1. Na igreja de Santa Maria da Alma que, aqui em Roma, é a igreja nacional
alemã, encontra-se o túmulo do Sumo Pontífice Adriano VI, conhecido porque
durante muitos séculos permaneceu o último Papa não italiano. No seu monumento
sepulcral está gravado o seguinte epitáfio:"Infelizmente muito influem as
condições dos tempos sobre a eficácia das virtudes, também do melhor dos
homens". Este epitáfio refere-se de modo negativo às condições dos tempos em
que Adriano VI viveu, mas contém também um apreço muito positivo a propósito das
virtudes exímias que ele praticou, precisamente nas adversas condições da sua
época.
Pois bem, se há uma nota predominante na célebre figura do Cardeal Clemens
August von Galen, Bispo de Monastério, cuja beatificação hodierna enche os
nossos corações de alegria, é precisamente o facto de ter praticado as virtudes
do cristão e do Pastor, de modo eminente e heróico, num período muito difícil
para a Igreja e para a nação alemã. Nessa época, a Alemanha estava sob o domínio
do nacional-socialismo. A Diocese de Monastério pode justamente gloriar-se de
ter tido como Bispo, na cátedra de São Ludgero, um Pastor que se opôs
intrepidamente contra a ideologia desprezadora da humanidade e contra a máquina
da morte do Estado nacional-socialista, a ponto de ter merecido o apelativo de
"Leão de Monastério".
2. Clemens August von Galen nasceu no dia 16 de Março de 1878, no castelo de
Dinklage, na região de Oldenburg, nos arredores de Monastério. Cresceu num
ambiente rural, numa grande família impregnada da vida eclesial e social do seu
tempo. Tendo concluído a escola e os estudos, foi ordenado Sacerdote em 1904.
Durante dois anos foi Capelão da Catedral de Monastério e Secretário do seu tio,
Bispo Auxiliar D. Maximiliam Gereon von Galen. Uma das maiores mudanças da sua
vida foi a transferência para Berlim. Durante 23 anos teve que enfrentar o
difícil período da primeira guerra mundial e as desordens da República de Weimar,
com as suas graves consequências sociais. Em 1929 foi nomeado Pároco da igreja
paroquial de São Lamberto em Monastério. A segunda mudança mais importante da
sua vida foi a sua inesperada nomeação como Bispo de Monastério, no Outono de
1933.
3. O Bispo D. Clemens August Conde von Galen foi um dos mais conhecidos
representantes da oposição da Igreja contra o injusto regime
nacional-socialista. Se nos perguntarmos de onde vinha a coragem de repreender
publicamente os nazistas, com argumentos muito claros, porque eles violavam os
direitos humanos fundamentais, e como ele conseguiu perseverar nesta denúncia,
deveremos considerar três grandes factores que contribuíram para a sua forte
personalidade de homem, primeiro de crente e depois de Bispo.
Eles são: a Família, a Fé e a Política, sem contudo jamais perdermos de
vista o facto de que a atitude do Beato brotava das suas profundas virtudes
cristãs.
Clemens August vinha de uma família, por grande tradição ligada tanto à
Igreja como à vida pública. O pai interessava-se pelas questões públicas e a mãe
cultivava a união familiar: estas realidades ofereceram a Clemens August e aos
seus irmãos uma segurança e uma base para a vida, o que fez com que mais tarde,
e de modo bastante inesperado, ele se superasse a si mesmo e a tradição do
ambiente em que tinha nascido.
A vida da família von Galen era tradicionalmente muito orientada no sentido
da responsabilidade pública em relação a todos os homens, na Igreja e na
sociedade. À mesa da família no castelo de Dinklage, além de um colóquio
familiar e da recitação do rosário, falava-se também de política, a propósito da
qual oferecia constantemente ocasião a actividade do pai, que era deputado do
Reichstag em Berlim.
Indubitavelmente, ele só conseguiu fazer isto graças a uma espiritualidade
profunda e, ao mesmo tempo, simples, claramente fundamentada sobre a Eucaristia
e sobre a devoção à Mãe de Deus.
Em contraste com os sons ensurdecedores da música marcial e das frases vazias
dos alto-falantes provenientes das tribunas oratórias, ele contrapôs a veneração
da sagrada Eucaristia, a silenciosa adoração contemplativa do Senhor que se fez
pão. Diante do Senhor presente sacramentalmente no pão eucarístico, em aparência
indefeso e tão pouco reconhecível, ele encontrou a força e o alimento, que só
podiam saciar de modo duradouro o desejo de vida dos homens. A força unificadora
da vida espiritual no novo Beato foi a sua fé profunda e viva, vivificada por
uma caridade concreta para com todos, especialmente os sofredores. A sua
espiritualidade, inspirada no Evangelho, permitiu a von Galen ser transparente
no seu papel público. Todas as suas acções e todas as suas virtudes emanavam da
sua fé vivida.
4. Desde o início da sua actividade pastoral em Monastério, o Bispo D. von
Galen já tinha desmascarado a ideologia nazista e o desprezo que ela alimentava
pelos homens. Em plena época de guerra, ou seja, no Verão de 1941, ele
criticou-a ainda mais duramente nos meses de Julho e de Agosto daquele ano,
proferindo três pregações que se tornaram famosas. Nelas, chamou a atenção para
o fechamento forçado dos conventos e o aprisionamento dos religiosos.
Pronunciou-se com vigor contra a deportação e a destruição daquelas vidas
humanas das quais o regime afirmava que não eram dignas de serem vividas, isto
é, os portadores de deficiências mentais. As inflamadas palavras do Bispo
atingiram profundamente a máquina de morte do nacional-socialismo.
Estas argumentações tão claras enfureceram os governantes nazistas, que não
sabiam o que fazer porque, por causa da extraordinária autoridade do Bispo D.
von Galen, não ousavam prendê-lo ou matá-lo.
Não se tratava de uma coragem inata, nem sequer de uma temeridade exagerada.
Somente de um profundo sentido de responsabilidade e uma visão clara do que era
justo e do que não era, podiam induzir o Bispo D. Clemens August a pronunciar
aquelas palavras. Elas convidam-nos a reflectir sobre a luminosidade do seu
testemunho de fé; convidam-nos, a nós que vivemos numa época talvez
aparentemente menos ameaçadora, mas não menos problemática em relação à vida
humana, a imitar o seu exemplo.
Reflectindo sobre aquilo que aconteceu nessa época, o Cardeal von Galen
repercorreu depois tudo isto, com o pensamento, em 1946, dizendo: "O bom Deus
confiou-me uma posição que me obrigava a chamar preto àquilo que era preto, e a
chamar branco àquilo que era branco, como se diz na ordenação episcopal. Eu
sabia que podia falar em nome de milhares de pessoas que, juntamente comigo,
estavam convencidas de que somente sobre o fundamento do Cristianismo o nosso
povo alemão pode permanecer verdadeiramente unido e alcançar um futuro
abençoado".
5. Estimados peregrinos e peregrinas alemães, cheios de reconhecimento
podemos contemplar esta grande personalidade da vossa Pátria. O Beato Bispo D.
Clemens August compreendeu quem é o nosso Deus e nele depositou toda a sua
esperança (cf. Is 25, 9). Quando era pároco, primeiro, e depois Bispo,
não poupou esforços no seu ministério pastoral; soube suportar privações (cf.
Fl 4, 12) e estava disposto a dar a sua vida pelo serviço aos homens. Com
efeito, ele estava plenamente consciente da sua responsabilidade diante de Deus.
Por isso, o Senhor tornou-o partícipe das riquezas da sua glória (cf. Fl
4, 19), de que nos falou São Paulo na carta aos Filipenses, que acabámos de
ouvir. Na fé estamos convictos de que ele foi chamado e eleito para participar
no banquete nupcial da perfeição da glória divina. Banquete nupcial sobre o qual
nos faz meditar a maravilhosa parábola de Jesus, proposta pelo Evangelho da
hodierna liturgia (cf. Mt 22, 1-14).
Desejo felicitar a Diocese de Monastério pelo facto de que, precisamente no
ano em que recorda a sua erecção, ocorrida há 12 séculos, ela pode celebrar com
alegria e orgulho esta Beatificação aqui, junto do Túmulo do Apóstolo Pedro,
como que para confirmar as próprias raízes apostólicas, alicerçando-se ainda
mais no magistério do Vigário de Cristo, hoje por graça de Deus Bento XVI. Que o
novo Beato seja um encorajamento para a Diocese de Monastério, para ter sempre
viva a sua herança rica e sempre actual, tornando-a fecunda para os homens dos
nossos tempos.
O Senhor queira abençoar, por intercessão do novo Beato, a querida e
veneranda Diocese de Monastério e toda a Igreja na Alemanha.