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PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS

Diálogo com a Federação luterana mundial
e com a Conferência dos bispos veterocatólicos da União de Utrecht

Compromisso comum em prol da renovação 

Mons. Matthias Türk

 

A cristandade protestante é um caminho rumo à comemoração dos 500 anos da reforma, que terá lugar em 2017. Neste contexto, a «Década em honra de Lutero», organizada na Alemanha, reúne impulsos reformadores que chegam até ao presente e assim adopta um conceito moderno de Reforma, no sentido de uma reforma que deve ser actualizada continuamente. Isto acontece em virtude da convicção de que entretanto a Reforma se tornou cidadã do mundo. Na abordagem católica de tal comemoração trata-se de entender o que se deve festejar: o início da disputa sobre as indulgências, a afixação das noventa e cinco teses do reformador alemão Martinho Lutero, o início do conflito entre Lutero e os seus opositores, o conflito com o Papa, o início da Reforma ou até da época das reformas, o início da era moderna e do iluminismo, a nova interpretação protestante da tradição cristã, a divisão da cristandade ocidental? Com esta última acepção, ou até antes com as outras, eis que o significado de «aniversário», «comemoração» e «divisão da cristandade» se torna problemático. A isto refere-se também a afirmação do conhecido teólogo protestante Wolfhart Pannenberg: «A divisão da Igreja no século XVI não pode ser entendida como o sucesso da Reforma, mas só como a expressão da sua falência temporária; de facto, a Reforma visava a renovação de toda a Igreja, com referência à sua origem bíblica».  

Assim, em vista de 2017, católicos e protestantes podem tentar sanar as consequências negativas da divisão da Igreja actuando juntos, no nosso tempo, as aspirações positivas da Reforma. Católicos e protestantes já têm em comum posições fundamentais que poderiam ser expressas conjuntamente da seguinte maneira: 1) deploramos a divisão da Igreja ocidental que se seguiu à Reforma e trabalhamos juntos com a finalidade de a superar; 2) juntos queremos conferir uma forma visível à unidade da Igreja; 3) o aniversário da Reforma (2017) representa um desafio sob o ponto de vista espiritual e teológico, no sentido de que nos chama a aproximar-nos das aspirações de Lutero e da Reforma numa comemoração comum, na perspectiva da unidade da Igreja.  

Contudo, nos bastidores dos debates, multiplicam-se vozes que expressam insatisfação em relação ao modo como são tratadas as questões relativas à família e à sexualidade num número crescente de Comunidades eclesiais pertencentes aos países do hemisfério setentrional. Por exemplo, já em 2010, alguns luteranos conservadores dos Estados Unidos separaram-se da Evangelical Lutheran Church in America (ELCA) e fundaram uma nova comunidade luterana norteamericana, a North American Lutheran Church (NALC). O motivo é a decisão tomada pela ELCA em 2009 de permitir a ordenação de teólogos que vivem em relação homossexual.  

Quanto ao diálogo internacional com os veterocatólicos, em Dezembro passado, sob a guia do arcebispo de Paderborn, D. Hans-Josef Becker, como co-presidente católico, e do bispo Matthias Ring, Bonn (Alemanha), como co-presidente veterocatólico, reuniu-se a nova Comissão de diálogo internacional católico-veterocatólica entre o PCPUC e a Conferências dos bispos veterocatólicos da União de Utrecht. Na sua segunda fase de trabalho, a Comissão de diálogo começou a aprofundar o consenso ecuménico até agora alcançado, sobretudo no que diz respeito à problemática fundamental concernente à relação entre Igreja universal e Igreja local. Neste contexto, deverá ocupar- se de maneira mais intensa e profunda principalmente da dimensão de Igreja universal. Tal questão será estudada juntamente com a do primado.  

Quanto às perspectivas futuras, é preciso recordar que em vista da comemoração dos quinhentos anos da Reforma, que terá lugar em 2017, o secretário- geral da Federação luterana mundial, Martin Junge, formulou três orientações principais. Em primeiro lugar, a comemoração deve ter uma dimensão internacional e não se limitar ao contexto geográfico no qual nasceu a Reforma, isto é, Alemanha e Europa. Em segundo lugar, a comemoração — como ditado também pelas boas relações ecuménicas existentes entre católicos e protestantes — deve ser celebrada ecumenicamente. De facto, em 2017 não serão considerados apenas os quinhentos anos da Reforma e da divisão da Igreja ocidental, mas também o cinquentenário do diálogo ecuménico oficial entre a Igreja católica e a Federação luterana mundial, que iniciou em 1967, depois da conclusão do Concílio Vaticano II, o qual produziu numerosos e importantes documentos de consenso e contribuiu amplamente para a promulgação da declaração comum sobre a doutrina da justificação. Em terceiro lugar, a Reforma continua. Com efeito, a comemoração da Reforma deve estimular-nos a comprometer-nos juntos numa renovação constante e num testemunho comum diante do mundo: este pensamento retoma o interesse central do Ano da fé, isto é, o vínculo fundamental entre ecumenismo e nova evangelização.

 

   

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