que nos foi dada nos dias da
assembléia romana.
De fato, o Congresso foi um evento de graça: a partilha fraterna, o
aprofundamento doutrinal, o encontro dos vários carismas, o intercâmbio
das diversas experiências e esforços que estão sendo feitos
nas Igrejas do Leste e do Ocidente, enriqueceram a todos e a cada um.
Confirmaram, em cada participante, a vontade de continuar a trabalhar com paixão
no campo vocacional, não obstante a exigüidade dos resultados em
algumas Igrejas do Velho Continente.
A força da esperança
3. Do Documento de trabalho do Congresso às Proposições
conclusivas, do Discurso do Santo Padre aos participantes à
Mensagem para as comunidades eclesiais, das intervenções
em plenário às discussões nos grupos de estudo, das trocas
informais aos testemunhos, houve uma espécie de fio vermelho que uniu
entre si todos os atos e todos os momentos desse encontro: a esperança.
Uma esperança mais forte do que todo temor e toda dúvida, aquela
esperança que sustentou a fé dos nossos irmãos das Igrejas
do Leste, em tempos em que crer e esperar era duro e arriscado, e que agora está
sendo premiada por uma renovada floração de vocações,
conforme foi testemunhado no congresso.
Somos profundamente gratos a esses irmãos, bem como a todos os
crentes que continuam a testemunhar que a « esperança é o
segredo da vida cristã. Ela é o respiro absolutamente necessário
na linha de frente da missão da Igreja, em particular da pastoral
vocacional [...]. Portanto, é preciso recriá-la nos presbíteros,
nos educadores, nas famílias cristãs, nas famílias
religiosas, nos Institutos Seculares. Em suma, em todos aqueles que devem servir
à vida junto às novas gerações ». (2)
Escrevemos a vós, meninos, adolescentes e jovens...
4. Fortes dessa esperança nos dirigimos a vós, meninos,
adolescentes e jovens; antes de tudo para que, na escolha do vosso futuro,
saibais acolher o projeto que Deus tem sobre vós: só sereis
felizes e plenamente realizados, se vos dispuserdes a realizar o sonho do
Criador sobre a criatura. Como gostaríamos de que este escrito fosse como
uma carta endereçada a cada um de vós, em que, com a ajuda de
vossos educadores, possais sentir a solicitude da mãe-Igreja por cada um
de seus filhos, aquela solicitude toda especial que uma mãe tem por seus
filhos mais novos. Uma carta em que possais reconhecer os vossos problemas, as
interrogações que povoam o vosso jovem coração, e a
as respostas que vêm daquele que é o amigo perenemente jovem das
vossas almas, o único que pode dizer-vos a verdade! Ficai sabendo,
queridos jovens, a Igreja acompanha trépida os vossos passos e as vossas
escolhas. E como seria lindo se esta carta suscitasse em vós alguma
resposta, para um diálogo que continuasse com quem vos orienta...
... a vós, pais e educadores...
5. Ricos da mesma esperança, nos dirigimos a vós, pais,
chamados por Deus a colaborar com a sua vontade de dar a vida, e a vós,
educadores, professores, catequistas e animadores, chamados por Deus a
colaborar de muitas maneiras com o seu projeto de formar para a vida. Gostaríamos
de dizer-vos quanto a Igreja valoriza a vossa vocação, e quanto
confia nela para promover a vocação dos vossos filhos e uma
verdadeira cultura vocacional.
Vós, pais, sois também os primeiros naturais educadores
vocacionais, enquanto vós, formadores, não sois apenas instrutores
que introduzem nas escolhas existenciais: vós também sois chamados
a gerar a vida nas jovens existências que abris para o futuro. A vossa
fidelidade ao chamado de Deus é mediação preciosa e
insubstituível, para que os vossos filhos e alunos possam descobrir a sua
vocação pessoal, para que « tenham a vida e a tenham em abundância
» (Jo 10,10).
...a vós, pastores e presbíteros, consagrados e
consagradas...
6. Sempre com a esperança no coração, nos dirigimos a vós,
presbíteros, e a vós, consagrados e consagradas, na vida religiosa
e nos institutos seculares. Vós que ouvistes um chamado especial para
seguir o Senhor numa vida toda dedicada a Ele, sois também chamados
especialmente, todos sem qualquer exceção, a testemunhar a beleza
do seguimento.
Sabemos o quanto hoje é difícil esse anúncio e quanto é
fácil a tentação do desânimo quando o esforço
parece inútil. « A pastoral vocacional constitui o ministério
mais difícil e delicado ».(3) Mas gostaríamos também
de lembrar que não existe nada mais estimulante do que um testemunho tão
apaixonado da própria vocação, capaz de tornar-se
contagioso. Nada é mais lógico e coerente do que uma vocação
que gera outras vocações e, com todo direito, vos torna «
pais » e « mães ». Com este escrito, gostaríamos
de nos dirigir, de modo especial, não só a quem tem um encargo
explícito na promoção vocacional, mas também àqueles
que entre vós não estão empenhados diretamente nela, ou a
quem acha que não tem nenhuma obrigação nessa linha.
A esses gostaríamos de lembrar que somente um testemunho coral torna
eficaz a animação vocacional, e que, antes de tudo, a assim
chamada crise vocacional depende do ?escondimento' de algumas testemunhas, o que
enfraquece a mensagem. Numa Igreja toda vocacional, todos são
animadores vocacionais. Então, felizes de vós se souberdes
dizer, com a vossa vida, que é belo e gratificante servir a Deus, e
revelar que nele, o Vivente, se esconde a identidade de cada vivente (cf Col
3,3).
... a todo o povo de Deus que está na Europa
7. Por fim, gostaríamos de ser « samaritanos da esperança
» para aqueles irmãos e irmãs com os quais compartilhamos as
dificuldades do caminho. Quereríamos dirigir a mesma mensagem de esperança
a todo o povo de Deus, peregrinante nesta terra antiga e abençoada, nas
Igrejas do Leste e do Ocidente. Daqui, há muito tempo, graças à
coragem de muitos evangelizadores que pagaram até com o próprio
sangue o seu testemunho, se difundiu o anúncio da boa notícia. Nós
queremos acreditar que, ainda hoje, o Espírito do Pai chama.
Ele envia pelas estradas do mundo os filhos desta terra generosa de raízes
cristãs, mas ela mesma necessitada de nova evangelização e
de novos evangelizadores. Então, também nós nos
apresentamos ao Senhor, como os Apóstolos, com a consciência da
nossa pobreza e das necessidades desta Igreja: « Mestre, trabalhamos a
noite inteira e não apanhamos nada » (Lc 5,5). Mas,
sobretudo « por causa da sua palavra », queremos crer e esperar que,
como então, ainda hoje o Senhor pode encher as barcas de seus apóstolos
com uma pesca milagrosa, e transformar cada crente num pescador de homens.
Do Congresso à vida
8. Portanto, o escopo do presente documento é compartilhar com todos
vós o evento de graça que foi o Congresso. Sem a pretensão
de fazer dele uma síntese acurada, nem presumir de expor um tratado
sistemático sobre a vocação, fraternalmente quereríamos
colocar à disposição de toda a Igreja que está na
Europa e fora da Europa, nas suas várias denominações cristãs,
os frutos mais significativos do Congresso.
O estilo procurará exprimir, da melhor forma possível, a
vontade de fazer-nos entender por todos, porque todos, indistintamente, são
chamados a realizar a própria vocação e a promover a de
quem está próximo deles.
Sobretudo, terá como empenho conjugar entre si reflexão teológica
e práxis pastoral, proposta teórica e indicação
pedagógica, para oferecer, a quantos atuam na animação
vocacional, uma ajuda concreta e prática.
Não temos nenhuma pretensão de dizer tudo, não só
para não repetir o que outros documentos já disseram de forma
excelente a esse respeito,(4) mas para permanecer abertos ao mistério, àquele
mistério que envolve a vida e o chamado de todo ser humano, àquele
mistério que é também o caminho de discernimento vocacional
e que se completará somente no momento da morte. A pastoral
vocacional é mistagógica e, portanto, parte do Mistério (de
Deus) para reconduzir ao mistério (do homem), ou não existe.
As partes do documento
9. Concretamente este texto segue a lógica que orientou os trabalhos
do Congresso: do concreto da existência à reflexão, para
voltar ainda ao concreto existencial. É com a realidade de cada dia que a
pastoral vocacional deve se medir, precisamente porque é pastoral em função
e a serviço da vida. Por conseguinte, partiremos com uma tentativa de
levantamento da situação, para depois analisar o tema da vocação
do ponto de vista teológico, e, portanto, dar uma fundamentação,
uma indispensável estrutura a todo o discurso que se segue.
Nesse ponto, começa a parte mais aplicativa: antes de tudo, de tipo
pastoral, ou de grandes estratégias de atuação, e
depois, de tipo mais pedagógico. Será útil para
identificar ao menos algumas pistas orientadoras no nível do método
e da práxis quotidiana. E talvez seja justamente esse aspecto o mais
carente e o mais esperado pelos agentes de pastoral.
PRIMEIRA PARTE
A SITUAÇÃO VOCACIONAL EUROPÉIA, HOJE
«A Messe é grande mas os operários são
poucos » (Mt 9,37)
Esta primeira parte constitui um olhar sapiencial sobre a Europa, na
consciência da sua complexidade cultural, em que parece predominar um
modelo antropológico de « homem sem vocação ». A
nova evangelização deve reanunciar o sentido forte da vida como «
vocação », no seu fundamental apelo à santidade,
recriando uma cultura favorável às diversas vocações
e apta a promover na pastoral vocacional um verdadeiro salto de qualidade.
« Novas vocações para uma nova Europa »
10. O tema do Congresso (« Novas vocações para uma nova
Europa ») vai diretamente ao coração do problema: hoje, numa
Europa nova em relação ao passado, são necessárias
vocações « novas » também. É preciso
justificar a afirmação para que se entenda o sentido dessa
novidade, e perceber a relação com a pastoral « tradicional »
das vocações para o sacerdócio e a vida consagrada. Por
isso, não nos contentaremos com fotografar a situação e
enumerar dados, mas procuraremos perceber em que direção vai a
novidade e a necessidade de vocações que provém dela.
Ao mesmo tempo, leremos a situação que se configura no
presente, a partir da expressão de Jesus diante da missão que o
esperava: « A messe é grande, mas os operários são
poucos » (Mt 9,37). Essas palavras continuam sendo verdadeiras e
constituem uma preciosa chave de leitura da atualidade. De certo modo,
encontramos nelas a medida certa da nossa ação e a justa proporção
(ou desproporção) entre uma messe que será sempre excedente
e as nossas forças. Longe de toda interpretação pessimista
do hoje, como também de toda pretensão de auto-suficiência
para o amanhã.
Nova Europa
11. O Documento de Trabalho já havia oferecido um quadro da
situação européia, no que diz respeito à problemática
vocacional, fortemente marcado por elementos de novidade. Aqui, nós
apenas os reassumimos, segundo a análise que o mesmo Congresso fez deles,
procurando colher os mais significativos, destinados a condicionar nos tempos
longos mentalidade e sensibilidade juvenis e, portanto, também práxis
pastorais e estratégias vocacionais.
a) Uma Europa diversificada e complexa
Antes de tudo, aparece um dado incontestável: é praticamente
impossível definir de modo unívoco e estático a situação
européia, no que concerne à condição juvenil e os
inevitáveis reflexos vocacionais. Estamos diante de uma Europa
diversificada, que se tornou assim devido às diversas vicissitudes
histórico-políticas (ex. a diferença entre Leste e
Ocidente), mas também pela pluralidade de tradições e
culturas (greco-latina, anglo-saxônica e eslava).
Todavia, elas constituem também a sua riqueza e tornam
significativas, em diferentes contextos, experiências e escolhas. Assim,
se nos países da vertente oriental se percebe o problema de como
administrar a liberdade recuperada, nos do ocidente as pessoas se questionam
sobre como viver a liberdade autêntica.
Tal heterogeneidade se confirma também pelo andamento das vocações
ao sacerdócio e à vida consagrada, não apenas pela diferença
evidente entre o florescimento vocacional da Europa oriental e a crise geral que
perpassa o Ocidente, mas porque, dentro de tal crise, também há
sinais de retomada vocacional, particularmente naquelas Igrejas em que o
trabalho pós-conciliar assíduo e constante abriu um sulco profundo
e eficaz. (5)
Portanto, se no Oriente é preciso iniciar uma verdadeira pastoral orgânica
a serviço da promoção vocacional, sobretudo da animação
à formação das vocações, no Ocidente é
indispensável uma atenção diferente. É preciso
questionar a real consistência teológica e a linearidade aplicativa
de certos projetos vocacionais, o conceito de vocação que está
na base deles, e o tipo de vocações que daí derivam. No
Congresso perguntou-se, insistentemente: « Por que determinadas teologias
ou práxis pastorais não produzem vocações, enquanto
outras produzem? ». (6)
Um outro aspecto caracteriza a atualidade sócio-cultural européia:
o excesso de possibilidades, de ocasiões, de solicitações,
perante a carência de enfoques, de propositividade, de projetualidade. É
como um contraste ulterior que aumenta o grau de complexidade desta época
histórica, com repercussões negativas no plano vocacional. Como a
Roma antiga, a Europa moderna parece semelhante a um pantheon, a um
grande « templo » em que todas as « divindades » estão
presentes, ou em que todo « valor » tem seu lugar e seu nicho.
« Valores » diversos e contrastantes estão copresentes e
coexistentes, sem uma hierarquização exata; códigos de
leitura e de avaliação, de orientação e de
comportamento completamente desiguais entre si.
Em tal contexto, fica difícil ter uma concepção ou uma
visão unitária do mundo, e portanto, também se torna fraca
a capacidade projetual da vida. De fato, quando uma cultura não
define mais as supremas possibilidades de significado, ou não consegue
criar convergência em torno de alguns valores como particularmente capazes
de dar sentido à vida, mas coloca tudo no mesmo plano, cai toda a
possibilidade de escolha projetual, e tudo se torna indiferente e nivelado.
b) Os jovens e a Europa
Os jovens europeus vivem nesta cultura pluralista e ambivalente, «
politeísta » e neutra. Por um lado, procuram apaixonadamente
autenticidade, afeto, relacionamentos pessoais, vastidão de horizontes;
por outro, estão fundamentalmente sozinhos, « feridos » pelo
bem-estar, desiludidos das ideologias, confusos por causa da desorientação
ética.
E mais: « em várias partes do mundo juvenil emerge uma clara
simpatia pela vida, entendida como valor absoluto, sagrado... »; (7) mas
freqüentemente, em muitos locais da Europa, tal abertura em relação
à existência é desmentida por políticas não
respeitosas do próprio direito à vida, sobretudo dos mais fracos.
Políticas que correm o risco de tornar o « Velho Continente »
sempre mais velho. Portanto, se por um lado esses jovens são um capital
notável para a Europa de hoje, que investe fortemente para construir o
futuro deles, do outro nem sempre as expectativas juvenis são
coerentemente atendidas pelo mundo dos adultos ou dos responsáveis pela
sociedade civil.
De qualquer modo, para entender a atitude juvenil hodierna, dois aspectos
nos parecem centrais: a reivindicação da subjetividade e o
desejo de liberdade. São duas instâncias dignas de atenção
e tipicamente humanas. Todavia, muitas vezes numa cultura frágil e
complexa como a atual, se se encontram dão lugar a combinações
que lhes deformam o sentido: a subjetividade se torna subjetivismo,
enquanto a liberdade degenera em arbítrio.
Num tal contexto, merece atenção a relação que
os jovens europeus mantêm com a Igreja. Em uma das suas Proposições
conclusivas, o Congresso destaca, com realismo e coragem: « Com freqüência
os jovens não vêem na Igreja o objeto da sua busca e o lugar de
resposta às suas perguntas e expectativas. Releva-se que o problema não
é Deus, mas a Igreja. A Igreja tem consciência da dificuldade de se
comunicar com os jovens, da carência de verdadeiros projetos pastorais...,
da fragilidade teológico-antropológica de certas catequeses. Da
parte de muitos jovens perdura o temor de que uma experiência na Igreja
limite a sua liberdade », (8) ao passo que da parte de muitos outros, a
Igreja continua sendo, ou está se tornando o ponto de referência
mais respeitável.
c) « Homem sem vocação »
Esse jogo de contrastes se reflete, inevitavelmente no plano da projetação
do futuro que por parte dos jovens é visto numa ótica
conseqüente, limitada à própria visão, em função
de interesses estritamente pessoais (a auto-realização).
É uma lógica que reduz o futuro à escolha de uma
profissão, à garantia econômica, ou à satisfação
sentimental-emotiva, dentro de horizontes que, de fato, reduzem o desejo de
liberdade e a possibilidade do sujeito a projetos limitados, na ilusão de
ser livre.
São escolhas sem nenhuma abertura ao mistério e ao
transcendente e, talvez, também com escassa sensibilidade em relação
à vida, própria e dos outros, da vida recebida como dom e a ser
gerada nos outros. Em outras palavras, é uma sensibilidade e mentalidade
que corre o risco de delinear um tipo de cultura antivocacional.
Equivale a dizer que, na Europa culturalmente complexa e sem pontos de referência
bem precisos, semelhante a um grande pantheon, o modelo antropológico
que prevalece parece ser o do « homem sem vocação ».
Esta seria uma descrição possível: « Uma cultura
pluralista e complexa tende a produzir jovens com uma identidade incompleta e
fraca, com a conseqüente indecisão crônica diante da escolha
vocacional. Muitos jovens não dominam nem mesmo a « gramática
elementar » da existência; são nômades: circulam, sem se
firmar em nível geográfico, afetivo, cultural, religioso, eles «
vão tentando »! Em meio à grande quantidade e diversidade das
informações, mas com pobreza de formação, mostram-se
dispersos, com poucas referências e poucos referenciais. Por isso têm
medo do futuro, sentem-se ansiosos diante de compromissos definitivos, e se
questionam a respeito do seu ser. Se, por um lado, a qualquer custo buscam
autonomia e independência, por outro, como refúgio, tendem a ser
muito dependentes do ambiente sócio-cultural e a procurar a satisfação
imediata dos sentidos: daquilo que « me agrada », daquilo que «
faz com que eu me sinta bem », num mundo afetivo feito sob medida ».
(9)
É uma tristeza encontrar jovens, embora inteligentes e bem dotados,
nos quais parece apagada a vontade de viver, de acreditar em alguma coisa, de
tender para grandes objetivos, de esperar num mundo que, graças a seus
esforços, pode se tornar melhor. São jovens que parecem sentir-se
supérfluos no jogo ou no drama da vida, quase demissionários
em relação a ela, meio perdidos ao longo de caminhos
interrompidos, e reduzidos aos níveis mínimos da tensão
vital. Sem vocação, mas também sem futuro, ou com um futuro
que, no máximo, será uma fotocópia do presente.
d) A vocação da Europa
No entanto, esta Europa de muitas almas e de cultura tão fraca (mas
que, todavia, muitas vezes se impõe pela força) mostra ter
energias insuspeitadas, está mais viva do que nunca, e chamada a
desempenhar um papel importante no contexto mundial.
Jamais como neste tempo, o Velho Continente, embora mostrando ainda as
feridas de conflitos recentes e de contraposições internas,
inclusive violentas, percebeu o forte chamado à unidade. Uma
unidade que ainda precisa ser construída, embora certos muros tenham caído,
e que deverá estender-se a toda a Europa e a quem lhe pede hospitalidade
e acolhimento. Unidade que não poderá ser apenas política
ou econômica, mas também, e antes de tudo, espiritual e moral.
Unidade, ainda, que terá de superar velhos rancores e antigas desconfianças
e que, justamente nas raízes primitivas, poderia encontrar um motivo de
convergência e uma garantia de entendimento. Unidade que caberá
especialmente à atual geração juvenil realizar e tornar sólida
e completa, do Ocidente a Leste, de Norte a Sul, defendendo-a de toda tentação
contrária de isolamento e de fechamento em seus próprios
interesses, e propondo-a ao mundo inteiro como exemplo de serena convivência
na diversidade.
Esses jovens serão capazes de assumir tal responsabilidade?
Se é verdade que o jovem de hoje corre o risco de estar desorientado
e de se encontrar sem um ponto exato de referência, a « nova Europa »
que está nascendo talvez pudesse se tornar uma meta, e oferecer um estímulo
adequado a jovens que, na realidade, « sentem a nostalgia da liberdade e
buscam a verdade, a espiritualidade, a autenticidade, a própria
originalidade pessoal e a transparência, que têm desejo de amizade e
de reciprocidade », que buscam « companhia » e querem «
construir uma nova sociedade, fundada sobre valores como a paz, a justiça,
o respeito ao ambiente, a atenção à diversidade, a
solidariedade, o voluntariado e a igual dignidade da mulher ». (10)
Em última análise, as pesquisas mais recentes descrevem os
jovens europeus como meio perdidos, mas não desesperados; impregnados de
relativismo ético, mas também desejosos de viver uma « vida
boa »; conscientes da própria necessidade de salvação,
embora não saibam onde encontrá-la.
Provavelmente, o problema mais grave deles é a sociedade eticamente
neutra na qual lhes calhou viver; mas os recursos não se apagaram neles.
Especialmente num tempo, como o nosso, de transição para novas
metas. Prova disso são os muitos jovens animados por uma sincera busca de
espiritualidade e corajosamente empenhados no social, confiantes em si mesmos e
nos outros, e distribuidores de esperança e de otimismo.
Nós acreditamos que, apesar das contradições e do «
peso » de um certo ambiente cultural, esses jovens possam construir essa
nova Europa. Na vocação de sua mãe-terra se vislumbra também
a vocação pessoal deles.
Nova evangelização
12. Tudo isso abre novos caminhos e pede novo impulso ao processo de
evangelização da velha e nova Europa. Faz tempo que a Igreja e o
atual Pontífice vêm pedindo uma profunda renovação
dos conteúdos e dos métodos do anúncio do Evangelho, «
para tornar a Igreja do século XX sempre mais idônea para anunciar
o evangelho à humanidade do século XXI ». (11) E, como o
Congresso nos lembrou, « não se deve ter medo de estar num período
de passagem de uma margem para outra ». (12)
a) O « semper » e o « novum »
Trata-se de conjugar o « semper » e o « novum » do
evangelho, para oferecê-lo às novas interrogações e
condições do homem e da mulher de hoje. Portanto, é urgente
repropor o coração ou o centro do querigma como « notícia
perenemente boa », rica de vida e de sentido para o jovem que vive na
Europa, como anúncio capaz de responder às suas expectativas e de
iluminar a sua busca.
Especialmente em torno desses pontos concentram-se a tensão e o
desafio. Daqui dependem a imagem de homem que se quer realizar, e as grandes
decisões da vida, do futuro da pessoa e da humanidade: do significado da
liberdade, da relação entre subjetividade e objetividade, do mistério
da vida e da morte, do amar e do sofrer, do trabalho e da festa.
É preciso esclarecer a relação entre práxis e
verdade, entre instante histórico pessoal e futuro definitivo universal,
ou entre bem recebido e bem doado, entre consciência do dom e escolha de
vida. Nós sabemos que é precisamente ao redor desses pontos que se
concentra também uma certa crise de significado, da qual derivam uma
cultura antivocacional e uma imagem de homem sem vocação.
Portanto, daqui deve partir ou deve vir dar aqui o caminho da nova
evangelização, para evangelizar a vida e o significado da vida, a
exigência de liberdade e de subjetividade, o sentido da própria
presença no mundo e do relacionamento com os outros.
Daqui poderá emergir uma cultura vocacional e um modelo de homem
aberto ao chamado. Para que, a uma Europa que vai redesenhando em profundidade a
sua fisionomia, não venha a faltar a boa nova da páscoa do Senhor,
em cujo sangue os povos dispersos se reuniram e os distantes se tornaram próximos,
abatendo o muro de inimizade que os separava » (Ef 2,14). Ou
melhor, podemos dizer que a vocação é o próprio
coração da nova evangelização, no limiar do terceiro
milênio, é o apelo de Deus ao homem para uma nova fase de vida
e liberdade, e para uma refundação ética da cultura e da
sociedade européia.
b) Nova santidade
Nesse processo de inculturação da boa nova, a Palavra de Deus
se torna companheira de viagem do homem e cruza com ele ao longo dos caminhos
para revelar-lhe o projeto do Pai, como condição de sua
felicidade. E é exatamente a Palavra tirada da carta de Paulo aos cristãos
da Igreja de Éfeso que hoje nos conduz também a nós, povo
de Deus na Europa, a descobrir o que talvez não seja imediatamente visível,
mas que é evento, é dom, é vida nova: « Portanto, vós
não sois mais estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos
dos santos e membros da família de Deus » (Ef 2,19).
Evidentemente, não é palavra nova, mas é palavra que
nos faz olhar de modo novo a realidade da Igreja do Velho Continente, que nada
tem a ver com « igreja velha ». Ela é comunidade de crentes
chamados à « juventude da santidade », à vocação
universal à santidade, sublinhada com força pelo Concílio
(13) e repetida em várias circunstâncias pelo Magistério
sucessivo.
Agora é tempo de que aquele apelo retome força e atinja cada
crente, para que cada qual tenha « condição de compreender
com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a
profundidade » (Ef 3,18) do mistério de graça
confiado à própria vida.
Já é tempo de que aquele apelo suscite novos projetos de
santidade, porque a Europa precisa sobretudo daquela santidade especial que o
momento presente exige, por isso original e, de certo modo, sem precedentes.
São necessárias pessoas capazes de « lançar
pontes » para unir sempre mais as Igrejas e os povos da Europa, e para
reconciliar os ânimos.
São necessários « pais » e « mães
» abertos à vida e ao dom da vida; esposos e esposas que
testemunhem e celebrem a beleza do amor humano abençoado por Deus;
pessoas capazes de diálogo e de « caridade cultural », para
a transmissão da mensagem cristã, mediante as linguagens da nossa
sociedade; profissionais e pessoas simples, capazes de imprimir a
transparência da verdade e a intensidade da caridade cristã ao
compromisso na vida civil e às relações de trabalho e de
amizade; mulheres que redescubram na fé cristã a
possibilidade de viver plenamente o seu gênio feminino; presbíteros
de coração grande, como o do Bom Pastor; diáconos
permanentes que anunciem a Palavra e a liberdade do serviço aos mais
pobres; apóstolos consagrados capazes de se imergirem no mundo e
na história com coração contemplativo, e místicos
tão familiarizados com o mistério de Deus, que saibam celebrar a
experiência do divino e apontar Deus presente no vivo da ação.
A Europa precisa de novos confessores da fé e da beleza de
crer, de testemunhas que sejam crentes credíveis, corajosos
até o sangue, de virgens que não sejam tais apenas para si
mesmos, mas que saibam indicar a todos aquela virgindade que está no coração
de cada um e que leva imediatamente ao Eterno, fonte de todo amor.
A nossa terra é ávida não só de pessoas santas,
mas de comunidades santas, tão enamoradas da Igreja e do mundo,
que saibam apresentar ao próprio mundo uma Igreja livre, aberta, dinâmica,
presente na história hodierna, próxima dos sofrimentos do povo,
acolhedora para com todos, promotora da justiça, atenta aos pobres, não
preocupada com sua minoria numérica nem em colocar marcos divisórios
à própria ação, não apavorada pelo clima de
descristianização social (real, mas talvez não tão
radical e geral), nem pela escassez (muitas vezes só aparente) dos
resultados.
Será essa a nova santidade capaz de reevangelizar a Europa e de
construir a nova Europa!
Novas vocações
13. Então se impõe um discurso novo sobre a vocação
e as vocações, sobre a cultura e sobre a pastoral vocacional. O
Congresso entendeu assumir uma certa sensibilidade, a esta altura amplamente
difundida a respeito desses temas, propondo no entanto, ao mesmo tempo, um
?estremecimento' capaz de abrir novas estações nas nossas Igrejas ».(14)
a) Vocação e vocações
Como a santidade é para todos os batizados em Cristo, assim existe
uma vocação específica para cada vivente; e, como a
primeira tem suas raízes no Batismo, assim a segunda se liga ao simples
fato de existir. A vocação é o pensamento providente do
Criador sobre cada criatura, é a sua idéia-projeto, como um sonho
muito querido por Deus, porque a criatura é muito querida por Ele.
Deus-Pai o quer diferente e específico para cada vivente.
De fato, o ser humano é « chamado » à vida e, como
vem à vida, traz e encontra em si a imagem daquele que o chamou.
Vocação é a proposta divina de realizar-se segundo essa
imagem, e é única-singular-irrepetível, justamente porque
tal imagem é inexaurível. Cada criatura diz e é chamada a
exprimir um aspecto particular do pensamento de Deus. Ali encontra seu nome e
sua identidade; afirma e coloca em segurança a sua liberdade e
originalidade.
Portanto, se todo ser humano, desde o nascimento, tem a própria vocação,
existem na Igreja e no mundo várias vocações que, enquanto
num plano teológico exprimem a semelhança divina impressa no
homem, em nível pastoral-eclesial respondem às várias exigências
da nova evangelização, enriquecendo a dinâmica e a comunhão
eclesial: « A Igreja particular é como um jardim florido, com grande
variedade de dons e carismas, movimentos e ministérios. Daqui a importância
do testemunho de comunhão entre si, abandonando todo espírito de «
concorrência ».(15)
Antes, foi dito explicitamente no Congresso « Há necessidade de
abertura a novos carismas e ministérios, talvez diferentes dos
costumeiros. A valorização e o lugar do laicato é um sinal
dos tempos que em parte ainda está por se descobrir. Ele está se
revelando sempre mais frutuoso ». (16)
b) Cultura da vocação
Esses elementos estão penetrando progressivamente na consciência
dos crentes, mas não ainda a ponto de criar uma verdadeira cultura
vocacional, (17) capaz de ultrapassar os limites da comunidade crente. Por
isso, no seu Discurso aos participantes do Congresso, o Santo Padre faz
votos de que a constante e paciente atenção da comunidade cristã
ao mistério do divino chamado promova uma « nova cultura
vocacional » nos jovens e nas famílias ». (18)
Ela é uma componente da nova evangelização. É
cultura da vida e da abertura para a vida, do significado do viver, mas também
do morrer.
Refere-se, em particular, a valores talvez um pouco esquecidos por certa
mentalidade emergente (segundo alguns « cultura de morte »), como a
gratidão, o acolhimento do mistério, o sentido da incompletitude
do homem e, junto, da sua abertura ao transcendente, a disponibilidade a se
deixar chamar por um outro (ou por um Outro) e interpelar pela vida, a confiança
em si e no próximo, a liberdade de se comover diante do dom recebido,
diante do afeto, da compreensão, do perdão, descobrindo que aquilo
que se recebeu é sempre imerecido e excede à própria
medida, e fonte de responsabilidade para com a vida.
Também faz parte dessa cultura vocacional a capacidade de sonhar e
desejar grande, aquela admiração embevecida que permite apreciar a
beleza e escolhê-la pelo seu valor intrínseco, porque torna a vida
bonita e verdadeira, aquele altruísmo que não é somente
solidariedade de emergência, mas que nasce da descoberta da dignidade de
qualquer irmão.
É preciso que à cultura da distração, que corre
o risco de perder de vista e de anular os sérios questionamentos no acúmulo
das palavras, se oponha uma cultura capaz de encontrar coragem e gosto pelas
grandes perguntas, aquelas relativas ao próprio futuro: de fato, são
as grandes perguntas que tornam grandes até as pequenas respostas.
Mas, depois, são as respostas pequenas e quotidianas que provocam as
grandes decisões, como a da fé; ou que criam cultura, como a da
vocação.
Em todo caso, a cultura vocacional, enquanto complexo de valores, deve
passar da consciência eclesial à consciência civil, da
conscientização do indivíduo ou da comunidade crente à
convicção universal de não poder construir sobre um modelo
de homem sem vocação, nenhum futuro para a Europa dos anos dois
mil. O Papa continua: « A difícil situação que
atravessa o mundo juvenil revela, também nas novas gerações,
insistentes perguntas sobre o significado da existência, confirmando o
fato de que nada e ninguém pode sufocar no homem a busca de sentido
e o desejo de verdade. Para muitos, é esse o terreno em que se coloca a
busca vocacional ». (19)
Essa pergunta e esse desejo fazem nascer uma autêntica cultura da vocação;
e, se pergunta e desejo estão no coração de todo homem,
inclusive de quem nega isso, então essa cultura poderia se tornar uma espécie
de terreno comum, onde a consciência crente encontra a consciência
laica e com ela se confunde. A ela dará, com generosidade e transparência,
aquela sabedoria que recebeu do Alto.
Assim, essa nova cultura passaria a ser verdadeiro terreno de nova
evangelização, onde poderia nascer um novo modelo de homem e
poderiam florescer também nova santidade e novas vocações
para a Europa do ano dois mil. De fato, a penúria das vocações
específicas as vocações no plural é
sobretudo ausência de cultura da vocação.
Provavelmente, hoje essa cultura se torna o primeiro objetivo da pastoral
vocacional, (20) ou talvez, da pastoral em geral. Realmente, que tipo de
pastoral é aquela que não cultiva a liberdade de sentir-se
chamados por Deus, nem faz nascer novidade de vida?
c) Pastoral das vocações: o « salto de qualidade »
Há um outro elemento que liga entre si a reflexão pré-congressual
e a análise congressual. É a conscientização de que
a pastoral das vocações se encontra diante da exigência de
uma mudança radical, de um « sobressalto idôneo »,
segundo o documento preparatório (21) ou de « um salto de qualidade »,
como o Papa recomendou na sua Mensagem no encerramento do Congresso. (22)
Mais uma vez nos vemos diante de uma convergência evidente e que
deve ser entendida no seu autêntico significado, nesta análise da
situação que estamos propondo.
Não se trata apenas de um convite a reagir a uma sensação
de cansaço ou de desânimo por causa dos poucos resultados; nem se
entende com essas palavras levar a renovar simplesmente certos métodos ou
a recuperar energia e entusiasmo, mas em substância, se deseja indicar que
a pastoral vocacional na Europa chegou a um desdobramento histórico, a
uma passagem decisiva. Houve uma história, com uma pré-história
e depois algumas fases que se sucederam lentamente, ao longo destes anos, como
estações naturais, e que agora devem necessariamente caminhar para
o estado « adulto » e maduro da pastoral vocacional.
Portanto, não se trata nem de menosprezar o sentido dessa passagem,
nem de culpar alguém por aquilo que não teria sido feito no
passado; antes, o nosso sentimento e o de toda a Igreja é de sincero
reconhecimento para com aqueles irmãos e irmãs que, em condições
de notável dificuldade, ajudaram generosamente muitos meninosas e jovens
e procurar e encontrar a própria vocação. Mas, em todo
caso, trata-se de compreender mais uma vez a direção que Deus, o
Senhor da História, está imprimindo à nossa história,
como também à rica história das vocações na
Europa, que está hoje diante de uma encruzilhada decisiva.
Se a pastoral das vocações nasceu como emergência
ligada a uma situação de crise e de indigência vocacional,
hoje não se pode mais ser pensada com a mesma precariedade e motivada por
uma conjuntura negativa, mas pelo contrário aparece como
expressão estável e coerente da maternidade da Igreja, aberta ao
irrefreável plano de Deus, que nela sempre gera vida;
se em certa época a promoção vocacional se
referia somente ou sobretudo a algumas vocações, agora deveria
tender sempre mais para a promoção de todas as vocações,
porque na Igreja do Senhor, ou se cresce junto ou ninguém cresce;
se, nos seus inícios, a pastoral vocacional cuidava de
circunscrever seu campo de atuação a algumas categorias de pessoas
(« os nossos », aqueles mais chegados aos ambientes de Igreja, ou
aqueles que logo se mostravam interessados, os melhores e merecedores, aqueles
que já haviam feito uma opção de fé, e assim por
diante), agora cada vez mais se percebe a necessidade de, pelo menos em teoria,
estender corajosamente a todos o anúncio e a proposta
vocacional, em nome daquele Deus que não tem preferências pessoais,
que escolhe pecadores num povo de pecadores, que faz de Amós, que não
era filho de profetas, mas somente coletor de sicômoros, um profeta, que
chama Levi e vai à casa de Zaqueu, e é capaz de fazer surgir até
das pedras filhos de Abraão (cf Mt 3,9);
se antes a atividade vocacional em boa parte nascia do medo (da extinção
ou de menor valia) e da pretensão de manter determinados níveis de
presenças ou de obras, agora o medo, que é sempre péssimo
conselheiro, cede lugar à esperança cristã, que
nasce da fé e se projeta rumo à novidade e ao futuro de Deus;
se uma certa animação vocacional é, ou era,
perenemente incerta e tímida, de forma a parecer quase em condição
de inferioridade em relação a uma cultura antivocacional, hoje só
faz verdadeira promoção vocacional quem é animado pela certeza
de que em toda pessoa, sem exclusão de ninguém, existe um dom de
Deus que espera ser descoberto;
se, no passado, o objetivo parecia ser o recrutamento, e a propaganda
o método, muitas vezes com resultados forçados sobre a liberdade
do indivíduo, ou com episódios de « concorrência »,
agora deve ficar sempre mais claro que o escopo é o serviço a
prestar à pessoa, para que saiba discernir o projeto de Deus na
sua vida para a edificação da Igreja, e nele reconheça e
realize a sua própria verdade; (23)
se, numa época não muito distante, havia quem se iludia
de resolver a crise vocacional com escolhas discutíveis, por exemplo «
importando vocações » de outros lugares (muitas vezes
desenraizando-as do seu ambiente), hoje ninguém deve se iludir de
resolver assim a crise vocacional, porque o Senhor continua a chamar em toda
Igreja e em todo lugar;
e assim, na mesma linha, o « cireneu vocacional », cheio de
boa vontade e muitas vezes solitário improvisador, deveria sempre mais
passar de uma animação feita de iniciativas episódicas a
uma educação vocacional que se inspire na sabedoria de um método
comprovado de acompanhamento, para poder dar uma ajuda apropriada a quem está
em busca;
conseqüentemente, o mesmo animador vocacional deveria se tornar
sempre mais educador para a fé e formador de vocações,
e a animação vocacional se tornar sempre mais ação
coral, (24) de toda a comunidade, religiosa ou paroquial, de todo o
instituto ou de toda a diocese, de cada presbítero ou consagradoa ou
crente, e para todas as vocações em cada fase da vida;
por fim, é hora de passar decididamente da « patologia do
cansaço » (25) e do conformismo, que se justifica atribuindo à
atual geração juvenil a causa única da crise vocacional, à
coragem de fazer os questionamentos certos, para entender os eventuais erros e
falhas, para chegar a um novo impulso criativo, fervente de testemunho.
d) Pequeno rebanho e grande missão (26)
Será a coerência com que se vai adiante nessa linha que irá
ajudar sempre mais a descobrir a dignidade da pastoral vocacional e a sua
natural posição de centralidade e síntese no âmbito
pastoral.
Aqui também vimos de experiências e concepções
que correram o risco de, no passado, marginalizar de certa forma a mesma
pastoral das vocações, considerando-a como menos importante. Às
vezes ela apresenta uma fisionomia não vitoriosa da Igreja atual, ou é
considerada como um setor da pastoral menos fundado teologicamente em relação
a outros, produto recente de uma situação crítica e
contingente.
Talvez a pastoral vocacional esteja ainda vivendo numa situação
de inferioridade, que de um lado pode prejudicar a sua imagem e, indiretamente,
a eficácia da sua ação, mas por outro pode também se
tornar um contexto favorável para identificar e experimentar, com
criatividade e liberdade inclusive liberdade de errar novos
caminhos pastorais.
Sobretudo, tal situação pode recordar aquela outra «
inferioridade » ou pobreza de que falava Jesus, ao observar as multidões
que o seguiam: « A messe é grande, mas os operários são
poucos » (Mt 9,37). Diante da messe do reino de Deus, diante da
messe da nova Europa e da nova evangelização, os « operários
» são e sempre serão poucos, « pequeno rebanho e grande
missão », para que se evidencie melhor que a vocação é
iniciativa de Deus, dom do Pai, Filho e Espírito Santo.
SEGUNDA PARTE
TEOLOGIA DA VOCAÇÃO
« Há diversidades de dons, mas um só Espírito
... » (1 Cor 12,4)
O escopo fundamental desta parte teológica é fazer
perceber o sentido da vida humana em relação a Deus, comunhão
trinitária. O mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo
fundamenta a existência plena do homem, como chamado ao amor no dom de si
e na santidade; como dom na Igreja, para o mundo. Toda antropologia desligada de
Deus é ilusória.
Trata-se agora de captar os elementos estruturais da vocação
cristã, a sua arquitetura essencial que, evidentemente, não pode
deixar de ser teológica. Essa realidade, que já foi objeto de
muitas análises também do Magistério, é rica de uma
tradição espiritual, bíblico-teológica, que não
só formou gerações de chamados, mas também uma
espiritualidade do chamado.
A busca de sentido para a vida
14. Na escola da Palavra de Deus, a comunidade cristã acolhe a
resposta mais alta à busca de sentido que, mais ou menos claramente,
surge no coração do homem. É uma resposta que não
vem da razão humana, embora sempre dramaticamente provocada pelo problema
do existir e do seu destino, mas vem de Deus. É Ele mesmo que entrega ao
homem a chave de leitura, para esclarecer e resolver os grandes questionamentos
que fazem do homem um sujeito interrogador: « Por que estamos no mundo? O
que é a vida? Qual é o ponto de chegada, além do mistério
da morte? ».
Porém não se deve esquecer que, na cultura da distração
em que se acham mergulhados sobretudo os jovens deste tempo, as perguntas
fundamentais correm o risco de serem sufocadas ou removidas. Hoje, o sentido da
vida, mais do que procurado, é imposto: ou por aquilo que se vive no
imediato ou por aquilo que gratifica as necessidades; satisfeitos esses, a
consciência se torna sempre mais obtusa e os questionamentos mais
verdadeiros ficam frustrados.(27)
Por isso, é dever da teologia pastoral e do acompanhamento espiritual
ajudar os jovens a interrogar a vida, para chegarem a formular, no diálogo
decisivo com Deus, a mesma pergunta de Maria de Nazaré: « Como é
possível? » (Lc 1,34).
O ícone trinitário
15. Na escuta da Palavra, descobrimos estupefatos que a
categoria bíblico-teológica mais compreensível e mais
adequada para exprimir o mistério da vida, à luz de Cristo, é
a da « vocação ». (28) « Cristo, que é o
novo Adão, justamente ao revelar o mistério do Pai e do seu Amor,
revela também plenamente o homem ao homem, e lhe faz conhecer a sua altíssima
vocação ». (29)
Por isso, a figura bíblica da comunidade de Corinto apresenta os dons
do Espírito, na Igreja, subordinados ao reconhecimento de Jesus como o
Senhor. Realmente a cristologia é fundamento de toda antropologia e
eclesiologia. Cristo é o projeto do homem. Só depois que o
crente, « sob a ação do Espírito Santo » (1
Cor 12,4-6), reconheceu que Jesus é o Senhor, pode aceitar o estatuto
da nova comunidade dos crentes: « Os carismas são diferentes, mas um
só Espírito; ha diversidade de ministérios, mas um só
é o Senhor. Há diversidade de operações, mas um só
é Deus que realiza tudo em todos » (1 Cor 12,4-6).
A imagem paulina coloca em clara evidência três aspectos
fundamentais dos dons vocacionais na Igreja, estreitamente conexos com a sua
origem do seio da comunhão trinitária, e com referência
específica a cada uma das Pessoas.
À luz do Espírito, os dons são expressão da sua
infinita gratuidade. Ele mesmo é carisma (Atos 2,38),
fonte de todo dom, e expressão da irreprimível criatividade
divina.
À luz de Cristo, os dons vocacionais são « ministérios
», exprimem a multiforme diversidade do serviço que o Filho
viveu, até o fim da sua vida. De fato, Ele « Não veio para
ser servido, mas para servir e dar a sua vida... » (Mt 20,28).
Portanto, Jesus é o modelo de todo ministério.
À luz do Pai, os dons são « operações
», porque dele, fonte da vida, todo ser desprende o próprio
dinamismo criatural.
Por isso, a Igreja reflete, como ícone, o mistério de Deus
Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo; e toda vocação
traz em si os traços característicos das três Pessoas da
comunhão trinitária. As Pessoas divinas são fonte e modelo
de todo chamado. Aliás, em si mesma, a Trindade é um misterioso
entrelaçado de chamados e respostas. Somente ali, dentro daquele diálogo
ininterrupto, cada vivente descobre não apenas as suas raízes, mas
também o seu destino e o seu futuro, o que é chamado a ser e a se
tornar, na verdade e na liberdade, na concretude da sua história.
De fato, no estatuto eclesiológico da 1 Coríntios, os
dons têm uma destinação histórica e concreta: «
A cada um é dada uma manifestação particular do Espírito,
para a utilidade de todos » (1 Cor 12,7). Há um bem superior
que está regularmente acima do dom pessoal: construir na unidade o Corpo
de Cristo; tornar epifânica a sua presença na História, «
para que o mundo creia » (Jo 17,21).
Portanto, por um lado a comunidade eclesial está aferrada ao mistério
de Deus, de que é ícone visível; e por outro, é
totalmente envolvida com a história do homem no mundo, em estado de êxodo,
rumo « aos novos céus ».
A Igreja, e nela, toda vocação, exprimem um dinamismo idêntico:
ser chamados para uma missão.
O Pai chama para a vida
16. A existência de cada um é fruto do amor criativo do Pai, do
seu desejo eficaz, da sua palavra geradora.
O ato criador do Pai tem a dinâmica de um apelo, de um chamado para a
vida. O homem vem à vida porque amado, pensado e querido por uma Vontade
boa que o preferiu à não existência, que o amou antes mesmo
que fosse, que o conheceu antes de formá-lo no seio materno, que o
consagrou antes que fosse dado à luz (cf Jr 1,5; Is
49,1.5; Gl 1,15).
Então, é a vocação que na raiz explica o mistério
da vida do homem, e ela mesma é um mistério de predileção
e de absoluta gratuidade.
a) « ... à sua imagem »
No « chamado criativo », o homem aparece logo com toda a sua carga
de dignidade, como sujeito chamado à relação com Deus, a
estar diante dele, com os outros, no mundo, com uma face que reflete os mesmos
traços divinos: « Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança » (Gn 1,26). Essa tríplice relação
pertence ao projeto original, porque nele em Cristo o Pai nos
escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e
imaculados diante dele, na caridade » (Ef 1,4).
Reconhecer o Pai significa que nós existimos à sua maneira,
tendo-nos criado à sua imagem (Sab 2,23). Nisso, portanto, está
contida a vocação fundamental do homem: a vocação à
vida e a uma vida imediatamente concebida à semelhança da vida
divina. Se o Pai é o eterno manancial, a total gratuidade, a fonte perene
da existência e do amor, na medida pequena e limitada do seu existir, o
homem é chamado a ser como Ele; portanto, a « dar a vida », a
assumir o peso da vida de um outro.
Então, o ato criador do Pai é que provoca a conscientização
de que a vida é uma entrega à liberdade do homem, chamado a dar
uma resposta personalíssima e original, responsável e repleta de
gratidão.
b) O amor, sentido pleno da vida
Nessa perspectiva do chamado à vida, uma coisa deve ser
excluída: que o homem possa considerar a existência como uma coisa óbvia,
natural, casual.
Talvez não seja fácil, na cultura hodierna, alguém
sentir-se extasiado diante do dom da vida. (30)
Enquanto é fácil perceber o sentido de uma vida doada, que
redunda em benefício dos outros, é preciso ao invés, uma
consciência mais amadurecida, alguma formação espiritual,
para perceber que a vida de cada um, em todo caso e antes de qualquer escolha, é
amor recebido, e que em tal amor já está escondido um conseqüente
projeto vocacional.
O simples fato de estarmos no mundo deveria, antes de tudo, encher a todos
de maravilha e de gratidão imensa para com Aquele que, de forma
totalmente gratuita, pronunciando o nosso nome, nos tirou do nada.
E então, a percepção de que a vida é um dom, não
deveria suscitar apenas uma atitude reconhecida, mas lentamente deveria sugerir
a primeira grande resposta à pergunta fundamental de sentido: a vida é
a obra de arte do amor criativo de Deus e, em si mesma, é um chamado a
amar. Dom recebido que, por sua natureza, tende a se tornar bem doado.
c) O amor, vocação de todo homem
O amor é o sentido pleno da vida. Deus amou tanto o homem a ponto de
dar-lhe a sua própria vida e torná-lo capaz de viver e de querer
bem, à maneira divina. Nesse excesso de amor, o amor dos inícios,
o homem encontra a sua vocação radical, que é « vocação
santa » (2 Tm 1,9), e descobre a própria inconfundível
identidade, que o torna logo semelhante a Deus, « a imagem do Santo »
que o chamou (1 Pd 1,15). João Paulo II comenta: « Criando-o
à sua imagem e conservando-o continuamente no ser, Deus inscreve na
humanidade do homem e da mulher a vocação e, por isso, a
capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. Portanto, o amor é
a vocação fundamental e nativa de todo ser humano ». (31)
d) O Pai educador
Graças àquele amor que o criou, ninguém pode se sentir «
supérfluo », já que é chamado a responder a um projeto
que Deus fez sob medida para ele.
Então, o homem será feliz e plenamente realizado, estando no
seu lugar, acolhendo a proposta educativa divina, com todo o temor e tremor que
semelhante pretensão suscita num coração de carne. Deus
criador que dá a vida é também o Pai que « educa »
, tira do nada aquilo que ainda não é, para fazê-lo ser;
tira do coração do homem o que Ele colocou ali dentro, para que
seja plenamente ele mesmo e aquilo que Ele o chamou a ser, à Sua maneira.
Daqui a nostalgia de infinito que Deus colocou no mundo interior de cada um.
Como um timbre divino.
e) O chamado do Batismo
Essa vocação à vida e à vida divina é
celebrada no Batismo. Nesse sacramento, o Pai se inclina com terna solicitude
sobre a criatura, filho ou filha do amor de um homem e de uma mulher, para abençoar
o fruto desse amor e torná-lo plenamente seu filho. A partir daquele
momento, a criatura é chamada à santidade dos filhos de Deus. Nada
e ninguém jamais poderá cancelar essa vocação.
Com a graça do Batismo, Deus Pai intervém para manifestar que
Ele, e somente Ele é autor do plano de salvação, dentro do
qual cada ser humano encontra o seu papel pessoal. O seu ato é sempre prévio,
anterior, não espera pela iniciativa do homem, não depende de seus
méritos, nem se configura a partir das suas capacidades ou disposições.
É o Pai que conhece, designa, dá um impulso, coloca um timbre,
chama « antes mesmo da criação do mundo » (Ef
1,4). E depois dá força, caminha lado a lado, sustenta o esforço,
é Pai e Mãe para sempre...
A vida cristã adquire assim o significado de uma experiência
responsorial: torna-se resposta responsável em fazer crescer um
relacionamento filial com o Pai, e um relacionamento fraterno na grande família
dos filhos de Deus. O cristão é chamado a facilitar, através
do amor, aquele processo de semelhança com o Pai que se chama vida
teologal.
Portanto, a fidelidade ao Batismo impele a fazer à vida, e a si
mesmos, perguntas sempre mais precisas; sobretudo para dispor-se a viver a existência
não somente com base em atitudes humanas, que também são
dons de Deus, mas com base na Sua vontade; não segundo perspectivas
mundanas, quase sempre de pequena cabotagem, mas segundo os desejos e projetos
de Deus.
A fidelidade ao Batismo significa então olhar para cima, como filhos,
para discernir a Sua vontade sobre a própria vida e o próprio
futuro.
O Filho chama ao seguimento
17. « Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta » (Jo
14,8).
É o pedido de Filipe a Jesus, na vigília da paixão. É
a angustiante saudade de Deus, presente no coração de todo homem:
conhecer as próprias raízes, conhecer a Deus. O homem não é
infinito, está mergulhado na finitude; mas o seu desejo gravita ao redor
do infinito.
E a resposta de Jesus surpreende os discípulos: « Há
tanto tempo estou no meio de vós, e tu ainda não me conheces,
Filipe? Quem me viu, viu o Pai » (Jo 14,9).
a) Mandado pelo Pai para chamar o homem
O Pai nos criou no Filho « que é irradiação da sua
glória e marca da sua substância » (Hb 1,3),
predestinando-nos a ser conformes à Sua imagem (cf Rm 8,29). O
Verbo é imagem perfeita do Pai. É Aquele em quem o Pai se tornou
visível, o Logos por meio do qual « falou a nós » (Hb
1,2). Todo o seu ser é de « ser enviado », para tornar
Deus, enquanto Pai, próximo dos homens, para desvelar a Sua Face e o Seu
Nome aos homens (Jo 17,6).
Se o homem é chamado a ser filho de Deus, conseqüentemente ninguém
melhor do que o Verbo Encarnado pode « falar » de Deus ao homem, e
fazer ver a imagem perfeita de Filho. Por isso, o Filho de Deus, vindo a esta
terra, chamou a segui-lo, a ser como Ele, a compartilhar a sua vida, a sua
Palavra, a sua páscoa de morte e ressurreição; até
mesmo os seus sentimentos.
O Filho, o enviado de Deus, se fez homem para chamar o homem: O
enviado do Pai é o chamador dos homens.
Por isso não existe um trecho do evangelho, um encontro, ou um diálogo
que não tenha um significado vocacional, que não exprima, direta
ou indiretamente, um chamado por parte de Jesus. É como se seus encontros
humanos, provocados pelas mais diversas circunstâncias, fossem para ele
uma ocasião para, de qualquer modo, colocar a pessoa diante da pergunta
estratégica: « O que fazer da minha vida?, « Qual é a
minha estrada? ».
b) O maior amor: dar a vida
Para que Jesus chama? Para segui-Lo e agir como ele. Mais particularmente,
para viver a sua mesma relação com o Pai e com os homens: para
acolher a vida como dom das mãos do Pai, para « perder » e
derramar esse dom sobre aqueles que o Pai lhe confiou. (32)
Existe na identidade de Jesus um traço unificador que constitui o
sentido pleno do amor: a missão. Essa exprime a oblatividade, que
sobre a cruz atinge a sua suprema epifania: « Ninguém tem maior amor
do que este: dar a vida pelos próprios amigos » (Jo 15,13).
Portanto, cada discípulo é chamado a repetir e reviver os
sentimentos do Filho, que encontram uma síntese no amor, motivação
decisiva de todo chamado. Mas, acima de tudo, cada discípulo é
chamado a tornar visível a missão de Jesus, é chamado para
a missão: « Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio »
(Jo 20,21). A estrutura de toda vocação, ou melhor, a sua
maturidade consiste em continuar Jesus no mundo e, como ele, fazer da vida um
dom. O envio-missão é a entrega da tarde da Páscoa (Jo
20,21), e é a última palavra antes de subir para o Pai (Mt
28,16-20).
c) Jesus, o formador
Todo chamado é um sinal de Jesus: de certa maneira o seu coração
e as suas mãos continuam a abraçar as crianças, a curar os
doentes, a reconciliar os pecadores e a deixar-se pregar na cruz por amor de
todos. Ser para os outros, com o coração de Cristo, é a
fisionomia madura de toda vocação. Por isso, o Senhor Jesus é
o formador daqueles que chama, o único que pode plasmar neles
seus mesmos sentimentos.
Todo discípulo, respondendo ao seu chamado e deixando-se formar por
ele, exprime os traços mais verdadeiros da própria escolha. Por
isso, « o reconhecimento dele como o Senhor da vida e da História
comporta o auto-reconhecimento do discípulo [...]. O ato de fé
necessariamente conjuga o reconhecimento cristológico com o
auto-reconhecimento antropológico ». (33)
Daqui a pedagogia da experiência vocacional cristã, evocada
pela Palavra de Deus: « Jesus constituiu doze para que ficassem com ele e
também para mandá-los pregar » (Mc 3,14). Para ser
vivida em plenitude, na dimensão do dom e da missão, a vida cristã
precisa de motivações fortes e, sobretudo, de comunhão
profunda com o Senhor: na escuta, no diálogo, na oração, na
interiorização dos sentimentos, em deixar-se formar todos os dias
por ele e, sobretudo, no desejo ardente de comunicar ao mundo a vida do Pai.
d) A Eucaristia: a entrega para a missão
Em todas as catequeses da comunidade cristã das origens é
clara a centralidade do mistério pascal: anunciar Cristo, morto e
ressuscitado. No mistério do pão partido e do sangue derramado
pela vida do mundo, a comunidade crente contempla a epifania suprema do amor, a
vida doada do Filho de Deus.
Por isso, na celebração da Eucaristia, « cume e fonte »
(34) da vida cristã, é celebrada a máxima revelação
da missão de Jesus Cristo no mundo; mas ao mesmo tempo se celebra também
a identidade da comunidade eclesial convocada para ser enviada, chamada para a
missão.
Na comunidade que celebra o mistério pascal, todo cristão toma
parte e entra no estilo do dom de Jesus tornando-se como ele pão
repartido para a oferta ao Pai e para a vida do mundo.
Assim a Eucaristia se torna fonte de toda vocação cristã;
nela todo crente é chamado a conformar-se ao Cristo Ressuscitado,
totalmente oferecido e doado. Torna-se ícone de toda resposta vocacional;
como em Jesus, em toda vida e em toda vocação, existe uma difícil
fidelidade a ser vivida até a medida da cruz.
Aquele que toma parte nela acolhe o convite-chamado de Jesus a « fazer
memória » dele, no sacramento e na vida, a viver « recordando »
na verdade e na liberdade das escolhas quotidianas, o memorial da cruz, a
preencher a existência de gratidão e de gratuidade, a repartir o próprio
corpo e a derramar o próprio sangue. Como o Filho.
Por fim, a Eucaristia gera o testemunho, prepara para a missão: «
Ide em paz ». Do encontro com Cristo no sinal do Pão, se passa ao
encontro com Cristo no sinal de cada homem. O compromisso do crente não
se esgota na entrada, mas na saída do templo. A resposta ao chamado
encontra a história da missão. A fidelidade à própria
vocação é haurida nas fontes da Eucaristia e se mede na
Eucaristia da vida.
O Espírito chama para o testemunho
18. Todo crente, iluminado pela inteligência da fé, é
chamado a conhecer e reconhecer Jesus como o Senhor; e nele a reconhecer a si
mesmo. Mas isso não é fruto apenas de um desejo humano ou da boa
vontade do homem. Mesmo depois de terem vivido a experiência prolongada
com o Senhor, os discípulos têm sempre necessidade de Deus. Na vigília
da paixão, eles experimentam um certo turbamento (Jo 14,1), têm
medo da solidão; e Jesus os encoraja com uma promessa inaudita: « Não
vos deixarei órfãos » (Jo 14,18). Os primeiros
chamados do evangelho não ficarão sozinhos: Jesus lhes garante a
vigilante companhia do Espírito.
a) Consolador e amigo, guia e memória
« Ele é o Consolador », o Espírito de bondade que o
Pai mandará em nome do Filho, dom do Senhor Ressuscitado », (35) «
para que permaneça sempre convosco » (Jo 14,16).
Assim o Espírito se torna o amigo de cada discípulo, o guia de
olhar zeloso sobre Jesus e sobre os chamados, para fazer deles testemunhas
contracorrente do evento mais perturbador do mundo: o Cristo morto e
ressuscitado. De fato, ele é « memória » de Jesus e da
sua Palavra: « Ele vos ensinará todas as coisas, e vos fará
lembrar tudo aquilo que eu vos disse » (Jo 14,26); mais ainda, «
há de levar-vos à verdade completa » (Jo 16,13).
A permanente novidade do Espírito consiste em guiar na direção
de uma inteligência progressiva e profunda da verdade, daquela verdade que
não é noção abstrata, mas o projeto de Deus na vida
de cada discípulo. É a transformação da Palavra em
vida e da vida segundo a Palavra.
b) Animador e acompanhador vocacional
Dessa forma o Espírito se torna o grande animador de toda vocação,
Aquele que acompanha o caminho para que chegue à meta, o iconógrafo
interior que plasma com fantasia a face de cada um, segundo Jesus.
A sua presença é permanente ao lado de todo homem e mulher,
para conduzir todos ao discernimento da própria identidade de crentes e
de chamados, para plasmar e modelar tal identidade exatamente segundo o modelo
do amor divino. Como artesão paciente das nossas almas e «
consolador perfeito », o Espírito santificador procura reproduzir em
cada um esse « molde divino ».
Mas, acima de tudo, o Espírito habilita os chamados para o «
testemunho ». « Ele dará testemunho de mim e vós também
me dareis testemunho » (Jo 15,26-27). Esse modo de ser de cada
chamado constitui a palavra convincente, o conteúdo mesmo da missão.
O testemunho não consiste apenas em sugerir as palavras do anúncio,
como no evangelho de Mateus (Mt 10,20), mas sim em guardar Jesus no coração
e em anunciá-lo como vida do mundo.
c) A santidade, vocação de todos
E então a pergunta a respeito do salto de qualidade a ser dado hoje à
pastoral vocacional se torna um questionamento que, sem dúvida, empenha
na escuta do Espírito: porque ele é o anunciador das « coisas
futuras » (Jo 16,13), é ele que dá uma nova inteligência
espiritual para entender a história e a vida a partir da Páscoa do
Senhor, em cuja vitória está o futuro de cada homem.
Assim é legítimo perguntar: onde está o chamado do Espírito
Santo para estes anos que estamos vivendo? Onde é que devemos corrigir os
caminhos da pastoral vocacional?
Mas a resposta só virá se acolhermos o grande apelo à
conversão, dirigido à comunidade eclesial e, nela, a cada um, como
um verdadeiro itinerário de ascética e de renascimento interior,
para que cada um recupere a fidelidade à própria vocação.
Existe um primado da vida no Espírito, que está na
base de toda pastoral vocacional. Isso requer a superação de um
difuso pragmatismo e daquele exteriorismo estéril que leva a esquecer a
vida teologal da fé, da esperança e da caridade. A escuta profunda
do Espírito é o novo respiro de toda ação pastoral
da comunidade eclesial.
O primado da vida espiritual é a premissa para responder àquela
nostalgia de santidade que, como já recordamos, perpassa também
este tempo da Igreja na Europa. A santidade é a vocação
universal de todo homem, (36) é a via mestra em que convergem os muitos
caminhos das vocações particulares. Portanto o grande encontro
marcado do Espírito para esta curva da história pós-conciliar
é a santidade dos chamados.
d) As vocações a serviço da vocação
da Igreja
Mas, tender eficazmente em direção a essa meta significa
aderir à ação misteriosa do Espírito em algumas direções
bem determinadas, que preparam e constituem o segredo de uma verdadeira
vitalidade da Igreja dos anos 2.000.
Ao Espírito Santo condiz, antes de tudo, o eterno protagonismo da
comunhão que se reflete no ícone da comunidade eclesial,
visível através da pluralidade dos dons e dos ministérios.
(37) É precisamente no Espírito que cada cristão descobre a
sua absoluta originalidade, a unicidade do seu chamado e, ao mesmo tempo, a sua
natural e indelével tendência à unidade. É no Espírito
que as vocações na Igreja são tantas e, juntas, são
uma mesma única vocação à unidade do amor e do
testemunho. É ainda a ação do Espírito que torna
possível a pluralidade das vocações na unidade da estrutura
eclesial: as vocações na Igreja são necessárias
na sua variedade para realizar a vocação da Igreja; e, por sua
vez, a vocação da Igreja é tornar possíveis e factíveis
as vocações da e na Igreja. Todas as vocações,
portanto, propendem para o testemunho do ágape, para o anúncio de
Cristo, único salvador do mundo.
É justamente essa a originalidade da vocação cristã:
fazer coincidir a realização da pessoa com a realização
da comunidade; mais uma vez, isso quer dizer fazer prevalecer a lógica do
amor sobre a dos interesses pessoais, a lógica da partilha sobre a da
apropriação narcisista dos talentos (cf 1 Cor 12-14).
Portanto, a santidade se torna a verdadeira epifania do Espírito
Santo na História. Se cada Pessoa da Comunhão Trinitária
tem a sua fisionomia, e se é verdade que as fisionomias do Pai e do Filho
são bastante familiares, porque, fazendo-se homem como nós, Jesus
revelou a face do Pai os santos se tornam o ícone mais eloqüente do
mistério do Espírito. Assim também, na própria vocação
particular e no chamado universal à santidade, todo crente fiel ao
evangelho esconde e revela a fisionomia do Espírito Santo.
e) O « sim » ao Espírito na Crisma
O sacramento da Crisma é o momento que exprime de maneira mais
evidente e consciente o dom e o encontro com o Espírito Santo.
Perante Deus e o seu gesto de amor (« Recebe a marca do Espírito
Santo que te é dado como dom » (38), mas também diante da própria
consciência e da comunidade cristã, o crismando responde « amém
». Em nível formativo e catequístico é importante
recuperar o sentido forte desse « amém ». (39)
Antes de tudo ele quer significar o « sim » ao Espírito
Santo e, com ele, a Jesus. Eis por que a celebração do sacramento
da Crisma prevê a renovação das promessas batismais, e pede
ao crismando o compromisso de renunciar ao pecado e às obras do maligno,
sempre de emboscada para desfigurar a imagem cristã; e sobretudo o
compromisso de viver o evangelho de Jesus, especialmente o grande preceito do
amor. Trata-se de confirmar e renovar a fidelidade vocacional à própria
identidade de filhos de Deus.
O « amém » é também um « sim » à
Igreja. Na Crisma o jovem declara assumir a missão de Jesus continuada
pela comunidade. Empenhando-se em duas direções, para dar
concretude ao seu « amém »: o testemunho e a missão.
O crismado sabe que a fé é um talento que é preciso
multiplicar; é uma mensagem a ser transmitida aos outros com a vida,
com o testemunho coerente de todo o seu ser; e com a palavra, com a
coragem missionária de difundir a boa nova.
E, por fim, o « amém » exprime a docilidade ao Espírito
Santo e o pensar e decidir o futuro segundo o projeto de Deus. Não
apenas segundo as próprias aspirações e capacidades; não
apenas nos espaços que o mundo coloca à disposição;
mas sobretudo em sintonia com o projeto, sempre inédito e imprevisível,
que Deus tem para cada um.
Da Trindade à Igreja no mundo
19. Toda vocação cristã é « particular »
porque interpela a liberdade de cada homem e gera uma resposta personalíssima
numa história original e irrepetível. Por isso, na própria
experiência vocacional cada pessoa encontra uma vivência que não
pode ser reduzida a esquemas gerais; a história de cada homem é
uma pequena história, mas sempre parte inconfundível e única
de uma grande história. Na relação entre essas duas
histórias, entre o seu pequeno projeto? e aquele grande que lhe pertence
e que o supera, o ser humano joga a sua liberdade.
a) Na Igreja e no mundo, para a Igreja e para o mundo
Toda vocação nasce num lugar determinado, num contexto
concreto e limitado, mas não se volta para si mesma, não tende
para a própria perfeição ou auto-realização
psicológica ou espiritual do chamado, mas floresce na Igreja,
naquela Igreja que caminha no mundo, rumo ao mundo completo, rumo à
realização de uma história que é grande porque é
de salvação. A mesma comunidade eclesial tem uma estrutura
profundamente vocacional: ela é chamada para a missão; é
sinal de Cristo, missionário do Pai. Como diz a Lumen Gentium: «
é em Cristo como um sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima
união com Deus e da unidade de todo o gênero humano ». (40)
Por um lado, a Igreja é sinal que reflete o mistério de Deus; é
ícone que evoca a comunhão trinitária no sinal da
comunidade visível, e ao mistério de Cristo no dinamismo da missão
universal. Por outro lado, a Igreja está imersa no tempo dos homens, vive
na história em condição de êxodo, está em missão
a serviço do Reino para transformar a humanidade na comunidade dos filhos
de Deus.
Portanto, a atenção à história pede à
comunidade cristã que se coloque à escuta das expectativas dos
homens, que leia aqueles sinais dos tempos que constituem código e
linguagem do Espírito Santo, que entre em diálogo crítico e
fecundo com o mundo contemporâneo, acolhendo com benevolência tradições
e culturas, para revelar nelas o projeto do Reino, e lançar aí o
fermento do evangelho.
Assim a pequena grande história de toda vocação se
entrelaça com a história da Igreja no mundo. Como nasceu na Igreja
e no mundo, assim todo chamado está a serviço da Igreja e do
mundo.
b) A Igreja, comunidade e comunhão de vocações
Na Igreja, comunidade de dons para a única missão, se realiza
para o crente inserido em Cristo através do Batismo, aquela passagem da
condição em que se encontra à sua vocação «
particular », como resposta ao dom específico do Espírito. Em
tal comunidade toda vocação é « particular », e
se especifica num projeto de vida; não existem vocações genéricas.
E na sua particularidade, toda vocação é a um tempo «
necessária » e « relativa ». « Necessária »
porque Cristo vive e se torna visível no seu corpo que é a Igreja
e no discípulo que é parte essencial dela.
« Relativa », porque nenhuma vocação exaure o sinal
testemunhal do mistério de Cristo, mas exprime apenas um aspecto dele.
Somente o conjunto dos dons torna epifânico o inteiro corpo do Senhor. No
edifício cada pedra precisa da outra (1 Pd 2,5); no corpo, cada
membro precisa do outro para fazer crescer o organismo inteiro e cooperar para a
utilidade comum (1 Cor 12,7).
Isso exige que a vida de cada um seja projetada a partir de Deus que é
a única fonte e provê tudo para o bem do todo; exige que a vida
seja redescoberta como verdadeiramente significativa somente quando se abre ao
seguimento de Jesus.
Mas, é também importante que exista uma comunidade eclesial
que ajude de fato cada chamado a descobrir a própria vocação.
O clima de fé, de oração, de comunhão no amor, de
maturidade espiritual, de coragem do anúncio, de intensidade da vida
sacramental faz da comunidade crente um terreno adequado não apenas ao
desabrochar de vocações particulares, mas à criação
de uma cultura vocacional e de uma disponibilidade nos indivíduos a
receber seu chamado pessoal. Quando um jovem percebe o chamado e decide no seu
coração a santa viagem para realizá-la, ali, normalmente,
existe uma comunidade que criou as premissas para essa disponibilidade
obediencial. (41)
Ou seja: a fidelidade vocacional de uma comunidade crente é a
primeira e fundamental condição para o florescimento da vocação
dos indivíduos crentes, especialmente os mais jovens.
c) Sinal, ministério, missão
Portanto, como forma estável e definitiva de vida, toda vocação
se abre numa tríplice dimensão: em relação a Cristo,
todo chamado é « sinal; em relação à Igreja, é
« ministério »; em relação ao mundo é «
missão » e testemunho do Reino.
Se a Igreja está « em Cristo como um sacramento », toda
vocação revela a dinâmica profunda da comunhão trinitária,
a ação do Pai, do Filho e do Espírito, como evento que faz
ser em Cristo criaturas novas e modeladas sobre ele.
Então, toda vocação é sinal, é um
modo especial de revelar a face do Senhor Jesus. « O amor de Cristo nos
impele » (2 Cor 5,14). Assim, Jesus se torna movente e modelo
decisivo de toda resposta aos apelos de Deus.
Em relação à Igreja, toda vocação é
ministério, radicado na pura gratuidade do dom. O chamado de Deus
é um dom para a comunidade, para a utilidade comum, no dinamismo dos
muitos serviços ministeriais. Isso é possível em docilidade
ao Espírito que faz a Igreja ser como « comunidade de diferentes
faces », (42) e gera no coração do cristão o ágape,
não só como ética do amor, mas também como estrutura
profunda da pessoa, chamada e habilitada a viver em relação com os
outros, na atitude do serviço, segundo a liberdade do Espírito.
Por fim, em relação ao mundo, toda vocação é
missão. É vida vivida em plenitude porque vivida para os
outros, como a de Jesus e, por isso, geradora de vida: « a vida gera a vida
». (43) Daqui a intrínseca participação de toda vocação
ao apostolado e à missão da Igreja, germe do Reino. Vocação
e missão constituem duas faces do mesmo prisma. Definem o dom e o
con-tributo de cada um para o projeto de Deus, à imagem e semelhança
de Jesus.
d) A Igreja, mãe de vocações
A Igreja é mãe de vocações porque as faz nascer,
com a força do Espírito, protege-as, nutre-as e sustenta. De modo
especial, é mãe porque exerce uma preciosa função
mediadora e pedagógica.
« A Igreja, chamada por Deus, constituída no mundo como
comunidade de chamados, é por sua vez, instrumento do chamado de Deus. A
Igreja é apelo vivente, por vontade do Pai, pelos méritos do
Senhor Jesus, pela força do Espírito Santo [...]. A comunidade que
toma consciência de ser chamada, ao mesmo tempo toma consciência de
que deve chamar continuamente ». (44) Através e ao longo desse
chamado, nas suas várias formas, flui também o apelo que vem de
Deus.
A Igreja exerce essa função mediadora quando ajuda e estimula
cada crente a tomar consciência do dom recebido e da responsabilidade que
o dom traz consigo.
Exerce-a ainda quando se faz intérprete autorizada do apelo
vocacional explícito, e ela mesma chama, apresentando as necessidades
ligadas à sua missão e às exigências do povo de Deus,
e convidando a responder generosamente.
Exerce-a, também, quando pede ao Pai o dom do Espirito que suscita o
assentimento no coração dos chamados, e quando os acolhe e
reconhece neles o chamado, dando explicitamente e entregando com confiança
e trepidação, ao mesmo tempo uma missão concreta e
sempre difícil entre os homens.
Por fim, poderíamos acrescentar que a Igreja manifesta a sua
maternidade quando, além de chamar e reconhecer a idoneidade dos
chamados, provê para que eles tenham uma adequada formação
inicial e permanente, e para que sejam realmente acompanhados ao longo do
caminho de uma resposta sempre mais fiel e radical. De certo, a maternidade
eclesial não pode se exaurir no tempo do apelo inicial. Nem pode ser
chamada de mãe a comunidade de crentes que simplesmente « aguarda »,
entregando totalmente à ação divina a responsabilidade do
chamado, quase temerosa de fazer apelos; ou que dá como garantido que os
meninos e, especialmente, os jovens sabem receber imediatamente o apelo
vocacional; ou que não oferece percursos bem escolhidos para a proposta e
o acolhimento da proposta.
A crise vocacional dos chamados, hoje, é também crise dos
que chamam, às vezes escondidos e pouco corajosos. Se não há
ninguém que chame, como poderia haver quem responda?
A dimensão ecumênica
20. A Europa hodierna precisa de novos santos e de novas vocações,
de crentes capazes de « lançar pontes » para unir sempre mais
as Igrejas. É um típico aspecto de novidade, este, um sinal dos
tempos da pastoral vocacional de fim de milênio. Num Continente marcado
por uma profunda aspiração unitária, as Igrejas devem ser
as primeiras a dar o exemplo de uma fraternidade mais forte do que qualquer
divisão, e no entanto sempre em construção e reconstrução.
« Hoje, na Europa, a pastoral vocacional deve ter uma dimensão ecumênica.
Todas as vocações presentes em cada Igreja da Europa, se
comprometem juntas a assumir o grande desafio da evangelização no
limiar do terceiro milênio, dando um testemunho de comunhão e de fé
em Jesus Cristo, único salvador do mundo ». (45)
Nesse espírito de unidade eclesial devem ser promovidas e
facilitadas: a partilha dos bens que o Espírito de Deus semeou em toda
parte, e a ajuda recíproca entre as Igrejas.
As Igrejas Católicas do Oriente
21. Uma maior atenção, por parte das Igrejas da Europa
ocidental, deve ser dada aos percursos espirituais e formativos das Igrejas Católicas
Orientais; isso não pode deixar de exercer um benéfico influxo
sobre a pastoral vocacional de todas as Igrejas.
Para as Igrejas do Oriente, a santa Liturgia tem uma importância
singular no que se refere à formação das vocações.
Ela é o lugar onde se faz a proclamação e a adoração
do Mistério da salvação, e onde nasce a comunhão e
se constrói a fraternidade entre os crentes, a ponto de se tornar
verdadeira formadora de vida cristã, a síntese mais completa dos
seus vários aspectos. Na liturgia, a jubilosa confissão de
pertencer à tradição das Igrejas do Oriente é unida à
plena comunhão com a Igreja de Roma.
Não é possível ser suscitadores de vocações
para o sacerdócio e a vida monástica, se não se volta às
fontes das próprias tradições originárias, em
sintonia com os Santos Padres e com o seu profundo sentido da Igreja. Esse
processo de grande amplitude requer tempo, paciência, respeito à
sensibilidade dos fiéis, mas também determinação.
Para isso, os Bispos, os Superiores religiosos e os Agentes de pastoral das
Igrejas Católicas Orientais da Europa, são solicitados a sentir a
urgência para todas as suas Igrejas, recuperando e custodiando íntegro
o respectivo patrimônio litúrgico, que contribui, de forma
insubstituível, para o nascimento e o desenvolvimento da teologia e da
catequese. A exemplo do método mistagógico dos Padres, ele abre
para a experiência do chamado e da vida espiritual, e matura um firme e
forte espírito ecumênico. (46)
Nas experiências eclesiais diversificadas, e através de estudos
que apresentam o patrimônio histórico, teológico, jurídico
e espiritual das próprias Igrejas de pertença, os jovens orientais
podem oportunamente encontrar ambientes educativos adequados para maturar o
sentido universal de sua dedicação a Cristo e à Igreja.
É dever dos Bispos promover, aproximar-se com simpatia e acompanhar
com atenção paterna os jovens que, individualmente ou em grupo,
desejam se dedicar à vida monástica, valorizando o carisma das
comunidades monásticas, ricas de formadores e de guias espirituais.
O ministério ordenado e as vocações na
reciprocidade da comunhão
22. « Em muitas Igrejas particulares, a pastoral vocacional ainda
precisa de esclarecer a relação entre ministério ordenado,
vocação de especial consagração, e todas as outras
vocações. A pastoral vocacional unitária se fundamenta na
vocacionalidade da Igreja e de toda vida humana, como chamado e resposta. Isso
está na base do empenho unitário de toda a Igreja por todas as
vocações e, em particular, pelas vocações de
especial consagração ». (47)
a) O ministério ordenado
Dentro dessa sensibilidade geral, parece que hoje se deva dar uma atenção
especial ao ministério ordenado, que representa a primeira
modalidade específica de anúncio do evangelho. Ele representa «
a garantia permanente da presença sacramental de Cristo Redentor nos
diversos tempos e lugares », (48) e exprime justamente a dependência
direta da Igreja de Cristo, que continua a enviar o seu Espírito para que
essa não fique fechada em si mesma, no seu cenáculo, mas caminhe
pelas estradas do mundo para anunciar a boa notícia.
Essa modalidade vocacional pode ser expressa segundo três graus: episcopal
(a que está ligada a garantia da sucessão apostólica), presbiteral
(que é a « representação sacramental de Cristo como
pastor » (49) e diaconal (sinal sacramental de Cristo servo. (50)
Aos Bispos é confiado o ministério do chamado em relação
àqueles que aspiram às Ordens sagradas, para se tornarem seus
cooperadores na tarefa apostólica.
O ministério ordenado faz com que, sobretudo através da
celebração da Eucaristia, a Igreja seja « culmen et fons »
(51) da vida cristã e da comunidade chamada a fazer memória do
Ressuscitado. Todas as outras vocações nascem na Igreja e fazem
parte da sua vida. Portanto, o ministério ordenado tem um serviço
de comunhão na comunidade e, em força dele, tem o imprescindível
dever de promover todas as vocações.
Daqui, a tradução pastoral: o ministério ordenado para
todas as vocações, e todas as vocações para o ministério
ordenado, na reciprocidade da comunhão. Por isso, o bispo, com o seu
presbitério, é chamado a discernir e a cultivar todos os dons do
Espírito. Mas, em particular, o cuidado com o seminário deve se
tornar preocupação de toda a Igreja diocesana, para garantir a
formação dos futuros presbíteros e a constituição
de comunidades eucarísticas como plena expressão da experiência
cristã.
b) A atenção a todas as vocações
O discernimento e o cuidado da comunidade cristã devem ser dirigidos
a todas as vocações, tanto as que entraram a fazer parte da
Igreja, quanto aos novos dons do Espírito: a consagração
religiosa na vida monástica e na vida apostólica, a vocação
laical, o carisma dos institutos seculares, as sociedades da vida apostólica,
as vocações ao matrimônio, as várias formas laicais
de agregação-associação coligadas aos institutos
religiosos, as vocações missionárias, as novas formas de
vida consagrada.
Esses diversos dons do Espírito estão presentes de vários
modos nas Igrejas da Europa; mas todas essas Igrejas, em qualquer caso, são
chamadas a dar testemunho de acolhimento e de cuidado de todas as vocações.
Uma Igreja é viva, quanto mais nela é rica e variada a expressão
das diversas vocações. E mais, num tempo como o nosso, necessitado
de profecia, é coisa sábia promover aquelas vocações
que são um sinal particular « daquilo que seremos e ainda não
nos foi revelado » (1 Jo 3,2), como as vocações
de especial consagração; mas é também coisa sábia
favorecer o aspecto profético típico de toda vocação
cristã, inclusiva a laical para que, diante do mundo, a Igreja
seja sempre mais sinal das coisas futuras, daquele Reino que « já é
e ainda não ».
Maria, mãe e modelo de toda vocação
23. Existe uma criatura na qual o diálogo entre a liberdade de Deus e
a liberdade do homem se dá de modo perfeito, de forma que as duas
liberdades possam interagir, realizando plenamente o projeto vocacional; uma
criatura que nos foi dada para que nela possamos contemplar um projeto
vocacional perfeito, aquele que deveria realizar-se em cada um de nós.
É Maria, a imagem perfeita do sonho de Deus sobre a criatura! Na
verdade, ela é criatura, como nós, pequeno fragmento em que Deus pôde
derramar a plenitude do seu amor divino; esperança que nos foi dada, para
que, vendo-a, nós também possamos acolher a Palavra, a fim de que
se cumpra em nós.
Maria é a mulher em que a Trindade Santíssima pode manifestar
plenamente a sua liberdade de escolha. Como diz São Bernardo,
comentando a mensagem do anjo Gabriel, na anunciação: « Esta
não é uma Virgem encontrada no último momento, nem por
acaso, mas foi escolhida antes dos séculos; o Altíssimo a
predestinou e a preparou para si ». (52) Faz-lhe eco Santo Agostinho: «
Antes que o Verbo nascesse da Virgem, Ele já a havia predestinado como
sua mãe ». (53)
Maria é a imagem da escolha divina de cada criatura, escolhida que é
desde a eternidade e soberanamente livre, misteriosa e amante. Escolha que
normalmente vai muito além do que a criatura pode pensar de si: que
requer dela o impossível e só lhe pede uma coisa, a coragem de se
entregar.
Mas a Virgem Maria é também o modelo da liberdade humana
na resposta a essa escolha. Ela é o sinal daquilo que Deus pode fazer
quando encontra uma criatura livre para acolher a sua proposta. Livre para dizer
o seu « sim », livre para se encaminhar para a peregrinação
da fé, que será também a peregrinação da sua
vocação de mulher chamada a ser Mãe do Salvador e Mãe
da Igreja. Essa longa viagem se completará aos pés da cruz, através
de um « sim » ainda mais misterioso e doloroso que a tornará
plenamente mãe; e ainda mais no cenáculo, onde gera e ainda hoje
continua a gerar, com o Espírito, a Igreja e toda vocação.
Por fim, Maria é a imagem perfeitamente realizada da Mulher,
perfeita síntese da genialidade feminina e da fantasia do Espírito,
que nela encontra e escolhe a esposa, virgem mãe de Deus e do homem,
filha do Altíssimo e mãe de todos os viventes. Nela, toda mulher
encontra a sua vocação de virgem, de esposa, de mãe!
TERCEIRA PARTE
PASTORAL DAS VOCAÇÕES
« ...Cada um os ouvia falar na sua própria língua
» (At 2,6)
As orientações concretas da pastoral vocacional não
partem somente de uma correta teologia da vocação, mas atravessam
alguns princípios operativos, em que a perspectiva vocacional é a
alma e o critério unificador de toda a pastoral. Indicam-se a
seguir os itinerários de fé e os lugares concretos em que a
proposta vocacional deve se tornar empenho quotidiano de todo pastor e educador.
Na primeira parte, a análise da situação nos fez ver o
quadro atual da realidade vocacional européia; a segunda parte nos propôs
uma reflexão teológica sobre o significado e o mistério da
vocação, a partir da realidade da Trindade, até captar o
seu sentido na vida da Igreja.
É justamente esse segundo aspecto que quereríamos aprofundar
agora, especialmente do ponto de vista da aplicação pastoral.
Na audiência concedida aos participantes do Congresso, João
Paulo II afirmou: « As novas condições históricas e
culturais exigem que a pastoral das vocações seja percebida como
um dos objetivos primários de toda a Comunidade cristã ».
(54)
O ícone da Igreja primitiva
24. As situações históricas mudam, mas continua idêntico
o ponto de referência na vida do crente e da comunidade crente, aquele
ponto de referência que é representado pela Palavra de Deus,
especialmente onde narra as vicissitudes da Igreja das origens. Tais situações
e o modo como a comunidade primitiva as vivia, constituem para nós o exemplum,
o modelo de ser Igreja. Também no que concerne à pastoral
vocacional. Colhamos apenas alguns elementos essenciais e particularmente
exemplares, assim como no-los propõe o livro dos Atos dos Apóstolos,
no momento em que a Igreja dos inícios era numericamente muito pobre e
fraca.
A pastoral vocacional tem a mesma idade da Igreja; nasceu naquela ocasião,
junto com ela, naquela pobreza repentinamente habitada pelo Espírito.
Nos albores dessa história singular, que afinal é de todos nós,
está a promessa do Espírito Santo, feita por Jesus, antes
de subir para o Pai. « Não cabe a vós conhecer os tempos e os
momentos que o Pai reservou à sua escolha, mas recebereis a força
do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas
testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e a Samaria, e até
os confins da terra » (At 1,7-8). Os Apóstolos estão
reunidos no cenáculo, « assíduos e concordes na oração...
com Maria, a mãe de Jesus » (1,14), e logo tratam de preencher o
lugar deixado vago por Judas, com um outro escolhido entre eles que desde o início
estiveram com Jesus: para que « junto conosco se torne testemunha da
sua ressurreição ». E a promessa se cumpre: o Espírito
desce, com efeitos fragorosos, e enche a casa e a vida daqueles que antes eram tímidos
e medrosos, como um trovão, um vento, um fogo... « E começaram
a falar em outras línguas..., e cada um os ouvia falar na sua própria
língua » (2, 4-6). E Pedro proclama o discurso no qual narra a
história da salvação, « de pé... e com voz
forte » (2,14), um discurso que « transpassa o coração »
de quem o ouve e provoca a pergunta decisiva da vida: « O que devemos
fazer? » (2,37).
A esse ponto os Atos descrevem a vida da primeira comunidade, marcada por
alguns elementos essenciais como a assiduidade na escuta do ensinamento dos Apóstolos,
a união fraterna, a fração do pão, a oração,
a partilha dos bens materiais; mas, juntamente, os afetos e os bens do Espírito
(cf 2,42-48).
Entretanto, Pedro e os Apóstolos continuam a fazer prodígios
no nome de Jesus, e a anunciar o querigma da salvação, sempre
arriscando a vida, mas sempre sustentados pela comunidade, na qual os crentes são
« um só coração e uma só alma » (4,32).
Nela começam também a aumentar e a se diversificarem as exigências,
e assim são constituídos os diáconos para atender também
às necessidades materiais da comunidade, especialmente dos mais fracos
(cf 6,1-7).
O testemunho, forte e corajoso, não pode deixar de provocar a rejeição
das autoridades, e assim surge o primeiro mártir, Estêvão,
para sublinhar que a causa do Evangelho exige tudo do homem, inclusive a vida
(cf 6,8 7,70). Também dá seu assentimento à sentença
que condena Estêvão, Paulo, o perseguidor dos cristãos,
aquele que, dali a pouco, será escolhido por Deus para anunciar aos pagãos
o mistério escondido nos séculos e agora revelado.
E a história continua, sempre mais como história sacra: história
de Deus que escolhe e chama os homens à salvação, também
de formas imprevisíveis, e história de homens que se deixam chamar
e escolher por Deus.
Para nós podem ser suficientes essas notas para captar, na comunidade
das origens, os traços fundamentais da pastoral de uma Igreja toda
vocacional: no nível dos métodos e dos conteúdos, dos princípios
gerais, dos itinerários a percorrer e das estratégias específicas
para realizá-la.
Aspectos teológicos da pastoral vocacional
25. Mas, que teologia fundamenta, inspira e motiva a pastoral vocacional
enquanto tal?
A resposta é importante no nosso contexto, porque serve como elemento
mediador entre a teologia da vocação e uma práxis pastoral
coerente com ela, que nasça dessa teologia e a ela retorne. Com efeito,
sobre esse questionamento, o Congresso manifestou a exigência de uma
reflexão ulterior, no intuito de descobrir os motivos que ligam
intrinsecamente pessoas e comunidades à ação vocacional, e
para evidenciar uma melhor relação entre teologia da vocação,
teologia da pastoral vocacional e práxis pedagógico-pastoral.
« A pastoral das vocações nasce do mistério da
Igreja e se coloca a serviço dela ». (55) Por isso, o fundamento
teológico da pastoral das vocações « só pode
brotar da leitura do mistério da Igreja como mysterium vocationis
». (56)
João Paulo II recorda claramente, a respeito disso, que a « dimensão
vocacional é conatural e essencial à pastoral da Igreja »,
isto é, à sua vida e à sua missão. (57) Portanto, de
certo modo, antes de definir o seu operar, a vocação define o ser
profundo da Igreja. No próprio nome « Ecclesia », está
indicada a sua fisionomia vocacional, porque ela é realmente assembléia
de chamados. (58) Então, muito justamente o Instrumentum laboris
do Congresso nota que « a pastoral unitária se funda na
vocacionalidade da Igreja ». (59)
Por conseguinte, por sua natureza, a pastoral das vocações é
uma atividade que tem por fim o anúncio de Cristo e a evangelização
dos crentes em Cristo. Eis a resposta à nossa pergunta: precisamente no
chamado da Igreja a comunicar a fé se radica a teologia da
pastoral vocacional. Isso diz respeito à Igreja universal, mas se
atribui de modo especial a cada comunidade cristã, (60) especialmente no
atual momento histórico do Velho Continente. « Para esta sublime
missão de fazer florir uma nova idade de evangelização na
Europa, hoje se requerem evangelizadores especialmente preparados ». (61)
A propósito, convém lembrar alguns pontos firmes, indicados
pelo atual magistério pontifício, para que se tornem pontos de
partida da práxis pastoral das Igrejas particulares.
a) Uma vez evidenciada a dimensão vocacional da Igreja,
compreende-se que a pastoral vocacional não é um elemento acessório
ou secundário, com o único objetivo de recrutamento de agentes
pastorais, nem um movimento isolado ou setorial, determinado por uma situação
eclesial de emergência, mas uma atividade ligada ao ser da Igreja
e, portanto, também intimamente inserida na pastoral geral de cada
Igreja. (62)
b) Toda vocação cristã vem de Deus, mas chega à
Igreja e passa sempre através da sua mediação. A Igreja («
Ecclesia »), que por constituição natural é
vocação, é ao mesmo tempo geradora e educadora
de vocações. (63) Por conseguinte, « a pastoral
vocacional tem como sujeito ativo, como protagonista, a comunidade eclesial como
tal, nas suas diversas expressões: da Igreja universal à Igreja
particular e, analogamente, desta à paróquia e a todos os
componentes do Povo de Deus ». (64)
c) Todos os membros da Igreja, sem exclusão de nenhum, têm
a graça e a responsabilidade de cuidar das vocações. É
um dever que entra no dinamismo vital da Igreja e no processo do seu
desenvolvimento. Somente com base nessa convicção, a pastoral
vocacional poderá manifestar sua fisionomia verdadeiramente eclesial, e
desenvolver uma ação concorde, servindo-se também de
organismos específicos e de instrumentos adequados de comunhão e
corresponsabilidade. (65)
d) A Igreja particular descobre a própria dimensão
existencial e terrena na vocação de todos os seus membros à
comunhão, ao testemunho, à missão, ao serviço de
Deus e dos irmãos... Por isso, respeitará e promoverá a
variedade dos carismas e dos ministérios, portanto das diversas vocações,
todas elas manifestações do único Espírito
e) Base de toda a pastoral vocacional é a oração
ordenada pelo Salvador (Mt 9,38). Ela empenha não apenas os
indivíduos, mas também as inteiras comunidades eclesiais. (66) «
Devemos dirigir ao Dono da messe nossa oração incessante, para que
envie operários à sua Igreja, a fim de enfrentar as urgências
da nova evangelização ». (67)
Mas, vale a pena recordar, a autêntica oração vocacional
só merece esse nome e se torna eficaz, quando cria coerência de
vida, antes de tudo no próprio orante; e se associa, no resto da
comunidade crente, com o anúncio explícito e a catequese adequada,
para facilitar, nos chamados ao sacerdócio e à vida consagrada,
como a qualquer outra vocação cristã, aquela resposta
livre, pronta e generosa, que torna operante a graça da vocação.
(68)
Princípios gerais da pastoral vocacional
26. Em diversos lugares se percebe a necessidade de dar à pastoral um
claro timbre vocacional. Para atingir esse objetivo programático,
procuremos delinear alguns princípios teórico-práticos que
deduzimos da teologia da pastoral e, em particular, dos « pontos firmes »
a ela coligados. Concentremos esses princípios em torno de algumas afirmações
temáticas.
a) A pastoral vocacional é a perspectiva originária da
pastoral geral
O Instrumentum laboris do Congresso sobre as vocações o
afirma de forma explícita: « Toda a pastoral, e em particular a
juvenil, é por natureza vocacional »; (69) em outras palavras, dizer
vocação equivale a dizer dimensão constitutiva e essencial
da mesma pastoral ordinária, porque a pastoral, desde os inícios é,
por natureza, orientada para o discernimento vocacional. Esse é um serviço
prestado a toda pessoa, a fim de que possa descobrir o caminho para a realização
de um projeto de vida como Deus quer, segundo as necessidades da Igreja e do
mundo de hoje. (70)
Assim já foi dito no Congresso latino-americano sobre as vocações,
de 1994.
Mas a perspectiva se alarga: vocação não é só
o projeto existencial, mas o são todos e cada um dos chamados de Deus,
evidentemente sempre correlacionados com um plano fundamental de vida, de
qualquer modo disseminados ao longo de todo o arco da existência. A autêntica
pastoral torna o crente vigilante, atento aos muitíssimos chamados do
Senhor, pronto a captar a sua voz e a responder-Lhe.
É justamente a fidelidade a esse tipo de chamados quotidianos que
hoje torna o jovem capaz de reconhecer e acolher « o chamado » da sua
vida; e, amanhã, o adulto não apenas capaz de ser fiel a ele, mas
de descobrir sempre mais o seu frescor e a sua beleza. Toda vocação,
de fato, é « matutina », é a resposta de cada manhã
a um apelo novo a cada dia.
Por isso, a pastoral será perpassada de atenção
vocacional, para despertá-la em todo crente; partirá do intento
explícito de colocar o crente diante da proposta de Deus; fará o
possível para provocar no sujeito a assunção de
responsabilidades em relação ao dom recebido ou à Palavra
de Deus ouvida; de fato, procurará levar o crente a se comprometer
perante esse Deus. (71)
b) A pastoral vocacional é a vocação da pastoral
hoje
Nesse sentido, pode-se muito bem dizer que se deve « vocacionalizar
» toda a pastoral, ou fazer com que toda expressão da pastoral
manifeste, de modo claro e inequívoco, um projeto ou um dom de Deus feito
à pessoa, e estimule nessa uma vontade de resposta e de envolvimento
pessoal. Ou a pastoral cristã conduz a esse confronto com Deus, com tudo
o que isso implica em termos de tensão, de luta, às vezes de fuga
ou de rejeição, mas também de paz e alegria ligadas ao
acolhimento do dom, ou não merece tal nome.
Hoje isso se manifesta de uma maneira toda especial, a ponto de se poder
afirmar que a pastoral vocacional é a vocação da pastoral:
constitui talvez o seu principal objetivo, uma espécie de desafio à
fé das Igrejas da Europa. A vocação é o caso
mais sério da pastoral hodierna.
E então, se a pastoral em geral é « chamado » e
espera, hoje, a esse desafio, provavelmente ela deve ser mais corajosa e franca,
mais explícita em ir ao centro e ao coração da
mensagem-proposta, mais dirigida à pessoa e não apenas ao grupo,
mais feita de envolvimento concreto e não de vagos apelos a uma fé
abstrata e distante da vida.
Talvez deva ser também uma pastoral mais provocadora do que
consoladora; de qualquer forma, capaz de transmitir o sentido dramático
da vida do homem, chamado a fazer alguma coisa que ninguém pode fazer em
lugar dele.
No trecho que citamos, essa atenção e tensão vocacional
é evidente: na escolha de Matias, no discurso corajoso (« de pé
e com voz forte ») de Pedro à multidão, no modo como a
mensagem cristã é anunciada e recebida (« sentiram o coração
transpassado »).
Sobretudo aparece claramente na sua capacidade de mudar a vida daqueles que
aderem a ela, como se percebe nas conversões e no tipo de vida da
comunidade dos Atos.
c) A pastoral vocacional é gradual e convergente
Já vimos implicitamente que no homem, e ao longo de sua vida, existem
vários tipos de chamado: antes de tudo à vida, e depois, ao amor; à
responsabilidade do dom, por isso, da fé; ao seguimento de Jesus; ao
testemunho peculiar da própria fé; a ser pai ou mãe, e a um
serviço especial à Igreja ou à sociedade.
Faz animação vocacional quem, em primeiro lugar, tem presente
aquele rico complexo de valores e significados humanos e cristãos, do
qual nasce o sentido vocacional da vida e de todo vivente. Eles permitem abrir a
mesma vida a numerosas possibilidades vocacionais, convergindo depois na direção
da definitiva escolha pessoal.
Em outras palavras, para uma correta pastoral vocacional, é necessário
respeitar uma certa gradualidade, e partir dos valores fundamentais e
universais (o bem extraordinário da vida) e das verdades que são
tais para todos (a vida é um bem recebido que, por sua natureza, tende a
ser um bem doado), para passar depois a uma especificação
progressiva do chamado, sempre mais pessoal e concreta, crente e revelada.
No plano propriamente pedagógico, é importante formar primeiro
para o sentido da vida e a gratidão por ela; depois, transmitir
aquela atitude fundamental de responsabilidade em relação à
existência, que por sua natureza pede uma resposta conseqüente por
parte de cada um, na linha da gratuidade. Daqui se passa à
transcendência de Deus, Criador e Pai.
Somente a esse ponto é possível e convincente uma proposta
forte e radical (como sempre deveria ser a vocação cristã),
como a de dedicação a Deus na vida sacerdotal ou consagrada.
d) A pastoral vocacional é genérica e específica
Em suma, a pastoral vocacional parte necessariamente de uma idéia
ampla de vocação (e de conseqüente apelo dirigido a todos),
para depois se restringir e especificar de acordo com o chamado de cada um.
Nesse sentido, a pastoral vocacional é primeiro genérica, e
depois, específica, dentro de uma ordem que não parece razoável
inverter, e que, em geral, desaconselha a proposta imediata de uma vocação
especial, sem alguma catequese progressiva.
Por outro lado, sempre em força dessa ordem, a pastoral vocacional não
se limita a sublinhar de forma genérica o significado da existência,
mas impele a um envolvimento pessoal, numa escolha específica. Não
existe separação, e muito menos contraste, entre um apelo que
sublinha os valores comuns e fundantes da existência, e um apelo a servir
o Senhor « de acordo com a medida da graça recebida ».
O animador vocacional todo educador na fé não
deve ter medo de propor escolhas corajosas e de total doação,
embora difíceis e não conformes à mentalidade do século.
Portanto, se todo educador é animador vocacional, todo animador
vocacional é educador, e educador de toda vocação,
respeitando o seu carisma específico.
Cada chamado se liga a outro, na verdade o supõe e o solicita,
enquanto que todos juntos conduzem à mesma fonte e ao mesmo objetivo, que
é a história da salvação. Mas, cada um tem a sua
modalidade particular.
O autêntico educador vocacional não apenas indica as diferenças
entre um chamado e outro, respeitando as diversas tendências nos chamados
individuais, mas deixa entrever e lembra aquelas « supremas possibilidades »
de radicalidade e dedicação, que são abertas à vocação
de cada um e nela inseridas.
Educar em profundidade para os valores da vida, por exemplo, significa
propor (e aprender a propor) um caminho que naturalmente desemboque no
seguimento de Cristo e que pode conduzir à escolha do seguimento típico
do apóstolo, do presbítero ou doa religiosoa, do monge que
abandona o mundo, como do leigo consagrado no mundo.
Por outro lado, propor tal seguimento qualificado como objetivo de vida
exige, por sua natureza, uma atenção e formação prévia
para os valores elementares da vida, da fé, da gratidão-gratuidade,
da imitação de Cristo, requeridos de todo cristão.
Disso resulta uma estratégia vocacional teologicamente mais bem
fundada e também mais eficaz no plano pedagógico. Há quem
receie que o alargamento da idéia de vocação possa
prejudicar a específica promoção das vocações
ao sacerdócio e à vida consagrada; na realidade, é
exatamente o contrário.
A gradualidade no anúncio vocacional permite passar do objetivo ao
subjetivo, do genérico ao específico, sem antecipar nem queimar as
propostas, mas fazendo com que convirjam entre si e na direção
da proposta decisiva para a pessoa, a ser indicada na hora certa e calibrada com
cuidado, segundo um ritmo que considere o destinatário em situação.
A ordem harmônica e progressiva torna muito mais provocadora e acessível
a proposta decisiva à pessoa. Concretamente, quanto mais o jovem é
formado a passar com naturalidade da gratidão pelo dom da vida recebido à
gratuidade do bem doado, tanto mais será possível propor-lhe o dom
total de si a Deus como resultado natural e inevitável para alguns.
e) A pastoral vocacional é universal e permanente
Trata-se de uma dupla universalidade: com referência às pessoas
às quais é dirigida, e com referência à idade da
vida em que é feita.
Antes de tudo, a pastoral vocacional não conhece fronteiras. Como foi
dito acima, ela não se dirige apenas a algumas pessoas privilegiadas, ou
que já fizeram uma opção de fé; nem unicamente àqueles
de quem parece lícito esperar um assentimento positivo, mas se dirige a
todos, precisamente porque é fundada sobre valores elementares da
existência. Não é pastoral de elite, mas de povo; não
é um prêmio para os mais merecedores, mas graça e dom de
Deus para toda pessoa, porque todo vivente é chamado por Deus. Nem deve
ser entendida como alguma coisa que só alguns poderiam compreender ou
considerar interessante para a própria vida, porque todo ser humano é
inevitavelmente desejoso de se conhecer e de conhecer o sentido da vida e seu próprio
lugar na história.
Além disso, não é proposta feita apenas uma vez na vida
(de tipo « pegar ou largar ») e que na prática, depois de uma
recusa por parte do destinatário, è retirada. Ao invés, ela
deve ser como uma solicitação contínua, feita de formas
diversas e com inteligência propositiva, que não desiste diante de
um desinteresse inicial, que muitas vezes é apenas aparente ou defensivo.
Deve ser corrigida também a idéia de que a pastoral vocacional
seja exclusivamente juvenil, pois em cada idade da vida ressoa um convite do
Senhor a segui-lo, e somente em ponto de morte uma vocação pode se
dizer completamente realizada. Aliás, a morte é o chamado por
excelência, assim como existe um chamado na velhice, na passagem de uma
para outra fase da vida, nas situações de crise.
Existe uma juventude do espírito que permanece no tempo, na medida em
que o indivíduo se sente continuamente chamado e, em cada ciclo vital,
procura e encontra uma tarefa diferente a desempenhar, um modo específico
de ser, de servir e de amar, uma novidade de vida e de missão a
desempenhar. (72) Nesse sentido, a pastoral vocacional está ligada à
formação permanente da pessoa e é, ela mesma,
permanente. « Toda a vida e toda vida é uma resposta ». (73)
Nos Atos, Pedro e os Apóstolos não fazem absolutamente distinção
de pessoas, falam a todos, jovens e velhos, hebreus e estrangeiros: Partos,
Medos, Elamitas indicam justamente a grande massa sem diferenças nem
exclusões, às quais são dirigidos o anúncio e a
pro-vocação, com a arte de falar a cada um « na sua própria
língua », de acordo com as suas exigências, problemas,
expectativas, defesas, idade ou fase da vida.
É o milagre de Pentecostes e, portanto, dom extraordinário do
Espírito. Mas o Espírito está sempre conosco...
f) A pastoral vocacional é pessoal e comunitária
Pode parecer uma contradição, mas na realidade esse princípio
fala da natureza, em certo sentido ambivalente, da pastoral vocacional, capaz
quando autêntica de compor as duas polaridades do sujeito e da
comunidade. Do ponto de vista do animador vocacional, é urgente passar de
uma pastoral vocacional administrada por um agente isolado, a uma pastoral cada
vez mais entendida como ação comunitária, de toda a
comunidade nas suas diversas expressões: grupos, movimentos, paróquias,
dioceses, institutos religiosos e seculares...
Hoje a Igreja é sempre mais chamada a ser toda vocacional:
nela, « todo evangelizador deve tomar consciência de se tornar uma «
lâmpada » vocacional, capaz de suscitar uma experiência
religiosa que leve as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos
ao contato pessoal com Cristo. Nesse encontro se revelam as vocações
específicas ». (74)
Do mesmo modo, o destinatário da pastoral vocacional é
toda a Igreja. Se é toda a comunidade eclesial que chama, é
ainda toda a comunidade eclesial, sem qualquer exceção, que é
chamada. Polo emissor e receptor de certa forma se identificam, dentro das
diversas articulações ministeriais do tecido eclesial. Mas o princípio
é importante; é o reflexo daquela misteriosa identificação
entre chamador e chamado dentro da realidade trinitária.
Nesse sentido, a pastoral vocacional é comunitária. E,
sempre nesse sentido, é bonito que, no dia de Pentecostes, sejam todos os
Apóstolos a se dirigirem à multidão, e que depois Pedro
tome a palavra em nome dos doze. Também quando se trata de escolher tanto
Matias quanto Estêvão, e depois Barnabé e Saulo, toda a
comunidade participa do discernimento com a oração, o jejum, a
imposição das mãos.
Porém, ao mesmo tempo, é o indivíduo que deve
se fazer intérprete da proposta vocacional, é o crente que, em força
da sua fé, deve de certo modo tomar sobre si a vocação do
outro.
Portanto não cabe apenas aos presbíteros ou aos consagradosas
o ministério do apelo vocacional, mas a todo crente, aos pais, aos
catequistas, aos educadores.
Se é verdade que o apelo deve ser dirigido a todos, é
igualmente verdadeiro que o mesmo apelo deve ser personalizado, dirigido
a uma pessoa determinada, à sua consciência, dentro de uma relação
inteiramente pessoal.
Na dinâmica vocacional há um momento em que a proposta vai de
pessoa a pessoa, e tem necessidade de todo aquele clima especial que só a
relação individual pode garantir. Então, é verdade
que Pedro e Estêvão falam à multidão; mas depois
Saulo precisa de Ananias para discernir o que Deus quer dele (9, 13-17), como
também o eunuco com Filipe (8, 26-39).
g) A pastoral vocacional é a perspectiva unitário-sintética
da pastoral
Como é o ponto de partida, assim também é o ponto de
chegada. Enquanto tal, a pastoral vocacional se situa como a categoria
unificante da pastoral em geral, como a destinação natural de
todo esforço, o ancoradouro das várias dimensões, uma espécie
de elemento de avaliação da pastoral autêntica.
Repetimos: se a pastoral não chega a « transpassar o coração
» e a colocar o ouvinte diante da pergunta estratégica (« o que
devo fazer? »), não é pastoral cristã, mas hipótese
inócua de trabalho.
Conseqüentemente, a pastoral vocacional está e deve estar em
relação com todas as outras dimensões, por exemplo a
familiar e cultural, litúrgica e sacramental, com a catequese e o caminho
de fé no catecumenato; com os vários grupos de animação
e formação cristã (não apenas com os meninos e
jovens, mas também com os pais, com os noivos, com os doentes e os
idosos...) e de movimentos (do movimento pela vida às diversas
iniciativas de solidariedade social). (75)
Sobretudo, a pastoral vocacional é a perspectiva unificante da
pastoral juvenil.
Não se pode esquecer que a idade evolutiva é fortemente
projetual; e uma autêntica pastoral juvenil não pode deixar de lado
a dimensão vocacional; pelo contrário, deve assumi-la, porque
propor Jesus Cristo significa propor um específico projeto de vida.
Daqui uma fecunda colaboração pastoral, embora na distinção
dos dois âmbitos: seja porque a pastoral juvenil abraça outras
problemáticas além da vocacional, seja porque a pastoral
vocacional não diz respeito apenas ao mundo juvenil, mas tem um horizonte
mais amplo e com problemáticas específicas.
Além disso, pensamos o quanto poderia ser importante uma pastoral
vocacional-familiar que eduque progressivamente os pais a serem os
primeiros animadores-educadores vocacionais; o quanto seria preciosa uma
pastoral vocacional entre os doentes, que não convidasse
simplesmente os enfermos a oferecer os próprios sofrimentos pelas vocações
sacerdotais, mas que os ajudasse a viver a situação da doença
com toda a carga de mistério que ela contém, como vocação
pessoal, que o doente que tem fé tem o « dever » de viver para
e na Igreja, e o « direito » de ser ajudado pela Igreja a viver.
Essa ligação facilita o dinamismo pastoral, porque de fato lhe
é conatural: como os carismas, as vocações se procuram
entre si, se iluminam mutuamente, são complementares umas às
outras. Ao invés, isoladas se tornam incompreensíveis; nem faz
pastoral de Igreja quem permanece fechado no próprio setor especializado.
Naturalmente este discurso vale em duplo sentido: é a pastoral em
geral que deve confluir na animação vocacional para promover a opção
vocacional; mas é a pastoral vocacional que, por sua vez, deve estar
aberta às outras dimensões, inserindo-se e procurando saídas
naquelas direções.
Ela é o ponto terminal que sintetiza as várias pro-vocações
pastorais e permite fazê-las frutificar na história existencial de
cada crente. Definitivamente, a pastoral das vocações requer atenção,
mas em troca oferece uma dimensão destinada a tornar verdadeira e autêntica
a iniciativa pastoral de cada setor. A vocação é o coração
pulsante da pastoral unitária! (76)
Itinerários pastorais vocacionais
27. O ícone bíblico em torno do qual articulamos a nossa
reflexão permite-nos dar um passo à frente, procedendo dos princípios
teóricos à identificação de alguns itinerários
pastorais vocacionais.
Eles são caminhos comunitários de fé, correspondentes a
funções eclesiais bem precisas, e a dimensões clássicas
do ser crente, ao longo dos quais a fé matura e se torna mais manifesta
ou se confirma progressivamente a vocação do indivíduo, a
serviço da comunidade eclesial.
A reflexão e a tradição da Igreja indicam que,
normalmente, o discernimento vocacional se dá ao longo de alguns caminhos
comunitários bem definidos: a liturgia e a oração, a comunhão
eclesial, o serviço da caridade, a experiência do amor de Deus
recebido e oferecido no testemunho. Graças a eles, na comunidade descrita
nos Atos, « multiplicava-se grandemente o número dos discípulos
em Jerusalém » (At 6,7).
Também hoje, a pastoral deveria palmilhar essas estradas para
estimular e acompanhar a caminhada vocacional dos crentes. Uma experiência
pessoal e comunitária, sistemática e empenhativa nessas direções,
poderia e deveria ajudar o indivíduo crente a descobrir o apelo
vocacional.
E isso tornaria a pastoral realmente vocacional.
a) A liturgia e a oração
A liturgia significa e indica ao mesmo tempo a expressão, a origem e
o alimento de toda vocação e ministério na Igreja. Nas
celebrações litúrgicas se faz memória do agir de
Deus no Espírito, a que se ligam todas as dinâmicas vitais do cristão.
Na liturgia, que culmina com a Eucaristia, se exprime em toda a sua plenitude, a
vocação-missão da Igreja e de todo crente.
Da liturgia vem sempre um apelo vocacional para quem participa. (77) Toda
celebração é um evento vocacional. No mistério
celebrado o crente não pode deixar de reconhecer a própria vocação
pessoal, não pode deixar de ouvir a voz do Pai que, no Filho, pela força
do Espírito, o chama a se doar igualmente pela salvação do
mundo.
A oração também se torna caminho para o discernimento
vocacional, não só porque Jesus mesmo convidou a rogar ao dono da
messe, mas porque é somente na escuta de Deus que o crente pode chegar a
descobrir o projeto que Deus mesmo traçou: no mistério
contemplado, o crente descobre a própria identidade, « escondida com
Cristo em Deus » (Cl 3,3).
E mais, a oração é a ?única que pode acionar
aquelas atitudes de confiança e de abandono, indispensáveis para
pronunciar o próprio « sim» e superar medos e incertezas. Toda
vocação nasce da in-vocação.
Mas a experiência pessoal da oração, como diálogo
com Deus, também pertence a essa dimensão: mesmo quando é «
celebrada » na intimidade da própria « cela », é
relação com aquela paternidade da qual deriva toda vocação.
Tal dimensão é mais evidente do que nunca na experiência da
Igreja das origens, cujos membros eram assíduos « na fração
do pão e na oração » (At 2,42). Em tal
comunidade, toda decisão era precedida pela oração; toda
escolha, sobretudo para a missão, se dava num contexto litúrgico (At
6,1-7; 13,1-5).
É a lógica orante que a comunidade havia aprendido com Jesus
quando, diante das « multidões cansadas e combalidas como rebanho
sem pastor, ele havia dito: « A messe é grande mas os operários
são poucos. Por isso, rogai ao Dono da messe, para que mande operários
à sua messe » « (Mt 9, 36-38; Lc 10,2).
Nestes últimos anos, as comunidades cristãs da Europa têm
desenvolvido múltiplas iniciativas de oração pelas vocações,
que encontraram grande ressonância no Congresso. Em muitos casos, nas
comunidades diocesanas e paroquiais, a oração que se tornou «
incessante », dia e noite, é uma das estradas mais percorridas para
criar nova sensibilidade e nova cultura vocacional favorável ao sacerdócio
e à vida consagrada.
O ícone evangélico do « Dono da messe » conduz ao
coração da pastoral das vocações: a oração.
Oração que sabe « olhar » com sabedoria evangélica
o mundo e cada homem na realidade de suas necessidades de vida e de salvação.
Oração que exprime a caridade e a « compaixão » (Mt
9,36) de Cristo para com a humanidade, que hoje também se mostra como «
um rebanho sem pastor » (Mt 9,36). Oração que exprime
a fé na voz poderosa do Pai, o único que pode chamar e enviar para
trabalhar na sua vinha. Oração que exprime a viva esperança
em Deus, que jamais deixará faltar à Igreja os « operários
» (Mt 2,38) necessários para levar a bom termo a sua missão.
No Congresso, suscitaram muito interesse os testemunhos sobre a experiência
de lectio divina em perspectiva vocacional. Em algumas dioceses, são
muito difundidas as « escolas de oração » ou «
escolas da Palavra ». O princípio em que se inspiram é
aquele, já clássico, contido na Dei Verbum: « Todos
os fiéis adquiram a sublime ciência de Jesus Cristo, com a leitura
freqüente da Divina Escritura, acompanhada pela oração ».
(78)
Quando tal ciência se torna sabedoria que se nutre de freqüentação
habitual, os olhos e os ouvidos do crente se abrem ao reconhecer a Palavra que
chama sem cessar. Então o coração e a mente estão em
condição de acolhê-la e de vivê-la sem medo.
b) A comunidade eclesial
A primeira função vital que brota da liturgia é a
manifestação da comunhão que se vive dentro da Igreja, como
povo reunido em Cristo através da sua cruz, como comunidade em que toda
divisão foi superada para sempre, no Espírito de Deus que é
espírito de unidade (Ef 2,11-22; Gal 3,26; Jo 17,
9-26)
A Igreja se propõe como o espaço humano de fraternidade em que
todo crente pode e deve fazer experiência daquela união entre os
homens e com Deus que é dom do Alto. Dessa dimensão eclesial são
um esplêndido exemplo os Atos dos Apóstolos, onde é descrita
uma comunidade de crentes profundamente marcada pela união fraterna, pela
partilha dos bens materiais e espirituais, dos afetos e dos sentimentos (At
4,32), a ponto de ser « um só coração e uma só
alma » (At 4,32).
Se toda vocação na Igreja é um dom a ser vivido para
os outros, como serviço de caridade na liberdade, então é
também um dom a ser vivido com os outros. Por isso, só se
descobre quando se vive em fraternidade.
A fraternidade eclesial não é apenas virtude comportamental,
mas itinerário vocacional. Só vivendo é possível
escolhê-la como componente fundamental de um projeto vocacional, ou só
saboreando-a é possível abrir-se a uma vocação que,
em qualquer caso, será sempre vocação à
fraternidade.(79)
Pelo contrário, não pode sentir nenhum atrativo vocacional
quem não experimenta alguma fraternidade e se fecha ao relacionamento com
os outros, ou interpreta a vocação apenas como perfeição
privada e pessoal.
Vocação é relação; é manifestação
do homem que Deus criou aberto à relação; e mesmo no caso
de uma vocação à intimidade com Deus, na vocação
claustral, implica uma capacidade de abertura e de partilha que só pode
ser adquirida com a experiência de uma fraternidade real. « A superação
de uma visão individualista do ministério e da consagração,
da vida nas comunidades cristãs isoladas, é uma decisiva contribuição
histórica ». (80)
A vocação é diálogo, é sentir-se chamado
por um Outro, e ter a coragem de responder-Lhe. Como essa capacidade de diálogo
pode amadurecer em quem não aprendeu, na vida de todos os dias e nas relações
quotidianas, a deixar-se chamar, a responder, a reconhecer o eu no tu? Como pode
se fazer chamar pelo Pai quem não se preocupa de responder ao irmão?
A partilha com o irmão e com a comunidade dos crentes se torna, então,
estrada ao longo da qual se aprende a tornar os outros participantes dos próprios
projetos, para acolher em si o plano traçado por Deus. Plano que será,
sempre e de qualquer forma, projeto de fraternidade.
Uma experiência de partilha da Palavra, apontada por algumas Igrejas
européias, é constituída por centros de escuta,
isto é, grupos de crentes que se encontram periodicamente em suas casas,
para redescobrir a mensagem cristã e trocar as próprias experiências
e os dons de interpretação da mesma Palavra.
Para os jovens, esses centros têm uma conotação
vocacional na escuta da Palavra que chama, na catequese e na oração
vividas de modo mais pessoal e envolvente, mais livre e criativo. Assim, o
centro de escuta se torna estímulo à corresponsabilidade eclesial,
porque ali se podem descobrir os diversos modos de servir à comunidade e,
muitas vezes, maturar vocações específicas.
Outra experiência positiva de itinerário vocacional nas Igrejas
particulares e nos vários Institutos de vida consagrada é a comunidade
de acolhimento que realiza o convite de Jesus: « Vinde e vereis ».
O Sumo Pontífice a definiu como « a regra de ouro da pastoral
vocacional ». (81)
Nessas comunidades ou centros de orientação vocacional, graças
a uma experiência muito específica e imediata, os jovens podem
fazer um verdadeiro e gradual caminho de discernimento. São acompanhados,
para que, no momento certo, tenham condição não só
de identificar o projeto de Deus sobre eles, mas de decidir a escolhê-lo
como própria identidade.
c) O serviço da caridade
É uma das funções mais típicas da comunidade
eclesial. Consiste em viver a experiência da liberdade em Cristo, naquele
supremo vértice que é constituído pelo serviço. «
Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso
servo » (Mt 20,26), « quem quiser ser o primeiro, seja o servo
de todos » (Mc 9,35). Na Igreja primitiva essa lição
parece ter sido aprendida muito depressa, uma vez que o serviço aparece
como um dos componentes estruturais dela, a ponto de serem instituídos os
diáconos, justamente para « o serviço das mesas ».
Justamente porque o crente vive por graça a experiência de
liberdade em Cristo, ele é chamado a ser testemunha de liberdade e agente
de libertação para os homens. Daquela libertação que
se realiza não com a violência e o domínio, mas com o perdão
e o amor, com o dom de si e o serviço, a exemplo de Cristo Servo. É
o serviço da caridade, cujas possibilidades de expressão não
têm limite.
É talvez, a estrada real, num itinerário vocacional, para
discernir a própria vocação, para que a experiência
de serviço, especialmente onde é bem preparada, guiada e penetrada
no seu significado mais verdadeiro, é experiência de grande
humanidade, que leva a conhecer melhor a si mesmo e a dignidade dos outros, além
da beleza de se dedicar aos outros.
O autêntico servo na Igreja é aquele que aprendeu a saborear
como um privilégio poder lavar os pés dos irmãos mais
pobres; é aquele que conquistou a liberdade de perder o próprio
tempo com as necessidades alheias. A experiência do serviço é
uma experiência de grande liberdade em Cristo.
Quem serve o irmão, inevitavelmente encontra Deus, e entra em
sintonia especial com Ele. Não lhe será difícil descobrir a
sua Vontade sobre si e, sobretudo, sentir-se atraído a cumpri-la. E, em
qualquer caso, será uma vocação de serviço à
Igreja e ao mundo.
Foi assim para muitíssimas vocações nestas últimas
décadas. A animação vocacional do pós-Concílio
passou progressivamente da « pastoral da propaganda » à «
pastoral do serviço », de modo especial aos mais pobres e
necessitados.
Muitos jovens realmente encontraram Deus e a si mesmos, a finalidade da vida
e a verdadeira felicidade, doando tempo e atenções aos irmãos,
a ponto de dedicar a eles, não uma parte da vida, mas a existência
inteira.
De fato, a vocação cristã é existência
para os outros.
d) O testemunho-anúncio do Evangelho
Ele é a proclamação da proximidade de Deus junto do
homem, ao longo de toda a história da salvação, de modo
especial, em Cristo e, portanto, também das entranhas de misericórdia
do Pai pelo homem, para que tenha a vida em abundância. Tal anúncio
está na origem do caminho de fé de todo crente. De fato, a fé
é um dom recebido de Deus e testemunhado com o exemplo da comunidade
crente e, nela, de tantos irmãos e irmãs, bem como através
da instrução catequística sobre as verdades do evangelho.
Mas a fé precisa ser transmitida, e chega o tempo em que todo
testemunho se torna dom ativo: o dom recebido se torna dom doado através
do testemunho pessoal e do anúncio pessoal.
O testemunho da fé envolve o homem todo e só pode ser dado com
a totalidade da existência e da própria humanidade, com todo o coração,
com toda a mente, com todas as forças, até o dom da vida,
inclusive cruento.
É interessante esse crescendo de significados do termo, um crescendo
que, no fundo, encontramos no trecho bíblico que nos vem servindo de
guia: vejam o testemunho-catequese de Pedro e dos Apóstolos no dia de
Pentecostes e, sucessivamente, a corajosa catequese de Estêvão que
culminou no seu martírio (At 6,8; 7,60), e dos Apóstolos «
contentes de terem sido ultrajados por amor do nome de Jesus » (At
5,41).
Mais interessante ainda é descobrir como esse testemunho-anúncio
evangélico pode tornar-se específico itinerário vocacional.
A consciência grata por ter recebido o dom da fé deveria se
traduzir regularmente em desejo e vontade de transmitir aos outros o que se
recebeu, seja através do exemplo da própria vida, seja através
do ministério da catequese. Depois, essa « é destinada a
iluminar as múltiplas situações da vida, ensinando cada um
a viver a própria vocação cristã no mundo ».
(82) E, se o catequista é também, antes de tudo, uma testemunha,
tal dimensão vocacional aparecerá ainda mais evidente. (83)
O Congresso confirmou a importância da catequese em perspectiva
vocacional, e indicou na celebração do sacramento da Confirmação
um extraordinário itinerário vocacional para pré-adolescentes
e adolescentes.
A idade da Crisma poderia ser justamente « a idade da vocação
», fase da orientação teológica e pedagogicamente
qualificada pela descoberta e realização do dom recebido, e também
pelo testemunho dele.
A ação catequística deveria suscitar a capacidade de
reconhecer e de manifestar o dom do Espírito. (84)
O encontro direto de crentes que vivem com fidelidade e coragem a própria
vocação, de testemunhas credíveis que oferecem experiências
concretas de vocações realizadas, pode ser decisivo para ajudar os
crismandos a descobrir e acolher o chamado de Deus.
Em qualquer caso, a vocação sempre tem origem na consciência
de um dom, e de uma consciência tão grata que acha inteiramente lógico
colocar a serviço dos outros a própria experiência, para se
encarregar do seu crescimento na fé.
Quem vive com atenção e generosidade o testemunho da fé,
não tardará a captar o projeto de Deus a seu respeito, para
dedicar à sua realização todas as energias de que dispõe.
Dos itinerários pastorais ao chamado pessoal
28. Em síntese, poderíamos dizer que nas dimensões da
liturgia, da comunhão eclesial, do serviço da caridade e do
testemunho do evangelho se condensa a condição existencial de todo
crente. Essa é a sua dignidade e a sua vocação fundamental,
mas é também a condição para que cada qual possa
descobrir a sua identidade peculiar.
Portanto, todo crente deve viver o comum evento da liturgia, da comunhão
fraterna, do serviço caritativo e do anúncio do evangelho, porque
só através de tal experiência global poderá
identificar o seu modo particular de viver essas mesmas dimensões
do ser cristão. Por conseguinte, esses itinerários eclesiais devem
ser privilegiados, representam de certo modo a estrada-mestra da pastoral
vocacional, graças à qual o mistério da vocação
de cada um pode se revelar.
Afinal, são itinerários clássicos, que pertencem à
própria vida de cada comunidade que pretenda dizer-se cristã, e ao
mesmo tempo revelam a sua solidez ou precariedade. Justamente por isso, não
somente representam um caminho obrigatório, mas sobretudo dão
garantia à autenticidade da busca e do discernimento.
Por um lado, essas quatro dimensões e funções provocam
um envolvimento global da pessoa; por outro lado conduzem ao limiar de uma
experiência muito pessoal, de um forte confronto, de um apelo impossível
de se ignorar, de uma decisão a ser tomada e que não pode ser
adiada indefinidamente. Por isso, a pastoral vocacional deverá
expressamente ajudar a fazer obra de identificação, através
de uma experiência profunda e globalmente eclesial, que leve cada crente «
à descoberta e assunção da própria responsabilidade
na Igreja ». (85)
As vocações que não nascem dessa experiência e
dessa inserção na ação comunitária eclesial
correm o risco de ser viciadas na raiz, e de autenticidade duvidosa.
Obviamente, tais dimensões devem estar todas presentes,
harmoniosamente coordenadas por uma experiência que só poderá
ser decisiva se for totalizante.
Na verdade, muitas vezes há jovens que espontaneamente privilegiam
uma ou outra dessas funções (ou empenhados unicamente no
voluntariado, ou demasiado atraídos pela dimensão litúrgica,
ou grandes teóricos um tanto idealistas). Então será
importante que o educador vocacional provoque no sentido de um compromisso que não
seja feito segundo a medida dos gostos do jovem, mas na medida objetiva da
experiência de fé, a qual, por definição, não
pode ser algo de domesticável. Somente o respeito a essa medida objetiva
pode deixar entrever a própria medida subjetiva.
Nesse sentido, a objetividade precede a subjetividade, e o jovem deve
aprender a dar-lhe precedência, se realmente quiser descobrir a si mesmo e
aquilo que é chamado a ser. Ou melhor, se faz questão de ser ele
mesmo, deve realizar primeiro aquilo que é pedido a todos.
Não só, mas aquilo que é objetivo, regulado em base a
uma norma e uma tradição, e tendo em mira um objetivo determinado
que transcende a subjetividade, tem uma notável força de atração
e de tração vocacional. Naturalmente a experiência objetiva
deverá se tornar também subjetiva, ou ser reconhecida pelo indivíduo
como sua. No entanto, sempre a partir de uma fonte ou de uma verdade que não
cabe ao sujeito determinar, e que se vale da rica tradição da fé
cristã. Em última análise, « a pastoral vocacional tem
as etapas fundamentais de um itinerário de fé ».(86) Isso
também demonstra a gradualidade e depois a convergência da pastoral
vocacional.
Dos itinerários às comunidades cristãs
a) A comunidade paroquial
29. O Congresso europeu teve, entre outros, um objetivo: levar a pastoral
vocacional ao vivo das comunidades cristãs paroquiais, lá onde as
pessoas vivem e onde os jovens, de modo especial, são mais ou menos
significativamente envolvidos numa experiência de fé.
Trata-se de fazer a pastoral vocacional sair do círculo dos
encarregados do trabalho, para chegar aos sulcos periféricos da Igreja
particular.
Mas, ao mesmo tempo, é urgente superar a fase experiencialista,
vigente em muitas Igrejas da Europa, para passar a verdadeiros caminhos
pastorais, enxertados no tecido das comunidades cristãs, valorizando o
que já é vocacionalmente eloqüente.
Uma atenção especial deve ser dada ao ano litúrgico,
que é uma escola permanente de fé, na qual todo crente, ajudado
pelo Espírito Santo, é chamado a crescer segundo Jesus. Do
advento, tempo da esperança, a pentecostes e ao tempo comum, o caminho
ciclicamente recorrente do ano litúrgico celebra e prospecta um modelo de
homem chamado a se medir com o mistério de Jesus, o « primogênito
entre muitos irmãos » (Rm 8,29).
A antropologia que o ano litúrgico leva a explorar é um plano
autenticamente vocacional, que solicita cada cristão a responder sempre
mais ao chamado, para uma missão precisa e pessoal na história.
Daqui a atenção aos itinerários quotidianos em que cada
comunidade cristã é envolvida. A sabedoria pastoral requer dos
pastores, de modo especial guias das comunidades cristãs, um cuidado
constante e um atento discernimento para fazer falarem os sinais litúrgicos,
as vivências da experiência de fé; porque é da presença
de Cristo nos tempos ordinários do homem que vêm os apelos
vocacionais do Espírito.
Não se pode esquecer que o pastor, sobretudo o presbítero,
responsável por uma comunidade cristã, é o «
cultivador direto » de todas as vocações.
Na verdade, não é em todos os lugares que se reconhece a plena
titularidade vocacional da comunidade paroquial; enquanto são justamente «
os Conselhos Pastorais diocesanos e paroquiais, em relação com os
centros vocacionais nacionais, ... os órgãos competentes em todas
as comunidades e em todos os setores da pastoral ordinária ». (87)
Portanto, deve ser encorajada a iniciativa daqueles párocos que
constituíram no próprio âmbito grupos de responsáveis
pela animação vocacional e das várias atividades para
resolver « um problema que se coloca no próprio coração
da Igreja » (88) (grupos de oração, dias e semanas
vocacionais, catequese e testemunhos, e tudo mais que possa contribuir para
manter elevada a tensão vocacional). (89)
b) Os « lugares-sinal » da vida-vocação
Nessa passagem urgente e delicada, de uma pastoral vocacional das experiências
a uma pastoral vocacional de caminhos, é preciso fazer falar não só
de apelos vocacionais provenientes dos itinerários que atravessam a vida
ferial da comunidade cristã, mas é coisa sábia tornar
significativos os lugares-sinal da vida como vocação e os
lugares pedagógicos da fé. Uma Igreja é viva se,
com os dons do Espírito, sabe perceber e valorizar tais lugares.
Os lugares-sinal da vocacionalidade da existência numa Igreja
particular são as comunidades monásticas, testemunhas da face
orante da comunidade eclesial; as comunidades religiosas apostólicas e as
fraternidades de vida consagrada dos institutos seculares.
Num contexto cultural fortemente voltado para as coisas penúltimas e
imediatas, atravessado pelo vento gélido do individualismo, as
comunidades orantes e apostólicas abrem dimensões verdadeiras de
vida autenticamente cristã, sobretudo para as últimas gerações
claramente mais atentas aos sinais do que às palavras.
Sinal particular da vocacionalidade da vida é a comunidade do seminário
diocesano ou interdiocesano. Em nossas Igrejas, ele passa por uma situação
singular. Por um lado é um sinal forte, porque constitui uma
promessa de futuro. Os jovens que vão ali, filhos desta geração,
serão os padres de amanhã. Não só: o seminário
relembra continuamente a vocacionalidade da vida e a urgência do ministério
ordenado para a existência de uma comunidade cristã. Por outro
lado, o seminário é um sinal fraco: porque exige uma atenção
constante da Igreja particular; solicita uma séria pastoral vocacional
para recomeçar a cada ano com novos candidatos. E também a
solidariedade econômica pode ser uma solicitação pedagógica,
para educar o povo de Deus à oração por todas as vocações.
c) Os lugares pedagógicos da fé
Além dos lugares-sinal são preciosos os lugares
pedagógicos da pastoral vocacional constituídos pelos grupos,
pelos movimentos, pelas associações e pela escola.
Para além da diferente configuração sociológica
de tais formas de agregação, sobretudo em nível juvenil,
merece apreço a sua validade pedagógica, como lugares em que as
pessoas podem ser sabiamente ajudadas a atingir uma verdadeira maturação
de fé.
Isso pode ser eficazmente perseguido se não forem descuidadas três
dimensões da experiência cristã: a vocação de
cada um, a comunhão da Igreja e a missão com a Igreja.
d) Figuras de formadores e de formadoras
Uma outra atenção pedagógica pastoral é proposta
com insistência especial neste exato momento histórico: a formação
de figuras educativas.
De fato, um pouco em toda parte, é mais do que conhecida a fraqueza e
a problematicidade dos lugares pedagógicos da fé, colocados a dura
prova pela cultura do individualismo, do agregacionismo espontâneo, ou
pela crise das instituições.
Por outro lado emerge, sobretudo nos jovens, a necessidade de confronto, de
diálogo, de pontos de referência. São muitos os sinais a
respeito disso. Em suma, existe uma urgência de mestres de vida
espiritual, de figuras significativas, capazes de evocar o mistério de
Deus, e dispostos à escuta para ajudar as pessoas a entrar em sério
diálogo com o Senhor.
As personalidades espirituais fortes não são apenas algumas
pessoas particularmente dotadas de carisma, mas são o resultado de uma
formação particularmente atenta ao primado absoluto do Espírito.
No cuidado das figuras educativas das nossas comunidades, duas atenções
devem estar sabiamente presentes: de um lado se trata de tornar explícita
e vigilante a consciência educativa vocacional em todas aquelas pessoas
que já são chamadas a atuar na comunidade, junto aos adolescentes
e aos jovens (sacerdotes, religiososas e leigos).
Por outro lado, deve ser cuidadosamente encorajada e formada a ministerialidade
educativa da mulher, para que sobretudo junto às jovens
seja uma figura de referência e guia sapiente. De fato, a mulher está
muito presente nas comunidades cristãs, e são mais que conhecidas
as capacidades intuitivas do « gênio feminino » e a vasta experiência
da mulher no campo educativo (família, escola, grupos, comunidades).
O aporte da mulher deve ser considerado muito precioso, para não
dizer decisivo, sobretudo no âmbito do mundo juvenil feminino, não
redutível ao masculino, porque requer uma reflexão mais atenta e
específica, sobretudo no terreno vocacional.
Talvez isso também faça parte daquela virada que caracteriza a
pastoral vocacional. Enquanto no passado também as vocações
femininas brotavam de figuras significativas de pais espirituais, autênticos
guias de pessoas e de comunidades, hoje as vocações femininas têm
necessidade de ter como ponto de referência figuras femininas, pessoais e
comunitárias, capazes de dar concretude às propostas de modelos,
além das de valores.
e) Os organismos de pastoral vocacional
Para se propor como perspectiva unitária e sintética da
pastoral em geral, a pastoral vocacional primeiro deve exprimir, dentro do próprio
âmbito, a síntese e a comunhão dos carismas e dos ministérios.
Faz tempo que na Igreja se percebeu a necessidade dessa coordenação
(90) que, graças a Deus, já tem produzido frutos notáveis:
Organismos paroquiais, Centros vocacionais diocesanos e nacionais em
funcionamento há vários anos e com grande vantagem.
Porém, não acontece o mesmo em toda parte. O Congresso agora
celebrado lamentou em certos casos a ausência, ou a pouca incidência
dessas estruturas em algumas nações européias, (91) e faz
votos de que, o mais depressa possível, elas sejam regularmente instituídas
ou adequadamente potencializadas.
Em vários lugares ainda se observa que, enquanto os Centros nacionais
parecem garantir um notável aporte de estímulos construtivos para
a pastoral vocacional de conjunto, nem todos os Centros diocesanos parecem
animados da mesma vontade de trabalhar e de colaborar realmente pelas vocações
de todos. Existe um certo projeto geral de pastoral unitária, que ainda
tem bastante dificuldade para se transformar em práxis de Igreja local e,
de certo modo, parece tropeçar quando se passa das propostas gerais à
tradução capilar na realidade diocesana ou paroquial. Aqui, de
fato, ainda não desapareçam de todo perspectivas e práxis
particularistas e menos eclesiais. (92)
No que diz respeito aos Centros diocesanos e nacionais, mais do que insistir
aqui sobre o que vários documentos já sublinham de maneira
exem-plar a respeito da função deles, parece necessário
lembrar que não se trata simplesmente de uma questão de organização
prática, mas de coerência com um espírito novo que deve
permear a pastoral vocacional da Igreja e, em particular, nas Igrejas da Europa.
A crise vocacional é também crise de co-munhão em promover
e fazer crescer as vocações. Onde não se vive um espírito
autenticamente eclesial, não podem nascer vocações.
Além de recomendar uma retomada de empenho nesse campo, e uma ligação
mais estreita entre Centro nacional, Centros diocesanos e organismos paroquiais,
o Congresso e este Documento fazem votos de que tais organis-mos assumam com
todo o coração duas questões: a promoção de
uma autêntica cultura vocacional na sociedade civil e eclesial, e a formação
dos educadores-formadores vocacionais, verdadeiro elemento central e estratégico
da atual pastoral vocacional. (93)
Além disso, o Congresso pede que se tome em séria consideração
para a Europa a constituição de um organismo ou Centro unitário
de pastoral vocacional supranacional, como sinal e expressão
concretade comunhão e condivisão, de coordenação e
intercâmbio de experiências e pessoas entre as várias Igrejas
nacionais, (94) salvaguardando as peculiaridades de cada uma.
QUARTA PARTE
PEDAGOGIA DAS VOCAÇÕES
« Não se nos abrasava o coração...? »
(Lc 24,32)
Esta parte pedagógica deve ser entendida no contexto do
evangelho, a exemplo daquele extraordinário animador-educador vocacional
que é Jesus, e em vista de uma animação vocacional marcada
por preciosas atitudes pedagógicas evangélicas: semear,
acompanhar, educar, formar, discernir.
Chegamos à última seção, aquela que, na lógica
do documento, deveria representar a parte metodológico aplicativa. De
fato, partimos da análise da situação concreta, para
definir os elementos teológicos fundamentais do tema da vocação,
e depois procuramos voltar ao caminho concreto das nossas comunidades crentes,
para delinear o sentido e a direção da pastoral das vocações.
Agora resta-nos ver a dimensão pedagógica da pastoral
vocacional.
Crise vocacional e crise educativa
30. Muitas vezes, nas nossas Igrejas, os objetivos são claros e também
as estratégias de fundo, mas ficam um pouco indefinidos os passos a serem
dados para suscitar nos nossos jovens a disponibilidade vocacional; e isso
porque, antes, é um pouco fraca uma certa estrutura educativa, dentro e
fora da Igreja, aquela estrutura que depois deveria apresentar, juntamente com a
exatidão do objetivo a ser alcançado, também os percursos
pedagógicos que a ele conduzem. Com o realismo habitual, o diz ainda o
Instrumentum laboris: « Estamos notando... a inconsistência
de muitos lugares-pedagógicos (grupo, comunidade orante, escola e,
sobretudo, família) ». (95) A crise vocacional certamente é
também crise de proposta pedagógica e de caminho educativo.
Procuraremos então, sempre a partir da Palavra de Deus, indicar
justamente essa convergência entre finalidade e método, na convicção
de que uma boa teologia normalmente se traduz em prática, torna-se
pedagogia, faz entrever percursos, com o sincero desejo de oferecer uma ajuda
aos vários agentes pastorais, um instrumento útil a todos.
O evangelho da vocação
31. Todo encontro ou diálogo no evangelho tem um significado
vocacional: quando Jesus caminha pelas estradas da Galiléia, é
sempre enviado pelo Pai para chamar o homem à salvação e
revelar-lhe o projeto do Pai. A boa notícia, o evangelho, é
justamente esta: o Pai chamou o homem através do Filho, no Espírito;
chamou-o não somente à vida, mas à redenção,
e não só uma redenção merecida por outros, mas a uma
redenção que o envolve pessoalmente, tornando-o responsável
pela salvação de outros.
A pedagogia da vocação
32. Procuramos dentro desse evangelho uma pedagogia correspondente, que é
a de Jesus, autêntica pedagogia da vocação. É
a pedagogia que todo animador vocacional ou todo evangelizador deveria aplicar
sempre, a fim de conduzir o jovem a reconhecer o Senhor que o chama e a
responder-lhe.
Se o ponto de referência da pedagogia vocacional é o mistério
de Cristo, o Filho de Deus feito homem, no seu agir « vocacional » há
muitos aspectos e significativas dimensões.
Antes de tudo, nos evangelhos Jesus nos é apresentado muito mais como
formador do que como animador, justamente porque age sempre em estreitíssima
união com o Pai, que espalha a semente da Palavra e educa
(tirando do nada), e com o Espírito que acompanha no caminho de
santi-ficação.
Tais aspectos abrem importantes perspectivas para quem trabalha na pastoral
das vocações e, por isso mesmo, é chamado a ser não
só animador vocacional mas, antes ainda, semeador da boa semente
da vocação, e depois acompanhador no caminho que leva o
coração a « arder », educador para a fé e
a escuta do Deus que chama, formador de atitudes humanas e cristãs
de resposta ao apelo de Deus; (96) e, por fim, é chamado a discernir
a presença do dom que vem do Alto.
São as cinco características centrais do ministério
vocacional, ou as cinco dimensões do mistério do chamado
que vem de Deus e chega ao homem através da mediação de um
irmão ou irmã, ou de uma comunidade.
Semear
33. « Saiu o semeador a semear. E, enquanto semeava, parte da semente
caiu na estrada e vieram os passarinhos e a devoraram. Uma outra parte caiu em
solo pedregoso, onde havia pouca terra; logo brotou, porque o terreno não
era profundo. Mas, quando o sol despontou, ficou queimada, por falta de raízes.
Uma outra parte caiu entre espinheiros; os espinhos cresceram e a sufocaram.
Outra parte, enfim, caiu em terra boa e produziu fruto, cem por um, sessenta por
um, trinta por um » (Mt 13, 3-8).
De certo modo, esse trecho indica o primeiro passo de um caminho pedagógico,
a primeira atitude por parte daquele que se coloca como mediador entre Deus que
chama e o homem que é chamado, e que se inspira necessariamente no agir
de Deus. O semeador é Deus-Pai; a Igreja e o mundo são os lugares
onde ele continua a espalhar abundantemente a sua semente, com liberdade
absoluta e sem qualquer tipo de exclusão, uma liberdade que respeita
aquela do terreno onde a semente cai.
a) Duas liberdades em diálogo
A parábola do semeador mostra que a vocação cristã
é um diálogo entre Deus e a pessoa humana. O principal
interlocutor é Deus, que chama quem quer, quando quer e como quer, «
segundo o seu propósito e a sua graça » (2 Tm 1,9);
que chama todos à salvação, sem se deixar limitar pelas
disposições do receptor. Mas a liberdade de Deus se encontra com a
liberdade do homem, num diálogo misterioso e fascinante, feito de
palavras e de silêncios, de mensagens e de atos, de olhares e de gestos,
uma liberdade que é perfeita, a de Deus, e outra imperfeita, a humana.
Portanto, a vocação é totalmente atividade de Deus, mas é
também realmente atividade do homem: trabalho e penetração
de Deus no coração da liberdade humana, mas também esforço
e luta do homem para ser livre para acolher o dom.
Quem se coloca ao lado de um irmão, no caminho de discernimento
vocacional, entra no mistério da liberdade, e sabe que só poderá
dar uma ajuda se respeitar tal mistério. Mesmo quando isso devesse
representar, pelo menos aparentemente, um menor resultado.
Como para o semeador do evangelho.
b) A coragem de semear em qualquer lugar
Justamente o respeito a ambas as liberdades significa, antes de tudo, a
coragem de semear a boa semente do evangelho, da Páscoa do Senhor, da fé
e, por fim, do seguimento. Essa é a condição prévia;
não se faz nenhuma pastoral se falta essa coragem. Não só,
mas é preciso semear por toda parte, no coração de
qualquer pessoa, sem nenhum tipo de preferência ou de exceção.
Se todo ser humano é criatura de Deus, é também portador de
um dom, de uma vocação especial que espera ser reconhecida.
Muitas vezes na Igreja se lamenta a escassez de respostas vocacionais, e não
se percebe que, muitas vezes também, a proposta é feita dentro de
um círculo restrito de pessoas, e talvez retirada logo após uma
primeira recusa. Vale a pena lembrar aqui a advertência de Paulo VI: «
Que ninguém, por culpa nossa, ignore o que deve saber, para orientar a própria
vida num sentido diferente e melhor ». (97) No entanto, quantos jovens
nunca receberam alguma proposta cristã acerca da sua vida e do seu
futuro!
É singular observar o semeador da parábola no gesto amplo da mão
que semeia « por toda parte »; é comovente reconhecer nessa
imagem o coração de Deus-Pai. É a imagem de Deus que semeia
no coração de cada vivente um plano de salvação;
ou se preferirmos, é a imagem do « desperdício » da
generosidade divina, que se efunde sobre todos, porque a todos quer salvar e
chamar a si.
É essa mesma imagem do Pai que se torna evidente no modo de agir de
Jesus, que chama a si os pecadores, escolhe construir a sua Igreja com gente
aparentemente inadequada para essa missão, não conhece barreiras e
não faz distinção de pessoas.
É espelhando-se nessa imagem que, por sua vez, o operador vocacional
anuncia, propõe, sacode, com idêntica generosidade; e é
justamente a certeza da semente colocada pelo Pai no coração de
toda criatura, que lhe dá força para ir por toda parte e semear de
todas as formas a boa semente vocacional, para não ficar dentro dos espaços
costumeiros e enfrentar ambientes novos, para tentar abordagens insólitas
e dirigir-se a todas as pessoas.
c) A semeadura no tempo certo
Faz parte da sabedoria do semeador espalhar a boa semente da vocação,
no momento propício. O que não significa, de forma alguma apressar
os tempos da escolha, ou pretender que um pré-adolescente tenha a
maturidade de decisão de um jovem, mas entender e respeitar o sentido
vocacional da vida humana.
Cada fase da existência tem um significado vocacional, a começar
do momento em que oa meninoa se abre à vida e sente necessidade de
entender o sentido dela, e começa a se questionar sobre o seu papel na
vida. Deixar passar tal pergunta no momento certo, poderia prejudicar a germinação
da semente: « a experiência pastoral mostra que, na maioria dos
casos, a primeira manifestação da vocação nasce na
infância e na adolescência. Por isso, parece importante recuperar ou
propor fórmulas que possam suscitar, sustentar e acompanhar essa primeira
manifestação vocacional ». (98) Sem, no entanto, limitar-se a
essa. Cada pessoa tem os seus ritmos e seus tempos de maturação. O
importante é que tenha a seu lado um bom semeador.
d) A menor de todas as sementes
Sem dúvida, hoje não é uma tarefa simples a do «
semeador vocacional ». Pelos motivos que conhecemos: propriamente falando,
não existe uma cultura vocacional; o modelo antropológico que
prevalece parece ser o do « homem sem vocação »; o
contexto social é eticamente neutro e falho de esperança e de
modelos projetuais. Todos elementos que parecem concorrer para enfraquecer a
proposta vocacional e, talvez, nos permitem aplicar a ela o que Jesus disse a
propósito do reino de Deus (cf Mt 13,31 ss.): a semente da vocação
é como o grãozinho de mostarda que, quando semeado, ou quando é
proposto ou indicado como presente, é a menor de todas as sementes; não
suscita muitas vezes nenhum consenso imediato; antes, é negado e
desmentido, de certa forma sufocado por outras expectativas e projetos, como se
fosse uma semente de infelicidade.
E então, o jovem rejeita, declara-se não interessado, já
comprometeu o seu futuro (ou outros já o fizeram por ele); ou talvez lhe
agradaria e lhe interessa, mas não tem muita certeza, e depois, é
difícil demais e lhe causa medo... Nada de estranho e absurdo nessa reação
temerosa e negativa; no fundo o Senhor já o havia dito. A semente da vocação
é a menor de todas as sementes, é frágil e não se
impõe, justamente por ser expressão da liberdade de Deus que
entende respeitar totalmente a liberdade do homem.
Então é necessária também a liberdade de quem
orienta o caminho do homem: uma liberdade de coração que permita
continuar e não retroceder diante da recusa ou desinteresse inicial.
Jesus diz, na mesma parábola do grão de mostarda, que, «
uma vez crescida é a maior de todas as hortaliças » (Mt
13, 32); portanto é uma semente que tem sua força, mesmo que não
seja logo evidente e explosiva e, precisa de muito cuidado para maturar. Existe
uma espécie de segredo elementar que faz parte da sabedoria camponesa:
para garantir qualquer colheita na estação certa, é preciso
cuidar de tudo, de tudo mesmo, do terreno à semente; ficar atento a tudo,
daquilo que faz crescer a quanto pode impedir o crescimento. Inclusive contra as
imponderáveis intempéries das estações. No campo
vocacional acontece algo parecido. A semeadura é apenas o primeiro passo,
mas deve ser seguido por outras atenções bem precisas, para que as
duas liberdades entrem no mistério do diálogo vocacional.
Acompanhar
34. « Eis que naquele mesmo dia dois deles estavam a caminho de uma
aldeia distante sete milhas de Jerusalém, de nome Emaús, e
conversavam a respeito de tudo aquilo que havia acontecido. Enquanto discorriam
e discutiam, Jesus em pessoa se aproximou e caminhava com eles. Mas os olhos
deles eram incapazes de reconhecê-lo » (Lc 24, 13-16).
Escolhemos, o episódio dos dois discípulos de Emaús,
para descrever as articulações pedagógicas do acompanhar,
educar e formar. É um trecho significativo, porque, além da
sabedoria do conteúdo e do método pedagógico seguido por
Jesus, parece-nos ver nos dois discípulos a imagem de tantos jovens de
hoje, um pouco tristes e desanimados, que parecem ter perdido o gosto de
procurar a própria vocação.
O primeiro passo, ou a primeira atenção nesse caminho é
ficar ao lado: o semeador, ou aquele que despertou no jovem a consciência
da semente semeada no terreno do seu coração, agora se torna acompanhador.
Na parte teológica desta reflexão, foi indicado como típico
do Espírito o ministério do acompanhamento; de fato, é o
Espírito do Pai e do Filho que permanece ao lado do homem para
recordar-lhe a Palavra do Mestre; é ainda o Espírito que habita no
homem para suscitar nele a consciência de ser filho do Pai. Portanto, o
Espírito é o modelo em que deve se inspirar aquele irmão ou
aquela irmã maior que acompanha um irmão ou uma irmã menor,
em busca.
a) Itinerário vocacional
Definido o itinerário vocacional pastoral, agora nos perguntamos: o
que é um itinerário vocacional em nível pedagógico?
O itinerário pedagógico vocacional é uma viagem rumo à
maturidade da fé, como uma peregrinação rumo ao
estado adulto do ser crente, chamado a decidir sobre si e sobre a própria
vida, com liberdade e responsabilidade, segundo a verdade do misterioso
projeto feito por Deus para ele. Tal viagem procede por etapas, em
companhia de um irmão ou uma irmã mais crescida na fé e
no discipulado, que conhece a estrada, a voz e os passos de Deus, que
ajuda a reconhecer o Senhor que chama e a discernir o caminho por onde ir a Ele
e responder-lhe.
Então, um itinerário vocacional é, antes de tudo,
caminho com Ele, o Senhor da vida, aquele « Jesus em pessoa », como
nota Lucas, com precisão, que se aproxima do homem a caminho, anda pela
mesma estrada e entra na história dele. Mas os olhos de carne muitas
vezes não sabem reconhecê-lo; então o andar humano fica
solitário, e inútil a conversa, enquanto que a busca tende a
perpetuar-se, num interminável e narcisista « fazer experiências
», até vocacionais, sem nenhum resultado decisório. Talvez o
primeiro dever do acompanhador vocacional seja o de indicar a presença
de um Outro, ou de confessar a natureza relativa da própria
proximidade ou acompanhamento, para ser mediação de tal presença,
ou itinerário rumo à descoberta do Deus que chama e se faz próximo
a cada homem.
Como os dois de Emaús, ou como Samuel no meio da noite, muitas vezes
os nossos jovens não têm olhos para ver, nem ouvidos para ouvir
Aquele que caminha perto de cada um e, com insistência e, ao mesmo tempo,
com delicadeza, pronuncia o seu nome. O irmão que acompanha é
sinal daquela insistência e delicadeza; sua tarefa é ajudar a
reconhecer a proveniência da voz misteriosa; como João Batista, não
fala de si, mas anuncia um Outro que, porém, já está
presente.
O ministério do acompanhamento vocacional é ministério
humilde, daquela humildade serena e inteligente que nasce da liberdade no Espírito,
e se expressa « com a coragem da escuta e do diálogo ». Graças
a essa liberdade, a voz daquele que chama ressoa com maior clareza e força
incisiva. E o jovem se vê diante de Deus, descobre com surpresa que é
o Eterno que caminha no tempo ao lado dele, e o chama a fazer uma escolha, para
sempre!
b) Os poços de água viva
« Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço... »
(Jo 4,6): é o começo do que poderíamos chamar um inédito
colóquio vocacional: o encontro de Jesus com a samaritana. De fato, através
desse encontro, a mulher cumpre um itinerário rumo à descoberta de
si mesma e do Messias, inclusive tornando-se, de certo modo, anunciadora dele.
Também nesse trecho transparece a soberana liberdade de Jesus em
procurar os seus mensageiros em toda parte e em qualquer pessoa; mas é
também singular, por parte daquele que é o caminho do homem rumo
ao Pai, o cuidado de cruzar com a criatura ao longo de seus caminhos, ou de
esperar por ela onde é mais evidente e intensa a sua expectativa. É
o que se pode deduzir da imagem simbólica do « poço ».
Na antiga sociedade judaica, os poços eram fonte de vida, condição
básica de sobrevivência para um povo sempre às voltas com a
penúria de água; e é justamente ao redor desse símbolo,
a água para e da vida que, com finíssima
pedagogia, Jesus constrói a sua abordagem com a mulher.
Acompanhar um jovem quer dizer saber identificar « os poços »
de hoje: todos os lugares e momentos, provocações e expectativas
onde mais cedo ou mais tarde os jovens devem passar com suas jarras vazias, com
seus questionamentos não expressos, com a sua suficiência ostensiva
e muitas vezes só aparente, com seu profundo desejo de autenticidade e de
futuro.
A pastoral vocacional não pode ser « contemporizadora »,
mas ação de quem procura e não se dá por vencido
enquanto não acha, e se faz encontrar no lugar ou no poço certo, lá
onde o jovem marca encontro com a vida e com o futuro.
Desse ponto de vista, o acompanhador vocacional deve ser « inteligente »;
um que não impõe necessariamente as suas perguntas, mas parte
daquelas, de qualquer tipo, do próprio jovem; ou se for preciso
é capaz de « suscitar e descobrir a pergunta vocacional que ocupa o
coração de todo jovem, mas que espera ser escavada por verdadeiros
formadores vocacionais ».(99)
c) Condivisão e con-vocação
Fazer acompanhamento vocacional significa, antes de tudo, compartilhar: o pão
da fé, da experiência de Deus, do esforço da busca, até
compartilhar também a vocação: não para impô-la,
evidentemente, mas para confessar a beleza de uma vida que se realiza segundo o
projeto de Deus.
O registro comunicativo típico do acompanhamento vocacional não
é o didático ou exortativo, e nem o amistoso, de um lado, ou do
diretor espiritual, do outro (como quem dá logo uma direção
à vida do outro), mas é o registro da confessio fidei.
Quem faz acompanhamento vocacional testemunha a própria
escolha, ou melhor, o fato de ter sido escolhido por Deus; conta não
necessariamente com palavras o seu caminho vocacional e a descoberta contínua
da própria identidade no carisma vocacional e, com isso, também
conta ou deixa entender o esforço, a novidade, o risco, a surpresa, a
beleza.
Disso vem uma catequese vocacional de pessoa a pessoa, de coração
a coração, rica de humanidade e originalidade, de paixão e
força convincente, uma animação vocacional sapiencial e
experiencial. Mais ou menos como a experiência dos primeiros discípulos
de Jesus, que « foram e viram onde morava e, naquele dia, ficaram com ele »
(Jo 1,39); e foi experiência profundamente tocante se, depois de
muitos anos, João ainda se lembra de que « eram cerca de quatro
horas da tarde ».
Só se faz animação vocacional por contágio,
por contato direto, porque o coração está cheio e a experiência
da beleza continua a atrair. « Os jovens se interessam muito pelo
testemunho de vida das pessoas que já estão num caminho
espiritual. Sacerdotes e religiososas devem ter a coragem de oferecer sinais
concretos no seu caminho espiritual. Por isso, é importante gastar tempo
com os jovens, caminhar no nível deles, lá onde eles estão,
ouvi-los e responder às questões que surgem no encontro ».
(100)
Justamente por isso, o acompanhador vocacional é também um
entusiasta da sua vocação e da possibilidade de transmiti-la a
outros; é testemunha não apenas convicto, mas contente e, por isso
convincente e credível. Só assim a mensagem atinge a pessoa em sua
totalidade espiritual coração-mente-vontade, propondo-lhe
algo que é verdadeiro-belo-bom.
É o sentido da con-vocação: ninguém pode
passar ao lado do anunciador de uma tão « boa notícia »
sem se sentir tocado, « totalmente » chamado, em todos os níveis
da sua personalidade, e continuamente chamado, por Deus, sem dúvida; mas
também por tantas pessoas, ideais, situações inéditas,
provocações diversas, mediações humanas do chamado
divino.
Então, o sinal vocacional pode ser mais bem percebido.
Educar
35. « Perguntou-lhes então: « De que estais falando pelo
caminho, e por que estais tristes? » Um deles, chamado Cléofas,
respondeu-lhe: « És tu, acaso, o único forasteiro em Jerusalém
que não sabes o que nela aconteceu estes dias? » Perguntou-lhes ele:
« Que foi? » Disseram: « A respeito de Jesus de Nazaré...
Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo.
Jesus lhes disse: « Ó gente sem inteligência! Como sois tardos
de coração para crerdes tudo o que anunciaram os profetas!
Porventura não era necessário que Cristo sofresse estas coisas e
assim entrasse na sua glória? ». E, começando por Moisés,
percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas
as Escrituras. Aproximaram-se da aldeia para onde iam e ele fez como se quisesse
passar adiante. Mas eles forçaram-no a parar: « Fica conosco, já
é tarde e já declinou o dia ». Entrou então com eles.
(Lc 24,17-29).
Após a semeadura, ao longo do caminho do acompanhamento, trata-se de
educar o jovem. Educar no sentido etimológico da palavra, ou seja
como tirar de dentro (e-ducere) dele a sua verdade, aquilo que tem no
coração, também aquilo que não sabe e não
conhece de si: fragilidades e aspirações, para facilitar a
liberdade da resposta vocacional.
a) Educar para o conhecimento de si
Jesus se aproxima dos dois e pergunta-lhes de que estão falando. Ele
o sabe, mas quer que ambos se manifestem a si mesmos e, verbalizando a sua
tristeza e as esperanças frustradas, ajuda-os a tomar consciência
do próprio problema, e do motivo real de sua perturbação.
Assim, os dois praticamente são forçados a reler a história
recente, fazendo transparecer o verdadeiro motivo de sua tristeza.
« Nós esperávamos... »; mas a história parece
ter tomado um rumo diferente em relação às suas
expectativas. Aliás, eles fizeram todas as experiências
significativas em contato com Jesus « poderoso em obras e em palavras »;
mas é como se de improviso esse caminho de fé se tivesse
interrompido diante de um evento incompreensível como a paixão e
morte daquele que deveria libertar Israel.
« Nós esperávamos, mas... »: como não
reconhecer nessa história incompleta a vivência de tantos jovens
que parecem interessados no discurso vocacional, que se deixam provocar e
mostram boa predisposição, mas depois param diante da escolha a
ser feita? De certo modo Jesus obriga os dois a admitir a diferença entre
as suas esperanças e o plano de Deus, da forma como se concretizou em
Jesus, entre o modo como entendiam o Messias e a sua morte na cruz, entre as
suas expectativas tão humanas e interesseiras, e o sentido de uma salvação
que vem do Alto.
Do mesmo modo, é importante e decisivo ajudar os jovens a fazer
emergir o equívoco de fundo: aquela interpretação demasiado
terrena e centrada em torno do eu, que torna difícil e até mesmo
impossível a escolha vocacional, ou faz achar excessivas as exigências
do chamado, como se o projeto de Deus fosse inimigo dos anseios de felicidade do
homem.
Quantos jovens não acolheram o apelo vocacional, não porque
fossem pouco generosos ou indiferentes, mas simplesmente porque não
foram ajudados a se conhecerem, a descobrir a raiz ambivalente e pagã
de certos esquemas mentais e afetivos; e porque não foram ajudados a se
libertarem dos próprios medos e defesas, conscientes ou não,
em relação à vocação. Quantos abortos
vocacionais devidos a esse vazio educativo!
Educar significa, antes de tudo, fazer emergir a realidade do eu, tal como é,
se se deseja depois levá-lo a ser como deve ser: a sinceridade é
um passo fundamental para chegar à verdade, mas é sempre necessária
uma ajuda de fora para ver bem o interior. Então, o educador vocacional
deve conhecer os subterrâneos do coração humano, para
acompanhar o jovem na construção do verdadeiro eu.
b) Educar para o mistério
Aqui nasce o paradoxo. Quando o jovem é conduzido às origens
de si, e pode encarar também as suas fraquezas e os seus temores, tem a
sensação de entender melhor o motivo de certas atitudes e reações
suas e, ao mesmo tempo, capta sempre mais a realidade do mistério como
chave de leitura da vida e da sua pessoa.
É indispensável que o jovem aceite que não sabe,
que não pode se conhecer plenamente.
A vida não está inteiramente nas suas mãos, porque a
vida é mistério e, por outro lado, o mistério é
vida; ou seja, o mistério é aquela parte do eu que ainda não
foi descoberta, ainda não vivida e que espera ser decifrada e realizada;
mistério é aquela realidade pessoal que ainda precisa crescer,
rica de vida e de possibilidades existenciais ainda intactas, é a parte
germinativa do eu.
Então, aceitar o mistério é sinal de inteligência,
de liberdade interior, de desejo de futuro e de novidade, de recusa de uma
concepção repetitiva e passiva, tediosa e banal da vida. Por isso
dissemos no início que a pastoral vocacional deve ser mistagógica,
e portanto, partir e tornar a sair do mistério de Deus para reconduzir ao
mistério do homem.
A perda do sentido do mistério é uma das maiores causas da
crise vocacional.
Ao mesmo tempo, a categoria do mistério se torna categoria propedêutica
para a fé. É possível, e de certa maneira natural, que a
esse ponto o jovem sinta nascer dentro de si uma espécie de necessidade
de revelação, isto é, o desejo de que o próprio
Autor da vida lhe desvende o sentido e o lugar que deve ocupar nela. Quem mais,
a não ser o Pai, pode realizar tal desvendamento?
Por outro lado, é importante que o jovem descubra logo (ou que o guia
intua imediatamente) a estrada que deve seguir: o que interessa é que ele
descubra e decida colocar fora de si, em Deus Pai, a procura do
fundamento da sua existência. Um autêntico caminho vocacional leva
sempre e de qualquer modo à descoberta da paternidade-maternidade de
Deus!
c) Educar a ler a vida
No evangelho, Jesus de certa forma convida os dois de Emaús a
retornarem à vida, àqueles eventos que haviam causado a sua
tristeza, através de um sapiente método de leitura: capaz não
só de recompor os eventos entre si, ao redor de um significado central,
mas de decifrar, no tecido misterioso da existência humana, o fio vermelho
de um projeto divino. É o método que se poderia chamar de genético-histórico,
que faz procurar e encontrar, na própria biografia, os passos e as marcas
da passagem de Deus e, portanto, também a sua voz que chama. Tal método
é ao mesmo tempo, dedutivo e indutivo, ou histórico-bíblico:
de fato, parte da verdade revelada e juntamente da realidade histórica, e
assim permite o diálogo ininterrupto entre vivido subjetivo (os fatos
citados pelos dois discípulos) e referência à Palavra («
E, começando por Moisés e percorrendo todos os profetas,
explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras » (Lc
24,27); na normatividade da Palavra e na centralidade do mistério
pascal do Cristo morto e ressuscitado, indica um ponto preciso de interpretação
dos eventos existenciais, sem rejeitar nenhum acontecimento, especialmente os
mais difíceis e dolorosos (« Não era preciso que o
Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória? » (Lc
24,26).
A leitura da vida se torna com isso uma operação altamente
espiritual, não apenas psicológica, porque leva a reconhecer nela
a presença luminosa e misteriosa de Deus e da sua Palavra. (101) E,
dentro desse mistério, permite conhecer, devagarzinho, a semente da vocação
que o mesmo Pai-semeador depositou nos sulcos da vida. Aquela semente, embora
pequena, agora começa a ficar visível e a crescer.
d) Educar a in-vocar
Se a leitura da vida é operação espiritual, essa
necessariamente leva a pessoa não somente a reconhecer o seu desejo de
revelação, mas a celebrá-lo, com a oração
de invocação. Educar quer dizer e-vocar a verdade do
eu. Tal evocação nasce exatamente da in-vocação
orante, de uma oração que é mais de confiança do que
de pedido, oração como surpresa e gratidão; mas também
como luta e tensão, como sofrida « escavação »
das próprias ambições para acolher expectativas, pedidos,
desejos do Outro: do Pai que, no Filho, pode dizer, àquele que procura,
qual o caminho a seguir.
Mas, então a oração se torna o lugar do
discernimento vocacional, da educação para a escuta do
Deus que chama, porque qualquer vocação tem origem nos espaços
de uma oração invocativa, paciente e confiante; sustentada não
pela pretensão de uma resposta imediata, mas pela certeza ou pela esperança
de que a invocação não pode deixar de ser acolhida, e, no
tempo certo, fará com que aquele que invoca descubra a sua vocação.
No episódio de Emaús, tudo isso é revelado com uma
expressão essencial, talvez a oração mais linda que um coração
humano já rezou: « Fica conosco, já é tarde e o dia já
declinou » (Lc 24,29). É a súplica de quem sabe que,
sem o Senhor, a noite desce depressa na vida, sem a sua Palavra existe a
obscuridade da incompreensão ou da confusão de identidade; a vida
parece não ter sentido e nem vocação. É a invocação
de quem talvez ainda não descobriu a sua estrada, mas intui que, estando
com Ele, encontra-se a si mesmo, porque só Ele tem « palavras de
vida eterna » (Jo 6,67-68).
Esse tipo de oração in-vocativa não se aprende
espontaneamente, mas precisa de um longo aprendizado; e não se aprende
sozinho, mas com a ajuda de quem aprendeu a escutar os silêncios de Deus.
Nem qualquer pessoa pode ensinar tal oração, mas somente quem é
fiel à sua vocação.
Então, se a oração é a via natural da busca
vocacional, hoje como ontem, ou mais do que ontem, são necessários
educadores vocacionais que rezem, que ensinem a rezar, que eduquem para a
in-vocação.
Formar
36. « Aconteceu que, estando sentado com eles à mesa, tomou o pão,
abençoou-o, partiu-o e serviu-lhes. Então se lhes abriram os olhos
e o reconheceram... mas ele desapareceu. Diziam então um para o outro: «
Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo
caminho e nos explicava as Escrituras? ».
A formação é de certo modo o momento culminante do
processo pedagógico, porque é o momento em que é proposta
ao jovem uma forma, um modo de ser, no qual ele mesmo reconhece
a sua identidade, a sua vocação, a sua norma.
É o Filho, Aquele que é a marca do Pai, o formador dos homens,
porque representa a imagem segundo a qual o Pai criou os homens. Por isso Ele
convida aquele que chama a ter os seus mesmos sentimentos e a compartilhar a sua
vida, a ter a sua « forma ». É Ele, ao mesmo tempo, o formador
e a forma.
O formador vocacional é tal, enquanto mediador desta ação
divina, e se coloca ao lado do jovem para ajudá-lo a « reconhecer »
nela o seu chamado, e a se deixar formar por ela.
a) Reconhecimento de Jesus
Sem dúvida, o momento decisivo do episódio de Emaús é
aquele em que Jesus toma o pão, parte-o e o dá a cada um deles: «
Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram ». Há aqui
uma série de « reconhecimentos » coligados entre si.
Antes de tudo, os dois reconhecem Jesus, descobrem a verdadeira
identidade do viandante que se juntou a eles, exatamente porque, como os dois
sabiam muito bem, somente Ele podia fazer aquele gesto.
Em perspectiva vocacional, isso está a dizer a importância de
colocar em ato gestos fortes, sinais inequívocos, propostas altas,
projetos de seguimento total. (102)
O jovem precisa ser estimulado por grandes ideais, em vista de algo que o
supera e está acima das suas capacidades, pelo qual vale a pena dar a própria
vida. Lembra isso também a análise psicológica: pedir a um
jovem alguma coisa que esteja abaixo de suas possibilidades, significa ofender a
sua dignidade e impedir a sua plena realização; dito de forma
positiva, ao jovem se deve propor o máximo daquilo que ele pode dar, para
que se torne e seja ele mesmo.
E, se Jesus é reconhecido « ao partir do pão », a
dimensão eucarística deveria subentender todo caminho vocacional:
como « lugar » típico da solicitação vocacional,
como mistério que manifesta o sentido geral da existência humana,
como objetivo final de qualquer pastoral vocacional que queira ser cristã.
b) Reconhecimento da verdade da vida
Mas, num autêntico processo de formação para a escolha
vocacional, a este ponto surge um segundo « reconhecimento »: oreconhecimento-descoberta,
dentro do sinal eucarístico, do significado da vida. Se a Eucaristia é
sacrifício de Cristo que salva a humanidade, e se tal sacrifício é
corpo partido e sangue derramado para a salvação da humanidade,
também a vida do crente é chamada a modelar-se sobre a mesma
correlação de significados: também a vida é bem
recebido que, por natureza, tende a se tornar bem doado, como a vida do
Verbo. É a verdade da vida, de toda vida.
As conseqüências em nível vocacional são evidentes.
Se no início da existência do homem há um dom que o
constitui no ser, então a vida tem uma estrada marcada: se é
dom, ele só será plenamente ele mesmo se se realiza na perspectiva
do doar-se; será feliz com a condição de respeitar esta sua
natureza. Poderá fazer a escolha que quiser, mas sempre na lógica
do dom; de outro modo, se tornará um ser em contradição
consigo mesmo, uma realidade « monstruosa »; será livre de
decidir a orientação específica, mas não será
livre de imaginar-se fora da lógica do dom.
Toda a pastoral vocacional é construída sobre essa catequese
elementar do significado da vida. Se essa verdade antropológica passa,
então se pode fazer qualquer proposta vocacional. Então, também
a vocação ao ministério ordenado ou à consagração
religiosa ou secular, com toda a sua carga de mistério e mortificação,
se torna a plena realização do humano e do dom que todo homem tem
e é, no mais profundo de si.
c) A vocação como reconhecimento-gratidão
Mas, se é no gesto eucarístico que os dois de Emaús «
reconhecem » o Senhor, e todo crente o sentido da vida, então a
vocação nasce do « reconhecimento ». Nasce no
terreno fecundo da gratidão, porque a vocação é
resposta, não iniciativa do indivíduo: é ser escolhido,
não escolher.
A leitura de toda a vida passada deveria justamente levar a essa atitude
interior de gratidão. A descoberta de ter recebido, de modo imerecido e
excedente, deveria « obrigar » psicologicamente o jovem a conceber a
oferta de si, na opção vocacional, como uma conseqüência
inevitável, como um ato certamente livre, porque determinado pelo
amor; mas, num certo sentido, também devido, porque, diante do
amor recebido de Deus, ele sente que não pode fazer a menos do que
doar-se. É lindo e inteiramente lógico que seja assim; em si não
é uma coisa extraordinária.
A pastoral vocacional é orientada a formar para essa lógica
do reconhecimento-gratidão; muito mais sadia e convincente, no plano
humano, e mais teologicamente fundada do que a chamada « lógica do
herói » daquele que não amadureceu suficientemente a consciência
de ter recebido, e se sente, ele mesmo, autor do dom e da escolha. Tal lógica
tem pouquíssima força sobre a sensibilidade juvenil hodierna,
porque subverte a verdade da vida como bem recebido que tende naturalmente
a se tornar bem doado.
É a sapiência evangélica do « recebestes de graça,
dai gratuitamente » (Mt 10,8), (103) dirigido por Jesus aos discípulos-anunciadores
da sua palavra, que mostra a verdade de todo ser humano: ninguém
poderia deixar de se reconhecer nele.
É dessa verdade que a vida deriva a forma que depois é
chamada a assumir, ou é dessa figura única da fé que depois
nascem as diversas figuras vocacionais da mesma fé.
Então é possível também pedir escolhas
igualmente fortes e radicais, como um chamado de especial consagração,
ao sacerdócio e à vida consagrada. Por isso, por difícil e
singular que possa parecer (e, na realidade, é), a proposta de Deus se
torna também uma impensada promoção das autênticas
aspirações humanas e garante o máximo da felicidade. A
felicidade cheia de gratidão, que Maria canta no « Magnificat ».
d) Reconhecimento de Jesus e auto-reconhecimento do discípulo
Os olhos dos discípulos de Emaús se abrem diante do gesto
eucarístico de Jesus.
É diante desse gesto que Cléofas e o companheiro percebem também
o sentido do seu caminho, como uma viagem não só rumo ao
reconhecimento de Jesus, mas também rumo ao próprio
reconhecimento « Não se nos abrasava o coração,
quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? ».
Não há simplesmente uma certa comoção nos dois
peregrinos que escutam a explicação do Mestre, mas a sensação
de que a sua vida, a sua Eucaristia, a sua Páscoa, o seu mistério
serão sempre mais a sua própria vida, eucaristia, páscoa,
mistério.
No coração que se abrasa, existe a descoberta da vocação
e a história de toda vocação. Sempre ligada a uma experiência
de Deus, em que a pessoa descobre também a si mesma e a própria
identidade.
Formar para a escolha vocacional quer dizer mostrar sempre mais a ligação
entre experiência de Deus e descoberta do eu, entre teofania e
auto-identidade. É muito verdadeiro o que afirma o Instrumentum
laboris: « O reconhecimento dele como Senhor da vida e da história
comporta o auto-reconhecimento do discípulo ». (104) E quando o ato
de fé consegue conjugar o « reconhecimento cristológico »
com o « auto-reconhecimento antropológico », a semente da vocação
já está madura, ou melhor, está florescendo.
Discernir
37. « Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí
acharam reunidos os onze e os que com eles se detinham. Todos diziam: "O
Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão", Eles, por
sua parte, contaram o que lhes havia acontecido no caminho, e como o tinham
reconhecido ao partir do pão » (Lc 24, 33-35).
Para que o caminho de Emaús se torne itinerário vocacional, é
necessária uma passagem conclusiva depois da série de «
reconhecimentos » e « auto-reconhecimentos »: a escolha
definitiva, por parte do jovem, à qual corresponde, por parte daquele
que o acompanhou ao longo do caminho vocacional, o processo de discernimento.
Um discernimento que certamente não se encerrará no tempo da
orientação vocacional, masdeverá continuar depois até
a maturação de uma decisão definitiva, « para toda a
vida ». (105)
a) A escolha definitiva do que foi chamado
Capacidade de decisão
No episódio evangélico que traçou o caminho da nossa
reflexão, a escolha é bem expressa no versículo 33: «
Levantaram-se na mesma hora... ».
A anotação temporal (« na mesma hora ») exprime com
eficácia a determinação dos dois, provocada pela palavra e
pela pessoa de Jesus, pelo encontro com ele, e corajosamente colocada em prática
numa escolha que significa ruptura com aquilo que eram ou faziam antes, e indica
novidade de vida.
É justamente essa decisão que muitas vezes falta aos jovens de
hoje.
Por esse motivo, com o fim de « ajudar os jovens a superar a indecisão
diante dos compromissos definitivos, parece útil prepará-los
progressivamente para assumir responsabilidades pessoais [...], confiar tarefas
adequadas às capacidades e à idade deles [...], facilitar uma
educação progressiva para as pequenas escolhas quotidianas diante
dos valores (gratuidade, constância, sobriedade, honestidade...). (106)
Por outro lado, é necessário lembrar que, muitas vezes, esses
e outros temores e indecisões indicam a fragilidade não somente da
estrutura psicológica da pessoa, mas também da experiência
espiritual e, de modo especial, da experiência da vocação
como escolha que vem de Deus.
Quando essa certeza é pobre, o sujeito se entrega inevitavelmente a
si mesmo e aos próprios recursos; e quando constata a sua precariedade, não
é de admirar que se deixe dominar pelo medo de fazer uma escolha
definitiva.
A incapacidade decisória não é necessariamente característica
da atual geração juvenil: não raro é conseqüência
de um acompanhamento vocacional que não sublinhou suficientemente o
primado de Deus na escolha, ou que não formou para se deixar escolher por
Ele. (107)
« Volta para casa »
A escolha vocacional indica novidade de vida, mas na realidade é também
sinal de uma recuperação da própria identidade, uma espécie
de « volta para casa », para as raízes do eu. No trecho de Emaús,
é simbolizado pela expressão: « ...e voltaram a Jerusalém
».
Na formação para a escolha vocacional, é muito
importante insistir na idéia de que ela é condição
para que o jovem seja ele mesmo, e se realize segundo o único projeto que
pode dar felicidade. Muitos jovens ainda pensam o contrário a respeito da
vocação cristã, vêem-na com desconfiança e
receiam que ela não possa fazê-los felizes; mas depois acabam sendo
infelizes, como o jovem triste do evangelho (cf Mc 10,22).
Quantas vezes também as atitudes dos adultos, inclusive dos pais, têm
contribuído para criar uma imagem negativa da vocação,
especialmente ao sacerdócio e à vida consagrada, criando obstáculos
para a sua realização e desencorajando quem se sentia chamado a
isso! (108)
Ademais, não se resolve esse problema com uma banal propaganda contrária,
que enfatizaria os aspectos positivos e gratificantes da vocação,
mas, sobretudo sublinhando a idéia de que a vocação é
o pensamento de Deus sobre a criatura, é o nome dado por Ele à
pessoa.
Descobrir a vocação e responder como crentes, quer dizer
encontrar aquela pedra na qual está escrito o próprio nome (cf
Ap 2,17-18), ou voltar às nascentes do eu.
Testemunho pessoal
Em Jerusalém os dois « acharam reunidos os onze e os que com
eles se detinham. Todos diziam: « O Senhor ressuscitou verdadeiramente, e
apareceu a Simão ». Eles, por sua parte, contaram o que lhes havia
acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir do pão »
(Lc 24,33-35).
Em relação à escolha vocacional, o elemento mais
significativo desse trecho é o testemunho dos dois, um testemunho
especial, porque acontece num contexto comunitário e tem um sentido
vocacional muito preciso.
Quando os dois chegam, a assembléia está proclamando a sua fé
com uma fórmula (« O Senhor ressuscitou verdadeiramente, e apareceu
a Simão »), que sabemos estar entre os testemunhos mais antigos da fé
objetiva. De certa forma, Cléofas e o companheiro acrescentam a sua
experiência subjetiva, que confirma o que a comunidade estava proclamando,
e confirma também o caminho pessoal crente e vocacional deles.
É como se aquele testemunho fosse o primeiro fruto da vocação
descoberta e reencontrada que, como é próprio da natureza da vocação
cristã, imediatamente é colocada a serviço da comunidade
eclesial.
Volta, portanto, o que já foi dito acerca da relação
entre itinerários eclesiais objetivos e itinerário pessoal
subjetivo, num relacionamento de sinergia e complementariedade: o testemunho
individual ajuda e faz crescer a fé da Igreja; a fé e o testemunho
da Igreja suscitam e encorajam a escolha vocacional do indivíduo.
b) O discernimento por parte de quem guia
Na Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores
dabo vobis, João Paulo II afirma: « O conhecimento da natureza e
da missão do sacerdócio ministerial é o pressuposto
irrenunciável e, ao mesmo tempo o guia mais seguro e o estímulo
mais incisivo para desenvolver na Igreja a ação pastoral de promoção
e de discernimento das vocações sacerdotais e de formação
dos chamados ao ministério ordenado ». (109)
O mesmo poderia ser dito, por analogia, quando se trata de qualquer vocação
à vida consagrada. Pressuposto irrenunciável para discernir tais
vocações é, antes de tudo, ter presente a natureza e a missão
desse estado de vida na Igreja. (110)
Tal pressuposto deriva diretamente da certeza de que é Deus que chama
e, portanto, da busca daqueles sinais que apontam o chamado divino.
Indicam-se, agora, alguns critérios de discernimento, distinguíveis
em quatro áreas.
A abertura ao mistério
Se o fechamento ao mistério, característico de certa
mentalidade moderna, inibe qualquer disponibilidade vocacional, o seu oposto, ou
seja a abertura ao mistério não somente é condição
positiva para a descoberta da própria vocação, mas indício
de uma sadia opção vocacional.
a) A autêntica certeza objetiva vocacional é aquela que
abre espaço para o mistério, e a sensação de
que a própria decisão, embora firme, deverá permanecer
aberta a uma contínua sondagem do mesmo mistério.
Ao contrário, a certeza não autêntica, não
somente aquela frágil e incapaz de dar lugar a uma decisão, mas
também o seu oposto, isto é a pretensão de já ter
entendido tudo, de ter esgotado as profundidades do mistério pessoal, não
pode deixar de criar endurecimentos e uma certeza que muitas vezes é
desmentida no decurso da vida.
b) A atitude tipicamente vocacional é expressão da
virtude da prudência, mais do que ostensiva capacidade pessoal.
Justamente por isso, a segurança dessa leitura do próprio futuro é
a da esperança e da entrega confiante que nasce da confiança
depositada num Outro, em quem se pode confiar; não é deduzida da
garantia das próprias capacidades percebidas como correspondentes às
exigências do papel escolhido.
c) É ainda um bom indício vocacional a capacidade de
acolher e integrar aquelas polaridades contrapostas que constituem a
dialética natural do eu e da vida humana. Por exemplo, possui tal
capacidade um jovem que é suficientemente consciente de seus aspectos
tanto positivos como negativos, da parte sadia e da menos sadia do seu próprio
projeto vocacional e que não presuma nem desespere diante do negativo que
há em si mesmo.
d) Tem uma boa familiaridade com o mistério da vida, como
lugar onde perceber uma presença e um apelo, o jovem que descobre os
sinais do seu chamado por parte de Deus, não só nos eventos
extraordinários, mas na sua história; nos eventos que,
como crente, aprendeu a ler, nas suas perguntas, ansiedades, aspirações.
e) Entra nessa categoria de abertura ao mistério uma outra
característica fundamental do autêntico chamado: a da gratidão.
A vocação nasce no terreno fecundo da gratidão; e deve ser
interpretada com ímpeto de generosidade e radicalidade, justamente porque
nasce da consciência do amor recebido.
A identidade da vocação
A segunda ordem de critérios gira em torno do conceito de «
identidade ». A opção vocacional indica e implica exatamente
a definição da própria identidade; é escolha e
realização do eu ideal, mais do que do eu atual, e deveria levar a
pessoa a ter um conceito substancialmente positivo e estável do próprio
eu.
a) A primeira condição é que a pessoa mostre
estar à altura de afastar-se da lógica da identificação
nos níveis corporal (=o corpo como fonte de identidade positiva)
e psíquico (=os próprios dotes como única e
preeminente garantia de autoestima), e ao invés, descobre a própria
positividade radical ligada estavelmente ao ser, recebido de Deus como dom (é
o nível ontológico), não à
precariedade do ter e do parecer. A vocação cristã é
o que leva a termo tal positividade, realizando ao máximo grau as
possibilidades do sujeito, mas segundo um projeto que regularmente o supera,
porque pensado por Deus.
b) « Vocação » fundamentalmente quer dizer «
chamado »: portanto, há um sujeito externo, um apelo
objetivo, e uma disponibilidade interior a se deixar chamar e a
reconhecer-se num modelo que não foi o chamado quem criou.
c) A respeito da motivação ou da modalidade da escolha
vocacional, o critério fundamental é o da totalidade (ou
lei da totalidade); isto é, que a decisão seja expressão de
um envolvimento total das funções psíquicas (coração-mente-vontade),
e seja decisão ao mesmo tempo mental ética-emotiva.
d) Mais precisamente, existe maturidade vocacional quando a vocação
é vivida e interpretada como um dom, mas também como apelo
exigente: a ser vivido pelos outros, não só para a própria
perfeição, e com os outros, na Igreja mãe de todas as vocações,
numa específica « sequela Christi ».
Um projeto vocacional rico de memória crente
A terceira área na qual se concentraria a atenção de
quem discerne uma vocação é a que diz respeito à
qualidade da relação entre passado e presente, entre memória
e projeto.
a) Antes de tudo, é importante que o jovem esteja
substancialmente reconciliado com o seu passado: com o inevitável
negativo, de qualquer espécie, que faz parte dele, e também com o
seu positivo, que deveria estar em condição de reconhecer com
gratidão; reconciliado também com as figuras significativas do seu
passado, com suas riquezas e fragilidades.
b) Então deve ser atentamente considerado o tipo de memória
que o jovem tem da própria história, que interpretação
dá da própria vida: em chave de graça ou de lamento?
Sente-se, consciente ou inconscientemente, em crédito, e por isso ainda à
espera de receber, ou aberto para dar?
c) Particularmente significativa é a atitude do jovem diante
dos traumas mais ou menos graves, da vida passada. Ter um projeto de
consagrar-se a Deus quer dizer sempre reapropriar-se da vida que se quer
doar, em todos os seus aspectos; tender a integrar esses componentes
menos positivos, reconhecendo-os com realismo e assumindo uma atitude
responsável, não simplesmente de comiseração diante
deles. Jovem « responsável » è aquele que se empenha em
assumir uma atitude ativa e criativa a respeito do evento negativo, ou
procura usufruir de modo inteligente a experiência pessoal
negativa.
É preciso prestar muita atenção às vocações
que nascem do sofrimento, desilusão ou incidentes diversos ainda não
bem integrados. Em tal caso, é necessário um discernimento mais
atento, inclusive recorrendo a consultas com especialistas, para não
colocar pesos impossíveis sobre ombros frágeis.
A « docibilitas » vocacional
A última fase do itinerário vocacional é a da decisão.
Com referência a tal fase, parecem ser estes os critérios de
maturidade vocacional:
a) O requisito fundamental é o grau de docibilitas da
pessoa, ou seja a liberdade interior de se deixar guiar por um irmão ou
irmã maior; em particular, nas fases estratégicas da reelaboração
e reapropriação do próprio passado, especialmente o mais
problemático, e a conseqüente liberdade de aprender e saber mudar.
b) No fundo, o requisito da docibilitas é o requisito
do ser jovem, não tanto como dado do registro civil quanto como
atitude global existencial. É importante que quem pede admissão ao
seminário ou à vida consagrada seja verdadeiramente « jovem »,
com as virtudes e vulnerabilidades típicas dessa fase da vida, com a
vontade de fazer e o desejo de dar o máximo de si, capaz de socializar e
de apreciar a beleza da vida, consciente dos próprios defeitos e das próprias
potencialidades, consciente do dom de ter sido escolhido.
c) Hoje, mais do que ontem, uma área particularmente
merecedora de atenção, é a afetivo-sexual. (111) É
importante que o jovem demonstre poder adquirir as duas certezas que tornam a
pessoa afetivamente livre, ou seja a certeza que vem da experiência
de já ter sido amado e a certeza, sempre experiencial, de saber
amar. Concretamente, o jovem deveria demonstrar aquele equilíbrio
humano que lhe permite manter-se de pé sozinho, deveria possuir aquela
segurança e autonomia que facilitam seu relacionamento social e uma
cordial amizade, e aquele senso de responsabilidade que lhe permite viver, como
adulto, esse mesmo relacionamento social, livre para dar e receber.
d) No que diz respeito às inconsistências,
sempre na área afetivo-sexual, um discernimento perspicaz deveria
considerar a centralidade dessa área na evolução geral do
jovem e na cultura (ou subcultura) atual. Não é muito estranho ou
raro que o jovem revele fragilidades específicas nesse setor.
Com que condições se pode prudentemente acolher o pedido
vocacional de jovens com esse tipo de problemas? A condição é
que se verifiquem juntamente estes três requisitos:
1° que o jovem esteja consciente da raiz do seu problema que,
muitas vezes, não é originariamente sexual.
2° a segunda condição é que o jovem sinta a sua
fragilidade como um corpo estranho à própria personalidade, alguma
coisa que não quereria e que se choca com o seu ideal, e contra a qual
luta com todo o seu ser.
3° Por fim, é importante verificar se o sujeito tem condição
de controlar essas fraquezas, em vista de uma superação,
seja porque de fato caia menos, seja porque tais inclinações
perturbam sempre menos a sua vida (também psíquica) e lhe permitem
desempenhar seus deveres normais sem criar nele demasiada tensão, nem
ocupar indevidamente a sua atenção. (112) Esses três critérios
devem estar todos presentes, para permitir um discernimento positivo.
e) Por fim, a maturidade vocacional é decidida por um elemento
essencial que, verdadeiramente, dá sentido a todo o resto: o ato de fé.
Para todos os efeitos, a autêntica opção vocacional é
expressão da adesão crente, e é tanto mais generosa quanto
mais é parte e epílogo de um caminho de formação
para a maturidade da fé. Dentro de uma lógica que abre espaço
para o mistério, o ato de fé é exatamente aquele ponto
central que permite manter juntas as polaridades às vezes contrapostas da
vida, perenemente tensa entre a certeza do chamado e a consciência da própria
incapacidade, entre a sensação de perder-se e de reencontrar-se,
entre a grandeza das aspirações e o peso dos próprios
limites, entre a graça e a natureza, entre Deus que chama e o homem que
responde. Precisamente mantendo juntas essas polaridades, o jovem autenticamente
chamado deveria demonstrar a firmeza do seu ato de fé.
CONCLUSÃO
Rumo ao Jubileu
38. Este documento é destinado às Igrejas da Europa, no
momento em que o povo de Deus está se preparando para celebrar um tempo
de graça e de misericórdia, de conversão e renovação
no Jubileu do ano 2.000. O Congresso vocacional faz parte dessa caminhada de
preparação e, de certo modo, contribui para orientá-la. Em
duas direções.
A primeira é um convite à conversão. A crise
vocacional que vivemos e ainda estamos vivendo não pode deixar de
fazer-nos refletir também sobre nossas responsabilidades, enquanto
crentes e chamados a difundir o dom da fé e a promover, em cada irmão,
a disponibilidade ao chamado.
De modos diferentes, todos nós devemos admitir que não
respondemos plenamente a esse chamado, de ter tornado a Igreja, a igreja das
nossas famílias e dos ambientes de trabalho, das nossas paróquias
e dioceses, das nossas congregações religiosas e institutos
seculares, menos fiel ao dever de mediar a voz do Pai que chama a seguir o Filho
no Espírito. Só sairemos dessa crise vocacional se esse processo
de conversão for sincero e produzir frutos de novidade de vida.
A segunda direção que este documento quereria contribuir para
imprimir à peregrinação da Igreja rumo ao Jubileu, é
um convite à esperança. Convite que emerge de todo o
Congresso e que agora quereríamos repetir com toda a força da
nossa fé. Talvez não exista um setor na vida da Igreja que tenha
tanta necessidade de se abrir à esperança, como a pastoral
vocacional, especialmente lá onde a crise se faz sentir mais pungente.
Por isso, ao término desta reflexão, nós reafirmamos a
nossa certeza de que o Senhor da messe não deixará faltar à
Igreja operários para a sua messe. Antes, se a esperança é
fundada não nas nossas previsões e nos nossos cálculos, que
muitas vezes a história passada se encarregou de desmentir, mas « na
Tua Palavra », então podemos e queremos acreditar numa renovada
floração vocacional para as Igrejas da Europa.
Este documento quer ser como um hino ao otimismo da fé, repleta de
esperança, para despertá-lo nos meninos, adolescentes e jovens,
nos pais e nos educadores, nos pastores e nos presbíteros, nos
consagrados e consagradas, em todos aqueles que servem à vida ao lado das
novas gerações, em todo o povo de Deus que está na Europa.
Roguemos ao Dono da messe
39. O nosso documento, que se abriu com a ação de graças
ao Senhor Deus, não pode se encerrar sem uma prece à Santíssima
Trindade, fonte e destino de toda vocação.
« Deus Pai, fonte do amor, que desde toda a eternidade chamas à
vida e a dás em abundância, volve o teu olhar sobre esta terra da
Europa. Chama-a ainda, como a chamaste um tempo; mas sobretudo faze que seja
consciente do teu chamado, das suas raízes cristãs, da
responsabilidade que disso deriva. Torna-a consciente da sua vocação
a promover uma cultura da vida, ao respeito pela existência de cada homem
em todas as suas formas e a cada instante dela, à unidade entre os povos,
ao acolhimento do estrangeiro, à promoção de formas
civilizadas e democráticas de vida social, para que seja sempre mais uma
Europa unida na paz e na fraternidade.
Verbo eterno, que desde toda a eternidade acolhes o amor do Pai e
respondes ao seu chamado, abre o coração e a mente dos jovens
desta terra, para que aprendam a se deixarem amar por Aquele que os pensou à
imagem do seu Filho e, deixando-se amar, tenham a coragem de realizar essa
imagem, que é a tua. Torna-os fortes e generosos, capazes de arriscar na
tua Palavra, livres para voar alto, fascinados pela beleza do teu seguimento.
Suscita no meio deles anunciadores do teu evangelho: presbíteros, diáconos,
consagrados e consagradas, religiosos e leigos, missionários e missionárias,
monges e monjas, que, com a própria vida saibam, por sua vez, chamar e
propor o seguimento do Cristo Salvador.
Espírito Santo, amor sempre jovem de Deus, voz do Eterno que
não cessa de ressoar e de chamar, livra o Velho Continente de todo espírito
de suficiência, da cultura do « homem sem vocação »,
daquele medo que impede de arriscar e torna a vida banal e sem sabor, daquele
minimalismo que habitua à mediocridade e mata qualquer impulso interior e
o autêntico espírito juvenil na Igreja. Faze com que os nossos
jovens redescubram o sentido pleno do seguimento como chamado a serem plenamente
eles mesmos, plenamente e para sempre jovens, cada qual segundo um projeto
pensado precisamente para ele, único-singular irrepetível. Numa
Europa que corre o risco de se tornar sempre mais velha, concede o dom de novas
vocações que saibam testemunhar a « juventude » de Deus
e da Igreja, universal e local, do Leste ao Ocidente, e saibam promover projetos
de nova santidade, para o nascimento de uma nova Europa.
Virgem Santa, jovem filha de Israel, que o Pai escolheu como esposa
do Espírito para gerar o Filho na terra, gera nos jovens da Europa a tua
mesma coragem audaz; aquela coragem que um dia te tornou livre para acreditar
num projeto maior do que tu mesma, livre para esperar que Deus iria realizá-lo.
A ti, que és a mãe do Eterno Sacerdote, confiamos aqueles jovens
chamados ao presbiterato; a ti, que és a primeira consagrada do
Pai, confiamos aqueles e aquelas jovens que escolhem pertencer totalmente ao
Senhor, único tesouro e bem sumamente amado, na vida religiosa e
consagrada; a ti, que viveste como ninguém a solidão de uma
intimidade mais perfeita com o Senhor Jesus, confiamos quem deixa o mundo para
dedicar toda a sua vida à oração, na vida monástica;
a ti, que geraste e assististe com materno amor a Igreja nascente, confiamos
todas as vocações desta Igreja, para que, hoje como antes,
anunciem a todas as gentes que Jesus Cristo é o Senhor, no Espírito
Santo, para a glória de Deus Pai. Amén! ».
Roma, 06 de janeiro de 1998, Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Pio Card. Laghi
Presidente
José Saraiva Martins
Arcebispo Titular de Tuburnica
Vice-Presidente
(1) Participaram do Congresso 253 delegados provenientes de 37 nações
européias, e representantes das várias categorias vocacionais
(leigos, consagrados as, sacerdotes, bispos), com a presença inclusive de
alguns expoentes das Igrejas irmãs (Protestantes, Ortodoxos e
Anglicanos).
(2) Pontifícia Obra para as Vocações Eclesiásticas,
A pastoral das vocações nas Igrejas particulares da Europa.
Documento de trabalho do Congresso sobre as vocações ao Sacerdócio
e à Vida Consagrada na Europa, Roma 1996, n. 88. De agora em diante
esse texto será citado como IT (Instrumento de Trabalho).
(3) Ibid., 15.
(4) Ver, entre outros, Desenvolvimento da pastoral das vocações
nas Igrejas particulares, experiências do passado e programas para o
futuro, Documento conclusivo do II Congreso internacional de Bispos e outros
responsáveis pelas vocações eclesiásticas (sob
os auspicios das SS. Congregaçoes: para as Igrejas Orientais, para as
Religiosas e as Institutos Seculares, para a Evangelização dos
povos, para a Educação Catolica) Roma, 10-16 de maio de 1981;
Pontifícia Obra das Vocações Eclesiásticas, Desenvolvimento
da pastoral das vocações nas Igrejas particulares (preparadopelas
Congregações da Educação Católica e dos
Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, Roma
1992; Declaração final do I Congresso Continental
latino-americano sobre Vocações, Itaici 1994 (publicada em «
Seminarium », 34 (1994)
(5) Cf IT, 18.
(6) Cf Proposições Conclusivas do Congresso Europeu sobre
as Vocações ao Sacerdócio e à Vida Consagrada,
8. De agora em diante esse texto será citado como Proposições.
(7) 3 IT, 32.
(8) Proposições, 7.
(9) Proposições, 3.
(10) Proposições, 4.
(11) Paulo VI, Evangelii nuntiandi, 2. Ver também sobre o
argumento, de João Paulo II, Christifidelis laici, 33-34, e Redemptoris
Missio, 33-34.
(12) Proposições, 19.
(13) 3 Lumen Gentium 32; 39-42 (cap. V).
(14) IT, 6.
(15) Proposições 16.
(16) Proposições, 19.
(17) A « cultura vocacional » foi o tema da Mensagem Pontifícia
para o XXX Dia mundial de oração pelas vocações,
celebrado no dia 0251993 (cf « L'Osservatore Romano » 18121992; cf
também Congregação para a Educação Católica,
P.O.V.E., Messaggi Pontifici per la Giornata mondiale di preghiera per le
vocazioni, Roma 1994, pp. 241-245).
(18) João Paulo II, Discurso aos participantes do Congresso sobre
as vocações na Europa, in « L'Osservatore Romano »,
1151997, 4.
(19) Ibid.
(20) Cf Proposições, 12.
(21) 3 IT, 6.
(22) Discurso do S. Padre, in « L'Osservatore Romano », 11
de maio de 1997, n. 107.
(23) 3 Cf Proposições, 20.
(24) Cf João Paulo II, Vita consacrata, 64.
(25) 3 IT, 85.
(26) 3 Uma expressão análoga foi usada no Documento
conclusivo do II Congresso internacional de Bispos e outros responsáveis
pelas vocações eclesiásticas, cf Sviluppi, 3. De
agora em diante o citaremos com a sigla DC (documento conclusivo).
(27) Proposições, 3.
(28) Paulo VI, Populorum progressio, 15.
(29) Gaudium et spes, 22.
(30) A propósito disso, assim se expressou uma tese final do
Congresso: « No contexto europeu, é importante fazer emergir o
primeiro momento vocacional, o do nascimento. O acolhimento da vida mostra que
se crê naquele Deus que « vê » e « chama » desde
o seio materno (Proposições, 34).
(31) João Paulo II, Familiaris consortio, 11
(32) Por isso, como lembra uma tese do Congresso, « somente no contato
vivo com Jesus Cristo Salvador, os jovens podem desenvolver a capacidade de
comunhão, maturar a própria personalidade e decidir-se por Ele (Proposições,
13).
(33) IT, 55.
(34) 3 Sacrosanctum Concilium, 10.
(35) Cf Veritatis splendor, 23-24.
(36) Cf Lumen gentium, cap. V.
(37) Cf Proposições, 16.
(38) Rito da Crisma.
(39) Cf Proposições, 35.
(40) Lumen gentium, 1.
(41) Cf Proposições, 21.
(42) II Epiclesi.
(43) DC, 18.
(44) DC, 13.
(45) Proposições, 28.
(46) Isso faz parte do ensinamento insistentemente lembrado por João
Paulo II nas Cartas Encíclicas « Slavorum Apostoli » (1985)
e « Ut umum sint » (1995), como na Exortação
Apostólica « Orientale lumen » (1995).
(47) IT, 58.
(48) João Paulo II, Christifidelis laici, 55
(49) 3 João Paulo II, Pastores dabo vobis, 15.
(50) Na pastoral específica das vocações seja dado um
lugar à vocação ao diaconato permanente. Os diáconos
permanentes já são uma presença preciosa em diversas paróquias,
e seria redutivo se eles não fossem incluídos como novas vocações
da nova Europa » (Proposições, 18)
(51) 3 Sacrosanctum Concilium, 10.
(52) « In laudibus Virginis Matris », Homilia II, 4; Sancti
Bernardi opera, IV, Romae, Editiones Cistercenses, 1966, p. 23.
(53) « In Iohannis Evangelium Tractatus », VIII, 9: CCL 36, p. 87.
(54) Discurso de João Paulo II aos participantes do Congresso
sobre o tema: « Novas vocações para uma nova Europa » in
« L'Osservatore Romano », 11-5-1997, n. 107.
(55) DC, 5.
(56) A expressão se encontra na Exortação Apostólica
de João Paulo II Pastores dabo vobis, n. 34. No mesmo documento
estão bem delineados os motivos fundantes que ligam intrinsecamente a
pastoral vocacional à Igreja.
(57) Ibidem.
(58) Ibidem.
(59) IT, 58.
(60) A expressão « comunidade cristã » é,
por si mesma, expressão genérica que indica uma Igreja particular
ou local, como também uma paróquia. É equivalente a um
grupo de cristãos residentes num lugar e representa a Igreja de maneira
atual, quando se reúne para orar e servir, para dar testemunho do amor e
da presença de Cristo no meio deles. Ao invés, a expressão «
Comunidade eclesial » tem um significado mais específico,
porque evidencia a presença dos elementos que constituem a Igreja, a
partir da centralidade do mistério eucarístico; de modo próprio
se aplica à diocese e às paróquias, que são
comunidades eclesiais eucarísticas, graças à presença
do ministério ordenado; as outras o são por extensão do
significado. Cf a respeito DC, 13-16.
(61) Joao Paulo II, Discorso al VI Simposio delle Conferenze Episcopali
Europee, 11.10.1985.
(62) Pastores dabo vobis, 34.
(63) Ibidem, 35.
(64) Ibidem, 41.
(65) Cf Ibidem, 41.
(66) Ibidem, 38.
(67) Vita consecrata, 64.
(68) Ibidem.
(69) 3 IT, 59.
(70) Cf Dichiarazione, 26.
(71) Cf Proposições, 25.
(72) Cf Vita consecrata, n. 70.
(73) Proposições, 4.
(74) Proposições, 13.
(75) Cf Proposições, 10.
(76) 3 Cf Proposições, 10.
(77) Por si mesma a liturgia é um apelo. Ela é o lugar
privilegiado onde todo o povo de Deus se encontra de modo visível e se
realiza o mistério da fé » (Proposições,
13).
(78) Dei Verbum, 25.
(79) O primeiro lugar de testemunho é a vida de uma Igreja que se
descobre como « comunhão », e onde as paróquias e as
realidades associativas são vividas como comunhão de comunidades (Proposições,
14).
(80) Proposições, 21.
(81) Vita consecrata, 64.
(82) Cf Lumen gentium, 12; 35; 40-42.
(83) Cf Catechesi tradendae, 186.
(84) Proposições, 35, onde se recorda mais uma vez ao
Bispos a grande oportunidade a eles oferecida pela celebração da
Crisma, de « chamar » os jovens que recebem esse sacramento.
(85) Proposições, 10.
(86) Proposições, 11.
(87) Proposições, 10.
(88) 3 Pastores dabo vobis, 41.
(89) Cf as sábias indicações sobre o assunto no Documento
Conclusivo do II Congresso Internacional de 1981, DC, 40.
(90) 3 Cf Optatum totius, 2; DC, 57-59; cf também
Sviluppi della pastorale, 89-91.
(91) Cf Proposições, 10.
(92) « Às vezes observou-se no Congresso nota-se
uma certa dificuldade no relacionamento entre Igreja local e vida religiosa.
Embora depois do Sínodo sobre a vida consagrada já se entrevejam
sinais de novas orientações, é importante abandonar uma
leitura funcional da vida religiosa em si mesma. O mesmo vale para os Institutos
Seculares » (Proposições, 16).
(93) « Numa situação religiosa e cultural que está
mudando rapidamente, torna-se indispensável formar os animadores de base:
catequistas, párocos, diáconos, consagrados, bispos... e cuidar da
formação permanente deles » (Proposições,
17).
(94) Cf Proposições, 29 onde, falando desse centro
vocacional europeu, se exprime o desejo de que, como gesto de caridade e de
intercâmbio de dons, « proveja um « banco » de pessoas
qualificadas para colaborar na formação dos formadores ».
Acerca da constituição de tal organismo, existe uma solicitação
nesse sentido também no Instrumentum laboris, 83 e 90h. Uma
experiência positiva já em ato existe há vários anos
na América Latina. Em Bogotá (Colômbia), junto à sede
do Conselho Epis-
copal Latino-Americano (CELAM), funciona de forma estável o «
Departamento de Vocações e Ministérios » (DEVYM). Esse
organismo foi também o ponto de referência para a preparação
e a celebração do Primeiro Congresso Continental, realizado para a
América Latina em Itaici (São Paulo Brasil, de 23 a 27 de maio de
1994.
(95) IT, 86.
(96) 3 Cf Proposições, 9.
(97) Paulo VI, Guardate a Cristo e alla Chiesa, Mensagem para o XV
Dia mundial de oração pelas vocações (1641978), em
Insegnamenti di Paolo VI, XVI, 1978, pp. 256-260 (cf também
Congregação para a Educação Católica,
P.O.V.E., Messaggi Pontifici, 127).
(98) Proposições, 15.
(99) Proposições, 9.
(100) Proposições, 22. E ainda: o despertar do
interesse pelo evangelho e por uma vida radicalmente dedicada a ele na consagração,
depende, em grande parte, do testemunho pessoal de sacerdotes e religiososas
felizes com a própria condição. A maioria dos candidatos à
vida consagrada e ao sacerdócio declara atribuir a própria vocação
a um encontro com um sacerdote ou consagradoa » (Ibidem, 11).
(101) Proposições, 12.
(102) Assim a Proposição 23: « É
importante sublinhar que os jovens são abertos aos desafios e às
propostas fortes (que sejam « superiores à média », isto
é, que tenham alguma coisa "a mais!") ».
(103) Que retorna sob forma de provocação, nas palavras de
Paulo aos Coríntios: « E que tens tu, que não recebeste? »
(1 Cor 4,7).
(104) IT, 55.
(105) Proposições, 27.
(106) Cf Proposições, 25.
(107) Cf Proposições, 25.
(108) 3 Cf Proposições, 14.
(109) Pastores dabo vobis, 11.
(110) Cf Jurado, Il discernimento, 262. Cf também L. R.
Moran, Orientaciones doctrinales para una pastoral eclesial de las
vocaciones », in Seminarium, 4 (1991), 697-725.
(111) Falamos aqui de uma maturidade afetivo-sexual de base, como condição
prévia para a admissão aos votos religiosos e o ministério
ordenado, segundo as duas vias das Igrejas católicas da Europa, ao ministério
celibatário (Igreja ocidental) e ao ministério não celibatário
(Igrejas orientais). É importante que, da pastoral vocacional à
formação propriamente dita, os programas pedagógicos sejam
coerentes e bem elaborados, porque, num e noutro caso, a preparação
para o ministério ordenado seja adequada, especialmente no nível
da solidez afetiva, e assim o exercício do próprio ministério
possa atingir o objetivo do anúncio do amor de Deus como origem e fim do
amor humano.
(112) Nesse sentido, ver a recomendação do Potissimum
Institutioni de descartar, a respeito da homossexualidade, não
aqueles que têm tal tendência, mas « aqueles que não
chegarão a dominar tais tendências » (39) embora aquele «
dominar » deva ser entendido assim cremos em seu sentido
pleno, não só como esforço volitivo, mas como liberdade
progressiva em relação às mesmas tendências, no coração
e na mente, na vontade e nos desejos.
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