Marcos 7, 31 – 37
“Jesus saiu do território de Tiro e voltou para Sídon, em
direção ao mar da Galiléia, atravessando o território da Decápole. Trazem-lhe
um surdo, que falava com dificuldade, e lhe suplicam que lhe imponha a mão.
Tomando-o à parte, longe da multidão, Jesus pôs os dedos nos ouvidos dele,
cuspiu e tocou-lhe a língua. A seguir, erguendo o olhar para o céu, suspirou.
E disse-lhe: ‘Effatá’, isto é: ‘Abre-te’. Logo se lhe abriram os ouvidos, a
língua se lhe desatou e ele falava corretamente. Jesus recomendou-lhes que não
falassem disso com ninguém: mas, quanto mais recomendava, tanto mais eles o
proclamavam. Eles ficaram impressionados e diziam: Ele fez bem todas as
coisas; faz os surdos ouvirem e os mudos falarem”.
Tradução ecumênica da Bíblia (TEB)
Introdução ao Tema de 2007
Ele faz os surdos ouvirem e os
mudos falarem (Mc 7, 37)
A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano nos propõe
dois temas, dois convites dirigidos às Igrejas e aos cristãos: orar pela unidade
dos cristãos e buscá-la juntos, e, também, unir nossas forças para dar uma
resposta aos sofrimentos humanos. Estas duas responsabilidades estão
estritamente ligadas. Uma e outra se ligam à cura do corpo de Cristo, é por isso
que o texto principal escolhido para a Semana de Oração deste ano é uma história
de cura.
Mc 7, 31 – 37 narra como Jesus curou um homem surdo e incapaz de
falar. Jesus conduz o homem longe da multidão a fim de estar sozinho com ele.
Ele coloca seus dedos nas orelhas do homem, cospe e toca a língua do homem, e
“ele diz ‘Effatá’, isto quer dizer: ‘Abre-te’” – uma fórmula, muitas
vezes, utilizada na liturgia do batismo. A boa nova proclamada aqui compreende
muitas dimensões. Como em numerosas passagens do Evangelho, este relato de cura
nos faz compreender a resposta cheia da solicitude do Senhor para com os
sofredores e os necessitados, e o constitui um testemunho eloqüente da
misericórdia de Deus. Oferecendo a este homem o ouvir e o falar, Jesus manifesta
o poder e o desejo de Deus de salvar o ser humano na sua totalidade, cumprindo a
profecia de Isaías: “Então, os olhos dos cegos enxergarão e os ouvidos dos
surdos se abrirão. Então, o coxo saltará como um cervo e a boca do mudo gritará
de alegria. Águas hão de jorrar no deserto, torrentes na estepe” (35, 5 –
6). A cura do homem surdo permite-lhe entender a boa nova proclamada por Jesus
Cristo. O fato de ele recuperar a palavra permite-lhe proclamar aos outros isto
que ele viu e ouviu. Estas diferentes perspectivas se encontram na resposta
daqueles que são testemunhas da cura e estão “muito impressionados”: “Ele faz os
surdos ouvirem e os mudos falarem” (v. 37).
Como este homem, que foi curado por Jesus, todos aqueles que foram
batizados em Cristo tiveram os ouvidos abertos ao Evangelho. Na sua primeira
Epístola, São João nos fala da fraternidade daqueles que receberam esta boa
nova: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos,
o que contemplamos e nossas mãos tocaram do Verbo da vida” (1,1). O Senhor
desejava (Jo 17) que seus discípulos, que haviam acolhido sua mensagem, fossem
um, unidos uns aos outros, em uma unidade enraizada na sua comunhão com o Pai e
o Espírito Santo. Enquanto corpo de Cristo, a Igreja é chamada a ser una, a ser
a comunidade que viu e entendeu as maravilhas que Deus fez, e que foi
enviada para proclamá-las por todo o mundo. Enquanto corpo de Cristo, nós somos
chamados a ser unidos, no cumprimento de sua missão, a saber, especialmente,
estar também a serviço daqueles que sofrem e estão em necessidade. Como Deus
ouviu os gritos e viu os sofrimentos de seu povo no Egito (Cf. Ex 3, 7 – 9),
como Jesus respondeu com solicitude àqueles que imploravam, a Igreja deve também
escutar a voz de todos aqueles que sofrem, ela deve ser animada pela compaixão e
dar a palavra àqueles que estão sem voz.
Retomando estes dois aspectos da vida e da missão da Igreja, a Semana de
Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano deseja fazer ressaltar a ligação
essencial existente entre, de uma parte, a oração pela unidade dos cristãos e
sua busca concreta e, por outro lado, as iniciativas de sustentar àqueles que
estão na indigência e no sofrimento. O Espírito, que faz de nós irmãos e irmãs
em Cristo, nos dá também a força para irmos a todos os seres humanos que
necessitam. É o mesmo Espírito que opera em todos os nossos esforços para
manter visível a unidade dos cristãos e quem nos dá a força de agir apara
renovar a face da terra. Cada vez que nós contribuímos para aliviar os
sofrimentos de nossos semelhantes, nossa unidade torna-se mais visível; cada
passo em direção da unidade reforça o corpo de Cristo todo inteiro.
Origem dos textos da Semana de Oração deste ano: Umlazi
O tema da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste ano nos
vem da experiência das comunidades cristãs da região de Umlazi, próxima de
Durban, na África do Sul. Cada ano, um primeiro projeto de textos para a Semana
de Oração é preparado por um grupo local particular depois é adaptado para uso
internacional antes de ser distribuído para todo o mundo onde ele é finalmente
adaptado para ser utilizada em nível local. Os textos deste ano refletem as
preocupações e a experiência de um povo atormentado por um imenso sofrimento.
Na origem, Umlazi era um “township” fundado sobre o
“apartheid” por uma população majoritariamente negra. O racismo, o desemprego e
a pobreza herdados desse regime continuam a representar um enorme desafio para
os habitantes que não possuem escolas em número suficiente, nem centros
médico-sociais e habitações adequadas. A pobreza e o ambiente de desemprego são
as causas de uma auto-porcentagem de criminalidade e de maus comportamentos nas
famílias e nas comunidades. Porém, a maior dificuldade que se apresenta à
população das favelas e dos townships é atualmente a da Aids. Estima-se que 50 %
dos habitantes de Umlazi está contaminada pelo vírus HIV.
Quando, recentemente, os responsáveis de diversas comunidades
cristãs de Umlazi se reuniram para refletir sobre o que poderiam eles fazer
juntos para enfrentar os desafios que esmagam sua população, constataram que um
dos fatores agravantes da sua situação atual é a vergonha que impede as pessoas
maltratadas, vítimas de violações ou contaminadas pela Aids, de falar
abertamente de seus problemas. As convenções culturais locais afirmam que
assuntos ligados à sexualidade são totalmente inconvenientes. Na língua zoulou,
a palavra ubunqunu, que significa literalmente “nudez”, indica que estes
assuntos são tabús. Por conseguinte, numerosos são aqueles que hesitam em
procurar a assistência de que eles poderiam beneficiar-se – freqüentemente
assegurada financeiramente pela colaboração ecumênica das Igrejas locais - a
saber, a escuta e o acompanhamento pastoral, os cuidados a domicílio, os centros
municipais de assistência e de cuidados.
Considerando que as pessoas – e em particular os jovens – são clara ou
silenciosamente encorajadas a guardar o silêncio sobre os problemas que eles
encontram, os responsáveis locais das Igrejas de Umlazi criaram um tempo de
oração ecumênica tendo por tema central “romper o silêncio”. Durante esta
celebração, os jovens de Umlazi são encorajados a falar daquilo que é
considerado “inominável” e a buscar ajuda, tendo consciência que manter o
silêncio poderia ser simplesmente sinônimo de morte.
As Igrejas fora da África do Sul e as outras numerosas regiões gravemente
atingidas pela Aids são igualmente convidadas a romper o silêncio. Nenhuma
guerra na história fez tantas vítimas como a Aids. Apesar de tantas
organizações, de regiões e de Igrejas, terem tentado reagir face às
devastações da epidemia da Aids em certas regiões do mundo, a mobilização não
esteve à altura do desastre.
Em 1993, durante a 5ª Assembléia mundial de Fé e Constituição, o bispo
Desmond Tutu lembrava que, no período do “apartheid”, os líderes das Igrejas
tinham compreendido que “uma Igreja dividida estaria em situação de fraqueza
face ao tão poderoso “apartheid”. Hoje, está claro que a epidemia da Aids como
também de outras ameaças à vida humana são catastróficas para uma Igreja
dividida. Existe em Umlazi um único tribunal, um único hospital, uma única
agência de correio, um único centro médico-social, um único centro comercial -
e um único cemitério que recorda aos habitantes o desafio esgotante que lhes
foi imposto. Nessa cidade, as pessoas, quase todos cristãos, aderem às
Escrituras que professam um único corpo, um único Espírito, uma só esperança,
um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos (cf. Ef
4,4–6). Porém, existem muitas Igrejas e elas não estão em plena comunhão e
testemunham assim, uma cristandade dividida. Em Umlazi percebe-se um
sentimento de impaciência e de frustração face às divisões recebidas como
herança e advindas há muitos séculos de outros países. (Ver igualmente a
descrição da situação ecumênica na África do Sul fornecida pelo grupo
preparatório local).
Um dos membros do grupo preparatório teve a oportunidade de
reencontrar o grupo internacional responsável pela preparação dos textos
definitivos da Semana de Oração. Isto permitiu o refletir juntos à procura da
plena unidade visível das Igrejas cristãs à luz da experiência dos
cristãos de Umlazi e de seu convite a “romper o silêncio” que oprime e isola as
pessoas em seus sofrimentos. De comum acordo, escolheram Mc 7, 31 - 7 como texto
bíblico central para a Semana de Oração e um quadro bíblico-teológico
referindo-se à escuta, à palavra e ao silêncio, no qual se inserem, ao mesmo
tempo, a busca da unidade e a busca de uma resposta aos sofrimentos humanos.
Ficou decidido manter-se este duplo tema para a celebração ecumênica e as
meditações dos oito dias. A intenção era, portanto, abordar estas duas
realidades em cada texto: o sofrimento humano e a busca da unidade visível de
todos os cristãos.
Os oito dias
O livro do Gênesis começa com as palavras de Deus sobre a criação. Rompe o
silêncio, a palavra de Deus brota do caos. É uma palavra eficaz que realiza o
que ela diz, isto é, a vida. Deus fala e a criação aparece. Deus fala e os
seres humanos tomam forma à sua imagem e à sua semelhança. Deus fala na
história e os seres humanos são convidados a entrar em sua aliança.
Igualmente, o Evangelho de João começa com a palavra de Deus anunciada no
tempo e proclama o que está no coração da fé do Novo Testamento anunciando que
“o Verbo se fez carne e habita entre nós” (Jo 1, 14). Jesus Cristo o Verbo
encarnado, nos fala do ser profundo de Deus. Durante seu ministério, Jesus se
exprime de diversas maneiras, às vezes mesmo (como diante de Pôncio Pilatos)
guardando o silêncio. A palavra de Cristo é sempre uma palavra de
misericórdia, uma palavra que convida todos que a escutam a uma vida mais
profunda, a uma vida em comunhão com Deus e com os outros. Esta boa notícia
deve, portanto, ser proclamada em palavras e em ações por todos aqueles que
foram batizados em nome do Deus Trindade. É unicamente pela força do Espírito
que os cristãos podem entender e responder ao chamado de Deus.
Os três primeiros dias nos apresentam este quadro trinitário. O primeiro
dia nos convida a refletir sobre a palavra criadora que Deus pronuncia no
início e que, ainda hoje, ele nos faz ouvir. No caos atual, todos aqueles que
foram criados à imagem de Deus são chamados a dizer aos outros uma palavra
eficaz e criadora. A meditação do segundo dia nos faz refletir sobre o que
significa ser discípulo de Cristo - o Verbo Encarnado - que fez escutar os
surdos e falar os mudos. O terceiro dia medita sobre a obra do Espírito Santo
na vida dos cristãos, porque é ele que nos dá a força para proclamar a boa
nova e sermos instrumentos da presença salvadora de Cristo escutando e levando
a palavra a todos aqueles que foram reduzidos ao silêncio ou que não puderam
partilhar suas experiências.
A relação intrínseca existente entre a promoção da unidade e a mobilização
para minimizar os sofrimentos humanos aparece claramente na reflexão de Paulo
sobre a Igreja enquanto corpo de Cristo. “Pois todos nós fomos batizados em um
só Espírito, para formarmos um só corpo” (1 Cor 12, 13). O Cristo nos uniu.
Nossas divisões entravam e enfraquecem esta unidade, mas não a destroem. Isto
porque todos nós pertencemos ao Cristo, cada parte do corpo necessita da outra
e deve zelar pela outra. “Se um membro sofre, todos os membros participam do
seu sofrimento” (v.26). O quarto dia nos conduz a um questionamento sobre o
que significa ser uma comunidade unida em Cristo, uma comunidade plenamente
solidária com seus membros que sofrem.
O quinto e o sexto dias desenvolvem mais explicitamente o tema
apresentado pelas Igrejas de Umlazi: romper o silêncio opressivo. Aqueles
que sofrem o fazem, às vezes, em silêncio, suas esperanças de compaixão e de
justiça permanecem ignoradas. Em certos momentos da história, os cristãos e as
Igrejas cristãs guardaram o silêncio quando deveriam ter falado, ou não
permitiram, àqueles que não tinham voz, se expressarem. Às vezes, as divisões
entre as Igrejas nos impediram de escutar a dor dos outros ou sufocaram nossa
resposta, tornaram-na conflituosa, ineficaz ou incapaz de consolação (5º dia). É
um pecado, particularmente porque foi confiado à Igreja o falar, proclamar uma
mensagem, realizar uma missão que não se tratava de uma mensagem de desunião,
uma missão contraditória. Vivificada pelo Espírito Santo, nossa palavra deve ser
unânime e coerente, ela deve ser a boa nova que nos foi oferecida por e no
Cristo. Graças a ele, nós tivemos a possibilidade de quebrar o silêncio. Em
Cristo, nós somos a comunidade chamada a dizer “Abre-te ‘effatá’ ” aos mudos e
aos surdos. O caminho para a fidelidade e a integridade exige dos cristãos que
eles procurem sem descanso e rezem pela unidade, por aqueles por quem Cristo
rezou aos quais, malgrado nossas divisões, aprendemos a falar a uma só voz e a
ir ao encontro do outro como um só corpo com solicitude, dando vida à boa nova
que nós proclamamos (6º dia).
A morte e a ressurreição salvadoras de Cristo são o coração da palavra que
Deus oferece à humanidade. O 7º dia propõe refletir sobre a cruz de Cristo, à
luz da experiência do sofrimento e da morte em Umlazi como também em
outras regiões. Vivendo no vale da morte, lá onde os sofrimentos ultrapassam
todas as medidas, entre os cemitérios, onde os defuntos são freqüentemente
enterrados uns sobre os outros, os habitantes de Umlazi conhecem e compreendem
a desolação da cruz de Cristo. Na fé, eles sabem também que o Cristo não se
distanciou do fardo dos sofrimentos humanos e que quanto mais nos aproximarmos
de sua cruz, mais nos aproximaremos uns dos outros. Destes mesmos cemitérios
eleva-se uma proclamação da ressurreição, particularmente gritante, quando,
nas primeiras horas da manhã de Páscoa, os cristãos se reúnem entre os túmulos
daqueles que lhes eram queridos, com velas acesas nas mãos para proclamar que
o Cristo ressuscitou da morte e que nele, a morte foi vencida (8º dia). Em
meio ao sofrimento da morte, da divisão e da adversidade, o mistério pascal
semeia grãos que fazem germinar a esperança que um dia cessará o silêncio
esmagador, que as línguas serão unidas para professar que Jesus Cristo é o
Senhor, para a glória de Deus Pai (Fil 2,11).
Conclusão
O texto central da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos deste
ano, Mc 7,31–37, indica que o Cristo elevou seu olhar ao céu e suspirou
antes de curar o homem. Em sua Epístola aos Romanos, São Paulo escreve que o
Espírito Santo acompanha nossas orações “com gemidos inexprimíveis”. Esta frase
expressa perfeitamente o desejo de que o Espírito cultive em nossos corações e
nossos espíritos o empenho pela unidade plena e visível entre todas as Igrejas
cristãs, o desejo que põe fim aos sofrimentos humanos.
No esquema de celebração ecumênica e em cada um desses oito dias, adotamos
como princípio a incorporação de referências explícitas, quanto à necessidade
de continuar a trabalhar e rezar pela unidade de nossas Igrejas, com as vozes
dos habitantes de Umlazi e de outras regiões que gritam ao céu. Nós esperamos
que a Semana de Oração deste ano ajudará a romper este silêncio opressivo e
chamará a atenção sobre a ligação intrínseca que existe, de um lado, entre
oração e busca da unidade dos cristãos e, de outro, o apelo dos cristãos e das
Igrejas a trabalhar juntas enquanto instrumentos da compaixão divina e da
justiça no mundo.
PREPARAÇÃO DOS TEXTOS PARA
A SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS 2007
Os textos apresentados neste livrinho chegaram à sua elaboração conclusiva,
de maneira definitiva a partir de um encontro do grupo preparatório
internacional nomeado pela Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial de
Igrejas e o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O
grupo se reuniu no Castelo de Faverges, em Haute-Savoie (França). Agradecemos
ao pessoal daquela instituição pela hospitalidade e a disponibilidade com que
apoiaram nosso trabalho.
O projeto inicial destes textos foi preparado por um grupo ecumênico
composto de padres, pastores e pessoas leigas de Umlazi-Bhekithemba (África do
Sul). Ele tem por base uma celebração ecumênica realizada na Comprehensive
Technical High School (COMTEC) de Umlazi. A partir desta celebração
(organizada a convite da escola), os padres, os pastores e os leigos
provenientes de diversas tradições eclesiásticas se reencontraram a fim de
tornar visível sua unidade em Cristo e de oferecer um testemunho comum diante
dos desafios que os alunos e o conjunto da sociedade Sul-africana devem
enfrentar hoje. O grupo local forneceu igualmente uma lista de textos bíblicos
que poderão ser utilizados durante toda a Semana.
O grupo preparatório agradece ao grupo local da África do Sul composto pelas
seguintes pessoas:
Chanoine L. L. Ngewu
Rév. Père Thamisanqua Shange, OGS
Rév. Bruce Buthelezi
B. Buthelezi
Rév. Père Anton Mbili
Rév. S. Mosia
M.W. L. Luthuli Projet Zamimpilo VIH/Sida [enfermeiros especializados] (St Philip, Enwabi)
Mme G. Phungula
Os membros do grupo internacional agradecem ao Padre Thami Shange,
OGS por ter participado de sua reunião de trabalho e de apresentar nesta ocasião
o material preparatório e o método de trabalho seguido. Essa troca permitiu
tornar estes textos mais concretos e mais presentes à situação local da África
do Sul. Nós desejamos agradecer igualmente ao Bispo David Beetge da Diocese de
Highveld (Brakpan) e ao Chanoine Livingstone Ngewu (Colégio da Transfiguração,
Grahamstown, África do Sul) que contataram os membros do grupo e serviram de
intermediários durante a elaboração dos textos.
Introdução
O esquema de celebração aqui proposto é uma adaptação do que
foi preparado pelas Igrejas locais de Umlazi e que se dirigia particularmente
aos jovens. Ele começa com um convite ao silêncio, não um silêncio que oprime,
mas que nos permite escutar, no recolhimento, a voz de Deus e a dor do mundo e
da humanidade. A liturgia da palavra evoca os temas principais que são
desenvolvidos na “Introdução ao tema”, e levam à meditação de São Paulo sobre
o corpo de Cristo na 1 Cor 12 e sobre a cura evocada em Mc 7, 31–37. Este
esquema, que reflete um certo estilo de oração da África do Sul, oferece a
possibilidade de inserir durante a celebração gestos simbólicos, testemunhos e
orações pedindo a cura para permitir às pessoas da comunidade local, cuja voz
não é ouvida, ou que sofrem, a se unirem à oração da assembléia. As
intercessões se inscrevem num quadro trinitário reagrupando orações pela
unidade dos cristãos e por todos aqueles que, em nível local, mas também
espalhado por todo o mundo, estão em situações de grandes necessidades.
Desenvolvimento da celebração
Ele faz os surdos ouvirem e os mudos falarem (Mc 7, 37)
Presidente: P
Leitor: L
Assembléia: A
Acolhida e Apresentação da Celebração
P: Queridos amigos em Cristo, eis-nos aqui reunidos, membros de um mesmo
Corpo, para escutar o que Deus quer nos dizer, através de sua Palavra, como
também através de nossos irmãos e irmãs silenciosos em seus sofrimentos.
Este ano, são os cristãos da África do Sul que, a partir de sua situação local,
particularmente crítica, sentiram a urgência de nos chamar a romper, em nome de
Cristo, toda forma de silêncio cúmplice, diante das pessoas acabrunhadas pelos
sofrimentos.
Esta palavra não será tanto mais poderosa e profética pelo fato dela vir de
cristãos de diversas confissões falando e agindo juntos?
Cristãos de diversas Igrejas, aqui reunidos, para esta celebração, escutemos o
chamado do Senhor:
- a tomarmos consciência de
nossos silêncios culpáveis diante dos sofrimentos gritantes e a nos arrepender;
- a orar para que a bênção de
Deus desça sobre todos e em particular sobre aqueles e aquelas que participam no
sofrimento salvífico de Cristo;
- a reagir elevando a voz por e
com os sem voz, para que cresça nosso testemunho comum do Cristo que “fez
escutar os surdos e falar os mudos”.
Hino/Canto
Desde o início do hino ou do canto, executado à maneira de Taizé ou de Iona, é
aconselhado, para fazer a assembléia entrar no tempo de silêncio seguinte,
trazer, por exemplo, uma grande cruz e colocá-la no chão. Quatro jovens trazem
esta cruz. Eles se colocam em torno dela e oram em silêncio.
O canto termina para dar lugar às palavras de introdução ao silêncio.
(É possível também conduzir a assembléia ao silêncio por uma improvisação
através do órgão).
Introdução ao silêncio
P. Façamos silêncio diante de Deus... façamos silêncio em nós mesmos...
abramo-nos ao silêncio de nossos irmãos e irmãs vivendo no sofrimento: “Se um
membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento” (1 Cor 12, 26).
Que este silêncio de comunhão com aqueles e aquelas, dos/as quais não ouvimos a
voz - seja porque se calam, seja porque os façam silenciar - abra nossos
ouvidos. Não permaneçamos surdos. Escutemos o apelo de Cristo. Ele nos ensina a
nos deixar tocar, como ele, pelo sofrimento do outro. Ele nos remete à nossa
responsabilidade comum de cristãos de todas as denominações diante desses
sofrimentos.
Três minutos de silêncio
Hino/Canto
O mesmo canto que introduziu o silêncio é retomado, cada vez mais forte, entoado
pelo solista, seguido por toda a assembléia.
Oração
P. Deus, tu que estás sentado em teu esplendor celeste, pela revelação de tua
Palavra, Jesus Cristo,
gerado do seio de teu silêncio e escondido ao príncipe deste mundo, tu rompeste o
silêncio.
Abre nossos olhos para que possamos ver Jesus, luz que dissipa nossas trevas.
Abre nossos ouvidos para que possamos entender, ouvir as vozes envolvidas no
silêncio de milhões daqueles e daquelas cuja voz é abafada pelas provas e pelos
sofrimentos deste mundo efêmero.
Abre nossos corações para que saibamos sentir com as pessoas que sofrem entre
nós, assim como a mulher de Betânia, espalhando perfume sobre a cabeça de Jesus;
bem como um certo Simão de Cirene que, sem reclamar, levou a cruz de teu Filho,
reduzido ao silêncio por aqueles que o perseguiam.
Aqui reunidos, nós rompemos o silêncio com as palavras da oração que Jesus nos
ensinou:
Pai Nosso (cada um na sua própria língua)
A Palavra de Deus
1 Samuel 1,1–18. Ana, o excesso de aflição.
(lido por quatro pessoas: narrador, Elcaná, Ana e Elias).
Salmo 28,1–2; 6–9. Senhor, meu rochedo, não fiques surdo...
(lido por uma pessoa jovem)
1 Coríntios 12,12–29. Se um membro sofre, todos os membros participam de seu
sofrimento.
Marcos 7,31–37. O Cristo fez os surdos escutarem e os mudos falarem.
(algumas crianças e jovens presentes podem encenar Mc 7, 31 – 37. Esta cena da
cura pode ser feita através de uma dança).
Pregação
Confissão de fé
Símbolo Niceno-Constantinopolitano ou uma fórmula de confissão de fé em uso.
Confissão dos pecados – Perdão - Saudação de paz
P. Deus está sempre mais disposto a perdoar nossos pecados do que nós de
confessá-los.
Apresentemo-nos, portanto, diante de Deus para confessar-lhe o peso de nossos
pecados: Jesus, não prometeu o seu repouso àqueles que sofrem sob o peso do
fardo?
Confiemos também ao Senhor nosso sofrimento de ver a falta das Igrejas, ainda
insuficientemente unidas para ajudar os fracos, os pequenos e os sem voz, tão
queridos do coração de Jesus seu Filho:
“Porque eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; eu
era estrangeiro e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; doente, e me
visitastes; na prisão e viestes a mim” (Mt 25, 35–36)
Algumas pessoas podem trazer, sucessivamente, alguns objetos, imagens, desenhos
ou fotografias evocando situações em que membros de comunidades cristãs locais
permaneceram calados, na indiferença ou não conseguiram falar a uma só voz e
agir juntas, por exemplo, nos casos de mulheres que apanham, crianças
maltratadas, órfãos da Aids, etc. (Como salientou em seu próprio contexto o
grupo ecumênico da África do Sul que propôs o tema da oração deste ano).
- Cada pessoa se aproxima em silêncio e deposita, sucessivamente, diante da
assembléia (ou ao pé da cruz trazida precedentemente) os objetos, (as imagens ou
as fotografias).
- Interrompendo o longo tempo de silêncio, uma dessas pessoas Parilha em voz alta
uma situação de sofrimento causada pelo pecado.
- Depois uma outra pessoa diz em voz alta: “Senhor, nós não te vimos no sofrimento de nossos irmãos e de nossas
irmãs”.
Tempo de silêncio suficiente entre cada grupo
P. Deus de misericórdia, em teu Filho tu nos ofereces o perdão sem condições para
os pecados que nós confessamos com sinceridade.
Concede-nos teu perdão pelos pecados manifestos a nossos olhos, como por aqueles
que não temos a coragem de reconhecer.
Quando, por nossos atos, nós nos afastamos de tua vontade;
Quando, desinteressando-nos pelos outros, nós os levamos a perder a esperança;
Quando pela indiferença em relação à tua lei e por fraqueza, nós não respondemos
ao que tu esperavas de nós pessoalmente e de nossas comunidades. Nós te pedimos,
Senhor, vem ao nosso encontro em tua misericórdia, para curar nossas vidas
feridas e apressar a hora da plena comunhão entre nós, em nome do amor de Jesus
Cristo.
Amém.
“Mas se acontece a alguém pecar, temos um defensor diante do Pai, Jesus Cristo,
que é justo” (1 Jo 2, 1) e “Vossos pecados são perdoados por causa do nome dele”
(1 Jo 2,12).
P. Nós acabamos de acolher o perdão de nossos pecados, que nos dá a paz, demo-nos
uns aos outros esta paz do Cristo.
P. A paz de Cristo esteja sempre convosco.
A. E contigo também.
Música enquanto os membros da assembléia se cumprimentam mutuamente com o sinal
da paz.
Intercessão
P. Deus da graça, nosso criador, Deus de misericórdia, nosso redentor, Deus
compassivo, nosso socorro, tu que sabes do que nós necessitamos, antes mesmo que
nós o peçamos, nós te louvamos pela tua criação, pela redenção e por tua
incessante solicitude ao nosso cuidado.
Cura-nos a nós mesmos, cura nossas Igrejas de sua surdez, que nós percebamos
mais claramente, juntos, o som de tua voz no silêncio dos pobres e dos
sofredores.
Nós te pedimos por tua Igreja, ainda dividida, espalhada pelo mundo com a missão
de anunciar o Cristo, Luz das nações.
Desperta em nós o desejo de trabalhar incansavelmente pela unidade dos cristãos
que te é agradável, e que nada venha sufocar nossa procura por esta unidade pela
qual Jesus orou.
“Sendo ele de condição divina, não considerou como presa a agarrar o ser igual a
Deus Pai, mas despojou-se de si mesmo”. Concede-nos não nos apegar a tudo que
possa nos impedir de continuar nossa peregrinação comum rumo à plena comunhão.
L 1. Deus nosso criador, tu nos criaste para ti, em teu amor, e nosso coração
não repousará enquanto em ti não repousar.
A. Dá-nos a segurança de que nada nos separará de teu amor.
L 2. Deus nosso pastor, tu nos chamaste das trevas à tua admirável luz.
Faze-nos brilhar como filhos da luz.
A. Brilhe, ó Senhor, brilhe em nossas vidas!
L 3. Deus nosso Pai, tu que cuidas infinitamente de cada um de nós, torna-nos
atentos às necessidades dos outros.
A. Ensina-nos na tua bondade a tomar os outros em nossos braços como tu mesmo nos
tomaste
em teus braços, em Jesus Cristo e fortalece nosso testemunho comum de cristãos
em favor da justiça, da caridade fraterna e do perdão.
L 4. Jesus, Palavra do Pai, tu que te empenhaste em quebrar todas as formas de
silêncio culposo.
A. Dá-nos a coragem de ajudar todos aqueles e aquelas que, em nossas comunidades
aqui reunidas, fazem ouvir, em teu nome, a voz dos sem voz. Que um real
ecumenismo alivie o desespero e a solidão lá onde impera a morte precoce.
L 5. Jesus, amigo dos pobres e dos estrangeiros, tu
estendeste a mão atraindo para tua graça e salvação todos aqueles que estavam distantes.
A. Dá a todos aqueles que se sentem estrangeiros encontrar a consolação e
perceber tua força em nossas comunidades de fé.
L 6. Jesus, enviado do Pai, tu chamaste teus discípulos a serem mensageiros unidos
no anúncio do Evangelho e instrumentos de transformação deste mundo.
A. Faze com que a perspectiva de um mundo transformado envolva a imaginação de
todos os crentes.
L 7. Espírito Santo, que és Vida, impulsiona-nos a viver continuamente de tua força
vivificante.
A. Por tua presença entre nós, dá força àqueles que não a tem e ajuda-nos a dar a
palavra àqueles que dela estão privados.
L 8. Espírito Santo, tu que és o vínculo de unidade, dá aos dirigentes de nossas
comunidades de fé um zelo inabalável, em seus esforços, na construção da
unidade.
A. Escuta nossas orações, abre novos caminhos de unidade para tua Igreja.
L 9. Espírito Santo, tu que nos conduzes à inteira verdade e endireitas o que está
desviado, inspira todos aqueles e aquelas que exercem funções de governo.
A. Dá-lhes uma vontade firme para cuidar das necessidades dos pobres, dos pequenos
e dos fracos sem voz, como prioridade; protege-os de toda tentação, a fim de
que sua integridade moral seja preservada da corrupção.
L 10. Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, Tu que és Um em três pessoas.
Permanece conosco para derrubar os muros que nos separam e reúna-nos em Cristo
por meio do Espírito.
P. Deus de amor, tu que vês tudo, que és rico em misericórdia, onde a bondade
supera toda a medida, tu que rompes o silêncio, tu que te aproximaste de nós
antes que nos aproximássemos de Ti, demonstrando assim teu amor por nós, em
Jesus Cristo, teu único Filho, nascido da Virgem Maria, nós elevamos a ti nossas
orações.
Permanece conosco, Senhor e com toda a humanidade.
Possas tu direcionar teu olhar benevolente sobre nossas Igrejas, que chamas a
manifestar juntas todos os dias da vida, o amor misericordioso e compassivo de
teu Filho Jesus Cristo, Deus conosco pelos séculos dos séculos.
A. Amém
Canto
Escolher de preferência o Magnificat ou o canto das bem-aventuranças em razão do
tema: Deus exalta e cumula de bênçãos os humildes e os sem voz.
Tempo de partilha, de bênçãos e de consolação
Podem tomar, neste momento, testemunhos de pessoas ou de grupos, particularmente
ecumênicos, engajados em ações de solidariedade tais como a luta contra a
epidemia da Aids, a violência às mulheres e às crianças, a má-nutrição, etc.
P. “Em verdade eu vos declaro, todas as vezes que o fizestes a um destes
pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).
“Vinde a mim, todos vós que estais cansados sob o peso do fardo, e eu vos darei
descanso” (Mt 11, 28).
Queridos amigos, estas palavras de Cristo se dirigem a cada um e cada uma. Com
efeito, no coração de nossos engajamentos, inclusive nos engajamentos
ecumênicos, assim como no sofrimento da doença, da solidão e do desânimo de
muitos dentre nós, o Cristo se faz próximo. Ele nos sustenta na fraqueza. Ele é
para nós consolação e bênção.
Os representantes ou ministros das Igrejas presentes se aproximam diante da
assembléia para a oração e o gesto de bênção.
Bendito sejas Senhor nosso Deus pelo amor
que tu nos manifestaste, em Jesus Cristo, nosso Senhor.
Nele que nos amou, somos mais que vencedores do desespero, do egoísmo, da
perseguição, da fome, da miséria, do perigo, da espada.
No silêncio da desesperança e da solidão,
Da doença e da morte,
Cumula-nos das riquezas de tua bênção.
Que mais firme seja nossa fidelidade a te servir em nossos irmãos e nossas
irmãs;
Que mais profunda seja nossa alegria de cumprir tua vontade.
Nós te bendizemos e te glorificamos,
Porque tu escutas o silêncio de nossos corações;
Tu agiste em nós com força curando-nos e permitindo-nos falar em nome de Jesus,
teu Filho.
Envia-nos ao mundo para realizar tua obra
E para derrubar os muros do silêncio que separam os grupos humanos.
Dá-nos testemunhar a Ti, nosso único Senhor,
Sempre mais na unidade “de uma só fé e de um só batismo”;
E possamos nós crescer na graça e na paz de Deus
Que supera toda inteligência, a fim de que teu nome seja glorificado.
Amém.
Bênção final
P. A graça de Jesus Cristo nosso Senhor,
o amor de Deus Pai
e a comunhão do Espírito Santo
estejam sempre convosco.
A. Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo.
Palavras, gestos de envio e coleta
Em sinal da bênção de Deus, da alegria de sua palavra e de sua presença,
sugere-se que cada participante recebe, no momento da dispersão da assembléia,
um pouco de perfume nas mãos para transmiti-lo a outras pessoas (tradição das
Igrejas Ortodoxas).
O momento das ofertas pode ser feito também no início da celebração. Elas serão
consagradas a uma ação destinada a responder concretamente às necessidades
daqueles e daquelas que estão reduzidos ao silêncio.
Proposta alternativa
No lugar deste tempo de testemunhos, de bênçãos e de consolação, algumas
assembléias preferirão a proposta seguinte que consiste em rezar sobre cada
pessoa que se apresentará.
O presidente convida os representantes das denominações presentes (escolhidos
antes da celebração e a quem isto já fora explicado) a se aproximarem para rezar
sobre as pessoas que desejarem a ajuda da oração de seus irmãos e de suas irmãs.
Proclamação de Rom 8,31–39 a partir de “Se Deus é por nós...”
P. Irmãos e irmãs, com efeito “nada poderá nos separar do amor de Deus manifesto
em Jesus Cristo”. Então, se existem entre nós pessoas que experimentam
particularmente o peso do fardo da doença, do sentimento de serem abandonados ou
incompreendidos no sofrimento ou na solidão, a ponto de não poder encontrar a
paz, que não hesitem em confiar seus sofrimentos às orações da comunidade, se
assim o desejarem.
Fundo musical durante este momento de oração silenciosa.
Aqueles e aquelas que foram designados os acolhem fraternalmente, os escutam e
rezam por eles e com eles fazendo, por exemplo, o gesto de colocar as mãos sobre
seus ombros.
1º Dia - No início era a Palavra
“E Deus disse...” (Gn 1)
Gn 1,2–2,4: Por sua palavra, Deus criou o universo
Sl 104,1–9: O Senhor ordena toda a criação
Ap 21,1–5a: Deus faz todas as coisas novas
Jo 1,1–5: No início era a Palavra
Comentário
No início era a Palavra... Neste primeiro dia da Semana de Oração pela Unidade
dos Cristãos, nós queremos contemplar a obra do Criador. No silêncio dos abismos
– nos diz o livro do Gênesis - Deus criou o mundo por sua Palavra. “E Deus
disse...”. no início dos inícios, quando tudo era caos e confusão, a Palavra de
Deus vem romper o silêncio para designar a cada criatura seu justo lugar. No
ápice da criação, está uma humanidade una que Deus criou, à imagem de sua
unicidade.
O grupo que preparou o projeto desta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
é originário da África do Sul. Seus membros disseram o quanto a epidemia da Aids
podia lançar vidas humanas no desespero. Muito freqüentemente, nós também, temos
a impressão de que nosso mundo é caótico: quando os elementos naturais vêm tudo
devorar, quando a guerra nos mergulha no pavor, quando a doença ou o luto nos
faz sucumbir em um grande abismo.
“E Deus disse...”. Diante de tantos sofrimentos, todos os cristãos acreditam que
a obra do Criador continua hoje. A despeito de suas divisões, é uma mesma
esperança que habita o coração de todos os discípulos de Cristo: a Palavra de
Deus continua a criar o mundo hoje, arrancando-o do nada e do absurdo, mantendo
a humanidade na unidade, Mais do que nunca, os cristãos de todas as confissões
precisam acreditar nesta promessa: eis que faço novas todas as coisas, não
haverá mais luto, nem sofrimento.
O caos no qual vivemos pode ser paralisante. Portanto, homens e mulheres de
nossa terra não querem se resignar no desânimo. É assim que, na África do Sul,
um grupo de mulheres (Kopanang), contaminadas pela Aids, se reúne para realizar
juntas magníficas tecelagens?. Suas criações lhes permitem fazer viver suas
famílias. Nós também, criados à imagem de Deus, podemos - ao nosso modo - fazer
surgir a bondade lá onde reina o caos.
Oração
Deus nosso Criador, nós contemplamos o esplendor de tua criação. É tua palavra
que criou o universo. Nós te suplicamos, quando nossa vida se desmorona, renova
tuas maravilhas. Não obstante o escândalo de nossas divisões, nós queremos te
implorar a uma só voz: que tua Palavra não cesse de fazer novas todas as coisas
no coração de nossas vidas feridas. Dá-nos a coragem de sermos, nós também,
artesãos da criação. Faze com que a unidade que nós procuramos, para nossas
Igrejas, esteja verdadeiramente a serviço da família humana. Nós te pedimos.
Amém
2º Dia - A palavra de Cristo nos salva
“Ele faz os surdos ouvirem e os mudos falarem”
(Mc 7,31–37)
Is 50,4–5: O Senhor me deu uma língua ... para que eu saiba
acudir ao enfraquecido
Sl 34 (33),1–16: Bendirei o Senhor em todo tempo
Col 1,11–20: Jesus é a imagem do Deus invisível
Mc 7,31–37: Jesus faz os surdos escutarem e os mudos falarem
Comentário
Isaías calcula o preço do dom recebido do Senhor Deus. Ele recebeu o poder de
uma palavra que pode ajudar os enfraquecidos e aqueles que têm o coração ferido.
Por isso, necessita de ouvidos para ouvir e aprender como um discípulo. Pois o
Senhor Deus chama, e não pode voltar atrás.
Segundo São Paulo, a Palavra definitiva foi pronunciada por Jesus Cristo. Ele
nos apresenta a humanidade na unidade de suas relações com o Filho de Deus,
imagem do Deus invisível, à semelhança da qual fomos criados. Deus nos arrancou
do poder das trevas e nos fez alcançar o reino de seu Filho de quem recebemos a
libertação e o perdão dos pecados. Nós somos um pelo nosso batismo em Cristo,
porque somos unidos a ele e Jesus reconcilia todas as coisas com Deus. Pelo
sangue de sua cruz, nós temos acesso à paz eterna.
A passagem do Evangelho mostra como o poder de Jesus permite ao surdo ouvir sua
palavra salvadora e proclamá-la aos outros. Curiosamente, Jesus recomenda à
multidão não falar a ninguém. Porém, como toda boa nova, ela não pode ser
guardada para si. Aqueles que estavam presentes tornaram-se testemunhas da força
salvadora do Messias de Deus. Não somente a pessoa que foi curada proclama a
bondade do Senhor, mas também todos aqueles que foram testemunhas desse milagre.
No contexto da África do Sul, como no Evangelho, toda pessoa tocada pelo Senhor
se torna livre para falar de sua condição. Por outro lado, isso permite à Igreja
ajudá-la e encoraja também outras pessoas a fazerem o mesmo. O que desata muitas
as línguas e abre muitos ouvidos. Muitas pessoas que sofrem da conspiração do
silêncio envolvendo assuntos como a violência para com as mulheres e as
crianças, os crimes no seio da sociedade e a Aids, são encorajadas a romper o
silêncio. Isso leva outras pessoas a ajudarem aqueles que estão em grandes
necessidades. Assim, nós vemos como Deus continua a abrir os ouvidos e a desatar
as línguas para ouvirem e depois proclamarem a palavra salvadora de Cristo.
Nossa fé comum, celebrada no batismo, nos torna capazes de, juntos, proclamar a
compaixão de Cristo. Apesar do sofrimento, aproximando-nos sempre mais do
Cristo, nós nos tornamos UM, porque cremos que tudo foi reconciliado e reunido
em Cristo. Isso está ancorado no reconhecimento de um único batismo e no dever
que resulta de glorificar a Deus e sua obra.
Oração
Deus de compaixão, em Jesus tu pronunciaste a Palavra que nos salva. Por sua
intercessão, nós te pedimos que nossos ouvidos estejam abertos aos gritos dos
que são vitimas da conspiração do silêncio. Que Ele liberte nossas línguas a fim
de que, juntos, possamos proclamar aos que sofrem, em silêncio, o poder de seu
amor que cura a todos. Fortalece-nos, pela graça de nosso batismo comum, a fim
de que a unidade que temos, em Cristo, seja força para levarmos a esperança a
todos os que estão desesperados; que juntos proclamemos nossa libertação em
Cristo, nosso Senhor. Amém.
3° Dia - O Espírito Santo nos dá a Palavra
“O Espírito da verdade, que procede do
Pai,
ele próprio dará testemunho de mim” (Jo 15,
26)
Jl 3,1-2: Eu derramarei meu Espírito sobre toda carne
Sl 104 (103): Tu renovas a face da terra
1Cor 12,1- 4, 12-13: Ninguém pode dizer “Jesus é o Senhor” se não pelo
Espírito Santo
Jo 15,26-27; 16,12-13: O Espírito da verdade dará testemunho de mim
Comentário
Nós somos um no Espírito. Fomos todos fomos inebriados num mesmo Espírito. Não
foi num só Espírito que todos nós fomos batizados em um só corpo? É o Espírito
Santo que fala e que nos dá a energia vital, a força interior para falar, para
anunciar e proclamar juntos a Boa Nova do Reino de Deus.
Desejamos viver a vida do Espírito, como comunidade peregrina em direção à
unidade. Se nós vivemos segundo o Espírito, nós desejamos aquilo que é do
Espírito. E o desejo do Espírito, é a vida e a paz.
O Espírito Santo nos faz agir. Nós desejamos romper as diferentes formas de
silêncio que nos entravam e nos paralisam: as situações caóticas, as rupturas
humanas, tudo aquilo que fere a dignidade das pessoas e dos povos. Como libertar
a palavra? Onde encontrar a força de semear uma palavra de vida, de esperança,
de abertura? Como nos libertar de tudo isto que nos isola e nos imobiliza?
O Espírito que foi derramado sobre toda carne nos impulsiona a profetizar. É o
Espírito que nos recria renovando a face da terra. É o Espírito que nos faz
anunciar “Jesus é o Senhor”. É o Espírito que dá testemunho do Senhor e que nos
torna capazes de nos tornar testemunhas cheias de coragem. É o Espírito que Deus
envia em nossos corações, que nos faz proclamar “Abba, Pai” e nos faz assim
tomar consciência de nossa identidade profunda: nós não somos mais escravos, mas
filhos e filhas de Deus.
Quando as crianças e os jovens da Escola secundária COMTEC de Umlazi (África do
Sul) se reúnem para uma celebração ecumênica (cf. Introdução ao tema), quando
eles invocam, juntos, o Espírito Santo, uma nova esperança nasce para o mundo
inteiro. É o Espírito que impulsiona estes jovens a não afogar no silêncio e no
desespero as suas grandes dificuldades – vida familiar, desemprego,
criminalidade, doença. Eles louvam o Cristo e o seguem. Eles se engajam com
generosidade ao serviço de seus irmãos e suas irmãs. Eles são portadores da
alegria, da paz, da unidade no Espírito. Em nossa caminhada ecumênica, estes
jovens de Umlazi são sinais de esperança e de unidade no Espírito Santo.
Oração
Vem Santo Espírito! Dá-nos discernir em nossa peregrinação em direção à unidade,
o Dom de tua presença. Dá-nos a força interior para tornar-nos instrumentos de
alegria e de esperança no mundo. Que teu sopro nos torne unidos. Que tua voz nos
dê a palavra oportuna para confessar, juntos, nosso Deus e Senhor, e para romper
o silêncio que destrói. Espírito de vida e de amor, renova-nos na unidade. Amém.
4° Dia - O silêncio dos esquecidos e os gritos daqueles
que sofrem
“Se um membro sofre, todos os membros participam de seu sofrimento” (1 Cor 12,
26)
Ex 3,7–10: Deus ouviu o grito dos oprimidos
Sl 28 (27),1–8: Senhor, não permaneça mudo
1 Co 12,19–26: Muitos membros, mas um só corpo em Cristo
Mc 15,33–41: Jesus grita com uma voz forte: Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonastes?
Comentário
O mundo no qual vivemos é um mundo muito sofrido. Quase todo dia, a televisão
nos mostra imagens dramáticas e os jornais nos informam sobre terríveis
catástrofes que se abatem sobre a população. Contudo, as provas pelas quais
passam numerosas pessoas, não são freqüentemente reconhecidas. Esquecemos todas
essas pessoas. Poderíamos crer que elas sofrem em silêncio, mas isso é falso.
Esse silêncio é, acima de tudo, a prova de nossa ignorância e nosso egoísmo.
Deus escuta aquilo que freqüentemente nós não queremos escutar. Ele ouve os
gritos daqueles que sofrem e vê sua opressão. Ele não a ignora (Ex 3). Lendo a
narração do texto da saída do povo de Israel do Egito, os habitantes da África
do Sul se recordam da sua própria libertação do “apartheid”. Mesmo
sistematicamente reduzidos ao silêncio, ecoa o seu apelo à liberdade e à
justiça; eles suportaram os grandes sofrimentos e esperaram muito tempo antes de
reencontrar a liberdade.
Hoje, na África, numerosas são as vítimas da pandemia da Aids. Nenhuma guerra no
mundo foi tão assassina como a Aids. Mas isto interessa muito pouco às pessoas –
em particular às sociedades ocidentais. Um muro de silêncio divide o mundo. O
Salmo 28 nos mostra uma pessoa que sofre, que grita ao Senhor. Na miséria e na
esperança, é para Deus que ela se volta. Ela reza e guarda a esperança de que
Deus a verá, porque os outros não vêem sua dor.
Juntos nós cremos que Deus partilha as dificuldades e os medos daqueles que
sofrem. O grito de Cristo na cruz é o sinal mais eloqüente (Mc 15). Deus não
está longe, mas no coração de nossos sofrimentos.
Formamos um só corpo no Cristo de compaixão. A miséria de certos membros não
atinge apenas a eles mesmos, mas é concernente a todos. Não podemos ignorar os
gritos dos enfermos ou pedir-lhes para se calarem dizendo que Deus os julga.
Sim, Paulo tem razão quando diz: “Se um membro sofre, todos os membros
participam do seu sofrimento”(1 Cor 12, 26), então podemos afirmar que “toda a
Igreja tem Aids”. Estamos ligados uns aos outros em um só corpo, o de Cristo.
Juntos, devemos cuidar dos abandonados e dos excluídos.
Diante do grande desafio da Aids, temos necessidade de uma Igreja unida e não
dividida. Temos necessidade de uma Igreja onde todos cooperam e constroem uma
comunidade de compaixão e de fé enquanto corpo de Cristo; uma comunidade que
rompe o silêncio dos esquecidos e ouve os gritos de todos os que sofrem.
Oração
Deus eterno, tu és a esperança dos esquecidos pelo nosso mundo. Tu ouves o grito
dos corações feridos e a voz das almas desesperadas. Ensina-nos, pelo poder de
teu Espírito, a escutar, com teus ouvidos e, no silêncio, perceber a voz
daqueles que sofrem e esperam. Enquanto membros do único corpo de Cristo, faze
que sejamos sempre mais uma comunhão de compaixão e um sinal profético da
encarnação de tua graça e de tua justiça. Amém.
5º Dia - Deus julga nosso silêncio
“Cada vez que não o fizestes a um destes
pequeninos” (Mt 25, 45)
Mq 6,6–8: O que o Senhor exige de ti?
Sl 31(30),1–5: Deus refúgio e fiel redentor
1 Pe 4,17: O julgamento começa pela casa de Deus
Mt 25,31–46(41–46): Cada vez que não o fizestes a um destes mais pequenos, a mim também não o fizestes
Comentário
Aqueles que sofrem em silêncio – que perderam a voz ou dela foram privados -
encontram refúgio e esperança em Deus, que é fiel em socorrê-los. É, portanto,
com razão, que eles procuram ajuda, não somente junto a Deus, mas também junto
aos seus servidores e, em particular, junto aos cristãos e às Igrejas. Estes são
chamados a se expressar em nome daqueles que não podem tomar a palavra ou não o
fariam e a ajudar aqueles que estão sem força de falar por si mesmos: o Senhor
exige que nós trabalhemos, antes de tudo, em favor da justiça.
Apesar disto, as esperanças dos que sofrem só tem como resposta o nosso
silêncio. Os cristãos e as Igrejas não tomam sempre posição ou não agem não
sempre como deveriam para ajudar os sem voz a tomar a palavra. Somos chamados a
servir os outros, até mesmo o menor dentre eles e, portanto, freqüentemente nós
faltamos com nosso dever. Mesmo sabendo que Jesus está presente nos mais
pequeninos dentre nós, não estamos sempre dispostos a ajudá-los como deveríamos.
Sabemos que é tempo em que o julgamento começa pela casa de Deus. Nossas ações
são comparadas com aquilo que nós somos chamados a realizar, todo afastamento é,
portanto, imediatamente visível: enquanto nós mantivermos o silêncio e não
oferecermos àqueles que são sem força a possibilidade de se expressar, Deus nos
julga. Entretanto, o julgamento divino não tem a finalidade de condenar, mas de
nos conduzir a uma vida nova. A confissão nos liberta: reconhecendo que nosso
silêncio nos torna cúmplices dos sofrimentos dos outros, podemos então falar em
seu nome e dar-lhes os meios de tomarem eles mesmos a palavra.
Enquanto cristãos e Igrejas – onde quer que nos encontremos - nós temos o dever
de nos perguntar se não guardamos demais o silêncio quando, na verdade,
deveríamos responder a certas questões:
Fazemos o melhor para falar em nome dos outros e dar-lhes os meios de tomarem a
palavra?
Na negativa, por que não somos capazes de escutar os gritos daqueles que sofrem?
Ou melhor, permanecemos paralisados diante de tantas desgraças, por exemplo, os
funerais incessantes nos “townships” nas favelas e nas zonas rurais?
As Igrejas estão, às vezes, tão ocupadas em resolver suas questões internas, a
ponto de não escutar os gritos daqueles que estão fora?
As divisões entre as Igrejas impedem-nas de prestar atenção aos gritos dos
daqueles que sofrem?
São questões perturbadoras, mas, nos colocando essas questões a todos nós, aqui
reunidos, conseguiremos romper o silêncio e testemunharemos, assim, nossa
unidade a serviço daqueles que sofrem.
Oração
Deus, nosso refúgio e nosso redentor,
Escuta a palavra daqueles que estão sem voz;
Abre suas bocas a fim de que eles possam falar e concede-lhes enfim a justiça e
a cura, a alegria e a paz.
Abre nossos ouvidos para que escutemos os gritos daqueles que sofrem;
Abre nossos lábios para que possamos falar em nome deles; e abre nossos corações
a fim de que nos engajemos para que outros tenham a possibilidade de se
expressar. Amém.
6º Dia - Reencontrar a força de falar
“Então a mulher, temerosa e a tremer...
lhe disse toda a verdade” (Mc 5, 33)
Jz 6,11–16: Eu estarei contigo
Sl 50(49), 1–15: Chama-me
At 5,26–32: Obedecer a Deus
Mc 5,24–34: Dizer toda a verdade
Comentário
Existem assuntos que, em princípio, não podem ser abordados: especialmente em
relação ao sexo, ao dinheiro e à religião. A atitude de Jesus para com a mulher,
que sofria de hemorragia, foi, ao mesmo tempo, inovadora e espantosa. Foi a fé e
a confiança em Jesus que a impeliu a se aproximar dele com a certeza de que lhe
concederia a cura. Jesus, de quem ela toca as vestes, sente que uma força saiu
de si enquanto a mulher sente que está curada, que ela reencontra a força de
falar, de dizer que sua história, feita de longos sofrimentos silenciosos, enfim
está terminada. Somente após ter narrado sua experiência é que Jesus diz que ela
está curada.
Esta situação apresenta semelhanças com o que vivem numerosos pastores da África
do Sul: desejam oferecer um acompanhamento aos doentes de Aids e são impedidos
pela conspiração do silêncio e da vergonha. Somente quando aqueles que estão
contaminados ou atingidos de uma maneira ou de outra pela doença estão dispostos
a partilhar sua experiência, é que se pode oferecer ajuda através de palavras e
gestos de cura. Um ditado zoulou afirma que manter um segredo em grande silêncio
é como se sentar sobre um escorpião. É um dever e um desafio das Igrejas saber
oferecer, às pessoas contaminadas, um ambiente no qual elas se sintam em
segurança para falar.
As Igrejas têm necessidade de falar de certos assuntos que, por uma razão ou
outra, são difíceis de abordar; para sair do contexto sul-africano, assuntos
como a guerra e a paz, o capitalismo mundial e seus efeitos destruidores, a
tragédia dos exilados ou os maus tratos infligidos às crianças. Para a Igreja,
isso não deveria ser uma escolha porque aí está sua verdadeira razão de ser.
Deus chama a Igreja a proclamar sua Palavra no mundo, a levar a Boa Nova àqueles
que são necessitados; por conseguinte, as Igrejas não podem guardar o silêncio
quando as forças exteriores são obstáculo à encarnação da Palavra de Deus.
Portanto, acontece que as Igrejas mesmas entravam esta encarnação por suas
divisões e sua desunião. A Palavra que foi confiada às Igrejas é una e só
falando numa mesma voz e agindo com a mesma solicitude que elas testemunharão
realmente e de maneira credível esta Palavra. As Igrejas devem estar dispostas,
por conseguinte, a expressar sua vergonha diante de suas próprias divisões. A
cura só será possível se conseguirmos falar da dura verdade de nossa desunião.
Oração
Deus criador, por tua palavra, tu fizeste o mundo bom; teu Filho ressuscitado
intercede em nosso favor; teu Espírito nos guia rumo à plena verdade. Perdoa-nos
por todas as vezes em que nosso silêncio atingiu o mundo que tu criaste,
entravando a realização da obra de Cristo e sufocando a verdade. Dá-nos a
coragem - enquanto indivíduos e enquanto Igrejas - de proclamar a uma só voz a
verdade no amor, de encarnar tua compaixão para com todos aqueles que sofrem e
de espalhar a Boa Nova de teu Evangelho por todo o mundo, em nome Daquele em
quem tua Palavra se encarnou por nós, nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
7º Dia - Abandono
“Minha salvação fica longe” (Sl 22, 1)
Is 53, 1-5: Nossos sofrimentos carregou, nossas dores suportou
Sl 22, 1-5: Abandono
Rm 8, 35-36: Quem nos separará do amor de Cristo?
Mt 27, 57-61: O amor colocado no túmulo
Comentário
O grito de abandono de Jesus sobre a cruz faz eco às palavras do salmista:
“Apesar do meu rugir, minha salvação fica longe”. O servo sofredor deve suportar
o medo de ser executado como um criminoso ordinário. Vem em seguida o silêncio
total da morte e do túmulo, fechado À ajuda de uma grande pedra, Maria de
Magdala e a outra Maria permanecem sentadas, sem voz, diante do sepulcro.
Existem momentos em nossa vida onde o sofrimento ultrapassa toda medida, onde
nenhuma palavra, nenhum grito, nenhuma lágrima, nenhum gesto não podem exprimir
nossa dor. É como se nós estivéssemos lá com as mulheres junto ao túmulo, a
olhar desaparecer tudo o que nós havíamos amado e esperado.
Cemitérios de “townships” e de zonas rurais na África do Sul estão cheios de
esperanças feridas e de castigos inexprimíveis. Famílias que até então tinham
apenas um túmulo para visitar, doravante têm nove. Considerando a falta de lugar
nos cemitérios, as pessoas são enterradas por cima dos outros membros de suas
famílias e os membros do clero celebram freqüentemente os funerais de muitas
pessoas ao mesmo tempo. Até aí os pais e as mães projetavam seu futuro em torno
de uma família sempre maior. Hoje, em numerosos casos, as crianças têm diante de
si um futuro sem pais. A morte pode reduzir ao silêncio comunidades inteiras.
Entretanto, é por seu sofrimento que Cristo nos salvou. Ele carregou a dor de
toda a humanidade e, por sua morte, resgatou todos os nossos pecados. Ele foi
pregado na cruz para atrair a si todos os homens e as mulheres. No seu
sofrimento e sua angústia na cruz, ele fez, verdadeiramente, a experiência da
dor humana, a mais sombria e mais dolorosa. Quanto mais nos aproximamos da cruz
de Cristo mais nos aproximamos uns dos outros. Cristo entregou sua vida por
todos os homens da terra e, reconhecendo que todos nós somos beneficiários
igualmente de sua obra de salvação, descobrimos nisso a base já existente da
unidade. A vida da Igreja deve ser a expressão dessa unidade que é nossa dívida
para com ele.
Oração
Senhor, tu que nos doa a vida, tu que nos cuida em vida, nós te agradecemos
porque tu conheces e compreendes nosso sofrimento. Pelo Cristo, tu assumiste
sobre ti nossas enfermidades e por suas chagas, tu nos curaste. Conceda-nos fé e
coragem quando estamos desanimados. Diante dos grandes sofrimentos como a Sida,
o câncer, a malária e os traumatismos da guerra, arranque de nós toda
desesperança. Quando o sofrimento obscurece o sentido da vida, faze que nos
voltemos para o Cristo que sofreu, mas venceu a morte e fez de nós um povo
resgatado. Em seu nome, nós te pedimos. Amém.
8º Dia - Ressurreição – glorificação
“E toda língua confesse que Jesus Cristo
é o Senhor” (Fil 2, 11)
Ez 37,1–14: Eu vos farei sair de vossos sepulcros
Sl 150: Que tudo que respira louve o Senhor
Rm 8,31–39: Jesus Cristo morreu, muito mais, ele ressuscitou,...
ele intercede por nós!
Lc 24,44–52: Os Apóstolos estavam sem cessar no Templo, bendizendo
a Deus
Comentário
A África do Sul é vitimada pela violência e pela doença. A morte injusta bate à
porta de todos os desafortunados das favelas e das zonas rurais. Portanto,
todos os domingos cada um proclama com confiança a ressurreição do Senhor,
freqüentemente depois de ter assistido, no dia precedente, o sepultamento de
seus defuntos.
Esta determinação em celebrar a ressurreição do Senhor conduz todo sofrimento e
toda dor à esperança. É de um túmulo que vem a glorificação da vitória da morte
pela cruz. Na fé no poder de Deus que dá vida àquele que está morto, as Igrejas
de Umlazi começam a celebrar a Páscoa por uma noite de vigília quando eles se
dirigem em procissão até os cemitérios, à luz de velas, proclamando em meio aos
túmulos das pessoas queridas que “Cristo ressuscitou”. Isto nos lembra a
profecia de Ezequiel, uma nova terra, onde o Espírito de Deus coloca seu sopro
nos ossos ressequidos que são reconduzidos à vida. Os cristãos celebram o poder
divino que transforma a morte em vida.
A Epístola aos Romanos de São Paulo fala de Cristo ressuscitado sentado à
direita do Pai de onde ele nos anuncia que todo ser humano possui um lugar junto
de Deus, testemunha da mediação divina que oferece ao mundo a reconciliação, a
consolação e o perdão. A confiança no poder do amor de Deus nos dá a força para
enfrentar a morte e as situações que aparentemente nos abatem, nos desanimam.
Podemos também estar seguros de que, se nada pode nos separar do amor do Pai,
então, pela graça de Deus, nada pode nos separar uns dos outros.
Da morte Deus faz brotar a vida. Deus murmura uma palavra de esperança, ao
ouvido de um povo crente, em agonia, ao ouvido daqueles que esperam com
impaciência a unidade. É uma esperança naquilo que Deus prepara para nós, aquilo
que os crentes estão apenas conscientes: a vinda do Reino de Deus. É a esperança
que todo silêncio desesperado e que a constante divisão desaparecerão um dia, de
sorte que cada língua poderá proclamar a uma só voz a glória de Deus Pai. O que
Deus murmura aos nossos ouvidos, esse antegozo de seu Reino, permanece um
mistério, mas exige, desde agora, o nosso compromisso. A esperança que sustenta
os crentes da África do Sul e os impede de se abandonarem ao desespero deveria
dar a força a todos os crentes de serem solidários com todos aqueles que sofrem.
Cada um de nós deve estar pronto a se tornar um instrumento da missão de Deus a
fim de levar a vida e a luz àqueles que vivem na escuridão do sofrimento e da
injustiça. É esta mesma esperança que deve impulsionar os cristãos a buscarem a
unidade através de um ecumenismo no quotidiano e a permanecerem abertos a toda
maneira nova que nos possibilitará expressar juntos a fé que partilhamos.
Oração
Senhor Deus, que nós amamos, diante da cruz de teu Filho, oferecida ao mundo,
contemplamos o sofrimento de uma humanidade que implora teu socorro.
Desperta em nós um hino de vitória que proclame que é “pela morte” que ele
venceu a morte e que esta vida nova inaugurada na manhã de Páscoa nos oferece a
vida e a vitória sobre a morte e as forças do mal. Amém.
Oração suplementar
(Publicada sobre a responsabilidade do grupo ecumênico local da África do Sul)
Intercessões pelas pessoas contaminadas pela Aids
L: Ó Deus, nosso Pai, criador do céu e da terra
C: Tem piedade de nós.
L: Ó Deus, o Filho, salvador do mundo
C: Tem piedade de nós.
L: Ó Espírito Santo de Deus, advogado, guia e consolador
C: Tem piedade de nós.
L: Ó Trindade santa, bendita e gloriosa
Três pessoas em um só
Deus
C: Tem piedade de nós.
L: Deus nosso Pai, escuta nossa oração por aqueles que são vítimas da Aids,
aqueles que estão em perigo de morte. Concede-lhes o conforto de tua presença,
faze com que eles procurem tua face, e encontrem a força em ti que és a fonte da
vida.
C: Tem piedade, escuta nossa oração
L: Senhor Jesus, escuta nossa oração por aqueles que acabaram de descobrir que
estão contaminados pelo vírus HIV mas que ainda não estão doentes. Recorda-lhes
que eles têm ainda uma vida diante de si: faze com que eles encontrem em Ti a
Vida, o Caminho e a Verdade.
C: Jesus, Senhor da vida, escuta nossa oração.
L: Espírito Santo de Deus, escuta nossas orações por aqueles que cuidam das
pessoas doentes da Aids. Concede-lhes a certeza da presença do Pai e do amor de
Jesus. Concede-lhes teu conforto, dá-lhes tua paz.
C: Espírito de santidade, escuta nossa oração.
L: Pai, nós te pedimos que todos nós escutemos teu apelo nestas circunstâncias,
um apelo a ajudar os outros.
Nós te pedimos que todos façam penitência de suas imoralidades e modelem suas
vidas sobre os conselhos que nos dá a tua Palavra.
Ajuda-nos a fim de que possamos viver de maneira responsável, pensando não
unicamente em nós mesmos, mas também naqueles que estão ao nosso redor.
Nós te pedimos pelos cientistas e médicos que trabalham na pesquisa em busca de
um remédio para combater a Aids.
Nós te pedimos por tua Igreja.
Guia-nos a fim de que possamos dar teu conforto àqueles que necessitam de ser
apoiados.
Cumula nossos corações de tua compaixão para que os contaminados pela Aids
tenham a certeza de que a Igreja os ajudará;
Guia-nos a fim de que saibamos como ajudar aqueles que necessitam.
Isso nós te pedimos porque tua misericórdia por nós é imensa.
C: Senhor de misericórdia, escuta nossa oração.
Todos: Amém.
Esta apresentação do contexto ecumênico local é dividida em três partes. Ela
começa por uma reflexão sobre as relações ecumênicas na África do Sul. A Segunda
parte refere-se mais particularmente aos “townships” de Umlazi, perto de Durban,
onde o projeto de textos para a Semana de Oração, deste ano, foi preparado; ela
apresenta os pesados desafios que seus habitantes devem enfrentar. Este texto é
concluído por um relatório mais pessoal proposto pelos responsáveis das Igrejas
de Umlazi sobre a colaboração e a vitalidade ecumênica que encontramos nesta
cidade.
As Igreja da África do Sul
Hoje, em todos os debates, que se referem à situação econômica, à educação ou
ainda à teologia, é quase obrigatório falar de “antes de 1994” e de “depois de
1994”. Esta distinção entre antes e depois de 1994 não é apenas uma questão de
conveniências. Trata-se de uma realidade profunda que marca todos os aspectos da
vida na África do Sul. O debate eclesiológico não é exceção. Antes de 1994, o
objetivo das Igrejas da África do Sul impunha-se a ela. A batalha que elas
enfrentavam para acabar com as leis injustas, a legislação discriminatória e as
práticas do apartheid lhes deixava muito pouco tempo para se engajar em outra
coisa. Com a suspensão das interdições que bloqueavam a atividade dos movimentos
de libertação, a saída da prisão de nossos responsáveis políticos e a eleição de
um governo democrático, as Igrejas encontraram-se de repente sem um objetivo
evidente. Desde então, elas têm se esforçado para ter uma palavra comum.
Aproximadamente, podemos dizer que as Igrejas da África do Sul estão divididas
em dois grupos principais; as que foram fundadas na Europa (na maioria, as
Igrejas protestantes, mas também a Igreja Católica e, numericamente muito menor,
as Igrejas ortodoxas e coptas) e as que têm nascido no continente africano. Além
destes dois grandes conjuntos, existe um grupo mais restrito, porém
significativo de Igrejas de natureza, sobretudo pentecostais e fundadas nos
Estados Unidos. Com exceção da Igreja da Inglaterra na África do Sul, da Igreja
Evangélica Luterana Alemã e da União Batista, as Igrejas de origem européia são
todas membros do Conselho de Igrejas sul-africano (SACC). Em 2004, a Igreja
reformada Holandesa, que trouxe um apoio tanto moral quanto teológico ao governo
do apartheid, pediu publicamente perdão e expressou o desejo de ser admitido no
SACC. Desde a chegada da democracia em 1994, um certo número de Igrejas fundadas
na África tornou-se também membro do SACC (com exceção da Igreja Cristã Sionista
e da Igreja Shembe, que contam com um grande número de fiéis).
Um certo número de Igrejas membros do SACC (metodistas, presbiterianas,
anglicanas e Congregacionalistas Unidas) são igualmente membros da Comissão para
a unidade das Igrejas. Através desta comissão, acordos foram concluídos que
estabelecem o pleno reconhecimento do batismo e da prática eucarística, como
também o pleno reconhecimento dos ministérios das Igrejas em questão. Quanto ao
ministério episcopal de supervisão, o debate ainda prossegue.
Ironia da sorte, à medida que aumenta o número de Igrejas participantes do
movimento ecumênico na África do Sul, o objetivo comum torna-se mais impreciso.
Isto não significa que não haja temas que reclamem a atenção. O vírus da Aids é
uma questão que concerne a todo o mundo na África do Sul, porque a vida de cada
um foi afetada. Todavia, constatamos que não existe nenhum objetivo comum na
maneira de se enfrentar esta pandemia. Bem que o desemprego tenha atingido
enormes proporções, no seio das Igrejas (como no partido atualmente no poder)
nenhum consenso foi encontrado para melhor enfrentar a situação. A violência em
todos os níveis da vida, e mais particularmente aquelas das quais são vítimas
mulheres e as meninas, é um problema constante contra o qual as Igrejas devem
reagir.
Se nossa descrição parasse aqui, ela seria antes sombria. Felizmente, esta
história tem um inverso. Contrariamente à de numerosos países entre os mais
desenvolvidos, a maior parte das Igrejas da África do Sul gozam de uma
comunidade vasta e viva. Em nível local, muito se faz para responder aos
problemas da pobreza, da saúde (em particular dos enfermos ligados à Aids) e da
educação. São incontáveis os exemplos edificantes e reconfortantes: tal paróquia
onde se cuida dos doentes contaminados pela Aids em seus próprios lares, tal
grupo de mulheres que se ocupam de órfãos, depois da aula, tais mulheres que
tiveram a idéia de criar hortas comunitárias com um objetivo social ou pequenos
centros de artesanato. Talvez seja, no momento, o caminho para as Igrejas: nada
de projeto em nível nacional, mas iniciativas locais, em pequena escala, muitas
vezes, iniciativas ecumênicas, que fazem do Reino de Deus uma realidade e que
conseguem romper o silêncio sobre a pobreza, a doença, a violência e o
desespero.
Os textos da Semana de Oração deste ano nos vêm de uma situação local
profundamente marcada pela intensidade da crise acima descrita e por uma imensa
coragem e uma vontade de colaboração ecumênica para enfrentá-la.
Umlazi, Bhekithemba e seus arredores
Em 1950, o governo do apartheid na África do Sul passou o Grupo Areas Act que
estabelecia por coação uma separação física entre os cidadãos, criando zonas de
residências diferentes para as pessoas de raças deferentes. Mais de 3 milhões de
pessoas foram assim removidas à força e assistiu-se ao nascimento dos
municípios, nos quais estava confinada a maioria da população negra. Tratava-se
de zonas com super população, dispondo apenas de pobres habitações, serviços
precários de saúde e de educação e que ofereciam apenas uns poucos empregos.
Umlazi foi, no seu início, um desses “townships”
A herança deixada pelo apartheid – racismo, desemprego e pobreza – continua
sendo um enorme desafio para os habitantes de Umlazi. Com mais de 40 % da
população desempregada e a maior parte da população ativa ganhando apenas o
suficiente para alimentar suas famílias, seus habitantes não têm quase esperança
de poder abandonar o “township”. A população de Umlazi e de seus arredores chega
a 750 000 habitantes e, portanto, as infra-estruturas são muito pouco
desenvolvidas. Não existe, com efeito, nenhum equipamento de lazer, nem mesmo um
campo de football ou um cinema. Não existe nem mesmo escolas suficientes, nem
centros médico-sociais ou alojamentos adaptados. Vale a pena observar que os
antigos “townships” não são, hoje, as zonas mais pobres da África do Sul. Estas
últimas são antes de tudo as regiões rurais menos desenvolvidas e as favelas –
antigamente chamadas “campo de ocupação” – que se encontram à margem da maioria
das grandes cidades do país.
A pobreza e o desemprego constituem, portanto, um terreno fértil para a
criminalidade atualmente muito elevado e os problemas de violência no seio das
famílias e das comunidades. Mas, atualmente, o maior desafio para a população de
Umlazi é a epidemia da Aids. Estima-se que mais de 50 % dos habitantes estão
contaminados. Um bom número de pessoas não fez o teste, portanto, é difícil
conhecer, com exatidão, a extensão do contágio. Porém está claro que ela é um
peso esmagador sobre a realidade de hoje. Cada um, nesta região, é tocado de um
modo ou de outro pela Aids. Mais de 10 % dos recém nascidos já estão
contaminados e muitos dentre eles morrem ao longo de seus primeiros anos. A
população de 14 – 40 anos foi dizimada, numerosas crianças são entregues a si
mesmas e vivem na rua ou sozinhas em suas casas, enquanto que outras vivem com
seus avós.
Nenhuma pessoa, família, Igreja ou comunidade está em condição de enfrentar
sozinha os problemas do desemprego, da pobreza, da criminalidade, da violência
para com as mulheres, as crianças e o problema da Aids. Estas calamidades são
grandes demais para uma Igreja dividida. É, portanto, esta situação extremamente
crítica que produziu uma ordem do dia para o ecumenismo. Os Zoulous dizem: “Não
se deve jamais passar ao lado de alguém que está construindo uma casa sem
oferecer-lhe uma mãozinha!”. O apartheid conseguiu romper com as barreiras entre
as Igrejas; hoje em nível local, a Aids tem o mesmo efeito.
As Igrejas de Umlazi e as de outros “townships” contribuíram para a construção
de centros médico-sociais. Elas lançaram programas de assistência a domicílio
formando um pessoal benevolente para cuidar dos enfermos e dos agonizantes em
suas casas. Isto implica para estes trabalhadores benévolos, que querem levar um
alívio para a vida daqueles que sofrem, de se submeter a um trabalho esgotante
no plano físico, emocional e espiritual. Outros projetos se ocupam dos órfãos e
das crianças em dificuldade, da educação dos jovens, tal como a iniciativa de
“romper o silêncio” mencionada na introdução destes textos deste ano. A
colaboração entre as Igrejas vai além destes vastos programas e compreende
igualmente a oração e o testemunho comum assim que outros exemplos de um
ecumenismo de vida, como mostra a reflexão dos responsáveis das Igrejas locais
aqui mencionadas.
Os responsáveis pelas Igrejas em Umlazi testemunham sua colaboração ecumênica
O fato é que nas diferentes Igrejas e seu clero estão a serviço dos fiéis que
são 1) membros da mesma família, 2) amigos e colegas, 3) habitantes de um mesmo
quarteirão e 4) beneficiários no quotidiano dos serviços de uma mesma
municipalidade, de um mesmo hospital, e utilizam o mesmo cemitério. Assim,
festas/celebrações, casamentos, confirmações e funerais/missas DE REQUIEM têm
inevitavelmente um caráter ecumênico. Na realidade, numerosas são as pessoas que
não tomam consciência de pertencer a Igrejas diferentes apenas durante as duas
horas de celebração dominical.
Por ocasião dos funerais, que são, atualmente, muito freqüentes, as vestes
litúrgicas coloridas e diversas experimentam toda a beleza do arco-íris que
forma o povo de Deus. Percebe-se igualmente que a maioria das pessoas simples
não conhece a diferença que existe entre diversas concepções de eucaristia e da
partilha eucarística nas diferentes Igrejas. Porém, compreendem que muitas
coisas os unem. Tem-se, algumas vezes, a impressão de que os fiéis leigos
africanos compreendem e vivem mais profundamente que o clero e as Igrejas a
teologia do batismo enquanto verdadeiro elo familiar.
Os leigos agem juntos e se encontram em numerosas ocasiões. Escutando a mídia
eles descobrem os carismas do clero de outras confissões. Quando organizam
retiros para eles mesmos, não esperam que alguém escolha um diretor de retiro.
Eles se sentem autorizados a escolher entre todos os ministros das confissões
presentes. Por exemplo, recentemente uma paróquia anglicana convidou um padre
católico para animar o retiro paroquial. Pouco depois, o ministro anglicano
dessa paróquia foi convidado a conduzir o retiro da paróquia católica. Nesse
caso, os leigos tomaram a iniciativa e os pastores se adaptaram. E é justo que
seja assim. As pessoas abatem juntas os animais, elas celebram as festas juntas,
elas choram e se alegram juntas. Não há nada mais justo do que os carismas de
uma Igreja ou de uma paróquia serem partilhados com as outras.
Entre as Igrejas de Umlazi, o intercâmbio ecumênico de púlpito ou de altar é
extremamente freqüente, sobretudo entre as Igrejas membros da Comissão para a
unidade da Igreja. Existem numerosos outros exemplos de Igrejas que se ajudam em
seu ministério. Por exemplo, no que concerne à gestão das Igrejas e seus
esforços para serem autônomas, um ministro/subdiácono anglicano leigo,
recentemente, começou a ensinar a gestão nas diferentes Igrejas. Ele visitou
muitas comunidades cristãs vizinhas da região, partilhando com elas o que ele
havia aprendido. Por todos os lugares, encontros aproximaram pessoas
encarregadas de ministérios semelhantes. Por exemplo, os ministros da eucaristia
de Igrejas diferentes se encontram, cada ano. Uma das Igrejas locais oferece
hospitalidade e uma refeição nessa oportunidade.
É tradição, agora, que a celebração da Sexta-feira Santa seja em parte
ecumênica. Freqüentemente acontece uma procissão durante a qual uma cruz é
levada de uma igreja à outra. Em outros lugares, uma celebração ecumênica é
organizada, depois da qual os fiéis retornam a suas próprias Igrejas.
Nós sentimos que a época em que nossos irmãos e irmãs adotaram o apartheid do
Dr. Verwoerd e o batizaram na fé cristã está definitivamente abolida.
Raciocinamos mais nestes termos: “nós” e “eles”. Há anos, os católicos acusavam
os anglicanos de heresia; os anglicanos criticavam os metodistas que, por sua
vez, criticavam os pentecostais que acusavam católicos e anglicanos de
idólatras. Bem entendido, para o grande prazer de Satã e o desgosto de Deus.
Essas acusações eram um círculo infernal. Felizmente, este tempo está superado!
Recentemente, por ocasião de um sermão pronunciado durante uma celebração
ecumênica, um de nossos membros declarou: “Eu sou padre anglicano, eu aceitei
Jesus como meu Senhor e Salvador. Eu não conheço o rei Henrique VIII. Falaram-me
dele simplesmente no seminário. Nós não podemos permanecer divididos por causa
da história da Europa que nós herdamos. Perdoem-me – eu conheço Jesus... ele
morreu por mim”. Graças a Deus, nós superamos as barreiras do apartheid e o muro
de Berlim caiu. Agora, crescemos juntos como Igrejas, procurando seguir a Jesus
que orou “para que sejamos um”.