Estimados Irmãos e Irmãs
A Liturgia oferece-nos a oração da colecta e, na oração após a comunhão, uma
interpretação do ministério petrino, que se apresenta também como um retrato
espiritual dos dois Papas Paulo VI e João Paulo I, em sufrágio de quem
celebramos esta Missa. A colecta diz que os Papas, "no amor de Cristo...
presidiram à tua Igreja", e na oração após a comunhão reza-se para que o Senhor
conceda aos Sumos Pontífices, seus servos, "entrar... na plena posse da verdade
em que, com coragem apostólica, confirmaram os seus irmãos". Deste modo, o
amor e a verdade apresentam-se como os dois pólos da missão que foi confiada aos
sucessores de São Pedro.
Presidir à Igreja no amor de Cristo quem é que deixaria de pensar, no contexto
destas palavras, na carta de Santo Inácio à Igreja de Roma, à qual o santo
mártir, que veio de Antioquia, reconhece o primado de São Pedro, a "presidência
no amor"; a sua carta continua, dizendo que a Igreja de Roma "está na lei de
Cristo"; aqui, ele refere-se às palavras de São Paulo na carta aos Gálatas:
"Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis plenamente a lei de
Cristo" (6, 2). Presidir na caridade significa sobretudo presidir "no amor de
Cristo". Nesta altura, recordamo-nos do facto de que a conferência definitiva do
Primado a Pedro, depois da ressurreição, está ligado à pergunta, que o Senhor
repetiu três vezes: "Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?" (Jo
21, 15ss.). Apascentar a grei de Cristo e amar o Senhor é a mesma coisa. É o
amor de Cristo que guia as ovelhas pelo caminho recto e edifica a Igreja. Assim,
não podemos deixar de pensar no grande discurso com que Paulo VI inaugurou a
segunda sessão do Concílio Vaticano II. "Te, Christe solum novimus",
foram as palavras determinantes desse sermão. O Papa falou do mosaico de São
Paulo fora dos Muros, com a grandiosa figura do Pantocrator, com o Papa Honório
III prostrado aos seus pés, pequeno de estatura e quase insignificante diante da
grandeza de Cristo. Depois, o Papa continuou: "Esta cena repete-se aqui, com
plena realidade, na nossa assembleia". Esta foi a sua visão do Concílio, e
também a sua visão do primado: todos nós, aos pés de Cristo, para sermos servos
de Cristo, para servirmos o Evangelho: a essência do cristianismo é Cristo não
uma doutrina, mas uma pessoa, e evangelizar significa orientar para a amizade
com Cristo na comunhão de amor com o Senhor, que é a verdadeira luz da nossa
vida.
Presidir na caridade significa repetimo-lo preceder no amor de Cristo. Mas o
amor de Cristo implica o conhecimento de Cristo a fé e comporta a participação
no amor de Cristo: carregar os pesos uns dos outros, como afirmou São Paulo. Na
sua essência íntima, o Primado não é um exercício de poder, mas é "carregar os
pesos dos outros", é responsabilidade do amor. O amor é precisamente o contrário
da indiferença em relação ao próximo, não pode admitir que no outro se apague o
amor de Cristo, que a amizade e o conhecimento do Senhor se atenuem, que "os
cuidados deste mundo e a sedução da riqueza sufoquem a palavra" (cf. Mt
13, 22). E finalmente: o amor de Cristo é o amor pelos pobres, pelas pessoas
que sofrem. Sabemos muito bem, como os nossos Papas se comprometeram
vigorosamente contra a injustiça, em prol dos direitos dos oprimidos, das
pessoas sem poder: o amor de Cristo não é algo individualista, exclusivamente
espiritual, mas refere-se também à carne, diz respeito ao mundo e deve
transformar o mundo.
Em última análise, presidir na caridade refere-se à Eucaristia, que é a presença
real do amor encarnado, presença do Corpo de Cristo oferecido por nós. A
Eucaristia cria a Igreja, cria esta grandiosa rede de comunhão, que é o Corpo de
Cristo, e deste modo cria a caridade. É neste espírito que celebramos,
juntamente com os vivos e com os defuntos, a Santa Missa sacrifício de
Cristo, de Quem brota a dádiva da caridade.
Sem a verdade, o amor seria cego. E por isso, aquele que deve preceder no amor,
recebe do Senhor a promessa: "Simão, Simão... roguei por ti, para que a tua fé
não desfaleça" (Lc 22, 31-32). O Senhor observa que Satanás procura
"joeirar-vos como trigo" (cf. Lc 22, 31). Enquanto esta prova diz
respeito a todos os discípulos, Cristo roga de maneira especial "por ti" pela fé
de Pedro; e é nesta oração que se fundamenta a missão: "Confirma os teus
irmãos". A fé de Pedro não deriva das suas próprias forças a indefectibilidade
da fé de Pedro baseia-se na oração de Jesus, Filho de Deus: "Roguei por ti,
para que a tua fé não desfaleça". Esta prece de Jesus constitui o fundamento
seguro do múnus de Pedro por todos os séculos, e a oração após a comunhão pode
justamente dizer que os Sumos Pontífices Paulo VI e João Paulo I confirmaram os
seus irmãos "com coragem apostólica": num período em que observamos como
Satanás "joeira como trigo" os discípulos de Cristo, a fé inabalável dos Papas
foi visivelmente a rocha sobre a qual se encontra a Igreja.
"Sei que o meu Redentor está vivo", diz o texto de Job na primeira leitura da
nossa Liturgia di-lo num momento de extrema provação; di-lo quando Deus se
esconde e parece ser o seu adversário. Coberto com o véu do sofrimento, sem
conhecer o seu nome e o seu rosto, Job "sabe" que o seu Redentor está vivo, e
esta certeza é a sua grande consolação nas trevas da prova. Jesus Cristo tirou o
véu que, para Job, cobria o rosto de Deus: sim, o nosso Redentor está vivo, e
"nós todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos
transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é
Espírito", afirma São Paulo (2 Cor 3, 18). O nosso Redentor está vivo tem
um rosto e um nome: Jesus Cristo. Os nossos "olhos contemplá-lo-ão" recebemos
esta certeza dos nossos Papas defuntos, que assim nos orientam "rumo à plena
posse da verdade", confirmando-nos na fé do nosso Redentor.
Amém!