Eminentíssimos Senhores Cardeais
Excelentíssimos Senhores
Arcebispos e Bispos
Revendíssimos Sacerdotes
Irmãos e Irmãs em Cristo
As Leituras desta solene Concelebração eucarística, que acabámos de ouvir, são
três passagens da Sagrada Escritura que dão um profundo fundamento bíblico à
vocação e à missão de São José Maria Escrivá, pois sintetizam a grande
originalidade do carisma que o Espírito Santo suscitou nele em benefício de
toda a Igreja.
A primeira Leitura é tirada do Livro do Génesis, que faz uma reflexão
inspirada sobre as origens do mundo e da humanidade. Foram escolhidos os versículos
do capítulo 2 quando Deus, tendo criado o céu e a terra, e havendo criado também
o homem como coroação da sua obra, plantou um jardim no Éden e confiou-o ao
mesmo homem, para que o cultivasse e guardasse. É uma alusão ao trabalho
humano, que é colaboração com o Criador: cultivar, fazer progredir o
mundo criado; guardá-lo, ou seja, operar no respeito das finalidades para que
foi criado. É o opus hominis que é, ao mesmo tempo, opus Dei. São
José Maria Escrivá, levado por Deus, veio recordar-nos, neste século que
presta tanta atenção ao trabalho e ao meio ambiente, a dignidade de um e de
outro: digno o trabalho humano e digno o ambiente, porque colaboração
com o Criador o primeiro, e obra do mesmo Criador o segundo.
A segunda Leitura, da Carta de São Paulo aos Romanos, lembra-nos outra exigência
do operar humano: a de que deve ser feito com espírito de filhos
adoptivos de Deus, e não de escravos. O homem vive e actua neste mundo em íntima
união com Deus. Operando, ele torna-se herdeiro dos bens de Deus, herdeiro com
Cristo. Nesta intimidade espiritual, até as limitações humanas, causadores de
sofrimento, se tornam fecundas de felicidade e de glória futura. A obra do
homem torna-se, assim, verdadeira obra de Deus. A acção faz-se contemplação,
naquela integridade e síntese vital de ambas, que caracterizaram a vida e a
obra de São José Maria Escrivá.
Por fim, para o Evangelho foi escolhido o capítulo 5 de São Lucas, que narra a
vocação dos Apóstolos e a sua pronta resposta à chamada. O texto está a
dizer-nos que quem trabalha neste mundo na perspectiva acima dita, quem concebe
a própria actuação como colaboração na obra de Deus e como defesa da mesma,
e o faz em espírito de fé e em união com Deus, não só se santifica a si
mesmo, mas dá um fecundo testemunho; torna-se apóstolo, até com o seu
simples operar: verdadeiro sal da terra, fermento
da massa, luz do mundo.
São José Maria Escrivá não se contentou com santificar-se a si próprio;
fundou uma Obra eminentemente apostólica, tão necessária e querida por Deus,
que teve o extraordinário desenvolvimento que todos nós conhecemos. Foi apóstolo
e promotor de apóstolos.
Caríssimos, viestes a Roma com grande entusiasmo e força, para a canonização
do Fundador, São José Maria Escrivá de Balaguer; participastes domingo
passado no rito solene na Praça de São Pedro, e hoje nesta Eucaristia de acção
de graças. Fizeste-o, para que a mensagem do Santo continue a iluminar as
vossas vidas e a traduzir-se em frutos de santidade e de testemunho para o nosso
mundo tão carecido dessa inspiração.
A Igreja canoniza os seus filhos, não tanto para lhes acrescentar glória e
celebridade, quanto para fazer deles os nossos intercessores junto de Deus e,
sobretudo, os nossos modelos de vida. É a inspiração da mensagem específica
do Santo o que mais interessa à Igreja, quando ela eleva à glória dos altares
aqueles que o Espírito escolheu para lembrar e potenciar um ou outro valor
evangélico, que se chama carisma. Os Santos canonizados são da Igreja e para a
Igreja; não são luzeiros para esconder debaixo do alqueire, mas que ela levanta
bem alto para iluminar a todos.
A Igreja, através do ministério petrino, pela boca daquele que é a sua cabeça
e chefe visível, através do Santo Padre, apresentou à universalidade dos seus
membros - diria mesmo ao mundo inteiro - a figura e o carisma de um dos seus
filhos insignes, para que os fiéis e a humanidade encontrem nele uma inspiração
de vida, uma ajuda na realização da própria vocação e missão.
Uma canonização
torna-se, assim, uma verdadeira pregação e uma verdadeira catequese.
Aproveitemos a hora de graça que tivemos a oportunidade de viver nestes dias.
Demos um novo impulso ao que nos liga a São José Maria Escrivá e à sua obra.
Limito-me aos pontos realçados na Liturgia da Palavra e que acima referi. Eles
dão-nos um sugestivo quadro do Santo, da sua vida e da obra que nos deixou em
herança.
1) Segundo o espírito do Opus Dei, o trabalho, a actividade profissional que
cada um realiza no mundo, pode e deve ser santificado e tornar-se caminho de
santificação. Eis por que São José Maria Escrivá se dirigia a todas as
camadas da sociedade e por todas era escutado e seguido; eis por que o Opus Dei
se estendeu e cresceu de forma admirável, contendo no seu seio gente das mais
variadas camadas sociais e dos mais diversos ramos da actividade humana.
São José Maria Escrivá e a sua Obra estão a recordar que qualquer trabalho
honesto, independentemente do facto de ser relevante ou insignificante aos olhos
dos homens, é ocasião para dar glória a Deus e servir os outros.
A dignidade e santificação do trabalho, eis a primeira intuição e
ideia forte que gostaria de sublinhar nesta reflexão. Trabalhar numa
perspectiva de fé, conceber e realizar as próprias actividades - sejam elas de
destaque ou as mais simples e comezinhas - como colaboração com o Criador e
serviço aos irmãos. Quem trabalha com os olhos fixos em Deus abre-se
necessariamente aos irmãos e faz tudo em espírito de serviço, para o bem dos
mesmos. O mundo seria muito diferente, se o trabalho tivesse sempre esta dimensão!
Compete-nos a nós colaborar para que assim seja.
As ocupações e preocupações da nossa vida quotidiana não devem ser vistas
como outras tantas razões de separação entre nós e Deus, e entre uns e
outros, uma espécie de dispensa da perfeição cristã mas, ao contrário, como
a matéria própria e mais adequada da nossa santificação, desde que tudo seja
orientado pela caridade, pelo espírito de serviço e pelo carácter sacerdotal,
comum a todos os baptizados.
A humanidade não pode ser dividida em duas categorias: os perfeitos e os
imperfeitos, os chamados à santidade e os chamados apenas à não-condenação...
Como se o Senhor não se tivesse dirigido a todos, quando disse:
"Sede perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito" (Mt 5,48).
2) O segundo ponto que gostaria de realçar é o da intimidade com Deus; por
outras palavras, a necessidade de uma vida de oração e de contemplação, que
complete e fecunde o nosso trabalho. São José Maria Escrivá foi um homem de
Deus, e foi-o porque Deus fazia parte da sua vida, uma parte consciente e
envolvente. Foi certamente um apaixonado de Deus e deve ter enchido a sua vida,
não só de acção, mas tambem de oração; caso contrário, todos os seus
projectos teriam terminado num sonho.
Os Santos foram, acima de tudo, homens e mulheres de vida interior. Sentiam-se
filhos adoptivos de Deus; faziam de Deus o seu tudo, a sua força e a sua herança.
É, aliás, a mensagem da segunda Leitura.
São José Maria Escrivá deu à sua obra o sugestivo nome de Opus Dei; uma
obra, e nessa palavra estava inserido o conceito de trabalho, de operosidade;
mas era obra de Deus e, para ser de Deus, devia realizá-la com os olhos e o
coração fixos em Deus: oração, adoração e contemplação.
Os Santos fundadores de obras foram aqueles que melhor realizaram a síntese de
vida activa e vida contemplativa, os que melhor integraram os modelos de Marta e
de Maria.
Um dos segredos da grande expansão da Obra de Escrivá foi certamente a
espiritualidade que ele procurou incutir nos seus membros. São conhecidos o
espaço e valor que a Prelatura dá à vida sacramental e à ascese, nas suas
casas e nos seus membros. A vida espiritual, a vida interior, a vida de oração,
são uma exigência levada e praticada muito a sério no Opus Dei.
3) Finalmente, e refiro-me sempre à Liturgia da Palavra da Missa, um apelo ao
apostolado. No Éden, Deus pediu a colaboração do homem; Ele, que tudo criou
do nada, quis recorrer à acção do homem; seria ele a dar continuidade à criação
e a defendê-la. No texto do Evangelho, há pouco proclamado, vemos Jesus
evangelizar a multidão e terminar a sua pregação, recorrendo à colaboração
de alguns pescadores ali presentes: Pedro, André, Tiago e João. Fê-los
pescadores de homens, também eles evangelizadores. Ainda mais: no seu desígnio,
deveriam ser eles a colher os frutos da Boa Nova por Ele anunciada. As grandes
conversões começaram no dia de Pentecostes, por obra destes pescadores que, além
de ser rudes pescadores, eram também pecadores. "Afasta-te de mim, que sou
um homem pecador" - confessou Pedro, no primeiro encontro com Jesus. E
sabemos qual foi a resposta de Jesus: de pescador pecador, fê-lo seu apóstolo,
e que apóstolo!
Deus precisa de nós na sua obra de salvação. Daí que a Igreja seja
sacramento de salvação; daí a vocação universal à santidade, que é vocação
e ao mesmo tempo missão: santidade, não apenas pessoal e particular, mas
para irradiar e santificar os outros.
Todo o baptizado tem o direito e o dever de ser apóstolo.
Esta é a sua vocação e missão na
vida e neste mundo.
São José Maria Escrivá trabalhou para santificar os seus irmãos,
independentemente da sua posição social para que eles, santificando-se, se
tornassem, por sua vez, santificadores; para que eles, com a santidade do seu
trabalho, se tornassem para todos sal, fermento e luz.
A canonização de José Maria Escrivá é uma ocasião privilegiada para
recordar e renovar este seu carisma, de tão grandes importância e actualidade.
Que o novo Santo, a nós tão próximo e caro, nos ajude a santificar as nossas
vidas e trabalhos de cada dia, convertendo-nos em testemunho e inspiração de
santidade para os nossos irmãos, para a Igreja e para o mundo.