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  PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS
 DE 18 A 25 DE JANEIRO DE 2008

CONFERÊNCIA DO PADRE MILAN ŽUST, S.J. (*)   

 
Relações com as Igrejas ortodoxas dos países eslavos

 

Na linha do Concílio Ecuménico Vaticano II e dos documentos mais recentes, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos deu continuidade ao seu compromisso em prol do aprofundamento do diálogo e da comunhão com as Igrejas ortodoxas dos países eslavos. As relações com estas Igrejas situam-se a diversos níveis, que no entanto contribuem todos para o maior conhecimento que, por sua vez, ajuda a ultrapassar os preconceitos e a crescer na confiança recíproca. Os encontros realizam-se no plano oficial, no âmbito do diálogo teológico com a Igreja ortodoxa no seu conjunto, e mediante os contactos bilaterais, mas não só:  congressos internacionais ou locais, organizados inclusivamente pelas dioceses, permitem um intercâmbio regular e o aprofundamento das relações mútuas. São importantes também aqueles contactos pessoais, que na maior parte dos casos permanecem desconhecidos, e que muitas vezes preparam os encontros a nível mais oficial. Neste contexto, não se pode deixar de citar a oração pela unidade dos cristãos, que estabelece uma rede de intercâmbio espiritual mais vasta do que nunca. Estas breves observações não tencionam ser completas, dado que se limitam a descrever algumas iniciativas de cariz mais ou menos oficial.

Patriarcado de Moscovo

Com a maior Igreja ortodoxa, sob o ponto de vista numérico, as relações desenvolvem-se positivamente, não obstante por vezes se possa ter uma impressão diferente das exemplificações por parte da imprensa e dos outros meios de comunicação. Os numerosos encontros bilaterais realizados durante o ano passado foram ricos e construtivos, e deixam entrever um melhoramento das relações, diante de acontecimentos que dão a impressão de um impasse ou de uma nova crise. A partir de um ponto de vista global, considerando os prós e os contras, pode-se afirmar que as relações com o Patriarcado de Moscovo estão a dar passos importantes rumo a uma maior comunhão mútua.

Entre os acontecimentos positivos, pode-se indubitavelmente enumerar a visita à França do Patriarca Aleixo II, durante o passado mês de Outubro. Embora ela se tenha referido acima de tudo ao Parlamento Europeu e à Comunidade ortodoxa russa local, os encontros do Patriarca Aleixo II com os representantes e os fiéis da Igreja católica na Basílica de Nossa Senhora em Paris foram importantes, e apreciados por ambas as partes interessadas.

Além disso, há que mencionar a visita a Roma, no início do passado mês de Dezembro, do Metropolita Cirilo, do Departamento para as Relações Eclesiásticas Externas, do Patriarcado de Moscovo. O Metropolita, que veio a Roma para participar num momento litúrgico na nova igreja-catedral destinada à comunidade ortodoxa russa da Capital, dedicada a Santa Catarina de Alexandria, foi recebido em visita particular pelo Santo Padre, e além disso manteve diálogos com o Secretário de Estado, Senhor Cardeal Tarcisio Bertone, e com o Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Senhor Cardeal Walter Kasper.

Dignos de interesse foram os diversos encontros bilaterais, sobretudo nos campos da promoção conjunta dos valores cristãos na Europa e da investigação teológica, nos quais participaram vários Dicastérios da Cúria Romana e alguns representantes das Igrejas católicas locais. Eles demonstram uma convergência sobre estes importantes temas, além de serem úteis para criar relações pessoais mais amistosas que em última análise constituem a base propícia para enfrentar as questões concretas, nem sempre fáceis.

Uma circunstância que criou um sentimento de inquietação de ambas as partes diz respeito aos comentários recorrentes na imprensa, acerca de um possível encontro entre o Papa Bento XVI e o Patriarca Aleixo II, com os consequentes e contínuos adiamentos por parte  do Patriarcado de Moscovo. Infelizmente, episódios deste tipo por si já desagradáveis alimentados sobretudo pelos meios de comunicação social, não favorecem a causa ecuménica. O encontro do Papa com o Patriarca comporta, para a sua realização, um amadurecimento de conjunto e um progresso mais sólido nas relações, além de um conhecimento recíproco mais aprofundado e maduro dos acontecimentos e das situações dos dias de hoje. Seria oportuno dedicar-se em maior medida a esta causa, e falar menos da mesma. Existem muitas formas de crescer na comunhão, provavelmente mais adequadas para a situação contemporânea do que aquelas que são postas em evidência como conditio sine qua non para fazer com que se progrida ao longo do caminho.

Outra circunstância, que causou confusão, é o chamado "incidente de Ravena", ocorrido no passado mês de Outubro, durante a sessão plenária da Comissão mista para o diálogo teológico entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa no seu conjunto. Como se sabe, a delegação do Patriarcado de Moscovo abandonou a sessão por causa da presença da delegação da Igreja ortodoxa da Estónia, que não é reconhecida pelo Patriarcado de Moscovo. Não obstante estas dificuldades sejam de teor interno à Ortodoxia e não comprometam directamente a Igreja católica, a ausência dos representantes do Patriarcado de Moscovo na importante sessão plenária de Ravena (Itália) certamente não foi acolhida com indiferença pela delegação católica. Pelo contrário, este incidente provocou um profundo sofrimento e alimentou também a vontade de contribuir na medida do possível para a superação deste conflito, encorajando as duas partes interessadas a encontrarem um acordo, a fim de que o diálogo teológico possa continuar o seu caminho indispensável.

Igreja ortodoxa ucraniana do Patriarcado de Moscovo

No ano que acaba de terminar, as relações com a Igreja ortodoxa ucraniana do Patriarcado de Moscovo foram encorajadoras para o futuro do compromisso ecuménico. O acontecimento saliente que deve ser citado é a visita do Cardeal Walter Kasper a Kiev, em Dezembro de 2007, com a finalidade de assistir à inauguração da nova sede do Centro São Clemente "Communio" e diálogo das culturas, realizada com o auxílio dos benfeitores da Comissão católica para a colaboração cultural com as Igrejas ortodoxas, do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Este Centro representa a primeira iniciativa ecuménica tomada pela Igreja ortodoxa ucraniana, destinada a favorecer as relações locais com a Igreja católica latina e igualmente com a Igreja greco-católica. É importante ressaltar o facto de que a realização de tal Centro foi aprovada não apenas pelo Metropolita de Kiev e de toda a Ucrânia, Sua Excelência Volodymir, mas também pelo Arcebispo de Lviv dos Latinos, o Senhor Cardeal Marian Jaworski, e pelo Arcebispo-Mor de Kiev-Halyc, o Senhor Cardeal Lubomyr Husar.

O Cardeal Walter Kasper recebeu uma hospitalidade muito cordial da parte do Metropolita Volodymir e dos bispos e sacerdotes, entre os seus mais estreitos colaboradores. Ele foi acompanhado durante uma visita ao Mosteiro das Grutas ["Pecherska Laura"] de Kiev e convidado a almoçar com o Metropolita na sede da Igreja ortodoxa ucraniana do Patriarcado de Moscovo. O Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos realizou inclusivamente vários encontros cordiais e manteve diálogos com o Arcebispo-Mor de Kiev-Halyc, o Cardeal Lubomyr Husar; com o Bispo Coadjutor de Lviv dos Latinos, Sua Excelência D. Mieczyslaw Mokrzytski; com o Instituto S. Tomás de Aquino para as Ciências Religiosas, dirigido pelos Padres Dominicanos; e acontecimento certamente não de menor importância recebeu um Doutorado honoris causa da Universidade Académica de "Kievo-Moghilanska", a instituição universitária estatal mais ilustre e antiga do país. Durante a cerimónia de inauguração do Centro e a bênção dos recintos por parte do Arcebispo de Poltava, Sua Excelência Filipp, Responsável pelo Departamento para a educação religiosa, a catequese e a missão, da Igreja ortodoxa ucraniana do Patriarcado de Moscovo, estavam presentes também alguns ilustres representantes da Universidade greco-católica de Lviv. O Núncio Apostólico na Ucrânia, Sua Excelência D. Ivan Jurkovic, que prestou a sua colaboração desde o início do projecto de tal Centro, participou em todos os momentos da visita do Cardeal Walter Kasper, que teve lugar no melhor modo possível, graças também à sua eficaz e diligente preparação. A atmosfera da visita caracterizou-se por um clima aberto, de bons auspícios para o futuro aprofundamento das relações e a normalização das relações cristãs na Ucrânia. Que o clima tendia a tranquilizar-se já se podia constatar no passado mês de Julho, por ocasião do Diálogo organizado pelo Centro São Clemente, para recordar o 40º aniversário do encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras no Fanar em 1967, que contou também com a participação do redactor destas Notas, com uma conferência acerca desta temática.

Exarcado da Bielo-Rússia

Com o Exarcado da Bielo-Rússia, do Patriarcado de Moscovo, continua uma colaboração fecunda e de longa data, sobretudo com a Faculdade de Teologia junto da Universidade de Estado de Minsk, e com o Centro de formação cristã, estruturas estas que se encontram sob a supervisão directa do próprio Metropolita de Minsk e Slutsk, Exarca de toda a Bielo-Rússia, Sua Excelência Filaret. No mês de Fevereiro, a Comissão católica para a colaboração cultural com as Igrejas ortodoxas, do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, realizou uma visita de estudo a Roma de um grupo de estudantes de teologia da supramencionada Faculdade, os quais assim tiveram a oportunidade de conhecer de perto a Santa Sé e várias realidades da Igreja católica em Roma. No mês de Maio de 2007, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos foi, por sua vez, convidado a participar com um seu representante na festa dos Santos Cirilo e Metódio, aos quais é dedicado o citado Centro de formação cristã. Depois, no mês de Outubro, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos ajudou o mesmo Centro de formação cristã e o Instituto para o diálogo inter-religioso e as relações interconfessionais do Exarcado, a organizarem a sua Conferência internacional anual, dedicada em 2007 ao diálogo com o Islão. Na impossibilidade de aceitar o convite que lhe tinha sido apresentado, o Cardeal Walter Kasper pediu ao Arcebispo de Belgrado, Sua Excelência D. Stanislav Hocevar, que o representasse em Minsk. Em tal conferência participaram, de igual modo, dois especialistas católicos:  o Reverendo Padre Joseph Ellul, O.P., Professor na Pontifícia Universidade de S. Tomás de Aquino; e Monsenhor Khaled Akasheh, Chefe de departamento para o Islão, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Eles puderam dialogar com o Metropolita Filaret, que agradeceu publicamente o apoio oferecido pela Igreja católica.
Relações com as outras Igrejas

Com as demais Igrejas ortodoxas dos países eslavos, as relações progrediram de maneira positiva. Recordamos en passant, a festa dos Santos Cirilo e Metódio, celebrada nas Igrejas ortodoxas no dia 25 de Maio, e a presença em Roma de delegações de diversas Igrejas ortodoxas eslavas para venerar o túmulo de São Cirilo na Basílica dedicada a São Clemente. A cabeça de São Clemente está conservada em Kiev, e o Cardeal Kasper recolheu-se em oração diante desta relíquia durante a mencionada viagem que realizou à Ucrânia. Estes percursos espirituais que se encontram e que se cruzam através da Europa podem dar uma ideia da importância do ecumenismo espiritual para o progresso das relações, bem como da contribuição que pode oferecer, ao longo do caminho rumo à comunhão, a veneração das Testemunhas e dos Santos, que tanto os católicos como os ortodoxos contemporâneos receberam como a sua herança conjunta mais inestimável. Além disso, há que recordar os encontros de hierarcas e de outros representantes que vêm em visita a Roma, os contactos regulares com os candidatos destas Igrejas, que estudam nas Universidades pontifícias em Roma com bolsas de estudo atribuídas pela Comissão católica para a colaboração cultural com as Igrejas ortodoxas, os encontros com as respectivas comunidades locais e a presença recíproca nas Missas por ocasião das festas litúrgicas mais importantes. Todos estes contactos constituem um caminho seguro, lento mas eficaz, simples e fraterno, em vista de nos prepararmos para o dom da plena comunhão, nos tempos e nos modos que o Senhor desejar.

(*) Milan Zust, S.J.
Professor na Pontifícia Universidade Gregoriana

 

 
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