EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
VITA CONSECRATA
DO SANTO PADRE
JOAO PAULO II
AO EPISCOPADO E AO CLERO,
ÀS ORDENS E CONGREGAÇÕES RELIGIOSAS,
ÀS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA,
AOS INSTITUTOS SECULARES
E A TODOS OS FIÉIS
SOBRE A VIDA CONSAGRADA E A SUA MISSÃO
NA IGREJA E NO MUNDO
INTRODUÇÃO
1. A vida consagrada, profundamente arreigada nos exemplos e ensinamentos
de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito.
Através da profissão dos conselhos evangélicos, os traços característicos
de Jesus — virgem, pobre e obediente — adquirem uma típica e permanente
« visibilidade » no meio do mundo, e o olhar dos fiéis é atraído para
aquele mistério do Reino de Deus que já actua na história, mas aguarda
a sua plena realização nos céus.
Ao longo dos séculos, nunca faltaram homens e mulheres que, dóceis ao
chamamento do Pai e à moção do Espírito, escolheram este caminho de especial
seguimento de Cristo, para se dedicarem a Ele de coração « indiviso » (cf.
1 Cor 7,34). Também eles deixaram tudo, como os Apóstolos, para
estar com Cristo e colocar-se, como Ele, ao serviço de Deus e dos irmãos.
Contribuíram assim para manifestar o mistério e a missão da Igreja, graças
aos múltiplos carismas de vida espiritual e apostólica que o Espírito Santo
lhes distribuía, e deste modo concorreram também para renovar a sociedade.
Acção de graças pela vida consagrada
2. O papel da vida consagrada na Igreja é tão notável que decidi convocar
um Sínodo para aprofundar o seu significado e as suas perspectivas em ordem
ao novo milénio, já iminente. Na Assembleia sinodal, quis que, ao lado
dos Padres, estivesse também presente um número considerável de pessoas
consagradas, a fim de não faltar a sua contribuição para a reflexão comum.
Cientes, como estamos todos, da riqueza que constitui, para a comunidade
eclesial, o dom da vida consagrada na variedade dos seus carismas e das
suas instituições, juntos damos graças a Deus pelas Ordens e Institutos
religiosos dedicados à contemplação ou às obras de apostolado, pelas Sociedades
de Vida Apostólica, pelos Institutos seculares, e pelos outros grupos de
consagrados, como também por todos aqueles que, no segredo do seu coração,
se dedicam a Deus por uma especial consagração.No Sínodo, pôde-se constatar
a expansão universal da vida consagrada, achando-se presente nas Igrejas
de toda a terra. Ela estimula e acompanha o avanço da evangelização nas
diversas regiões do mundo, onde não apenas são acolhidos com gratidão os
Institutos vindos de fora, mas constituem-se também novos e com grande
variedade de formas e expressões.E se os Institutos de vida consagrada,
nalgumas regiões da terra, parecem atravessar momentos de dificuldade,
noutras prosperam com um vigor surpreendente, demonstrando que a opção
de total doação a Deus em Cristo não é de forma alguma incompatível com
a cultura e a história de cada povo. E não prospera só dentro da Igreja
católica; na verdade, a vida consagrada acha-se particularmente viva no
monaquismo das Igrejas ortodoxas, como rasgo essencial da sua fisionomia,
e está a começar ou a ressurgir nas Igrejas e Comunidades eclesiais nascidas
da Reforma, como sinal de uma graça comum dos discípulos de Cristo. Uma
tal constatação serve de estímulo ao ecumenismo, que alimenta o desejo
de uma comunhão cada vez mais plena entre os cristãos, « para que o mundo
creia » (Jo 17,21).
A vida consagrada, dom à Igreja
3. A presença universal da vida consagrada e o carácter evangélico do
seu testemunho provam, com toda a evidência — caso isso fosse ainda necessário
—, que ela não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito
a toda a Igreja. No Sínodo, os Bispos confirmaram-no por diversas vezes:
« de re nostra agitur », « é algo que nos diz respeito ».Na verdade,
a vida consagrada está colocada mesmo no coração da Igreja , como
elemento decisivo para a sua missão, visto que « exprime a íntima natureza
da vocação cristã »e a tensão da Igreja-Esposa para a união com o único
Esposo.Diversas vezes se afirmou, no Sínodo, que a função de ajuda e apoio
exercida pela vida consagrada à Igreja não se restringe aos tempos passados,
mas continua a ser um dom precioso e necessário também no presente e para
o futuro do Povo de Deus, porque pertence intimamente à sua vida, santidade
e missão.As dificuldades actuais, que vários Institutos encontram nalgumas
regiões do mundo, não devem induzir a pôr em dúvida o facto de que a profissão
dos conselhos evangélicos é parte integrante da vida da Igreja,
à qual presta um impulso precioso em ordem a uma coerência evangélica cada
vez maior.Historicamente poderá haver uma sucessiva variedade de formas,
mas não mudará a substância de uma opção que se exprime na radicalidade
do dom de si mesmo por amor do Senhor Jesus e, n'Ele, por amor de cada
membro da família humana. Sobre esta certeza que animou inúmeras
pessoas ao longo dos séculos, o povo cristão continua a esperar ,
sabendo bem que, da ajuda destas almas generosas, pode receber um apoio
muito válido no seu caminho para a pátria celestial.
Recolhendo os frutos do Sínodo
4. Acedendo ao desejo manifestado pela Assembleia Geral Ordinária do
Sínodo dos Bispos, reunida para reflectir sobre o tema « A vida consagrada
e a sua missão na Igreja e no mundo », é meu intuito propor, nesta Exortação
Apostólica, os frutos do itinerário sinodale manifestar a todos os fiéis
— Bispos, presbíteros, diáconos, pessoas consagradas e leigos —, e ainda
a quantos quiserem prestar atenção, as maravilhas que o Senhor deseja realizar,
hoje também, através da vida consagrada.
Este Sínodo, realizado depois dos que foram dedicados aos leigos e aos
presbíteros, completa a exposição das peculiaridades características dos
vários estados de vida, que o Senhor Jesus quis na sua Igreja. Na verdade,
se no Concílio Vaticano II foi sublinhada a grande realidade da comunhão
eclesial, que faz convergir todos os dons e carismas para a construção
do Corpo de Cristo e para a missão da Igreja no mundo, nestes últimos anos
sentiu-se a necessidade de explicitar melhor a identidade dos vários
estados de vida, a sua vocação e missão específica na Igreja.A comunhão
na Igreja não é, de facto, uniformidade, mas dom do Espírito que passa
também através da variedade dos carismas e dos estados de vida. Estes serão
tanto mais úteis à Igreja e à sua missão, quanto maior for o respeito pela
sua identidade. Com efeito, todo o dom do Espírito é concedido a fim de
frutificar para o Senhor,no crescimento da fraternidade e da missão.
A obra do Espírito, nas várias formas de vida consagrada
5. Como não recordar, cheios de gratidão ao Espírito, a abundância
das formas históricas de vida consagrada, por Ele suscitadas e continuamente
mantidas no tecido eclesial? Assemelham-se a uma planta com muitos ramos,que
assenta as suas raízes no Evangelho e produz frutos abundantes em cada
estação da Igreja. Que riqueza extraordinária! Eu mesmo, no final do Sínodo,
senti a necessidade de sublinhar este elemento constante na história da
Igreja: a multidão de fundadores e fundadoras, de santos e santas, que
escolheram seguir Cristo na radicalidade do Evangelho e no serviço fraterno,
especialmente a favor dos pobres e dos abandonados.Precisamente neste serviço
resulta, com particular evidência, como a vida consagrada manifesta o carácter
unitário do mandamento do amor, na sua conexão indivisível entre o
amor de Deus e o amor do próximo.
O Sínodo recordou esta obra incessante do Espírito Santo, que vai explanando,
ao longo dos séculos, as riquezas da prática dos conselhos evangélicos
através dos múltiplos carismas, e que, também por este caminho, torna o
mistério de Cristo perenemente presente na Igreja e no mundo, no tempo
e no espaço.
Vida monástica no Oriente e no Ocidente
6. Os Padres sinodais das Igrejas católicas orientais e os representantes
das outras Igrejas do Oriente puseram em destaque, nas suas intervenções,
os valores evangélicos da vida monástica,que aparecera já nos primórdios
do cristianismo e continua ainda florescente nos seus territórios, especialmente
nas Igrejas ortodoxas.
Desde os primeiros séculos da Igreja, houve homens e mulheres que se
sentiram chamados a imitar a condição de servo abraçada pelo Verbo encarnado,
e puseram-se a segui-Lo vivendo de um modo específico e radical, na profissão
monástica, as exigências derivadas da participação baptismal no mistério
pascal da sua morte e ressurreição. Deste modo, fazendo-se portadores da
Cruz (staurophóroi), comprometeram-se a tornar-se portadores do
Espírito (pneumatophóroi), homens e mulheres autenticamente espirituais,
capazes de em segredo fecundar a história, com o louvor e a intercessão
contínua, com os conselhos ascéticos e as obras de caridade.Com a intenção
de transfigurar o mundo e a vida enquanto se aguarda a visão definitiva
do rosto de Deus, o monaquismo oriental privilegia a conversão, a renúncia
a si próprio e a contrição do coração, a procura da esichia, isto
é, da paz interior, e a prece incessante, o jejum e as vigílias, a luta
espiritual e o silêncio, a alegria pascal pela presença do Senhor e pela
expectativa da sua vinda definitiva, a oferta de si mesmo e dos próprios
bens, vivida na santa comunhão do mosteiro ou na solidão eremítica.ambém
o Ocidente praticou, desde os primeiros séculos da Igreja, a vida monástica,
registando uma grande variedade de expressões tanto no âmbito comunitário
como no eremítico. Na sua forma actual, inspirada especialmente em S. Bento,
o monaquismo ocidental recolhe a herança de tantos homens e mulheres que,
renunciando à vida levada no mundo, procuraram a Deus e a Ele se dedicaram,
« sem nada antepor ao amor de Cristo ».Também os monges de hoje se esforçam
por conciliar harmoniosamente a vida interior e o trabalho , no
compromisso evangélico da conversão dos costumes, da obediência, da clausura,
e na dedicação assídua à meditação da Palavra (lectio divina), à
celebração da liturgia, à oração. Os mosteiros foram e continuam a ser,
no coração da Igreja e do mundo, um sinal eloquente de comunhão, um lugar
acolhedor para aqueles que buscam Deus e as coisas do espírito, escolas
de fé e verdadeiros centros de estudo, diálogo e cultura para a edificação
da vida eclesial e também da cidade terrena, à espera da celeste.
A Ordem das virgens, os eremitas, as viúvas
7. Um motivo de alegria e esperança é ver que hoje volta a florescer
a antiga Ordem das virgens, cuja presença nas comunidades cristãs
é testemunhada desde os tempos apostólicos.Consagradas pelo Bispo diocesano,
elas contraem um vínculo particular com a Igreja, a cujo serviço se dedicam,
mesmo permanecendo no mundo. Sozinhas ou associadas, constituem uma
imagem escatológica especial da Esposa celeste e da vida futura, quando,
finalmente, a Igreja viverá em plenitude o seu amor por Cristo Esposo.
Os homens e as mulheres eremitas, ligados a Ordens antigas ou
a novos Institutos ou então dependentes directamente do Bispo, testemunham
através da separação interior e exterior do mundo o carácter provisório
do tempo presente, e pelo jejum e pela penitência atestam que o homem não
vive só de pão, mas da Palavra de Deus (cf. Mt 4,4). Uma vida assim
« no deserto » é um convite aos indivíduos e à própria comunidade eclesial
para nunca perderem de vista a vocação suprema, que é estar sempre
com o Senhor.Hoje voltou a ser praticada também a consagração tanto das
viúvas ,conhecida desde os tempos apostólicos (cf. 1 Tim
5,5.9-10; 1 Cor 7,8), como dos viúvos. Estas pessoas, mediante o
voto de castidade perpétua como sinal do Reino de Deus, consagram a sua
condição para se dedicarem à oração e ao serviço da Igreja.
Institutos inteiramente dedicados à contemplação
8. Os Institutos orientados completamente à contemplação, formados por
mulheres ou por homens, constituem um motivo de glória e uma fonte de graças
celestes para a Igreja. Com a sua vida e missão, as pessoas que deles fazem
parte imitam Cristo em oração no cimo do monte, testemunham o domínio de
Deus sobre a história, antecipam a glória futura.
Na solidão e no silêncio, mediante a escuta da Palavra de Deus, a realização
do culto divino, a ascese pessoal, a oração, a mortificação e a comunhão
do amor fraterno, orientam toda a sua vida e actividade para a contemplação
de Deus. Oferecem assim à comunidade eclesial um testemunho singular do
amor da Igreja pelo seu Senhor, e contribuem, com uma misteriosa fecundidade
apostólica, para o crescimento do Povo de Deus. É justo, portanto, desejar
que as várias formas de vida contemplativa conheçam uma difusão crescente
nas jovens Igrejas, enquanto expressão de pleno enraizamento do Evangelho,
sobretudo naquelas regiões do mundo onde predominam outras religiões. Isto
permitirá testemunhar o vigor das tradições cristãs de ascese e mística,
e favorecerá também o diálogo inter-religioso.
A vida religiosa apostólica
9. No Ocidente, floresceram ao longo dos séculos muitas outras expressões
de vida religiosa, nas quais inúmeras pessoas, renunciando ao mundo, se
consagraram a Deus, através da profissão pública dos conselhos evangélicos
segundo um carisma específico e numa forma estável de vida comum, para
um serviço apostólico pluriforme ao Povo de Deus. Temos, assim, as
diversas famílias de Cónegos regulares, as Ordens mendicantes, os Clérigos
regulares, e as Congregações religiosas masculinas e femininas, em geral,
dedicadas à actividade apostólica e missionária e às múltiplas obras que
a caridade cristã suscitou.
É um testemunho esplêndido e variegado, onde se reflecte a multiplicidade
dos dons dispensados por Deus aos fundadores e fundadoras que, abertos
à acção do Espírito Santo, souberam interpretar os sinais dos tempos e
responder, de forma esclarecida, às exigências que sucessivamente iam aparecendo.
Seguindo os seus passos, muitas outras pessoas procuraram, com a palavra
e a acção, encarnar o Evangelho na própria existência, para apresentar
aos seus contemporâneos a presença viva de Jesus, o Consagrado por excelência
e o Apóstolo do Pai. É em Cristo Senhor que se devem continuar a rever
os religiosos e religiosas de cada época, alimentando na oração uma profunda
comunhão de sentimentos com Ele (cf. Fil 2,5-11), para que toda
a sua vida seja permeada de espírito apostólico, e toda a acção apostólica
seja repassada de contemplação.
Os Institutos seculares
10. O Espírito Santo, artífice admirável da diversidade de carismas,
suscitou no nosso tempo novas expressões de vida consagrada, como
que desejando corresponder, segundo um desígnio providencial, às novas
necessidades que a Igreja encontra hoje no cumprimento da sua missão no
mundo.
Vêm ao pensamento, antes de mais, os Institutos seculares, cujos
membros pretendem viver a consagração a Deus no mundo, através da
profissão dos conselhos evangélicos no contexto das estruturas temporais,
para serem assim fermento de sabedoria e testemunhas da graça no ambito
da vida cultural, económica e política. Através da síntese de secularidade
e consagração, que os caracteriza, eles querem infundir na sociedade
as energias novas do Reino de Cristo, procurando transfigurar o mundo
a partir de dentro com a força das bem-aventuranças. Desta forma, ao mesmo
tempo que a pertença total a Deus os torna plenamente consagrados ao seu
serviço, a sua actividade nas condições normais dos leigos contribui, sob
a acção do Espírito, para a animação evangélica das realidades seculares.
Os Institutos seculares contribuem assim para garantir à Igreja, segundo
a índole específica de cada um, uma presença incisiva na sociedade.ambém
realizam uma função preciosa os Institutos seculares clericais,
onde sacerdotes pertencentes ao presbitério diocesano — mesmo quando lhes
é reconhecida a incardinação no próprio Instituto — se consagram a Cristo
através da prática dos conselhos evangélicos segundo um específico carisma.
Eles encontram, nas riquezas espirituais do próprio Instituto a que pertencem,
uma grande ajuda para viver intensamente a espiritualidade própria do sacerdócio
e ser assim fermento de comunhão e generosidade apostólica entre os seus
irmãos.
As Sociedades de Vida Apostólica
11. Merecem, depois, uma especial menção as Sociedades de Vida Apostólica
ou de vida comum, masculinas e femininas, que perseguem, com seu estilo
próprio, um específico fim apostólico e missionário. Em muitas delas, assumem-se
expressamente os conselhos evangélicos, com vínculos sagrados reconhecidos
oficialmente pela Igreja. Mesmo neste caso, todavia, a peculiaridade da
sua consagração distingue-as dos Institutos religiosos e dos Institutos
seculares. Há que salvaguardar e promover a especificidade desta forma
de vida, que, ao longo dos últimos séculos, produziu tantos frutos de santidade
e de apostolado, especialmente no campo da caridade e na difusão missionária
do Evangelho.
Novas expressões de vida consagrada
12. A perene juventude da Igreja continua a manifestar-se também hoje:
nos últimos decénios, depois do Concílio Ecuménico Vaticano II, apareceram
formas novas ou renovadas de vida consagrada . Em muitos casos,
trata-se de Institutos semelhantes aos que já existem, mas nascidos de
novos estímulos espirituais e apostólicos. A sua vitalidade deve ser ponderada
pela autoridade da Igreja, a quem compete proceder aos devidos exames,
quer para comprovar a autenticidade da sua finalidade inspiradora, quer
para evitar a excessiva multiplicação de instituições análogas entre si,
com o consequente risco de uma nociva fragmentação em grupos demasiadamente
pequenos. Noutros casos, trata-se de experiências originais, que estão
à procura da sua própria identidade na Igreja e esperam ser reconhecidas
oficialmente pela Sé Apostólica, a única a quem compete o juízo definitivo.Estas
novas formas de vida consagrada, que se vêm juntar às antigas, testemunham
a constante atracção que a doação total ao Senhor, o ideal da comunidade
apostólica, os carismas de fundação continuam a exercer mesmo sobre a geração
actual, e são sinal também da complementaridade dos dons do Espírito Santo.Mas
o Espírito não Se contradiz na inovação. Prova-o o facto de que as novas
formas de vida consagrada não substituíram as antigas. Numa variedade tão
grande de formas, pôde-se conservar a unidade de fundo graças ao chamamento
sempre idêntico a seguir, na busca da perfeita caridade, Jesus virgem,
pobre e obediente. Este chamamento, tal como se encontra em todas as formas
já existentes, assim é requerido naquelas que se propõem como novas.
Finalidade da Exortação Apostólica
13. Com esta Exortação Apostólica, que recolhe os frutos dos trabalhos
sinodais, pretendo dirigir-me a toda a Igreja, para oferecer não só às
pessoas consagradas, mas também aos Pastores e aos fiéis, os resultados
de um sugestivo confronto, sobre cujo desenvolvimento o Espírito Santo
não cessou de velar com os seus dons de verdade e de amor.
Nestes anos de renovação, a vida consagrada atravessou, como de resto
outras formas de vida na Igreja, um período delicado e árduo. Foi um período
rico de esperanças, de tentativas e propostas inovadoras, visando revigorar
a profissão dos conselhos evangélicos. Mas foi também um tempo com as suas
tensões e angústias, ao longo do qual experiências até generosas nem sempre
foram coroadas de resultados positivos.As dificuldades, porém, não devem
levar ao desânimo. Pelo contrário, é preciso empenhar-se com novo ardor,
porque a Igreja necessita da contribuição espiritual e apostólica de uma
vida consagrada renovada e vigorosa. Através da presente Exortação pós-sinodal,
desejo dirigir-me às comunidades religiosas e às pessoas consagradas, com
o mesmo espírito que animava a carta enviada pelo Concílio de Jerusalém
aos cristãos de Antioquia, e nutro a esperança de que se possa repetir,
hoje também, a mesma experiência de outrora: « Depois de a lerem, todos
ficaram satisfeitos com o encorajamento que lhes trazia » (Act 15,31).
Mais: nutro ainda a esperança de fazer crescer a alegria de todo o Povo
de Deus, que, conhecendo melhor a vida consagrada, poderá mais conscientemente
dar graças ao Omnipotente por este grande dom.Em atitude de cordial sintonia
com os Padres sinodais, recolhi como um tesouro as preciosas contribuições
surgidas durante os intensos trabalhos da Assembleia, nos quais quis estar
sempre presente. Naquela época, tive o cuidado também de oferecer a todo
o Povo de Deus algumas catequeses sistemáticas sobre a vida consagrada
na Igreja. Nelas propus novamente os ensinamentos presentes nos textos
do Concílio Vaticano II, tendo este sido um luminoso ponto de referência
para os sucessivos desenvolvimentos doutrinais e para a própria reflexão
realizada pelo Sínodo durante as semanas intensas dos seus trabalhos.om
a confiança de que os filhos da Igreja, de modo particular as pessoas consagradas,
vão também acolher com cordial adesão esta Exortação, faço votos por que
a reflexão prossiga em ordem ao aprofundamento do grande dom da vida consagrada
na tríplice dimensão da consagração, da comunhão e da missão, e que os
consagrados e as consagradas, em plena sintonia com a Igreja e o seu Magistério,
encontrem deste modo novos estímulos para enfrentar espiritual e apostolicamente
os desafios que forem surgindo.
CAPÍTULO I
CONFESSIO TRINITATIS
NAS FONTES CRISTOLÓGICO-TRINITÁRIAS
DA VIDA CONSAGRADA
O ícone de Cristo transfigurado
14. O fundamento evangélico da vida consagrada há-de ser procurado naquela
relação especial que Jesus, durante a sua existência terrena, estabeleceu
com alguns dos seus discípulos, convidando-os não só a acolherem o Reino
de Deus na sua vida, mas também a colocarem a própria existência ao serviço
desta causa, deixando tudo e imitando mais de perto a sua forma de vida.
Esta existência « cristiforme », proposta a tantos baptizados ao longo
da história, só é possível com base numa vocação especial e por um dom
peculiar do Espírito. De facto, numa tal existência, a consagração baptismal
é levada a uma resposta radical no seguimento de Cristo pela assunção dos
conselhos evangélicos, sendo o vínculo sagrado da castidade pelo Reino
dos Céus o primeiro e mais essencial deles.Assim, este especial « seguimento
de Cristo », em cuja origem está sempre a iniciativa do Pai, reveste uma
conotação essencialmente cristológica e pneumatológica, exprimindo de forma
muito viva o carácter trinitário da vida cristã, da qual antecipa
de algum modo a realização escatológica, para onde tende a Igreja
inteira.o Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam
o sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão
de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar
o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração.
A este « ícone » faz referência toda a tradição espiritual antiga, quando
relaciona a vida contemplativa com a oração de Jesus « no monte ».ab ipso
Domino familiarissime celebrata, ab eius discipulis ipso praesente concupita:
cuius transfigurationis gloriam cum vidissent qui cum eo in monte sancto
erant, continuo Petrus (...) optimum sibi iudicavit in hoc semper esse
» (Ad fratres de Monte Dei I,1: PL 184, 310).] Mas de algum
modo podem-se espelhar lá também as dimensões « activas » da vida consagrada,
visto que a Transfiguração não é só revelação da glória de Cristo, mas
também preparação para enfrentar a cruz. Implica um « subir ao monte »
e um « descer do monte »: os discípulos que gozaram da intimidade do Mestre,
envolvidos durante alguns momentos pelo esplendor da vida trinitária e
da comunhão dos santos, como que arrebatados até ao limiar da eternidade,
são reconduzidos logo a seguir à realidade quotidiana, onde vêem « apenas
Jesus » na humildade da sua natureza humana, e são convidados a regressar
ao vale para partilharem com Ele o peso do desígnio de Deus e empreender
corajosamente o caminho da cruz.
« Transfigurou-Se diante deles »
15. Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu
irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte. Transfigurou-Se diante
deles: o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se
brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele.
Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus:« Senhor, é bom [nós] estarmos
aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés
e outra para Elias ».Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa
os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem:« Este é o meu Filho
muito amado, no qual pus todo o meu enlevo; escutai-O ».Ao ouvirem isto,
os discípulos caíram por terra, muito assustados.Aproximando-Se deles,
Jesus tocou-lhes, dizendo:« Levantai-vos e não tenhais medo ».E, erguendo
os olhos, apenas viram Jesus e mais ninguém.Enquanto desciam do monte,
Jesus ordenou-lhes:« Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até
que o Filho do Homem ressuscite dos mortos » ( Mt 17,1-9).O
episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério
de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos
discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição.
É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho
do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos,
a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na
fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz.
Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa
do seu mistério, envolvida pela sua luz.Esta luz atinge todos os seus filhos,
todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n'Ele o sentido
último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: « Para mim, o
viver é Cristo » (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa
luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são
chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos
coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para
o mundo. Por isso, não podem deixar de encontrar neles um eco particular
as palavras extasiadas de Pedro: « Senhor, é bom estarmos aqui! » (Mt
17,4). Estas palavras manifestam a tensão cristocêntrica de toda a
vida cristã, mas exprimem também, com particular eloquência, o carácter
totalizante que constitui o dinamismo profundo da vocação à vida
consagrada: « Como é bom estarmos contigo, dedicarmo-nos a Ti, concentrar
a nossa existência exclusivamente em Ti! ». De facto, quem recebeu a graça
desta especial comunhão de amor com Cristo, sente-se de certa forma arrebatado
pelo seu fulgor: Ele é o « mais belo entre os filhos do homem » (Sal
4544,3), o Incomparável.
« Este é o meu Filho muito amado: escutai-O! »
16. Aos três discípulos extasiados chega o apelo do Pai a que se ponham
à escuta de Cristo, depositem n'Ele toda a confiança, façam d'Ele o centro
da vida. À luz desta palavra que vem do alto, adquire nova profundidade
aquele convite que lhes fizera Jesus, ao início da sua vida pública, quando
os chamara a segui-Lo, arrancando-os à sua vida normal e acolhendo-os na
sua intimidade. É precisamente desta graça especial de intimidade que brota,
na vida consagrada, a possibilidade e a exigência do dom total de si mesmo
na profissão dos conselhos evangélicos. Estes, antes e mais do que renúncia,
são um acolhimento específico do mistério de Cristo, vivido no seio
da Igreja.
De facto, na unidade da vida cristã, as diversas vocações são comparáveis
a raios da única luz de Cristo, « que resplandece no rosto da Igreja ».Os
leigos, em virtude da índole secular da sua vocação, reflectem o
mistério do Verbo encarnado sobretudo enquanto Ele é Alfa e Ómega do mundo,
fundamento e medida do valor de todas as coisas criadas. Os ministros
sagrados, por sua vez, são imagens vivas de Cristo, Cabeça e Pastor,
que guia o seu povo neste tempo do « já e ainda não », na expectativa da
sua vinda gloriosa. À vida consagrada está confiada a missão de
indicar o Filho de Deus feito homem como a meta escatológica para onde
tudo tende , o esplendor perante o qual qualquer outra luz empalidece,
a beleza infinita, a única que pode saciar totalmente o coração do homem.
É que na vida consagrada não se trata apenas de seguir Cristo de todo o
coração, amando-O « mais do que o pai ou a mãe, mais do que o filho ou
a filha » (cf. Mt 10,37), como é pedido a todo o discípulo, mas
trata-se de viver e exprimir isso mesmo com uma adesão « conformativa
» a Cristo da existência inteira, numa tensão totalizante que antecipa,
por quanto possível no tempo e aos vários carismas, a perfeição escatológica.Na
verdade, pela profissão dos conselhos, o consagrado não só faz de Cristo
o sentido da própria vida, mas preocupa-se por reproduzir em si mesmo,
na medida do possível, « aquela forma de vida que o Filho de Deus assumiu
ao entrar no mundo ».Abraçando a virgindade, ele assume o amor virginal
de Cristo e confessa-O ao mundo como Filho unigénito, um só com o Pai (cf.
Jo 10,30; 14,11); imitando a sua pobreza, confessa-O como
Filho que tudo recebe do Pai e no amor tudo Lhe devolve (cf. Jo
17,7.10); aderindo, com o sacrifício da própria liberdade, ao mistério
da sua obediência filial, confessa-O infinitamente amado e amante,
como Aquele que Se compraz somente na vontade do Pai (cf. Jo 4,34),
ao qual está perfeitamente unido e do qual depende em tudo.Com tal identificação
« conformativa » ao mistério de Cristo, a vida consagrada realiza a título
especial aquela confessio Trinitatis, que caracteriza toda a vida
cristã, reconhecendo extasiada a beleza sublime de Deus Pai, Filho e Espírito
Santo, e testemunhando com alegria a sua amorosa magnanimidade com todo
o ser humano.
I. EM LOUVOR DA TRINDADE
A Patre ad Patrem: a iniciativa de Deus
17. A contemplação da glória do Senhor Jesus no ícone da Transfiguração
revela às pessoas consagradas, antes de mais, o Pai, criador e dador de
todo o bem, que atrai a Si (cf. Jo 6,44) uma criatura sua, por um
amor de predilecção e em ordem a uma missão especial. « Este é o meu Filho
muito amado: escutai-O! » (Mt 17,5). Correspondendo a este apelo
acompanhado por uma atracção interior, a pessoa chamada entrega-se ao amor
de Deus, que a quer exclusivamente ao seu serviço, e consagra-se totalmente
a Ele e ao seu desígnio de salvação (cf. 1 Cor 7,32-34).Está aqui
o sentido da vocação à vida consagrada: uma iniciativa total do Pai (cf.
Jo 15,16), que requer daqueles que escolhe uma resposta de dedicação
plena e exclusiva.A experiência deste amor gratuito de Deus é tão íntima
e forte que a pessoa sente que deve responder com a dedicação incondicional
da sua vida, consagrando tudo, presente e futuro, nas suas mãos. Por isso
mesmo, como ensina S. Tomás, a identidade da pessoa consagrada pode-se
compreender a partir da totalidade da sua oferta, comparável a um autêntico
holocausto.
Per Filium: seguindo os passos de Cristo
18. O Filho, caminho que conduz ao Pai (cf. Jo 14,6), chama todos
aqueles que o Pai Lhe deu (cf. Jo 17,9) a um seguimento que dá orientação
à sua existência. A alguns porém — concretamente às pessoas de vida consagrada
—, Cristo pede uma adesão total, que implica o abandono de tudo (cf. Mt
19,27) para viver na intimidade com Elee segui-Lo para onde quer que vá
(cf. Ap 14,4).
No olhar de Jesus (cf. Mc 10,21), « imagem do Deus invisível
» (Col 1,15), resplendor da glória do Pai (cf. Heb 1,3),
constata-se a profundidade de um amor eterno e infinito que atinge as raízes
do ser.A pessoa que se deixa seduzir, não pode deixar de abandonar tudo
e segui-Lo (cf. Mc 1,16-20; 2,14; 10,21.28). A semelhança de Paulo,
considera tudo o resto como « perda, pela excelência do conhecimento de
Cristo Jesus », não hesitando em reputar tudo o mais como « lixo, a fim
de ganhar Cristo » (cf. Fil 3,8). A sua aspiração é identificar-se
com Ele, assumindo os seus sentimentos e forma de vida. O deixar tudo e
seguir o Senhor (cf. Lc 18,28) constitui um programa válido para
todas as pessoas chamadas e para todos os tempos.Os conselhos evangélicos,
pelos quais Cristo convida alguns a partilharem a sua experiência de pessoa
virgem, pobre e obediente, requerem e manifestam, em quem acolhe o convite,
o desejo explícito de conformação total com Ele. Vivendo « na obediência,
sem nada de seu e na castidade »,os consagrados confessam que Jesus é o
Modelo no qual toda a virtude alcança a perfeição. Na verdade, a sua forma
de vida casta, pobre e obediente apresenta-se como a maneira mais radical
de viver o Evangelho sobre esta terra, um modo — pode-se dizer — divino,
porque abraçado por Ele, Homem-Deus, como expressão da sua relação de Filho
Unigénito com o Pai e com o Espírito Santo. Este é o motivo por que, na
tradição cristã, sempre se falou da objectiva excelência da vida consagrada.Inegável
é, ainda, que a prática dos conselhos constitui também uma forma particularmente
íntima e fecunda de tomar parte na missão de Cristo seguindo o exemplo
de Maria de Nazaré, primeira discípula, que aceitou colocar-se ao serviço
do desígnio divino com o dom total de si mesma. Toda a missão inicia com
a mesma atitude expressa por Maria, na Anunciação: « Eis a escrava do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra » (Lc 1,38).
In Spiritu: consagrados pelo Espírito Santo
19. « Uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra » (Mt 17,5).
Uma significativa interpretação espiritual da Transfiguração vê nesta nuvem
a imagem do Espírito Santo.Como toda a existência cristã, também a vocação
à vida consagrada está intimamente relacionada com a obra do Espírito Santo.
É Ele que, pelos milénios fora, sempre induz novas pessoas a sentirem atracção
por uma opção tão comprometedora. Sob a sua acção, elas revivem, de certo
modo, a experiência do profeta Jeremias: « Vós me seduzistes, Senhor, e
eu deixei-me seduzir » (20,7). É o Espírito que suscita o desejo de uma
resposta cabal; é Ele que guia o crescimento desse anseio, fazendo amadurecer
a resposta positiva e sustentando, depois, a sua fiel realização; é Ele
que forma e plasma o espírito dos que são chamados, configurando-os a Cristo
casto, pobre e obediente, e impelindo-os a assumirem a sua missão. Deixando-se
guiar pelo Espírito num caminho ininterrupto de purificação, tornam-se,
dia após dia, pessoas cristiformes, prolongamento na história de
uma especial presença do Senhor ressuscitado.Com profunda intuição, os
Padres da Igreja qualificaram este caminho espiritual como filocalia,
ou seja, amor pela beleza divina, que é irradiação da bondade de
Deus. A pessoa que é progressivamente conduzida pelo poder do Espírito
Santo até à plena configuração com Cristo, reflecte em si mesma um raio
da luz inacessível, e na sua peregrinação terrena caminha até à Fonte inexaurível
da luz. Deste modo, a vida consagrada torna-se uma expressão particularmente
profunda da Igreja Esposa que, movida pelo Espírito a reproduzir em si
mesma os traços do Esposo, aparece na presença d'Ele « gloriosa sem mancha
nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada » (Ef
5,27).E o Espírito, longe de afastar da história dos homens as pessoas
que o Pai chamou, coloca-as ao serviço dos irmãos, segundo as modalidades
próprias do seu estado de vida, e encaminha-as para a realização de tarefas
específicas, de acordo com as necessidades da Igreja e do mundo, através
dos carismas próprios dos vários Institutos. Daí a aparição de múltiplas
formas de vida consagrada, através das quais a Igreja é « embelezada com
a variedade dos dons dos seus filhos, (...) como esposa adornada para o
seu esposo (cf. Ap 21,2) »,e fica enriquecida de todos os meios
para cumprir a sua missão no mundo.
Os conselhos evangélicos, dom da Trindade
20. Assim os conselhos evangélicos são, primariamente, um dom da
Santíssima Trindade. A vida consagrada é anúncio daquilo que o Pai,
pelo Filho no Espírito, realiza com o seu amor, a sua bondade, a sua beleza.
De facto, « o estado religioso patenteia (...) a elevação do Reino de Deus
sobre tudo o que é terreno e as suas relações transcendentes; e revela
aos homens a grandeza do poder de Cristo Rei e a potência infinita com
que o Espírito Santo maravilhosamente actua na Igreja ».A primeira tarefa
da vida consagrada é tornar visíveis as maravilhas que Deus realiza
na frágil humanidade das pessoas chamadas. Mais do que com as palavras,
elas testemunham essas maravilhas com a linguagem eloquente de uma existência
transfigurada, capaz de suscitar a admiração do mundo. À admiração dos
homens respondem com o anúncio dos prodígios da graça que o Senhor realiza
naqueles que ama. Na medida em que a pessoa consagrada se deixa conduzir
pelo Espírito até aos cumes da perfeição, pode exclamar: « Contemplo a
beleza da vossa graça, vejo seu brilho, irradio sua luz; fico cativado
pelo seu inefável esplendor; acabo arrebatado longe de mim, sempre que
penso ao meu próprio ser; vejo como era e no que me tornei. Ó maravilha!
Presto toda a minha atenção, fico cheio de respeito por mim mesmo, de reverência
e de temor como se estivesse diante de Vós mesmo; não sei o que fazer,
porque a timidez se apoderou de mim; não sei onde sentar-me, donde me aproximar,
onde repousar estes membros que Vos pertencem; em que iniciativa, em que
obra empregá-las, estas encantadoras maravilhas divinas ».Deste modo, a
vida consagrada torna-se um dos rastos concretos que a Trindade deixa na
história, para que os homens possam sentir o encanto e a saudade da beleza
divina.
Nos conselhos, o reflexo da vida trinitária
21. A relação dos conselhos evangélicos com a Trindade santa e santificadora
revela o sentido mais profundo deles. Na verdade, são expressão do amor
que o Filho nutre pelo Pai na unidade do Espírito Santo. Praticando-os,
a pessoa consagrada vive, com particular intensidade, o carácter trinitário
e cristológico que caracteriza toda a vida cristã.
A castidade dos celibatários e das virgens, enquanto manifestação
da entrega a Deus com um coração indiviso (cf. 1 Cor 7,32-34),
constitui um reflexo do amor infinito que une as três Pessoas divinas
na profundidade misteriosa da vida trinitária; amor testemunhado pelo Verbo
encarnado até ao dom da própria vida; amor « derramado em nossos corações
pelo Espírito Santo » (Rm 5,5), que incita a uma resposta de amor
total a Deus e aos irmãos.A pobreza confessa que Deus é a única
verdadeira riqueza do homem. Vivida segundo o exemplo de Cristo que, «
sendo rico, Se fez pobre » ( 2 Cor 8,9), torna-se expressão do dom
total de Si que as três Pessoas divinas reciprocamente se fazem. É
dom que transborda para a criação e se manifesta plenamente na Encarnação
do Verbo e na sua morte redentora.A obediência, praticada à imitação
de Cristo cujo alimento era fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34),
manifesta a graça libertadora de uma dependência filial e não servil,
rica de sentido de responsabilidade e animada pela confiança recíproca,
que é reflexo, na história, da amorosa correspondência das três
Pessoas divinas.Assim, a vida consagrada é chamada a aprofundar continuamente
o dom dos conselhos evangélicos com um amor cada vez mais sincero e forte
na sua dimensão trinitária: amor a Cristo, que chama à sua
intimidade; ao Espírito Santo, que predispõe o espírito para acolher
as suas inspirações; ao Pai, origem primeira e fim supremo da vida
consagrada.Esta torna-se, assim, confissão e sinal da Trindade, cujo mistério
é indicado à Igreja como modelo e fonte de toda a forma de vida cristã.Também
a vida fraterna, em virtude da qual as pessoas consagradas se esforçam
por viver em Cristo com « um só coração e uma só alma » (Act 4,32),
se apresenta como uma eloquente confissão trinitária. Confessa o Pai,
que quer fazer de todos os homens uma só família; confessa o Filho encarnado,
que congrega os redimidos na unidade, apontando o caminho com o seu exemplo,
a sua oração, as suas palavras e, sobretudo, com a sua morte, fonte de
reconciliação para os homens divididos e dispersos; confessa o Espírito
Santo, como princípio de unidade na Igreja, onde não cessa de suscitar
famílias espirituais e comunidades fraternas.
Consagrados, como Cristo, para o Reino de Deus
22. Sob o impulso do Espírito Santo, a vida consagrada « imita mais
de perto, e perpetuamente representa na Igreja »a forma de vida que Jesus,
supremo consagrado e missionário do Pai para o seu Reino, abraçou e propôs
aos discípulos que O seguiam (cf. Mt 4,18-22; Mc 1,16-20;
Lc 5,10-11; Jo 15,16). À luz da consagração de Jesus, é possível
descobrir na iniciativa do Pai, fonte de toda a santidade, a nascente originária
da vida consagrada. Na verdade, Jesus é aquele que « Deus ungiu com o Espírito
Santo e com poder » (Act 10,38), « aquele que o Pai consagrou e
enviou ao mundo » (Jo 10,36). Recebendo a consagração do Pai, o
Filho consagra-Se por sua vez ao Pai pela humanidade (cf. Jo 17,19):
a sua vida de virgindade, obediência e pobreza exprime a adesão filial
e plena ao desígnio do Pai (cf. Jo 10,30; 14,11). A sua oblação
perfeita confere um sentido de consagração a todos os acontecimentos da
sua existência terrena.
Jesus é o obediente por excelência, descido do céu não para fazer
a sua vontade, mas a d'Aquele que O enviou (cf. Jo 6,38; Heb
10,5.7). Entrega o seu modo de ser e de agir nas mãos do Pai (cf. Lc
2,49). Por obediência filial, assume a forma de servo: « Despojou-Se a
Si mesmo tomando a condição de servo (...), feito obediente até à morte
e morte de cruz » (Fil 2,7-8). É também nesta atitude de docilidade
ao Pai que Cristo, embora aprovando e defendendo a dignidade e a santidade
da vida matrimonial, assume a forma de vida virginal, e revela assim o
valor sublime e a misteriosa fecundidade espiritual da virgindade .
A sua plena adesão ao desígnio do Pai manifesta-se ainda no desapego dos
bens terrenos: « Sendo rico, fez-Se pobre por vós, a fim de vos enriquecer
pela sua pobreza » (2 Cor 8,9). A profundidade da sua pobreza
revela-se na perfeita oblação de tudo o que é seu ao Pai.Verdadeiramente
a vida consagrada constitui memória viva da forma de existir e actuar
de Jesus, como Verbo encarnado face ao Pai e aos irmãos. Aquela é tradição
vivente da vida e da mensagem do Salvador.
II. DA PÁSCOA AO CUMPRIMENTO DEFINITIVO
Do Tabor ao Calvário
23. O acontecimento deslumbrante da Transfiguração prepara um outro,
trágico mas não menos glorioso, que é o do Calvário. Pedro, Tiago e João
contemplam o Senhor Jesus, acompanhado por Moisés e Elias, com os quais
— segundo o evangelista Lucas — Ele fala « da sua partida que iria consumar-se
em Jerusalém » (9,31). Assim os olhos dos apóstolos fixam-se em Jesus,
que pensa na Cruz (cf. Lc 9,43-45). Nesta, o seu amor virginal pelo
Pai e por todos os homens atingirá a máxima expressão; a sua pobreza chegará
ao despojamento total; a sua obediência irá até ao dom da vida.
Os discípulos e discípulas são convidados a contemplar Jesus exaltado
na Cruz, a partir da qual « o Verbo saído do silêncio »,no seu silêncio
e solidão, proclama profeticamente a transcendência absoluta de Deus sobre
todos os bens criados, vence na sua carne o nosso pecado, e atrai a Si
todo o homem e mulher, dando a cada um a nova vida da ressurreição (cf.
Jo 12,32; 19, 34.37). Da contemplação de Cristo crucificado, recebem
inspiração todas as vocações; da Cruz, com o dom fundamental do Espírito
têm origem todos os dons, e em particular o dom da vida consagrada.Depois
de Maria, Mãe de Jesus, recebe este dom o discípulo que Jesus amava, João,
a testemunha que se encontrava, com Maria, aos pés da Cruz (cf. Jo
19,26-27). A sua decisão de consagração total é fruto do amor divino que
o envolve, sustenta e lhe enche o coração. João, ao lado de Maria, conta-se
entre os primeiros dessa longa série de homens e mulheres que, desde o
início da Igreja até ao fim, tocados pelo amor de Deus, se sentem chamados
a seguir o Cordeiro imolado e redivivo, para onde quer que Ele vá (cf.
Ap 14,1-5).
Dimensão pascal da vida consagrada
24. A pessoa consagrada, nas várias formas de vida suscitadas pelo Espírito
ao longo da história, experimenta a verdade de Deus-Amor de modo tanto
mais imediato e profundo quanto mais se aproxima da Cruz de Cristo. Na
verdade, Aquele que, na sua morte, aparece aos olhos humanos desfigurado
e sem beleza, a ponto de obrigar os espectadores a desviar o rosto (cf.
Is 53,2-3), manifesta plenamente a beleza e a força do amor de Deus,
precisamente na Cruz. Assim o contempla S. Agostinho: « Admirável é Deus,
o Verbo junto de Deus. [...] É admirável no céu, admirável na terra; admirável
no seio, admirável nos braços dos pais, admirável nos milagres, admirável
nos suplícios; admirável quando convida à vida, admirável quando não se
preocupa com a morte, admirável ao deixar a vida e admirável ao retomá-la;
admirável na Cruz, admirável no sepulcro, admirável no céu. Escutai o cântico
com a inteligência, e que a fragilidade da carne não afaste os vossos olhos
do esplendor da sua beleza ».A vida consagrada reflecte este esplendor
do amor, porque confessa, com a sua fidelidade ao mistério da Cruz, que
crê e vive do amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deste modo, ela
contribui para manter viva na Igreja a consciência de que a Cruz é a
superabundância do amor de Deus que transborda sobre este mundo, ela
é o grande sinal da presença salvífica de Cristo. E isto, especialmente
nas dificuldades e nas provações. É o que testemunha, continuamente e com
uma coragem digna de profunda admiração, um grande número de pessoas consagradas
que vivem em situações difíceis, por vezes mesmo de perseguição e martírio.
A sua fidelidade ao único Amor revela-se e aperfeiçoa-se na humildade de
uma vida escondida, na aceitação dos sofrimentos para « completar na própria
carne o que falta aos sofrimentos de Cristo » (cf. Col 1,24), no
sacrifício silencioso, no abandono à vontade santa de Deus, na serena fidelidade
mesmo face ao declínio das próprias forças e importância. Da fidelidade
a Deus, brota também a dedicação ao próximo, que as pessoas consagradas
vivem, não sem sacrifício, na constante intercessão pelas necessidades
dos irmãos, no generoso serviço aos pobres e aos enfermos, na partilha
das dificuldades alheias, na solícita participação das preocupações e provas
da Igreja.
Testemunhas de Cristo no mundo
25. Do mistério pascal, brota também a missionariedade, que é
dimensão qualificativa de toda a vida eclesial; mas encontra uma realização
específica na vida consagrada. Para não falar já nos carismas próprios
daqueles Institutos que se consagram à missão ad gentes ou se empenham
em actividades justamente de tipo apostólico, há que afirmar que a missionariedade
está inscrita no coração mesmo de toda a forma de vida consagrada.
Na medida em que o consagrado vive uma vida dedicada exclusivamente ao
Pai (cf. Lc 2,49; Jo 4,34), cativada por Cristo (cf. Jo
15,16; Gal 1,15-16), animada pelo Espírito Santo (cf. Lc
24,49; Act 1,8; 2,4), ele coopera eficazmente para a missão do Senhor
Jesus (cf. Jo 20,21), contribuindo de modo particularmente profundo
para a renovação do mundo.
O dever missionário das pessoas consagradas tem a ver primeiro com elas
próprias, e cumprem-no abrindo o seu coração à acção do Espírito de Cristo.
O seu testemunho ajuda a Igreja inteira a lembrar-se de que em primeiro
lugar está o serviço gratuito de Deus, tornado possível pela graça de Cristo,
comunicada ao crente pelo dom do Espírito. Deste modo, é anunciada ao mundo
a paz que desce do Pai, a dedicação que é testemunhada pelo Filho, a alegria
que é fruto do Espírito Santo.As pessoas consagradas serão missionárias,
antes de mais, aprofundando continuamente a consciência de terem sido chamadas
e escolhidas por Deus, para quem devem, por isso mesmo, orientar toda a
sua vida e oferecer tudo o que são e possuem, libertando-se dos obstáculos
que poderiam retardar a resposta total de amor. Desta forma, poderão tornar-se
um verdadeiro sinal de Cristo no mundo. Também o seu estilo de vida
deve fazer transparecer o ideal que professam, propondo-se como sinal vivo
de Deus e como persuasiva pregação, ainda que muitas vezes silenciosa,
do Evangelho.Sempre, mas especialmente na cultura contemporânea muitas
vezes tão secularizada e apesar disso sensível à linguagem dos sinais,
a Igreja deve-se preocupar por tornar visível a sua presença na vida
quotidiana. Uma contribuição significativa neste sentido, ela tem direito
de esperá-la das pessoas consagradas, chamadas a prestar, em cada situação,
um testemunho concreto da sua pertença a Cristo. Visto que o hábito é sinal
de consagração, de pobreza e de pertença a uma determinada família religiosa,
unindo-me aos Padres do Sínodo recomendo vivamente aos religiosos e religiosas
que usem o seu hábito, adaptado convenientemente às circunstâncias dos
tempos e lugares.Onde válidas exigências apostólicas o aconselharem, poderão,
em conformidade com as normas do próprio Instituto, usar um vestuário simples
mas digno, com um símbolo apropriado, de modo que seja reconhecível a sua
consagração.Os Institutos que, já desde a origem ou por disposição das
suas constituições, não prevêem um hábito próprio, cuidem de que o vestuário
dos seus membros corresponda, em dignidade e simplicidade, à natureza da
sua vocação.
Dimensão escatológica da vida consagrada
26. Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir sempre
com maior urgência e o empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco
de ser cada vez mais absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar
a atenção para a natureza escatológica da vida consagrada.
« Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração » (Mt
6,21): esse tesouro único, que é o Reino, suscita desejo, expectativa,
compromisso e testemunho. Na Igreja primitiva, a expectativa da vinda do
Senhor era vivida de modo particularmente intenso. A Igreja não cessou
de alimentar esta atitude de esperança, ao longo dos séculos: continuou
a convidar os fiéis a levantarem os seus olhos para a salvação pronta a
revelar-se, « porque a figura deste mundo passa » (1 Cor 7,31; cf.
1 Ped 1,3-6).(__ste horizonte que melhor se compreende a função
de sinal escatológico, própria da vida consagrada. De facto, é constante
a doutrina que a apresenta como antecipação do Reino futuro. O Concílio
Vaticano II reitera este ensinamento, quando afirma que a consagração «
preanuncia a ressurreição futura e a glória do Reino celeste ».Fá-lo, antes
de mais, pela opção virginal, concebida sempre pela tradição como
uma antecipação do mundo definitivo, que já desde agora actua e
transforma o homem na sua globalidade.As pessoas que dedicaram a sua vida
a Cristo, não podem deixar de viver no desejo de O encontrar, para estarem
finalmente e para sempre com Ele. Daí a esperança ardente, daí o desejo
de « entrarem na Fornalha de amor que nelas arde, e que outra coisa não
é que o Espírito Santo »:esperança e desejo amparados pelos dons que o
Senhor livremente concede a quantos aspiram às coisas do alto (cf. Col
3,1).Com o olhar fixo nas coisas do Senhor, a pessoa consagrada lembra
que « não temos aqui cidade permanente » (Heb 13,14), porque « somos
cidadãos do Céu » (Fil 3,20). A única coisa necessária é buscar
« o Reino de Deus e a sua justiça » (Mt 6,33), implorando sem cessar
a vinda do Senhor.
Uma esperança activa: compromisso e vigilância
27. « Vem, Senhor Jesus! » (Ap 22,20). Esta esperança está bem
longe de ser passiva: apesar de apontar para o Reino futuro, ela exprime-se
em trabalho e missão, para que o Reino se torne presente já desde agora,
através da instauração do espírito das bem-aventuranças, capaz de suscitar
anseios eficazes de justiça, paz, solidariedade e perdão, mesmo na sociedade
humana.
Isto está amplamente demonstrado na história da vida consagrada, que
sempre produziu frutos abundantes mesmo em favor da sociedade. Pelos seus
carismas, as pessoas consagradas tornam-se um sinal do Espírito em ordem
a um futuro novo, iluminado pela fé e pela esperança cristã. A tensão
escatológica transforma-se em missão, para que o Reino se afirme de
modo crescente, aqui e agora. À súplica « Vem, Senhor Jesus! », une-se
a outra invocação: « Venha a nós o teu Reino! » (cf. Mt 6,10).Aquele
que espera, vigilante, o cumprimento das promessas de Cristo, é capaz de
infundir também esperança nos seus irmãos e irmãs, frequentemente desanimados
e pessimistas relativamente ao futuro. A sua esperança está fundada na
promessa de Deus, contida na Palavra revelada: a história dos homens caminha
para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21,1), onde o Senhor « enxugará
as lágrimas dos seus olhos; não haverá mais morte, nem pranto, nem gritos,
nem dor, porque as primeiras coisas passaram » (Ap 21,4).A vida
consagrada está ao serviço desta irradiação definitiva da glória divina,
quando toda a criatura vir a salvação de Deus (cf. Lc 3,6; Is
40,5). O Oriente cristão sublinha esta dimensão, ao considerar os monges
como anjos de Deus sobre a terra, que anunciam a renovação do mundo
em Cristo. No Ocidente, o monaquismo é celebração feita de memória e vigília:
memória das maravilhas realizadas por Deus, vigília do cumprimento
definitivo da esperança. A mensagem do monaquismo e da vida contemplativa
repete, sem cessar, que o primado de Deus é plenitude de sentido e de alegria
para a vida humana, pois o homem está feito para Deus e vive inquieto até
encontrar n'Ele a paz.
A Virgem Maria, modelo de consagração e seguimento
28. Maria é aquela que, desde a sua imaculada conceição, reflecte mais
perfeitamente a beleza divina. « Toda sois formosa »: com estas palavras,
A invoca a Igreja. « A relação com Maria Santíssima, que todo o fiel tem
em consequência da sua união com Cristo, resulta ainda mais acentuada na
vida das pessoas consagradas.(...) Em todos [os Institutos de vida consagrada],
existe a convicção de que a presença de Maria tem uma importância fundamental,
quer para a vida espiritual de cada uma das almas consagradas, quer para
a consistência, unidade e progresso da inteira comunidade ».Maria é, de
facto, exemplo sublime de perfeita consagração, pela sua pertença
plena e dedicação total a Deus. Escolhida pelo Senhor, que n'Ela quis cumprir
o mistério da Encarnação, lembra aos consagrados o primado da iniciativa
de Deus. Ao mesmo tempo, dando o seu consentimento à Palavra divina
que n'Ela Se fez carne, Maria aparece como modelo de acolhimento da
graça por parte da criatura humana.Unida a Cristo, juntamente com José,
na vida escondida de Nazaré, presente junto do Filho em momentos cruciais
da sua vida pública, a Virgem é mestra de seguimento incondicional e de
assíduo serviço. Assim n'Ela, « templo do Espírito Santo »,brilha todo
o esplendor da nova criatura. A vida consagrada contempla-A como modelo
sublime de consagração ao Pai, de união com o Filho e de docilidade ao
Espírito, na certeza de que aderir « ao género de vida virginal e pobre
»de Cristo significa assumir também o género de vida de Maria.Mas na Virgem,
a pessoa consagrada encontra ainda uma Mãe por um título absolutamente
especial. De facto, se a nova maternidade conferida a Maria no Calvário
é um dom feito a todos os cristãos, tem um valor específico para quem consagrou
plenamente a própria vida a Cristo. « Eis aí a tua Mãe » (Jo 19,27):
estas palavras de Jesus, dirigidas ao discípulo « que Ele amava » (Jo
19,26), assumem uma profundidade particular na vida da pessoa consagrada.
De facto, esta é chamada, como João, a tomar consigo Maria Santíssima (cf.
Jo 19,27), amando-A e imitando-A com a radicalidade própria da sua
vocação, e experimentando da parte d'Ela, em contrapartida, uma especial
ternura materna. A Virgem comunica-lhe aquele amor que lhe permite oferecer
todos os dias a vida por Cristo, cooperando com Ele na salvação do mundo.
Por isso, a relação filial com Maria constitui o caminho privilegiado para
a fidelidade à vocação recebida e uma ajuda muito eficaz para nela progredir
e vivê-la em plenitude.
III. NA IGREJA E PARA A IGREJA
« É bom estarmos aqui »: a vida consagrada no mistério da Igreja
29. Na cena da Transfiguração, Pedro fala em nome dos outros apóstolos:
« É bom [nós] estarmos aqui » (Mt 17,4). A experiência da glória
de Cristo, apesar de lhe inebriar a mente e o coração, não o isola, antes
pelo contrário liga-o mais profundamente ao « nós » que sao os discípulos.
Esta dimensão do « nós » leva-nos a considerar o lugar que a vida consagrada
ocupa no mistério da Igreja. Nestes anos, a reflexão teológica acerca
da natureza da vida consagrada aprofundou as novas perspectivas derivadas
da doutrina do Concílio Vaticano II. À sua luz, constatou-se que a profissão
dos conselhos evangélicos pertence indiscutivelmente à vida e à santidade
da Igreja.Isto significa que a vida consagrada, presente na Igreja
desde os primeiros tempos, nunca poderá faltar nela, enquanto seu elemento
imprescindível e qualificativo, expressão da sua própria natureza.Isto
resulta evidente do facto de a profissão dos conselhos evangélicos estar
intimamente ligada com o mistério de Cristo, já que tem a função de tornar
de algum modo presente a forma de vida que Ele escolheu, apontando-a como
valor absoluto e escatológico. O próprio Jesus, ao chamar algumas pessoas
a deixarem tudo para O seguirem, inaugurou este género de vida que, sob
a acção do Espírito, se desenvolverá gradualmente, ao longo dos séculos,
nas várias formas de vida consagrada. Portanto, a concepção de uma Igreja
composta unicamente por ministros sagrados e por leigos não corresponde
às intenções do seu divino Fundador, tais como no-las apresentam os Evangelhos
e outros escritos neo-testamentários.
A nova e especial consagração
30. Na tradição da Igreja, a profissão religiosa é considerada como
um singular e fecundo aprofundamento da consagração baptismal, visto
que nela a união íntima com Cristo, já inaugurada no Baptismo, evolui para
o dom de uma conformação expressa e realizada mais perfeitamente, através
da profissão dos conselhos evangélicos.Todavia esta nova consagração reveste
uma sua peculiaridade relativamente à primeira, da qual não é uma consequência
necessária.Na verdade, todo aquele que foi regenerado em Cristo é chamado
a viver, pela força que lhe vem do dom do Espírito, a castidade própria
do seu estado de vida, a obediência a Deus e à Igreja, e um razoável desapego
dos bens materiais, porque todos são chamados à santidade, que consiste
na perfeição da caridade.Mas o Baptismo, por si mesmo, não comporta o chamamento
ao celibato ou à virgindade, a renúncia à posse dos bens, e a obediência
a um superior, na forma exigida pelos conselhos evangélicos. Portanto,
a profissão destes últimos supõe um dom particular de Deus não concedido
a todos, como Jesus mesmo sublinha no caso do celibato voluntário (cf.
Mt 19, 10-12). A este chamamento especial corresponde, de resto,
um dom específico do Espírito Santo, para que a pessoa consagrada
possa responder à sua vocação e missão. Por isso, como testemunham as liturgias
do Oriente e do Ocidente no rito da profissão monástica ou religiosa e
na consagração das virgens, a Igreja invoca sobre as pessoas escolhidas
o dom do Espírito Santo, e associa a sua oblação ao sacrifício de Cristo.
profissão dos conselhos evangélicos é um desenvolvimento também da graça
do sacramento da Confirmação, mas ultrapassa as exigências normais
da consagração crismal em virtude de um dom particular do Espírito, que
predispõe para novas possibilidades e novos frutos de santidade e de apostolado,
como demonstra a história da vida consagrada.Quanto aos sacerdotes que
fazem a profissão dos conselhos evangélicos, a experiência demonstra que
o sacramento da Ordem encontra uma fecundidade peculiar em tal consagração,
visto que esta requer e favorece a exigência de uma pertença mais íntima
ao Senhor. O sacerdote que faz a profissão dos conselhos evangélicos fica
particularmente habilitado para reviver em si próprio a plenitude do mistério
de Cristo, graças inclusivamente à espiritualidade peculiar do próprio
Instituto e à dimensão apostólica do respectivo carisma. No presbítero,
com efeito, a vocação ao sacerdócio e à vida consagrada convergem numa
unidade profunda e dinâmica.Valor incalculável tem também a contribuição
dada à vida da Igreja pelos religiosos sacerdotes, dedicados integralmente
à contemplação. Especialmente na Celebração Eucarística, eles cumprem um
acto da Igreja e para a Igreja, ao qual unem a oferta de si próprios, em
comunhão com Cristo que Se oferece ao Pai pela salvação de todo o mundo.
As relações entre os vários estados de vida do cristão
31. As diversas formas de vida, em que, segundo o desígnio de Cristo
Senhor, se articula a vida eclesial, apresentam recíprocas relações, sobre
as quais convém deter-se.
Todos os fiéis, em virtude da sua regeneração em Cristo, compartilham
a mesma dignidade; todos são chamados à santidade; todos cooperam para
a edificação do único Corpo de Cristo, cada qual segundo a própria vocação
e o dom recebido do Espírito (cf. Rm 12,3-8).A dignidade igual entre
todos os membros da Igreja é obra do Espírito, está fundada no Baptismo
e na Confirmação, e é corroborada pela Eucaristia. Mas é também obra do
Espírito a multiplicidade de formas. É Ele que faz da Igreja uma comunhão
orgânica na sua diversidade de vocações, carismas e ministérios.s vocações
à vida laical, ao ministério ordenado e à vida consagrada podem-se considerar
paradigmáticas, uma vez que todas as vocações particulares, sob um aspecto
ou outro, se inspiram ou conduzem àquelas, assumidas separada ou conjuntamente,
segundo a riqueza do dom de Deus. Além disso, elas estão ao serviço umas
das outras, em ordem ao crescimento do Corpo de Cristo na história e à
sua missão no mundo. Todos, na Igreja, são consagrados no Baptismo e na
Confirmação, mas o ministério ordenado e a vida consagrada supõem, cada
qual, uma distinta vocação e uma forma específica de consagração, com vista
a uma missão peculiar.Para a missão dos leigos — aos quais compete
« procurar o Reino de Deus, tratando das realidades temporais e ordenando-as
segundo Deus »—, é fundamento adequado a consagração baptismal e crismal,
comum a todos os membros do Povo de Deus. Os ministros ordenados,
além dessa consagração fundamental, recebem também a da Ordenação, para
continuar no tempo o ministério apostólico. As pessoas consagradas ,
que abraçam os conselhos evangélicos, recebem uma nova e especial consagração
que, apesar de não ser sacramental, as compromete a assumirem — no celibato,
na pobreza e na obediência — a forma de vida praticada pessoalmente por
Jesus, e por Ele proposta aos discípulos. Embora estas diversas categorias
sejam manifestaçao do único mistério de Cristo, os leigos têm como característica
peculiar, embora não exclusiva, a secularidade, os pastores a « ministerialidade
», os consagrados a conformação especial a Cristo virgem, pobre e obediente.
O valor especial da vida consagrada
32. Neste conjunto harmonioso de dons, está confiado a cada um dos estados
de vida fundamentais o encargo de exprimir, ao próprio nível, ora uma ora
outra das dimensões do único mistério de Cristo. Se, para fazer ressoar
o anúncio evangélico no âmbito das realidades temporais, tem uma missão
particular a vida laical, no âmbito da comunhão eclesial um ministério
insubstituível é desempenhado por aqueles que estão constituídos na Ordem
sagrada, de modo especial pelos Bispos. Estes têm a tarefa de guiar
o Povo de Deus, mediante o ensinamento da Palavra, a administração dos
Sacramentos e o exercício do poder sagrado ao serviço da comunhão eclesial,
que é comunhão orgânica e hierarquicamente ordenada.Na manifestação da
santidade da Igreja, há que reconhecer uma objectiva primazia à vida
consagrada , que reflecte o próprio modo de viver de Cristo. Por isso
mesmo, nela se encontra uma manifestação particularmente rica dos valores
evangélicos e uma actuação mais completa do objectivo da Igreja que é a
santificação da humanidade. A vida consagrada anuncia e de certo modo antecipa
o tempo futuro, quando, alcançada a plenitude daquele Reino dos céus que
agora está presente apenas em gérmen e no mistério,os filhos da ressurreição
não tomarão esposa nem marido, mas serão como anjos de Deus (cf. Mt
22,30).De facto, a primazia da castidade perfeita pelo Reino,justamente
considerada a « porta » de toda a vida consagrada,é objecto do ensinamento
constante da Igreja. De resto, esta tributa grande estima também à vocação
para o matrimónio, que torna os esposos « testemunhas e cooperadores da
fecundidade da Igreja, nossa mãe, em sinal e participação daquele amor,
com que Cristo amou a sua Esposa e por ela Se entregou ».este horizonte
comum a toda a vida consagrada, articulam-se caminhos distintos entre si,
mas complementares. Os religiosos e religiosas dedicados integralmente
à contemplação são, de modo especial, imagem de Cristo em oração sobre
o monte.As pessoas consagradas de vida activa manifestam Jesus «
anunciando às multidões o Reino de Deus, curando os doentes e feridos,
trazendo os pecadores à conversão, abençoando as criancinhas e fazendo
bem a todos ».Um particular serviço ao advento do Reino de Deus, prestam-no
as pessoas consagradas nos Institutos Seculares, que unem, numa
síntese específica, o valor da consagração com o da secularidade. Vivendo
a sua consagração no século e a partir do século,elas « esforçam-se, à
maneira de fermento, por impregnar todas as coisas do espírito do Evangelho
para robustecimento e incremento do Corpo de Cristo ».Com vista a tal fim,
participam na função evangelizadora da Igreja, mediante o testemunho pessoal
de vida cristã, o empenho de que as realidades temporais sejam ordenadas
segundo Deus, a colaboração no serviço da comunidade eclesial, segundo
o estilo de vida secular que lhes é próprio.
Testemunhar o Evangelho das bem-aventuranças
33. Missão peculiar da vida consagrada é manter viva nos baptizados
a consciência dos valores fundamentais do Evangelho, graças ao seu
« magnífico e privilegiado testemunho de que não se pode transfigurar o
mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças ».Deste modo,
a vida consagrada suscita continuamente, na consciência do Povo de Deus,
a exigência de responder com a santidade de vida ao amor de Deus derramado
nos corações pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5), reflectindo na conduta
a consagração sacramental realizada por acção de Deus no Baptismo, na Confirmação,
ou na Ordem. Na verdade, é preciso que da santidade comunicada nos sacramentos
se passe à santidade da vida quotidiana. A vida consagrada existe na Igreja
precisamente para se pôr ao serviço da consagração da vida de todo o fiel,
leigo ou clérigo.
Por outro lado, não se deve esquecer que também os consagrados recebem,
do testemunho próprio das outras vocações, uma ajuda para viver integralmente
a adesão ao mistério de Cristo e da Igreja, nas suas múltiplas dimensões.
Graças a este enriquecimento recíproco, torna-se mais eloquente e eficaz
a missão da vida consagrada: mantendo fixo o seu olhar na paz futura, indica
como meta aos irmãos e irmãs a Bem-aventurança definitiva junto de Deus.
Imagem viva da Igreja-Esposa
34. Particular relevo tem o significado esponsal da vida consagrada,
que reflecte a exigência de a Igreja viver em doação plena e exclusiva
para seu Esposo, do qual recebe todo o bem. Nesta dimensão esponsal característica
de toda a vida consagrada, é sobretudo a mulher que se reconhece de modo
singular em sua própria identidade, de certa forma descobrindo aí a índole
especial do seu relacionamento com o Senhor.
A tal propósito, é sugestivo o texto neo-testamentário que apresenta
Maria reunida com os Apóstolos, no Cenáculo, aguardando em oração a vinda
do Espírito Santo (cf. Act 1,13-14). Pode-se ver aqui uma expressiva
imagem da Igreja-Esposa, atenta aos sinais do Esposo e pronta a acolher
o seu dom. Na figura de Pedro e demais apóstolos, ressalta sobretudo a
dimensão da fecundidade operada pelo ministério eclesial, que se faz instrumento
do Espírito para a geração de novos filhos através da proclamação da Palavra,
da celebração dos Sacramentos e pela solicitude pastoral. Já em Maria,
é particularmente viva a dimensão do acolhimento esponsal com que a Igreja
faz frutificar em si mesma a vida divina, através da totalidade do seu
amor virginal.A vida consagrada sempre foi identificada prevalentemente
com esta parte de Maria, a Virgem Esposa. Deste amor virginal, provém uma
particular fecundidade que contribui para o nascimento e crescimento da
vida divina nos corações. A pessoa consagrada, seguindo o exemplo de Maria,
nova Eva, exprime a sua fecundidade espiritual, tornando-se acolhedora
da Palavra, para colaborar na construção da nova humanidade com a sua dedicação
incondicional e o seu testemunho vivo. Desta forma, a Igreja manifesta
plenamente a sua maternidade, quer mediante a comunicação da acção divina
confiada a Pedro, quer através do acolhimento responsável do dom divino,
típico de Maria.O povo cristão, por seu lado, encontra no ministério ordenado
os meios de salvação, e na vida consagrada o estímulo para uma resposta
cabal de amor em cada uma das várias formas de diaconia.
IV. GUIADOS PELO ESPÍRITO DE SANTIDADE
Existência « transfigurada »: a vocação à santidade
35. « Ao ouvirem isto, os discípulos caíram por terra, muito assustados
» (Mt 17,6). No episódio da Transfiguração, os sinópticos põem em
evidência, embora com acentuações diferentes, a sensação de temor que se
apodera dos discípulos. O fascínio do rosto transfigurado de Cristo não
os impede de se sentirem assustados diante da Majestade divina que os ultrapassa.
Sempre que o homem vislumbra a glória de Deus, faz também a experiência
da sua pequenez, provocando nele uma sensação de medo. Este temor é salutar.
Recorda ao homem a perfeição divina, e ao mesmo tempo incita-o com um premente
apelo à « santidade ».
Todos os filhos da Igreja, chamados pelo Pai a « escutar » Cristo, não
podem deixar de sentir uma profunda exigência de conversão e de santidade.
Mas, como se salientou no Sínodo, esta exigência chama em causa, em primeiro
lugar, a vida consagrada. Na verdade, a vocação recebida pelas pessoas
consagradas para procurarem acima de tudo o Reino de Deus é, antes de mais
nada, um chamamento à conversão plena, renunciando a si próprias para viverem
totalmente do Senhor, a fim de que Deus seja tudo em todos. Chamados a
contemplar e a testemunhar o rosto « transfigurado » de Cristo, os consagrados
são chamados também a uma existência transfigurada.A respeito disto, é
significativo o que se diz na Relação final da II Assembleia Extraordinária
do Sínodo: « Os santos e as santas sempre foram fonte e origem de renovação
nas circunstâncias mais difíceis, ao longo de toda a história da Igreja.
Hoje, temos muita necessidade de santos, graça esta que devemos implorar
continuamente a Deus. Os Institutos de vida consagrada, mediante a profissão
dos conselhos evangélicos, devem estar conscientes da sua especial missão
na Igreja de hoje, e nós devemos encorajá-los nessa sua missão ».Estas
considerações encontraram eco nos Padres desta IX Assembleia sinodal, quando
afirmam: « A vida consagrada foi, através da história da Igreja, uma presença
viva desta acção do Espírito, como um espaço privilegiado de amor absoluto
a Deus e ao próximo, testemunho do projecto divino de fazer de toda a humanidade,
dentro da civilização do amor, a grande família dos filhos de Deus ». Igreja
sempre viu na profissão dos conselhos evangélicos um caminho privilegiado
para a santidade. As próprias expressões com que é designada — escola do
serviço do Senhor, escola de amor e de santidade, caminho ou estado de
perfeição — já manifestam quer a eficácia e a riqueza dos meios próprios
desta forma de vida evangélica, quer o especial empenho requerido àqueles
que a abraçam.Não foi por acaso que, no decorrer dos séculos, tantos consagrados
deixaram eloquentes testemunhos de santidade e realizaram façanhas de evangelização
e de serviço, particularmente generosas e árduas.
Fidelidade ao carisma
36. No seguimento de Cristo e no amor pela sua Pessoa, existem alguns
pontos referentes ao crescimento da santidade na vida consagrada, que actualmente
merecem ser colocados em particular evidência.
Antes de mais, exige-se a fidelidade ao carisma de fundação e
sucessivo património espiritual de cada Instituto. Precisamente nessa fidelidade
à inspiração dos fundadores e fundadoras, dom do Espírito Santo, se descobrem
mais facilmente e se revivem com maior fervor os elementos essenciais da
vida consagrada.Na verdade, cada carisma tem, na sua origem, um tríplice
encaminhamento: primeiro, encaminhamento para o Pai , no desejo
de procurar filialmente a sua vontade através de um processo contínuo de
conversão, no qual a obediência é fonte de verdadeira liberdade, a castidade
exprime a tensão de um coração insatisfeito com todo o amor finito, a pobreza
alimenta aquela fome e sede de justiça que Deus prometeu saciar (cf. Mt
5,6). Nesta perspectiva, o carisma de cada Instituto impelirá a pessoa
consagrada a ser toda de Deus, a falar com Deus ou de Deus — como se diz
de S. Domingos—, para saborear como o Senhor é bom (cf. Sal 3433,9),
em todas as situações.Os carismas de vida consagrada implicam também um
encaminhamento para o Filho, com quem induzem a cultivar uma íntima
e feliz comunhão de vida, na escola do seu serviço generoso a Deus e aos
irmãos. Deste modo, « o olhar, progressivamente cristificado, aprende a
separar-se da exterioridade, do turbilhão dos sentidos, isto é, de tudo
aquilo que impede ao homem aquela suave disponibilidade a deixar-se agarrar
pelo Espírito »,e permite assim partir em missão com Cristo, trabalhando
e sofrendo com Ele na difusão do seu Reino.Todo o carisma comporta, enfim,
um encaminhamento para o Espírito Santo, enquanto dispõe a pessoa
a deixar-se guiar e sustentar por Ele, tanto no próprio caminho espiritual
como na vida de comunhão e na acção apostólica, para viver naquela atitude
de serviço que deve inspirar toda a opção de um autêntico cristão.Com efeito,
é sempre esta tríplice relação que transparece em cada carisma de fundação,
naturalmente com os traços específicos dos vários modelos de vida, precisamente
pelo facto de predominar naquele « um profundo ardor do espírito de se
configurar com Cristo, para testemunhar algum aspecto do seu mistério »,aspecto
esse que se há-de encarnar e desenvolver na mais genuína tradição do Instituto,
segundo as Regras, as Constituições e os Estatutos.
Fidelidade criativa
37. Deste modo, os Institutos são convidados a repropor corajosamente
o espírito de iniciativa, a criatividade e a santidade dos fundadores e
fundadoras, como resposta aos sinais dos tempos visíveis no mundo de hoje.Este
convite é, primariamente, um apelo à perseverança no caminho da santidade,
através das dificuldades materiais e espirituais que marcam as vicissitudes
diárias. Mas é, também, um apelo a conseguir a competência no próprio trabalho
e a cultivar uma fidelidade dinâmica à própria missão, adaptando, quando
for necessário, as suas formas às novas situações e às várias necessidades,
com plena docilidade à inspiração divina e ao discernimento eclesial. Contudo,
há que manter viva a convicção de que a garantia de toda a renovação, que
pretenda permanecer fiel à inspiração originária, está na busca de uma
conformidade cada vez mais plena com o Senhor.Neste espírito, torna-se
hoje premente em cada Instituto a necessidade de um renovado referimento
à Regra, pois, nela e nas Constituições, se encerra um itinerário de
seguimento, qualificado por um carisma específico e autenticado pela Igreja.
Uma maior consideração pela Regra não deixará de proporcionar às pessoas
consagradas um critério seguro para procurar as formas adequadas para um
testemunho capaz de responder às exigências actuais, sem se afastar da
inspiração inicial.
Oração e ascese: o combate espiritual
38. A vocação à santidade só pode ser acolhida e cultivada no silêncio
da adoração na presença da transcendência infinita de Deus: « Devemos
confessar que todos precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora:
a teologia, para poder valorizar plenamente a própria alma sapiencial e
espiritual; a oração, para que nunca esqueça que ver Deus significa descer
do monte com um rosto tão radiante ao ponto de sermos obrigados a cobri-lo
com um véu (cf. Ex 34,33) [...]; o compromisso, para renunciar a
fechar-se numa luta sem amor e perdão. [...] Todos, crentes e não crentes,
precisam de aprender um silêncio que permita ao Outro falar, quando e como
quiser, e a nós compreender esta palavra ».Isto exige, concretamente, uma
grande fidelidade à oração litúrgica e pessoal, aos tempos dedicados à
oração mental e à contemplação, à adoração eucarística, às recolecções
mensais e aos retiros espirituais.
É preciso redescobrir também os meios ascéticos , típicos da
tradição espiritual da Igreja e do próprio Instituto. Eles foram, e continuam
a sêlo, um auxílio poderoso para um autêntico caminho de santidade. Ajudando
a dominar e a corrigir as tendências da natureza humana ferida pelo pecado,
a ascese é verdadeiramente indispensável para a pessoa consagrada permanecer
fiel à própria vocação e seguir Jesus pelo caminho da Cruz.Também se torna
necessário identificar e vencer algumas tentações que às vezes se apresentam,
por insídia diabólica, sob a falsa aparência de bem. Assim, por exemplo,
a exigência legítima de conhecer a sociedade actual, para responder aos
seus desafios, pode induzir a ceder a modas efémeras, com a diminuição
do fervor espiritual ou com atitudes de desânimo. A possibilidade de uma
formação espiritual mais elevada poderá levar as pessoas consagradas a
um certo sentimento de superioridade relativamente aos outros fiéis, enquanto
a urgência de uma legítima e indispensável habilitação se pode transformar
numa busca exacerbada de eficiência como se o serviço apostólico dependesse
prevalentemente dos meios humanos, e não de Deus. O desejo louvável de
solidarizar-se com os homens e mulheres do nosso tempo, crentes e não crentes,
pobres e ricos, pode levar à adopção de um estilo de vida secularizado
ou a uma promoção dos valores humanos em sentido puramente horizontal.
A partilha das instâncias legítimas da própria nação ou cultura poderá
induzir a abraçar formas de nacionalismo ou a acolher elementos da tradição,
que, ao contrário, precisam de ser purificados e elevados à luz do Evangelho.O
caminho que conduz à santidade comporta, pois, a adopção do combate
espiritual. É um dado exigente, ao qual hoje nem sempre se dedica a
necessária atenção. Muitas vezes a tradição viu representado este combate
espiritual na luta de Jacob a contas com o mistério de Deus, que ele afronta
para ter acesso à sua bênção e à sua visão (cf. Gn 32,23-31). Neste
episódio dos primórdios da história bíblica, as pessoas consagradas podem
ler o símbolo do empenhamento ascético de que têm necessidade para dilatar
o coração e abri-lo ao acolhimento do Senhor e dos irmãos.
Promover a santidade
39. Um renovado empenho de santidade das pessoas consagradas é hoje
mais necessário do que nunca para favorecer e apoiar a tensão de todo
o cristão para a perfeição . « É necessário, por conseguinte, suscitar
em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão
e renovamento pessoal num clima de oração cada vez mais intensa e de solidário
acolhimento do próximo, especialmente do mais necessitado ».As pessoas
consagradas, na medida em que aprofundam a sua própria amizade com Deus,
ficam em condições de ajudar os irmãos e irmãs com válidas iniciativas
espirituais, como escolas de oração, retiros e recolecções espirituais,
jornadas de deserto, escuta e direcção espiritual. Deste modo, é facilitado
o progresso na oração a pessoas que poderão, depois, realizar um melhor
discernimento da vontade de Deus sobre elas próprias, e decidir-se por
opções corajosas, às vezes heróicas, exigidas pela fé. De facto, as pessoas
consagradas, « pelo mais profundo do seu ser, situam-se no dinamismo da
Igreja, sequiosa do Absoluto, que é Deus, e chamada à santidade. É desta
santidade que dão testemunho ».O facto de todos serem chamados a tornar-se
santos, não pode senão estimular ainda mais aqueles que, pela própria opção
de vida que fizeram, têm a missão de o recordar aos outros.
« Levantai-vos e não tenhais medo »: uma renovada confiança
40. « Aproximando-Se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: “Levantai-vos
e não tenhais medo” » (Mt 17,7). Como os três apóstolos no episódio
da Transfiguração, as pessoas consagradas sabem por experiência que a sua
vida nem sempre é iluminada por aquele fervor sensível que faz exclamar:
« É bom estarmos aqui » (Mt 17,4). Porém, é sempre uma vida « tocada
» pela mão de Cristo, abrangida pela sua voz, sustentada pela sua graça.
« Levantai-vos e não tenhais medo ». Este encorajamento do Mestre é
dirigido obviamente a todo o cristão. Mas, por maior força de razão, vale
para quem foi chamado a « deixar tudo » e, portanto, a « arriscar tudo
» por Cristo. Isto vale, de modo particular, quando, com o Mestre, se desce
do « monte » para tomar a estrada que do Tabor leva ao Calvário.Ao referir
que Moisés e Elias falavam com Cristo do seu mistério pascal, Lucas significativamente
usa o termo « partida » [éxodos ]: « falavam da sua partida que
iria consumar-se em Jerusalém » (Lc 9,31). « Êxodo »: palavra
fundamental da revelação à qual toda a história da salvação faz referência
e que exprime o sentido profundo do mistério pascal. Tema particularmente
grato à espiritualidade da vida consagrada e que manifesta bem o seu significado.
Nele, está inevitavelmente incluído o que pertence ao mysterium Crucis.
Mas este difícil « caminho exodal », visto da perspectiva do Tabor, aparece
colocado entre duas luzes: a luz preanunciadora da Transfiguração e a luz
definitiva da Ressurreição.A vocação à vida consagrada — no horizonte de
toda a vida cristã —, não obstante as suas renúncias e provas, antes em
virtude delas, é um caminho « de luz », sobre o qual vela o olhar
do Redentor: « Levantai-vos e não tenhais medo ».
CAPÍTULO II
SIGNUM FRATERNITATIS
A VIDA CONSAGRADA,
SINAL DE COMUNHÃO NA IGREJA
I. VALORES PERMANENTES
À imagem da Trindade
41. Durante a sua vida terrena, o Senhor Jesus chamou aqueles que quis,
para andarem com Ele e ensiná-los a viver, segundo o seu exemplo, para
o Pai e para a missão d'Ele recebida (cf. Mc 3,13-15). Inaugurava
assim aquela nova família da qual haveriam de fazer parte, ao longo dos
séculos, quantos estivessem prontos a « cumprir a vontade de Deus » (cf.
Mc 3,32-35). Depois da Ascensão, mercê do dom do Espírito, constituiu-se
ao redor dos Apóstolos uma comunidade fraterna, unida no louvor de Deus
e por uma concreta experiência de comunhão (cf. Act 2,42-47; 4,32-35).
A vida dessa comunidade e mais ainda a experiência de plena partilha com
Cristo, vivida pelos Doze, foram constantemente o modelo em que a Igreja
se inspirou, quando quis reviver o fervor das origens e retomar, com
novo vigor evangélico, o seu caminho na história.Na realidade, a Igreja
é essencialmente um mistério de comunhão , « um povo unido pela unidade
do Pai e do Filho e do Espírito Santo ».A vida fraterna intenta reflectir
a profundidade e a riqueza desse mistério, apresentando-se como um espaço
humano habitado pela Trindade, que difunde assim na história os dons da
comunhão próprios das três Pessoas divinas. Na vida eclesial, são muitos
os âmbitos e as modalidades em que se exprime a comunhão fraterna. À vida
consagrada pertence seguramente o mérito de ter contribuído eficazmente
para manter viva na Igreja a exigência da fraternidade como confissão da
Trindade. Com a incessante promoção do amor fraterno, mesmo sob a forma
de vida comum, a vida consagrada revelou que a participação na comunhão
trinitária pode mudar as relações humanas , criando um novo tipo de
solidariedade. Deste modo, ela aponta aos homens quer a sublimidade da
comunhão fraterna, quer os caminhos concretos que a esta conduzem. De facto,
as pessoas consagradas vivem « para » Deus e « de » Deus, e por isso mesmo
podem confessar a força da acção reconciliadora da graça, que abate os
dinamismos desagregadores presentes no coração do homem e nas relações
sociais.
Vida fraterna no amor
42. A vida fraterna, concebida como vida partilhada no amor, é sinal
eloquente da comunhão eclesial. Com particular cuidado, é cultivada pelos
Institutos religiosos e pelas Sociedades de Vida Apostólica, onde adquire
especial significado a vida em comunidade.Mas a dimensão da comunhão fraterna
está presente também nos Institutos seculares e mesmo nas formas individuais
de vida consagrada. Os eremitas, na profundidade da sua solidão, não se
subtraem à comunhão eclesial, antes pelo contrário servem-na com o seu
específico carisma contemplativo; as virgens consagradas, no século, realizam
a sua consagração numa especial relação de comunhão com a Igreja particular
e universal. E de modo semelhante, as viúvas e os viúvos consagrados.
Todas estas pessoas, no cumprimento do discipulado evangélico, se empenham
a viver o « mandamento novo » do Senhor, amando-se umas às outras como
Ele nos amou (cf. Jo 13,34). O amor levou Cristo a fazer-Se dom
até ao sacrifício supremo da Cruz. Também entre os seus discípulos não
há unidade verdadeira sem este amor recíproco e incondicional, que
exige disponibilidade para o serviço sem regatear energias, prontidão no
acolhimento do outro tal como é, sem « o julgar » (cf. Mt 7,1-2),
capacidade de perdoar inclusive « setenta vezes sete » (Mt 18,22).
Para as pessoas consagradas, feitas « um só coração e uma só alma » (Act
4,32) por este amor derramado nos corações pelo Espírito Santo (cf.
Rm 5,5), torna-se uma exigência interior o colocar tudo em comum:
bens materiais e experiências espirituais, talentos e inspirações, como
também ideais apostólicos e serviço caritativo: « Na vida comunitária,
a energia do Espírito que existe numa pessoa, passa contemporaneamente
a todos. Nela, não só se usufrui do dom próprio, mas este é multiplicado
quando se participa aos outros, e goza-se tanto do fruto do dom alheio
como do próprio ».a vida de comunidade, também se deve tornar de algum
modo palpável que a comunhão fraterna, antes de ser instrumento para uma
determinada missão, é espaço teologal, onde se pode experimentar
a presença mística do Senhor ressuscitado (cf. Mt 18,20).Isto verifica-se
graças ao amor recíproco de quantos compõem a comunidade: um amor alimentado
pela Palavra e pela Eucaristia, purificado no sacramento da Reconciliação,
sustentado pela invocação da unidade, especial dom do Espírito para aqueles
que se colocam numa escuta obediente do Evangelho. É precisamente Ele,
o Espírito, que introduz a alma na comunhão com o Pai e com seu Filho,
Jesus Cristo (cf. 1 Jo 1,3), comunhão essa que é a fonte da vida
fraterna. É pelo Espírito que as comunidades de vida consagrada são guiadas
no cumprimento da sua missão ao serviço da Igreja e da humanidade inteira,
segundo a respectiva inspiração originária.Nesta perspectiva, assumem particular
importância os « Capítulos » (ou reuniões análogas), tanto particulares
como gerais, onde cada Instituto é chamado a eleger os Superiores ou Superioras,
segundo as normas estabelecidas pelas respectivas Constituições, e a discernir,
à luz do Espírito, as modalidades adequadas para proteger e renovar, nas
diversas situações históricas e culturais, o próprio carisma e património
espiritual.
A funçao da autoridade
43. Na vida consagrada, a função dos Superiores e Superioras,
mesmo locais, teve sempre uma grande importância quer para a vida espiritual
quer para a missão. Nestes anos de experiências e mudanças, sentiu-se por
vezes a necessidade de uma revisão de tal múnus. Contudo importa reconhecer
que quem exerce a autoridade não pode abdicar da sua missão de primeiro
responsável da comunidade, qual guia dos irmãos e irmãs no caminho espiritual
e apostólico.
Não é fácil, em ambientes fortemente marcados pelo individualismo, fazer
compreender e aceitar a função que a autoridade desempenha em proveito
de todos. Mas deve-se confirmar a importância desta tarefa, que se revela
necessária exactamente para consolidar a comunhão fraterna e não tornar
vã a obediência professada. Se a autoridade deve ser, em primeiro lugar,
fraterna e espiritual e, por conseguinte, quem dela está revestido há-de
saber associar, pelo diálogo, os irmãos e as irmãs ao processo decisório,
convém todavia recordar que cabe à autoridade a última palavra,
como lhe compete depois fazer respeitar as decisões tomadas.
O papel das pessoas idosas
44. O cuidado dos idosos e dos doentes tem uma parte relevante na vida
fraterna, especialmente num tempo como o nosso em que aumenta, nalgumas
regiões do mundo, o número de pessoas consagradas em idade avançada. A
atenção carinhosa que elas merecem não resulta só de um preciso dever de
caridade e gratidão, mas é também expressão da consciência de que o seu
testemunho é de grande proveito para a Igreja e para os Institutos, e de
que a sua missão permanece válida e meritória, mesmo quando, por motivos
de idade ou de enfermidade, tiveram de abandonar a sua actividade específica.
Elas têm certamente muito que dar em sabedoria e experiência à comunidade,
se esta souber estar a seu lado com atenção e capacidade de escuta.
Na realidade, mais do que na acção, a missão apostólica consiste no
testemunho da própria dedicação plena à vontade salvífica do Senhor, dedicação
essa que se alimenta nas fontes da oração e da penitência. Muitos são,
por isso, os modos pelos quais os idosos são chamados a viver a sua vocação:
a oração assídua, a paciente aceitação da própria condição, a disponibilidade
para o serviço de director espiritual, de confessor, de guia na oração.
À imagem da comunidade apostólica
45. A vida fraterna desempenha um papel fundamental no caminho espiritual
das pessoas consagradas, tanto para a sua constante renovação como para
o pleno cumprimento da sua missão no mundo: conclui-se isso das motivações
teológicas que estão na sua base, e recebe larga confirmação da própria
experiência. Exorto, por isso, os consagrados e consagradas a cultivá-la
com ardor, seguindo o exemplo dos primeiros cristãos de Jerusalém, que
eram assíduos na escuta do ensinamento dos Apóstolos, na oração comum,
na participação da Eucaristia, na partilha dos bens materiais e espirituais
(cf. Act 2,42-47). Exorto sobretudo os religiosos, as religiosas
e os membros das Sociedades de Vida Apostólica a viverem sem reservas o
amor recíproco, exprimindo-o nas modalidades mais apropriadas à natureza
de cada Instituto, para que cada comunidade se manifeste como sinal luminoso
da nova Jerusalém, « morada de Deus com os homens » (Ap 21,3).
Com efeito, toda a Igreja espera muito do testemunho de comunidades
ricas « de alegria e de Espírito Santo » (Act 13,52). Ela deseja
oferecer ao mundo o exemplo de comunidades onde a recíproca atenção ajuda
a superar a solidão, e a comunicação impele a todos a sentirem-se corresponsáveis,
o perdão cicatriza as feridas, reforçando em cada um o propósito da comunhão.
Numa comunidade deste tipo, a natureza do carisma dirige as energias, sustenta
a fidelidade e orienta o trabalho apostólico de todos para a única missão.
Para apresentar à humanidade de hoje o seu verdadeiro rosto, a Igreja tem
urgente necessidade de tais comunidades fraternas, cuja própria existência
já constitui uma contribuição para a nova evangelização, porque mostram
de modo concreto os frutos do « mandamento novo ».
Sentire cum Ecclesia
46. À vida consagrada está confiada outra grande tarefa, à luz da doutrina
sobre a Igreja-comunhão proposta com grande vigor pelo Concílio Vaticano
II: pede-se às pessoas consagradas para serem verdadeiramente peritas em
comunhão e praticarem a sua espiritualidade,como « testemunhas e artífices
daquele “projecto de comunhão” que está no vértice da história do homem
segundo Deus ».O sentido da comunhão eclesial, desabrochando em espiritualidade
de comunhão , promove um modo de pensar, falar e agir que faz crescer
em profundidade e extensão a Igreja. Na realidade, a vida de comunhão «
torna-se um sinal para o mundo e uma força de atracção que
leva à fé em Cristo. (...) Dessa maneira, a comunhão abre-se para a missão
e converte-se ela própria em missão », melhor, « a comunhão gera comunhão
e reveste essencialmente a forma de comunhão missionária ».
Nos fundadores e fundadoras, aparece sempre vivo o sentido da Igreja,
que se manifesta na sua participação plena da vida eclesial em todas as
suas dimensões e na pronta obediência aos Pastores, especialmente ao Romano
Pontífice. Neste horizonte de amor pela Santa Igreja, « coluna e sustentáculo
da verdade » ( 1 Tm 3,15), compreende-se bem a veneração de Francisco
de Assis pelo « senhor Papa » a ousadia filial de Catarina de Sena para
com aquele que ela chama « doce Cristo na terra »,a obediência apostólica
e o sentire cum Ecclesiade Inácio de Loiola, a jubilosa profissão
de fé de Teresa de Jesus: « Sou filha da Igreja ».Compreende-se também
o anseio de Teresa de Lisieux: « No coração da Igreja, minha mãe, eu serei
o amor ».Tais testemunhos são representativos da plena comunhão eclesial,
que santos e santas, fundadores e fundadoras compartilharam entre si, em
épocas e circunstâncias diversas e frequentemente muito difíceis. São exemplos
a que as pessoas consagradas devem constantemente fazer referência, para
resistirem aos impulsos centrífugos e desagregadores, hoje particularmente
activos.Um aspecto qualificativo desta comunhão eclesial é a adesão da
mente e do coração ao magistério dos Bispos, que há-de ser vivida com lealdade
e testemunhada claramente diante do Povo de Deus por todas as pessoas consagradas,
e de modo especial pelas que estão empenhadas na investigação teológica
e no ensino, nas publicações, na catequese, no uso dos meios de comunicação
social.Visto que as pessoas consagradas ocupam um lugar especial na Igreja,
o seu comportamento a tal respeito tem grande importância para todo o Povo
de Deus. Do seu testemunho de amor filial recebe força e incidência a sua
acção apostólica, que, no quadro da missão profética de todos os baptizados,
se caracteriza geralmente por tarefas de especial colaboração com a ordem
hierárquica.Desta forma, com a riqueza dos seus carismas, dão uma contribuição
específica, para a Igreja realizar cada vez mais profundamente a sua natureza
de sacramento da « íntima uniao com Deus e da unidade de todo o género
humano ».
A fraternidade na Igreja universal
47. As pessoas consagradas estão chamadas a ser fermento de comunhão
missionária na Igreja universal, pelo facto mesmo de os múltiplos carismas
dos respectivos Institutos serem concedidos pelo Espírito Santo para o
bem de todo o Corpo Místico, a cuja edificação devem servir (cf. 1 Cor
12,4-11). Significativamente « o caminho melhor » (1 Cor 12,31),
a « maior de todas » as virtudes (1 Cor 13,13), segundo a palavra
do Apóstolo, é a caridade, que harmoniza as várias diferenças e a todos
comunica a força da mútua ajuda no ímpeto apostólico. Isto mesmo tem em
vista o peculiar vínculo de comunhão, que as várias formas de vida
consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica têm com o Sucessor de
Pedro em seu ministério de unidade e de universalidade missionária.
A história da espiritualidade ilustra amplamente este vínculo, mostrando
a sua função providencial de garantia tanto da identidade própria da vida
consagrada como da expansão missionária do Evangelho. A vigorosa difusão
do anúncio evangélico, a salda radicação da Igreja em muitas regiões do
mundo, e a primavera cristã que hoje se regista nas jovens Igrejas seriam
impensáveis — como observaram os Padres sinodais — sem o contributo de
tantos Institutos de vida consagrada e Sociedades de Vida Apostólica. Ao
longo dos séculos, mantiveram firmemente a comunhão com os Sucessores de
Pedro, que neles encontraram generosa prontidão para se dedicarem à missão
com uma disponibilidade tal que, em caso de necessidade, soube guindar-se
até ao heroísmo.
Sobressai assim o carácter de universalidade e comunhão , que
é próprio dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.
Pela conotação supradiocesana radicada na sua especial relação com o ministério
petrino, eles estão também ao serviço da colaboração entre as diversas
Igrejas particulares,entre as quais podem promover eficazmente a « permuta
de dons », contribuindo para uma inculturação do Evangelho que purifique,
valorize e assuma as riquezas das culturas de todos os povos.Também o actual
florescimento, nas jovens Igrejas, de vocações para a vida consagrada manifesta
a capacidade que esta possui de exprimir na unidade católica as solicitações
dos vários povos e culturas.
A vida consagrada e a Igreja particular
48. Às pessoas consagradas cabe uma função significativa, também no
seio das Igrejas particulares. Este é um aspecto que — partindo da
doutrina conciliar sobre a Igreja, enquanto comunhão e mistério, e sobre
as Igrejas particulares, como porção do Povo de Deus na qual « está verdadeiramente
presente e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica
»— foi aprofundado e regulado em vários documentos posteriores. À luz destes
textos, aparece em toda a sua evidência a importância fundamental que reveste
a colaboração das pessoas consagradas com os Bispos, para o desenvolvimento
harmonioso da pastoral diocesana. Muito podem contribuir os carismas da
vida consagrada para a edificação da caridade na Igreja particular.De facto,
as várias formas em que se vivem os conselhos evangélicos são expressão
e fruto de dons espirituais recebidos por fundadores e fundadoras e, como
tais, constituem uma « experiência do Espírito, transmitida aos
próprios discípulos a fim de ser por eles vivida, conservada, aprofundada
e constantemente desenvolvida em sintonia com o Corpo de Cristo em perene
crescimento ».A índole própria de cada Instituto comporta um peculiar estilo
de santificação e apostolado, que tende a consolidar-se numa determinada
tradição, caracterizada por elementos objectivos.Por isso, a Igreja tem
cuidado de que os Institutos cresçam e se desenvolvam segundo o espírito
dos fundadores e fundadoras, e as suas sãs tradições.m consequência, é
reconhecida aos vários Institutos uma justa autonomia, em virtude
da qual podem valer-se de uma disciplina própria e guardar íntegro o seu
património espiritual e apostólico. É tarefa dos Ordinários do lugar conservar
e tutelar essa autonomia.Por isso, é pedido aos Bispos que acolham e estimem
os carismas da vida consagrada, dando-lhes espaço nos planos da pastoral
diocesana. Uma particular solicitude, devem ter pelos Institutos de direito
diocesano, que estão confiados ao cuidado especial do Bispo do lugar. Uma
diocese que ficasse sem vida consagrada, para além de perder tantos dons
espirituais, lugares privilegiados da busca de Deus, actividades apostólicas
e metodologias pastorais específicas, arriscar-se-ia a ficar enormemente
enfraquecida naquele espírito missionário que é próprio da maioria dos
Institutos.Forçoso é, pois, corresponder ao dom da vida consagrada, que
o Espírito suscita na Igreja particular, acolhendo-o generosamente com
acções de graças.
Uma comunhão eclesial fecunda e ordenada
49. O Bispo é pai e pastor da Igreja particular inteira. Compete-lhe
reconhecer e respeitar, promover e coordenar os vários carismas. Na sua
caridade pastoral, portanto, acolherá o carisma da vida consagrada como
graça que não diz respeito apenas a um Instituto, mas reverte em favor
de toda a Igreja. Procurará, pois, apoiar e ajudar as pessoas consagradas,
para que, em comunhão com a Igreja, se abram a perspectivas espirituais
e pastorais que correspondam às exigências do nosso tempo, na fidelidade
à inspiração originária. Por sua vez, as pessoas de vida consagrada não
deixarão de oferecer generosamente a sua colaboração à Igreja particular,
segundo as próprias forças e no respeito do próprio carisma, actuando
em plena comunhão com o Bispo no âmbito da evangelização, da catequese,
da vida das paróquias.Importa recordar que, ao coordenarem o serviço da
Igreja universal com o da Igreja particular, os Institutos não podem invocar
a justa autonomia e a própria isenção, de que muitos deles gozam,para justificar
opções que estão, de facto, em contraste com as exigências de comunhão
orgânica requeridas por uma vida eclesial salutar. Ao contrário, é preciso
que as iniciativas pastorais das pessoas consagradas sejam decididas e
actuadas com base num diálogo cordial e aberto entre Bispos e Superiores
dos vários Institutos. A atenção especial da parte dos Bispos pela vocação
e missão dos Institutos e, da parte destes, o respeito pelo ministério
dos Bispos, através do solícito acolhimento das suas indicações pastorais
concretas para a vida diocesana, representam duas formas intimamente conexas
daquela única caridade eclesial que a todos obriga ao serviço da comunhão
orgânica — carismática e ao mesmo tempo hierarquicamente estruturada —
de todo o Povo de Deus.
Um diálogo constante, animado pela caridade
50. Para promover o conhecimento recíproco, pressuposto necessário para
uma efectiva cooperação sobretudo no âmbito pastoral, é muito vantajoso
um diálogo constante de Superiores e Superioras dos Institutos de
vida consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica com os Bispos. Mercê
destes contactos habituais, Superiores e Superioras poderão informar os
Bispos acerca das iniciativas apostólicas que pensam encetar nas suas dioceses,
para se chegar aos necessários ajustamentos práticos. Da mesma forma, é
conveniente que pessoas delegadas pelas Conferências dos Superiores e Superioras
Gerais sejam convidadas a assistir às assembleias das Conferências dos
Bispos e, vice-versa, delegados das Conferências Episcopais sejam convidados
às Conferências dos Superiores e Superioras Gerais, segundo modalidades
a determinar. Nesta perspectiva, será de grande utilidade que se constituam,
onde ainda não existirem, e se tornem operativas, a nível nacional, comissões
mistas de Bispos e Superiores e Superioras Maiores,que examinem em
conjunto os problemas de interesse comum. Para melhor conhecimento recíproco,
contribuirá também a inserção da teologia e espiritualidade da vida consagrada
no plano de estudos teológicos dos presbíteros diocesanos, assim como prever,
na formação das pessoas consagradas, uma exposição adequada da teologia
da Igreja particular e da espiritualidade do clero diocesano.É co nsolador,
enfim, recordar que, no Sínodo, não só houve numerosas intervenções acerca
da doutrina da comunhão, mas foi grande também a satisfação pela experiência
de diálogo, vivida num clima de confiança e abertura recíproca entre os
Bispos e os religiosos e religiosas presentes. Isto suscitou o desejo de
que « tal experiência espiritual de comunhão e colaboração se estenda a
toda a Igreja », depois do Sínodo É um voto, que faço meu, pelo crescimento
em todos da mentalidade e da espiritualidade de comunhão.
A fraternidade num mundo dividido e injusto
51. A Igreja confia às comunidades de vida consagrada a missão particular
de fazerem crescer a espiritualidade da comunhão, primeiro no seu
seio e depois na própria comunidade eclesial e para além dos seus confins,
iniciando ou retomando incessantemente o diálogo da caridade, sobretudo
nos lugares onde o mundo de hoje aparece dilacerado pelo ódio étnico ou
por loucuras homicidas. Situadas nas várias sociedades do nosso planeta
— sociedades tantas vezes abaladas por paixões e interesses contraditórios,
desejosas de unidade mas incertas sobre os caminhos a seguir —, as comunidades
de vida consagrada, nas quais se encontram como irmãos e irmãs pessoas
de diversas idades, línguas e culturas, aparecem como sinal de um diálogo
sempre possível e de uma comunhão capaz de harmonizar as diferenças.
As comunidades de vida consagrada são enviadas a anunciar, pelo testemunho
da sua vida, o valor da fraternidade cristã e a força transformadora da
Boa Nova,que faz reconhecer a todos como filhos de Deus e leva ao amor
oblativo para com todos, especialmente para com os últimos. Estas comunidades
são lugares de esperança e de descoberta das bem-aventuranças, lugares
onde o amor, haurido na fonte da comunhão que é a oração, é chamado a tornar-se
lógica de vida e fonte de alegria.Os Institutos internacionais, nesta época
caracterizada pela repercussão universal dos problemas e simultaneamente
pelo regresso dos ídolos do nacionalismo, sobretudo eles têm a missão de
manter vivo e testemunhar o sentido da comunhão entre os povos, as raças,
as culturas. Num clima de fraternidade, a abertura à dimensão mundial dos
problemas não sufocará as riquezas particulares, nem a afirmação de uma
particularidade gerará contrastes com as outras ou com o todo. Os Institutos
internacionais podem realizar isso eficazmente, já que eles próprios devem
enfrentar criativamente o desafio da inculturação e conservar ao mesmo
tempo a sua identidade.
Comunhão entre os diversos Institutos
52. O fraterno relacionamento espiritual e a mútua colaboração entre
os diversos Institutos de vida consagrada e Sociedades de Vida Apostólica
são sustentados e fortalecidos pelo sentido eclesial de comunhão. Pessoas
que estão unidas entre si pelo compromisso comum de seguir Cristo e animadas
pelo mesmo Espírito, não podem deixar de manifestar visivelmente, como
ramos da única Videira, a plenitude do Evangelho do amor. Lembradas da
amizade espiritual que muitas vezes ligou na terra os diversos fundadores
e fundadoras, tais pessoas, permanecendo fiéis à índole do próprio Instituto,
são chamadas a exprimir uma fraternidade exemplar, que sirva de estímulo
aos outros corpos eclesiais no empenho quotidiano de dar testemunho do
Evangelho.Permanecem sempre actuais as palavras de S. Bernardo, a propósito
das várias Ordens religiosas: « Eu admiro-as todas. Pela observância sou
membro de uma delas, mas pela caridade pertenço a todas. Todos temos necessidade
uns dos outros: o bem espiritual que não tenho nem possuo, recebo-o dos
outros (...). Neste exílio, a Igreja está ainda a caminho e é, se assim
posso dizer, plural: é uma pluralidade una e uma unidade plural. E todas
as nossas diversidades, que manifestam a riqueza dos dons de Deus, subsistirão
na única casa do Pai, que tem muitas moradas. Agora, existe divisão de
graças; naquele dia, haverá distinção de glórias. A unidade, tanto aqui
como além, consiste numa mesma caridade ».
Organismos de coordenação
53. Um notável contributo para a comunhão pode ser dado pelas Conferências
dos Superiores e das Superioras Maiores e pelos Conselhos dos Institutos
Seculares. Encorajados e regulamentados pelo Concílio Vaticano IIe por
documentos posteriores,estes organismos têm como principal finalidade a
promoção da vida consagrada integrada no conjunto da missão eclesial.Através
deles, os Institutos exprimem a comunhão entre si e procuram os meios para
a reforçar, no respeito e valorização das especificidades dos vários carismas
em que se reflecte o mistério da Igreja e a multiforme sabedoria de Deus.Encorajo
os Institutos de vida consagrada a colaborarem uns com os outros, especialmente
naqueles países onde, por particulares dificuldades, pode ser forte a tentação
de se fecharem em si mesmos, com prejuízo para a própria vida consagrada
e para a Igreja. Importa, ao contrário, que se ajudem mutuamente a procurar
compreender o desígnio de Deus no actual transe da história, para melhor
lhe responder com iniciativas apostólicas adequadas.Neste horizonte de
comunhão aberto aos desafios do nosso tempo, os Superiores e as Superioras,
« actuando em sintonia com o Episcopado », procurem « aproveitar do trabalho
dos melhores colaboradores de cada Instituto e, correlativamente, prestar
serviços que não só ajudem a superar eventuais limitações, mas criem um
estilo válido de formação para a vida consagrada ».xorto as Conferências
dos Superiores e das Superioras Maiores e as Conferências dos Institutos
Seculares a cultivarem frequentes e regulares contactos também com a Congregação
para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica,
como manifestação da sua comunhão com a Santa Sé. Um relacionamento activo
e confiante deverá ser mantido ainda com as Conferências Episcopais dos
vários países. Segundo o espírito do documento Mutuae relationes,
será conveniente que tal relacionamento assuma uma forma estável, de modo
que se torne possível a coordenação constante e atempada das iniciativas
que progressivamente vão surgindo. Se tudo isto for realizado com perseverança
e espírito de fiel adesão às directrizes do Magistério, os organismos de
ligação e comunhão revelar-se-ão particularmente úteis para encontrar soluções
que evitem incompreensões e conflitos, quer no plano dos princípios quer
no campo prático;deste modo, servirão de apoio não só ao crescimento da
comunhão entre os Institutos de vida consagrada e os Bispos, mas também
à realização da própria missão das Igrejas particulares.
Comunhão e colaboração com os leigos
54. Um dos frutos da doutrina da Igreja como comunhão, nestes anos,
foi a tomada de consciência de que os seus vários membros podem e devem
unir as forças, numa atitude de colaboração e permuta de dons, para participar
mais eficazmente na missão eclesial. Isto concorre para dar uma imagem
mais articulada e completa da própria Igreja, para além de tornar mais
eficiente a resposta aos grandes desafios do nosso tempo, graças ao concurso
harmonioso dos diversos dons.
Os contactos com os leigos, no caso de Institutos monásticos e contemplativos,
apresentam-se prevalentemente como uma relação espiritual, enquanto que,
para os Institutos empenhados na vertente do apostolado, se traduzem em
formas de colaboração pastoral. Os membros dos Institutos seculares, leigos
ou clérigos, relacionam-se com os outros fiéis nos moldes ordinários da
vida quotidiana. Hoje alguns Institutos, frequentemente por imposição das
novas situações, chegaram à convicção de que o seu carisma pode ser
partilhado com os leigos. E assim estes são convidados a participar
mais intensamente na espiritualidade e missão do próprio Instituto. Pode-se
dizer que, no rasto de experiências históricas como a das diversas Ordens
seculares ou Ordens Terceiras, se iniciou um novo capítulo, rico de esperanças,
na história das relações entre as pessoas consagradas e o laicado.
Para um renovado dinamismo espiritual e apostólico
55. Estes novos percursos de comunhão e colaboração merecem ser encorajados,
por diversos motivos. Daí poderá resultar, antes de mais, a irradiação
de frutuosa espiritualidade para além das fronteiras do Instituto, que
assim poderá contar com novas energias até para assegurar à Igreja a continuação
de determinadas formas de serviço típicas dele. Outra consequência positiva
poderá ser a de propiciar uma sinergia mais intensa entre pessoas consagradas
e leigos em ordem à missão: estes, movidos pelos exemplos de santidade
das pessoas consagradas, serão introduzidos na experiência directa do espírito
dos conselhos evangélicos e, dessa forma, encorajados a viver e testemunhar
o espírito das bem-aventuranças, tendo em vista a transformação do mundo
segundo o coração de Deus.ão raras vezes, a participação dos leigos traz
inesperados e fecundos aprofundamentos de alguns aspectos do carisma, reavivando
uma interpretação mais espiritual do mesmo e levando a tirar daí indicações
para novos dinamismos apostólicos. Em qualquer actividade ou ministério
que estejam empenhadas, as pessoas consagradas lembrem-se de que hão-de
ser primariamente guias especializados de vida espiritual, e, nesta perspectiva,
cultivem « o talento mais precioso: o espírito ».Os leigos, por sua vez,
ofereçam às famílias religiosas a ajuda preciosa da sua secularidade e
do seu serviço específico.
Leigos voluntários e associados
56. Uma expressao significativa de participaçao laical nas riquezas
da vida consagrada é a adesao de fiéis leigos aos diversos Institutos,
na nova forma dos chamados membros associados ou, segundo as exigências
de alguns contextos culturais, de pessoas que partilham, por um certo período
de tempo, a vida comunitária e a específica consagração contemplativa ou
apostólica do Instituto, sempre com a condição, obviamente, de que a identidade
da sua vida interna não sofra dano.É justo rodear de grande estima o voluntariado
que vai beber às riquezas da vida consagrada; importa, porém, cuidar da
sua formação, para que os voluntários, além da competência, tenham sempre
profundas motivações sobrenaturais nos seus propósitos, e vivo sentido
comunitário e eclesial nos seus projectos. Há que ter em conta ainda que
as iniciativas, onde estejam envolvidos leigos ao nível mesmo de decisão,
para serem consideradas obra de determinado Instituto, devem propor-se
os fins deste e serem concretizadas sob a sua responsabilidade. Por isso,
se os leigos assumirem a direcção de tais iniciativas, da mesma terão de
responder perante os Superiores e Superioras competentes. É conveniente
que tudo isto seja contemplado e regulado por específicas directrizes dos
diversos Institutos, aprovadas pela Autoridade Superior, nas quais estejam
previstas as respectivas competências do próprio Instituto, das comunidades,
dos membros associados ou dos voluntários.As pessoas consagradas, enviadas
pelos seus Superiores e Superioras e sempre na dependência dos mesmos,
podem estar presentes, com formas específicas de colaboração, em iniciativas
laicais, e de modo particular em organizações e instituições que se
interessam dos marginalizados e têm por objectivo aliviar o sofrimento
humano. Se tal colaboração é animada e mantida por uma clara e forte identidade
cristã e respeita a índole própria da vida consagrada, pode fazer brilhar
a força luminosa do Evangelho nas situações mais obscuras da existência
humana.Nestes anos, bastantes pessoas consagradas entraram em movimentos
eclesiais, surgidos no nosso tempo. Os directos interessados geralmente
tiram proveito de tais experiências, especialmente ao nível da renovação
espiritual. Todavia não se pode negar que, nalguns casos, isso tenha gerado
mal-estar e desorientação a nível pessoal e comunitário, de forma especial
quando estas experiências entram em conflito com as exigências da vida
em comum e da espiritualidade do Instituto. Será necessário, pois, cuidar
de que a adesão aos movimentos eclesiais se realize no respeito do carisma
e disciplina do próprio Instituto,com o consentimento dos Superiores e
das Superioras e na plena disponibilidade de acolher as suas decisões.
A dignidade e o papel da mulher consagrada
57. A Igreja manifesta plenamente a sua multiforme riqueza espiritual,
quando, superadas as discriminações, acolhe como uma verdadeira bênção
os dons infundidos por Deus tanto nos homens como nas mulheres, valorizando
a todos em sua igual dignidade. As mulheres consagradas estão chamadas
de modo absolutamente especial a serem, através da sua dedicação vivida
em plenitude e com alegria, um sinal da ternura de Deus para com o género
humano e um testemunho particular do mistério da Igreja que é virgem,
esposa e mãe.Tal missão não deixou de sobressair no Sínodo, onde um bom
número delas tomou parte, podendo fazer ouvir a sua voz que foi escutada
e apreciada por todos. Graças também às suas contribuições, surgiram úteis
indicações para a vida da Igreja e para a sua missão evangelizadora. Por
certo, não se pode deixar de reconhecer o fundamento de muitas reivindicações
relativas à posição da mulher nos diversos âmbitos sociais e eclesiais.
Do mesmo modo, é forçoso assinalar que a nova consciência feminina ajuda
também os homens a reverem os seus esquemas mentais, o modo de se autocompreenderem,
de se colocarem na história e de a interpretarem, de organizarem a vida
social, política, económica, religiosa, eclesial.A Igreja, que recebeu
de Cristo uma mensagem de libertação, tem a missão de a difundir profeticamente,
promovendo mentalidades e comportamentos conformes às intenções do Senhor.
Neste contexto, a mulher consagrada pode, a partir da sua experiência de
Igreja e de mulher na Igreja, contribuir para eliminar certas visões unilaterais,
que não manifestam o reconhecimento pleno da sua dignidade, da sua contribuição
específica para a vida e para a acção pastoral e missionária da Igreja.
Assim, é legítimo que a mulher consagrada aspire a ver reconhecida mais
claramente a sua identidade, a sua capacidade, a sua missão, a sua responsabilidade,
quer na consciência eclesial quer na vida de todos os dias.Também o futuro
da nova evangelização, como aliás de todas as outras formas de acção missionária,
é impensável sem uma renovada contribuição das mulheres, especialmente
das mulheres consagradas.
Novas perspectivas de presença e acção
58. Por isso, é urgente realizar alguns passos concretos, começando
pela abertura às mulheres de espaços de participação nos vários
sectores e a todos os níveis, mesmo nos processos de elaboração das decisões,
sobretudo naquilo que lhes diz respeito.Necessário é também que a formação
das mulheres consagradas, da mesma forma que a dos homens, seja adequada
às novas urgências e preveja tempo suficiente e oportunidades institucionais
válidas para uma educação sistemática, alargada a todos os campos, desde
o teológico-pastoral até ao profissional. A formação pastoral e catequética,
sempre importante, assume um relevo particular na perspectiva da nova evangelização,
que requer, também das mulheres, novas formas de participação.É previsível
que o aprofundamento da formação, ao mesmo tempo que irá ajudar a mulher
consagrada a compreender melhor os próprios dons, não deixará de estimular
a necessária reciprocidade no seio da Igreja. Na verdade, no campo da reflexão
teológica, cultural e espiritual, muito se espera do « génio » da mulher
no que diz respeito não só à especificidade da vida consagrada feminina,
mas também à inteligência da fé em todas as suas expressões. A propósito
disto, pense-se quanto deve a história da espiritualidade a santas como
Teresa de Jesus e Catarina de Sena, as duas primeiras mulheres honradas
com o título de Doutoras da Igreja, e a tantas outras místicas no que respeita
à perscrutação do mistério de Deus e à análise da sua acção no crente!
A Igreja conta muito com as mulheres consagradas para uma contribuição
original na promoção da doutrina, dos costumes, da própria vida familiar
e social, especialmente no que toca à dignidade da mulher e ao respeito
da vida humana.De facto, « as mulheres têm um espaço de pensamento
e acção singular e talvez determinante: compete a elas fazerem-se promotoras
de um “novo feminismo” que, sem cair na tentação de seguir modelos “masculinizados”,
saiba reconhecer e exprimir o verdadeiro génio feminino em todas as manifestações
da convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de discriminação,
violência e exploração ».á motivos para esperar que, de um reconhecimento
mais profundo da missão da mulher, resulte para a vida consagrada feminina
uma consciência sempre maior da sua própria função e um crescimento da
sua dedicação à causa do Reino de Deus. Isso poder-se-á traduzir numa multiplicidade
de obras, tais como o empenhamento a favor da evangelização, a actividade
educativa, a participação na formação dos futuros sacerdotes e das pessoas
consagradas, a animação da comunidade cristã, o acompanhamento espiritual,
a promoção de bens fundamentais como a vida e a paz. Às mulheres consagradas
e à sua extraordinária capacidade de dedicação, exprimo uma vez mais o
apreço e a gratidão da Igreja inteira, que as apoia para que vivam em plenitude
e alegria a sua vocação e se sintam interpeladas pela alta missão de ajudar
a formar a mulher de hoje.
II. CONTINUIDADE NA OBRA DO ESPIRITO: FIDELIDADE NA NOVIDADE
As monjas de clausura
59. Merecem particular atenção a vida monástica feminina e a clausura
das monjas, devido à imensa estima que a comunidade cristã nutre por este
género de vida, sinal da união exclusiva da Igreja-Esposa com o seu
Senhor , sumamente amado. Com efeito, a vida das monjas de clausura,
empenhadas de modo determinante na oração, na ascese e no diligente progresso
da vida espiritual, « não é senão uma tensão para a Jerusalém celeste,
uma antecipação da Igreja escatológica, fixa na posse e na contemplação
de Deus ».À luz desta vocação e missão eclesial, a clausura corresponde
à exigência, sentida como prioritária, de estar com o Senhor. Escolhendo
um espaço delimitado como lugar de vida, as claustrais participam no aniquilamento
de Cristo, através de uma pobreza radical que se exprime na renúncia não
só às coisas, mas também ao « espaço », aos contactos, a tantos bens da
criação. Este modo particular de dar o « corpo » insere-as mais sensivelmente
no mistério eucarístico. Oferecem-se com Jesus pela salvação do mundo.
A sua oferta, para além do aspecto de sacrifício e expiação, adquire também
o de agradecimento ao Pai, participando na acção de graças do Filho dilecto.
Radicada nesta tensão espiritual, a clausura não é apenas um meio ascético
de imenso valor, mas um modo de viver a Páscoa de Cristo.De experiência
de « morte », torna-se superabundância de vida, apresentando-se como jubiloso
anúncio e antecipação profética da possibilidade oferecida a cada pessoa
e a toda a humanidade de viver unicamente para Deus, em Cristo Jesus (cf.
Rm 6,11). A clausura evoca, assim, aquela cela do coração,
onde cada um é chamado a viver a união com o Senhor. Acolhida como dom
e escolhida como livre resposta de amor, aquela é o lugar da comunhão espiritual
com Deus e com os irmãos e irmãs, onde a limitação dos espaços e dos contactos
ajuda à interiorização dos valores evangélicos (cf. Jo 13,34; Mt
5,3.8).As comunidades claustrais, postas como cidades no cimo do monte
ou como candeias em cima do velador (cf. Mt 5,14-15), mesmo na simplicidade
da sua vida, representam visivelmente a meta para a qual caminha a comunidade
eclesial inteira que, « empenhada na acção e dada à contemplação »,avança
pelas estradas do tempo com o olhar fixo na futura recapitulação de tudo
em Cristo, quando a Igreja « aparecer com seu Esposo na glória (cf. Col
3,1-4) »,e Cristo « entregar o Reino a Deus Pai, depois de ter destruído
todo o Principado, toda a Dominação e Potestade (...), a fim de que Deus
seja tudo em todos » (1 Cor 15,24.28).A estas Irmãs muito amadas,
exprimo a minha gratidão, encorajando-as a manterem-se fiéis à vida claustral
segundo o próprio carisma. Graças ao seu exemplo, este género de vida continua
a registar numerosas vocações, atraídas pela radicalidade de uma existência
« esponsal », totalmente dedicada a Deus na contemplação. Como expressão
de puro amor que vale mais do que todas as obras, a vida contemplativa
produz uma eficácia apostólica e missionária extraordinária.s Padres sinodais
manifestaram grande apreço pelo valor da clausura, ao mesmo tempo que tomavam
em consideração os pedidos, recebidos de vários lados, relativos à disciplina
concreta da mesma. As indicações do Sínodo sobre o assunto e, de modo particular,
o voto formulado de uma maior responsabilização das Superioras Maiores
em matéria de derrogações à clausura por justa e grave causaserão objecto
de uma orgânica consideração, na linha do caminho de renovação já encetado
a partir do Concílio Vaticano II.Deste modo, a clausura, nas suas diversas
formas e graus — desde a clausura papal e constitucional até à clausura
monástica —, corresponderá melhor à variedade dos Institutos contemplativos
e das tradições dos mosteiros.Além disso, como o próprio Sínodo sublinhou,
são de favorecer as Associações e Federações entre mosteiros, já recomendadas
por Pio XII e pelo Concílio Ecuménico Vaticano II,especialmente onde não
haja outras formas eficazes de coordenação e ajuda. Tais organismos, no
respeito sempre da legítima autonomia dos mosteiros, podem, de facto, prestar
uma válida colaboraçao para resolver adequadamente problemas comuns, tais
como a devida renovação, a formação tanto inicial como permanente, o mútuo
apoio económico e ainda a reorganização dos próprios mosteiros.
Os religiosos irmãos
60. Segundo a doutrina tradicional da Igreja, a vida consagrada, por
sua natureza, não é laical nem clerical,e portanto a « consagração
laical », tanto masculina como feminina, constitui por si mesma um estado
completo de profissão dos conselhos evangélicos.Por isso mesmo, ela tem
um valor próprio, independentemente do ministério sagrado, tanto para o
indivíduo como para a Igreja.
Na linha do ensinamento do Concílio Vaticano II,o Sínodo exprimiu grande
estima por este tipo de vida consagrada que é o dos religiosos irmãos,
os quais desempenham, dentro e fora da comunidade, diversos e preciosos
serviços, participando assim na missão de proclamar o Evangelho e testemunhá-lo
pela caridade na vida de cada dia. Com efeito, alguns desses serviços podem-se
considerar ministérios eclesiais, confiados pela legítima autoridade.
Isto exige uma formação apropriada e integral: humana, espiritual, teológica,
pastoral e profissional.Segundo a terminologia vigente, os Institutos que,
por determinação do fundador ou em virtude de uma legítima tradição, têm
carácter e finalidade que não comportam o exercício da Ordem sacra, são
chamados « Institutos laicais ».Contudo, no Sínodo, foi observado que esta
terminologia não exprime adequadamente a índole peculiar da vocação dos
membros de tais Institutos religiosos. De facto, eles, apesar de desempenharem
muitos serviços que são comuns também aos fiéis leigos, fazem-no com a
sua identidade de consagrados, exprimindo assim o espírito de dom total
a Cristo e à Igreja, segundo o seu carisma específico.Por esta razão, os
Padres sinodais, a fim de se evitar toda a ambiguidade e confusão com a
índole secular dos fiéis leigos,houveram por bem propor a designação de
Institutos religiosos de Irmãos .A proposta é significativa, sobretudo
se se considera que a qualificação de irmãos evoca uma rica espiritualidade.
« Estes religiosos são chamados a ser irmãos de Cristo, profundamente unidos
a Ele, “primogénito de muitos irmãos” (Rm 8,29); irmãos entre si,
no amor recíproco e na cooperação para o mesmo serviço de bem-fazer na
Igreja; irmãos de todos os homens, no testemunho da caridade de Cristo
para com todos, especialmente os mais pequeninos, os mais necessitados;
irmãos para uma maior fraternidade na Igreja ».Vivendo de modo especial
este aspecto próprio simultaneamente da vida cristã e consagrada, os «
religiosos irmãos » lembram eficazmente aos próprios religiosos sacerdotes
a dimensão fundamental da fraternidade em Cristo, que hão-de viver entre
eles e com todo o homem e mulher, e a todos proclamam a palavra do Senhor:
« E vós sois todos irmãos » (Mt 23,8).Nestes Institutos religiosos
de Irmãos, quando o Capítulo Geral assim o tiver estabelecido, nada impede
que alguns membros assumam as Ordens sacras para o serviço sacerdotal da
comunidade religiosa.Todavia o Concílio Vaticano II não dá qualquer encorajamento
explícito nesse sentido, precisamente porque deseja que os Institutos de
Irmãos permaneçam fiéis à sua vocação e missão. O mesmo vale quanto ao
tema do acesso ao cargo de Superior, considerando que esse reflecte de
modo especial a natureza do próprio Instituto.Distinta é a vocação dos
irmãos naqueles Institutos que são designados « clericais », porque, segundo
o projecto do fundador ou então em virtude de uma legítima tradição, prevêem
o exercício da Ordem sacra, são governados por clérigos, e são reconhecidos
como tais pela autoridade da Igreja.Nestes Institutos, o ministério sagrado
é constitutivo do próprio carisma e determina-lhes a índole, o fim, o espírito.
A presença de irmãos constitui uma participação diferenciada na missão
do Instituto, com serviços realizados tanto no seio das comunidades como
nas obras apostólicas, em colaboração com aqueles que exercem o ministério
sacerdotal.
Institutos mistos
61. Alguns Institutos religiosos, que, no projecto originário do fundador,
se apresentavam como fraternidades, onde todos os membros — sacerdotes
e não sacerdotes — eram considerados iguais entre si, com o passar do tempo
adquiriram uma fisionomia diversa. Importa que estes Institutos chamados
« mistos » ponderem, na base de um aprofundamento do próprio carisma de
fundação, se seria oportuno e possível voltar à inspiração original.
Os Padres sinodais formularam o voto de que, em tais Institutos, seja
reconhecida a todos os religiosos igualdade de direitos e deveres, excepto
os que derivam da Ordem sacra.Para examinar e resolver os problemas conexos
com esta matéria, foi instituída uma específica comissão, cujas conclusões
convém esperar para se fazerem depois as opções convenientes segundo aquilo
que for autenticamente estabelecido.
Novas formas de vida evangélica
62. O Espírito, que, ao longo dos tempos, suscitou numerosas formas
de vida consagrada, não cessa de assistir a Igreja, quer alimentando nos
Institutos já existentes o esforço de renovação na fidelidade ao carisma
original, quer distribuindo novos carismas a homens e mulheres do nosso
tempo, para que dêem vida a instituições adequadas aos desafios de hoje.
Sinal desta intervenção divina são as chamadas novas Fundações,
com características de algum modo originais relativamente às tradicionais.
A originalidade destas novas comunidades consiste frequentemente no
facto de se tratar de grupos compostos de homens e mulheres, de clérigos
e leigos, de casados e solteiros, que seguem um estilo particular de vida,
inspirado às vezes numa ou noutra forma tradicional ou adaptado às exigências
da sociedade actual. Também o seu compromisso de vida evangélica se exprime
em formas diversas, manifestando-se, como tendência geral, uma intensa
aspiração à vida comunitária, à pobreza e à oração. No governo, participam
clérigos e leigos, segundo as respectivas competências, e o fim apostólico
vai ao encontro das solicitações da nova evangelização.Se, por um lado,
há que alegrar-se perante a acção do Espírito, por outro, é necessário
proceder ao discernimento dos carismas . Princípio fundamental para
se poder falar de vida consagrada é que os traços específicos das novas
comunidades e formas de vida se apresentem fundados sobre os elementos
essenciais, teológicos e canónicos, que são próprios da vida consagrada.Este
discernimento torna-se necessário tanto a nível local como universal, com
o fim de se prestar uma obediência comum ao único Espírito. Nas dioceses,
o Bispo examine o testemunho de vida e a ortodoxia dos fundadores e fundadoras
dessas comunidades, a sua espiritualidade, a sensibilidade eclesial manifestada
no desempenho da sua missão, os métodos de formação e os modos de incorporação
na comunidade; avalie com prudência eventuais pontos fracos, aguardando
com paciência a prova dos frutos (cf. Mt 7,16), para poder reconhecer
a autenticidade do carisma.De modo especial, é-lhe pedido que estabeleça,
com base em critérios claros, a idoneidade daqueles que, nessas comunidades,
pedem para ter acesso às Ordens sacras.m virtude do referido princípio
de discernimento, não podem ser incluídas na categoria específica da vida
consagrada, aquelas formas de compromisso, se bem que louváveis, que alguns
esposos cristãos assumem em associações ou movimentos eclesiais, quando,
com a intenção de levarem à perfeição da caridade o seu amor, « como que
consagrado » já no sacramento do matrimónio,confirmam com um voto o dever
de castidade próprio da vida conjugal e, sem transcurar os seus deveres
para com os filhos, professam a pobreza e a obediência.A necessária especificação
acerca da natureza desta experiência não quer subestimar este particular
caminho de santificação, ao qual não é certamente alheia a acção do Espírito
Santo, infinitamente rico nos seus dons e inspirações.Face a tanta riqueza
de dons e impulsos inovadores, parece oportuno criar uma Comissão para
as questões referentes às novas formas de vida consagrada, com o objectivo
de estabelecer critérios de autenticidade, que sirvam de ajuda no discernimento
e nas decisões.Entre outras tarefas, deverá essa Comissão avaliar, à luz
da experiência destes últimos decénios, as novas formas de consagração
que a autoridade eclesiástica pode, com prudência pastoral e proveito comum,
reconhecer oficialmente e propor aos fiéis desejosos de uma vida cristã
mais perfeita.Estas novas associações de vida evangélica não são uma
alternativa às anteriores instituições, que continuam a ocupar o lugar
insigne que a tradição lhes conferiu. Também as novas formas são um dom
do Espírito, para que a Igreja siga o seu Senhor, num ímpeto perene de
generosidade, atenta aos apelos de Deus que se revelam através dos sinais
dos tempos. Assim ela apresenta-se ao mundo, diversificada nas suas formas
de santidade e de serviços, como « sinal e instrumento da íntima união
com Deus e da unidade de todo o género humano ».Os antigos Institutos,
muitos deles acrisolados por provas duríssimas suportadas com fortaleza
ao longo dos séculos, podem enriquecer-se entrando em diálogo e troca de
dons com as fundações que surgem no nosso tempo.
Desse modo, o vigor das várias instituições de vida consagrada, desde
as mais antigas até às mais recentes, e ainda a vivacidade das novas comunidades
alimentarão a fidelidade ao Espírito Santo, que é princípio de comunhão
e de novidade perene de vida.
III. OLHANDO PARA O FUTURO
Dificuldades e perspectivas
63. As mudanças em curso na sociedade e a diminuição do número das vocações
fazem-se sentir sobre a vida consagrada, em algumas regiões do mundo. As
obras apostólicas de muitos Institutos e a sua presença mesma em certas
Igrejas locais encontram-se em perigo. Como sucedeu já outras vezes na
história, há até Institutos que correm o risco de desaparecer. A Igreja
universal sente-se sumamente grata pela grande contribuição oferecida por
eles para a sua edificação, com o testemunho e o serviço.A aflição actual
não anula os seus méritos nem os frutos amadurecidos mercê das suas canseiras.
Para outros Institutos, coloca-se mais o problema da reorganização das
obras. Esta tarefa, não fácil e não raro dolorosa, exige estudo e discernimento,
à luz de alguns critérios. Importa, por exemplo, salvaguardar o sentido
do próprio carisma, promover a vida fraterna, estar atentos às necessidades
da Igreja tanto universal como particular, ocupar-se daquilo que o mundo
transcura, responder generosamente e com audácia — embora com intervenções
forçosamente exíguas — às novas pobrezas, sobretudo nos lugares mais abandonados.s
várias dificuldades, nascidas da diminuição de pessoal e de iniciativas,
não devem de modo algum fazer perder a confiança na força evangélica
da vida consagrada, que permanecerá sempre actual e operante na Igreja.
Se os Institutos em si mesmos não têm a prerrogativa da perenidade, a vida
consagrada continuará a alimentar, nos fiéis, a resposta de amor para com
Deus e para com os irmãos. Por isso, é necessário distinguir a existência
histórica de determinado Instituto ou de uma forma de vida consagrada,
da missão eclesial da vida consagrada enquanto tal. A primeira pode
mudar com a alteração das situações, a segunda é destinada a não definhar.Isto
é verdade tanto para a vida consagrada de tipo contemplativo, como para
a devotada às obras de apostolado. No seu conjunto, sob a acção renovadora
do Espírito, está destinada a continuar como luminoso testemunho da unidade
indissolúvel entre o amor de Deus e o amor do próximo, como memória viva
da fecundidade, mesmo humana e social, do amor de Deus. Por isso, as novas
situações de penúria hão-de ser enfrentadas com a serenidade de quem sabe
que a cada um é pedido não tanto o sucesso, como sobretudo o compromisso
da fidelidade. O que se deve absolutamente evitar é a verdadeira derrota
da vida consagrada, que não está no declínio numérico, mas no desfalecimento
da adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão. Ao contrário,
perseverando fielmente nela, confessa-se, com grande eficácia mesmo perante
o mundo, a firme confiança no Senhor da história, em cujas mãos estão os
tempos e os destinos das pessoas, das instituições, dos povos, e, portanto,
também as realizações históricas dos seus dons. As dolorosas situações
de crise impelem as pessoas consagradas a proclamarem, com fortaleza, a
sua fé na morte e ressurreição de Cristo, para se tornarem sinal visível
da passagem da morte à vida.
Novo ardor da pastoral vocacional
64. A missão da vida consagrada e a vitalidade dos Institutos dependem,
sem dúvida, do empenho de fidelidade com que os consagrados responderem
à sua vocação, mas têm futuro na medida em que outros homens e mulheres
generosamente acolherem o chamamento do Senhor. O problema das vocações
é um verdadeiro desafio que directamente interpela os Institutos, mas tem
a ver com toda a Igreja. Gastam-se grandes energias espirituais e materiais
no campo da pastoral vocacional, mas nem sempre os resultados correspondem
às expectativas e esforços. Sucede que, enquanto florescem as vocações
à vida consagrada nas jovens Igrejas e nas que sofreram perseguição da
parte de regimes totalitários, escasseiam nos países tradicionalmente ricos
de vocações, mesmo missionárias.
Esta situação de dificuldade põe à prova as pessoas consagradas que
às vezes se interrogam: perdemos porventura a capacidade de atrair novas
vocações? É necessário ter confiança no Senhor Jesus, que continua a chamar
para O seguir, e abandonar-se ao Espírito Santo, autor e inspirador dos
carismas da vida consagrada. Deste modo, enquanto nos alegramos pela acção
do Espírito Santo, que rejuvenesce a Esposa de Cristo, fazendo florir a
vida consagrada em muitas nações, devemos elevar insistentemente súplicas
ao Senhor da messe para que mande operários para a sua Igreja, a fim de
enfrentar as urgências da nova evangelização (cf. Mt 9,37-38). Além
de promover a oração pelas vocações, é urgente empenhar-se, através de
um anúncio explícito e uma catequese adequada, por favorecer nos chamados
à vida consagrada aquela resposta livre, pronta e generosa, que torna operante
a graça da vocação.O convite de Jesus: « Vinde ver » (Jo 1,39) permanece,
ainda hoje, a regra de ouro da pastoral vocacional. Esta visa apresentar,
seguindo o exemplo dos fundadores e fundadoras, o fascínio da pessoa
do Senhor Jesus e a beleza do dom total de si à causa do Evangelho.
Portanto, a tarefa primária de todos os consagrados e consagradas é propor
corajosamente, pela palavra e pelo exemplo, o ideal do seguimento de Cristo,
amparando depois a resposta aos impulsos do Espírito no coração dos chamados.Ao
entusiasmo do primeiro encontro com Cristo, deverá seguir-se, obviamente,
o paciente esforço daquela correspondência diária que faz da vocação uma
história de amizade com o Senhor. Para tal objectivo, a pastoral vocacional
sirva-se de meios adequados, como a direcção espiritual, para alimentar
aquela resposta de amor pessoal ao Senhor, que é condição essencial para
se tornar discípulos e apóstolos do seu Reino. Entretanto, se a pujança
vocacional que se manifesta em várias partes do mundo justifica optimismo
e esperança, a escassez noutras regiões não deve induzir ao desânimo nem
à tentação de recrutamentos fáceis e imponderados. Importa que a tarefa
de promover as vocações seja cumprida de modo tal que se manifeste cada
vez mais como um empenho unânime de toda a Igreja. Ora isto
exige a activa colaboração de pastores, religiosos, famílias e educadores,
como convém a um serviço que é parte integrante da pastoral de conjunto
de cada Igreja particular. Exista, portanto, em cada diocese este serviço
comum, que coordene e multiplique as forças, sem contudo prejudicar
— mas antes favoreça — a actividade vocacional de cada Instituto.sta colaboração
activa de todo o Povo de Deus, sustentada pela Providência, não poderá
deixar de apressar a abundância dos dons divinos. A solidariedade cristã
venha generosamente ao encontro das necessidades da formação vocacional,
nos países economicamente mais pobres. A promoção das vocações nestas nações
seja efectuada pelos vários Institutos em plena harmonia com as Igrejas
particulares, na base de uma activa e prolongada inserção na sua pastoral.O
modo mais autêntico para secundar a acção do Espírito há-de ser o de investir
generosamente as melhores energias na actividade vocacional, especialmente
por uma adequada dedicação à pastoral juvenil.
O dever da formação inicial
65. A Assembleia sinodal prestou particular atenção à formação
de quem deseja consagrar-se ao Senhor,reconhecendo a sua importância decisiva.
Objectivo central do caminho de formação é a preparação da pessoa
para a consagração total de si mesma a Deus no seguimento de Cristo, ao
serviço da missão. Responder « sim » ao chamamento de Deus, assumindo pessoalmente
o dinamismo do crescimento vocacional, é responsabilidade inalienável de
cada chamado, que deve abrir o espaço da própria vida à acção do Espírito
Santo; é percorrer com generosidade o caminho de formação, acolhendo com
fé as mediações que o Senhor e a Igreja lhe oferecem. formação deverá,
pois, atingir em profundidade a própria pessoa, de tal modo que cada uma
das suas atitudes ou gestos, tanto nos momentos importantes como nas circunstâncias
ordinárias da vida, possa revelar a sua pertença total e feliz a Deus.Uma
vez que o fim da vida consagrada consiste na configuração com o Senhor
Jesus e com a sua oblação total,para isso sobretudo é que deve apontar
a formação. Trata-se de um itinerário de progressiva assimilação dos sentimentos
de Cristo para com o Pai.Se esta é a finalidade da vida consagrada, o método
que prepara para ela deverá assumir e manifestar a característica da
totalidade . Deverá ser formação da pessoa toda,nos vários aspectos
da sua individualidade, tanto nos comportamentos como nas intenções. Exactamente
porque tende à transformação da pessoa toda, está claro que o dever
da formação nunca termina. Importa, de facto, que às pessoas consagradas
sejam oferecidas, até ao fim, oportunidades de crescimento na adesão ao
carisma e à missão do próprio Instituto.A formação, por ser total, compreenderá
todos os campos da vida cristã e da vida consagrada. Assim, há-de estar
prevista uma preparação humana, cultural, espiritual e pastoral, colocando
todo o cuidado por que seja favorecida a integração harmónica dos diversos
aspectos. À formação inicial, entendida como processo evolutivo que passa
por cada grau do amadurecimento pessoal — desde o psicológico e espiritual
até ao teológico e pastoral —, deve-se reservar um período de tempo suficientemente
amplo. No caso das vocações para o presbiterado, acaba por coincidir e
harmonizar-se com um programa específico de estudos que faz parte de um
percurso formativo bem mais amplo.
A tarefa dos formadores e formadoras
66. Deus Pai, pelo dom contínuo de Cristo e do Espírito, é o formador
por excelência de quem a Ele se consagra. Mas nesta obra, Ele serve-Se
da mediação humana, colocando ao lado dos que chama alguns irmãos e irmãs
mais velhos. A formação é, portanto, participação na acção do Pai que,
através do Espírito, plasma no coração dos jovens e das jovens os sentimentos
do Filho. Assim, os formadores e formadoras devem ser especialistas no
caminho da procura de Deus, para serem capazes de acompanhar também outros
neste itinerário. Atentos à acção da graça, saberão apontar os obstáculos,
mesmo os menos visíveis, mas sobretudo hão-de mostrar a beleza do seguimento
do Senhor e o valor do carisma em que isso se concretiza. Às luzes da sabedoria
espiritual unirão a iluminação oferecida pelos instrumentos humanos, que
possam servir de ajuda tanto no discernimento vocacional, como na formação
do homem novo, para que se torne autenticamente livre. Instrumento essencial
de formação é o colóquio pessoal, que há-de verificar-se regularmente com
uma certa frequência, como tradição de insubstituível e comprovada eficácia.
Perante tarefas tão delicadas, resulta verdadeiramente importante a
preparação de formadores idóneos, que, no seu serviço, assegurem uma grande
sintonia com o caminho de toda a Igreja. Será oportuno criar estruturas
adequadas para a preparação dos formadores, se possível em lugares
onde seja proporcionado o contacto com a cultura em que há-de ser, depois,
exercido o serviço pastoral. Nesta obra de formação, os Institutos que
já se encontrem melhor radicados dêem uma mão aos Institutos de fundação
mais recente, graças à ajuda de alguns dos seus melhores membros.
Uma formação comunitária e apostólica
67. Visto que a formação deve ser também comunitária, o seu lugar
privilegiado no caso dos Institutos de vida religiosa e das Sociedades
de Vida Apostólica é a comunidade. Nesta, tem lugar a iniciação à dificuldade
e à alegria de viverem juntos. Aí cada um aprende a viver em fraternidade
com aquele que Deus pôs ao seu lado, aceitando as suas características
positivas juntamente com as suas diferenças e limitações. De modo particular,
aprende a partilhar os dons recebidos para a edificação de todos, visto
que « a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum »
(1 Cor 12,7).Ao mesmo tempo, a vida comunitária deve mostrar, desde
a formação inicial, a dimensão missionária intrínseca à consagraçao. Por
isso nos Institutos de vida consagrada, durante o período da formação inicial,
será útil realizar experiências concretas, prudentemente acompanhadas pelo
formador ou formadora, para exercitar, no diálogo com a cultura circundante,
as atitudes apostólicas, a capacidade de adaptação, o espírito de iniciativa.
Se, por um lado, é importante que a pessoa consagrada vá adquirindo
progressivamente uma consciência evangelicamente crítica face aos valores
e contra-valores tanto da cultura própria como daquela que encontrará no
futuro campo de trabalho, por outro, ela deve exercitar-se na difícil arte
da unidade de vida, da mútua compenetração da caridade para com Deus e
para com os irmãos e irmãs, experimentando que a oração é a alma do apostolado,
mas que também o apostolado vivifica e estimula a oração.
Necessidade de uma ratio completa e actualizada
68. Um período explícito de formação, que se estenda até à profissão
perpétua, é recomendado também para os religiosos irmãos, tanto dos Institutos
femininos como dos masculinos. O mesmo vale substancialmente também para
as comunidades claustrais, que terão o cuidado de elaborar um programa
adequado, tendo em vista uma autêntica formação para a vida contemplativa
e para a sua missão peculiar na Igreja.
Os Padres sinodais solicitaram vivamente a todos os Institutos de vida
consagrada e Sociedades de Vida Apostólica que elaborassem, quanto antes,
uma ratio institutionis, isto é, um projecto de formação inspirado
no carisma institucional, no qual se apresente, de forma clara e dinâmica,
o caminho a seguir para se assimilar plenamente a espiritualidade do próprio
Instituto. A ratio dá resposta a uma verdadeira urgência de hoje:
por um lado, indica o modo de transmitir o espírito do Instituto, a fim
de ser vivido em toda a sua genuinidade pelas novas gerações, na diversidade
das culturas e das situações geográficas, e, por outro, ilustra às pessoas
consagradas os meios para viverem o mesmo espírito nas várias fases da
existência, avançando para a plena maturidade da fé em Cristo Jesus.Portanto,
se é verdade que a renovação da vida consagrada depende principalmente
da formação, é igualmente certo que esta, por sua vez, está ligada à capacidade
de propor um método rico de sabedoria espiritual e pedagógica, que leve
progressivamente a assumir os sentimentos de Cristo Senhor quem aspira
a consagrar-se. A formação é um processo vital, através do qual a pessoa
se converte ao Verbo de Deus até às profundezas do seu ser e, ao mesmo
tempo, aprende a arte de procurar os sinais de Deus nas realidades do mundo.
Numa época de crescente marginalização dos valores religiosos da cultura,
este caminho de formação é duplamente importante: graças a ele, a pessoa
consagrada não só pode continuar a « ver » Deus com os olhos da fé, num
mundo que ignora a sua presença, mas consegue também de algum modo tornar
« sensível » a presença d'Ele, por meio do testemunho do próprio carisma.
A formação permanente
69. A formação permanente, tanto para os Institutos de vida apostólica
como para os de vida contemplativa, constitui uma exigência intrínseca
à consagração religiosa. Como se disse, o processo de formação não se reduz
à sua fase inicial, visto que a pessoa consagrada, pelas suas limitações
humanas, não poderá mais pensar ter completado a gestação daquele homem
novo que experimenta dentro de si, em cada circunstância da vida, os mesmos
sentimentos de Cristo. A formação inicial deve, portanto, consolidar-se
com a formação permanente , criando no sujeito a disponibilidade
para se deixar formar em cada dia da sua vida.Por conseguinte, será muito
importante que cada Instituto preveja, como parte da ratio institutionis,
a definição, o mais possível precisa e sistemática, de um projecto de formação
permanente, cujo objectivo primário seja o de acompanhar cada pessoa consagrada
com um programa aberto à existência inteira. Ninguém se pode eximir de
se aplicar ao próprio crescimento humano e religioso; tal como ninguém
pode presumir de si mesmo, gerindo a própria vida com auto-suficiência.
Nenhuma fase da vida se pode considerar tão segura e fervorosa que exclua
a conveniência de cuidados específicos para garantir a perseverança na
fidelidade, tal como não existe idade que chegue ver consumada a maturação
da pessoa.
Num dinamismo de fidelidade
70. Há uma juventude do espírito que permanece independentemente do
tempo: está relacionada com o facto de o indivíduo procurar e encontrar,
em cada fase da vida, uma tarefa diversa a cumprir, um modo específico
de ser, de servir e de amar.Na vida consagrada, os primeiros anos da
inserção plena na actividade apostólica representam uma fase crítica
por natureza, porque marcada pela passagem de uma vida guiada a uma situação
de plena responsabilidade operante. Será importante que as pessoas
recém-consagradas sejam sustentadas e acompanhadas por um irmão ou uma
irmã que as ajude a viver plenamente a juventude do seu amor e do seu entusiasmo
por Cristo.A fase sucessiva pode apresentar o risco da habituação e
a consequente tentação da desilusão pela escassez dos resultados. Neste
caso, é necessário ajudar as pessoas consagradas de meia idade a
reverem, à luz do Evangelho e da inspiração carismática, a sua opção originária
sem confundir a totalidade da dedicação com a totalidade do resultado.
Isto permitirá dar renovado impulso e novas motivações à própria escolha.
É a estação da busca do essencial.A fase da idade madura , contemporânea
ao crescimento pessoal, pode comportar o perigo de um certo individualismo,
acompanhado quer pelo temor de já não estar adaptado aos tempos, quer por
fenómenos de endurecimento, insensibilidade e relaxamento. Aqui a formação
permanente tem a finalidade de ajudar não só a recuperar um grau mais alto
de vida espiritual e apostólica, mas ainda a descobrir a peculiaridade
desta fase da existência. De facto, uma vez purificados nela alguns aspectos
da personalidade, a oferta de si mesmo sobe a Deus com maior pureza e generosidade,
refluindo depois sobre os irmãos e irmãs mais serena e discreta, mas também
mais transparente e rica de graças. É o dom e a experiência da paternidade
e maternidade espiritual.A idade avançada coloca novos problemas,
que hão-de ser previamente enfrentados com um ponderado programa de apoio
espiritual. O afastamento progressivo da actividade e, em alguns casos,
a doença e a forçada inactividade constituem uma experiência que se pode
tornar altamente formativa. Momento este muitas vezes doloroso, oferece,
no entanto, à pessoa consagrada idosa a oportunidade de se deixar plasmar
pela experiência pascal,configurando-se com Cristo crucificado que cumpre
em tudo a vontade do Pai e Se abandona nas suas mãos até Lhe entregar o
espírito. Esta configuração é um modo novo de viver a consagração, que
não está ligada à eficiência de uma tarefa de governo ou de um trabalho
apostólico.Quando, depois, chega o momento de unir-se à hora suprema
da Paixão do Senhor, a pessoa consagrada sabe que o Pai está finalmente
levando a cumprimento nela aquele misterioso processo de formação, há tempos
iniciado. A morte será, então, esperada e preparada como o acto supremo
de amor e de entrega de si mesma.É necessário acrescentar que, independentemente
das várias fases da vida, cada idade pode conhecer situações críticas devido
à interven- ção de factores externos — mudança de lugar ou de serviço,
dificuldades no trabalho ou insucesso apostólico, incompreensão ou marginalização,
etc. — ou devido a factores mais estritamente pessoais — doença física
ou psíquica, aridez espiritual, lutos, problemas de relacionamento interpessoal,
fortes tentações, crises de fé ou de identidade, sensação de inutilidade,
e outros semelhantes —. Quando a fidelidade se torna mais difícil, é preciso
oferecer à pessoa o apoio de uma maior confiança e de um amor mais intenso,
a nível pessoal e comunitário. Nessas ocasiões sobretudo, é necessária
a solidariedade afectuosa do Superior; grande conforto virá ainda da ajuda
qualificada de um irmão ou de uma irmã, cuja presença carinhosa e disponível
poderá levar a redescobrir o sentido da aliança que Deus tomou a iniciativa
de estabelecer e não a entende desdizer. A pessoa provada chegará, deste
modo, a acolher a purificação e o despojamento como actos essenciais de
seguimento de Cristo crucificado. A prova mesma será vista como instrumento
providencial de formação nas mãos do Pai, como luta não apenas psicológica
, conduzida pelo sujeito relativamente a si próprio e às suas fraquezas,
mas também religiosa, marcada cada dia pela presença de Deus e pelo
poder da Cruz!
Dimensões da formação permanente
71. Se o sujeito da formação é a pessoa nas diversas fases da sua vida,
o termo último da formação é a totalidade do ser humano, chamado a procurar
e a amar a Deus, « com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças
» (cf. Dt 6,5), e ao próximo como a si mesmo (cf. Lv 19,18;
Mt 22,37-39). O amor a Deus e aos irmãos é um dinamismo poderoso,
que pode inspirar constantemente o caminho de crescimento e de fidelidade.
A vida no Espírito tem obviamente o primado. Nela, a pessoa consagrada
readquire a própria identidade e uma serenidade profunda, cresce na atenção
aos desafios quotidianos da Palavra de Deus, e deixa-se guiar pela inspiração
original do próprio Instituto. Sob a acção do Espírito, são tenazmente
defendidos os tempos de oração, de silêncio, de solidão, e implora-se do
Alto, com insistência, o dom da sabedoria para as canseiras de cada dia
(cf. Sab 9,10).A dimensão humana e fraterna requer o conhecimento
de si mesmo e dos próprios limites, para daí tirar o devido estímulo e
apoio no caminho para a plena libertação. Particularmente importantes,
no contexto moderno, são a liberdade interior da pessoa consagrada, a maturidade
afectiva, a capacidade de comunicar com todos, especialmente na própria
comunidade, a serenidade do espírito e a sensibilidade por quem sofre,
o amor à verdade, uma coerência linear entre as palavras e as obras.A
dimensão apostólica abre a mente e o coração da pessoa consagrada,
e predispõe-na para um contínuo esforço no serviço, como sinal do amor
de Cristo que a impele (cf. 2 Cor 5,14). Isto significará, na prática,
uma actualização de métodos e objectivos das actividades apostólicas, na
fidelidade ao espírito e finalidade do fundador ou fundadora e às tradições
posteriormente maturadas, com uma atenção constante às alterações verificadas
nas condições históricas e culturais, gerais e locais, do ambiente onde
se trabalha.A dimensão cultural e profissional, tendo por base uma
sólida formação teológica que consinta o discernimento, implica uma actualização
permanente e uma atenção particular aos vários campos que cada carisma
privilegia. Por isso, é necessário permanecer mentalmente o mais possível
abertos e dóceis, para que o serviço seja concebido e prestado segundo
as exigências do respectivo tempo, valendo-se dos instrumentos fornecidos
pelo progresso cultural.Na dimensão do carisma, por último, encontram-se
recolhidas todas as outras exigências, como numa síntese que exige um aprofundamento
contínuo da própria consagração especial em suas várias componentes, não
só na apostólica, mas também nas componentes ascética e mística. Isto comporta
para cada um dos membros um estudo assíduo do espírito do Instituto a que
pertence, da sua história e missão, para melhorar a sua assimilação pessoal
e comunitária.
CAPÍTULO III
SERVITIUM CARITATIS
A VIDA CONSAGRADA,
EPIFANIA DO AMOR DE DEUS NO MUNDO
Consagrados para a missão
72. À imagem de Jesus, dilecto Filho « a quem o Pai consagrou e enviou
ao mundo » (Jo 10,36), também aqueles que Deus chama a seguir Cristo
são consagrados e enviados ao mundo para imitar o seu exemplo e continuar
a sua missão. Valendo fundamentalmente para todo o discípulo, isto aplica-se
de modo especial àqueles que são chamados, na característica forma da vida
consagrada, a seguir Cristo « mais de perto » e a fazer d'Ele o « tudo
» da sua existência. Na sua vocação, portanto, está incluído o dever de
se dedicarem totalmente à missão; mais, a própria vida consagrada,
sob a acção do Espírito Santo que está na origem de toda a vocação e carisma,
torna-se missão, tal como o foi toda a vida de Jesus. A profissão dos conselhos
evangélicos, que torna a pessoa totalmente livre para a causa do Evangelho,
revela a sua importância também desde este ponto de vista. Assim há que
afirmar que a missão é essencial para cada Instituto, não só nos
de vida apostólica activa, mas também de vida contemplativa.
Na realidade, a missão, antes de ser caracterizada pelas obras externas,
define-se pelo tornar presente o próprio Cristo no mundo, através do testemunho
pessoal. Este é o desafio, a tarefa primária da vida consagrada! Quanto
mais se deixa conformar com Cristo, tanto mais O torna presente no mundo
e operante para a salvação dos homens.Assim, pode-se afirmar que a pessoa
consagrada está « em missão » por força da sua própria consagração, testemunhada
segundo o projecto do respectivo Instituto. Quando o carisma de fundação
prevê actividades pastorais, é óbvio que o testemunho de vida e as obras
de apostolado e promoção humana são igualmente necessários: ambos representam
Cristo, que é simultaneamente o consagrado à glória do Pai e o enviado
ao mundo para a salvação dos irmãos e irmãs.lém disso, a vida religiosa
participa na missão de Cristo por outro elemento peculiar que lhe é próprio:
a vida fraterna em comunidade para a missão. Por isso, a vida religiosa
será tanto mais apostólica quanto mais íntima for a sua dedicação ao Senhor
Jesus, quanto mais fraterna for a sua forma comunitária de existência,
quanto mais ardoroso for o seu empenhamento na missão específica do Instituto.
Ao serviço de Deus e do homem
73. A vida consagrada tem a função profética de recordar e servir
o desígnio de Deus sobre os homens, tal como esse desígnio é anunciado
pela Escritura e resulta também da leitura atenta dos sinais da acção providente
de Deus na história. É projecto de uma humanidade salva e reconciliada
(cf. Col 2,20-22). Para cumprirem convenientemente tal serviço,
as pessoas consagradas devem ter uma profunda experiência de Deus e tomar
consciência dos desafios do seu tempo, identificando o sentido teológico
profundo deles por meio do discernimento realizado com a ajuda do Espírito.
É que, nos acontecimentos históricos, encerra-se frequentemente o apelo
de Deus para trabalharmos segundo os seus planos com uma inserção activa
e fecunda nos acontecimentos do nosso tempo.O discernimento dos sinais
dos tempos, como afirma o Concílio, deve ser feito à luz do Evangelho,
para que se « possa responder (...) às eternas perguntas dos homens acerca
do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas ».É necessário,
portanto, abrir o coraçao às sugestões interiores do Espírito, que convida
a ler em profundidade os desígnios da Providência. Ele chama a vida consagrada
a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo actual. São
solicitações divinas, que só almas habituadas a procurar em tudo a vontade
de Deus conseguem captar fielmente e, depois, traduzi-las corajosamente
em opções coerentes seja com o carisma originário, seja com as exigências
da situação histórica concreta.Perante os numerosos problemas e urgências
que parecem às vezes comprometer e até mesmo transtornar a vida consagrada,
os chamados não podem deixar de sentir o compromisso de conservarem no
coração e levarem à oração as inúmeras necessidades do mundo inteiro, ao
mesmo tempo que trabalham vigorosamente nos campos ligados ao carisma de
fundação. A sua dedicação deverá, obviamente, ser guiada pelo discernimento
sobrenatural, que sabe distinguir o que vem do Espírito daquilo que
Lhe é contrário (cf. Gal 5,16-17.22; 1 Jo 4,6). Mediante
a fidelidade à Regra e às Constituições, tal discernimento conserva a plena
comunhão com a Igreja.ssim, a vida consagrada não se limitará a ler os
sinais dos tempos, mas há-de contribuir também para elaborar e actuar novos
projectos de evangelização para as situações actuais. E tudo isto,
na certeza derivada da fé de que o Espírito sabe dar as respostas apropriadas
mesmo às questões mais difíceis. A este respeito, será bom redescobrir
aquilo que sempre ensinaram os grandes protagonistas da acção apostólica:
é preciso confiar em Deus como se tudo dependesse d'Ele e, ao mesmo tempo,
empenhar-se generosamente como se tudo dependesse de nós.
Colaboração eclesial e espiritualidade apostólica
74. Tudo deve ser feito em comunhão e diálogo com as outras componentes
eclesiais. Os desafios da missão são tais que não podem ser eficazmente
enfrentados, tanto no discernimento como na acção, sem a colaboração de
todos os membros da Igreja. Dificilmente o indivíduo isoladamente possui
a resposta decisiva: esta, ao contrário, pode brotar da confrontação e
do diálogo. De modo particular, a comunhão de acção entre os vários carismas
não deixará de garantir, para além do enriquecimento recíproco, uma eficácia
mais incisiva na missão. A experiência destes anos confirma largamente
que « o diálogo é o novo nome da caridade »,especialmente da caridade eclesial;
aquele ajuda a ver os problemas nas suas reais dimensões, e permite enfrentá-los
com melhores esperanças de sucesso. A vida consagrada, pelo facto mesmo
de cultivar o valor da vida fraterna, apresenta-se como uma experiência
privilegiada de diálogo. Deste modo, ela pode contribuir para criar um
clima de aceitação recíproca, no qual os vários sujeitos eclesiais, sentindo-se
valorizados por aquilo que são, concorrem de maneira mais convicta para
a comunhão eclesial, orientada para a grande missão universal.Os Institutos
empenhados nas várias formas de serviço apostólico devem, enfim, cultivar
uma sólida espiritualidade da acção, vendo Deus em todas as coisas
e todas as coisas em Deus. De facto, « é preciso saber que como uma vida
bem ordenada tende a passar da vida activa à contemplativa, também a maior
parte das vezes o espírito regressa com proveito da vida contemplativa
à activa, para conservar mais perfeitamente a vida activa para aquilo que
a vida contemplativa lhe acendeu na mente. Portanto a vida activa deve
transferir-nos à vida contemplativa, e algumas vezes a contemplação, por
aquilo que vimos interiormente, há-de chamar-nos a uma melhor acção ».O
próprio Jesus nos deu o exemplo perfeito de como é possível unir a comunhão
com o Pai e uma vida intensamente activa. Sem a tensão constante para tal
unidade, o perigo de colapso interior, desorientação e desânimo está continuamente
à espreita. A união íntima entre a contemplação e a acção permitirá, hoje
como ontem, enfrentar as missões mais difíceis.
I. O AMOR ATÉ AO FIM
Amar com o coração de Cristo
75. « Ele que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.
E, no decorrer da ceia, (...) levantou-Se da mesa (...) e começou a lavar
os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cinta »
(Jo 13,1-2.4-5).
Ao lavar os pés, Jesus revela a profundidade do amor de Deus pelo homem:
n'Ele, o próprio Deus põe-Se ao serviço dos homens! Mas revela ao mesmo
tempo o sentido da vida cristã e, com maior razão, da vida consagrada,
que é vida de amor oblativo , de serviço concreto e generoso. No
seguimento do Filho do homem que « não veio ao mundo para ser servido,
mas para servir » (Mt 20,28), a vida consagrada, pelo menos nos
períodos melhores da sua longa história, caracterizou-se por este « lavar
os pés », ou seja, pelo serviço sobretudo aos mais pobres e necessitados.
Se, por um lado, aquela contempla o mistério sublime do Verbo no seio do
Pai (cf. Jo 1,1), por outro, segue o Verbo que Se faz carne (cf.
Jo 1,14), aniquila, humilha para servir os homens. As pessoas que
seguem Cristo pelo caminho dos conselhos evangélicos também hoje se propõem
ir até onde Cristo foi e fazer o que Ele fez.Continuamente Jesus chama
a Si novos discípulos, homens e mulheres, para lhes comunicar, mediante
a efusão do Espírito (cf. Rm 5,5), a agape divina, o seu
modo de amar, estimulan- do-os assim a servirem os outros, no humilde dom
de si próprios, sem cálculos interesseiros. A Pedro que, extasiado pelo
resplendor da Transfiguração, exclama: « Senhor, é bom estarmos aqui »
(Mt 17,4), é dirigido o convite a regressar às estradas do mundo,
para continuar a servir o Reino de Deus: « Desce, Pedro! Desejavas repousar
no monte. Desce! Prega a Palavra de Deus, insiste a todo o momento, oportuna
e inoportunamente, repreende, exorta, encoraja com toda a paciência e doutrina.
Trabalha, não olhes a canseiras, nem rejeites dores ou suplícios, a fim
de que, pela candura e beleza das boas obras, tu possuas na caridade aquilo
que está simbolizado nas vestes brancas do Senhor ».O olhar fixo no rosto
do Senhor não diminui no apóstolo o empenho a favor do homem; pelo contrário,
reforça-o, dotando-o de uma nova capacidade de influir na história, para
a libertar de tudo quanto a deforma.A busca da beleza divina impele as
pessoas consagradas a cuidarem da imagem divina deformada nos rostos de
irmãos e irmãs: rostos desfigurados pela fome, rostos desiludidos pelas
promessas políticas, rostos humilhados de quem vê desprezada a própria
cultura, rostos assustados pela violência quotidiana e indiscriminada,
rostos angustiados de menores, rostos de mulheres ofendidas e humilhadas,
rostos cansados de migrantes sem um digno acolhimento, rostos de idosos
sem as mínimas condições para uma vida digna.A vida consagrada prova assim,
com a eloquên- cia das obras, que a caridade divina é fundamento e estímulo
do amor gratuito e operoso. Bem convencido disto estava S. Vicente de Paulo,
quando indicava às Filhas da Caridade este programa de vida: « O espírito
da Companhia consiste em dar-se a Deus para amar Nosso Senhor e servi-Lo
na pessoa dos pobres material e espiritualmente, nas suas casas e noutros
lugares, para instruir as meninas pobres, as crianças, e em geral todos
aqueles que a divina Providência vos manda ».ntre os possíveis âmbitos
da caridade, certamente aquele que, a título especial, manifesta ao mundo
o amor « até ao fim » é, hoje, o anúncio apaixonado de Jesus Cristo àqueles
que ainda não O conhecem, aos que O esqueceram, e de modo preferencial
aos pobres.
Contribuição específica da vida consagrada para a evangelização
76. A contribuição específica dos consagrados e consagradas para a evangelização
consiste, primariamente, no testemunho de uma vida totalmente entregue
a Deus e aos irmãos, à imitação do Salvador que Se fez servo, por amor
do homem. Na obra da salvação, de facto, tudo provém da participação na
agape divina. As pessoas consagradas, na sua consagração e total
doação, tornam visível a presença amorosa e salvadora de Cristo, o consagrado
do Pai, enviado em missão.Deixando-se conquistar por Ele (cf. Fil
3,12), aquelas dispõem-se a ser, de certo modo, um prolongamento da sua
humanidade.A vida consagrada mostra eloquentemente que quanto mais se vive
de Cristo, tanto melhor se pode servi-Lo nos outros, aventurando-se até
aos postos de vanguarda da missão, e abraçando os maiores riscos.
A primeira evangelização: anunciar Cristo aos povos
77. Quem ama a Deus, Pai de todos, não pode deixar de amar os seus semelhantes,
nos quais reconhece igualmente seus irmãos e irmãs. Por isso mesmo, não
pode ficar indiferente face à constatação de que muitos deles não conhecem
a plena manifestação do amor de Deus em Cristo. Daqui nasce, por obediência
ao mandato de Cristo, o ardor missionário ad gentes , que todo o
cristão consciente partilha com a Igreja, missionária por natureza. É um
ardor sentido sobretudo pelos membros dos Institutos, tanto de vida contemplativa
como activa.De facto, as pessoas consagradas têm o dever de tornar presente,
mesmo entre os não cristãos,Jesus Cristo casto, pobre, obediente, orante
e missionário.Permanecendo dinamicamente fiéis ao próprio carisma, elas,
por força da sua consagração mais íntima a Deus,não podem deixar de se
sentirem comprometidas numa especial colaboração com a actividade missionária
da Igreja. Aquele desejo tantas vezes manifestado por Teresa de Lisieux:
« amar-Te e fazer-Te amar »; o ardente anseio de S. Francisco Xavier de
que « muitos daqueles que estudam as ciências, se meditassem nas contas
que Deus nosso Senhor lhes há-de pedir delas e do talento que lhes deu,
decidir-se-iam a procurar meios e Exercícios espirituais para conhecer
e ouvir dentro da própria alma a vontade divina, e, conformando-se mais
com ela do que com as próprias inclinações, diriam: “Senhor, eis-me aqui;
que quereis que eu faça? Mandai-me onde quiserdes” »,e outros testemunhos
semelhantes de inumeráveis almas santas manifestam a irreprimível tensão
missionária que determina e qualifica a vida consagrada.
Presentes em todos os cantos da terra
78. « O amor de Cristo nos impele » (2 Cor 5,14): os membros
de cada Instituto deveriam poder repetir isto com o Apóstolo, porque é
tarefa da vida consagrada trabalhar em todos os cantos da terra para consolidar
e dilatar o Reino de Cristo, levando o anúncio do Evangelho a todo o lado,
mesmo às regiões mais longínquas.Na verdade, a história missionária testemunha
a grande contribuição que eles deram para a evangelização dos povos: desde
as antigas Famílias monásticas até às Fundações mais recentes empenhadas
de maneira exclusiva na missão ad gentes, desde os Institutos de
vida activa até aos que se dedicam à contemplação,inúmeras pessoas consumaram
as próprias energias nesta « actividade primária e essencial da Igreja,
jamais concluída »,porque dirigida à multidão, sempre maior, daqueles que
não conhecem Cristo.
Ainda hoje, este dever continua a interpelar urgentemente os Institutos
de vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica: o anúncio do Evangelho
de Cristo espera deles a máxima contribuição possível. Mesmo os Institutos
que surgem ou trabalham nas jovens Igrejas são convidados a abrirem-se
à missão junto dos não cristãos, dentro e fora da sua pátria. Apesar das
compreensíveis dificuldades que alguns deles possam atravessar, é bom que
todos se lembrem que da mesma forma que « é dando a fé que ela se fortalece
»,assim também a missão reforça a vida consagrada, dá-lhe novo entusiasmo
e novas motivações, estimula a sua fidelidade; e a actividade missionária,
por sua vez, oferece amplos espaços para acolher as mais variadas formas
de vida consagrada.A missão ad gentes oferece oportunidades extraordinárias
e especiais às mulheres consagradas, aos religiosos irmãos e aos membros
dos Institutos seculares, para uma acção particularmente incisiva. Os últimos
referidos podem, com a sua presença nos vários âmbitos típicos da vocação
laical, desempenhar uma preciosa obra de evangelização dos ambientes, das
estruturas e mesmo das leis que regulam a convivência social. Além disso,
podem testemunhar os valores evangélicos junto das pessoas que ainda não
conhecem Jesus, dando assim uma específica contribuição para a missão.Há
que sublinhar ainda que, nos países onde estão radicadas religiões não
cristãs, assume enorme importância a presença da vida consagrada, tanto
por meio das actividades educativas, assistênciais e culturais, como através
da figura da vida contemplativa. Por isso, deve-se encorajar nas novas
Igrejas, de modo particular, a fundação de comunidades dedicadas à contemplação,
uma vez que « a vida contemplativa pertence à plenitude da presença da
Igreja ».É necessário, enfim, promover com meios adequados uma equitativa
distribuição da vida consagrada em suas várias formas, para suscitar um
novo impulso evangelizador, quer pelo envio de missionários e missionárias,
quer com a devida ajuda dos Institutos de vida consagrada às dioceses mais
pobres.
Anúncio de Cristo e inculturação
79. O anúncio de Cristo « tem a prioridade permanente, na missão »da
Igreja, e visa a conversão, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e
ao seu Evangelho.No quadro da actividade missionária, entram também o processo
de inculturação e o diálogo inter-religioso. O desafio da inculturação
há-de ser acolhido pelas pessoas consagradas como apelo a uma fecunda cooperação
com a graça na aproximação às diversas culturas. Isto supõe séria preparação
pessoal, dotes maturos de discernimento, fiel adesão aos critérios indispensáveis
de ortodoxia doutrinal, autenticidade e comunhão eclesial.Com o apoio do
carisma dos fundadores e fundadoras, muitas pessoas consagradas souberam
aproximar-se das diversas culturas, com a atitude de Jesus que « Se despojou
a Si mesmo tomando a condição de servo » (Fil 2,7), e, com um paciente
e audaz esforço de diálogo, estabeleceram contactos proveitosos com os
povos mais diversos, a todos anunciando o caminho da salvação. Também hoje,
muitas delas sabem procurar e encontrar, na história dos indivíduos e de
povos inteiros, vestígios da presença de Deus, que guia toda a humanidade
para o discernimento dos sinais da sua vontade redentora. E tal investigação
revela-se vantajosa também para as próprias pessoas consagradas: na verdade,
os valores descobertos nas diversas civilizações podem levá-las a aumentar
o seu empenho de contemplação e oração, a praticar mais intensamente a
partilha comunitária e a hospitalidade, a cultivar com maior diligência
a atenção à pessoa e o respeito pela natureza.Para uma autêntica inculturação,
são necessárias atitudes semelhantes às do Senhor, quando, com amor e humildade,
encarnou e veio habitar entre nós. Neste sentido, a vida consagrada torna
as pessoas particularmente preparadas para enfrentar o processo complexo
da inculturação, visto que as habitua ao desprendimento das coisas e até
mesmo de muitos aspectos da própria cultura. Aplicando-se com estas atitudes
ao estudo e à compreensão das culturas, os consagrados podem discernir
melhor nelas os valores autênticos e o modo como acolhê-los e aperfeiçoá-los
com o auxílio do próprio carisma.No entanto, convém não esquecer que, em
muitas culturas antigas, a expressão religiosa está tão profundamente arreigada
que a religião representa muitas vezes a dimensão transcendente da cultura.
Neste caso, uma verdadeira inculturação comporta necessariamente um sério
e franco diálogo inter-religioso, que « não está em contraposição com a
missão ad gentes », nem « dispensa a evangelização ».
A inculturação da vida consagrada
80 A vida consagrada, portadora por natureza de valores evangélicos,
pode por sua vez oferecer, nos lugares onde é vivida com autenticidade,
uma contribuição original para os desafios da inculturação. De facto, sendo
um sinal do primado de Deus e do seu Reino, ela torna-se uma provocação
que, no diálogo, pode despertar as consciências dos homens. Se a vida consagrada
mantiver a força profética que lhe é própria, torna-se fermento evangélico
dentro de uma cultura, capaz de a purificar e elevar. Isto mesmo o demonstra
a história de numerosos santos e santas, que, em épocas diversas, souberam
inserir-se no seu tempo, sem se deixar submergir, mas antes conseguindo
apontar novos caminhos à sua geração. O estilo de vida evangélico é uma
fonte importante para a proposta de um novo modelo cultural. Quantos fundadores
e fundadoras, tendo individuado algumas exigências do seu tempo, procuraram,
com todas as limitações por eles mesmos reconhecidas, dar-lhes remédio
com uma resposta que se tornou proposta cultural inovadora!
As comunidades dos Institutos religiosos e das Sociedades de Vida Apostólica
podem, de facto, oferecer concretas e significativas propostas culturais,
quando testemunham o modo evangélico de viver o acolhimento recíproco na
diversidade e de exercer a autoridade, quando testemunham a partilha dos
bens tanto materiais como espirituais, a universalidade, a colaboração
intercongregacional, a escuta dos homens e mulheres do nosso tempo. Na
verdade, o modo de pensar e agir de quem segue Cristo mais de perto dá
origem a uma verdadeira e própria cultura de referência, faz evidenciar
aquilo que é desumano, testemunha que só Deus dá aos valores vigor e plenitude.
Uma autêntica inculturação ajudará, por sua vez, as pessoas consagradas
a viverem o radicalismo evangélico, segundo o carisma do próprio Instituto
e a índole do povo com que entram em contacto. Deste fecundo relacionamento,
brotam estilos de vida e métodos pastorais que poderão revelar-se uma autêntica
riqueza para o Instituto inteiro, se forem coerentes com o carisma de fundação
e com a acção unificadora do Espírito Santo. Uma garantia de recto caminho,
neste processo feito de discernimento e audácia, de diálogo e provocação
evangélica, é oferecida pela Santa Sé, à qual compete encorajar a evangelização
das culturas, bem como autenticar os seus progressos e sancionar os seus
êxitos em ordem à inculturação,tarefa esta « delicada e difícil, porque
está em causa a fidelidade da Igreja ao Evangelho e à Tradição Apostólica,
na evolução constante das culturas ».
A nova evangelização
81. Para enfrentar adequadamente os grandes desafios que a história
actual coloca à nova evangelização, faz falta, antes de mais, uma vida
consagrada que se deixe interpelar continuamente pela Palavra revelada
e pelos sinais dos tempos.A recordação das grandes evangelizadoras e evangelizadores
— antes tinham sido grandes evangelizados — revela que, para enfrentar
o mundo de hoje, são necessárias pessoas dedicadas amorosamente ao Senhor
e ao seu Evangelho. « As pessoas consagradas, pela sua vocação específica,
são chamadas a fazer emergir a unidade entre auto-evangelização e testemunho,
entre renovação interior e ardor apostólico, entre ser e agir, evidenciando
que o dinamismo provém sempre do primeiro elemento do binómio ».A nova
evangelização, como a evangelização de sempre, será eficaz se souber proclamar
sobre os tectos aquilo que antes viveu na intimidade com o Senhor. Para
tal, requerem-se personalidades sólidas, animadas pelo fervor dos santos.
A nova evangelização exige nos consagrados e consagradas plena consciência
do sentido teológico dos desafios do nosso tempo. Estes desafios hão-de
ser examinados, com discernimento atento e concorde, em ordem à renovação
da missão. A coragem do anúncio do Senhor Jesus deve ser acompanhada pela
confiança na acção da Providência que opera no mundo de tal modo que «
tudo, mesmo as adversidades humanas, converge para o bem da Igreja ».lementos
importantes para uma útil inserção dos Institutos no processo da nova evangelização
são a fidelidade ao carisma de fundação, a comunhão com quantos na Igreja
estão empenhados no mesmo empreendimento, especialmente com os Pastores,
e a cooperação com todos os homens de boa vontade. Isto exige um sério
discernimento dos apelos que o Espírito dirige a cada Instituto, tanto
nas regiões onde não se prevêem a curto prazo grandes progressos, como
nas outras onde já se anuncia uma consoladora revitalização. Em cada lugar
e situação, as pessoas consagradas sejam ardorosos anunciadores do Senhor
Jesus, prontas a responder com a sabedoria evangélica às interpelações
feitas hoje pela inquietude do coração humano e pelas suas urgentes necessidades.
A predilecção pelos pobres e a promoção da justiça
82. Ao início do seu ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus proclama
que o Espírito O consagrou para levar aos pobres uma boa nova, para anunciar
a libertação aos cativos, devolver a vista aos cegos, libertar os oprimidos
e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,16-19). A Igreja,
assumindo como própria a missão do Senhor, anuncia o Evangelho a todo o
homem e mulher, preocupando-se pela sua salvação integral. Mas, com uma
atenção especial, uma verdadeira « opção preferencial », ela dirige-se
a quantos se encontram em situação de maior debilidade e, consequentemente,
de maior necessidade. « Pobres », nas várias acepções da pobreza, são os
oprimidos, os marginalizados, os idosos, os doentes, as crianças, todos
aqueles que são considerados e tratados como « últimos » na sociedade.
A opção pelos pobres inscreve-se na própria dinâmica do amor, vivido
segundo Jesus Cristo. Assim estão obrigados a ela todos os seus discípulos;
mas aqueles que querem seguir o Senhor mais de perto, imitando as suas
atitudes, não podem deixar de se sentirem implicados de modo absolutamente
particular em tal opção. A sinceridade da sua resposta ao amor de Cristo
leva-os a viver como pobres e a abraçar a causa dos pobres. Isto comporta
para cada Instituto, de acordo com o seu carisma específico, a adopção
de um estilo de vida, tanto pessoal como comunitário, humilde e
austero. Apoiadas pela vivência deste testemunho, as pessoas consagradas
poderão, nos modos adequados à sua opção de vida e permanecendo livres
relativamente às ideologias políticas, denunciar as injustiças que são
perpetradas contra tantos filhos e filhas de Deus, e empenhar-se na promoção
da justiça no ambiente social onde actuam.Deste modo, renovar-se-á também
nas situações actuais, graças ao testemunho de inúmeras pessoas consagradas,
aquela dedicação própria dos fundadores e fundadoras, que gastaram a sua
vida a servir o Senhor, presente nos pobres. Na verdade, Cristo « encontra-se,
na terra, na pessoa dos seus pobres (...). Enquanto Deus, é rico; enquanto
homem, pobre. Com efeito, o próprio homem já rico subiu ao céu, está sentado
à direita do Pai, mas aqui em baixo, pobre ainda agora, sofre a fome, a
sede, a nudez ». Evangelho torna-se efectivo através da caridade, que é
glória da Igreja e sinal da sua fidelidade ao Senhor. Demonstra-o toda
a história da vida consagrada, que pode ser considerada como uma exegese
viva da palavra de Jesus: « Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos
mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes » (Mt 25,40). Muitos Institutos,
especialmente na idade moderna, nasceram precisamente para ir ao encontro
das diversas necessidades dos pobres. Mas, mesmo quando tal finalidade
não foi determinante, a atenção e a solicitude pelos indigentes, expressas
mediante a oração, o acolhimento e a hospitalidade, sempre acompanharam
naturalmente as várias formas de vida consagrada, inclusive a vida contemplativa.
E como poderia ser de outra maneira, uma vez que o Senhor encontrado na
contemplação é o mesmo que vive e sofre nos pobres? A história da vida
consagrada é rica, neste sentido, de exemplos maravilhosos, por vezes geniais.
S. Paulino de Nola, depois de ter distribuído os seus bens aos pobres para
se consagrar a Deus, levantou as celas do seu mosteiro sobre um albergue
destinado precisamente aos indigentes. Ele rejubilava ao pensar nesta singular
« permuta de dons »: os pobres por ele assistidos consolidavam, com a sua
oração, os próprios « alicerces » da sua casa, toda ela dedicada ao louvor
de Deus.S. Vicente de Paulo, por seu lado, gostava de dizer que, quando
se tem de deixar a oração para ir prestar assistência a um pobre em necessidade,
na realidade a oração não é interrompida, porque « se deixa Deus para ir
estar com Deus ».ervir os pobres é acto de evangelização e, ao mesmo tempo,
selo de fidelidade ao Evangelho e estímulo de conversão permanente para
a vida consagrada, porque — como diz S. Gregório Magno — « quando a caridade
se debruça amorosamente a prover mesmo às ínfimas necessidades do próximo,
então é que se alteia até aos cumes mais elevados. E quando benignamente
se inclina sobre as necessidades extremas, então mais vigorosamente retoma
o voo para as alturas ».
O cuidado dos doentes
83. Seguindo uma gloriosa tradição, um grande número de pessoas consagradas,
sobretudo mulheres, exercem o seu apostolado nos meios hospitalares, segundo
o carisma do respectivo Instituto. Ao longo dos séculos, muitas foram as
pessoas consagradas que sacrificaram a sua vida ao serviço das vítimas
de doenças contagiosas, mostrando que pertence à índole profética da vida
consagrada a dedicação até ao heroísmo.
A Igreja olha com admiração e reconhecimento para tantas pessoas consagradas
que, assistindo os doentes e atribulados, contribuem de modo significativo
para a sua missão. Elas continuam o ministério de misericórdia de Cristo,
que « passou (..) fazendo o bem e curando a todos » (Act 10,38).
Seguindo os passos d'Ele, divino Samaritano, médico das almas e dos corpos,e
a exemplo dos respectivos fundadores e fundadoras, as pessoas consagradas,
que a tal são encaminhadas pelo carisma do próprio Instituto, perseverem
no seu testemunho de amor pelos enfermos, dedicando-se a eles com profunda
compreensão e solidariedade. Nas suas opções, privilegiem os doentes mais
pobres e abandonados, bem como os idosos, os inválidos, os marginalizados,
os doentes em fase terminal, as vítimas da droga e das novas doenças contagiosas.
Encorajem aos enfermos a oferta do próprio sofrimento em comunhão com Cristo
crucificado e glorioso para a salvação de todos;mais ainda, alimentem neles
a consciência de serem, por meio da oração e do testemunho da palavra e
da vida, sujeitos activos de pastoral através do peculiar carisma
da cruz.lém disso, a Igreja lembra aos consagrados e consagradas que faz
parte da sua missão evangelizar os meios hospitalares onde trabalham,
procurando iluminar, através da comunicação dos valores evangélicos, o
modo de viver, sofrer e morrer dos homens do nosso tempo. É compromisso
seu dedicarem-se à humanização da medicina e ao aprofundamento da bioética,
ao serviço do Evangelho da vida. Por isso, promovam sobretudo o respeito
pela pessoa e pela vida humana desde a concepção até ao seu termo natural,
em plena conformidade com o ensinamento moral da Igreja,instituindo também
centros de formação para tal fime colaborando fraternalmente com os organismos
eclesiais da pastoral no campo da saúde.
II. UM TESTEMUNHO PROFÉTICO FACE AOS GRANDES DESAFIOS
O profetismo da vida consagrada
84. O carácter profético da vida consagrada foi posto em grande relevo
pelos Padres sinodais. Apresenta-se como uma forma especial de participação
na função profética de Cristo, comunicada pelo Espírito a todo o Povo
de Deus. De facto, o profetismo é inerente à vida consagrada enquanto tal,
devido ao radicalismo do seguimento de Cristo e da consequente dedicação
à missão que o caracteriza. A função de sinal, que o Concílio Vaticano
II atribui à vida consagrada, expri-me-se no testemunho profético da primazia
que Deus e os valores do Evangelho têm na vida cristã. Em virtude desta
primazia, nada pode ser preferido ao amor pessoal por Cristo e pelos pobres,
nos quais Ele vive.A tradição patrística viu um modelo da vida religiosa
monástica em Elias, profeta audaz e amigo de Deus.Vivia na sua presença
e contemplava no silêncio a sua passagem, intercedia pelo povo e proclamava
com coragem a sua vontade, defendia os direitos de Deus e levantava-se
em defesa dos pobres contra os poderosos do mundo (cf. 1 Rs 18-19;
21). Na história da Igreja, juntamente com outros cristãos, não faltaram
homens e mulheres consagrados a Deus que exerceram, por dom particular
do Espírito, um autêntico ministério profético, falando em nome de Deus
a todos, também aos Pastores da Igreja. A verdadeira profecia nasce
de Deus, da amizade com Ele, da escuta diligente da sua Palavra nas
diversas circunstâncias da história. O profeta sente arder no coração a
paixão pela santidade de Deus e, depois de ter acolhido a palavra no diálogo
da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e com os gestos, fazendo-se
porta-voz de Deus contra o mal e o pecado. O testemunho profético requer
a busca constante e apaixonada da vontade de Deus, uma comunhão eclesial
generosa e imprescindível, o exercício do discernimento espiritual, o amor
pela verdade. O referido testemunho exprime-se ainda mediante a denúncia
do que é contrário à vontade divina e a busca de novos caminhos para actuar
o Evangelho na história, na perspectiva do Reino de Deus.
A sua importância para o mundo contemporâneo
85. No nosso mundo, onde frequentemente parecem ter-se perdido os vestígios
de Deus, torna-se urgente um vigoroso testemunho profético por parte das
pessoas consagradas. Tal testemunho versará, primariamente, sobre a
afirmação da primazia de Deus e dos bens futuros, como transparece
do seguimento e imitação de Cristo casto, pobre e obediente, votado completamente
à glória do Pai e ao amor dos irmãos e irmãs. A própria vida fraterna é
já profecia em acto, numa sociedade que, às vezes sem se dar conta, anela
profundamente por uma fraternidade sem fronteiras. Às pessoas consagradas
é pedido que ofereçam o seu testemunho, com a ousadia do profeta que não
tem medo de arriscar a própria vida.
Uma íntima força persuasiva da profecia vem-lhe da coerência entre
o anúncio e a vida. As pessoas consagradas serão fiéis à sua missão
na Igreja e no mundo, se forem capazes de se reverem continuamente a si
próprias à luz da Palavra de Deus.Poderão assim enriquecer os outros fiéis
com os dons carismáticos recebidos, deixando-se por sua vez interpelar
pelas provocações proféticas vindas dos outros elementos eclesiais. Nesta
permuta de dons, garantida por uma plena sintonia com o Magistério e
a disciplina da Igreja, resplandecerá a acção do Espírito, que « conduz
[a Igreja] à verdade total e unifica-a na comunhão e no ministério, enriquece-a
e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos ».
Uma fidelidade até ao martírio
86. Neste século, como noutras épocas da história, homens e mulheres
consagrados testemunharam Cristo Senhor, com o dom da própria vida.
Contam-se aos milhares aqueles que, escorraçados para as catacumbas pela
perseguição de regimes totalitários ou de grupos violentos, hostilizados
na actividade missionária, na acção em favor dos pobres, na assistência
aos doentes e marginalizados, viveram, e vivem, a sua consagração num sofrimento
prolongado e heróico, chegando muitas vezes até ao derramamento do próprio
sangue, plenamente configurados com o Senhor crucificado. A alguns deles,
a Igreja já reconheceu oficialmente a sua santidade, honrando-os como mártires
de Cristo. Eles iluminam-nos com o seu exemplo, intercedem pela nossa fidelidade,
esperam-nos na glória.
Deseja-se vivamente que a memória de tantas testemunhas da fé perdure
na consciência da Igreja, como incentivo à sua celebração e imitação. Os
Institutos de vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica contribuam
para esta obra, recolhendo os nomes e os testemunhos de todas as
pessoas consagradas que possam ser escritas no Martirológio do século XX.
Os grandes desafios da vida consagrada
87. A missão profética da vida consagrada ve-se provocada por três
desafios principais, lançados à própria Igreja: são desafios de sempre,
colocados sob formas novas e talvez mais radicais pela sociedade contemporânea,
pelo menos nalgumas partes do mundo. Tocam directamente os conselhos evangélicos
de castidade, pobreza e obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular
as pessoas consagradas, a pôr em evidência e testemunhar o seu significado
antropológico profundo. Na verdade, a opção por estes conselhos, longe
de constituir um empobrecimento de valores autenticamente humanos, revela-se
antes como uma transfiguração dos mesmos. Os conselhos evangélicos não
hão-de ser considerados como uma negação dos valores inerentes à sexualidade,
ao legítimo desejo de usufruir de bens materiais, e de decidir autonomamente
sobre si próprio. Estas inclinações, enquanto fundadas na natureza, são
boas em si mesmas; mas a criatura humana, enfraquecida como está pelo pecado
original, corre o risco de as exercitar de modo transgressivo. A profissão
de castidade, pobreza e obediência torna-se uma admoestação a que não se
subestimem as feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando
o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples facto de apontar
Deus como o bem absoluto. Desta forma, aqueles que seguem os conselhos
evangélicos, ao mesmo tempo que procuram a santidade para si mesmos, propõem,
por assim dizer, uma « terapia espiritual » para a humanidade, porque recusam
a idolatria da criatura e tornam de algum modo visível o Deus vivo. A vida
consagrada, especialmente em tempos difíceis, é uma bênção para a vida
humana e para a própria vida eclesial.
O desafio da castidade consagrada
88. A primeira provocação provém de uma cultura hedonista
que separa a sexualidade de qualquer norma moral objectiva, reduzindo-a
frequentemente ao nível de objecto de diversao e consumo, e favorecendo,
com a cumplicidade dos meios de comunicação social, uma espécie de idolatria
do instinto. As consequências disto estão à vista de todos: prevaricações
de todo o género, geradoras de inúmeros sofrimentos psíquicos e morais
para os indivíduos e as famílias. A resposta da vida consagrada
está, antes de mais, na prática alegre da castidade perfeita, como
testemunho da força do amor de Deus na fragilidade da condição humana.
A pessoa consagrada atesta que aquilo que é visto como impossível pela
maioria da gente, torna-se, com a graça do Senhor Jesus, possível e verdadeiramente
libertador. Sim, em Cristo é possível amar a Deus com todo o coração, pondo-O
acima de qualquer outro amor, e amar assim, com a liberdade de Deus, toda
a criatura! Este testemunho é hoje mais necessário que nunca, exactamente
por ser tão pouco compreendido pelo nosso mundo. Ele é oferecido a toda
a gente — aos jovens, aos noivos, aos cônjuges, às famílias cristãs — para
mostrar a todos que a força do amor de Deus pode operar grandes coisas,
mesmo no âmbito das vicissitudes do amor humano. É um testemunho que vai
de encontro também a uma necessidade crescente de transparencia interior
nas relações humanas.
É preciso que a vida consagrada apresente ao mundo de hoje exemplos
de uma castidade vivida por homens e mulheres que demonstram equilíbrio,
domínio de si, espírito de iniciativa, maturidade psicológica e afectiva.Graças
a este testemunho, é oferecido ao amor humano um ponto de referência seguro,
que a pessoa consagrada encontra na contemplação do amor trinitário, que
nos foi revelado em Cristo. Precisamente porque imersa neste mistério,
ela sente-se capaz de um amor radical e universal, que lhe dá a força para
o domínio de si e a disciplina necessária para não cair na escravidão dos
sentidos e dos instintos. A castidade consagrada apresenta-se assim como
experiência de alegria e de liberdade. Iluminada pela fé no Senhor ressuscitado
e pela esperança dos novos céus e da nova terra (cf. Ap 21,1), ela
oferece também preciosos estímulos para a educação da castidade obrigatória
nos outros estados de vida.
O desafio da pobreza
89. Outra provocação vem, hoje, de um materialismo ávido de
riqueza, sem qualquer atenção pelas exigências e sofrimentos dos mais
débeis, nem consideração pelo próprio equilíbrio dos recursos naturais.
A resposta da vida consagrada é dada pela profissão da pobreza
evangélica, vivida sob diversas formas e acompanhada muitas vezes por
um empenhamento activo na promoção da solidariedade e da caridade.
Quantos Institutos se dedicam à educação, à instrução e à formação profissional,
habilitando jovens e menos jovens a tornarem-se protagonistas do seu futuro!
Quantas pessoas consagradas gastam todas as suas energias em favor dos
últimos da terra! Quantas delas se dedicam à formação de futuros educadores
e responsáveis da vida social, capazes de se empenharem, por sua vez, para
eliminar as estruturas opressoras e promover projectos de solidariedade
em benefício dos pobres! Elas lutam para debelar a fome e as suas causas,
animam as actividades do voluntariado e as organizações humanitárias, sensibilizam
organismos públicos e privados para favorecerem uma equitativa distribuição
das ajudas internacionais. As nações devem verdadeiramente muito a estes
dinâmicos agentes da caridade, que, pela sua incansável generosidade, deram
e continuam a dar uma sensível contribuição para a humanização do mundo.
A pobreza evangélica ao serviço dos pobres
90. Na verdade, a pobreza evangélica, ainda antes de ser um serviço
em favor dos pobres, é um valor em si mesma , enquanto faz lembrar
a primeira das bem-aventuranças na imitação de Cristo pobre.Com efeito,
o seu primeiro significado é testemunhar Deus como verdadeira riqueza do
coração humano. Mas, por isso mesmo, ela contesta vigorosamente a idolatria
do dinheiro, propondo-se como apelo profético lançado a uma sociedade que,
em tantos lugares do mundo abastado, se arrisca a perder o sentido da medida
e o próprio significado das coisas. Por isso hoje, mais do que noutras
épocas, a sua solicitação é escutada com favor inclusive por aqueles que,
cientes do carácter limitado dos recursos da terra, pedem o respeito e
a salvaguarda da criação, mediante a redução do consumo, a sobriedade,
a imposição de um freio obrigatório aos próprios desejos.
Deste modo, às pessoas consagradas é pedido um renovado e vigoroso testemunho
evangélico de abnegação e sobriedade, num estilo de vida fraterna inspirada
por critérios de simplicidade e de hospitalidade, como exemplo mesmo para
quantos permanecem indiferentes perante as necessidades do próximo. Tal
testemunho há-de ser naturalmente acompanhado pelo amor preferencial
pelos pobres e manifestar-se-á, de modo especial, na partilha das condições
de vida dos mais desfavorecidos. Diversas são as comunidades que vivem
e operam entre os pobres e marginalizados, abraçam a sua condição e partilham
os seus sofrimentos, problemas e perigos.Exímias páginas de história de
solidariedade evangélica e de dedicação heróica foram escritas por pessoas
consagradas, nestes anos de profundas mudanças e de grandes injustiças,
de esperanças e desilusões, de importantes conquistas mas também de amargas
derrotas. E páginas igualmente significativas foram e continuam a ser ainda
escritas por muitas outras pessoas consagradas, que vivem em plenitude
a sua vida « escondida com Cristo em Deus » (Col 3,3) pela salvação
do mundo, sob o lema da gratuidade, do investimento da própria vida em
causas pouco reconhecidas e menos ainda aplaudidas. Através destas formas
diversas e complementares, a vida consagrada participa da pobreza extrema
abraçada pelo Senhor e vive a sua função específica no mistério salvífico
da sua encarnação e da sua morte redentora.
O desafio da liberdade na obediência
91. A terceira provocação provém daquelas concepções da liberdade
que subtraem esta fundamental prerrogativa humana à sua relação constitutiva
com a verdade e com a norma moral.Na realidade, a cultura da liberdade
é um valor autêntico, ligado intimamente ao respeito da pessoa humana.
Mas quem não vê as consequências monstruosas de injustiça e mesmo de violência,
geradas na vida dos indivíduos e dos povos pelo uso deturpado da liberdade?
Uma resposta eficaz a tal situação é a obediência que caracteriza
a vida consagrada. Esta apresenta de modo particularmente vivo a obediência
de Cristo ao Pai e, partindo exactamente do seu mistério, testemunha que
não há contradição entre obediência e liberdade . Com efeito, o
comportamento do Filho desvenda o mistério da liberdade humana, como um
caminho de obediência à vontade do Pai, e o mistério da obediência, como
um caminho de progressiva conquista da verdadeira liberdade. É precisamente
este mistério que a pessoa consagrada quer exprimir com este voto concreto.
Com ele, deseja dar testemunho da sua consciência de um relacionamento
de filiação, em virtude do qual assume a vontade paterna como alimento
diário (cf. Jo 4,34), como sua rocha, alegria, escudo e baluarte
(cf. Sal 1817,3). Demonstra assim que cresce na verdade plena de
si mesma, quando permanece ligada à fonte da sua existência, e deste modo
oferece uma mensagem repleta de consolação: « Gozam de grande paz os que
amam a vossa lei, para eles não existe perturbação » (Sal 119118,165).
Cumprir juntos a vontade do Pai
92. Este testemunho das pessoas consagradas assume, na vida religiosa,
um significado particular também por causa da dimensão comunitária
que a caracteriza. A vida fraterna é o lugar privilegiado para discernir
e acolher a vontade de Deus e caminhar juntos em união de mente e coração.
A obediência, vivificada pela caridade, unifica os membros de um Instituto
no mesmo testemunho e na mesma missão, embora na diversidade dos dons e
no respeito da individualidade própria de cada um. Na fraternidade animada
pelo Espírito Santo, cada qual estabelece com o outro um diálogo precioso
para descobrir a vontade do Pai, e todos reconhecem em quem preside a expressão
da paternidade divina e o exercício da autoridade recebida de Deus ao serviço
do discernimento e da comunhão.De modo particular, a vida de comunidade
é o sinal, para a Igreja e para a sociedade, daquele laço que provém de
um chamamento igual e da vontade comum de lhe obedecer, para além de qualquer
diversidade de raça e de origem, de língua e de cultura. Contra o espírito
de discórdia e de divisão, a autoridade e a obediência resplandecem como
um sinal daquela única paternidade que vem de Deus, da fraternidade nascida
do Espírito, da liberdade interior de quem se fia de Deus, não obstante
os limites humanos daqueles que O representam. Através desta obediência,
por alguns assumida como regra de vida, é experimentada e anunciada, em
benefício de todos, a bem-aventurança prometida por Jesus a quantos « escutam
a Palavra de Deus e a põem em prática » (Lc 11,28). Além disso,
quem obedece tem a garantia de estar verdadeiramente em missão no seguimento
do Senhor, e não ao sabor dos desejos pessoais ou das próprias aspirações.
E, assim, é possível considerar-se guiado pelo Espírito do Senhor e sustentado,
mesmo no meio de grandes dificuldades, pela sua mão segura (cf. Act
20,22s).
Um compromisso decidido de vida espiritual
93. Uma das preocupações mais vezes manifestada no Sínodo foi a de uma
vida consagrada que se alimente nas fontes de uma espiritualidade sólida
e profunda. Trata-se de uma exigência prioritária, inscrita na própria
essência da vida consagrada, uma vez que, como qualquer outro baptizado,
antes por motivos ainda mais prementes, quem professa os conselhos evangélicos
é obrigado a tender com todas as suas forças à perfeição da caridade.Este
é um compromisso intensamente lembrado pelos inumeráveis exemplos de santos
fundadores e fundadoras e de tantas pessoas consagradas, que testemunharam
a sua fidelidade a Cristo até ao martírio.
Tender à santidade: eis em síntese o programa de cada vida consagrada,
na perspectiva nomeadamente da sua renovação às portas do terceiro milénio.
O ponto de partida do programa está no deixar tudo por Cristo (cf. Mt
4,18-22; 19,21.27; Lc 5,1), preferindo a sua Pessoa a tudo mais,
para poder participar plenamente no mistério pascal.Bem o compreendera
S. Paulo que exclamava: « Tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento
de Cristo Jesus (...). Assim poderei conhecê-Lo, a Ele, e conhecer o poder
da sua ressurreição » (Fil 3,8.10). É a estrada indicada desde o
início pelos Apóstolos, como recorda a tradição cristã tanto do Oriente
como do Ocidente: « Aqueles que actualmente seguem Jesus, abandonando tudo
por Ele, evocam os Apóstolos que, respondendo ao seu convite, renunciaram
a tudo o resto. Por isso, tradicionalmente é costume designá-la como apostolica
vivendi forma ».A tradição pôs também em evidência, na vida consagrada,
a dimensão da sua peculiar aliança com Deus, melhor, da aliança esponsal
com Cristo, de que foi mestre S. Paulo, com o seu exemplo (cf. 1 Cor
7,7) e com o seu ensinamento, proposto sob a guia do Espírito (cf. 1
Cor 7,40). Podemos dizer que a vida espiritual, considerada como vida
em Cristo, vida segundo o Espírito, se apresenta como um itinerário de
crescente fidelidade, onde a pessoa consagrada é guiada pelo Espírito e
por Ele configurada com Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço
na Igreja.Todos estes elementos, inseridos nas várias formas de vida consagrada,
geram uma espiritualidade peculiar, isto é, um projecto concreto
de relacionamento com Deus e com o meio circundante, caracterizado por
modulações espirituais particulares e opções de acção que colocam em evidência
e repropõem ora um aspecto ora outro do único mistério de Cristo. Quando
a Igreja reconhece uma forma de vida consagrada ou um Instituto, garante
que, no seu carisma espiritual e apostólico, se encontram todos os requisitos
objectivos para alcançar a perfeição evangélica pessoal e comunitária.Portanto,
a vida espiritual deve ocupar o primeiro lugar no programa das Famílias
de vida consagrada, de tal modo que cada Instituto e cada comunidade se
apresentem como escolas de verdadeira espiritualidade evangélica. Desta
opção prioritária, desenvolvida no compromisso pessoal e comunitário, depende
a fecundidade apostólica, a generosidade no amor pelos pobres, a própria
atracção vocacional sobre as novas gerações. É precisamente a qualidade
espiritual da vida consagrada que pode interpelar as pessoas do nosso
tempo, também elas sequiosas de valores infinitos, transformando-se assim
num testemunho fascinante.
À escuta da Palavra de Deus
94. A Palavra de Deus é a primeira fonte de toda a vida espiritual cristã.
Ela sustenta um relacionamento pessoal com o Deus vivo e com a sua vontade
salvífica e santificadora. Por isso é que a lectio divina, desde
o nascimento dos Institutos de vida consagrada, de modo particular no monaquismo,
foi tida na mais alta consideração. Por meio dela, a Palavra de Deus é
transferida para a vida, projectando sobre esta a luz da sapiência, que
é dom do Espírito. Embora toda a Sagrada Escritura seja « útil para ensinar
» (2 Tm 3,16) e « fonte pura e perene da vida espiritual »,merecem
particular veneração os escritos do Novo Testamento, sobretudo os Evangelhos,
que são « o coração de todas as Escrituras ».Por isso, será de grande proveito
para as pessoas consagradas fazerem objecto de assídua meditação os textos
evangélicos e os outros escritos neo-testamentários, que ilustram as palavras
e os exemplos de Cristo e da Virgem Maria, e a apostolica vivendi forma.
A eles se referiram constantemente os fundadores e fundadoras, no acolhimento
da vocação e no discernimento do carisma e da missão do próprio Instituto.
De grande valor é a meditação comunitária da Bíblia. Realizada
na medida das possibilidades e circunstâncias da vida de comunidade, ela
leva à partilha feliz das riquezas encontradas na Palavra de Deus, mercê
das quais irmãos e irmãs crescem juntos e se ajudam a progredir na vida
espiritual. Convém mesmo que tal prática seja proposta aos outros membros
do Povo de Deus, sacerdotes e leigos, promovendo, nos moldes adequados
ao próprio carisma, escolas de oração, de espiritualidade e de leitura
orante da Escritura, na qual Deus « fala aos homens como amigos (cf. Ex
33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Bar 3,38), para
os convidar e admitir à comunhão com Ele ».omo ensina a tradição espiritual,
da meditação da Palavra de Deus e, em particular, dos mistérios de Cristo
nasce a intensidade da contemplação e o ardor da acção apostólica. Quer
na vida religiosa contemplativa quer na apostólica, sempre foram homens
e mulheres de oração que realizaram, como intérpretes e executores da vontade
de Deus, grandes obras. Da sua convivência com a Palavra de Deus, obtiveram
a luz necessária para aquele discernimento individual e comunitário que
os ajudou a procurar, nos sinais dos tempos, os caminhos do Senhor. Adquiriram
assim uma espécie de instinto sobrenatural, que lhes permitiu não
se conformarem com a mentalidade deste mundo, mas renovarem a própria mente
para poder discernir a vontade de Deus, aquilo que é bom, o que Lhe é agradável
e perfeito (cf. Rm 12,2).
Em comunhão com Cristo
95. Meio fundamental para alimentar eficazmente a comunhão com o Senhor
é, sem dúvida, a liturgia sagrada , de modo especial a Celebração
Eucarística e a Liturgia das Horas.
Em primeiro lugar, a Eucaristia, onde « está contido todo o tesouro
espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão
vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora
pelo Espírito Santo ».Coração da vida eclesial, a Eucaristia é-o também
da vida consagrada. A pessoa chamada, pela profissão dos conselhos evangélicos,
a escolher Cristo como sentido único da sua existência, como poderia não
desejar instaurar com Ele uma comunhão cada vez mais profunda por meio
da participação diária no Sacramento que O torna presente, no sacrifício
que actualiza o seu dom de amor do Gólgota, no banquete que alimenta e
sustenta o Povo de Deus peregrino? A Eucaristia, por sua natureza, está
no centro da vida consagrada, pessoal e comunitária. É viático quotidiano
e fonte da espiritualidade do indivíduo e do Instituto. Nela, cada consagrado
é chamado a viver o mistério pascal de Cristo, unindo-se com Ele na oferta
da própria vida ao Pai, por meio do Espírito. A adoração assídua e prolongada
de Cristo presente na Eucaristia permite, de algum modo, reviver a experiência
de Pedro na Transfiguração: « É bom estarmos aqui! ». E na celebração do
mistério do Corpo e do Sangue do Senhor se consolida e incrementa a unidade
e a caridade daqueles que consagraram a Deus a sua existência.A par da
Eucaristia e em íntima relação com ela, a Liturgia das Horas, celebrada
comunitária ou pessoalmente segundo a índole de cada Instituto, em comunhão
com a oração da Igreja, exprime a vocação ao louvor e à intercessão, que
é própria das pessoas consagradas.Também tem uma relação profunda com a
Eucaristia o esforço de conversão contínua e de necessária purificação
que as pessoas consagradas realizam no sacramento da Reconciliação.
Por meio do encontro frequente com a misericórdia de Deus, elas purificam
e renovam o seu coração e, através do humilde reconhecimento dos pecados,
tornam transparente a própria ligação com Ele; a experiência feliz do perdão
sacramental, no caminho partilhado com os irmãos e as irmãs, torna o coração
dócil e estimula o empenho por uma crescente fidelidade.Serve de grande
apoio para progredir no caminho evangélico, especialmente no período de
formação e em certos momentos da vida, o recurso confiante e humilde à
direcção espiritual, graças à qual a pessoa é ajudada a responder
às moções do Espírito com generosidade e a orientar-se decididamente para
a santidade.Exorto, enfim, todas as pessoas consagradas, segundo as próprias
tradições, a renovarem diariamente a sua união espiritual com a Virgem
Maria, repassando com Ela os mistérios do Filho, particularmente pela oração
do Terço.
III. ALGUNS AREÓPAGOS DA MISSÃO
Presença no mundo da educação
96. A Igreja sempre sentiu que a educação é um elemento essencial
da sua missão . O seu Mestre interior é o Espírito Santo, que penetra
as profundidades mais reconditas do coração de cada homem e conhece o dinamismo
secreto da história. Toda a Igreja é animada pelo Espírito e com Ele desempenha
a sua acção educativa. No âmbito da Igreja, todavia, uma tarefa específica
neste campo compete às pessoas consagradas, que são chamadas a introduzir
no horizonte educacional o testemunho radical dos bens do Reino, propostos
a todo o homem enquanto aguarda o encontro definitivo com o Senhor da história.
Pela sua especial consagração, pela peculiar experiência dos dons do Espírito,
pela escuta assídua da Palavra e o exercício do discernimento, pelo rico
património de tradições educativas acumulado ao longo da história pelo
próprio Instituto, pelo conhecimento profundo da verdade espiritual (cf.
Ef 1,17), as pessoas consagradas são capazes de desenvolver uma
acção educativa particularmente eficaz, oferecendo uma contribuição específica
para as iniciativas dos outros educadores e educadoras.
Dotadas deste carisma, elas podem dar vida a ambientes educativos permeados
pelo espírito evangélico de liberdade e de caridade, onde os jovens sejam
ajudados a crescer em humanidade, sob a guia do Espírito.Deste modo, a
comunidade educativa torna-se experiência de comunhão e lugar de graça,
onde o projecto pedagógico contribui para unir, numa síntese harmoniosa,
o divino e o humano, o Evangelho e a cultura, a fé e a vida.A história
da Igreja, desde a antiguidade até aos nossos dias, é rica de exemplos
admiráveis de pessoas consagradas que viveram e vivem a tensão para a santidade
através do empenho pedagógico, propondo contemporaneamente a santidade
como meta educativa. De facto, muitas delas, educando, realizaram a perfeição
da caridade. Este é um dos dons mais preciosos que as pessoas consagradas
podem oferecer também hoje à juventude, fazendo-a objecto de um serviço
pedagógico rico de amor, segundo a sábia advertência de S. João Bosco:
« Não basta aos jovens serem amados, precisam também de reconhecer que
o são ».
Necessidade de renovado empenho no campo educativo
97. Os consagrados e consagradas manifestem, com delicado respeito e
também com coragem missionária, que a fé em Jesus Cristo ilumina todo o
campo da educação, não prejudicando mas antes corroborando e elevando os
próprios valores humanos. Deste modo, tornam-se testemunhas e instrumentos
do poder da Encarnação e da força do Espírito. Esta sua tarefa é uma das
expressões mais significativas daquela maternidade que a Igreja, à imagem
de Maria, realiza para com todos os seus filhos.Por isso, é que o Sínodo
exortou instantemente as pessoas consagradas a retomarem com novo empenho,
nos lugares onde for possível, a missão da educação com escolas de todo
o tipo e grau, Universidades e Institutos Superiores.Assumindo esta indicação
sinodal, convido calorosamente os membros dos Institutos dedicados à educação
a serem fiéis ao seu carisma originário e às suas tradições, cientes de
que o amor preferencial pelos pobres encontra uma das suas aplicações particulares
na escolha dos meios mais aptos para libertar os homens daquela grave forma
de miséria que é a falta de formação cultural e religiosa.Dada a importância
que as Universidades e as Faculdades católicas e eclesiásticas assumem
no campo da educação e da evangelização, os Institutos que possuem a sua
direcção estejam cientes da sua responsabilidade, fazendo com que nelas,
ao mesmo tempo que se dialoga activamente com o contexto cultural actual,
se conserve a peculiar índole católica, na plena fidelidade ao Magistério
da Igreja. Além disso, conforme as circunstâncias, os membros destes Institutos
e Sociedades mostrem-se prontos a entrar nas estruturas educativas estatais.
A este tipo de intervenção, são particularmente chamados, devido à sua
específica vocação, os membros dos Institutos seculares.
Evangelizar a cultura
98. Os Institutos de vida consagrada tiveram sempre uma grande influência
na formação e na transmissão da cultura. Aconteceu isto na Idade Média,
quando os mosteiros se tornaram lugares de acesso às riquezas culturais
do passado e de elaboração de uma nova cultura humanista e cristã. Isso
verificou-se todas as vezes que a luz do Evangelho alcançou novos povos.
Muitas pessoas consagradas promoveram a cultura, e frequentemente examinaram
e defenderam as culturas autóctones. A necessidade de contribuir para a
promoção da cultura, para o diálogo entre a cultura e a fé, é hoje sentida,
na Igreja, de modo absolutamente particular.Os consagrados não podem deixar
de se sentirem interpelados por esta urgência. Também eles são chamados,
no anúncio da Palavra de Deus, a individuar métodos mais apropriados às
exigências dos diversos grupos humanos e dos vários âmbitos profissionais,
para que a luz de Cristo penetre em cada sector humano e o fermento da
salvação transforme a partir de dentro a vida social, favorecendo a consolidação
de uma cultura permeada pelos valores evangélicos.Também através de tal
empenho, no limiar do terceiro milénio cristão, a vida consagrada poderá
renovar a sua conformidade com os desígnios de Deus, que vem ao encontro
de todas as pessoas que andam, consciente ou inconscientemente, por assim
dizer, tacteando à procura da Verdade e da Vida (cf. Act 17,27).Mas
para além do serviço prestado aos outros, também no seio da vida consagrada
há necessidade de um renovado amor pelo empenho cultural , de dedicação
ao estudo como meio para a formação integral e como percurso ascético,
extraordinariamente actual, frente à diversidade das culturas. A diminuição
do empenho pelo estudo pode ter pesadas consequências mesmo no apostolado,
gerando um sentido de marginalização e de inferioridade ou favorecendo
superficialidade e imprudência nas iniciativas.Na diversidade dos carismas
e das reais possibilidades dos diversos Institutos, o empenho do estudo
não se pode reduzir à formação inicial ou à consecução de títulos académicos
e de habilitações profissionais. Mas é sobretudo expressão do desejo insaciável
de conhecer mais profundamente a Deus, abismo de luz e fonte de toda a
verdade humana. Por isso, tal empenho não isola a pessoa consagrada num
intelectualismo abstracto, nem a fecha nas espirais de um narcisismo sufocante;
pelo contrário, é incitamento ao diálogo e à partilha, é formação da capacidade
de discernimento, é estímulo à contemplação e à oração, na busca incessante
de Deus e da sua acção na complexa realidade do mundo contemporâneo.A pessoa
consagrada, deixando-se transformar pelo Espírito Santo, torna-se capaz
de ampliar os horizontes dos limitados desejos humanos e, ao mesmo tempo,
captar as dimensões profundas de cada indivíduo e sua história por detrás
dos aspectos mais vistosos mas tantas vezes marginais. Inumeráveis são
hoje os campos donde emergem desafios nas várias culturas: âmbitos novos
ou já tradicionalmente palmilhados pela vida consagrada, com os quais é
urgente manter fecundas relações, numa atitude de prudente sentido crítico
mas também de atenção e confiança para com aquele que enfrenta as dificuldades
típicas do trabalho intelectual, especialmente quando, em presença de problemas
inéditos do nosso tempo, é preciso tentar análises e sínteses novas.Uma
evangelização séria e válida dos novos âmbitos, onde se elabora e transmite
a cultura, não pode ser operada sem uma activa colaboração com os leigos
lá empenhados.
Presença no mundo da comunicação social
99. Assim como no passado as pessoas consagradas souberam, com os meios
mais diversos, pôr-se ao serviço da evangelização, enfrentando genialmente
as dificuldades, também hoje são interpeladas novamente pela exigência
de testemunhar o Evangelho, através dos meios de comunicação social. Estes
meios alcançaram uma capacidade de irradiação mundial, graças a tecnologias
potentíssimas capazes de atingir qualquer ângulo da terra. As pessoas consagradas,
sobretudo quando operam neste campo por carisma institucional, devem adquirir
um conhecimento sério da linguagem própria destes meios, para falar eficazmente
de Cristo ao homem de hoje, interpretando « as alegrias e as esperanças,
as tristezas e as angústias »dele, e contribuir assim para a edificação
de uma sociedade onde todos se sintam irmãos e irmãs a caminho de Deus.
Impõe-se, todavia, estar vigilantes contra o uso deformado destes meios,
devido ao poder extraordinário de persuasão de que dispõem. Não se devem
ignorar os problemas que daí podem derivar para a própria vida consagrada,
mas sim enfrentá-los com um lúcido discernimento.A resposta da Igreja é
sobretudo de ordem educativa: visa promover um comportamento de justa compreensão
dos dinamismos subjacentes, uma cuidadosa avaliação ética dos programas,
e ainda a adopção de hábitos sadios no seu desfrutamento.Neste âmbito educativo
tendente a formar receptores sensatos e comunicadores especializados, as
pessoas consagradas são chamadas a oferecer o seu particular testemunho
sobre a relatividade de todas as realidades visíveis, ajudando os irmãos
a valorizá-las segundo o desígnio de Deus, mas também a libertarem-se da
dependência obsessiva da figura deste mundo que passa (cf. 1 Cor
7,31).Todo o esforço neste novo e importante campo apostólico há-de ser
encorajado, para que o Evangelho de Cristo ressoe também através destes
meios modernos. Os vários Institutos estejam prontos a colaborar, com a
contribuição de forças — meios e pessoas —, para realizar projectos comuns
nos vários sectores da comunicação social. Além disso, quando surgirem
oportunidades pastorais, as pessoas consagradas, especialmente os membros
dos Institutos seculares, prestem de boa vontade o seu serviço para a formação
religiosa dos responsáveis e operadores da comunicação social, pública
ou privada, a fim de que, por um lado, se evitem os danos provocados pelo
uso viciado de tais meios e, por outro, seja promovida uma qualidade superior
das transmissões, com mensagens respeitadoras da lei moral e ricas de valores
humanos e cristãos.
IV. EMPENHADOS NO DIÁLOGO COM TODOS
Ao serviço da unidade dos cristãos
100. A oração dirigida por Cristo ao Pai, antes da Paixão, para que
os seus discípulos permanecessem na unidade (cf. Jo 17,21-23), perdura
na oração e na acção da Igreja. Como poderiam deixar de se sentir implicados
nela os chamados à vida consagrada? A ferida da desunião, ainda existente
entre os crentes em Cristo, e a urgência de rezar e trabalhar para promover
a unidade de todos os cristãos foram particularmente sentidas no Sínodo.
A sensibilidade ecuménica dos consagrados e consagradas é reavivada também
pela certeza de que noutras Igrejas e Comunidades eclesiais se conserva
e floresce o monaquismo, como no caso das Igrejas orientais, ou se renova
a profissão dos conselhos evangélicos, como na Comunhão anglicana e nas
Comunidades da Reforma.
O Sínodo pôs em evidência o laço profundo da vida consagrada com a causa
do ecumenismo e a urgência de um testemunho mais intenso neste campo. Na
verdade, se a alma do ecumenismo é a oração e a conversão,não há dúvida
que os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica
têm uma particular obrigação de cultivar este empenho. Por isso, é urgente
abrir, na vida das pessoas consagradas, espaços maiores à oração ecuménica
e a um testemunho autenticamente evangélico, para que se possam abater,
com a força do Espírito Santo, os muros das divisões e dos preconceitos
entre os cristãos.
Formas de diálogo ecuménico
101. A partilha da lectio divina na busca da verdade, a participação
na oração comum, na qual o Senhor garante a sua presença (cf. Mt
18,20), o diálogo da amizade e da caridade que faz sentir como é agradável
viverem unidos os irmãos (cf. Sal 133132), a hospitalidade cordial
praticada para com os irmãos e irmãs das diversas confissões cristãs, o
conhecimento recíproco e a permuta dos dons, a colaboração em iniciativas
comuns de serviço e de testemunho, são diversas formas de diálogo ecuménico,
expressões agradáveis ao Pai comum e sinais da vontade de caminhar juntos
para a unidade perfeita, pela senda da verdade e do amor.Igualmente o conhecimento
da história, doutrina, liturgia, actividade caritativa e apostólica dos
outros cristãos, não deixará de ser útil para uma acção ecuménica cada
vez mais incisiva.Quero encorajar aqueles Institutos que, por índole original
ou por vocação sucessiva, se dedicam à promoção da unidade dos cristãos
e, para a consecução da mesma, cultivam iniciativas de estudo e de acção
concreta. Na realidade, nenhum Instituto de vida consagrada se deve sentir
dispensado de trabalhar por esta causa. Dirijo ainda o meu pensamento às
Igrejas orientais católicas, almejando que elas possam, nomeadamente através
do monaquismo masculino e feminino, cuja graça do florescimento há-de ser
implorada constantemente, colaborar para a unidade com as Igrejas ortodoxas,
mercê do diálogo da caridade e da partilha da espiritualidade comum, património
da Igreja indivisa do primeiro milénio.Confio de modo particular o ecumenismo
espiritual da oração, da conversão do coração, e da caridade aos mosteiros
de vida contemplativa. Com esta finalidade, encorajo a sua presença nos
lugares onde vivem comunidades cristãs de várias confissões, a fim de que
a sua dedicação total à « única coisa necessária » (cf. Lc 10,42),
ao culto de Deus e à intercessão pela salvação do mundo, juntamente com
o seu testemunho de vida evangélica, segundo os próprios carismas, seja
para todos um estímulo a viverem, à imagem da Trindade, naquela unidade
que Jesus quis e pediu ao Pai para todos os seus discípulos.
O diálogo inter-religioso
102. Uma vez que « o diálogo inter-religioso faz parte da missão evangelizadora
da Igreja »,os Institutos de vida consagrada não podem eximir-se de se
empenharem também neste campo, cada qual segundo o próprio carisma e seguindo
as indicações da autoridade eclesiástica. A primeira forma de evangelização
junto dos irmãos e irmãs de outra religião há-de ser o próprio testemunho
de uma vida pobre, humilde e casta, permeada de amor fraterno por todos.
Ao mesmo tempo, a liberdade de espírito que é própria da vida consagrada
favorecerá aquele « diálogo da vida »,no qual se realiza um modelo fundamental
de missão e anúncio do Evangelho de Cristo. Para propiciar o conhecimento
mútuo, o respeito e a caridade recíproca, os Institutos religiosos poderão
ainda cultivar oportunas formas de diálogo, caracterizadas por amizade
cordial e recíproca sinceridade, com os ambientes monásticos de outras
religiões.
Outro âmbito de colaboração com homens e mulheres de tradição religiosa
diversa é a solicitude pela vida humana, que se estende da compaixão
pelo sofrimento físico e espiritual até ao compromisso pela justiça, a
paz e a salvaguarda da criação. Nestes sectores, hão-de ser sobretudo os
Institutos de vida activa a procurarem o consenso com os membros de outras
religiões, naquele « diálogo das obras »,que prepara o caminho para uma
partilha mais profunda.Um campo especial de operoso encontro com pessoas
de outras tradições religiosas é a procura e promoção da dignidade da
mulher. Na perspectiva da igualdade e da recta reciprocidade entre
o homem e a mulher, um precioso serviço pode ser prestado principalmente
pelas mulheres consagradas.stes e outros compromissos das pessoas consagradas
ao serviço do diálogo inter-religioso exigem uma preparação adequada na
formação inicial e na formação permanente, como também no estudo e na pesquisa,uma
vez que, neste sector não fácil, é preciso um conhecimento profundo do
cristianismo e das outras religiões, acompanhado de fé sólida e de maturidade
espiritual e humana.
Uma resposta de espiritualidade à busca do sagrado e à nostalgia
de Deus
103. Aqueles que abraçam a vida consagrada, homens e mulheres, colocam-se,
pela natureza mesma da sua opção, como interlocutores privilegiados daquela
procura de Deus que desde sempre inquieta o coração do homem e o conduz
a múltiplas formas de ascese e de espiritualidade. Hoje, em muitas regiões,
uma tal procura emerge insistente como resposta a culturas que tendem claramente
a marginalizar, se não mesmo a negar, a dimensão religiosa da existência.
As pessoas consagradas, vivendo com coerência e em plenitude os compromissos
livremente assumidos, podem oferecer uma resposta aos anseios dos seus
contemporâneos, que por eles são descartados com soluções a maior parte
das vezes ilusórias e frequentemente negadoras da encarnação salvadora
de Cristo (cf. 1 Jo 4,2-3), como as que são propostas, por exemplo,
pelas seitas. Praticando uma ascese pessoal e comunitária que purifica
e transfigura toda a sua existência, as pessoas consagradas testemunham,
contra a tentação do egocentrismo e da sensualidade, as características
da busca autêntica de Deus, e chamam a atenção para não a confundir com
uma subtil busca de si próprios ou com a fuga para a gnose. Cada pessoa
consagrada assume a obrigação de cultivar o homem interior, que não se
alheia da história nem se fecha sobre si mesmo. Vivendo na escuta obediente
da Palavra, de que a Igreja é guardiã e intérprete, ela aponta Cristo sumamente
amado e o Mistério Trinitário como o objecto do anseio profundo do coração
humano e a meta de todo o itinerário religioso sinceramente aberto à transcendência.Por
isso, as pessoas consagradas têm o dever de oferecer generosamente acolhimento
e acompanhamento espiritual a quantos, movidos pela sede de Deus e desejosos
de viverem as exigências profundas da sua fé, se lhes dirigem.
CONCLUSÃO
A superabundância da gratuidade
104. Diversos são aqueles que hoje se interrogam perplexos: Porquê a
vida consagrada? Porquê abraçar este género de vida, quando existem tantas
urgências, no âmbito da assistência e mesmo da evangelização, às quais
se pode responder igualmente sem assumir os compromissos peculiares da
vida consagrada? Porventura não é a vida consagrada uma espécie de « desperdício
» de energias humanas que podiam ser utilizadas, segundo critérios de eficiência,
para um bem maior da humanidade e da Igreja?
Estas perguntas são mais frequentes na nossa época, porque incentivadas
por uma cultura utilitarista e tecnocrática que tende a avaliar a importância
das coisas e também das pessoas sobre a base da sua « funcionalidade »
imediata. Mas sempre existiram interrogações semelhantes, como o demonstra
eloquentemente o episódio evangélico da unção de Betânia: « Maria, tomando
uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus,
e enxugou-os com os cabelos; e a casa encheu-se com o cheiro do perfume
» (Jo 12,3). A Judas que, tomando como pretexto as necessidades
dos pobres, se lamentava por tão grande desperdício, Jesus respondeu: «
Deixa-a fazer! » (cf. Jo 12,7).Esta é a resposta, sempre válida,
à pergunta que tantos, mesmo em boa fé, colocam acerca da actualidade da
vida consagrada: não se poderia empregar a própria existência, de um modo
mais eficiente e racional, para a melhoria da sociedade? Eis a resposta
de Jesus: « Deixa-a fazer »!A quem foi concedido o dom de seguir mais de
perto o Senhor Jesus, é óbvio que Ele possa e deva ser amado com coração
indiviso, que se Lhe possa dedicar a vida toda e não apenas alguns gestos,
alguns momentos ou algumas actividades. O perfume de alto preço, derramado
como puro acto de amor e, por conseguinte, fora de qualquer consideração
« utilitarista », é sinal de uma superabundância de gratuidade,
como a que transparece numa vida gasta a amar e a servir o Senhor, a dedicar-se
à sua Pessoa e ao seu Corpo Místico. Mas é desta vida « derramada » sem
reservas que se difunde um perfume que enche toda a casa. A casa de Deus,
a Igreja, é adornada e enriquecida hoje, não menos que outrora, pela presença
da vida consagrada.Aquilo que pode parecer aos olhos dos homens um desperdício,
para a pessoa fascinada no segredo do coração pela beleza e bondade do
Senhor é uma óbvia resposta de amor, é gratidão e regozijo por ter sida
admitida de modo absolutamente especial ao conhecimento do Filho e na partilha
da sua missão divina no mundo.« Se um filho de Deus conhecesse e saboreasse
o amor divino, Deus incriado, Deus encarnado, Deus apaixonado, que é o
sumo bem, dar-Lhe-ia tudo, livrar-se-ia não só das outras criaturas, mas
até de si próprio, e, com tudo o que é, amaria este Deus de amor até se
transformar todo no Deus-Homem, sumamente Amado ».
A vida consagrada ao serviço do Reino de Deus
105. « Que seria do mundo se não existissem os religiosos? »Deixando
de lado as avaliações superficiais de funcionalismo, sabemos que a vida
consagrada é importante precisamente por ser superabundância de gratuidade
e de amor, o que se torna ainda mais verdadeiro num mundo que se arrisca
a ficar sufocado na vertigem do efémero. « Sem este sinal concreto, a caridade
que anima a Igreja inteira correria o risco de refrear-se, o paradoxo salvífico
do Evangelho de atenuar-se, o “sal” da fé de diluir-se num mundo em fase
de secularização ».A vida da Igreja e a própria sociedade têm necessidade
de pessoas capazes de se dedicarem totalmente a Deus e aos outros por amor
de Deus.
A Igreja não pode absolutamente renunciar à vida consagrada, porque
esta exprime de modo eloquente a sua íntima essência « esponsal
». Nela encontra novo impulso e vigor o anúncio do Evangelho a todo o mundo.
Na verdade, há necessidade de quem apresente o rosto paterno de Deus e
o rosto materno da Igreja, de quem ponha em jogo a própria vida, para que
outros tenham vida e esperança. A Igreja precisa de pessoas consagradas
que, ainda antes de se empenharem nesta ou naquela causa nobre, se deixem
transformar pela graça de Deus e se conformem plenamente com o Evangelho.A
Igreja inteira encontra nas suas mãos este grande dom e, numa atitude de
gratidão, dedica-se a promovê-lo com o seu apreço, a oração, o convite
explícito a acolhê-lo. É importante que Bispos, presbíteros e diáconos,
convencidos da excelência evangélica deste género de vida, trabalhem para
descobrir e amparar os gérmens de vocação, com a pregação, o discernimento
e um sábio acompanhamento espiritual. A todos os fiéis, pede-se uma oração
constante pelas pessoas consagradas, para que o seu fervor e a sua capacidade
de amar aumentem continuamente, contribuindo para difundir, na sociedade
actual, o bom perfume de Cristo (cf. 2 Cor 2,15). Toda a Comunidade
cristã — pastores, leigos e pessoas consagradas — é responsável pela vida
consagrada, pelo acolhimento e amparo prestado às novas vocações.
À juventude
106. A vós, jovens, digo: se sentirdes o chamamento do Senhor, não o
recuseis! Entrai, antes, corajosamente nas grandes correntes de santidade,
que foram iniciadas por santas e santos insignes no seguimento de Cristo.
Cultivai os anseios típicos da vossa idade, mas aderi prontamente ao projecto
de Deus sobre vós, se Ele vos convida a procurar a santidade na vida consagrada.
Admirai todas as obras de Deus no mundo, mas sabei fixar o olhar sobre
aquelas realidades que jamais terão ocaso.
O terceiro milénio aguarda a contribuição da fé e da inventiva de uma
multidão de jovens consagrados, para que o mundo se torne mais sereno e
capaz de acolher a Deus e, n'Ele, todos os seus filhos e filhas.
Às famílias
107. Dirijo-me a vós, famílias cristãs. Vós, pais, dai graças a Deus,
se Ele chamou algum dos vossos filhos à vida consagrada. Deve ser considerada
— como sempre o foi — uma grande honra que o Senhor pouse o olhar sobre
uma família e escolha algum dos seus membros, convidando-o a abraçar o
caminho dos conselhos evangélicos! Cultivai o desejo de dar ao Senhor algum
dos vossos filhos para o crescimento do amor de Deus no mundo. Que fruto
do amor conjugal poderia ser mais belo do que este?
Importa recordar que, se os pais não vivem os valores evangélicos, dificilmente
o jovem e a jovem poderão perceber o chamamento, compreender a necessidade
dos sacrifícios a enfrentar, apreciar a beleza da meta a atingir. De facto,
é na família que os jovens fazem as primeiras experiências dos valores
evangélicos, do amor que se dá a Deus e aos outros. Também é necessário
que eles sejam educados para o uso responsável da sua liberdade, para estarem
dispostos a viver, segundo a própria vocação, das mais altas realidades
espirituais.Rezo por vós, famílias cristãs, para que, unidas ao Senhor
pela oração e pela vida sacramental, sejais fecundos viveiros de vocações.
Aos homens e mulheres de boa vontade
108. A todos os homens e mulheres que quiserem ouvir a minha voz, desejo
fazer chegar o convite a procurarem os caminhos que conduzem ao Deus vivo
e verdadeiro, mesmo nos itinerários traçados pela vida consagrada. As pessoas
consagradas testemunham que « aquele que segue Cristo, o homem perfeito,
torna-se mais homem ».Quantas delas se debruçaram, e continuam a fazê-lo,
como bons samaritanos, sobre as inúmeras feridas dos irmãos e irmãs que
encontram pela sua estrada!
Olhai para estas pessoas fascinadas por Cristo, que, no seu autodomínio
sustentado pela graça e pelo amor de Deus, apontam o remédio contra a avidez
do ter, do prazer, e do poder. Não esqueçais os carismas que plasmaram
maravilhosos « perscrutadores de Deus » e benfeitores da humanidade, que
abriram caminhos seguros para quantos procuram Deus de coração sincero.
Considerai o grande número de santos criados neste género de vida, considerai
o bem feito ao mundo, ontem e hoje, por quem se dedicou a Deus! Porventura
este nosso mundo não tem necessidade de radiosas testemunhas e verdadeiros
profetas da força benfazeja do Amor de Deus? Não tem ele necessidade também
de homens e mulheres que, com a sua vida e a sua acção, saibam espalhar
sementes de paz e de fraternidade?
Às pessoas consagradas
109. Mas é sobretudo a vós, mulheres e homens consagrados, que no final
desta Exortação dirijo o meu apelo confiante: vivei plenamente a vossa
dedicação a Deus, para não deixar faltar a este mundo um raio da beleza
divina que ilumine o caminho da existência humana. Os cristãos, imersos
nas lides e preocupações deste mundo mas chamados eles também à santidade,
têm necessidade de encontrar em vós corações puros que, na fé, « vêem »
a Deus, pessoas dóceis à acção do Espírito Santo que caminham diligentes
na fidelidade ao carisma da sua vocação e missão.
Como bem sabeis, abraçastes um caminho de conversão contínua, de dedicação
exclusiva ao amor de Deus e dos irmãos, para testemunhar de modo cada vez
mais esplendoroso a graça que transfigura a existência cristã. O mundo
e a Igreja procuram autênticas testemunhas de Cristo. E a vida consagrada
é um dom oferecido por Deus para que seja colocada à vista de todos a «
única coisa necessária » (cf. Lc 10,42). Dar testemunho de Cristo
com a vida, com as obras e com as palavras, é missão peculiar da vida consagrada
na Igreja e no mundo.Vós sabeis em quem pusestes a vossa confiança (cf.
2 Tm 1,12): dai-Lhe tudo! Os jovens não se deixam enganar: quando
vêm ter convosco, querem ver aquilo que não vêem em mais parte nenhuma.
Tendes uma responsabilidade imensa no que diz respeito ao amanhã: especialmente
os jovens consagrados, testemunhando a sua consagração, podem induzir os
da sua idade à renovação da própria vida.O amor apaixonado por Jesus Cristo
é uma atracção poderosa sobre os outros jovens, que Ele, na sua bondade,
chama a segui-Lo de perto e para sempre. Os nossos contemporâneos querem
ver, nas pessoas consagradas, a alegria que brota do facto de estar com
o Senhor.Pessoas consagradas, idosas e jovens, vivei a fidelidade ao vosso
compromisso com Deus, na mútua edificação e apoio recíproco. Não obstante
as dificuldades que às vezes pudésseis ter encontrado e a diminuição do
apreço pela vida consagrada em certa opinião pública, vós tendes a tarefa
de convidar novamente os homens e mulheres do nosso tempo a olharem para
o alto, a não se deixarem submergir pelas coisas de cada dia, mas a deixarem-se
fascinar por Deus e pelo Evangelho do seu Filho. Não esqueçais que vós,
de modo muito particular, podeis e deveis dizer não só que sois de Cristo,
mas que « vos tornastes Cristo ».
Olhar para o futuro
110. Vós não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar,
mas uma grande história a construir! Olhai o futuro, para o qual
vos projecta o Espírito a fim de realizar convosco ainda grandes coisas.
Fazei da vossa vida uma ardente expectativa de Cristo, indo ao encontro
d'Ele como virgens prudentes que vão ao encontro do Esposo. Permanecei
sempre disponíveis, fiéis a Cristo, à Igreja, ao vosso Instituto e ao homem
do nosso tempo.Deste modo, sereis renovados por Ele, dia após dia, para
construir com o seu Espírito comunidades fraternas, para com Ele lavar
os pés aos pobres e dar a vossa insubstituível contribuição para a transfiguração
do mundo.Este nosso mundo confiado às mãos do homem, enquanto vai entrando
no novo milénio, possa tornar-se cada vez mais humano e justo, sinal e
antecipação do mundo futuro, onde Ele, o Senhor humilde e glorioso, pobre
e triunfante, será a alegria plena e duradoura para nós e para os nossos
irmãos e irmãs, com o Pai e o Espírito Santo.
Oração à Trindade
111. Santíssima Trindade, beata e beatificante, tornai felizes os vossos
filhos e filhas que chamastes para confessarem a grandeza do vosso amor,
da vossa bondade misericordiosa e da vossa beleza.
Pai Santo, santificai os filhos e filhas que se consagraram a
Vós, para a glória do vosso nome. Acompanhai-os com o vosso poder, para
que possam testemunhar que Vós sois a Origem de tudo, a única fonte do
amor e da liberdade. Agradecemo-Vos o dom da vida consagrada, que na fé
Vos procura e, na sua missão universal, convida a todos a caminharem para
Vós.Jesus Salvador, Verbo Encarnado, tendo entregue a vossa forma
de vida àqueles que chamastes, continuai a atrair para Vós pessoas que
sejam, para a humanidade do nosso tempo, depositárias de misericórdia,
prenúncio do vosso regresso, sinal vivo dos bens da ressurreição futura.
Que nenhuma tribulação os separe de Vós e do vosso amor! Espírito Santo,
Amor derramado nos corações, que concedeis graça e inspiração à mente,
Fonte perene de vida, que levais a cabo a missão de Cristo com os numerosos
carismas, nós Vos pedimos por todas as pessoas consagradas. Enchei o seu
coração com a certeza íntima de terem sido escolhidas para amar, louvar
e servir. Fazei-lhes saborear a vossa amizade, cumulai-as da vossa alegria
e do vosso conforto, ajudai-as a superarem os momentos de dificuldade e
a levantarem-se confiadamente depois das quedas, tornai-as espelho da beleza
divina. Dai-lhes a coragem de enfrentar os desafios do nosso tempo e a
graça de levarem aos homens a bondade e o amor do nosso Salvador Jesus
Cristo (cf. Tt 3,4).
Prece à Virgem Maria
112. Ó Maria, figura da Igreja, Esposa sem ruga nem mancha, que imitando-Vos
« conserva virginalmente (...) uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma
verdadeira caridade »,amparai as pessoas consagradas na busca da eterna
e única Bem-aventurança.
Confiamo-las a Vós, Virgem da Visitação, para que saibam correr ao encontro
das necessidades humanas, para levarem ajuda, mas sobretudo para levarem
Jesus. Ensinai-lhes a proclamar as maravilhas que o Senhor realiza no mundo,
para que todos os povos glorifiquem o seu nome. Sustentai-as na sua acção
em favor dos pobres, dos famintos, dos desesperados, dos últimos e de todos
aqueles que procuram o vosso Filho com coração sincero.A vós, Mãe, que
quereis a renovação espiritual e apostólica dos vossos filhos e filhas
na resposta de amor e dedicação total a Cristo, dirigimos confiantes a
nossa oração. Vós que fizestes a vontade do Pai, pronta na obediência,
corajosa na pobreza, acolhedora na virgindade fecunda, alcançai do vosso
divino Filho que, quantos receberam o dom de O seguir na vida consagrada,
saibam testemunhá-Lo com uma existência transfigurada, caminhando jubilosamente,
com todos os outros irmãos e irmãs, para a pátria celeste e para a luz
que não conhece ocaso.Nós Vo-lo pedimos, para que, em todos e em tudo,
seja glorificado, bendito e amado o Supremo Senhor de todas as coisas que
é Pai, Filho e Espírito Santo.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 25 de Março, Solenidade da
Anunciação do Senhor, do ano 1996, décimo oitavo de Pontificado.
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