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PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS

DISCURSO DO CARDEAL WALTER KASPER
 "PAZ NO MUNDO INTEIRO E DIÁLOGO ENTRE OS
 CRISTÃOS E ENTRE AS RELIGIÕES"

 


A paz, shalom, encontra-se na parte central da mensagem do Antigo e do Novo Testamento. A paz, shalom, na Bíblia não é apenas uma normal saudação, como expressão de cortesia; a paz, shalom, é a promessa escatológica proveniente de Deus e os bons votos de bênção entre os homens. Com efeito, o próprio Jesus Cristo é a nossa paz (cf. Ef 2, 14). Abençoados por Deus em Jesus Cristo, os cristãos devem constituir entre si uma bênção para todas as nações. "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5, 9). Por conseguinte, a Igreja é chamada a constituir um sinal, instrumento e testemunho da paz, paz com Deus e entre os homens (cf. Lumen gentium, 1 e 13).

Paz, justiça e perdão

Todavia, a paz entre os homens, a tranquillitas ordinis ensinada por Santo Agostinho, à qual o Papa João Paulo II se referiu na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, a 1 de Janeiro (cf. n. 3), não deve compreender-se somente como silêncio das armas e ausência da guerra. Ela é fruto da ordem, infundido na sociedade humana pelo seu Fundador (cf. Gaudium et spes, 78), e pressupõe um compromisso constante na instauração da justiça no seio do mundo. Como afirma a Escritura, a verdadeira paz é uma "obra da justiça" (Is 32, 17; cf. Tg 3, 18).

Por justiça, deve entender-se o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, os seus direitos humanos fundamentais, a liberdade de cada um, a ausência de discriminações por motivo da fé, da cultura e do sexo. Por justiça deve entender-se o direito que cada criatura humana tem à vida, à terra, ao alimento, à água, a uma educação que a torne mais plenamente consciente destes seus direitos, e capaz da autodeterminação na sua vida. Este bem pessoal pressupõe o bem comum, a justiça social, sobretudo para os pobres, o equilíbrio social e a estabilidade da ordem social e política.

Diante de um mundo caracterizado pelo pecado, o egoísmo e a inveja, um mundo que com demasiada frequência nega com violência a justiça e, no círculo vicioso dos conflitos, deturpa a tranquillitas ordinis, que é o pressuposto e a substância da paz, não é possível instaurar a paz sem a "solicitude misericordiosa e providente de Deus, que conhece os caminhos para sensibilizar até mesmo os corações mais endurecidos e tirar bons frutos mesmo de uma terra árida e infecunda" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, n. 1). A paz é a dádiva do perdão, da redenção e da nova criação; assim como o amor, a alegria, a penitência, a benignidade e a bondade, ela é fruto do Espírito  (cf. Gl 5, 22).  O  Reino  de Deus é justiça, paz e júbilo no Espírito (cf. Rm 14, 17).

Esta esperança deve animar cada vez mais profundamente a nossa oração. A paz deve ser implorada de maneira constante, a fim de que ela nos possa ser concedida e para que se consiga salvaguardá-la. Todavia, a arma da oração revigora também o nosso compromisso, para transformar as situações de injustiça e para agir em conjunto, em ordem à edificação de um mundo mais justo. Orientados pela mansidão d'Aquele  que  anunciou  a  justiça  para os pobres do Reino, os cristãos sabem que "a capacidade de perdoar está na base de cada projecto de uma sociedade futura mais justa e solidária" (Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, n. 9).

Os cristãos sabem que o ódio étnico, racial e religioso, a espiral da violência que atinge indistintamente vítimas e algozes, pode ter um antídoto:  o perdão. Com efeito, somente o perdão nos põe acima das acusações; nos permite não culpabilizar, por causa de poucos indivíduos, povos inteiros; e não fazer recair sobre os filhos as culpas dos pais. O perdão, que depende de cada um de nós, pode restabelecer a justiça e conduzir-nos de uma situação de guerra para uma condição de paz.

Reconciliação e paz entre os cristãos

É precisamente sobre este tema da ligação entre paz, justiça e perdão que se situa a importância do diálogo ecuménico e da colaboração dos cristãos entre si. "Assim, aos olhos do mundo, a acção concorde dos cristãos na sociedade reveste o valor transparente de um testemunho prestado unanimemente ao nome do Senhor" (Ut unum sint, 75).

Oprimidos pela sua história de disputas e de embates, culpados de ter, às vezes, pregado e imposto o Evangelho de Cristo inclusivamente recorrendo às armas, sobretudo neste século, os cristãos começaram a percorrer o difícil e lento caminho do seu perdão recíproco. Não há ecumenismo sem conversão e perdão (cf. ibid., nn. 15 s. e 33). A vergonha e o arrependimento interior pelo escândalo da divisão, arrependimento este suscitado pelo Espírito, estão na base do movimento ecuménico (cf. Unitatis redintegratio, 1).

Hoje os cristãos ultrapassaram o limiar do terceiro milénio e encontram-se diante de uma opção comprometedora, difícil e essencial. O empenhamento ecuménico na promoção da unidade dos cristãos constitui um dos grandes desafios e das tarefas mais urgentes no início do novo milénio (cf. Novo millennio ineunte, 12 e 48). Os cristãos são chamados a "promover uma espiritualidade da comunhão" (Novo millennio ineunte, 43 s.) e, desta maneira, ser "luz do mundo", "cidade situada sobre um monte" (Mt 5, 14).

[Os cristãos] anunciam o perdão, esta especial forma de amor (cf. Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, n. 2) e aplicam-na com dificuldade a si mesmos e às suas Igrejas tanto no Oriente como no Ocidente. Para as Igrejas, dialogar, encontrar-se e purificar a sua memória são actos de coragem e uma tarefa importante. Elas sabem que "a coerência e a honestidade das intenções e afirmações de princípio se verificam pela sua aplicação à vida concreta" (Ut unum sint, 74). Na nossa situação actual, isto impele-as a ter entre  si  um  comportamento  exemplar, que ofereça ao mundo um testemunho de perdão, de concórdia e de diálogo, que deve ser ainda mais profundo, quando  as  divergências  parecem  ser insuperáveis.

Apesar da persistência das divisões, graças à experiência de diálogo que elas estão a viver, até hoje puderam pelo menos demonstrar que o processo de purificação da memória do seu passado gera, pouco a pouco, uma evolução que faz prevalecer "a "Lei nova" do espírito de caridade... A "fraternidade universal" dos cristãos tornou-se uma firme convicção ecuménica (Ibid., n. 42). Vivem já numa comunhão real e profunda, embora ela ainda não seja perfeita (cf. ibid., nn. 11-14). No testemunho e no serviço da paz, eles podem e devem, já a partir de hoje, colaborar estreitamente entre si.

Diálogo ecuménico e diálogo inter-religioso

A atitude das Igrejas e a predisposição ao perdão, que elas aplicam aos seus relacionamentos recíprocos, deve levá-las a dialogar juntamente com as outras religiões e as outras culturas, a fim de que a moral ecuménica que elas procuram na sua acção, se reflicta nas relações e no diálogo com as outras religiões, em ordem a uma colaboração que sirva para confirmar os valores da vida e da cultura humanas.

O diálogo ecuménico e o diálogo inter-religioso são afins e estão ligados entre si, mas não se identificam um com o outro. Entre os dois, existe uma diferença específica e qualitativa, e por isso não se devem confundir. O diálogo ecuménico não se fundamenta apenas na tolerância e no respeito devido a cada convicção humana e, sobretudo, religiosa; nem se funda exclusivamente num filantropismo liberal ou na mera amabilidade burguesa; pelo contrário, o diálogo ecuménico está enraizado na fé conjunta em Jesus Cristo e no mútuo reconhecimento do baptismo, por meio do qual todos os baptizados são membros do único Corpo de Cristo (cf. Gl 3, 28; 1 Cor 12, 13; cf. também Ut unum sint, 42) e podem rezar em conjunto, como Jesus nos ensinou:  "Pai nosso". Nas outras religiões, a Igreja reconhece um raio da verdade "que ilumina todos os homens" (Jo 1, 9), mas que apenas em Jesus Cristo se revela na sua plenitude; somente Ele é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6; cf. Nostra aetate, 2). Por conseguinte, é ambíguo referir-se ao diálogo inter-religioso em termos de macroecumenismo ou de uma nova e mais vasta fase do próprio ecumenismo.

Os cristãos e os seguidores das outras religiões podem rezar, mas não o podem fazer em conjunto. Exclui-se todo o sincretismo. Todavia, eles partilham o sentido e o respeito a Deus ou ao Divino e o desejo de Deus ou do Divino; o respeito pela vida, a aspiração à paz com Deus ou com o Divino, entre os homens e no cosmos; eles compartilham muitos valores morais. Podem e devem colaborar para defender e promover de maneira conjunta, em benefício de todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade. Isto é válido de modo particular para as religiões monoteístas, que vêem em Abraão o seu pai na fé.

O convite para a Jornada de oração pela paz no mundo constitui um modo de confirmar tudo isto. A Igreja católica considera esta participação como uma ocasião útil para dar um testemunho conjunto do facto de que "os cristãos se sentem cada vez mais interpelados pela questão da paz" (Ut unum sint, 76). Aplicando os critérios da busca da sua própria unidade, os cristãos respeitam as outras religiões, pois sabem que a "Lei nova" do espírito de caridade encoraja à hospitalidade e não exclui a diversidade legítima. Eles sabem que têm, em comum com as demais religiões, a arma da oração para implorar a paz.

Diante do mal terrível da ausência da paz, perante a infinita corrente de lutos provocados pela guerra, elas sabem que que só têm uma única alternativa:  dar o testemunho do perdão recíproco e da tranquillitas ordinis entre si mesmas. Assim, pedimos a todos que percorram juntamente connosco o mesmo caminho de esperança rumo à justiça, à reconciliação e à paz.

 

 

 

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