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Artigo ilustrativo
sobre a Carta Circular sobre a Associação
do Opus Sanctorum Angelorum*

 

Com data de 2 de outubro de 2010, a Congregação para a Doutrina da Fé enviou aos presidentes das Conferências episcopais uma carta circular sobre a associação “Opus Angelorum”, carta depois publicada na edição portuguesa de L’Osservatore Romano, no dia 13 de novembro de 2010, p. 16. Nesta carta, a Congregação informa, em particular, sobre a aprovação do “Estatuto do Opus Sanctorum Angelorum” por parte da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e sobre a aprovação da “fórmula de uma consagração aos Santos Anjos para o Opus Angelorum” por parte da Congregação para a Doutrina da Fé. Parece, portanto, oportuno ilustrar brevemente a espiritualidade desta Obra dos Santos Anjos, a qual, assim como se apresenta hoje, é “uma associação pública da Igreja em conformidade com a doutrina tradicional e as directivas da Suprema Autoridade; difunde entre os fiéis a devoção aos Santos Anjos, exorta à oração pelos sacerdotes, promove o amor a Jesus Cristo na Sua paixão e a união à mesma” (Carta da CDF).

Qual é, portanto, a espiritualidade desta associação? E qual tem sido o seu caminho até ao estado atual, ao qual se refere a carta da Congregação para a Doutrina da Fé? O Opus Sanctorum Angelorum nasceu em Innsbruck, Áustria, no ano 1949. A Senhora Gabriele Bitterlich, esposa e mãe de três filhos, esteve na origem deste movimento. Desde o ano 1949, desenvolveu-se nela uma consciência pessoal sempre mais clara que o Senhor Jesus Cristo queria que os fiéis venerassem e invocassem mais os santos anjos e se abrissem à sua ajuda poderosa. Como autêntica cristã, porém, sempre professou a sua submissão em tudo à autoridade da Igreja. Naqueles anos, esta autoridade era o bispo de Innsbruck, Dom Paulus Rusch, com o qual sempre mantinha o contato. A partir do ano 1961, o Opus Angelorum estendeu-se a diversos países do mundo. Deste modo, a partir do ano 1977, foi a autoridade suprema da Igreja a examinar as doutrinas e práticas particulares do Opus Angelorum.

Com a aprovação do movimento, a Igreja reconheceu a validade fundamental da intuição fundadora da Senhora Bitterlich, mas, por outro lado, também constatou, no considerável conjunto de seus escritos, diversas doutrinas e, em particular, “teorias ... acerca do mundo dos anjos, dos seus nomes pessoais, dos seus grupos e funções”, “estranhas à Sagrada Escritura e à Tradição”, as quais “não podem servir como base para a espiritualidade e actividade de associações aprovadas pela Igreja”[1]. Uma vez que o Opus Angelorum obedeceu à Igreja, abandonando aquelas doutrinas e suas consequências práticas, este se apresenta hoje com toda a razão como um movimento eclesial chamado a colaborar, mediante o próprio carisma, na missão evangelizadora e salvífica da Igreja.

A base da sua espiritualidade é, portanto, a Palavra de Deus, a qual se encontra na S. Escritura e na Tradição viva da Igreja, que são autenticamente interpretadas pelo Magistério. Uma síntese da doutrina do Magistério a respeito do mundo angélico encontra-se no Catecismo da Igreja Católica (cf. CIC 328-336, 350-352).

Neste se lê, em primeiro lugar, que a “existência dos seres espirituais, não-corporais, que a Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé” (CIC 328). “Por todo o seu ser, os anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam "constantemente a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18,10), são "poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavra" (Sl 103,20)” (CIC 329); “são criaturas pessoais e imortais” (CIC 330).

Jesus Cristo não é somente o centro dos homens, mas também dos anjos: “Cristo é o centro do mundo angélico. São seus os anjos ... São seus porque foram criados por e para Ele ... São seus, mais ainda, porque Ele os fez mensageiros de seu projeto de salvação” (CIC 331). “Eles aí estão, desde a criação e ao longo de toda a História da Salvação, anunciando de longe ou de perto esta salvação e servindo ao desígnio divino de sua realização” (CIC 332). Por isso, este serviço se refere ao próprio Verbo encarnado e ao Seu Corpo na terra, a Igreja. “Desde a Encarnação até a Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é cercada da adoração e do serviço dos anjos. ... Protegem a infância de Jesus, servem a Jesus no deserto, reconfortam-no na agonia, embora tivesse podido ser salvo por eles da mão dos inimigos, como outrora fora Israel. São ainda os anjos que "evangelizam", anunciando a Boa Nova da Encarnação e da Ressurreição de Cristo. Estarão presentes no retorno de Cristo, que eles anunciam, a serviço do juízo que o próprio Cristo pronunciará” (CIC 333).

“Do mesmo modo, a vida da Igreja se beneficia da ajuda misteriosa e poderosa dos anjos” (CIC 334). “Em sua Liturgia, a Igreja se associa aos anjos para adorar o Deus três vezes Santo; ela invoca a sua assistência ... Além disso, festeja mais particularmente a memória de certos anjos (S. Miguel, S. Gabriel, S. Rafael, os anjos da guarda)” (CIC 335).

Deste modo, “desde o início até a morte, a vida humana é cercada por sua proteção e por sua intercessão. "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Ainda aqui na terra, a vida cristã participa na fé da sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus” (CIC 336). Com razão, portanto, a “Igreja venera os anjos que a ajudam em sua peregrinação terrestre” (CIC 352).

A particularidade da associação Opus Sanctorum Angelorum consiste no fato que os seus membros levam a devoção aos santos anjos àquele desenvolvimento pleno que se manifesta e se torna concreto numa “consagração aos santos Anjos”, à semelhança daquilo que se verificou na história da Igreja com relação à devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Coração imaculado de Nossa Senhora (consagração ao Coração de Jesus e de sua Mãe).

Através da consagração ao Anjo da Guarda entra-se na Obra dos Santos Anjos. A consagração aos santos Anjos é feita por aqueles membros que querem empenhar-se mais pelos fins espirituais do movimento. Esta consagração se entende como uma aliança do fiel com os santos anjos, isto é, como um ato consciente e explícito de reconhecer e levar a sério a sua missão e posição na economia da salvação. Como muitas espiritualidades têm as suas expressões típicas, por exemplo, o “Totus tuus” de Papa João Paulo II, assim a espiritualidade da consagração aos santos Anjos no Opus Angelorum poder-se-ia caracterizar com as palavras “cum sanctis angelis”, isto é, “com os santos anjos” ou “em comunhão com os santos anjos”.

De fato, na fé e na caridade teologal é possível uma “convivência” dos fiéis com os santos anjos como verdadeiros amigos[2] e assim também uma íntima colaboração espiritual com eles em vista da finalidade do desígnio salvífico de Deus com relação a todas as criaturas[3], já que por parte deles está garantida a cooperação em todas as nossas boas obras[4].

Esta convivência e colaboração espiritual dos fiéis com os santos anjos, na qual consiste propriamente, segundo o Estatuto supramencionado, a “natureza” do Opus Angelorum, exige obviamente não apenas a fé e o amor aos santos anjos – em primeiro lugar ao próprio Anjo da Guarda –, mas também a aplicação prudente dos critérios de “discernimento dos espíritos”. Aqui vem a propósito a seguinte explicação que se encontra no Compêndio do Catecismo da Igreja Católica [5]: “Como na visão da escada de Jacó – "Por ela subiam e desciam os anjos do Senhor" (Gn 28,12) –, os anjos são dinâmicos e incansáveis mensageiros, que ligam o céu à terra. Entre Deus e a humanidade não existe silêncio e incomunicabilidade, mas diálogo contínuo, comunicação incessante. E os homens, destinatários dessa comunicação, devem afinar esse ouvido espiritual para ouvir e compreender essa língua angélica, que sugere palavras boas, sentimentos santos, ações misericordiosas, comporta­mentos caritativos, relações edificantes.”

O Opus Angelorum fundamenta-se sobre a prontidão incondicional para servir Deus com a ajuda dos santos anjos e tem por finalidade a renovação da vida espiritual na Igreja com a ajuda deles, nas assim chamadas “direções (ou dimensões) fundamentais” de adoração, contemplação, expiação e missão (apostolado).

A ajuda dos santos anjos e a união dos homens com eles permitem a estes viver melhor a fé e também testemunhá-la com mais força e convicção. Os santos anjos, com efeito, contemplam continuamente a face de Deus (cf. Mt 18,10) e vivem em constante adoração. De modo particularmente eficaz podem, por conseguinte, iluminar os fiéis que se abrem conscientemente à sua ação, sendo estes fiéis ajudados por eles a contemplar na fé os mistérios divinos: Deus mesmo e as suas obras (theologia e oikonomia [6]), a crescer assim no conhecimento e no amor de Deus, a permanecer na Sua presença e a realizar uma adoração particularmente reverente e amorosa, dedicando-se à maior glorificação de Deus. A adoração, especialmente a adoração eucarística, ocupa, por isso, no Opus Angelorum o primeiro lugar.

Como o próprio Senhor Jesus Cristo foi fortalecido pelo Pai celeste através de um anjo para suportar a paixão redentora (cf. Lc 22,43), assim os membros do Opus Angelorum confiam na ajuda dos santos anjos para seguir Cristo com caridade expiadora pela santificação e salvação das almas, e particularmente pelos sacerdotes. Por isso, existe no Opus Angelorum também o piedoso exercício da “Passio Domini”, isto é, um tempo de oração semanal (quinta-feira à noite e sexta-feira à tarde), no qual os membros se unem espiritualmente ao Redentor no mistério da Sua paixão salvífica. Cristo crucificado e ressuscitado é, com efeito, o centro tanto dos homens como também dos santos anjos.

Com a aprovação do Opus Angelorum, a Igreja deu a bênção a um movimento que se caracteriza, sem dúvida, por uma devoção peculiar aos santos anjos, mas também e essencialmente – em conformidade com as propriedades características dos anjos – por uma orientação absoluta para Deus e seu serviço, para Cristo Redentor, a cruz, a Eucaristia, para a glória de Deus e pela santificação e salvação das almas. Em verdade, a consciência viva da presença e da ajuda misteriosa e poderosa dos santos anjos, servos e mensageiros de Deus, é capaz de levar os fiéis a se dedicarem confiadamente à primeira e substancial missão da Igreja: a salvação das almas para a glória de Deus.

 

* L’Osservatore Romano, edição semanal em português, número 12, 19 de Março de 2011, página 6-7.



[1] Cf. Decreto Litteris diei da Congregação para a Doutrina da Fé, de 6 de junho de 1992.

[2] Cf. São Tomás, Summa Theologiae II-II, q. 25, a. 10; q. 23, a. 1, ad 1.

[3] Cf. Cf. Ef 1,9-10; Cl 1,15-20; Jo 12,32; 17,21-23; Ap 10,7; 19,6-9.

[4] Cf. CIC 350: “"Ad omnia bona nostra cooperantur angeli. - Os anjos cooperam para todos os nossos bens" (Sto. Tomás de Aquino, S. Th. I, 114, 3, ad 3)“.

[5] P. 182: comentário a uma imagem de Jan Van Eyck, reproduzido na página anterior.

[6] Cf. CIC 236.

 

 

 

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