1. Este quarto domingo da Páscoa é chamado do "Bom Pastor" devido ao
trecho evangélico proposto, no qual aparece a alegoria ou comparação do pastor.
Neste contexto litúrgico celebra-se o Dia Mundial de Oração pelas Vocações.
O breve trecho do Evangelho há pouco proclamado, está enquadrado no contexto do
capítulo 10 de João, onde Jesus, ao dirigir-se explicitamente a quem não crê, dá
uma definição de Si que manifesta o seu ser divino: "Eu sou o Bom Pastor".
"Eu sou" é uma forma de revelação que evoca o Nome de Deus Salvador
revelado a Moisés. Jesus aplica-o a Si. É típico de João fazer dizer a Jesus: Eu
sou; Eu sou a vida; Eu sou a luz do mundo; Eu sou o pão da vida; etc. (8,
28.58; 13, 19; cf. 6, 20; 18, 5-8).
Eu sou o Bom Pastor, o belo pastor, o verdadeiro pastor, diferentemente de
outros que não o são porque não cuidam do rebanho; são mercenários que fogem
diante do perigo e abandonam a grei, que se dispersa e se perde; de facto, Jesus
afirma aos seus ouvintes "Vós não acreditais porque não sois minhas ovelhas,
seguis outro pastor, a morte".
No Oriente, na verdade, o pastor nada tinha de idilíaco; era um nómade rude,
capaz de defender a grei contra os animais selvagens e os predadores (cf.
1 Sm 17, 34.35). Jesus pronuncia estas palavras pensando no trágico combate
da sua Paixão quando entregará a sua vida e a perderá para que o rebanho viva
(cf. Jo 10, 12.15). E com isto quer reforçar a fé dos seus discípulos
amedrontados: o poder do bom Pastor é superior a todos os ladrões e
salteadores. A Igreja tem como centro da própria fé um Deus poderoso, mas
sobretudo um Deus que ama tanto o homem que dá a própria vida para que ele
viva. Por isso, não se pode esquecer jamais que o amor torna
vulnerável também o Senhor.
E com este acto supremo o pastor vincula-se indissoluvelmente ao seu rebanho. No
trecho hodierno Jesus afirma: "As minhas ovelhas escutam a minha voz e eu
conheço-as e elas seguem-me".
A referência à ovelha não tem o significado pejorativo de passividade, de
espírito gregário que poderíamos atribuir à mentalidade de hoje; antes, a
imagem bíblica é exactamente o inverso.
2. Os três verbos pronunciados por Jesus são de acção muito personalizada:
escutar, conhecer e seguir com os quais indica o movimento da fé que pode
preencher a nossa necessidade de vida plena e feliz à qual aspiramos. Através
desta constelação de palavras ligadas entre si por um fio luminoso e espiritual,
pode-se construir a história integral da vocação cristã. Em especial, como
veremos daqui a pouco, nelas podemos encontrar traçado o caminho que levou a
nova Beata Maria Rosa Pellesi à santidade.
"Escutar": é a atitude essencial na relação entre duas pessoas. Os profetas
não cessavam de exortar Israel a escutar "Escuta Israel!" (Dt 6-4; Am
3, 1; Jr 7, 2; Sir 29, 3.9). Escutar é o início da fé. João
apresenta Jesus como o Verbo a Palavra que o Pai diz ao mundo "Este é o meu
filho predilecto, escutai-o!" (Mt 17, 5). A escuta em sentido bíblico é
repleta de ressonâncias que implicam a adesão jubilosa, a obediência, a escolha
de vida.
Eis então que se estabelece uma comunhão íntima e profunda entre Cristo e quem o
segue: é definida por uma grande palavra bíblica, "conhecer" que abrange
mente, coração, acção de toda a pessoa humana, e tornou-se, nas palavras do
Jesus de João a própria definição da vida eterna: "A vida eterna é
conhecer-te, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo"
(cf. Jo 17.3). Portanto, escutar Cristo conduz a fazer-se conhecer e a
conhecer Deus no sentido há pouco recordado para seguir Cristo, o único Pastor,
num seguimento quotidiano e contínuo, do qual os santos são uma prova admirável
e concreta.
"Seguir", portanto, é outro verbo que nada tem de passivo! Nenhum outro
supõe tanta liberdade quanto o seguir pois significa aderir com toda a pessoa ao
Outro. É unir-se de maneira convincente até reconhecer a voz, o passo, os
desejos, até entrar numa comunhão sem regresso, até abraçar o destino do outro
porque quem ama só pode ser fiel, aliás feliz, que o outro determine a sua vida,
até às extremas consequências do amor.
3. É também deveras tranquilizadora a garantia que Jesus nos dá "As minhas
ovelhas jamais se perderão e ninguém as arrebatará das minhas mãos". Nem das
suas mãos nem daquelas do Pai. Estamos nas melhores mãos que possam existir: as
mãos do Senhor, as mesmas mãos que estendia sobre os doentes, com as quais
acariciava as crianças, a mão que era oferecida a Pedro para que não afogasse no
mar, a mão que elevou o Pão da vida na última ceia, as mãos estendidas sobre a
cruz, as mãos feridas pelos cravos mostradas a Tomé.
Todos nós, caríssimos fiéis, fomos colocados pelas mãos do Pai Bom nas mãos do
Pastor Bom e chamados a alcançar quantos nos precederam na vitalidade da fé,
aqueles "com palmas nas suas mãos" (Ap 7, 9). É a palma que Jesus
entrega, através da Igreja, à sua esposa Rosa Pellesi, ao beatificar esta
religiosa pouco conhecida, talvez, mas que agora poderá difundir o fascínio que
promana do seu caminho de virgem franciscana.
Nas mãos do Senhor Crucificado e Ressuscitado Rosa Pellesi manteve-se sempre e
pela mão do Filho de Deus Vivo fez-se orientar, sustentar, sem jamais se perder
e fazendo de modo que não se desatasse o vínculo de Cristo, ao qual estava
ligada, tornando-se uma obra-prima de humanidade e amor, de abandono e
obediência, de mansidão e fortaleza.
4. A Palavra de Deus da hodierna liturgia é a moldura ideal, como se tivesse
sido escolhida de propósito, para colocar a Beata Maria Rosa Pellesi, que
ilumina a santidade da sua vida, revestindo-a de luz evangélica.
Nos longos 27 anos de vida no sanatório, obrigada à reclusão forçada mas
heroicamente acolhida, desdobra-se nela o abismo do Mistério da paixão, morte e
ressurreição de Cristo que se transmite a ela e, como tal, chama-a a passar
através da grande tribulação, deixando que as suas vestes fossem lavadas,
tornadas cândidas com o sangue do Cordeiro a quem Maria Rosa une, sem reservas,
o seu holocausto, segundo quanto nos apresentou, na segunda leitura, a
esplêndida página do Apocalipse.
Basta pensar que as costas da encantadora moça de Pigneto foi perfurada não por
centenas, mas por milhares de toracocenteses para a extracção do líquido contido
na cavidade pleural, sem que jamais testemunham-no os médicos ainda vivos tenha
saído um só lamento da sua boca.
Era identificada no silêncio de Jesus, o cordeiro mudo conduzido ao matadouro,
segundo a narração de Isaías: "Foi maltratado e resignou-se, não abriu a
boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha emudecida nas mãos do
tosquiador" (Is 53, 7).
Como símbolo da crucifixão da sua carne permaneceu-lhe, por 17 anos, cravado no
tórax, um fragmento de agulha quebrada devido a um erro médico, durante a
quotidiana extracção a qual como humilde ovelha assim desejava ser chamará "a
minha lança". A crucifixão, na imagem da Irmã Maria Rosa aqui exposta, está
simbolizada pela coroa de espinhos que com feliz intuição lhe foi colocada sobre
o peito no acto de apertar-lhe o coração.
São Paulo recordou-nos na primeira Leitura, que acabámos de ouvir:
"Estabeleci-te como luz das nações para levares a salvação até aos confins da
Terra". A Beata Maria Rosa, embora fechada num angusto hospital, pairava com
o anseio missionário de Cristo sobre a humanidade e dizia: "Gostaria de
abraçar o mundo", e antes de morrer exclamou: "mando um beijo a toda a
humanidade".
É o seu grito de missionária do amor; é o completamento em si daquilo que falta
à paixão de Cristo e ao sonho de Cristo para que n'Ele todos sejamos um
só.
Se existe um sinal imediato de reconhecimento da Irmã Maria Rosa este é
certamente o sorriso que se tornava a primeira caridade para quem vivia com ela,
mas que se traduzia também em gestos humanos humilíssimos e fortes de escuta,
paciência, serviço que lhe requeriam um preço elevado de abnegação e de dom de
si: "O meu coração está apertado, não obstante eu sou feliz, muito feliz;
iniciei a minha vida no sanatório chorando mas pedi ao Bom Deus para a terminar
cantando as suas misericórdias".
No cortejo das santas Virgens que seguem o Cordeiro onde quer que Ele vá
acrescentou-se uma nova presença: a Beata Maria Rosa, sinal certo de que a
orientação seguida por ela leva deveras à autêntica santidade.
A Beata Maria Rosa, colocada pela Igreja sobre o candelabro, exorta-nos à
esperança e a não nos deixarmos esmorecer pelos nossos limites e culpas, porque
Deus nada deixa incompleto. Rezemos também nós, como ela pedia para si mesma:
"Que Jesus Senhor aja em mim a fim de construir sobre os escombros da minha
miséria, aquela obra-prima que Ele determinou desde a Eternidade". A
obra-prima da perfeição evangélica, a obra-prima da própria santificação.