 |
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ
CONGRESSO EUCARÍSTICO DA ARQUIDIOCESE DE
BENEVENTO (ITÁLIA)
INTERVENÇÃO DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER
"EUCARISTIA, COMUNHÃO E
SOLIDARIEDADE"
Queridos amigos!
A Diocese de Benevento, no Congresso Eucarístico preparado
com a oração, a reflexão e os gestos concretos de caridade propôs-se sob a
orientação do seu Pastor, o Arcebispo Serafino Sprovieri, aprofundar a relação
entre o mistério mais profundo da Igreja, e o seu empenho mais concreto o serviço
da partilha, da reconciliação e da unidade para poder celebrar melhor o
sacramento e viver de maneira mais eficaz o novo mandamento de Cristo:
"amai-vos uns aos outros". Com ferquência, na Igreja antiga, a
Eucaristia chamava-se também simplesmente Agape-amor, ou seja pax-paz;
os cristãos daquela época expressaram assim de maneira incisiva o vínculo
inseparável entre o mistério da presença escondida de Deus e a práxis do
serviço à paz, do ser paz dos cristãos. Não existia diferença alguma entre
o que hoje facilmente se contrapõe como ortodoxia e ortopráxis, como recta
doutrina e recto agir, no qual ressoa em geral uma tonalidade bastante
desprezadora em relação à palavra ortodoxa: quem está da parte da
recta doutrina, mostra-se com um coração limitado, rígido, potencialmente
intolerante. Por outras palavras, tudo dependeria do recto agir, enquanto que
sobre a doutrina sempre se poderia discutir. Importantes seriam só os frutos,
que a doutrina produz, mas seria indiferente por quais vias se realizam as acções
justas. Uma tal contraposição teria sido para a Igreja antiga incompreensível
e inaceitável, já devido ao facto que a palavra ortodoxia não significava de
modo algum recta doutrina, mas sim autêntica adoração e glorificação de
Deus. Tinha-se a convicção de que tudo dependia de estar na justa relação
com Deus, de conhecer aquilo de que a ele apraz e de como se lhe pode responder
da maneira justa. Por isso, Israel amou a lei: através dela sabia-se qual
era a vontade de Deus; sabia-se como viver rectamente e como honrar a Deus do
modo justo: fazendo a sua vontade, que põe ordem no mundo, abrindo-o para
o alto. E esta era a nova alegria dos Cristãos, que agora, finalmente, a partir
de Cristo, sabiam como Deus deve ser glorificado e como, desta forma, o mundo se
torna justo. Que as duas coisas caminham juntas já o tinham anunciado os anjos
na noite santa: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens
que Ele ama", assim disseram (Lc 2, 14). A glória de Deus e a paz
na terra são inseparáveis. Onde Deus é excluído, deixa de haver paz na
terra, e nenhuma ortopráxis sem Deus se pode salvar. De facto, não existe uma
práxis simplesmente justa, prescindindo de um conhecimento daquilo que é
justo. A vontade sem conhecimento é cega, e o mesmo é válido para as acções,
para a ortopráxis, que são cegas sem o conhecimento e levam ao abismo. O
grande engano do marxismo foi o de nos dizer que já se tinha reflectido o
suficiente sobre o mundo, e que, finalmente, valia a pena mudá-lo. Mas se não
sabemos em que direcção o devemos mudar, se não compreendemos o seu sentido e
o seu fim interior, então a simples mudança torna-se destruição vimos isto e
ainda continuamos a ver. Mas também é verdade o contráro: a doutrina
sozinha, se não se é vida e acção,
torna-se conversa inútil e por isso também
vazia. A verdade é concreta. Conhecimento e acção estão estreitamente
unidos, como estão vinculadas fé e vida. Foi precisamente isto que quisestes
exprimir com o vosso Tema, e sobre ele agora nos detemos um pouco a reflectir.
1. Eucaristia
Vou tentar esclarecer um pouco as três palavras-chave, que
escolhestes como Tema do vosso Congresso Eucarístico. "Eucaristia" é
hoje e com toda a razão o nome mais usado para o Sacramento do corpo e do
sangue de Cristo, que o Senhor instituiu na véspera da sua paixão. Na Igreja
antiga existia a este propósito uma série de outros nomes Agape e Pax
já os mencionamos. Paralelamente a eles, existia, por exemplo, também sinaxe
assembleia, reunião de muitas pessoas. Para os Protestantes este Sacramento
chama-se "Ceia", com a intenção segundo a tendência de
Lutero, para o qual só a Escritura tinha valor de voltar totalmente à origem bíblica.
Na realidade em São Paulo este Sacramento chama-se "Ceia do Senhor".
Mas é significativo que este título tenha desaparecido muito cedo e a partir
do segundo século deixou de ser usado. E por que motivo? Era porventura o
destaque do Novo Testamento, como pensava Lutero, ou que significado tem? Na
realidade, sem dúvida o Senhor tinha instituído o seu Sacramento durante uma
refeição, mais precisamente a ceia pascal judaica, e assim no início ele
tinha sido também relacionado com uma reunião para a refeição. Mas o Senhor
não mandara que se repetisse a ceia pascal, que constituía a moldura, mas não
era o seu Sacramento, o seu novo dom. De qualquer forma, a ceia pascal
podia ser celebrada só uma vez por ano. Por conseguinte, a celebração da
Eucaristia foi separada da reunião para a ceia na medida em que se ia
realizando o destaque da lei, a passagem para uma Igreja de judeus e gentios,
mas sobretudo de gentios. O vínculo com a ceia revelou-se assim exterior, aliás,
uma ocasião de equívocos e de abusos, como Paulo mostrou amplamente na
primeira Carta aos Coríntios. Assim a Igreja, assumindo uma configuração
específica própria, libertou progressivamente o dom específico do Senhor, o
que era novo e permanente, do velho contexto e deu-lhe forma própria. Por um
lado, isto aconteceu devido à ligação com a liturgia da palavra, que tem o
seu modelo na sinagoga; por outro, devido ao facto de que as palavras
institutivas do Senhor formaram o ponto culminante da grande oração de acção
de graças, que gradualmente derivou das tradições das sinagogas e, por último,
do Senhor, que sem dúvida tinha dado graças e prestado honra a Deus na tradição
judaica e muito enriqueceu com uma nova profundidade esta acção de graças por
meio da oferta do seu corpo e do seu sangue.
Compreendeu-se que o essencial no acontecimento da última
ceia não era comer o cordeiro e os outros pratos tradicionais, mas a grande oração
de louvor, que agora tinha como cento as próprias palavras de Jesus: com
elas, ele transformara a sua morte na oferenda de si mesmo, de maneira que agora
nós podemos dar graças por essa morte. Sim, só agora é possível dar graças
a Deus sem reservas, porque o mais horrível a morte do Redentor e a morte de
todos nós foi transformada graças a um acto de amor na doação da vida.
Assim, como realidade essencial da última Ceia foi reconhecida a Eucaristia, o
que nós hoje chamamos Oração Eucarística, que deriva directamente da oração
que Jesus fez na vigília da sua paixão e é o centro do novo sacrifício
espiritual, motivo pelo qual vários Padres designavam a Eucaristia simplesmente
como "oratio" (Oração), como "sacrifício da palavra",
como sacrifício espiritual, mas que também se torna matéria transformada:
pão e vinho tornam-se corpo e sangue de Cristo, o novo alimento, que sustenta
para a ressurreição, para a vida eterna. Assim, toda a estrutura de palavras e
elementos materiais tornam-se antecipação da eterna boda de núpcias. No
final, devemos voltar a falar mais uma vez sobre esta ligação. Aqui o
importante era compreender melhor porque é que nós, como cristãos católicos,
não chamamos Ceia a este Sacramento, mas Eucaristia: a Igreja nascente
deu lentamente a este Sacramento a sua configuração específica, e
precisamente assim, sob a orientação do Espírito Santo, detectou bem e
representou correctamente com sinais, o que é verdadeiramente a sua essência,
aquilo que o Senhor deveras "instituiu" naquela noite.
Precisamente examinando o processo com o qual o Sacramento
assumiu progressivamente a sua forma, é que se compreende de modo muito belo e
profundo o vínculo entre Escritura e Tradição. Um simples retomar histórico
da Bíblia considerada isoladamente não nos comunica suficientemente a visão
daquilo que é essencial; ele mostra-se como tal unicamente no contexto vital da
Igreja, que viveu a Escritura e assim a compreendeu na sua intencionalidade mais
profunda e a tornou acessível também a nós.
2. Communio
A segunda palavra, que vós escolhestes como Tema para o
vosso Congresso Eucarístico Comunhão é hoje uma palavra que está na moda. De
facto, ela é uma das palavras mais profundas e características da tradição
cristã, mas precisamente por isto é muito importante compreendê-la em toda a
sua profundidade e a grandeza do seu significado. Talvez aqui eu possa inserir
uma observação totalmente pessoal. Quando, juntamente com alguns amigos
sobretudo Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar, Louis Bouyer, Jorge Medina
tive a ideia de fundar uma revista, na qual pretendíamos aprofundar e
desenvolver a herança do Concílio, começámos a procurar um nome, que
exprimisse de modo mais completo com uma só palavra a intenção deste
instrumento.
Mas já no último ano do Concílio Vaticano II, em 1965,
tinha sido fundada uma revista, que devia ser, por assim dizer, a voz permanente
do Concílio e do seu espírito e por por isso se chamava Concilium. A
respeito disto, teve um papel de relevo o facto de Hans Küng, no seu livro
"Estruturas da Igreja", ter pensado que tinha descoberto uma equivalência
de significado entre as palavras "Ekklesia" (Igreja) e
"Concilium". Na origem dos dois termos está a palavra grega
"Kalein" (chamar): a primeira palavra (Ekklesia), de facto
significa: convocar, e a segunda palavra (Concilium), significa chamar em
conjunto, por conseguinte, ultimamente as duas significam a mesma coisa. Disto
poderia derivar uma espécie de identidade entre os conceitos de Igreja e de
Concílio. Por sua natureza, a Igreja seria o contínuo Concílio de Deus no
mundo. Portanto, deve conceber-se a Igreja de modo conciliar e realizá-la à
maneira de Concílio; ao contrário, o Concílio seria a realização mais
intensa em absoluto da Igreja, ou seja, o ponto máximo da Igreja. Nos anos
seguintes eu segui por algum tempo esta concepção, à primeira vista, bastante
iluminadora, com a qual a Igreja aparecia como a assembleia permanente do
conselho de Deus no mundo. As consequências práticas desta concepção, na
realidade não devem ser descuidadas, e o seu fascínio é totalmente imediato.
Tinha também chegado à conclusão de que a visão de Hans Küng continha sem dúvida
algo de verdadeiro e sério, mas que também precisava de notáveis correcções.
Gostaria de sintetizar muito brevemente o resultado dos
meus estudos de então. Tanto da pesquisa filológica como da compreensão teológica
da Igreja e do Concílio no tempo antigo se concluía que um Concílio pode ser
certamente um importante cumprimento vital da Igreja, mas que a própria Igreja
na realidade é algo mais e a sua essência vai mais em profundidade. O Concílio
é algo que a Igreja faz, mas a Igreja não é um Concílio. Ela não
existe antes de tudo para deliberar, mas para viver a palavra que nos é dada.
Como conceito-base, com o qual se propõe a essência da própria Igreja,
encontrei a palavra koinonia-comunhão. A Igreja realiza Concílios, mas
ela é comunhão, assim poderia eu sintetizar o essencial das minhas
pesquisas de então. Por conseguinte, a sua estrutura não deve ser descrita com
a palavra "conciliar", mas antes com a palavra "comunhão".
Quando, em 1969, eu propus estas ideias com o livro "O
novo povo de Deus", o conceito de comunhão ainda não era muito difundido
nos debates teológicos e eclesiais públicos; por conseguinte, também às
minhas ideias a este propósito não foi dada grande atenção. Contudo, para
mim, elas foram um ponto de partida na busca de um título para a nova revista,
que depois chamamos "Communio". O conceito alcançou uma importância
pública unicamente com o Sínodo dos Bispos de 1985. Até àquela data a
expressão "Povo de Deus" tinha sido estabelecida como o novo
conceito-chave para a Igreja, na qual se consideravam condensadas de maneira
sintética as intenções do Vaticano II. Isto podia até ser verdadeiro, se se
tivesse compreendido a expressão em toda a profundidade do seu significado bíblico
e no contexto amplo, em que o Concílio a empregou. Mas quando uma grande
palavra se torna um slogan, inevitavelmente lhe é atribuído um limite,
aliás é banalizada. Assim o Sínodo de 1985 procurou um novo princípio, dando
centralidade à palavra comunhão, que remete antes de mais para o centro eucarístico
da Igreja e, desta forma, fixa a compreensão da Igreja no lugar mais íntimo do
encontro entre Jesus e os homens, no acto da sua entrega por nós.
Não se podia evitar que também esta grande palavra
fundamental do Novo Testamento, isolada e usada como slogan, sofresse uma
limitação. Aliás, que até fosse banalizada. Hoje, quem fala de eclesiologia
de comunhão, normalmente quer dizer duas coisas: contrapor uma
eclesiologia plural, por assim dizer federativa, a uma concepção centralista
da Igreja, e pretende realçar o relacionamento recíproco de igrejas locais no
intercâmbio de dar e receber, assim como o pluralismo das suas formas culturais
expressivas no culto, na disciplina e na doutrina. Mesmo onde estas tendências
não são desenvolvidas nos pormenores, a palavra comunhão é compreendida em
geral num sentido horizontal como uma múltipla rede de relações de
comunidades. O conceito de uma estrutura de comunhão de Igreja diferencia-se
então do conceito acima mencionado de uma visão conciliar: domina o
horizontal, a ideia de auto-determinação numa vasta comunidade.
Naturalmente, há nisto muitos aspectos verdadeiros. Mas a
aproximação básica não é correcta, e a verdadeira profundidade disto, que
tanto o Novo Testamento, como o Vaticano II e também o Sínodo dos Bispos de
1985 pretendiam dizer, perdeu-se de vista. Para esclarecer este centro de
significado do conceito de Communio, menciono agora brevemente dois grandes
textos do Novo Testamento acerca da Communio. O primeiro encontra-se em 1 Cor
10, 16s, onde Paulo nos diz: "O cálice de bênção que abençoamos,
não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão
do Corpo de Cristo? Uma vez que há um só pão, nós, embora sendo muitos,
formamos um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão". O conceito
de comunhão está, em primeiro lugar, ancorado no Santíssimo Sacramento da
Eucaristia, razão pela qual nós ainda hoje, na linguagem da Igreja justamente
chamamos à recepção deste sacramento simplesmente "comungar". Desta
forma torna-se logo evidente o significado social muito prático deste
acontecimento sacramental, e isto com uma radicalidade que não se pode alcançar
com visões exclusivamente horizontais. Aqui, é-nos dito que através do
sacramento nós entramos de certa forma em comunhão de sangue com Jesus Cristo,
onde sangue, segundo a visão hebraica significa "vida", e por
conseguinte é afirmada uma compenetração da vida de Cristo com a nossa.
"Sangue" no contexto da Eucaristia também significa, evidentemente,
dom, existência, que, por assim dizer, se derrama, se oferece por nós e a nós.
Desta forma, a comunhão de sangue também é inserção na dinâmica desta
vida, deste "sangue derramado" dinamização da nossa existência, graças
à qual ele mesmo pode tornar-se um ser para o próximo, como podemos ver com
evidência diante de nós no coração aberto de Cristo. Sob um certo ponto de
vista, são ainda mais impressionantes as palavras sobre o pão. Trata-se da
comunhão com o corpo de Cristo, que Paulo compara com a união do homem e da
mulher (cf. 1 Cor 6, 17s; Ef 5, 26-32). Paulo explica este
conceito partindo de outro ponto de vista, quando diz: é um só e único
pão, que todos nós aqui recebemos. Isto tem um sentido muito forte: o
"pão" o novo maná, que Deus nos oferece é para todos o único e o
mesmo Cristo. É deveras o único, idêntico e mesmo Senhor que nós recebemos
na Eucaristia, ou melhor: que nos recebe e nos assume consigo. Santo
Agostinho exprimiu este conceito com uma palavra, que compreendeu numa espécie
de visão: come o pão dos fortes, de facto não me transformarás a mim
em ti mesmo, mas sou eu que te transformo em mim. Isto significa: o
alimento corporal, que nós consumimos, é assimilado pelo corpo, torna-se ele
mesmo um elemento constitutivo do nosso corpo. Mas este pão é de outro género.
É maior e está acima de nós. Não somos nós que o assimilamos, mas é ele
que nos assimila, fazendo com que nos conformemos com Cristo, de certa forma
como diz Paulo tornamo-nos membros do seu corpo, uma só coisa nele. Todos nós
comemos da mesma pessoa, e não só da mesma coisa; desta forma, todos nós
somos arrancados ao nosso individualismo fechado, para sermos inseridos noutro
maior. Todos nós somos assimilados a Cristo e assim, através da comunhão com
Cristo também estamos unidos entre nós, tornamo-nos idênticos, uma só comunhão
nele, membros uns dos outros. Comungar com Cristo é, na sua essência, também
comungar uns com os outros. Já não estamos uns ao lao dos outros, cada um para
si próprio, mas todos aqueles que comungam são para mim "ossos dos meus
ossos e carne da minha carne" (cf. Gn 2, 23). Por conseguinte, uma
verdadeira espiritualidade da comunhão juntamente com a profundidade cristológica
tem necessariamente um carácter social, como Henri de Lubac já descreveu há
mais de meio século de maneira grandiosa no seu livro "Catolicismo".
Portanto, na minha oração pela comunhão eu devo, por um lado, olhar
totalmente para Cristo, deixar-me transformar por ele, eventualmente deixar-me
também arder pelo seu fogo que me envolve. Mas precisamente por isto, também
devo ter sempre claramente presente que deste modo ele me une organicamente com
qualquer outro comungante com o que está ao meu lado, que talvez não me seja
simpático; mas também com o que está longe, na Ásia, na África, na América
ou em qualquer outra parte. Ao tornar-me uma só coisa com ele, tenho que
aprender a abrir-me naquela direcção e a envolver-me naquela situação:
é esta a prova da autenticidade do meu amor por Cristo. Se eu estou unido a
Cristo, estou unido juntamente com o outro, e esta unidade não se limita ao
momento da comunhão, que aqui apenas começa e se torna vida, carne e sangue na
quotidianidade do meu estar com o outro e junto do outro. Desta forma, também a
realidade individual do meu comunicar e o ser da vida da Igreja estão
inseparavelmente ligados um com o outro. A Igreja não nasce como uma simples
federação de comunidades. Ela nasce a partir do único pão, do único Senhor
e é a partir dele desde o início e em toda a parte una e única, o único
corpo que deriva de um único pão. Ela torna-se una não devido a um governo
centralista, mas a um centro comum possível para todos, porque ela vai buscar a
sua origem continuamente a um só Senhor, que a cria mediante um só pão e um só
corpo. Por isso, a sua unidade tem uma profundidade maior, do que qualquer outra
união humana pode alcançar. Precisamente quando a Eucaristia é compreendida
em toda a interioridade da união de cada um com o Senhor, torna-se também um
sacramento social no máximo grau. Os grandes santos sociais, na realidade, eram
também grandes santos eucarísticos.
Desejaria mencionar apenas dois exemplos totalmente
ocasionais. Primeiro, a amável figura de São Martinho de Porres, que nasceu em
1569 em Lima (Peru), filho de uma mãe afro-americana e de um nobre espanhol.
Martinho vivia a adoração do Senhor presente na Eucaristia, passava noites
inteiras a rezar diante do crucifixo, enquanto de dia curava incansavelmente os
doentes, e se dedicava às pessoas socialmente deserdadas, das quais se sentia
próximo devido à sua origem, sendo ele mulato. O encontro com o Senhor, que da
cruz se oferece por nós e, por meio do único pão faz com que nos tornemos os
membros de um só corpo, traduzia-se coerentemente no serviço aos que sofrem,
nos cuidados aos débeis e aos esquecidos. No nosso tempo, todos têm diante dos
olhos a imagem da Madre Teresa de Calcutá. Ela abria, em todas as partes, as
casas das suas irmãs ao serviço dos moribundos e dos marginalizados, a
primeira coisa que pedia era um lugar para o tabernáculo, porque sabia que só
dali podia provir a força para este serviço. Quem reconhece o Senhor no Tabernáculo,
também o reconhece nos que sofrem e nos necessitados; pertence àqueles sobre
os quais o juiz do mundo dirá: tive fome e destes-Me de comer; tive sede
e destes-Me de beber; estava nu e destes-Me de vestir; adoeci e visitastes-Me;
estive na prisão e fostes ter Comigo (Mt 25, 35).
Gostaria ainda, muito brevemente, de recordar um segundo
texto muito importante do Novo Testamento sobre a palavra comunhão (koinonia),
que está no início da primeira Carta de João (1, 3-7). João fala antes de
mais, do encontro com a palavra que se fez homem, que lhe foi concedido:
ele pode dizer que transmite o que viu com os seus próprios olhos, que tocou
com as suas mãos. Este encontro proporcionou-lhe o dom de uma
"koinonia" comunhão com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo, e
tornou-se um verdadeiro comungar. Esta comunhão com o Deus vivo, assim ele nos
diz, põe o homem na luz. Abrem-se os seus olhos e ele vive na luz, isto é, na
verdade de Deus, que se exprime no único, novo mandamento, que tudo engloba no
mandamento do amor.
E assim a comunhão com a "palavra da vida",
torna-se vida justa, amor; também se torna comunhão recíproca: "Se
andarmos na luz como Ele está na luz, estamos em comunhão uns com os
outros" (1 Jo 1, 7). Desta forma, o texto mostra-nos a mesma lógica
da Communio, que já tínhamos encontrado em Paulo: a comunhão com Jesus
torna-se comunhão com o próprio Deus, comunhão com a luz e com o amor;
torna-se a vida recta, e tudo isto nos une uns aos outros na verdade. Se
considerarmos a comunhão nesta profundidade e amplidão, então temos alguma
coisa para dizer ao mundo.
3. Solidariedade
Finalmente, chegamos à terceira palavra-chave:
"solidariedade". Enquanto que as duas primeiras palavras-chave,
eucaristia e comunhão, foram tiradas da Bíblia e da tradição cristã, esta
palavra chegou até nós do exterior. O conceito de "solidariedade"
como o Arcebispo Cordes mostrou inicialmente desenvolveu-se no âmbito do
primeiro socialismo por parte do Pe. Lerou (falecido em 1871), em contraposição
à ideia cristã de amor, como a nova, racional e eficaz resposta ao problema
social. Karl Marx explicou que o cristianismo tivera um milénio e meio de tempo
para mostrar as suas capacidades e que agora estava suficientemente demonstrada
a sua ineficiência; por conseguinte, era preciso percorrer novos caminhos.
Durante decénios muitos pensaram que o modelo socialista sintetizado no
conceito de solidariedade era finalmente o caminho para realizar a igualdade de
todos, para erradicar a pobreza e estabelecer a paz no mundo. Hoje podemos
observar o panorama de ruínas deixado por uma teoria e práxis social que não
considera Deus. É inegável que o modelo liberal da economia de mercado,
sobretudo onde, sob a influência das ideias sociais cristãs foi orientado e
corrigido, nalgumas partes do mundo alcançou grandes êxitos.
É muito triste o balanço que deixou atrás de si,
sobretudo na África, a oposição dos blocos de poder e dos interesses económicos.
Por detrás da aparente solidariedade dos modelos de progresso escondeu-se e,
com frequência, ainda se esconde, a vontade de ampliar o âmbito do próprio
poder, da própria ideologia, do próprio domínio de mercado. Neste contexto
perpetraram-se destruições das antigas estruturas sociais, destruições das
forças espirituais e morais, cujas consequências devem ressoar aos nossos
ouvidos como uma única lamentação. Não, sem Deus as coisas não podem correr
bem. E dado que nos mostrou o seu rosto unicamente em Cristo, pronunciou o seu
nome, entrou em comunhão connosco, como consequência e por último sem Cristo
não há esperança. Não se pode negar que até os cristãos nos séculos
passados se mancharam com graves culpas. A escravidão, o tráfico dos escravos,
permanecem um capítulo obscuro; mostram como os cristãos eram pouco cristãos
e como eles estavam afastados da fé e do amor do Evangelho, da verdadeira
comunhão com Jesus Cristo. Por outro lado, foram o amor repleto de fé e a
humilde disponibilidade para o sacrifício de tantos sacerdotes e religiosas,
que serviram de contrapeso e deixaram uma herança de amor, que, mesmo se não
conseguiu erradicar o horror da exploração, apesar de tudo, aliviou-o. Sobre
este testemunho nós podemos construir, por este caminho podemos ir mais além.
Neste sentido, o conceito de solidariedade nos últimos decénios, sobretudo graças
aos estudos éticos do Santo Padre, foi lentamente transformado e cristianizado,
de forma que agora nós o podemos justamente aproximar às duas palavras-chave
eucaristia e comunhão. Neste sentido, solidariedade significa sentirem-se
responsáveis uns pelos outros, os sãos pelos doentes, os ricos pelos pobres,
os continentes do Norte pelos do Sul, conscientes da responsabilidade recíproca
e por conseguinte, conscientes de que, quando damos, nós recebemos, e de que
podemos dar sempre e só daquilo que nos foi dado e por isso não nos pertence
unicamente a nós próprios. Hoje constatamos que não é suficiente transmitir
capacidades técnicas, conhecimentos e teorias científicas, ou até práxis de
determinadas estruturas políticas.
Tudo isto não serve, e até é prejudicial, se não são
despertadas as forças espirituais, que dão sentido a estas técnicas e
estruturas e tornam possível o seu uso responsável. Foi fácil destruir com a
nossa racionalidade as tradições, que agora sobrevivem como subculturas
privadas da sua melhor substância e como técnicas da superstição podem
danificar as pessoas no corpo e na alma. Teria sido necessário abrir o seu núcleo
em direcção a Cristo e desta forma levar a cumprimento as expectativas
secretas, que nelas estão vivas. Neste processo de purificação e de
desenvolvimento, continuidade e progresso ter-se-iam unido de maneira fecunda.
Onde a missão teve êxito, ela seguiu praticamente este caminho
e desta forma ajudou a desenvolver forças de fé, das quais temos urgente
necessidade.
Na crise dos anos 60 e 70 muitos missionários
convenceram-se que a missão, isto é, o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo,
hoje já não é oportuna; a única coisa que ainda teria sentido seria oferecer
um serviço de desenvolvimento social. Mas como se poderia realizar um
desenvolvimento social, se nos tornamos analfabetos em relação a Deus? No
fundo, a ideia implicitamente partilhada, de que os povos e as tribos deveriam
conservar as próprias religiões e de que não os devemos invadir com a nossa,
não mostra apenas que a fé no coração desses homens tinha esmorecido apesar
da sua grande boa vontade, e que a comunhão com o Senhor já não era vital. Se
não fosse assim, como se poderia pensar que era positivo excluir os outros? Mas
trata-se, no fundo muitas vezes sem o sabermos de um desprezo pelo facto
religioso e não de estima pelas outras religiões, como parece: a religião
é considerada na pessoa como um resíduo arcaico, que lhe devemos deixar, mas
que ultimamente nada tem que ver com a verdadeira grandeza do progresso. O que
as religiões dizem e fazem, nos últimos tempos, mostra-se como indiferente;
elas são consideradas como excluídas do âmbito da racionalidade, e o seu
conteúdo ultimamente nada conta. A ortopráxis, que esperamos, está
verdadeiramente construída sobre a areia. Já é tempo de abandonar esta forma
errada de pensar. Precisamos da fé em Jesus Cristo, porque ela une razão e
religião. Desta forma, ela oferece-nos critérios de responsabilidade. Faz
parte da solidariedade entre os povos e entre os continentes a partilha a todos
os níveis: material, espiritual, ético e religioso. É evidente que nós
devemos desenvolver ulteriormente a nossa economia, de forma que ela não tenha
como critério só os interesses de um determinado país ou de um grupo de países,
mas o bem-estar de todos os continentes. Isto é difícil e nunca se realiza
plenamente; exige que nós próprios nos limitemos e façamos renúncias. Mas se
surge um espírito de solidariedade deveras alimentado pela fé, então isto
pode tornar-se possível, mesmo se é sempre de maneira imperfeita. Entraria
neste âmbito o tema da globalização, que eu não posso tratar aqui. É
evidente que hoje todos nós dependemos uns dos outros. Mas existe uma globalização,
que é estudada unilateralmente, tendo em vista os próprios interesses, e
deveria existir uma globalização, na qual deveras todos nos sentimos responsáveis
uns pelos outros e cada um leve o fardo do outro. Tudo isto, não pode ser
realizado de maneira neutral, com referência meramente às técnicas do
mercado. Para as decisões sobre o mercado são sempre determinantes também os
pressupostos dos valores. A respeito disto, também o nosso horizonte religioso
e moral é sempre decisivo. Se a globalização na técnica e na economia não
for também acompanhada por uma nova abertura da consciência a Deus, diante do
qual todos nós temos uma responsabilidade, então tudo acabará numa catástrofe.
Eis a grande responsabilidade, que hoje pesa sobre nós, cristãos. O
cristianismo a partir do único Senhor, do único pão, que deseja fazer de nós
um só corpo, tinha por objectivo desde sempre a unificação da humanidade. Se
nós, precisamente no momento em que uma unificação exterior da humanidade
anteriormente impensável se torna realidade, nos subtraímos como cristãos e
pensamos que não podemos e não devemos dar mais nada, sobrecarregamo-nos com
uma grave culpa. De facto, uma unidade que seja construída sem Deus ou até
contra ele, termina como a experiência de Babilónia: na confusão e na
destruição total, no ódio e na opressão de todos contra todos.
Conclusão:
Eucaristia como sacramento das transformações
Voltemos à Santíssima Eucaristia. Que aconteceu
verdadeiramente na noite em que Cristo foi entregue? A este propósito escutemos
o Cânone Romano o coração da "Eucaristia" da Igreja de Roma:
"Na véspera da sua paixão Jesus tomou o pão nas suas mãos santas e
veneráveis, levantou o olhar para o céu, para ti, Deus Pai Omnipotente com a
oração de bênção, partiu-o, deu-o aos seus discípulos e disse: tomai
e comei todos. Isto é o meu corpo, oferecido em sacrifício por vós. E depois
da ceia, do mesmo modo, tomou o cálice precioso nas suas mãos santas e veneráveis,
deu-te graças com a oração de bênção, repartiu-o pelos seus discípulos e
disse: tomai e bebei todos. Isto é o cálice do meu sangue para a nova e
eterna aliança, derramado por vós e por todos em remissão dos pecados. Fazei
isto em memória de mim". Pela primeira vez, ouvimos a palavra
transubstanciação. O pão torna-se corpo, o seu corpo. O pão da terra
torna-se o pão de Deus, o "maná" do céu, com o qual Deus alimenta
os homens não só na vida terrena mas também na perspectiva da ressurreição
que prepara a ressurreição, aliás, já a faz começar. O Senhor, que teria
podido transformar as pedras em pão, que das pedras poderia fazer surgir filhos
de Abraão, quis transformar o pão no corpo, no seu corpo. Mas isto é possível?
E como se pode realizar? As perguntas, que o povo fez na Sinagoga de Cafarnaum,
não podem ser evitadas nem sequer por nós. Ele está ali, diante dos seus discípulos,
com o seu corpo; como pode ele dizer acerca do pão: este é o meu corpo?
Agora é importante dar muita atenção ao que o Senhor disse verdadeiramente. Não
diz simplesmente: isto é o meu corpo; mas, isto é o meu corpo entregue
por vós. Ele pode tornar-se dom, porque é oferecido. Através do acto da doação
ele torna-se capaz de comunicação, como se ele mesmo fosse transformado num
dom. Podemos ver a mesma coisa nas palavras sobre o cálice. Cristo não diz
simplesmente: isto é o meu sangue; mas, isto é o meu sangue derramado
por vós. Dado que ele é derramado, pode ser oferecido. E agora surge uma
pergunta nova: que significa "oferecido", "derramado"?
Que acontece? Na verdade, Jesus é morto, crucificado e morre entre tormentos. O
seu sangue é derramado, primeiro no horto das oliveiras devido ao sofrimento
interior da sua missão, depois com a flagelação, a coroação de espinhos, a
crucifixão e, depois da sua morte, com o trespasse do coração. O que acontece
é, antes de mais, um acto de violência, de ódio, que tortura e destrói. A
este ponto, deparamo-nos com um segundo e mais profundo nível de transformação:
ele transforma a partir de dentro o acto de violência dos homens contra ele num
acto de doação em favor destes homens, num acto de amor. Isto pode ser
reconhecido de modo dramático na cena do horto das oliveiras. O que disse no
sermão da montanha, ele agora cumpre-o: ele não se opõe com a violência
à violência, como teria podido, mas põe fim à violência, transformando-a em
amor. O acto da morte é transformado em amor. Esta é a transformação
fundamental, sobre a qual tudo se baseia. É a verdadeira transformação, da
qual o mundo precisa, a única que pode redimir o mundo. Dado que Cristo, num
gesto de amor, transformou e venceu qualquer forma de violência, a própria
morte foi transformada. Ele permanece eternamente. E assim, nesta transformação
está contida a transformação mais ampla da morte em ressurreição, do corpo
morto no corpo ressuscitado. Se o primeiro homem era uma alma viva, assim diz São
Paulo, o novo Adão, Cristo, tornar-se-á, com este acontecimento, espírito que
dá a vida (1 Cor 15, 45). O ressuscitado é doação, é espírito
que dá a vida e enquanto tal é comunicável, ou melhor, é comunicação. Isto
significa que não assistimos a nenhuma despedida da matéria, aliás, desta
forma ela atinge o seu fim: sem o acontecimento material da morte e a sua
superação interior todo este conjunto de coisas não seria possível. E assim,
na transformação da ressurreição Cristo continua a subsistir, mas agora de
tal forma transformado, que o ser corpo e o dar-se já não se excluem, mas um
implica o outro.
Antes da próxima passagem, procuremos ver sinteticamente,
mais uma vez, e compreender todo este conjunto de realidades. No momento da última
ceia Jesus já antecipa o acontecimento do Calvário. Ele aceita a morte na cruz
e com a sua aceitação transforma o acto de violência num acto de oferenda, de
auto-efusão ("O meu sangue deve ser derramado como propiciação do sacrifício
e da oferta da vossa fé", diz Paulo a partir daqui e a respeito do seu
iminente martírio: Fil 2, 17). Na última ceia a cruz já está
presente, é aceite e transformada por Jesus. Esta primeira e fundamental
transformação atrai a si o resto o corpo mortal é transformado no corpo da
ressurreição: no "espírito que dá a vida". A partir daqui,
torna-se possível a terceira transformação: as ofertas do pão e do
vinho, que são dons da criação e ambos fruto do trabalho humano e
"transformação" da criação, são transformados, de forma que neles
está presente o próprio Senhor que se dá, a sua oferenda, ele mesmo porque
ele é dom. O acto da doação não é algo dele, mas é ele próprio. A
partir daqui o olhar projecta-se para outras duas transformações, que são
essenciais na Eucaristia desde o momento da sua instituição: o pão
transformado, o vinho transformado, no qual o próprio Senhor se oferece como
espírito que dá a vida, está presente para nos transformar a nós, homens,
para que nos tornemos um só pão com ele e depois um só corpo com ele. A
trasformação dos dons, que é unicamente a continuidade das transformações
fundamentais da cruz e da ressurreição, não é o ponto final, mas, por sua
vez, só um início. O fim da Eucaristia é a transformação de quantos a
recebem na autêntica comunhão com a sua transformação. E assim o fim é a
unidade, a paz, que nós próprios como indivíduos separados, que vivemos uns
ao lado dos outros, nos tornamos com Cristo e em Cristo um organismo de doação,
a fim de vivermos com vista à ressurreição e ao novo mundo. Desta forma
torna-se visível a quinta e última transformação, que caracteriza este
sacramento: através de nós, os transformados, uma vez que nos tornamos
um só corpo, um só espírito que dá a vida, toda a criação deve ser
transformada. Toda a criação deve tornar-se "uma cidade nova", um
novo paraíso, habitação viva de Deus: Deus que é tudo em todos (1
Cor 15, 28) assim descreve Paulo o fim da criação, que se deve configurar
a partir da Eucaristia. Assim a Eucaristia é um processo de transformação, no
qual nós somos envolvidos, força de Deus para a transformação do ódio e da
violência, força de Deus para a transformação do mundo. Então rezemos, para
que o Senhor nos ajude a celebrá-la e a vivê-la desta forma. Rezemos para que
ele nos transforme a nós e, juntamente connosco, ao mundo, na nova Jerusalém.
|