(AUTORIDADE NA IGREJA III)
I. INTRODUÇÃO
1. O diálogo entre os Anglicanos e os Católicos Romanos
tem dado sinais evidentes de progresso quanto à questão da
autoridade na Igreja. Esse progresso já pode ser percebido na
convergência alcançada em declarações
anteriores da ARCIC sobre o conceito de autoridade, de maneira notável:
- a admissão de que O Espírito do Senhor Ressuscitado
mantém o povo de Deus obediente à vontade do Pai. Por essa
ação do Espírito Santo, a autoridade do Senhor é
ativa na Igreja (cf. Relatório Final, Autoridade na Igreja I,
3);
- o reconhecimento de que, graças ao seu batismo e à sua
participação no sensus fidelium, os leigos
constituem parte integral do poder decisório da Igreja (cf. Autoridade
na Igreja: Elucidação, 4);
- a complementaridade da primazia e da conciliaridade como elementos
de episcope dentro da Igreja (cf. Autoridade na Igreja I,
22);
- a necessidade de uma primazia universal exercida pelo Bispo de Roma
como sinal e salvaguarda da unidade dentro de uma Igreja re-unida (cf.
Autoridade na Igreja II, 9);
- a necessidade de o primaz universal exercer seu ministério em
associação colegiada com outros bispos (cf. Autoridade
na Igreja II, 19);
- uma compreensão da primazia universal e da conciliaridade que
complemente e não suplante o exercício da episcope
em igrejas locais (cf. Autoridade na Igreja I, 21-23; Autoridade
na Igreja II, 19).
2. Essa convergência foi oficialmente reconhecida pelas
autoridades da Comunhão Anglicana e da Igreja Católica
Romana. A Conferência de Lambeth, em 1988, não apenas
considerou os consensos da ARCIC sobre a doutrina eucarística e
sobre ministério e ordenação consoantes, em substância,
com a fé anglicana (Resolução 8:1), como também
afirmou que as declarações de consenso sobre a autoridade na
Igreja forneceram a base para um diálogo posterior (Resolução
8:3). Da mesma forma, a Santa Sé, em sua resposta oficial de
1991, reconhecendo áreas de consenso sobre questões de
importância primordial para a fé da Igreja Católica
Romana, tais como a Eucaristia e o ministério da Igreja, percebeu
sinais de convergência entre nossas duas comunhões quanto à
autoridade na Igreja, indicando o caminho para um desenvolvimento maior.
3. No entanto, as autoridades de nossas duas comunhões têm
solicitado maiores investigações sobre assuntos em que,
embora tenha havido convergência, um consenso que julgam necessário
ainda não foi atingido. Esses assuntos incluem:
- a relação entre Escritura, Tradição e o
exercício da autoridade de magistério;
- Colegialidade, conciliaridade e o papel dos leigos em tomadas de
decisão;
- O ministério Petrino da primazia universal com relação
à Escritura e à Tradição.
A despeito do progresso alcançado, sérias dificuldades têm
surgido na busca pela unidade. Questões relativas à
autoridade têm sido levantadas de modo perspicaz em cada uma de
nossas comunhões. Por exemplo, debates e decisões sobre a
ordenação de mulheres têm conduzido a questões
sobre fontes e estruturas da autoridade e como estas funcionam para os
Anglicanos e os Católicos Romanos.
4. Em ambas as comunhões, investigações sobre como
a autoridade deve ser exercida em diversos níveis estão
abertas às perspectivas de outras igrejas sobre o assunto. Por
exemplo, o Relatório de Virgínia da Comissão
Teológica e Doutrinal Interanglicana (preparado para a Conferência
de Lambeth de 1998) declara: A longa história de envolvimento
ecumênico, tanto local quanto internacionalmente, tem nos mostrado
que o discernimento e o poder decisório dos Anglicanos devem
considerar as visões da verdade e a sabedoria inspirada pelo Espírito
de nossos parceiros ecumênicos. Além disso, quaisquer decisões
que tomarmos devem ser submetidas ao discernimento da Igreja universal
(Relatório de Virgínia, 6.37). Em sua Encíclica
Ut unum sint, o Papa João Paulo II convidou líderes
e teólogos de outras igrejas a se unirem a ele num diálogo
fraterno sobre como o ministério da unidade do Bispo de Roma
poderia ser exercido numa situação nova (cf. Ut unum
sint, 95-96).
5. Há um vasto debate sobre a natureza e o exercício da
autoridade tanto nas igrejas quanto na sociedade em geral. Anglicanos e
Católicos Romanos desejam dar testemunho, para as igrejas e para o
mundo, de que a autoridade exercida de forma correta é um dom de
Deus para trazer reconciliação e paz para a humanidade. O
exercício da autoridade pode ser opressivo e destrutivo. Na
verdade, freqüentemente pode sê-lo em sociedades humanas e até
em igrejas, quando elas adotam certos padrões de autoridade sem uma
visão crítica. O exercício da autoridade no ministério
de Jesus adquire características diferentes. É em
conformidade com o pensamento e o exemplo de Cristo que a Igreja é
chamada a exercer autoridade (cf. Lc 22.24-27; Jo 13.14-15; Fl 2.1-11).
Para o exercício dessa autoridade, a Igreja é investida pelo
Espírito Santo de um conjunto de dons e ministérios (cf. 1
Cor 12.4-11; Ef 4.11-12).
6. Desde o início, a ARCIC tem considerado questões sobre
o ensinamento ou a prática da Igreja no contexto de nossa comunhão
real, mas imperfeita, com Cristo e da unidade palpável para a qual
somos chamados. A Comissão tem sempre procurado colocar-se à
parte de posições opostas ou defensivas para descobrir e
desenvolver nossa herança comum. Trabalhando a partir do que já
foi feito pela ARCIC, a Comissão fornece uma nova declaração
sobre como o dom da autoridade, quando bem exercido, permite à
Igreja continuar obediente ao Espírito Santo, que a mantém
fiel ao serviço do Evangelho para a salvação do
mundo. Desejamos esclarecer como o exercício e a aceitação
da autoridade na Igreja são inseparáveis da resposta dos fiéis
ao Evangelho, como estão relacionados com a interação
dinâmica da Escritura com a Tradição, e como são
expressos e experimentados na comunhão das igrejas e na
colegialidade de seus bispos. À luz dessas compreensões,
chegamos a um entendimento aprofundado da primazia universal a serviço
da unidade de todas as igrejas locais.
II. AUTORIDADE NA IGREJA
Jesus Cristo: O Sim de Deus para Nós e o nosso Amém
para Deus
7. Deus é o autor da vida. Por sua Palavra e seu Espírito,
em liberdade total, Deus dá origem à vida. Apesar do pecado
humano, Deus, em fidelidade perfeita, permanece o criador da esperança
de vida nova para todos. Na obra de redenção de Jesus
Cristo, Deus renova sua promessa para sua criação, pois o
propósito de Deus é trazer todos os povos em comunhão
consigo no âmbito de uma criação transformada
(ARCIC, Igreja como Comunhão, 16). O Espírito de
Deus continua a trabalhar na criação e na redenção
para atingir esse propósito de reconciliação e
unidade. Assim, a raiz de toda autoridade verdadeira é a atividade
do Deus trino e uno, que cria a vida em toda sua plenitude.
8. A autoridade de Jesus Cristo é a da testemunha fiel,
o Amém (cf. Ap 1.5; 3.14) em que todas as promessas de
Deus encontram seu Sim. Quando Paulo teve de defender a
autoridade do seu ensinamento, ele o fez apontando para a autoridade digna
de confiança de Deus: Tão certo quanto Deus é
fiel, nossa palavra para vós não tem sido Sim e Não.
Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, que pregamos no meio de vós ...
não foi Sim e Não; mas sempre foi unicamente Sim. Pois todas
as promessas de Deus encontram seu Sim nele. É por isso que
pronunciamos o Amém através dele, para a glória de
Deus( 2 Cor 1.18-20). Paulo fala do Sim de Deus a nós
e do Amém da Igreja a Deus. Em Jesus Cristo, Filho de
Deus e nascido de uma mulher, o Sim da humanidade a Deus
torna-se uma realidade humana concreta. Esse tema do Sim de
Deus e do Amém da humanidade em Jesus Cristo é a
chave para a exposição sobre autoridade nesta declaração.
9. Na vida e no ministério de Jesus, que veio para fazer a
vontade de seu Pai (cf. Hb 10.5-10) mesmo até a morte (cf. Fl 2.8;
Jo 10.18), Deus forneceu o Amém humano perfeito para
seu propósito de reconciliação. Em sua vida, Jesus
expressou sua dedicação total ao Pai (cf. Jo 5.19). O modo
como Jesus exerceu a autoridade em seu ministério terreno foi
percebido por seus contemporâneos como algo de novo. Foi reconhecido
em seus poderosos ensinamentos e em sua palavra de cura e libertação
(cf. Mt 7.28-29; Mc 1.22,27). Acima de tudo, sua autoridade foi
demonstrada por seu serviço abnegado em amor sacrificial (cf. Mc
10.45). Jesus falava e agia com autoridade por causa de sua comunhão
perfeita com o Pai. Sua autoridade veio do Pai (cf. Mt 11.27; Jo
14.10-12). É ao Senhor Ressuscitado que toda autoridade é
concedida no céu e na terra (cf. Mt 28.18). Agora Jesus Cristo vive
e reina com o Pai, na unidade do Espírito Santo; ele é a
Cabeça de seu Corpo, a Igreja, e Senhor de toda a Criação
(cf. Ef 1.18-23).
10. A obediência vivificante de Jesus Cristo faz surgir, através
do Espírito, nosso Amém a Deus Pai. Nesse Amém
através de Cristo, glorificamos a Deus, que infunde o Espírito
em nossos corações como penhor de sua fidelidade (cf. 2 Cor
1.20-22). Somos chamados em Cristo a testemunhar o propósito de
Deus (cf. Lc 24.46-49), testemunho esse que pode incluir para nós,
também, obediência até a morte. Em Cristo, a obediência
não é um fardo (cf. 1 Jo 5.3). Nasce da libertação
concedida pelo Espírito de Deus. O Sim divino e nosso Amém
são claramente percebidos no batismo, quando, na companhia dos fiéis,
dizemos Amém à obra de Deus em Cristo. Pelo Espírito,
nosso Amém como crentes está incorporado no Amém
de Cristo, através de quem, com quem e em quem adoramos o Pai.
O Amém do Fiel no Amém da
Igreja Local
11. O Evangelho atinge o povo de formas diversas: o testemunho ou a vida
de um pai ou de outro Cristão, a leitura das Escrituras, a
participação na liturgia ou outra experiência
espiritual. A aceitação do Evangelho também é
atuada de muitos modos: ao receber-o batismo, na renovação
do compromisso, numa decisão de permanecer fiel, ou em atos de
autodoação para aqueles em necessidade. Nessas ações,
a pessoa diz, Na verdade, Jesus Cristo é meu Deus:
para mim ele significa salvação, fonte de esperança,
a verdadeira face do Deus vivo.
12. Quando um crente diz Amém a Cristo
individualmente, uma ulterior dimensão está sempre
envolvida: um Amém à fé da Comunidade
cristã. A pessoa que recebe o batismo precisa chegar a conhecer
todas as implicações de participar da vida divina dentro do
Corpo de Cristo. O Amém do fiel a Cristo torna-se ainda
mais completo na medida em que a pessoa recebe tudo o que a Igreja, em
fidelidade à Palavra de Deus, afirma ser o conteúdo autêntico
da revelação divina. Assim, o Amém dito
ao que Cristo é para cada fiel está incorporado no Amém
que a Igreja diz ao que Cristo é para seu Corpo. Crescer
nessa fé pode ser, para alguns, uma experiência de
questionamento e de luta. Para todos, é uma experiência em
que a integridade da consciência do fiel tem um papel vital a
desempenhar. O Amém do crente a Cristo é tão
fundamental que cada Cristão , através da vida, é
chamado a dizer Amém a tudo o que toda a comunidade dos
Cristãos recebe e ensina como o significado autêntico do
Evangelho e a maneira de seguir a Cristo.
13. Os fiéis seguem a Cristo em comunhão com outros Cristãos
em sua igreja local (cf. Autoridade na Igreja I, 8, onde está
explicado que a unidade das comunidades locais sob um bispo é
o que comumente queremos dizer em nossas duas comunhões com igreja
local). Na igreja local, partilham a Vida cristã,
encontrando, juntos, uma direção para a formação
de sua consciência e força para vencer suas dificuldades. São
sustentados pela graça concedida por Deus a seu povo: as Escrituras
Sagradas, expostas em pregações, catequese e credos; os
sacramentos; o serviço do ministério ordenado; a vida de
prece e adoração comum; o testemunho de pessoas santas. O
fiel é incorporado no Amém da fé, mais
antigo, mais profundo, mais amplo, mais rico do que o Amém
individual para o Evangelho. Dessa forma, a relação entre a
fé do indivíduo e a fé da Igreja é mais
complexa do que possa parecer. Toda pessoa batizada partilha a rica experiência
da Igreja, que, mesmo lutando com questões contemporâneas,
continua a proclamar o que Cristo é para seu corpo. Cada
crente, pela graça do Espírito, juntamente com todos os
crentes de todos os tempos e lugares, herda essa fé da Igreja na
comunhão dos santos. Então, os fiéis vivenciam um Amém
duplo dentro da continuidade do culto divino, do ensinamento e da prática
de sua igreja local. Essa igreja local é uma comunidade eucarística.
No centro de sua vida está a celebração da Santa
Eucaristia, em que todos os fiéis ouvem e recebem o Sim
de Deus dado a eles em Cristo. Na Grande Ação de Graças,
quando se comemora a lembrança do dom de Deus na obra salvadora de
Cristo crucificado e ressuscitado, a comunidade está unida com
todos os Cristãos de todas as igrejas que, desde o início e
até o fim, pronunciam o Sim da humanidade a Deus
o Amém que o Apocalipse afirma estar no âmago da
grande liturgia do céu (cf. Ap 5.14; 7.12).
Tradição e Apostolicidade: O Amém
da Igreja Local na Comunhão das Igrejas
14. O Sim de Deus comanda e convida o Amém
dos crentes. A Palavra revelada, que a comunidade apostólica
testemunhou originalmente, é recebida e comunicada através
da vida de toda a Comunidade cristã. A Tradição (paradosis)
refere-se a esse processo(1). O Evangelho de Cristo crucificado e
ressuscitado é continuamente transmitido e recebido (cf. 1 Cor
15.3) nas Igrejas cristãs. Essa tradição, ou
transmissão, do Evangelho é o trabalho do Espírito,
principalmente através do ministério da Palavra e do
Sacramento e na vida comum do povo de Deus. A Tradição é
um processo dinâmico, comunicando a cada geração o que
foi entregue de uma vez por todas à comunidade apostólica. A
Tradição é muito mais do que a transmissão de
proposições verdadeiras referentes à salvação.
Um concepção minimalista da Tradição que a
limitasse a um repositório de doutrinas e decisões eclesiais
é insuficiente. A Igreja recebe, e deve transmitir, todos os
elementos constitutivos da comunhão eclesial: o batismo, a confissão
da fé apostólica, a celebração da Eucaristia,
a liderança mediante um ministério apostólico (cf.
Igreja como Comunhão, 15, 43). Na economia (oikonomia)
do amor de Deus pela humanidade, a Palavra que se fez carne e viveu entre
nós está no âmago do que foi transmitido desde o início
e do que será transmitido até o fim.
15. A Tradição é um canal do amor de Deus, que o
torna acessível na Igreja e no mundo hoje. Através dela, de
uma geração a outra, e de um lugar a outro, a humanidade
partilha a comunhão na Santíssima Trindade. Pelo processo da
Tradição, a Igreja ministra a graça do Senhor Jesus
Cristo e a koinonia do Espírito Santo (cf. 2 Cor 13.14).
Portanto, a Tradição é essencial à economia da
graça, do amor e da comunhão. Para aqueles cujos ouvidos não
ouviram e cujos olhos não viram, o momento de receber o Evangelho
salvador é uma experiência de iluminação, perdão,
cura, libertação. Os que participam da comunhão do
Evangelho não podem deixar de transmiti-lo aos outros, mesmo que
isso signifique o martírio. A Tradição é um
tesouro a ser recebido pelo povo de Deus e um dom a ser partilhado com
toda a humanidade.
16. A Tradição Apostólica é um dom de Deus
que deve ser constantemente recebido de novo. Através dela, o Espírito
Santo forma, mantém e sustenta a comunhão das igrejas locais
de uma geração para outra. A transmissão e a recepção
da Tradição apostólica são um ato de comunhão
pelo qual o Espírito une as igrejas locais de nossos dias àquelas
que as precederam na fé apostólica una. O processo da tradição
acarreta a recepção e comunicação constante e
contínua da Palavra revelada de Deus em muitas
circunstâncias diversas e em tempos constantemente mutáveis.
O Amém da Igreja à Tradição apostólica
é fruto do Espírito que guia continuamente os discípulos
para toda a verdade; ou seja, para Cristo, que é o caminho, a
verdade e a vida (cf. Jo 16.13; 14.6).
17. A Tradição expressa a apostolicidade da Igreja. O que
os apóstolos receberam e proclamaram é agora encontrado na
Tradição da Igreja, na qual a Palavra de Deus é
pregada e os sacramentos de Cristo são celebrados no poder do Espírito
Santo. As igrejas hoje estão comprometidas a receber a única
Tradição apostólica viva, a ordenar sua vida de
acordo com ela, e a transmiti-la de tal forma que o Cristo que vem na glória
encontrará o povo de Deus confessando e vivendo a fé
confiada, de uma vez por todas, aos santos (cf. Jd 3).
18. A Tradição dá testemunho da comunidade apostólica
presente na Igreja hoje através de sua memória corporativa.
Pela proclamação da Palavra e pela celebração
dos sacramentos, o Espírito Santo abre os corações
dos fiéis e lhes revela o Senhor Ressuscitado. O Espírito,
que agiu nos eventos do ministério de Jesus ocorridos de uma vez
por todas, continua a ensinar a Igreja, trazendo à lembrança
o que Cristo fez e disse, tornando presentes os frutos de sua obra
redentora e o antegozo do reino (cf. Jo 2.22; 14.26). O propósito
da Tradição é atingido quando, através do Espírito,
a Palavra é recebida e vivida na fé e na esperança. O
testemunho da proclamação, dos sacramentos e da vida em
comunhão é, ao mesmo tempo, o conteúdo da Tradição
e seu resultado. Assim, a memória frutifica na vida de fé
dos fiéis na comunhão de sua igreja local.
As Sagradas Escrituras: O Sim de Deus e o Amém
do Povo de Deus
19. No interior da Tradição, as Escrituras ocupam um lugar
único e normativo e pertencem ao que foi dado de uma vez por todas.
Como testemunho escrito do Sim de Deus, exigem da Igreja que
avalie constantemente seus ensinamentos, pregações e ações
em confronto com elas. Como as Escrituras são o único
testemunho inspirado da revelação divina, a expressão
dessa revelação pela Igreja deve ser testada por sua consonância
com a Escritura (Autoridade na Igreja: Elucidação,
2). Através das Escrituras, a revelação divina faz-se
presente e é transmitida na vida da Igreja. O Sim de
Deus é reconhecido no e através do Amém
da Igreja, que recebe a revelação autêntica de Deus.
Ao receber certos textos como testemunhos fidedignos da revelação
divina, a Igreja determinou a identidade de suas Sagradas Escrituras.
Considera apenas essa coleção de textos como a Palavra
escrita inspirada de Deus e, como tal, com una autoridade única.
20. As Escrituras reúnem várias correntes de tradições
Judaicas e Cristãs. Essas tradições revelam o modo
como a Palavra de Deus tem sido recebida, interpretada e transmitida em
contextos específicos, segundo as necessidades, as culturas e as
circunstâncias do povo de Deus. Contêm a revelação
de Deus do seu desígnio de salvação, que foi
realizado em Jesus Cristo e experimentado pelas primeiras Comunidades
cristãs. Nessas comunidades, o Sim de Deus foi recebido
de uma nova maneira. No Novo Testamento, podemos ver como as Escrituras do
Primeiro Testamento foram recebidas como revelação do único
Deus verdadeiro e, também, reinterpretadas e re-recebidas como
revelação de sua Palavra final em Cristo.
21. Todos os escritores do Novo Testamento foram influenciados pela
experiência de suas próprias comunidades locais. O que
transmitiram, por sua própria capacidade e intuições
teológicas, registra os elementos do Evangelho que as igrejas de
seu tempo e em situações variadas guardavam em sua memória.
Os ensinamentos de Paulo sobre o Corpo de Cristo, por exemplo, são
ocasionados em grande parte pelos problemas e divisões da igreja
local em Corinto. Quando Paulo fala de nossa autoridade que o Senhor
concedeu para construir-vos e não para destruir-vos (2 Cor
10.8), ele o faz no contexto de sua relação turbulenta com a
igreja de Corinto. Até nas declarações principais de
nossa fé, pode-se ouvir, freqüentemente, um eco da situação
concreta e, por vezes, dramática de uma igreja local ou de um grupo
de igrejas locais, a que somos devedores pela transmissão fiel da
Tradição apostólica. A ênfase, no texto de João,
na presença do Senhor encarnado em um corpo humano que podia ser
visto e tocado antes e depois da ressurreição (cf. Jo 20.27;
1 Jo 4.2) está ligada ao conflito em torno dessa questão nas
comunidades joaninas. É através do esforço de
determinadas comunidades, num determinado momento, para discernir qual
fosse a Palavra de Deus para elas, que encontramos, nas Escrituras, um
registro autorizado da Tradição apostólica a ser
transmitida de uma geração a outra e de uma igreja a outra,
e ao qual os fiéis dizem Amém.
22. A formação do cânon das Escrituras foi parte
integrante do processo de tradição. O reconhecimento dessas
Escrituras pela Igreja como canônicas, após longo período
de discernimento crítico, foi um ato de obediência e, ao
mesmo tempo, de autoridade. Foi um ato de obediência, pelo
fato de que a Igreja discerniu e recebeu o Sim doador de vida
de Deus através das Escrituras, aceitando-as como a norma de fé.
Foi um ato de autoridade, pelo fato de que a Igreja, guiada pelo
Espírito Santo, recebeu e transmitiu esses textos, declarando que
eram inspirados e que outros textos não deviam ser incluídos
no cânon.
23. O significado do Evangelho de Deus revelado é plenamente
entendido apenas no âmbito da Igreja. A revelação de
Deus tem sido confiada a uma comunidade. A Igreja não pode ser
descrita como um agregado de fiéis individuais, nem sua fé
pode ser considerada a soma das crenças desses indivíduos.
Os fiéis formam, juntos, o povo de fé, por serem
incorporados pelo batismo a uma comunidade que recebe as Escrituras canônicas
como a autêntica Palavra de Deus; eles recebem a fé dentro
dessa comunidade. A fé da comunidade precede a fé do indivíduo.
Assim, embora a caminhada da fé de uma pessoa possa começar
pela leitura individual da Escritura, não pode ficar reduzida a
isso. A interpretação individualista das Escrituras não
se harmoniza com a leitura do texto dentro da vida da Igreja e é
incompatível com a natureza da autoridade da Palavra revelada de
Deus (cf. 2. Pd 1.20-21). A Palavra de Deus e a Igreja de Deus não
podem ser dissociadas.
Recepção e Re-Recepção: O Amém
da Igreja à Palavra de Deus
24. Através dos séculos, a Igreja recebe e reconhece como
um dom da graça divina tudo o que confessa como expressão
verdadeira da Tradição transmitida definitivamente aos apóstolos.
Essa recepção é, ao mesmo tempo, um ato de fidelidade
e de liberdade. A Igreja deve permanecer fiel, de forma que o Cristo que
vem na glória reconhecerá na Igreja a comunidade fundada por
ele; deve continuar livre para receber a Tradição apostólica
de novas maneiras, segundo as situações com que se depara. A
Igreja tem a responsabilidade de transmitir toda a Tradição
apostólica, embora possa haver partes que considere de difícil
integração na sua vida e no seu culto. Pode ser que o que
significava muito para uma geração anterior venha a se
tornar importante novamente no futuro, embora sua relevância não
seja clara no presente.
25. Dentro da Igreja, a memória do povo de Deus pode ser afetada
ou mesmo deturpada pela limitação e pelo pecado humano.
Embora tendo recebido a promessa da assistência do Espírito
Santo, de tempos em tempos as igrejas esquecem alguns aspectos da Tradição
apostólica, não conseguindo discernir a visão plena
do reino de Deus à luz da qual procuramos seguir a Cristo. As
igrejas sofrem quando algum elemento da comunhão eclesial foi
esquecido, negligenciado ou deturpado. Recorrer de novo à Tradição
em uma nova situação é o meio pelo qual a revelação
de Deus em Cristo é rememorada. Esse processo é assistido
pela compreensão de estudiosos da Bíblia e de teólogos
e pela sabedoria dos sábios. Assim, pode ocorrer uma re-descoberta
de elementos que eram negligenciados e uma nova memória das
promessas de Deus, levando a uma renovação do Amém
da Igreja. Pode haver, também, um exame crítico do que tem
sido recebido, porque algumas das formulações da Tradição
passam a ser consideradas inadequadas ou até enganosas em um novo
contexto. Podemos chamar todo esse processo de re-recepção.
Catolicidade: O Amém de Toda a Igreja
26. Existem duas dimensões da comunhão na Tradição
apostólica: a diacrônica e a sincrônica. O processo de
tradição acarreta, certamente, a transmissão do
Evangelho de uma geração a outra (diacrônica). Se a
Igreja deve permanecer unida na verdade, o processo também deve
acarretar a comunhão das igrejas em todos os lugares nesse único
Evangelho (sincrônica). Ambas dimensões são necessárias
para a catolicidade da Igreja. Cristo promete que o Espírito Santo
manterá a verdade essencial e salvadora na memória da
Igreja, capacitando-a para a missão (cf. Jo 14.26; 15.26-27). Essa
verdade tem de ser transmitida e recebida de novo pelos fiéis em
todos os tempos e em todos os lugares através do mundo, como
resposta à diversidade e complexidade da experiência humana.
Não há nenhuma parte da humanidade, nenhuma raça,
nenhuma condição social, nenhuma geração para
quem essa salvação, comunicada na transmissão da
Palavra de Deus, não seja dirigida (cf. Igreja como Comunhão,
34).
27. Na rica diversidade da vida humana, o encontro com a Tradição
viva produz uma variedade de expressões do Evangelho. Onde as
diversas expressões são fiéis à Palavra
revelada em Jesus Cristo e transmitida pela comunidade apostólica,
as igrejas em que essas expressões tem lugar estão
verdadeiramente em comunhão. De fato, essa diversidade de tradições
é a manifestação prática da catolicidade e
confirma, mais do que contradiz, o vigor da Tradição. Assim
como Deus criou a diversidade entre os seres humanos, a fidelidade e a
identidade da Igreja requerem não uma uniformidade de expressão
e formulação em todos os níveis, em todas as situações,
mas antes uma diversidade católica dentro da unidade da comunhão.
Essa riqueza de tradições é um recurso vital para uma
humanidade reconciliada. Os seres humanos foram criados por Deus em
seu amor com tal diversidade para que pudessem participar desse amor
compartilhando entre si o que têm e o que são,
enriquecendo-se, assim, em sua comunhão mútua (Igreja
como Comunhão, 35).
28. O povo de Deus como um todo é o portador da Tradição
viva. Em situações diferentes, que suscitam novos desafios
para o Evangelho, o discernimento, a atualização e a
comunicação da Palavra de Deus são da
responsabilidade de todo o povo de Deus. O Espírito Santo trabalha
através de todos os membros da comunidade, usando os dons
concedidos a cada um para o bem de todos. Os teólogos em particular
servem à comunhão da Igreja toda, investigando se e como
novas interpretações devem ser integradas à corrente
contínua da Tradição. Em cada comunidade ocorre uma
troca, um dar e um receber mútuos, em que os bispos, o clero e os
leigos dão e recebem dos outros no âmbito de todo o corpo.
29. Em todo Cristão desejoso de ser fiel a Cristo e incorporado
na vida da Igreja, existe um sensus fidei. Esse sensus fidei
pode ser descrito como uma capacidade ativa de discernimento espiritual,
uma intuição formada pelo culto divino e pela vida em comunhão
como membro fiel da Igreja. Quando essa capacidade é exercida de
comum acordo pelo corpo de fiéis, falamos do exercício do
sensus fidelium (cf. Autoridade na Igreja: Elucidação,
3-4). O exercício do sensus fidei por todo membro da Igreja
contribui para a formação do sensus fidelium, através
do qual a Igreja como um todo permanece fiel a Cristo. Pelo sensus
fidelium, o corpo todo contribui para, recebe de e guarda como um
tesouro o ministério daqueles membros da comunidade que exercem a
episcope, velando pela memória viva da Igreja (cf. Autoridade
na Igreja I, 5-6). Assim, o Amém do crente é
incorporado ao Amém de toda a Igreja de várias
formas.
30. Os que exercem a episcope no Corpo de Cristo não
devem ser separados da sinfonia de todo o povo de Deus em que
eles têm uma parte a tocar. Devem ser alertados para o sensus
fidelium, o qual compartilham, para que saibam quando algo se torna
necessário para o bem-estar e a missão da comunidade, ou
quando algum elemento da Tradição precisa ser recebido de um
modo novo. O carisma e a função da episcope estão
especificamente relacionados com o ministério da memória,
que renova constantemente a Igreja na esperança. Através
desse ministério, o Espírito Santo mantém viva na
Igreja a memória do que Deus fez e revelou, e a esperança do
que Deus fará para unir todas as coisas em Cristo. Desse modo, não
apenas de geração para geração, mas também
de lugar para lugar, a fé única é comunicada e
vivida. Esse é o ministério exercido pelo bispo, e por
pessoas ordenadas sob os cuidados do bispo, na medida em que proclamam a
Palavra, administram os sacramentos e tomam parte na administração
da disciplina pelo bem comum. Os bispos, o clero e os outros fiéis
devem todos reconhecer e receber de Deus o que é transmitido por
mediação de uns para os outros. Assim, o sensus fidelium
do povo de Deus e o ministério da memória existem juntos em
relação recíproca.
31. Os Anglicanos e os Católicos Romanos podem concordar, em
princípio, com tudo o que foi dito acima, mas precisam fazer um
esforço deliberado para recuperar esse entendimento comum. Quando
as comunidades cristãs estão em comunhão real, mas
imperfeita, são chamadas a reconhecer, umas nas outras, elementos
da Tradição apostólica que podem ter rejeitado,
esquecido ou ainda não compreendido plenamente. Em conseqüência,
devem receber ou reapropriar esses elementos, e reconsiderar as formas
como interpretaram as Escrituras separadamente. Sua vida em Cristo é
enriquecida quando dão e recebem umas das outras. Crescem no
entendimento e na experiência de sua catolicidade na medida em que o
sensus fidelium e o ministério da memória interagem
na comunhão dos fiéis. Nessa economia de dar e receber
dentro de uma comunhão real, mas imperfeita, aproximam-se mais de
uma indivisa participação no único Amém
de Cristo para a glória de Deus.
III. O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE NA IGREJA
Proclamando o Evangelho: o Exercício da Autoridade para Missão
e Unidade
32. A autoridade conferida por Jesus a seus discípulos era, acima
de tudo, uma autoridade para a missão, para pregar e curar (cf. Lc
9.1-2, 10.1). O Cristo Ressuscitado investiu-os de poder para divulgar o
Evangelho no mundo todo (cf. Mt 28.18-20). No início da Igreja, a
pregação da Palavra de Deus no poder do Espírito foi
vista como a característica que definia a autoridade apostólica
(cf. 1 Cor 1.17, 2.4-5). Na proclamação do Cristo
crucificado, o Sim de Deus à humanidade torna-se uma
realidade presente e todos são convidados para responder com seu Amém.
Desse modo, o exercício da autoridade ministerial dentro da Igreja,
principalmente por aqueles encarregados do ministério da episcope,
tem uma dimensão radicalmente missionária. A autoridade é
exercida dentro da Igreja por causa dos que estão fora dela, para
que o Evangelho possa ser proclamado no poder e no Espírito
Santo e com plena convicção (1 Tess 1.5). Essa
autoridade capacita toda a Igreja a incorporar o Evangelho e se tornar a
missionária e a serva profética do Senhor.
33. Jesus rezou ao Pai para que seus seguidores fossem um para que
o mundo saiba que vós me enviastes e os amastes como vós me
amastes (Jo 17.23). Quando os Cristãos não estão
de acordo sobre o próprio Evangelho, a sua pregação
com poder é prejudicada. Quando não se tornam um na fé,
não podem ser um na vida, e, assim, não podem demonstrar
plenamente que são fiéis à vontade de Deus,
reconciliação de todas as coisas no Pai através de
Cristo (cf. Cl 1.20). Enquanto a Igreja não viver como a comunidade
da reconciliação que é chamada a ser por Deus, não
pode pregar adequadamente esse Evangelho ou proclamar com credibilidade o
plano de Deus de reunir seu povo disperso sob Cristo Senhor e Salvador
(cf. Jo 11.52). Somente quando todos os fiéis estiverem unidos na
celebração comum da Eucaristia (cf. Igreja como Comunhão,
24), Deus, cujo propósito é unir todas as coisas em Cristo
(cf. Ef 1.10), será verdadeiramente glorificado por seu povo. É
um desafio e uma responsabilidade, para os que têm autoridade dentro
da Igreja, exercer o seu ministério de forma a promover a unidade
de toda a Igreja na fé e na vida, por caminhos que enriqueçam,
e não diminuam, a diversidade legítima das igrejas locais.
Sinodalidade: O Exercício da Autoridade em Comunhão
34. Em cada igreja local, todos os fiéis são chamados a
caminhar juntos em Cristo. O termo sinodalidade (derivado de syn-hodos,
que significa caminho comum), indica o modo pelo qual os fiéis
e as igrejas são mantidos juntos, em comunhão, quando fazem
isso. Expressa sua vocação como povo do Caminho (cf. At 9.2)
para viverem, trabalharem e andarem juntos em Cristo, que é o
Caminho (cf. Jo 14.6). Como seus predecessores, seguem a Jesus no caminho
(cf. Mc 10.52) até que ele venha novamente.
35. Dentro da comunhão das igrejas locais, o Espírito
trabalha para formar cada igreja por meio da graça da reconciliação
e da comunhão em Cristo. É apenas através da
atividade do Espírito que a igreja local pode ser fiel ao Amém
de Cristo e pode ser enviada ao mundo para chamar todos a participar desse
Amém. Por essa presença do Espírito, a
igreja local é mantida na Tradição. Recebe e
compartilha a plenitude da fé apostólica e os meios da graça.
O Espírito confirma a igreja local na verdade, de tal forma que sua
vida incorpora a verdade salvadora revelada em Cristo. De geração
a geração, a autoridade da Palavra viva deve se fazer
presente na igreja local em todos os aspectos de sua vida no mundo. O modo
como a autoridade é exercida nas estruturas e na vida corporativa
da Igreja deve estar de acordo com a atitude de Cristo (cf. Fl 2.5).
36. O Espírito de Cristo investe cada bispo da autoridade
pastoral necessária ao exercício efetivo da episcope
dentro de uma igreja local. Essa autoridade inclui necessariamente a
responsabilidade de tomar e implementar as decisões que são
requeridas para cumprir o ofício de um bispo por causa da koinonia.
Sua natureza unificadora está implícita na função
do bispo de ensinar a fé através da proclamação
e da explicação da Palavra de Deus, de prover à
celebração dos sacramentos, e de manter a Igreja na
santidade e na verdade. As decisões tomadas pelo bispo ao
desempenhar essas funções possuem uma autoridade que os fiéis
têm o dever de acatar e aceitar (cf. Autoridade na Igreja II,
17). Por seu sensus fidei, os fiéis são capazes, em
consciência, tanto de reconhecer o trabalho de Deus no exercício
da autoridade pelo bispo, como também de responder a ela como
crentes. É isso que motiva sua obediência, uma obediência
de liberdade e não de escravidão. A jurisdição
dos bispos é uma conseqüência do chamado que receberam
para conduzir suas igrejas em um autêntico Amém;
não é um poder arbitrário concedido a uma pessoa em
detrimento da liberdade de outras. No interior da prática do sensus
fidelium, existe uma relação complementar entre o bispo
e o resto da comunidade. Na igreja local, a Eucaristia é a expressão
fundamental do caminhar juntos (sinodalidade) do povo de Deus. Em diálogo
orante, o presidente guia o povo ao Amém à prece
eucarística. Na unidade da fé com seu bispo local, seu Amém
é uma memória viva do grande Amém do
Senhor à vontade do Pai.
37. A interdependência mútua de todas as igrejas é
essencial à realidade da Igreja como Deus quer que ela seja.
Nenhuma igreja local que participa da Tradição viva pode se
considerar auto-suficiente. São necessárias, então,
formas de sinodalidade para manifestar a comunhão das igrejas
locais e para sustentar cada uma delas na fidelidade ao Evangelho. O
ministério do bispo é crucial, pois esse ministério
serve à comunhão dentro de e entre as igrejas locais. Sua
comunhão mútua é expressa pela incorporação
de cada bispo em um colégio de bispos. Os bispos estão,
tanto pessoalmente quanto colegialmente, a serviço da comunhão,
e relacionados com a sinodalidade em todas as suas expressões.
Essas expressões incluem uma variedade de órgãos,
instrumentos e instituições especialmente sínodos
ou concílios locais, provinciais, mundiais e ecumênicos.
A manutenção da comunhão requer que haja, em todos os
níveis, uma capacidade de decisão adequada a cada nível.
Quando essas decisões levantam questões sérias para
uma comunhão maior das igrejas, a sinodalidade precisa encontrar
uma expressão mais ampla.
38. Em nossas duas comunhões, os bispos reunem-se colegialmente,
não como indivíduos, mas como aqueles que têm
autoridade dentro da vida sinodal das igrejas locais e por causa dessa
vida sinodal. A consulta aos fiéis é um aspecto da supervisão
episcopal. Cada bispo é, ao mesmo tempo, uma voz para a igreja
local e um meio de a igreja local aprender com outras igrejas. Quando os
bispos se reúnem em conselho, buscam discernir e articular o sensus
fidelium da forma como se acha presente na igreja local e na comunhão
mais ampla das igrejas. Sua função é magisterial, ou
seja, nessa comunhão das igrejas, eles determinam o que deve ser
ensinado em fidelidade à Tradição apostólica.
Os Católicos Romanos e os Anglicanos compartilham essa compreensão
da sinodalidade, mas a expressam de formas diversas.
39. Na Igreja da Inglaterra, na época da Reforma, a tradição
da sinodalidade manifestava-se pelo uso de sínodos (de bispos e do
clero) e do Parlamento (incluindo bispos e leigos) para a determinação
da liturgia, da doutrina e da organização da igreja. A
autoridade dos Concílios Gerais também era reconhecida. Na
Comunhão Anglicana, novas formas de sínodos surgiram durante
o século dezenove, e o papel do laicato nas decisões tem se
fortalecido desde então. Embora os bispos, o clero e o laicato se
consultem mutuamente e legislem juntos, a responsabilidade dos bispos
permanece distinta e crucial. Em todas as partes da Comunhão
Anglicana, os bispos possuem uma responsabilidade única de supervisão.
Por exemplo, um sínodo diocesano pode ser convocado apenas pelo
bispo, e suas decisões podem vigorar somente com o consentimento do
bispo. Em níveis provincial e nacional, as Casas dos Bispos exercem
um ministério próprio e único com relação
a questões de doutrina, culto e vida moral. Além disso,
embora os sínodos Anglicanos adotem amplamente procedimentos
parlamentares, sua natureza é eucarística. É por isso
que é próprio do bispo, como presidente da Eucaristia,
presidir o sínodo diocesano, que se reúne para trazer a
palavra redentora de Deus até o presente, através da vida e
da atividade da igreja local. Além disso, cada bispo não
somente tem a episcope da igreja local mas também participa
do cuidado de todas as igrejas. Isso é feito dentro de cada província
da Comunhão Anglicana com o auxílio de órgãos,
tais como Casas de Bispos e os Sínodos Gerais e os Provinciais. Na
Comunhão Anglicana como um todo, o Encontro dos Primazes, o Concílio
Consultivo Anglicano, a Conferência de Lambeth e o Arcebispo de
Canterbury são instrumentos de sinodalidade.
40. Na Igreja Católica Romana, a tradição da
sinodalidade não tem cessado. Após a Reforma, os sínodos
de bispos e do clero continuaram a ocorrer de tempos em tempos em
diferentes dioceses e regiões e, em nível mundial, foram
realizados três Concílios. Na virada do século vinte,
surgiram encontros específicos de bispos e Conferências
Episcopais, como forma de consulta para possibilitar às igrejas
locais de determinada região enfrentar, juntas, as demandas de sua
missão e lidar com novas situações pastorais. Desde o
Concílio Vaticano Segundo, estas se tornaram uma estrutura regular
nos países e nas regiões. Numa decisão que contou com
o apoio dos bispos naquele Concílio, o Papa Paulo VI instituiu o Sínodo
dos Bispos para tratar de questões relativas à missão
da Igreja no mundo. O antigo costume de visitas ad limina aos túmulos
dos apóstolos Pedro e Paulo e ao Bispo de Roma tem sido renovado
por visitas não individuais, mas em grupos regionais. O hábito
mais recente de visitas pelo Bispo de Roma a igrejas locais tem tentado
estimular um senso mais profundo da sua pertença à comunhão
das igrejas, e ajudá-las a tomar maior consciência da situação
das outras. Todas essas instituições sinodais oferecem a
possibilidade de uma percepção crescente, por parte dos
bispos locais e do Bispo de Roma, de formas de trabalho em conjunto numa
comunhão mais forte. Complementando essa sinodalidade colegial, um
crescimento da sinodalidade em nível local está promovendo a
participação ativa de leigos na vida e na missão da
igreja local.
Perseverança na Verdade: O Exercício da Autoridade no
Magistério
41. Em todas as épocas, os Cristãos têm dito Amém
à promessa de Cristo de que o Espírito guiará sua
Igreja em direção a toda a verdade. O Novo Testamento ecoa
freqüentemente essa promessa, referindo-se à coragem, confiança
e certeza que os Cristãos podem reivindicar (cf. Lc 1.4; 1 Ts 2.2;
Ef 3.2; Hb 11.1). Em sua preocupação em tornar o Evangelho
acessível a todos os que estão abertos para recebê-lo,
aqueles incumbidos do ministério da memória e do ensinamento
têm aceitado expressões de fé novas e até então
não habituais. Algumas dessas formulações, no início,
geraram dúvidas e desacordo sobre sua fidelidade à Tradição
apostólica. No processo de examinar essas formulações,
a Igreja tem agido com cautela, mas com confiança na promessa de
Cristo de que ela irá perseverar e ser mantida na verdade (cf. Mt
16.18; Jo 16.13). É isso que significa a indefectibilidade da
Igreja (cf. Autoridade na Igreja I, 18; Autoridade na Igreja
II, 23).
42. Em sua vida contínua, a Igreja procura e recebe a orientação
do Espírito Santo, que mantém seus ensinamentos fiéis
à Tradição apostólica. No corpo da Igreja, o
colégio de bispos deve exercer o ministério da memória
com esse fim. Eles devem discernir e ministrar ensinamentos confiáveis
por expressarem a verdade de Deus com segurança. Em algumas situações,
haverá a necessidade urgente de examinar novas formulações
de fé. Em circunstâncias específicas, aqueles que têm
o ministério de supervisão (episcope), assistidos
pelo Espírito Santo, podem chegar, juntos, a um julgamento que,
sendo fiel à Escritura e consistente com a Tradição
apostólica, está preservado do erro. Por tal julgamento, que
é uma expressão renovada do Sim único de
Deus em Jesus Cristo, a Igreja é mantida na verdade, para que possa
continuar a oferecer seu Amém à glória de
Deus. É isso que significa a afirmação de que a
Igreja pode ensinar infalivelmente (veja Autoridade na Igreja
II, 24-28, 32). Esse ensinamento infalível está a serviço
da indefectibilidade da Igreja.
43. O exercício da autoridade de ensinar na Igreja,
principalmente em situações desafiadoras, requer a participação
de todo o corpo de fiéis em suas formas diversificadas, e não
apenas daqueles incumbidos do ministério da memória. Nessa
participação, o sensus fidelium está
operando. Como é a fidelidade de todo o povo de Deus que está
em jogo, a recepção dos ensinamentos é parte integral
do processo. Definições doutrinais são recebidas como
autorizadas, em virtude da verdade divina que proclamam e, também,
do ofício específico da pessoa ou pessoas que as proclamam
dentro do sensus fidei de todo o povo de Deus. Quando o povo de
Deus responde pela fé e diz Amém aos
ensinamentos autorizados, é porque reconhece que esses ensinamentos
expressam a fé apostólica e operam no âmbito da
autoridade e da verdade de Cristo, Cabeça da Igreja(2). A verdade e
a autoridade de sua Cabeça são a fonte de ensinamento infalível
no Corpo de Cristo. O Sim de Deus revelado em Cristo é
o padrão pelo qual esse ensinamento autorizado é julgado.
Esse ensinamento deve ser bem recebido pelo povo de Deus como um dom do
Espírito Santo para manter a Igreja na verdade de Cristo, nosso Amém
a Deus.
44. O dever de manter a Igreja na verdade é uma das funções
essenciais do colégio episcopal. Este tem o poder de exercer esse
ministério, porque está ligado em sucessão aos apóstolos,
que eram o corpo autorizado e enviado por Cristo para pregar o Evangelho a
todas as nações. A autenticidade do ensinamento dos bispos
individuais é evidente quando esse ensinamento é solidário
com o de todo o colégio episcopal. O exercício dessa
autoridade de ensinar requer que os ensinamentos sejam fiéis à
Sagrada Escritura e conformes com a Tradição apostólica.
Isso é expresso pelos ensinamentos do Concílio Vaticano
Segundo, Este ofício de ensinar não está acima
da Palavra de Deus, mas ao seu serviço (Constituição
Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum,
10).
Primazia: O Exercício da Autoridade em Colegialidade e
Conciliaridade
45. No curso da história, a sinodalidade da Igreja tem sido
servida através da autoridade conciliar, colegial e primacial.
Existem formas de primazia tanto na Comunhão Anglicana como nas
igrejas em comunhão com o Bispo de Roma. Entre estas, os ofícios
do Arcebispo Metropolitano ou Patriarca de uma Igreja Católica
Oriental são primaciais por natureza. Cada Província
Anglicana tem seu Primaz e o Encontro de Primazes serve a toda a
Comunidade. O Arcebispo de Canterbury exerce um ministério
primacial em toda a Comunhão Anglicana.
46. A ARCIC já reconheceu que o modelo de aspectos
primaciais e conciliares complementares da episcope a serviço
da koinonia das igrejas deve ser realizado ao nível
universal (Autoridade na Igreja I, 23). As exigências
da vida da igreja demandam um exercício específico de episcope
a serviço de toda a Igreja. No modelo encontrado no Novo
Testamento, um dos doze é escolhido por Jesus Cristo para
fortalecer os outros de forma que permaneçam fiéis a sua
missão e em harmonia uns com os outros (veja a discussão
sobre textos Petrinos em Autoridade na Igreja II, 2-5). Agostinho
de Hipona expressou bem a relação entre Pedro, os outros apóstolos
e toda a Igreja, quando disse:
Afinal, não foi só um homem que recebeu essas chaves, mas
a Igreja em sua unidade. Então, é esse o motivo da preeminência
reconhecida de Pedro, que ele representava a universalidade e a unidade da
Igreja quando lhe foi dito, Confio-te, o que, na verdade, foi
confiado a todos. Desejo demonstrar que foi a Igreja que recebeu as chaves
do reino dos céus. Ouçam o que o Senhor diz a todos os apóstolos
em outra passagem: Recebei o Espírito Santo; e
imediatamente: A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão
perdoados. A quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos. (Jo
20.22-23). Isso se refere às chaves, das quais é dito, tudo
o que ligares na terra será ligado no céu (Mt 16.19).
Mas isso foi dito a Pedro... na ocasião, Pedro representava a
Igreja universal.
(Sermão 295, Sobre a Festa do Martírio dos Apóstolos
Pedro e Paulo).
A ARCIC também já estudou anteriormente a transmissão
do ministério primacial exercida pelo Bispo de Roma (veja Autoridade
na Igreja II, 6-9). Historicamente, o Bispo de Roma tem exercido esse
ministério em favor de toda a Igreja, como quando Leão
contribuiu para o Concílio de Calcedônia, ou então em
favor de uma igreja local, como quando Gregório, o Grande, apoiou a
missão de Agostinho de Canterbury e sua organização
da Igreja inglesa. Esse dom tem sido bem-vindo e o ministério
desses Bispos de Roma continua a ser celebrado liturgicamente por
Anglicanos e Católicos Romanos.
47. Dentro de seu ministério mais amplo, o Bispo de Roma oferece
um ministério específico relativo ao discernimento da
verdade, como expressão de primazia universal. Esse serviço
particular tem sido fonte de dificuldades e mal-entendidos nas igrejas.
Toda definição solene pronunciada da cátedra de Pedro
na igreja de Pedro e Paulo expressa, entretanto, apenas a fé da
Igreja. Qualquer definição dessas é pronunciada dentro
do colégio daqueles que exercem a episcope e não
fora dele. Esse ensinamento autorizado é um exercício
particular do chamado e da responsabilidade do corpo de bispos de ensinar
e afirmar a fé. Quando a fé é articulada dessa forma,
o Bispo de Roma proclama a fé das igrejas locais. Assim, é
todo o ensinamento confiável de toda a Igreja que opera no
julgamento do primaz universal. Ao formular solenemente tal ensinamento, o
primaz universal deve discernir e declarar, com a assistência e a
orientação segura do Espírito Santo, em fidelidade à
Escritura e à Tradição, a fé autêntica
de toda a Igreja, ou seja, a fé proclamada desde o início. É
essa fé, a fé de todos os batizados em comunhão, e
somente essa, que cada bispo profere com o corpo de bispos em concílio.
É essa fé que o Bispo de Roma, em determinadas circunstâncias,
tem o dever de discernir e tornar explícita. Essa forma de
ensinamento autorizado não tem garantia mais forte do Espírito
do que a que têm as definições solenes de concílios
ecumênicos. A recepção da primazia do Bispo de Roma
acarreta o reconhecimento desse ministério específico do
primaz universal. Acreditamos que isso é um dom a ser recebido por
todas as igrejas.
48. Os ministros a quem Deus dá a Igreja para sustentar sua vida
são marcados pela fragilidade:
Portanto, como é pela misericórdia divina que somos
detentores deste ministério, não desanimamos ... mas
mantemos esse tesouro em vasos de barro, para que fique claro que esse
poder extraordinário pertence a Deus e não vem de nós
(2 Cor 4.1; 4.7).
É claro que apenas por graça divina o exercício da
autoridade na comunhão da Igreja leva as marcas da própria
autoridade de Cristo. Essa autoridade é exercida por Cristãos
frágeis por causa de outros Cristãos frágeis. Isso é
igualmente verdadeiro quanto ao ministério de Pedro:
Simão, Simão, Satanás vos reclamou peneirar
como trigo, mas tenho rezado por ti para que tua fé não
falhe; e, quando tiveres voltado, confirma teus irmãos (Lc
22.31-32; cf. Jo 21.15-19).
O Papa João Paulo II torna isso claro em Ut Unum Sint:
Cumpro esse dever com a convicção profunda de que estou
obedecendo ao Senhor, e com um senso nítido de minha própria
fragilidade humana. Na verdade, se o próprio Cristo confiou a Pedro
essa missão especial na Igreja e o exortou a confirmar seus irmãos,
também tornou clara para ele sua fraqueza humana e sua necessidade
especial de conversão. (Ut Unum Sint, 4).
A fraqueza e o pecado humano não afetam apenas os ministros
individuais: também conseguem distorcer a estruturação
humana da autoridade (cf. Mt 23). Portanto, às vezes são
necessárias uma crítica honesta e algumas reformas, seguindo
o exemplo de Paulo (cf. Gl 2.11-14). A consciência da fragilidade
humana no exercício da autoridade garante que os Ministros cristãos
estejam abertos a críticas e à renovação e,
acima de tudo, ao exercício da autoridade segundo o exemplo e o
pensamento de Cristo.
Disciplina: O Exercício da Autoridade e a Liberdade de Consciência
49. O exercício da autoridade na Igreja deve ser reconhecido e
aceito como um instrumento do Espirito de Deus para a cura da humanidade.
O exercício da autoridade deve sempre respeitar a consciência,
porque o trabalho divino de salvação afirma a liberdade
humana. Aceitando livremente o caminho da salvação oferecido
pelo batismo, o Discípulo cristão também assume
livremente a disciplina de ser um membro do Corpo de Cristo. Uma vez que a
Igreja de Deus é reconhecida como a comunidade onde os meios
divinos de salvação operam, as exigências do
discipulado para o bem-estar de toda a comunidade Cristã não
podem ser ignoradas. Existe, também, uma disciplina necessária
para o exercício da autoridade. Os que são chamados a esse
ministério devem se submeter à disciplina de Cristo,
observar os requisitos da colegialidade e do bem comum, e respeitar
devidamente as consciências de aqueles aos quais são chamados
a servir.
O Amém da Igreja ao Sim de Deus no
Evangelho
50. Temos chegado a um entendimento comum da autoridade, vendo-a, na fé,
como uma manifestação do Sim de Deus para sua
criação, suscitando o Amém de suas
criaturas. Deus é a fonte da autoridade, e o exercício
adequado da autoridade é sempre dirigido para o bem comum e o bem
da pessoa. Em um mundo partido, e para uma Igreja dividida, o Sim
de Deus em Jesus Cristo traz a realidade da reconciliação, o
chamado ao discipulado, e um antegozo da meta final da humanidade, quando,
através do Espírito, todos em Cristo pronunciem seu Amém
para a glória de Deus. O Sim de Deus, encarnado em
Cristo, é recebido na proclamação e na Tradição
do Evangelho, na vida sacramental da Igreja e nas formas em que é
exercida a episcope. Quando as igrejas, através de seu
exercício da autoridade, manifestam o poder salvador e
reconciliador do Evangelho, é oferecida ao mundo inteiro uma visão
do que Deus pretende para toda a criação. A finalidade do
exercício da autoridade e de sua recepção é
habilitar a Igreja a dizer Amém ao Sim de
Deus no Evangelho.
IV. CONSENSO NO EXERCÍCIO DA AUTORIDADE:
PASSOS EM DIREÇÃO
À UNIDADE VISÍVEL
51. Submetemos a nossas respectivas autoridades esta declaração
concorde a respeito da autoridade na Igreja. Acreditamos que, se essa
declaração sobre a natureza da autoridade e o modo de exercê-la
for aceita e posta em prática, esta questão não será
mais causa do prosseguimento de uma ruptura na comunhão entre
nossas duas igrejas. De acordo com isto, especificamos abaixo alguns
aspectos desta concordância, que significam avanços recentes
em cada uma de nossas comunhões, bem como certas questões
que ainda têm que ser enfrentados por elas. Enquanto caminharmos em
direção a uma comunhão eclesial plena, sugerimos
formas em que a comunhão existente, embora imperfeita, possa se
tornar mais visível através do exercício de uma
colegialidade renovada entre os bispos e de um exercício e uma
recepção renovados da primazia universal.
Avanços no Consenso
52. A Comissão acredita que já aprofundamos e estendemos
nosso consenso com relação a:
- como a autoridade de Cristo está presente e atuante na Igreja
quando a proclamação do Sim de Deus suscita o Amém
de todos os fiéis ( parágrafos 7-18);
- a interdependência dinâmica da Escritura e da Tradição
apostólica e o papel normativo da Escritura dentro da Tradição
(parágrafos 19-23);
- a necessidade da recepção constante da Escritura e da
Tradição, e da re-recepção em circunstâncias
especiais (parágrafos 24-26);
- como o exercício da autoridade está a serviço
da fé pessoal dentro da vida da Igreja (parágrafos 23, 29,
49);
- o papel de todo o povo de Deus, no qual, como mestres da fé,
os bispos têm uma voz distinta na formação e no
pensamento da Igreja (parágrafos 29-30);
- a sinodalidade e suas implicações para a comunhão
de todo o povo de Deus e de todas as igrejas locais, ao buscarem,
juntos, seguir a Cristo, o Caminho (parágrafos 34-40);
- a cooperação essencial do ministério da episcope
e do sensus fidei de toda a Igreja na recepção da
Palavra Divina (parágrafos 29, 36, 43);
- a possibilidade, em determinadas circunstâncias, de a Igreja
ensinar infalivelmente a serviço da indefectibilidade da Igreja
(parágrafos 41-44);
- uma primazia universal, exercida colegialmente no contexto da
sinodalidade, como parte integral da episcope a serviço
da comunhão universal, tal primazia tendo sido sempre associada
com o Bispo e a Sé de Roma (parágrafos 46-48);
- como o ministério do Bispo de Roma assiste o ministério
de todo o corpo episcopal no contexto da sinodalidade, promovendo a
comunhão das igrejas locais em sua vida em Cristo e na proclamação
do Evangelho (parágrafos 46-48);
- como o Bispo de Roma oferece um ministério específico
quanto ao discernimento da verdade (parágrafo 47).
Avanços Significativos em Ambas as Comunhões
53. A Conferência de Lambeth de 1998 reconheceu a necessidade de
refletir sobre o modo como a Comunhão Anglicana toma decisões
autorizadas. Em nível internacional, os instrumentos Anglicanos de
sinodalidade têm autoridade considerável para influenciar e
apoiar as províncias; entretanto, nenhum desses instrumentos tem o
poder de passar por cima de uma decisão provincial, mesmo se ela
ameaçar a unidade da Comunhão. Assim, a Conferência de
Lambeth de 1998, à luz do Relatório de Virgínia
da Comissão Teológica e Doutrinal Inter-Anglicana, resolveu
fortalecer esses instrumentos de várias formas, principalmente o
papel do Arcebispo de Canterbury e do Encontro de Primazes. A Conferência
também solicitou ao Encontro de Primazes que iniciasse um estudo em
cada província sobre se a comunhão efetiva, em todos
os níveis, não requer instrumentos apropriados, com a devida
salvaguarda, não apenas para legislação, mas também
para supervisão ... bem como no que se refere a um ministério
universal a serviço da unidade Cristã (Resolução
III, 8(h)). Ao lado da autonomia das províncias, os Anglicanos estão
percebendo que a interdependência entre as igrejas locais e entre as
províncias também é necessária para promover a
comunhão.
54. A Igreja Católica Romana, principalmente a partir do Concílio
Vaticano Segundo, tem desenvolvido gradualmente estruturas sinodais para
sustentar a koinonia com mais eficácia. A função
estimuladora das Conferências Episcopais nacionais e regionais e a
realização regular de Assembléias Gerais do Sínodo
de Bispos demonstram essa evolução. Tem havido mudanças,
também, no exercício da sinodalidade em nível local,
embora isso varie de lugar para lugar. A legislação canônica
requer, agora, que homens e mulheres leigos, pessoas da vida religiosa, diáconos
e padres tomem parte nos conselhos pastorais paroquiais e diocesanos, em sínodos
diocesanos e em vários outros órgãos, sempre que se
reunirem.
55. Na Comunhão Anglicana, existe uma procura por estruturas
universais que promovam a koinonia, e, na Igreja Católica
Romana, um fortalecimento de estruturas locais e intermediárias. Em
nossa opinião, esses avanços refletem uma consciência
comum e cada vez maior de que a autoridade na Igreja precisa ser exercida
de forma apropriada em todos os níveis. Mesmo assim, ainda há
questões a serem consideradas pelos Anglicanos e Católicos
Romanos relativas a aspectos importantes do exercício da autoridade
a serviço da koinonia. A Comissão propõe
algumas questões com franqueza, mas na convicção de
que precisamos do apoio mútuo ao respondê-las. Acreditamos
que, na situação dinâmica e fluida em que são
colocadas, a tentativa de respondê-las deve ser acompanhada pelo
desenvolvimento de outras etapas em direção ao exercício
compartilhado da autoridade.
Questões Defrontadas pelos Anglicanos
56. Vimos que são necessários, em todos os níveis,
instrumentos de supervisão e decisão para apoiar a comunhão.
Tendo isso em mente, a Comunhão Anglicana está explorando o
desenvolvimento de estruturas de autoridade em suas províncias.
Estaria a Comunhão também aberta à aceitação
de instrumentos de supervisão que iriam permitir chegar a decisões
que, em certas circunstâncias, uniriam toda a Igreja? Quando surgem
grandes questões que, em fidelidade à Escritura e à
Tradição, requerem uma resposta unida, poderão essas
estruturas auxiliar os Anglicanos a participar do sensus fidelium
com todos os Cristãos? Até que ponto a ação
unilateral por parte das províncias ou dioceses em assuntos
relativos a toda a Igreja, mesmo após ter havido uma consulta,
poderia enfraquecer a koinonia? Os Anglicanos têm se
mostrado prontos a tolerar anomalias para manter a comunhão.
Entretanto, isso tem levado a um enfraquecimento da comunhão
manifestada na Eucaristia, no exercício da espicope na
comunicação recíproca do ministério. Quais são
as conseqüências disso? Acima de tudo, como os Anglicanos irão
considerar a questão da primazia universal que está
emergindo de sua vida em comum e do diálogo ecumênico?
Questões Defrontadas pelos Católicos Romanos
57. O Concílio Vaticano Segundo lembrou aos Católicos
Romanos como os dons de Deus estão presentes em todo o povo de
Deus. Também ensinou a colegialidade do episcopado em sua comunhão
com o Bispo de Roma, cabeça do colégio. No entanto, existe
participação efetiva do clero e dos leigos em todos os níveis
em órgãos sinodais emergentes? Os ensinamentos do Concílio
Vaticano Segundo sobre a colegialidade dos bispos foram suficientemente
implantados? As ações dos bispos refletem uma consciência
suficiente da extensão da autoridade recebida pela ordenação
para governar a igreja local? Têm sido tomadas providências
suficientes para assegurar as consultas entre o Bispo de Roma e as igrejas
locais antes da tomada de decisões importantes que afetam a igreja
local ou toda a Igreja? Como a variedade de opiniões teológicas
é levada em consideração quando essas decisões
são tomadas? Ao apoiar o Bispo de Roma em seu trabalho de promover
a comunhão entre as igrejas, as estruturas e os procedimentos da Cúria
Romana respeitam adequadamente o exercício da episcope em
outros níveis? Acima de tudo, como a Igreja Católica Romana
irá considerar a questão da primazia universal na medida em
que ela emergir do diálogo paciente e fraterno sobre o
exercício do ofício do Bispo de Roma para o qual João
Paulo II convidou os líderes da igreja e seus teólogos?
Colegialidade Renovada: Tornando Visível nossa Comunhão
Existente
58. Os Anglicanos e os Católicos Romanos já estão
enfrentando essas questões, mas sua resolução pode
levar algum tempo ainda. Entretanto, não há volta em nossa
caminhada para a plena comunhão eclesial. Com base em nosso
consenso, a Comissão acredita que nossas duas comunhões
devem tornar mais visível a koinonia já alcançada.
O diálogo teológico deve continuar em todos os níveis
nas igrejas, mas não é suficiente por si só. Para o
bem da koinonia e de um Testemunho cristão unido para o
mundo, os bispos Anglicanos e Católicos Romanos devem encontrar
formas de cooperar e desenvolver relações de
responsabilidade mútua em seu exercício de supervisão.
Nesse novo estágio, não precisamos apenas fazer
juntos tudo o que pudermos, mas também ser juntos tudo o
que nossa koinonia existente permitir.
59. Essa cooperação no exercício da episcope
envolveria o encontro regular de bispos em nível regional e local e
a participação dos bispos de uma comunhão em
encontros internacionais de bispos da outra. Poderia se considerar
seriamente, também, a associação dos bispos
Anglicanos com os bispos Católicos Romanos em suas visitas ad
limina a Roma. Sempre que possível, os bispos poderiam
aproveitar a oportunidade de ensinar e agir juntos em aspectos de fé
e princípios de conduta. Também devem testemunhar juntos na
esfera pública em assuntos que afetam o bem comum. Aspectos práticos
específicos da partilha da episcope surgirão de
iniciativas locais.
Primazia Universal: Um Dom a Ser Compartilhado
60. O trabalho da Comissão tem tido como resultado um consenso
suficiente sobre a primazia universal como um dom a ser compartilhado, até
o ponto de poder propor que tal primazia seja oferecida e recebida mesmo
antes de nossas igrejas atingirem uma comunhão plena. Tanto os Católicos
Romanos quanto os Anglicanos cuidam para que esse ministério seja
exercido em colegialidade e sinodalidade um ministério de
servus servorum Dei (Gregório, o Grande, citado em Ut
Unum sint, 88). Contemplamos uma primazia que, mesmo agora, irá
ajudar a sustentar a diversidade legítima das tradições,
fortalecendo-as a salvaguardando-as em fidelidade ao Evangelho, e irá
encorajar as igrejas em sua missão. Esse tipo de primazia já
poderá auxiliar a Igreja na terra a ser a koinonia católica
autêntica, na qual a unidade não diminui a diversidade, e a
diversidade não põe em perigo, mas estimula, a unidade. Será
um sinal efetivo para todos os Cristãos de como tal dom de Deus
constrói essa unidade para a qual Cristo rezou.
61. Esse primaz universal irá exercer a liderança no mundo
e também nas duas comunhões, dirigindo-se a elas de forma
profética. Promoverá o bem comum sem a coação
de interesses setoriais, e oferecerá um ministério de ensino
contínuo e próprio, principalmente ao considerar questões
teológicas e morais difíceis. Uma primazia universal nesse
estilo irá acolher e proteger a investigação teológica
e outras formas de busca da verdade, para que seus resultados possam
enriquecer e fortalecer a sabedoria humana e a fé da Igreja. Tal
primazia universal poderia unir as igrejas em vários tipos de
consulta e discussão.
62. Uma experiência de primazia universal desse tipo confirmaria
duas conclusões específicas a que chegamos:
- de que os Anglicanos estão abertos e desejosos de uma
recuperação e re-recepção, sob certas condições
claras, do exercício da primazia universal pelo Bispo de Roma;
- de que os Católicos Romanos estão abertos e desejosos
de uma re-recepção do exercício da primazia pelo
Bispo de Roma e da oferta desse ministério para toda a Igreja de
Deus.
63. Quando a comunhão real, embora imperfeita, entre nós
se torna mais visível, a trama da unidade que é tecida a
partir da comunhão com Deus e da reconciliação mútua
se amplia e se fortalece. Assim, o Amém que os
Anglicanos e os Católicos Romanos dizem ao único Senhor se
aproxima de um Amém pronunciado em uníssono pelo
único povo santo, que testemunha a salvação de Deus e
o amor reconciliador em um mundo partido.
MEMBROS DA COMISSÃO
MEMBROS ANGLICANOS
Rt. Rev. Mark Santer, Bispo de Birmingham, Reino Unido (Co-Presidente)
Rt. Rev. John Baycroft, Bispo de Ottawa, Canadá
Dr. E. Rozanne Elder, Professor de História, Universidade de
Western Michigan, EUA
Rev. Professor Jaci Maraschin, Professor de Teologia, Instituto Ecumênico,
São Paulo, Brasil
Rev. Cônego Richard Marsh, Secretário do Arcebispo de
Canterbury para Assuntos Ecumênicos, Londres, Reino Unido (desde
1996)
Rev. Dr. John Muddiman, Tutor em Teologia, Mansfield College,
Universidade de Oxford, Reino Unido
Rt. Rev. Michael Nazir-Ali, Bispo de Rochester, Reino Unido
Rev. Dr. Nicholas Sagovsky, Pesquisador, Universidade de Newcastle,
Reino Unido
Rev. Dr. Charles Sherlock, Professor, Trinity College Theological
School, Parkville, Australia
SECRETÁRIO
Rev. Dr. Donald Anderson, Diretor de Relações e Estudos
Ecumênicas, Anglican Communion Office, Londres, Reino Unido (1994-1996)
Rev. Cônego David Hamid, Diretor de Assuntos e Relações
Ecumênicas, Anglican Communion Office, Londres, Reino Unido (desde
1996)
Rev. Cônego Stephen Platten, Secretário do Arcebispo de
Canterbury para Assuntos Ecumênicos, Londres, Reino Unido (até
1994)
MEMBROS CATÓLICOS ROMANOS
Rt. Rev. Cormac Murphy-OConnor, Bispo de Arundel e Brighton, Reino
Unido (Co-Presidente)
Irmã Sara Butler MSBT, Professora Assistente de Teologia Sistemática,
Universidade de St. Mary of the Lake, Mundelein, Illinois, EUA
Rev. Peter Cross, Professor de Teologia Sistemática, Catholic
Theological College, Clayton, Austrália
Rev. Dr. Adelbert Denaux, Professor, Faculdade de Teologia, Universidade
Católica, Leuven, Bélgica
Rt. Rev. Pierre Duprey, Bispo Titular de Thibaris, Secretário,
Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade Cristã,
Cidade do Vaticano
Reverendíssimo Patrick A. Kelly, Arcebispo de Liverpool, Reino
Unido
Rev. Mgr. William Steele, Vigário Episcopal para a Missão
e Unidade, Diocese de Leeds, Reino Unido (1994-1995)
Rev. Jean M. R. Tillard OP, Professor, Faculdade Dominicana de Teologia,
Ottawa, Canadá
Rev. Liam Walsh OP, Professor de Teologia Dogmática, Universidade
de Friburgo, Suíça
SECRETÁRIO
Rev. Timothy Galligan, Membro do Staff, Conselho Pontifício
para a Promoção da Unidade Cristã, Cidade do Vaticano
OBSERVADOR DO CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS
Rev. Dr. Günther Gassmann, Diretor da Comissão Fé
e Constituição, Conselho Mundial de Igrejas, Genebra,
Suíça (até 1994)
Professor Dr. Michael Root, Trinity Lutheran Seminary, Columbus, Ohio,
EUA (desde 1995)
(1) Segundo o uso ecumênico, a palavra Tradição
com maiúscula refere-se, aqui, ao próprio Evangelho,
transmitido de geração a geração na Igreja e
pela Igreja, enquanto que a palavra tradição
com minúscula diz respeito ao processo da tradição,
a transmissão da verdade revelada (Quarta Conferência
Mundial sobre a Fé e a Ordem, Montreal 1963, Seção
II, par. 39). O plural tradições faz referência
a aspectos peculiares da liturgia, teologia, vida canônica e
eclesial nas várias culturas e comunidades de fé. Esses
usos, entretanto, são freqüentemente difíceis de se
distinguir. A locução Tradição apostólica
quer dizer o conteúdo do que foi transmitido desde a época
dos apóstolos e continua a ser o fundamento da Vida cristã e
da teologia.
(2) Isso foi declarado pelo Concílio Vaticano Segundo: Todo
o corpo de fiéis que têm uma unção que vem do
Santo (cf. 1 Jo 2.20, 2.27) não erra em questões de crença.
Essa característica é mostrada na apreciação
sobrenatural da fé (sensus fidei) de todo o povo, quando, dos
bispos ao último dos fiéis, todos manifestam um
consentimento universal em questões de fé e princípios
de conduta (Constituição Dogmática sobre a
Igreja, Lumen Gentium,12).