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O DOM DA AUTORIDADE

(AUTORIDADE NA IGREJA III)


PREFÁCIO

Pelos Co-Presidentes

Há mais de trinta anos, iniciou-se uma busca intensa de unidade plena e palpável entre a Comunhão Anglicana e a Igreja Católica Romana, no encontro histórico do Arcebispo Michael Ramsay com o Papa Paulo VI, em Roma. A Comissão encarregada de preparar o diálogo reconheceu, como consta do Relatório de Malta, de 1968, que uma das “tarefas urgentes e importantes” seria examinar a questão da autoridade. De certa forma, essa questão está no âmago de nossas tristes divergências.

Quando o Relatório Final da ARCIC foi publicado, em 1981, metade do documento estava voltada para o diálogo sobre a autoridade na Igreja, com duas declarações de consenso e uma elucidação. Isso foi um importante fundamento que preparou o caminho para uma ulterior convergência. As respostas oficiais, fornecidas pela Conferência da Comunhão Anglicana de Lambeth, em 1988, e pela Igreja Católica, em 1991, estimularam a Comissão a levar adiante o “grande progresso” que havia ocorrido. Assim, a ARCIC agora apresenta esta nova declaração, intitulada O Dom da Autoridade.

A chave para a declaração é uma imagem bíblica. No primeiro capítulo de sua segunda carta aos Coríntios, Paulo escreve sobre o “Sim” de Deus à humanidade e nosso “Amém” como resposta a Deus, ambos dados em Jesus Cristo (cf. 2 Cor 1.19-20). O dom divino da autoridade concedido à sua Igreja está a serviço do “Sim” de Deus a seu povo e do “Amém” deste.

O leitor é convidado a seguir a trilha que levou a Comissão às suas conclusões. Elas representam o fruto de cinco anos de diálogo, escuta paciente, estudo e orações em conjunto. A declaração, esperamos, irá propiciar maiores reflexões teológicas, e suas conclusões constituem um desafio para nossas duas Igrejas, principalmente no que se refere ao debate crucial sobre a primazia universal. Autoridade diz respeito ao modo como a Igreja ensina, atua e toma decisões doutrinais com fidelidade ao Evangelho; portanto, um consenso real sobre a autoridade não pode ser teórico. Se esta declaração contribuir para a reconciliação da Comunhão Anglicana e da Igreja Católica e for aceita, irá demandar uma resposta em termos de vida e de ações.

Muitas coisas passaram-se ao longo desses anos que intensificaram nossa consciência recíproca de sermos irmãos e irmãs em Cristo. Entretanto, nossa jornada em direção a uma unidade plena e palpável tem sido mais longa do que alguns achavam e muitos esperavam. Temos encontrado sérios obstáculos que dificultam o progresso. Neste estágio, o trabalho perseverante e penoso do diálogo é ainda mais vital. O atual Arcebispo de Canterbury, Dr. George Carey, e o Papa Paulo II afirmaram abertamente a necessidade desse trabalho sobre a autoridade, ao se encontrarem, em 1996: “Sem o consenso nesse ponto não atingiremos a unidade plena e palpável com que estamos ambos comprometidos”.

Pedimos a Deus que auxilie o trabalho da Comissão a contribuir para a meta almejada por todos nós, a cura de nossas divergências, para que, juntos, possamos dizer um “ ‘Amém’ em uníssono para a glória de Deus” (2 Cor 1.20).

CORMAC MURPHY-O’CONNOR

MARK SANTER


Palazzola Festa de São Gregório, o Grande 3 de setembro de 1998


O DOM DA AUTORIDADE

(AUTORIDADE NA IGREJA III)


I. INTRODUÇÃO

1. O diálogo entre os Anglicanos e os Católicos Romanos tem dado sinais evidentes de progresso quanto à questão da autoridade na Igreja. Esse progresso já pode ser percebido na convergência alcançada em declarações anteriores da ARCIC sobre o conceito de autoridade, de maneira notável:

  • a admissão de que O Espírito do Senhor Ressuscitado mantém o povo de Deus obediente à vontade do Pai. Por essa ação do Espírito Santo, a autoridade do Senhor é ativa na Igreja (cf. Relatório Final, Autoridade na Igreja I, 3);
  • o reconhecimento de que, graças ao seu batismo e à sua participação no sensus fidelium, os leigos constituem parte integral do poder decisório da Igreja (cf. Autoridade na Igreja: Elucidação, 4);
  • a complementaridade da primazia e da conciliaridade como elementos de episcope dentro da Igreja (cf. Autoridade na Igreja I, 22);
  • a necessidade de uma primazia universal exercida pelo Bispo de Roma como sinal e salvaguarda da unidade dentro de uma Igreja re-unida (cf. Autoridade na Igreja II, 9);
  • a necessidade de o primaz universal exercer seu ministério em associação colegiada com outros bispos (cf. Autoridade na Igreja II, 19);
  • uma compreensão da primazia universal e da conciliaridade que complemente e não suplante o exercício da episcope em igrejas locais (cf. Autoridade na Igreja I, 21-23; Autoridade na Igreja II, 19).

2. Essa convergência foi oficialmente reconhecida pelas autoridades da Comunhão Anglicana e da Igreja Católica Romana. A Conferência de Lambeth, em 1988, não apenas considerou os consensos da ARCIC sobre a doutrina eucarística e sobre ministério e ordenação consoantes, em substância, com a fé anglicana (Resolução 8:1), como também afirmou que as declarações de consenso sobre a autoridade na Igreja forneceram a base para um diálogo posterior (Resolução 8:3). Da mesma forma, a Santa Sé, em sua resposta oficial de 1991, reconhecendo áreas de consenso sobre questões de importância primordial para a fé da Igreja Católica Romana, tais como a Eucaristia e o ministério da Igreja, percebeu sinais de convergência entre nossas duas comunhões quanto à autoridade na Igreja, indicando o caminho para um desenvolvimento maior.

3. No entanto, as autoridades de nossas duas comunhões têm solicitado maiores investigações sobre assuntos em que, embora tenha havido convergência, um consenso que julgam necessário ainda não foi atingido. Esses assuntos incluem:

  • a relação entre Escritura, Tradição e o exercício da autoridade de magistério;
  • Colegialidade, conciliaridade e o papel dos leigos em tomadas de decisão;
  • O ministério Petrino da primazia universal com relação à Escritura e à Tradição.

A despeito do progresso alcançado, sérias dificuldades têm surgido na busca pela unidade. Questões relativas à autoridade têm sido levantadas de modo perspicaz em cada uma de nossas comunhões. Por exemplo, debates e decisões sobre a ordenação de mulheres têm conduzido a questões sobre fontes e estruturas da autoridade e como estas funcionam para os Anglicanos e os Católicos Romanos.

4. Em ambas as comunhões, investigações sobre como a autoridade deve ser exercida em diversos níveis estão abertas às perspectivas de outras igrejas sobre o assunto. Por exemplo, o Relatório de Virgínia da Comissão Teológica e Doutrinal Interanglicana (preparado para a Conferência de Lambeth de 1998) declara: “A longa história de envolvimento ecumênico, tanto local quanto internacionalmente, tem nos mostrado que o discernimento e o poder decisório dos Anglicanos devem considerar as visões da verdade e a sabedoria inspirada pelo Espírito de nossos parceiros ecumênicos. Além disso, quaisquer decisões que tomarmos devem ser submetidas ao discernimento da Igreja universal” (Relatório de Virgínia, 6.37). Em sua Encíclica Ut unum sint, o Papa João Paulo II convidou líderes e teólogos de outras igrejas a se unirem a ele num diálogo fraterno sobre como o ministério da unidade do Bispo de Roma poderia ser exercido numa situação nova (cf. Ut unum sint, 95-96).

5. Há um vasto debate sobre a natureza e o exercício da autoridade tanto nas igrejas quanto na sociedade em geral. Anglicanos e Católicos Romanos desejam dar testemunho, para as igrejas e para o mundo, de que a autoridade exercida de forma correta é um dom de Deus para trazer reconciliação e paz para a humanidade. O exercício da autoridade pode ser opressivo e destrutivo. Na verdade, freqüentemente pode sê-lo em sociedades humanas e até em igrejas, quando elas adotam certos padrões de autoridade sem uma visão crítica. O exercício da autoridade no ministério de Jesus adquire características diferentes. É em conformidade com o pensamento e o exemplo de Cristo que a Igreja é chamada a exercer autoridade (cf. Lc 22.24-27; Jo 13.14-15; Fl 2.1-11). Para o exercício dessa autoridade, a Igreja é investida pelo Espírito Santo de um conjunto de dons e ministérios (cf. 1 Cor 12.4-11; Ef 4.11-12).

6. Desde o início, a ARCIC tem considerado questões sobre o ensinamento ou a prática da Igreja no contexto de nossa comunhão real, mas imperfeita, com Cristo e da unidade palpável para a qual somos chamados. A Comissão tem sempre procurado colocar-se à parte de posições opostas ou defensivas para descobrir e desenvolver nossa herança comum. Trabalhando a partir do que já foi feito pela ARCIC, a Comissão fornece uma nova declaração sobre como o dom da autoridade, quando bem exercido, permite à Igreja continuar obediente ao Espírito Santo, que a mantém fiel ao serviço do Evangelho para a salvação do mundo. Desejamos esclarecer como o exercício e a aceitação da autoridade na Igreja são inseparáveis da resposta dos fiéis ao Evangelho, como estão relacionados com a interação dinâmica da Escritura com a Tradição, e como são expressos e experimentados na comunhão das igrejas e na colegialidade de seus bispos. À luz dessas compreensões, chegamos a um entendimento aprofundado da primazia universal a serviço da unidade de todas as igrejas locais.

II. AUTORIDADE NA IGREJA

Jesus Cristo: O “Sim” de Deus para Nós e o nosso “Amém” para Deus

7. Deus é o autor da vida. Por sua Palavra e seu Espírito, em liberdade total, Deus dá origem à vida. Apesar do pecado humano, Deus, em fidelidade perfeita, permanece o criador da esperança de vida nova para todos. Na obra de redenção de Jesus Cristo, Deus renova sua promessa para sua criação, pois “o propósito de Deus é trazer todos os povos em comunhão consigo no âmbito de uma criação transformada” (ARCIC, Igreja como Comunhão, 16). O Espírito de Deus continua a trabalhar na criação e na redenção para atingir esse propósito de reconciliação e unidade. Assim, a raiz de toda autoridade verdadeira é a atividade do Deus trino e uno, que cria a vida em toda sua plenitude.

8. A autoridade de Jesus Cristo é a da “testemunha fiel”, o “Amém” (cf. Ap 1.5; 3.14) em que todas as promessas de Deus encontram seu “Sim”. Quando Paulo teve de defender a autoridade do seu ensinamento, ele o fez apontando para a autoridade digna de confiança de Deus: “Tão certo quanto Deus é fiel, nossa palavra para vós não tem sido Sim e Não. Pois o Filho de Deus, Jesus Cristo, que pregamos no meio de vós ... não foi Sim e Não; mas sempre foi unicamente Sim. Pois todas as promessas de Deus encontram seu Sim nele. É por isso que pronunciamos o Amém através dele, para a glória de Deus”( 2 Cor 1.18-20). Paulo fala do “Sim” de Deus a nós e do “Amém” da Igreja a Deus. Em Jesus Cristo, Filho de Deus e nascido de uma mulher, o “Sim” da humanidade a Deus torna-se uma realidade humana concreta. Esse tema do “Sim” de Deus e do “Amém” da humanidade em Jesus Cristo é a chave para a exposição sobre autoridade nesta declaração.

9. Na vida e no ministério de Jesus, que veio para fazer a vontade de seu Pai (cf. Hb 10.5-10) mesmo até a morte (cf. Fl 2.8; Jo 10.18), Deus forneceu o “Amém” humano perfeito para seu propósito de reconciliação. Em sua vida, Jesus expressou sua dedicação total ao Pai (cf. Jo 5.19). O modo como Jesus exerceu a autoridade em seu ministério terreno foi percebido por seus contemporâneos como algo de novo. Foi reconhecido em seus poderosos ensinamentos e em sua palavra de cura e libertação (cf. Mt 7.28-29; Mc 1.22,27). Acima de tudo, sua autoridade foi demonstrada por seu serviço abnegado em amor sacrificial (cf. Mc 10.45). Jesus falava e agia com autoridade por causa de sua comunhão perfeita com o Pai. Sua autoridade veio do Pai (cf. Mt 11.27; Jo 14.10-12). É ao Senhor Ressuscitado que toda autoridade é concedida no céu e na terra (cf. Mt 28.18). Agora Jesus Cristo vive e reina com o Pai, na unidade do Espírito Santo; ele é a Cabeça de seu Corpo, a Igreja, e Senhor de toda a Criação (cf. Ef 1.18-23).

10. A obediência vivificante de Jesus Cristo faz surgir, através do Espírito, nosso “Amém” a Deus Pai. Nesse “Amém” através de Cristo, glorificamos a Deus, que infunde o Espírito em nossos corações como penhor de sua fidelidade (cf. 2 Cor 1.20-22). Somos chamados em Cristo a testemunhar o propósito de Deus (cf. Lc 24.46-49), testemunho esse que pode incluir para nós, também, obediência até a morte. Em Cristo, a obediência não é um fardo (cf. 1 Jo 5.3). Nasce da libertação concedida pelo Espírito de Deus. O “Sim” divino e nosso “Amém” são claramente percebidos no batismo, quando, na companhia dos fiéis, dizemos “Amém” à obra de Deus em Cristo. Pelo Espírito, nosso “Amém” como crentes está incorporado no “Amém” de Cristo, através de quem, com quem e em quem adoramos o Pai.

O “Amém” do Fiel no “Amém” da Igreja Local

11. O Evangelho atinge o povo de formas diversas: o testemunho ou a vida de um pai ou de outro Cristão, a leitura das Escrituras, a participação na liturgia ou outra experiência espiritual. A aceitação do Evangelho também é atuada de muitos modos: ao receber-o batismo, na renovação do compromisso, numa decisão de permanecer fiel, ou em atos de autodoação para aqueles em necessidade. Nessas ações, a pessoa diz, “Na verdade, Jesus Cristo é meu Deus: para mim ele significa salvação, fonte de esperança, a verdadeira face do Deus vivo.”

12. Quando um crente diz “Amém” a Cristo individualmente, uma ulterior dimensão está sempre envolvida: um “Amém” à fé da Comunidade cristã. A pessoa que recebe o batismo precisa chegar a conhecer todas as implicações de participar da vida divina dentro do Corpo de Cristo. O “Amém” do fiel a Cristo torna-se ainda mais completo na medida em que a pessoa recebe tudo o que a Igreja, em fidelidade à Palavra de Deus, afirma ser o conteúdo autêntico da revelação divina. Assim, o “Amém” dito ao que Cristo é para cada fiel está incorporado no “Amém” que a Igreja diz ao que Cristo é para seu Corpo. Crescer nessa fé pode ser, para alguns, uma experiência de questionamento e de luta. Para todos, é uma experiência em que a integridade da consciência do fiel tem um papel vital a desempenhar. O “Amém” do crente a Cristo é tão fundamental que cada Cristão , através da vida, é chamado a dizer “Amém” a tudo o que toda a comunidade dos Cristãos recebe e ensina como o significado autêntico do Evangelho e a maneira de seguir a Cristo.

13. Os fiéis seguem a Cristo em comunhão com outros Cristãos em sua igreja local (cf. Autoridade na Igreja I, 8, onde está explicado que “a unidade das comunidades locais sob um bispo é o que comumente queremos dizer em nossas duas comunhões com ‘igreja local’”). Na igreja local, partilham a Vida cristã, encontrando, juntos, uma direção para a formação de sua consciência e força para vencer suas dificuldades. São sustentados pela graça concedida por Deus a seu povo: as Escrituras Sagradas, expostas em pregações, catequese e credos; os sacramentos; o serviço do ministério ordenado; a vida de prece e adoração comum; o testemunho de pessoas santas. O fiel é incorporado no “Amém” da fé, mais antigo, mais profundo, mais amplo, mais rico do que o “Amém” individual para o Evangelho. Dessa forma, a relação entre a fé do indivíduo e a fé da Igreja é mais complexa do que possa parecer. Toda pessoa batizada partilha a rica experiência da Igreja, que, mesmo lutando com questões contemporâneas, continua a proclamar o que Cristo é para seu corpo. Cada crente, pela graça do Espírito, juntamente com todos os crentes de todos os tempos e lugares, herda essa fé da Igreja na comunhão dos santos. Então, os fiéis vivenciam um “Amém” duplo dentro da continuidade do culto divino, do ensinamento e da prática de sua igreja local. Essa igreja local é uma comunidade eucarística. No centro de sua vida está a celebração da Santa Eucaristia, em que todos os fiéis ouvem e recebem o “Sim” de Deus dado a eles em Cristo. Na Grande Ação de Graças, quando se comemora a lembrança do dom de Deus na obra salvadora de Cristo crucificado e ressuscitado, a comunidade está unida com todos os Cristãos de todas as igrejas que, desde o início e até o fim, pronunciam o “Sim” da humanidade a Deus — o “Amém” que o Apocalipse afirma estar no âmago da grande liturgia do céu (cf. Ap 5.14; 7.12).

Tradição e Apostolicidade: O “Amém” da Igreja Local na Comunhão das Igrejas

14. O “Sim” de Deus comanda e convida o “Amém” dos crentes. A Palavra revelada, que a comunidade apostólica testemunhou originalmente, é recebida e comunicada através da vida de toda a Comunidade cristã. A Tradição (paradosis) refere-se a esse processo(1). O Evangelho de Cristo crucificado e ressuscitado é continuamente transmitido e recebido (cf. 1 Cor 15.3) nas Igrejas cristãs. Essa tradição, ou transmissão, do Evangelho é o trabalho do Espírito, principalmente através do ministério da Palavra e do Sacramento e na vida comum do povo de Deus. A Tradição é um processo dinâmico, comunicando a cada geração o que foi entregue de uma vez por todas à comunidade apostólica. A Tradição é muito mais do que a transmissão de proposições verdadeiras referentes à salvação. Um concepção minimalista da Tradição que a limitasse a um repositório de doutrinas e decisões eclesiais é insuficiente. A Igreja recebe, e deve transmitir, todos os elementos constitutivos da comunhão eclesial: o batismo, a confissão da fé apostólica, a celebração da Eucaristia, a liderança mediante um ministério apostólico (cf. Igreja como Comunhão, 15, 43). Na economia (oikonomia) do amor de Deus pela humanidade, a Palavra que se fez carne e viveu entre nós está no âmago do que foi transmitido desde o início e do que será transmitido até o fim.

15. A Tradição é um canal do amor de Deus, que o torna acessível na Igreja e no mundo hoje. Através dela, de uma geração a outra, e de um lugar a outro, a humanidade partilha a comunhão na Santíssima Trindade. Pelo processo da Tradição, a Igreja ministra a graça do Senhor Jesus Cristo e a koinonia do Espírito Santo (cf. 2 Cor 13.14). Portanto, a Tradição é essencial à economia da graça, do amor e da comunhão. Para aqueles cujos ouvidos não ouviram e cujos olhos não viram, o momento de receber o Evangelho salvador é uma experiência de iluminação, perdão, cura, libertação. Os que participam da comunhão do Evangelho não podem deixar de transmiti-lo aos outros, mesmo que isso signifique o martírio. A Tradição é um tesouro a ser recebido pelo povo de Deus e um dom a ser partilhado com toda a humanidade.

16. A Tradição Apostólica é um dom de Deus que deve ser constantemente recebido de novo. Através dela, o Espírito Santo forma, mantém e sustenta a comunhão das igrejas locais de uma geração para outra. A transmissão e a recepção da Tradição apostólica são um ato de comunhão pelo qual o Espírito une as igrejas locais de nossos dias àquelas que as precederam na fé apostólica una. O processo da tradição acarreta a recepção e comunicação constante e contínua da Palavra revelada de Deus em muitas

circunstâncias diversas e em tempos constantemente mutáveis. O “Amém” da Igreja à Tradição apostólica é fruto do Espírito que guia continuamente os discípulos para toda a verdade; ou seja, para Cristo, que é o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 16.13; 14.6).

17. A Tradição expressa a apostolicidade da Igreja. O que os apóstolos receberam e proclamaram é agora encontrado na Tradição da Igreja, na qual a Palavra de Deus é pregada e os sacramentos de Cristo são celebrados no poder do Espírito Santo. As igrejas hoje estão comprometidas a receber a única Tradição apostólica viva, a ordenar sua vida de acordo com ela, e a transmiti-la de tal forma que o Cristo que vem na glória encontrará o povo de Deus confessando e vivendo a fé confiada, de uma vez por todas, aos santos (cf. Jd 3).

18. A Tradição dá testemunho da comunidade apostólica presente na Igreja hoje através de sua memória corporativa. Pela proclamação da Palavra e pela celebração dos sacramentos, o Espírito Santo abre os corações dos fiéis e lhes revela o Senhor Ressuscitado. O Espírito, que agiu nos eventos do ministério de Jesus ocorridos de uma vez por todas, continua a ensinar a Igreja, trazendo à lembrança o que Cristo fez e disse, tornando presentes os frutos de sua obra redentora e o antegozo do reino (cf. Jo 2.22; 14.26). O propósito da Tradição é atingido quando, através do Espírito, a Palavra é recebida e vivida na fé e na esperança. O testemunho da proclamação, dos sacramentos e da vida em comunhão é, ao mesmo tempo, o conteúdo da Tradição e seu resultado. Assim, a memória frutifica na vida de fé dos fiéis na comunhão de sua igreja local.

As Sagradas Escrituras: O “Sim” de Deus e o “Amém” do Povo de Deus

19. No interior da Tradição, as Escrituras ocupam um lugar único e normativo e pertencem ao que foi dado de uma vez por todas. Como testemunho escrito do “Sim” de Deus, exigem da Igreja que avalie constantemente seus ensinamentos, pregações e ações em confronto com elas. “Como as Escrituras são o único testemunho inspirado da revelação divina, a expressão dessa revelação pela Igreja deve ser testada por sua consonância com a Escritura” (Autoridade na Igreja: Elucidação, 2). Através das Escrituras, a revelação divina faz-se presente e é transmitida na vida da Igreja. O “Sim” de Deus é reconhecido no e através do “Amém” da Igreja, que recebe a revelação autêntica de Deus. Ao receber certos textos como testemunhos fidedignos da revelação divina, a Igreja determinou a identidade de suas Sagradas Escrituras. Considera apenas essa coleção de textos como a Palavra escrita inspirada de Deus e, como tal, com una autoridade única.

20. As Escrituras reúnem várias correntes de tradições Judaicas e Cristãs. Essas tradições revelam o modo como a Palavra de Deus tem sido recebida, interpretada e transmitida em contextos específicos, segundo as necessidades, as culturas e as circunstâncias do povo de Deus. Contêm a revelação de Deus do seu desígnio de salvação, que foi realizado em Jesus Cristo e experimentado pelas primeiras Comunidades cristãs. Nessas comunidades, o “Sim” de Deus foi recebido de uma nova maneira. No Novo Testamento, podemos ver como as Escrituras do Primeiro Testamento foram recebidas como revelação do único Deus verdadeiro e, também, reinterpretadas e re-recebidas como revelação de sua Palavra final em Cristo.

21. Todos os escritores do Novo Testamento foram influenciados pela experiência de suas próprias comunidades locais. O que transmitiram, por sua própria capacidade e intuições teológicas, registra os elementos do Evangelho que as igrejas de seu tempo e em situações variadas guardavam em sua memória. Os ensinamentos de Paulo sobre o Corpo de Cristo, por exemplo, são ocasionados em grande parte pelos problemas e divisões da igreja local em Corinto. Quando Paulo fala de “nossa autoridade que o Senhor concedeu para construir-vos e não para destruir-vos” (2 Cor 10.8), ele o faz no contexto de sua relação turbulenta com a igreja de Corinto. Até nas declarações principais de nossa fé, pode-se ouvir, freqüentemente, um eco da situação concreta e, por vezes, dramática de uma igreja local ou de um grupo de igrejas locais, a que somos devedores pela transmissão fiel da Tradição apostólica. A ênfase, no texto de João, na presença do Senhor encarnado em um corpo humano que podia ser visto e tocado antes e depois da ressurreição (cf. Jo 20.27; 1 Jo 4.2) está ligada ao conflito em torno dessa questão nas comunidades joaninas. É através do esforço de determinadas comunidades, num determinado momento, para discernir qual fosse a Palavra de Deus para elas, que encontramos, nas Escrituras, um registro autorizado da Tradição apostólica a ser transmitida de uma geração a outra e de uma igreja a outra, e ao qual os fiéis dizem “Amém”.

22. A formação do cânon das Escrituras foi parte integrante do processo de tradição. O reconhecimento dessas Escrituras pela Igreja como canônicas, após longo período de discernimento crítico, foi um ato de obediência e, ao mesmo tempo, de autoridade. Foi um ato de obediência, pelo fato de que a Igreja discerniu e recebeu o “Sim” doador de vida de Deus através das Escrituras, aceitando-as como a norma de fé. Foi um ato de autoridade, pelo fato de que a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, recebeu e transmitiu esses textos, declarando que eram inspirados e que outros textos não deviam ser incluídos no cânon.

23. O significado do Evangelho de Deus revelado é plenamente entendido apenas no âmbito da Igreja. A revelação de Deus tem sido confiada a uma comunidade. A Igreja não pode ser descrita como um agregado de fiéis individuais, nem sua fé pode ser considerada a soma das crenças desses indivíduos. Os fiéis formam, juntos, o povo de fé, por serem incorporados pelo batismo a uma comunidade que recebe as Escrituras canônicas como a autêntica Palavra de Deus; eles recebem a fé dentro dessa comunidade. A fé da comunidade precede a fé do indivíduo. Assim, embora a caminhada da fé de uma pessoa possa começar pela leitura individual da Escritura, não pode ficar reduzida a isso. A interpretação individualista das Escrituras não se harmoniza com a leitura do texto dentro da vida da Igreja e é incompatível com a natureza da autoridade da Palavra revelada de Deus (cf. 2. Pd 1.20-21). A Palavra de Deus e a Igreja de Deus não podem ser dissociadas.

Recepção e Re-Recepção: O “Amém” da Igreja à Palavra de Deus

24. Através dos séculos, a Igreja recebe e reconhece como um dom da graça divina tudo o que confessa como expressão verdadeira da Tradição transmitida definitivamente aos apóstolos. Essa recepção é, ao mesmo tempo, um ato de fidelidade e de liberdade. A Igreja deve permanecer fiel, de forma que o Cristo que vem na glória reconhecerá na Igreja a comunidade fundada por ele; deve continuar livre para receber a Tradição apostólica de novas maneiras, segundo as situações com que se depara. A Igreja tem a responsabilidade de transmitir toda a Tradição apostólica, embora possa haver partes que considere de difícil integração na sua vida e no seu culto. Pode ser que o que significava muito para uma geração anterior venha a se tornar importante novamente no futuro, embora sua relevância não seja clara no presente.

25. Dentro da Igreja, a memória do povo de Deus pode ser afetada ou mesmo deturpada pela limitação e pelo pecado humano. Embora tendo recebido a promessa da assistência do Espírito Santo, de tempos em tempos as igrejas esquecem alguns aspectos da Tradição apostólica, não conseguindo discernir a visão plena do reino de Deus à luz da qual procuramos seguir a Cristo. As igrejas sofrem quando algum elemento da comunhão eclesial foi esquecido, negligenciado ou deturpado. Recorrer de novo à Tradição em uma nova situação é o meio pelo qual a revelação de Deus em Cristo é rememorada. Esse processo é assistido pela compreensão de estudiosos da Bíblia e de teólogos e pela sabedoria dos sábios. Assim, pode ocorrer uma re-descoberta de elementos que eram negligenciados e uma nova memória das promessas de Deus, levando a uma renovação do “Amém” da Igreja. Pode haver, também, um exame crítico do que tem sido recebido, porque algumas das formulações da Tradição passam a ser consideradas inadequadas ou até enganosas em um novo contexto. Podemos chamar todo esse processo de re-recepção.

Catolicidade: O “Amém” de Toda a Igreja

26. Existem duas dimensões da comunhão na Tradição apostólica: a diacrônica e a sincrônica. O processo de tradição acarreta, certamente, a transmissão do Evangelho de uma geração a outra (diacrônica). Se a Igreja deve permanecer unida na verdade, o processo também deve acarretar a comunhão das igrejas em todos os lugares nesse único Evangelho (sincrônica). Ambas dimensões são necessárias para a catolicidade da Igreja. Cristo promete que o Espírito Santo manterá a verdade essencial e salvadora na memória da Igreja, capacitando-a para a missão (cf. Jo 14.26; 15.26-27). Essa verdade tem de ser transmitida e recebida de novo pelos fiéis em todos os tempos e em todos os lugares através do mundo, como resposta à diversidade e complexidade da experiência humana. Não há nenhuma parte da humanidade, nenhuma raça, nenhuma condição social, nenhuma geração para quem essa salvação, comunicada na transmissão da Palavra de Deus, não seja dirigida (cf. Igreja como Comunhão, 34).

27. Na rica diversidade da vida humana, o encontro com a Tradição viva produz uma variedade de expressões do Evangelho. Onde as diversas expressões são fiéis à Palavra revelada em Jesus Cristo e transmitida pela comunidade apostólica, as igrejas em que essas expressões tem lugar estão verdadeiramente em comunhão. De fato, essa diversidade de tradições é a manifestação prática da catolicidade e confirma, mais do que contradiz, o vigor da Tradição. Assim como Deus criou a diversidade entre os seres humanos, a fidelidade e a identidade da Igreja requerem não uma uniformidade de expressão e formulação em todos os níveis, em todas as situações, mas antes uma diversidade católica dentro da unidade da comunhão. Essa riqueza de tradições é um recurso vital para uma humanidade reconciliada. “Os seres humanos foram criados por Deus em seu amor com tal diversidade para que pudessem participar desse amor compartilhando entre si o que têm e o que são, enriquecendo-se, assim, em sua comunhão mútua” (Igreja como Comunhão, 35).

28. O povo de Deus como um todo é o portador da Tradição viva. Em situações diferentes, que suscitam novos desafios para o Evangelho, o discernimento, a atualização e a comunicação da Palavra de Deus são da responsabilidade de todo o povo de Deus. O Espírito Santo trabalha através de todos os membros da comunidade, usando os dons concedidos a cada um para o bem de todos. Os teólogos em particular servem à comunhão da Igreja toda, investigando se e como novas interpretações devem ser integradas à corrente contínua da Tradição. Em cada comunidade ocorre uma troca, um dar e um receber mútuos, em que os bispos, o clero e os leigos dão e recebem dos outros no âmbito de todo o corpo.

29. Em todo Cristão desejoso de ser fiel a Cristo e incorporado na vida da Igreja, existe um sensus fidei. Esse sensus fidei pode ser descrito como uma capacidade ativa de discernimento espiritual, uma intuição formada pelo culto divino e pela vida em comunhão como membro fiel da Igreja. Quando essa capacidade é exercida de comum acordo pelo corpo de fiéis, falamos do exercício do sensus fidelium (cf. Autoridade na Igreja: Elucidação, 3-4). O exercício do sensus fidei por todo membro da Igreja contribui para a formação do sensus fidelium, através do qual a Igreja como um todo permanece fiel a Cristo. Pelo sensus fidelium, o corpo todo contribui para, recebe de e guarda como um tesouro o ministério daqueles membros da comunidade que exercem a episcope, velando pela memória viva da Igreja (cf. Autoridade na Igreja I, 5-6). Assim, o “Amém” do crente é incorporado ao “Amém” de toda a Igreja de várias formas.

30. Os que exercem a episcope no Corpo de Cristo não devem ser separados da “sinfonia” de todo o povo de Deus em que eles têm uma parte a tocar. Devem ser alertados para o sensus fidelium, o qual compartilham, para que saibam quando algo se torna necessário para o bem-estar e a missão da comunidade, ou quando algum elemento da Tradição precisa ser recebido de um modo novo. O carisma e a função da episcope estão especificamente relacionados com o ministério da memória, que renova constantemente a Igreja na esperança. Através desse ministério, o Espírito Santo mantém viva na Igreja a memória do que Deus fez e revelou, e a esperança do que Deus fará para unir todas as coisas em Cristo. Desse modo, não apenas de geração para geração, mas também de lugar para lugar, a fé única é comunicada e vivida. Esse é o ministério exercido pelo bispo, e por pessoas ordenadas sob os cuidados do bispo, na medida em que proclamam a Palavra, administram os sacramentos e tomam parte na administração da disciplina pelo bem comum. Os bispos, o clero e os outros fiéis devem todos reconhecer e receber de Deus o que é transmitido por mediação de uns para os outros. Assim, o sensus fidelium do povo de Deus e o ministério da memória existem juntos em relação recíproca.

31. Os Anglicanos e os Católicos Romanos podem concordar, em princípio, com tudo o que foi dito acima, mas precisam fazer um esforço deliberado para recuperar esse entendimento comum. Quando as comunidades cristãs estão em comunhão real, mas imperfeita, são chamadas a reconhecer, umas nas outras, elementos da Tradição apostólica que podem ter rejeitado, esquecido ou ainda não compreendido plenamente. Em conseqüência, devem receber ou reapropriar esses elementos, e reconsiderar as formas como interpretaram as Escrituras separadamente. Sua vida em Cristo é enriquecida quando dão e recebem umas das outras. Crescem no entendimento e na experiência de sua catolicidade na medida em que o sensus fidelium e o ministério da memória interagem na comunhão dos fiéis. Nessa economia de dar e receber dentro de uma comunhão real, mas imperfeita, aproximam-se mais de uma indivisa participação no único “Amém” de Cristo para a glória de Deus.

III. O EXERCÍCIO DA AUTORIDADE NA IGREJA

Proclamando o Evangelho: o Exercício da Autoridade para Missão e Unidade

32. A autoridade conferida por Jesus a seus discípulos era, acima de tudo, uma autoridade para a missão, para pregar e curar (cf. Lc 9.1-2, 10.1). O Cristo Ressuscitado investiu-os de poder para divulgar o Evangelho no mundo todo (cf. Mt 28.18-20). No início da Igreja, a pregação da Palavra de Deus no poder do Espírito foi vista como a característica que definia a autoridade apostólica (cf. 1 Cor 1.17, 2.4-5). Na proclamação do Cristo crucificado, o “Sim” de Deus à humanidade torna-se uma realidade presente e todos são convidados para responder com seu “Amém”. Desse modo, o exercício da autoridade ministerial dentro da Igreja, principalmente por aqueles encarregados do ministério da episcope, tem uma dimensão radicalmente missionária. A autoridade é exercida dentro da Igreja por causa dos que estão fora dela, para que o Evangelho possa ser proclamado “no poder e no Espírito Santo e com plena convicção” (1 Tess 1.5). Essa autoridade capacita toda a Igreja a incorporar o Evangelho e se tornar a missionária e a serva profética do Senhor.

33. Jesus rezou ao Pai para que seus seguidores fossem um “para que o mundo saiba que vós me enviastes e os amastes como vós me amastes” (Jo 17.23). Quando os Cristãos não estão de acordo sobre o próprio Evangelho, a sua pregação com poder é prejudicada. Quando não se tornam um na fé, não podem ser um na vida, e, assim, não podem demonstrar plenamente que são fiéis à vontade de Deus, reconciliação de todas as coisas no Pai através de Cristo (cf. Cl 1.20). Enquanto a Igreja não viver como a comunidade da reconciliação que é chamada a ser por Deus, não pode pregar adequadamente esse Evangelho ou proclamar com credibilidade o plano de Deus de reunir seu povo disperso sob Cristo Senhor e Salvador (cf. Jo 11.52). Somente quando todos os fiéis estiverem unidos na celebração comum da Eucaristia (cf. Igreja como Comunhão, 24), Deus, cujo propósito é unir todas as coisas em Cristo (cf. Ef 1.10), será verdadeiramente glorificado por seu povo. É um desafio e uma responsabilidade, para os que têm autoridade dentro da Igreja, exercer o seu ministério de forma a promover a unidade de toda a Igreja na fé e na vida, por caminhos que enriqueçam, e não diminuam, a diversidade legítima das igrejas locais.

Sinodalidade: O Exercício da Autoridade em Comunhão

34. Em cada igreja local, todos os fiéis são chamados a caminhar juntos em Cristo. O termo sinodalidade (derivado de syn-hodos, que significa “caminho comum”), indica o modo pelo qual os fiéis e as igrejas são mantidos juntos, em comunhão, quando fazem isso. Expressa sua vocação como povo do Caminho (cf. At 9.2) para viverem, trabalharem e andarem juntos em Cristo, que é o Caminho (cf. Jo 14.6). Como seus predecessores, seguem a Jesus no caminho (cf. Mc 10.52) até que ele venha novamente.

35. Dentro da comunhão das igrejas locais, o Espírito trabalha para formar cada igreja por meio da graça da reconciliação e da comunhão em Cristo. É apenas através da atividade do Espírito que a igreja local pode ser fiel ao “Amém” de Cristo e pode ser enviada ao mundo para chamar todos a participar desse “Amém”. Por essa presença do Espírito, a igreja local é mantida na Tradição. Recebe e compartilha a plenitude da fé apostólica e os meios da graça. O Espírito confirma a igreja local na verdade, de tal forma que sua vida incorpora a verdade salvadora revelada em Cristo. De geração a geração, a autoridade da Palavra viva deve se fazer presente na igreja local em todos os aspectos de sua vida no mundo. O modo como a autoridade é exercida nas estruturas e na vida corporativa da Igreja deve estar de acordo com a atitude de Cristo (cf. Fl 2.5).

36. O Espírito de Cristo investe cada bispo da autoridade pastoral necessária ao exercício efetivo da episcope dentro de uma igreja local. Essa autoridade inclui necessariamente a responsabilidade de tomar e implementar as decisões que são requeridas para cumprir o ofício de um bispo por causa da koinonia. Sua natureza unificadora está implícita na função do bispo de ensinar a fé através da proclamação e da explicação da Palavra de Deus, de prover à celebração dos sacramentos, e de manter a Igreja na santidade e na verdade. As decisões tomadas pelo bispo ao desempenhar essas funções possuem uma autoridade que os fiéis têm o dever de acatar e aceitar (cf. Autoridade na Igreja II, 17). Por seu sensus fidei, os fiéis são capazes, em consciência, tanto de reconhecer o trabalho de Deus no exercício da autoridade pelo bispo, como também de responder a ela como crentes. É isso que motiva sua obediência, uma obediência de liberdade e não de escravidão. A jurisdição dos bispos é uma conseqüência do chamado que receberam para conduzir suas igrejas em um autêntico “Amém”; não é um poder arbitrário concedido a uma pessoa em detrimento da liberdade de outras. No interior da prática do sensus fidelium, existe uma relação complementar entre o bispo e o resto da comunidade. Na igreja local, a Eucaristia é a expressão fundamental do caminhar juntos (sinodalidade) do povo de Deus. Em diálogo orante, o presidente guia o povo ao “Amém” à prece eucarística. Na unidade da fé com seu bispo local, seu “Amém” é uma memória viva do grande “Amém” do Senhor à vontade do Pai.

37. A interdependência mútua de todas as igrejas é essencial à realidade da Igreja como Deus quer que ela seja. Nenhuma igreja local que participa da Tradição viva pode se considerar auto-suficiente. São necessárias, então, formas de sinodalidade para manifestar a comunhão das igrejas locais e para sustentar cada uma delas na fidelidade ao Evangelho. O ministério do bispo é crucial, pois esse ministério serve à comunhão dentro de e entre as igrejas locais. Sua comunhão mútua é expressa pela incorporação de cada bispo em um colégio de bispos. Os bispos estão, tanto pessoalmente quanto colegialmente, a serviço da comunhão, e relacionados com a sinodalidade em todas as suas expressões. Essas expressões incluem uma variedade de órgãos, instrumentos e instituições — especialmente sínodos ou concílios — locais, provinciais, mundiais e ecumênicos. A manutenção da comunhão requer que haja, em todos os níveis, uma capacidade de decisão adequada a cada nível. Quando essas decisões levantam questões sérias para uma comunhão maior das igrejas, a sinodalidade precisa encontrar uma expressão mais ampla.

38. Em nossas duas comunhões, os bispos reunem-se colegialmente, não como indivíduos, mas como aqueles que têm autoridade dentro da vida sinodal das igrejas locais e por causa dessa vida sinodal. A consulta aos fiéis é um aspecto da supervisão episcopal. Cada bispo é, ao mesmo tempo, uma voz para a igreja local e um meio de a igreja local aprender com outras igrejas. Quando os bispos se reúnem em conselho, buscam discernir e articular o sensus fidelium da forma como se acha presente na igreja local e na comunhão mais ampla das igrejas. Sua função é magisterial, ou seja, nessa comunhão das igrejas, eles determinam o que deve ser ensinado em fidelidade à Tradição apostólica. Os Católicos Romanos e os Anglicanos compartilham essa compreensão da sinodalidade, mas a expressam de formas diversas.

39. Na Igreja da Inglaterra, na época da Reforma, a tradição da sinodalidade manifestava-se pelo uso de sínodos (de bispos e do clero) e do Parlamento (incluindo bispos e leigos) para a determinação da liturgia, da doutrina e da organização da igreja. A autoridade dos Concílios Gerais também era reconhecida. Na Comunhão Anglicana, novas formas de sínodos surgiram durante o século dezenove, e o papel do laicato nas decisões tem se fortalecido desde então. Embora os bispos, o clero e o laicato se consultem mutuamente e legislem juntos, a responsabilidade dos bispos permanece distinta e crucial. Em todas as partes da Comunhão Anglicana, os bispos possuem uma responsabilidade única de supervisão. Por exemplo, um sínodo diocesano pode ser convocado apenas pelo bispo, e suas decisões podem vigorar somente com o consentimento do bispo. Em níveis provincial e nacional, as Casas dos Bispos exercem um ministério próprio e único com relação a questões de doutrina, culto e vida moral. Além disso, embora os sínodos Anglicanos adotem amplamente procedimentos parlamentares, sua natureza é eucarística. É por isso que é próprio do bispo, como presidente da Eucaristia, presidir o sínodo diocesano, que se reúne para trazer a palavra redentora de Deus até o presente, através da vida e da atividade da igreja local. Além disso, cada bispo não somente tem a episcope da igreja local mas também participa do cuidado de todas as igrejas. Isso é feito dentro de cada província da Comunhão Anglicana com o auxílio de órgãos, tais como Casas de Bispos e os Sínodos Gerais e os Provinciais. Na Comunhão Anglicana como um todo, o Encontro dos Primazes, o Concílio Consultivo Anglicano, a Conferência de Lambeth e o Arcebispo de Canterbury são instrumentos de sinodalidade.

40. Na Igreja Católica Romana, a tradição da sinodalidade não tem cessado. Após a Reforma, os sínodos de bispos e do clero continuaram a ocorrer de tempos em tempos em diferentes dioceses e regiões e, em nível mundial, foram realizados três Concílios. Na virada do século vinte, surgiram encontros específicos de bispos e Conferências Episcopais, como forma de consulta para possibilitar às igrejas locais de determinada região enfrentar, juntas, as demandas de sua missão e lidar com novas situações pastorais. Desde o Concílio Vaticano Segundo, estas se tornaram uma estrutura regular nos países e nas regiões. Numa decisão que contou com o apoio dos bispos naquele Concílio, o Papa Paulo VI instituiu o Sínodo dos Bispos para tratar de questões relativas à missão da Igreja no mundo. O antigo costume de visitas ad limina aos túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo e ao Bispo de Roma tem sido renovado por visitas não individuais, mas em grupos regionais. O hábito mais recente de visitas pelo Bispo de Roma a igrejas locais tem tentado estimular um senso mais profundo da sua pertença à comunhão das igrejas, e ajudá-las a tomar maior consciência da situação das outras. Todas essas instituições sinodais oferecem a possibilidade de uma percepção crescente, por parte dos bispos locais e do Bispo de Roma, de formas de trabalho em conjunto numa comunhão mais forte. Complementando essa sinodalidade colegial, um crescimento da sinodalidade em nível local está promovendo a participação ativa de leigos na vida e na missão da igreja local.

Perseverança na Verdade: O Exercício da Autoridade no Magistério

41. Em todas as épocas, os Cristãos têm dito “Amém” à promessa de Cristo de que o Espírito guiará sua Igreja em direção a toda a verdade. O Novo Testamento ecoa freqüentemente essa promessa, referindo-se à coragem, confiança e certeza que os Cristãos podem reivindicar (cf. Lc 1.4; 1 Ts 2.2; Ef 3.2; Hb 11.1). Em sua preocupação em tornar o Evangelho acessível a todos os que estão abertos para recebê-lo, aqueles incumbidos do ministério da memória e do ensinamento têm aceitado expressões de fé novas e até então não habituais. Algumas dessas formulações, no início, geraram dúvidas e desacordo sobre sua fidelidade à Tradição apostólica. No processo de examinar essas formulações, a Igreja tem agido com cautela, mas com confiança na promessa de Cristo de que ela irá perseverar e ser mantida na verdade (cf. Mt 16.18; Jo 16.13). É isso que significa a indefectibilidade da Igreja (cf. Autoridade na Igreja I, 18; Autoridade na Igreja II, 23).

42. Em sua vida contínua, a Igreja procura e recebe a orientação do Espírito Santo, que mantém seus ensinamentos fiéis à Tradição apostólica. No corpo da Igreja, o colégio de bispos deve exercer o ministério da memória com esse fim. Eles devem discernir e ministrar ensinamentos confiáveis por expressarem a verdade de Deus com segurança. Em algumas situações, haverá a necessidade urgente de examinar novas formulações de fé. Em circunstâncias específicas, aqueles que têm o ministério de supervisão (episcope), assistidos pelo Espírito Santo, podem chegar, juntos, a um julgamento que, sendo fiel à Escritura e consistente com a Tradição apostólica, está preservado do erro. Por tal julgamento, que é uma expressão renovada do “Sim” único de Deus em Jesus Cristo, a Igreja é mantida na verdade, para que possa continuar a oferecer seu “Amém” à glória de Deus. É isso que significa a afirmação de que a Igreja pode ensinar infalivelmente (veja Autoridade na Igreja II, 24-28, 32). Esse ensinamento infalível está a serviço da indefectibilidade da Igreja.

43. O exercício da autoridade de ensinar na Igreja, principalmente em situações desafiadoras, requer a participação de todo o corpo de fiéis em suas formas diversificadas, e não apenas daqueles incumbidos do ministério da memória. Nessa participação, o sensus fidelium está operando. Como é a fidelidade de todo o povo de Deus que está em jogo, a recepção dos ensinamentos é parte integral do processo. Definições doutrinais são recebidas como autorizadas, em virtude da verdade divina que proclamam e, também, do ofício específico da pessoa ou pessoas que as proclamam dentro do sensus fidei de todo o povo de Deus. Quando o povo de Deus responde pela fé e diz “Amém” aos ensinamentos autorizados, é porque reconhece que esses ensinamentos expressam a fé apostólica e operam no âmbito da autoridade e da verdade de Cristo, Cabeça da Igreja(2). A verdade e a autoridade de sua Cabeça são a fonte de ensinamento infalível no Corpo de Cristo. O “Sim” de Deus revelado em Cristo é o padrão pelo qual esse ensinamento autorizado é julgado. Esse ensinamento deve ser bem recebido pelo povo de Deus como um dom do Espírito Santo para manter a Igreja na verdade de Cristo, nosso “Amém” a Deus.

44. O dever de manter a Igreja na verdade é uma das funções essenciais do colégio episcopal. Este tem o poder de exercer esse ministério, porque está ligado em sucessão aos apóstolos, que eram o corpo autorizado e enviado por Cristo para pregar o Evangelho a todas as nações. A autenticidade do ensinamento dos bispos individuais é evidente quando esse ensinamento é solidário com o de todo o colégio episcopal. O exercício dessa autoridade de ensinar requer que os ensinamentos sejam fiéis à Sagrada Escritura e conformes com a Tradição apostólica. Isso é expresso pelos ensinamentos do Concílio Vaticano Segundo, “Este ofício de ensinar não está acima da Palavra de Deus, mas ao seu serviço” (Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina, Dei Verbum, 10).

Primazia: O Exercício da Autoridade em Colegialidade e Conciliaridade

45. No curso da história, a sinodalidade da Igreja tem sido servida através da autoridade conciliar, colegial e primacial. Existem formas de primazia tanto na Comunhão Anglicana como nas igrejas em comunhão com o Bispo de Roma. Entre estas, os ofícios do Arcebispo Metropolitano ou Patriarca de uma Igreja Católica Oriental são primaciais por natureza. Cada Província Anglicana tem seu Primaz e o Encontro de Primazes serve a toda a Comunidade. O Arcebispo de Canterbury exerce um ministério primacial em toda a Comunhão Anglicana.

46. A ARCIC já reconheceu que o “modelo de aspectos primaciais e conciliares complementares da episcope a serviço da koinonia das igrejas deve ser realizado ao nível universal” (Autoridade na Igreja I, 23). As exigências da vida da igreja demandam um exercício específico de episcope a serviço de toda a Igreja. No modelo encontrado no Novo Testamento, um dos doze é escolhido por Jesus Cristo para fortalecer os outros de forma que permaneçam fiéis a sua missão e em harmonia uns com os outros (veja a discussão sobre textos Petrinos em Autoridade na Igreja II, 2-5). Agostinho de Hipona expressou bem a relação entre Pedro, os outros apóstolos e toda a Igreja, quando disse:

Afinal, não foi só um homem que recebeu essas chaves, mas a Igreja em sua unidade. Então, é esse o motivo da preeminência reconhecida de Pedro, que ele representava a universalidade e a unidade da Igreja quando lhe foi dito, Confio-te, o que, na verdade, foi confiado a todos. Desejo demonstrar que foi a Igreja que recebeu as chaves do reino dos céus. Ouçam o que o Senhor diz a todos os apóstolos em outra passagem: Recebei o Espírito Santo; e imediatamente: A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. A quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos. (Jo 20.22-23). Isso se refere às chaves, das quais é dito, tudo o que ligares na terra será ligado no céu (Mt 16.19). Mas isso foi dito a Pedro... na ocasião, Pedro representava a Igreja universal.

(Sermão 295, Sobre a Festa do Martírio dos Apóstolos Pedro e Paulo).

A ARCIC também já estudou anteriormente a transmissão do ministério primacial exercida pelo Bispo de Roma (veja Autoridade na Igreja II, 6-9). Historicamente, o Bispo de Roma tem exercido esse ministério em favor de toda a Igreja, como quando Leão contribuiu para o Concílio de Calcedônia, ou então em favor de uma igreja local, como quando Gregório, o Grande, apoiou a missão de Agostinho de Canterbury e sua organização da Igreja inglesa. Esse dom tem sido bem-vindo e o ministério desses Bispos de Roma continua a ser celebrado liturgicamente por Anglicanos e Católicos Romanos.

47. Dentro de seu ministério mais amplo, o Bispo de Roma oferece um ministério específico relativo ao discernimento da verdade, como expressão de primazia universal. Esse serviço particular tem sido fonte de dificuldades e mal-entendidos nas igrejas. Toda definição solene pronunciada da cátedra de Pedro na igreja de Pedro e Paulo expressa, entretanto, apenas a fé da Igreja. Qualquer definição dessas é pronunciada dentro do colégio daqueles que exercem a episcope e não fora dele. Esse ensinamento autorizado é um exercício particular do chamado e da responsabilidade do corpo de bispos de ensinar e afirmar a fé. Quando a fé é articulada dessa forma, o Bispo de Roma proclama a fé das igrejas locais. Assim, é todo o ensinamento confiável de toda a Igreja que opera no julgamento do primaz universal. Ao formular solenemente tal ensinamento, o primaz universal deve discernir e declarar, com a assistência e a orientação segura do Espírito Santo, em fidelidade à Escritura e à Tradição, a fé autêntica de toda a Igreja, ou seja, a fé proclamada desde o início. É essa fé, a fé de todos os batizados em comunhão, e somente essa, que cada bispo profere com o corpo de bispos em concílio. É essa fé que o Bispo de Roma, em determinadas circunstâncias, tem o dever de discernir e tornar explícita. Essa forma de ensinamento autorizado não tem garantia mais forte do Espírito do que a que têm as definições solenes de concílios ecumênicos. A recepção da primazia do Bispo de Roma acarreta o reconhecimento desse ministério específico do primaz universal. Acreditamos que isso é um dom a ser recebido por todas as igrejas.

48. Os ministros a quem Deus dá a Igreja para sustentar sua vida são marcados pela fragilidade:

Portanto, como é pela misericórdia divina que somos detentores deste ministério, não desanimamos ... mas mantemos esse tesouro em vasos de barro, para que fique claro que esse poder extraordinário pertence a Deus e não vem de nós (2 Cor 4.1; 4.7).

É claro que apenas por graça divina o exercício da autoridade na comunhão da Igreja leva as marcas da própria autoridade de Cristo. Essa autoridade é exercida por Cristãos frágeis por causa de outros Cristãos frágeis. Isso é igualmente verdadeiro quanto ao ministério de Pedro:

“Simão, Simão, Satanás vos reclamou peneirar como trigo, mas tenho rezado por ti para que tua fé não falhe; e, quando tiveres voltado, confirma teus irmãos” (Lc 22.31-32; cf. Jo 21.15-19).

O Papa João Paulo II torna isso claro em Ut Unum Sint:

Cumpro esse dever com a convicção profunda de que estou obedecendo ao Senhor, e com um senso nítido de minha própria fragilidade humana. Na verdade, se o próprio Cristo confiou a Pedro essa missão especial na Igreja e o exortou a confirmar seus irmãos, também tornou clara para ele sua fraqueza humana e sua necessidade especial de conversão. (Ut Unum Sint, 4).

A fraqueza e o pecado humano não afetam apenas os ministros individuais: também conseguem distorcer a estruturação humana da autoridade (cf. Mt 23). Portanto, às vezes são necessárias uma crítica honesta e algumas reformas, seguindo o exemplo de Paulo (cf. Gl 2.11-14). A consciência da fragilidade humana no exercício da autoridade garante que os Ministros cristãos estejam abertos a críticas e à renovação e, acima de tudo, ao exercício da autoridade segundo o exemplo e o pensamento de Cristo.

Disciplina: O Exercício da Autoridade e a Liberdade de Consciência

49. O exercício da autoridade na Igreja deve ser reconhecido e aceito como um instrumento do Espirito de Deus para a cura da humanidade. O exercício da autoridade deve sempre respeitar a consciência, porque o trabalho divino de salvação afirma a liberdade humana. Aceitando livremente o caminho da salvação oferecido pelo batismo, o Discípulo cristão também assume livremente a disciplina de ser um membro do Corpo de Cristo. Uma vez que a Igreja de Deus é reconhecida como a comunidade onde os meios divinos de salvação operam, as exigências do discipulado para o bem-estar de toda a comunidade Cristã não podem ser ignoradas. Existe, também, uma disciplina necessária para o exercício da autoridade. Os que são chamados a esse ministério devem se submeter à disciplina de Cristo, observar os requisitos da colegialidade e do bem comum, e respeitar devidamente as consciências de aqueles aos quais são chamados a servir.

O “Amém” da Igreja ao “Sim” de Deus no Evangelho

50. Temos chegado a um entendimento comum da autoridade, vendo-a, na fé, como uma manifestação do “Sim” de Deus para sua criação, suscitando o “Amém” de suas criaturas. Deus é a fonte da autoridade, e o exercício adequado da autoridade é sempre dirigido para o bem comum e o bem da pessoa. Em um mundo partido, e para uma Igreja dividida, o “Sim” de Deus em Jesus Cristo traz a realidade da reconciliação, o chamado ao discipulado, e um antegozo da meta final da humanidade, quando, através do Espírito, todos em Cristo pronunciem seu “Amém” para a glória de Deus. O “Sim” de Deus, encarnado em Cristo, é recebido na proclamação e na Tradição do Evangelho, na vida sacramental da Igreja e nas formas em que é exercida a episcope. Quando as igrejas, através de seu exercício da autoridade, manifestam o poder salvador e reconciliador do Evangelho, é oferecida ao mundo inteiro uma visão do que Deus pretende para toda a criação. A finalidade do exercício da autoridade e de sua recepção é habilitar a Igreja a dizer “Amém” ao “Sim” de Deus no Evangelho.

IV. CONSENSO NO EXERCÍCIO DA AUTORIDADE:
PASSOS EM DIREÇÃO À UNIDADE VISÍVEL

51. Submetemos a nossas respectivas autoridades esta declaração concorde a respeito da autoridade na Igreja. Acreditamos que, se essa declaração sobre a natureza da autoridade e o modo de exercê-la for aceita e posta em prática, esta questão não será mais causa do prosseguimento de uma ruptura na comunhão entre nossas duas igrejas. De acordo com isto, especificamos abaixo alguns aspectos desta concordância, que significam avanços recentes em cada uma de nossas comunhões, bem como certas questões que ainda têm que ser enfrentados por elas. Enquanto caminharmos em direção a uma comunhão eclesial plena, sugerimos formas em que a comunhão existente, embora imperfeita, possa se tornar mais visível através do exercício de uma colegialidade renovada entre os bispos e de um exercício e uma recepção renovados da primazia universal.

Avanços no Consenso

52. A Comissão acredita que já aprofundamos e estendemos nosso consenso com relação a:

  • como a autoridade de Cristo está presente e atuante na Igreja quando a proclamação do “Sim” de Deus suscita o “Amém” de todos os fiéis ( parágrafos 7-18);
  • a interdependência dinâmica da Escritura e da Tradição apostólica e o papel normativo da Escritura dentro da Tradição (parágrafos 19-23);
  • a necessidade da recepção constante da Escritura e da Tradição, e da re-recepção em circunstâncias especiais (parágrafos 24-26);
  • como o exercício da autoridade está a serviço da fé pessoal dentro da vida da Igreja (parágrafos 23, 29, 49);
  • o papel de todo o povo de Deus, no qual, como mestres da fé, os bispos têm uma voz distinta na formação e no pensamento da Igreja (parágrafos 29-30);
  • a sinodalidade e suas implicações para a comunhão de todo o povo de Deus e de todas as igrejas locais, ao buscarem, juntos, seguir a Cristo, o Caminho (parágrafos 34-40);
  • a cooperação essencial do ministério da episcope e do sensus fidei de toda a Igreja na recepção da Palavra Divina (parágrafos 29, 36, 43);
  • a possibilidade, em determinadas circunstâncias, de a Igreja ensinar infalivelmente a serviço da indefectibilidade da Igreja (parágrafos 41-44);
  • uma primazia universal, exercida colegialmente no contexto da sinodalidade, como parte integral da episcope a serviço da comunhão universal, tal primazia tendo sido sempre associada com o Bispo e a Sé de Roma (parágrafos 46-48);
  • como o ministério do Bispo de Roma assiste o ministério de todo o corpo episcopal no contexto da sinodalidade, promovendo a comunhão das igrejas locais em sua vida em Cristo e na proclamação do Evangelho (parágrafos 46-48);
  • como o Bispo de Roma oferece um ministério específico quanto ao discernimento da verdade (parágrafo 47).

Avanços Significativos em Ambas as Comunhões

53. A Conferência de Lambeth de 1998 reconheceu a necessidade de refletir sobre o modo como a Comunhão Anglicana toma decisões autorizadas. Em nível internacional, os instrumentos Anglicanos de sinodalidade têm autoridade considerável para influenciar e apoiar as províncias; entretanto, nenhum desses instrumentos tem o poder de passar por cima de uma decisão provincial, mesmo se ela ameaçar a unidade da Comunhão. Assim, a Conferência de Lambeth de 1998, à luz do Relatório de Virgínia da Comissão Teológica e Doutrinal Inter-Anglicana, resolveu fortalecer esses instrumentos de várias formas, principalmente o papel do Arcebispo de Canterbury e do Encontro de Primazes. A Conferência também solicitou ao Encontro de Primazes que iniciasse um estudo em cada província “sobre se a comunhão efetiva, em todos os níveis, não requer instrumentos apropriados, com a devida salvaguarda, não apenas para legislação, mas também para supervisão ... bem como no que se refere a um ministério universal a serviço da unidade Cristã” (Resolução III, 8(h)). Ao lado da autonomia das províncias, os Anglicanos estão percebendo que a interdependência entre as igrejas locais e entre as províncias também é necessária para promover a comunhão.

54. A Igreja Católica Romana, principalmente a partir do Concílio Vaticano Segundo, tem desenvolvido gradualmente estruturas sinodais para sustentar a koinonia com mais eficácia. A função estimuladora das Conferências Episcopais nacionais e regionais e a realização regular de Assembléias Gerais do Sínodo de Bispos demonstram essa evolução. Tem havido mudanças, também, no exercício da sinodalidade em nível local, embora isso varie de lugar para lugar. A legislação canônica requer, agora, que homens e mulheres leigos, pessoas da vida religiosa, diáconos e padres tomem parte nos conselhos pastorais paroquiais e diocesanos, em sínodos diocesanos e em vários outros órgãos, sempre que se reunirem.

55. Na Comunhão Anglicana, existe uma procura por estruturas universais que promovam a koinonia, e, na Igreja Católica Romana, um fortalecimento de estruturas locais e intermediárias. Em nossa opinião, esses avanços refletem uma consciência comum e cada vez maior de que a autoridade na Igreja precisa ser exercida de forma apropriada em todos os níveis. Mesmo assim, ainda há questões a serem consideradas pelos Anglicanos e Católicos Romanos relativas a aspectos importantes do exercício da autoridade a serviço da koinonia. A Comissão propõe algumas questões com franqueza, mas na convicção de que precisamos do apoio mútuo ao respondê-las. Acreditamos que, na situação dinâmica e fluida em que são colocadas, a tentativa de respondê-las deve ser acompanhada pelo desenvolvimento de outras etapas em direção ao exercício compartilhado da autoridade.

Questões Defrontadas pelos Anglicanos

56. Vimos que são necessários, em todos os níveis, instrumentos de supervisão e decisão para apoiar a comunhão. Tendo isso em mente, a Comunhão Anglicana está explorando o desenvolvimento de estruturas de autoridade em suas províncias. Estaria a Comunhão também aberta à aceitação de instrumentos de supervisão que iriam permitir chegar a decisões que, em certas circunstâncias, uniriam toda a Igreja? Quando surgem grandes questões que, em fidelidade à Escritura e à Tradição, requerem uma resposta unida, poderão essas estruturas auxiliar os Anglicanos a participar do sensus fidelium com todos os Cristãos? Até que ponto a ação unilateral por parte das províncias ou dioceses em assuntos relativos a toda a Igreja, mesmo após ter havido uma consulta, poderia enfraquecer a koinonia? Os Anglicanos têm se mostrado prontos a tolerar anomalias para manter a comunhão. Entretanto, isso tem levado a um enfraquecimento da comunhão manifestada na Eucaristia, no exercício da espicope na comunicação recíproca do ministério. Quais são as conseqüências disso? Acima de tudo, como os Anglicanos irão considerar a questão da primazia universal que está emergindo de sua vida em comum e do diálogo ecumênico?

Questões Defrontadas pelos Católicos Romanos

57. O Concílio Vaticano Segundo lembrou aos Católicos Romanos como os dons de Deus estão presentes em todo o povo de Deus. Também ensinou a colegialidade do episcopado em sua comunhão com o Bispo de Roma, cabeça do colégio. No entanto, existe participação efetiva do clero e dos leigos em todos os níveis em órgãos sinodais emergentes? Os ensinamentos do Concílio Vaticano Segundo sobre a colegialidade dos bispos foram suficientemente implantados? As ações dos bispos refletem uma consciência suficiente da extensão da autoridade recebida pela ordenação para governar a igreja local? Têm sido tomadas providências suficientes para assegurar as consultas entre o Bispo de Roma e as igrejas locais antes da tomada de decisões importantes que afetam a igreja local ou toda a Igreja? Como a variedade de opiniões teológicas é levada em consideração quando essas decisões são tomadas? Ao apoiar o Bispo de Roma em seu trabalho de promover a comunhão entre as igrejas, as estruturas e os procedimentos da Cúria Romana respeitam adequadamente o exercício da episcope em outros níveis? Acima de tudo, como a Igreja Católica Romana irá considerar a questão da primazia universal na medida em que ela emergir do “diálogo paciente e fraterno” sobre o exercício do ofício do Bispo de Roma para o qual João Paulo II convidou “os líderes da igreja e seus teólogos”?

Colegialidade Renovada: Tornando Visível nossa Comunhão Existente

58. Os Anglicanos e os Católicos Romanos já estão enfrentando essas questões, mas sua resolução pode levar algum tempo ainda. Entretanto, não há volta em nossa caminhada para a plena comunhão eclesial. Com base em nosso consenso, a Comissão acredita que nossas duas comunhões devem tornar mais visível a koinonia já alcançada. O diálogo teológico deve continuar em todos os níveis nas igrejas, mas não é suficiente por si só. Para o bem da koinonia e de um Testemunho cristão unido para o mundo, os bispos Anglicanos e Católicos Romanos devem encontrar formas de cooperar e desenvolver relações de responsabilidade mútua em seu exercício de supervisão. Nesse novo estágio, não precisamos apenas fazer juntos tudo o que pudermos, mas também ser juntos tudo o que nossa koinonia existente permitir.

59. Essa cooperação no exercício da episcope envolveria o encontro regular de bispos em nível regional e local e a participação dos bispos de uma comunhão em encontros internacionais de bispos da outra. Poderia se considerar seriamente, também, a associação dos bispos Anglicanos com os bispos Católicos Romanos em suas visitas ad limina a Roma. Sempre que possível, os bispos poderiam aproveitar a oportunidade de ensinar e agir juntos em aspectos de fé e princípios de conduta. Também devem testemunhar juntos na esfera pública em assuntos que afetam o bem comum. Aspectos práticos específicos da partilha da episcope surgirão de iniciativas locais.

Primazia Universal: Um Dom a Ser Compartilhado

60. O trabalho da Comissão tem tido como resultado um consenso suficiente sobre a primazia universal como um dom a ser compartilhado, até o ponto de poder propor que tal primazia seja oferecida e recebida mesmo antes de nossas igrejas atingirem uma comunhão plena. Tanto os Católicos Romanos quanto os Anglicanos cuidam para que esse ministério seja exercido em colegialidade e sinodalidade — um ministério de servus servorum Dei (Gregório, o Grande, citado em Ut Unum sint, 88). Contemplamos uma primazia que, mesmo agora, irá ajudar a sustentar a diversidade legítima das tradições, fortalecendo-as a salvaguardando-as em fidelidade ao Evangelho, e irá encorajar as igrejas em sua missão. Esse tipo de primazia já poderá auxiliar a Igreja na terra a ser a koinonia católica autêntica, na qual a unidade não diminui a diversidade, e a diversidade não põe em perigo, mas estimula, a unidade. Será um sinal efetivo para todos os Cristãos de como tal dom de Deus constrói essa unidade para a qual Cristo rezou.

61. Esse primaz universal irá exercer a liderança no mundo e também nas duas comunhões, dirigindo-se a elas de forma profética. Promoverá o bem comum sem a coação de interesses setoriais, e oferecerá um ministério de ensino contínuo e próprio, principalmente ao considerar questões teológicas e morais difíceis. Uma primazia universal nesse estilo irá acolher e proteger a investigação teológica e outras formas de busca da verdade, para que seus resultados possam enriquecer e fortalecer a sabedoria humana e a fé da Igreja. Tal primazia universal poderia unir as igrejas em vários tipos de consulta e discussão.

62. Uma experiência de primazia universal desse tipo confirmaria duas conclusões específicas a que chegamos:

  • de que os Anglicanos estão abertos e desejosos de uma recuperação e re-recepção, sob certas condições claras, do exercício da primazia universal pelo Bispo de Roma;
  • de que os Católicos Romanos estão abertos e desejosos de uma re-recepção do exercício da primazia pelo Bispo de Roma e da oferta desse ministério para toda a Igreja de Deus.

63. Quando a comunhão real, embora imperfeita, entre nós se torna mais visível, a trama da unidade que é tecida a partir da comunhão com Deus e da reconciliação mútua se amplia e se fortalece. Assim, o “Amém” que os Anglicanos e os Católicos Romanos dizem ao único Senhor se aproxima de um “Amém” pronunciado em uníssono pelo único povo santo, que testemunha a salvação de Deus e o amor reconciliador em um mundo partido.


MEMBROS DA COMISSÃO

MEMBROS ANGLICANOS

Rt. Rev. Mark Santer, Bispo de Birmingham, Reino Unido (Co-Presidente)

Rt. Rev. John Baycroft, Bispo de Ottawa, Canadá

Dr. E. Rozanne Elder, Professor de História, Universidade de Western Michigan, EUA

Rev. Professor Jaci Maraschin, Professor de Teologia, Instituto Ecumênico, São Paulo, Brasil

Rev. Cônego Richard Marsh, Secretário do Arcebispo de Canterbury para Assuntos Ecumênicos, Londres, Reino Unido (desde 1996)

Rev. Dr. John Muddiman, Tutor em Teologia, Mansfield College, Universidade de Oxford, Reino Unido

Rt. Rev. Michael Nazir-Ali, Bispo de Rochester, Reino Unido

Rev. Dr. Nicholas Sagovsky, Pesquisador, Universidade de Newcastle, Reino Unido

Rev. Dr. Charles Sherlock, Professor, Trinity College Theological School, Parkville, Australia

SECRETÁRIO

Rev. Dr. Donald Anderson, Diretor de Relações e Estudos Ecumênicas, Anglican Communion Office, Londres, Reino Unido (1994-1996)

Rev. Cônego David Hamid, Diretor de Assuntos e Relações Ecumênicas, Anglican Communion Office, Londres, Reino Unido (desde 1996)

Rev. Cônego Stephen Platten, Secretário do Arcebispo de Canterbury para Assuntos Ecumênicos, Londres, Reino Unido (até 1994)


MEMBROS CATÓLICOS ROMANOS

Rt. Rev. Cormac Murphy-O’Connor, Bispo de Arundel e Brighton, Reino Unido (Co-Presidente)

Irmã Sara Butler MSBT, Professora Assistente de Teologia Sistemática, Universidade de St. Mary of the Lake, Mundelein, Illinois, EUA

Rev. Peter Cross, Professor de Teologia Sistemática, Catholic Theological College, Clayton, Austrália

Rev. Dr. Adelbert Denaux, Professor, Faculdade de Teologia, Universidade Católica, Leuven, Bélgica

Rt. Rev. Pierre Duprey, Bispo Titular de Thibaris, Secretário, Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade Cristã, Cidade do Vaticano

Reverendíssimo Patrick A. Kelly, Arcebispo de Liverpool, Reino Unido

Rev. Mgr. William Steele, Vigário Episcopal para a Missão e Unidade, Diocese de Leeds, Reino Unido (1994-1995)

Rev. Jean M. R. Tillard OP, Professor, Faculdade Dominicana de Teologia, Ottawa, Canadá

Rev. Liam Walsh OP, Professor de Teologia Dogmática, Universidade de Friburgo, Suíça

SECRETÁRIO

Rev. Timothy Galligan, Membro do “Staff”, Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade Cristã, Cidade do Vaticano


OBSERVADOR DO CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS

Rev. Dr. Günther Gassmann, Diretor da Comissão “Fé e Constituição”, Conselho Mundial de Igrejas, Genebra, Suíça (até 1994)

Professor Dr. Michael Root, Trinity Lutheran Seminary, Columbus, Ohio, EUA (desde 1995)

(1) Segundo o uso ecumênico, a palavra Tradição com maiúscula refere-se, aqui, ao “próprio Evangelho, transmitido de geração a geração na Igreja e pela Igreja”, enquanto que a palavra tradição com minúscula diz respeito ao “processo da tradição”, a transmissão da verdade revelada (Quarta Conferência Mundial sobre a Fé e a Ordem, Montreal 1963, Seção II, par. 39). O plural tradições faz referência a aspectos peculiares da liturgia, teologia, vida canônica e eclesial nas várias culturas e comunidades de fé. Esses usos, entretanto, são freqüentemente difíceis de se distinguir. A locução Tradição apostólica quer dizer o conteúdo do que foi transmitido desde a época dos apóstolos e continua a ser o fundamento da Vida cristã e da teologia.

(2) Isso foi declarado pelo Concílio Vaticano Segundo: “Todo o corpo de fiéis que têm uma unção que vem do Santo (cf. 1 Jo 2.20, 2.27) não erra em questões de crença. Essa característica é mostrada na apreciação sobrenatural da fé (sensus fidei) de todo o povo, quando, ‘dos bispos ao último dos fiéis’, todos manifestam um consentimento universal em questões de fé e princípios de conduta” (Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium,12).

 

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