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PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS

Os passos do caminho ecuménico com a Igreja ortodoxa

Unidos na promoção do diálogo

 

Andrea Palmieri*

 

Em 2012 teve continuação o caminho de preparação de uma nova sessão plenária da Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa no seu conjunto. A última sessão plenária da Comissão mista teve lugar em Viena, no ano de 2010. No final daquele encontro foi  posta de lado a ideia de redigir um documento comum a respeito do primado do Bispo de Roma na comunhão da Igreja do primeiro milénio, que deveria aprofundar a reflexão a propósito da afirmação central contida no documento de Ravena, intitulado As consequências eclesiológicas e canónicas da natureza sacramental da Igreja. Comunhão eclesial, conciliaridade e autoridade (2007), acerca da necessidade de um primado na Igreja, também a nível universal. Tal decisão é devida às dificuldades de alcançar interpretações compartilhadas dos testemunhos históricos, principalmente patrísticos canónicos, a respeito desta temática. Naquela mesma sessão plenária, os seus membros comprometeram-se em dar continuidade aos trabalhos da Comissão, com a preparação de um novo texto sobre a relação teológica e eclesiológica entre primado e sinodalidade.

Seguindo as indicações da sessão plenária, deu-se início a um complexo percurso em vista da redacção do documento. Em Junho de 2011 reuniu-se em Rethymno, na ilha de Creta, um grupo redaccional para preparar um texto que deveria ser submetido ao exame do Comité de coordenação da Comissão mista internacional. O estudo do texto começou durante uma reunião realizada em Roma, no mês de Novembro de 2011, mas não foi possível completar todo o trabalho. O Comité de coordenação  da Comissão mista internacional reuniu-se novamente de 19 a 23 de Novembro de 2012, em Paris, graças à hospitalidade generosa oferecida pelo metropolita da França, Emmanuel Adamakis, do Patriarcado ecuménico. Nessa reunião, que foi co-presidida pelo cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e pelo metropolita de Pérgamo, Ioannis Zizioulas, do Patriarcado ecuménico, estavam também presentes sete membros católicos, e nove ortodoxos, em representação do mesmo Patriarcado ecuménico, do Patriarcado greco-ortodoxo de Alexandria, do Patriarcado greco-ortodoxo de Jerusalém, do Patriarcado de Moscovo, do Patriarcado da Sérvia, do Patriarcado da Roménia, da Igreja de Chipre e da Igreja da Grécia. Depois de uma longa e atenta análise do texto, o Comité de coordenação chegou a um consenso substancial sobre o facto de que o esboço de tal documento, corrigido em diversos pontos, pode ser apresentado para uma próxima sessão plenária da Comissão mista internacional. Além disso, tratando-se de um texto ainda provisório, os membros do Comité foram unânimes ao estabelecer que o esboço deste documento permaneça sob embargo até que a Comissão mista decida a propósito da sua publicação. Durante a reunião de Paris, por motivos práticos, não foi possível estabelecer datas específicas para a próxima sessão plenária da Comissão mista internacional, mas foi proposto que tal encontro tenha lugar no final de 2013 ou então no início de 2014.

A conclusão do processo de redacção do texto a respeito da relação entre primado e sinodalidade, na vida da Igreja nos planos local, regional e universal, representa um resultado certamente positivo, que se espera possa oferecer um contexto teológico e eclesiológico para enfrentar sucessivamente a espinhosa questão da modalidade do primado do Bispo de Roma a nível universal, quando for finalmente restabelecida a comunhão plena entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. A preparação deste texto exigiu um trabalho prolongado e complexo enquanto, através de uma apresentação franca das próprias posições e de um confronto destinado a esclarecer os pontos essenciais, procurou-se fazer sobressair aquilo que é possível afirmar juntos, católicos e ortodoxos, a respeito da temática delicada em questão, seguindo a metodologia que a Comissão mista internacional se propôs desde a sua instituição em 1980, em vez de se limitar a expor de maneira comparativa as diferenças que ainda nos separam. Esta escolha metodológica pressupôs um esforço, por assim dizer, teologicamente criativo para encontrar, sem atraiçoar de modo algum a doutrina da fé, novas formas de expor em conjunto o património tradicional da Igreja católica e da Igreja ortodoxa, ultrapassando assim as oposições polémicas e apologéticas que, ao longo dos séculos, foram desenvolvidas por ambas as partes.

Será sobretudo a Comissão mista internacional, na sua próxima sessão plenária, que avaliará se tal passo foi adequadamente dado no esboço do documento que será examinado naquela circunstância. Sob este ponto de vista, objectivamente, não faltam dificuldades, não porque subsiste uma determinada diversidade na abordagem da temática em questão entre católicos e ortodoxos, mas também porque existem diversos pontos de vista a respeito desta questão no contexto das próprias delegações. Um vigoroso encorajamento a continuar o diálogo entre católicos e ortodoxos foi manifestado pelo Papa Bento XVI na sua mensagem enviada ao Patriarca ecuménico Bartolomeu, transmitida por uma delegação oficial da Santa Sé por ocasião da festa do apóstolo santo André, padroeiro do Patriarcado ecuménico de Constantinopla, celebrada no dia 30 do passado mês de Novembro no Fanar, em Istambul. O Santo Padre, consciente dos progressos até agora alcançados mas também das dificuldades ainda existentes, reiterou a importância de proceder juntos com confiança ao longo do caminho que conduz ao restabelecimento da comunhão plena: «Ao logo deste caminho, graças também ao apoio assíduo e concreto de Vossa Santidade, pudemos realizar muitos progressos, pelos quais lhe estou deveras grato. Mesmo se o caminho a percorrer pode parecer ainda longo e difícil, a nossa intenção de prosseguir neste rumo permanece invariável, confortados pela oração que nosso Senhor Jesus Cristo dirigiu ao Pai: “Para que em nós  também eles sejam um só, a fim de que o mundo creia” (Jo 17, 21)».

Um motivo de grande esperança, em vista de progressos ulteriores neste diálogo, deriva inclusive dos recentes desenvolvimentos relativos à próxima convocação do grande Sínodo pan-ortodoxo. A este propósito o Patriarca ecuménico, no discurso dirigido à delegação da Santa Sé no encerramento da celebração da festa de santo André, como pudemos recordar acima, assim se expressava: «A nossa santa Igreja ortodoxa encontra-se na jubilosa posição de poder anunciar que os preparativos para o seu santo e grandioso Sínodo foram quase completados, estão na sua fase final e em breve o mesmo será convocado. Pronunciar-nos-emos, entre outras temáticas, sobre as questões relativas ao diálogo entre a ortodoxia e as demais Igrejas, e tomaremos decisões adequadas na unidade e na autenticidade, com a finalidade de proceder rumo à unidade de fé na comunhão do Espírito Santo».

Aquilo que foi levado a cabo durante o ano de 2012 adquire um sentido particular à luz do quinquagésimo aniversário da inauguração do Concílio Vaticano II que, como se sabe, foi celebrado no dia 11 do passado mês de Outubro. Com efeito, o Vaticano II deu início a um período renovado nas relações entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa, e deste modo abriu o caminho para a instituição da Comissão mista internacional para o diálogo teológico. Significativamente o Papa Bento XVI, saudando os membros da delegação do Patriarcado ecuménico vindos a Roma para participar nas celebrações em honra dos santos apóstolos Pedro e Paulo, padroeiros da Cidade e da Igreja de Roma, no dia 29 de Junho do ano passado, afirmava: «Foi precisamente em concomitância com esse Concílio no qual, como bem sabeis, estavam presentes alguns representantes do Patriarcado ecuménico, na qualidade de Delegados fraternos, que teve início uma nova fase importante das relações entre as nossas Igrejas. Desejamos louvar ao Senhor antes de tudo pela redescoberta da fraternidade profunda que nos une, e inclusive pelo caminho percorrido ao longo destes anos pela Comissão mista internacional para o diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa no seu conjunto, com os votos de que se possam alcançar progressos também nesta fase actual». Um sinal particularmente eloquente da profundidade das relações que vinculam a Igreja católica à Igreja ortodoxa é, sem dúvida, a presença do Patriarca ecuménico  Bartolomeu ao lado do Papa Bento XVI no adro da basílica de São Pedro no Vaticano, durante a celebração eucarística na manhã de 11 de Outubro de 2012, por ocasião da comemoração do quinquagésimo aniversário da inauguração do Concílio Vaticano II o e do início do Ano da fé. Na saudação que o Patriarca ecuménico dirigiu ao Santo Padre e a todos os presentes, antes do encerramento da santa missa, entre outras coisas ele observou que «no decurso das últimas cinco décadas, as conquistas alcançadas por esta assembleia foram diversificadas. Pudemos contemplar a renovação do espírito e o “retorno às origens” através do estudo litúrgico, da investigação bíblica e da doutrina patrística. Pudemos apreciar o esforço gradual de nos libertarmos do rígido limite académico em relação à abertura do diálogo ecuménico que levou às recíprocas ab-rogações das excomunhões, à troca dos bons votos, à restituição das relíquias, ao início de diálogos importantes e às visitas às nossas respectivas Sedes». Por conseguinte, o compromisso profuso, ao longo do ano que há pouco terminou, em ordem à continuação do trabalho inestimável da Comissão mista internacional pode ser considerado como um pequeno passo em frente na longa viagem rumo à plena comunhão visível entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa. Embora o caminho não pareça desimpedido de obstáculos, devemos alegrar-nos pelo facto de que este caminho continua. A constatação da disponibilidade sincera da parte dos católicos e dos ortodoxos, de prosseguir neste rumo, bem como a profunda confiança na obra da Graça que age na nossa história, permitem manter viva até hoje a esperança, cultivada pelos padres conciliares «de que, demolindo o muro que separa a Igreja ocidental da oriental, haja finalmente uma única morada, assente na pedra angular, Jesus Cristo, que fará de ambas uma só coisa» (Unitatis redintegratio, n. 18).

 

 

*Subsecretário do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos

    

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