PONTIFÍCIO CONSELHO «COR UNUM»
A FOME NO MUNDO
UM DESAFIO PARA TODOS: O
DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO
APRESENTAÇÃO
É com todo o gosto que procedo à apresentação do
documento "A fome no mundo. Um desafio para todos: O desenvolvimento solidário".
Trata-se de um texto cuidadosamente preparado pelo Pontifício Conselho "Cor
Unum", por indicação do Santo Padre João Paulo II.
Mais uma vez este ano, na sua Mensagem Quaresmal, o Sucessor de Pedro se fez
porta-voz de todos aqueles que não dispõem de um mínimo
vital: "A multidão de famintos, constituída por crianças,
mulheres, idosos, imigrantes, prófugos e desempregados, eleva para nós
o seu grito de dor. Eles imploram-nos, à espera de ser escutados".
Este documento situa-se no caminho indicado por Jesus Cristo aos seus discípulos.
A pessoa e a mensagem de Jesus centram-se, efectivamente, na revelação
de que "Deus é amor" (1 Jo 4, 8), um amor que redime o homem e
o resgata da suas múltiplas misérias para restituir a sua plena
dignidade. No decurso dos séculos a Igreja deu inumeráveis expressões
concretas a esta solicitude de Deus. Poder-se-ia apresentar a história da
Igreja também como uma história da sua caridade para com os mais
pobres, tendo como protagonistas os cristãos que testemunharam aos seus
irmãos necessitados o amor de Cristo que dá a vida pelo próximo.
Este estudo deseja contribuir para o empenho dos cristãos em
partilhar as maiores dificuldades e carências dos homens de hoje. São
de grande actualidade os temas aqui tratados: tanto na descrição
da fome no mundo, como na apresentação das implicações
éticas da questão, que dizem respeito a todos os homens de boa
vontade.
A publicação assume especial importância na perspectiva
do Grande Jubileu do ano 2000, que a Igreja se prepara para celebrar. O espírito
do documento não se inspira em alguma ideologia, mas deixa-se guiar pela
lógica evangélica, convidando ao seguimento de Jesus Cristo vivido
no dia-a-dia.
Esperando que esta publicação possa contribuir para formar a
consciência no exercício da justiça distributiva e da
solidariedade humana, faço votos pela sua mais ampla difusão.
+ Angelo Card. Sodano
Secretário de Estado
Cidade do Vaticano, 4 de Outubro de 1996
Festa de São
Francisco de Assis
A FOME NO MUNDO
UM DESAFIO PARA TODOS: O DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO
«A amplitude do fenómeno põe em questão as
estruturas e os mecanismos financeiros, monetários, produtivos e
comerciais, que, apoiando-se em diversas pressões políticas, regem
a economia mundial: eles demonstram-se como que incapazes quer para reabsorver
as situações sociais injustas, herdadas do passado, quer para
fazer face aos desafios urgentes e às exigências éticas do
presente. Submetendo o homem às tensões por ele mesmo criadas,
dilapidando, com um ritmo acelerado, os recursos materiais e energéticos
e comprometendo o ambiente geofísico, tais estruturas dão azo a
que se estendam incessantemente as zonas de miséria e, junto com esta, a
angústia, a frustração e a amargura... ». «Não
será fácil avançar, porém, neste difícil
caminho, no caminho da indispensável transformação das
estruturas da vida económica, se não intervier uma verdadeira
conversão das mentes, das vontades e dos corações. A tarefa
exige a aplicação decidida de homens e de povos livres e solidários».
(JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Redemptor hominis [1979],
n. 16)
INTRODUÇÃO (*)
O direito à alimentação é um dos princípios
proclamados em 1948, pela Declaração universal dos direitos do
homem1.
A Declaração sobre o progresso e o desenvolvimento no
campo social afirmava, em 1969, que é necessário «eliminar
a fome e a subnutrição e tutelar o direito à uma nutrição
adequada»2. Da mesma forma, a Declaração universal para a
eliminação definitiva da fome e da subnutrição, adoptada
em 1974, declara que cada pessoa «tem o direito inalienável de ser
libertado da fome e da subnutrição, a fim de se desenvolver
plenamente e de conservar as suas faculdades físicas e mentais»3. Em
1992, a Declaração mundial sobre a nutrição reconheceu
também que «o acesso a alimentos apropriados, sob o ponto de vista
nutricional, e sem perigo constitui um direito universal»4.
Trata-se de indicadores muitos claros. A consciência pública
falou sem ambiguidade. Entretanto, há ainda milhões de indivíduos
atingidos pelos flagelos da fome e da subnutrição ou pelas consequências
da insegurança alimentar. Será por escassez de alimentos? De
maneira nenhuma: em geral, reconhece-se que os recursos da terra considerados em
conjunto podem nutrir todos os seus habitantes5; com efeito, os alimentos disponíveis
por habitante, a nível mundial, aumentaram cerca de 18% no decurso dos últimos
anos6.
O desafio que toda a humanidade enfrenta hoje em dia é, sem dúvida,
de ordem económica e técnica, mas mais ainda de ordem ético-espiritual
e política. É uma questão de solidariedade vivida e de autêntico
desenvolvimento, bem como de progresso material.
1. A Igreja considera que não se podem abordar os sectores económico,
social e político prescindindo da dimensão transcendental do
homem. Já a filosofia grega, que impregnou de maneira tão profunda
o mundo ocidental, pensava desta forma: o homem só pode descobrir e alcançar
a verdade, o bem e a justiça através dos seus próprios
meios, se a sua consciência for iluminada pelo divino. De facto, é
precisamente o divino que consente à natureza humana tomar em consideração
os deveres desinteressados no que se refere ao próximo. Assim, segundo o
pensamento cristão, é a graça divina que dá ao ser
humano a força necessária para agir em conformidade com o seu
discernimento7. Entretanto, a Igreja dirige um apelo a todos os homens de boa
vontade, a fim de que levem a cabo esta tarefa ingente. O Concílio
Vaticano II afirmava: «Como são tantos os que sofrem de fome no
mundo, o Sagrado Concílio exorta todos, particulares ou autoridades, a
que se recordem daquela frase dos Padres da Igreja: "Alimenta o que morre
de fome, porque se não o alimentaste, mataste-o"»8. Esta solene
admoestação exorta ao empenhamento decidido na luta contra a fome.
2. A urgência deste problema leva este Pontifício Conselho a
apresentar aqui os elementos da sua pesquisa; compete-lhe apelar à
responsabilidade individual e colectiva para que se ponham em prática
soluções mais eficazes. E apoia todos aqueles que se consagram já
com grande dedicação a esta nobre tarefa.
O presente documento procura analisar e descrever as causas e as consequências
do fenómeno da fome no mundo de maneira global e não exaustiva. A
reflexão inspira-se especificamente na luz do Evangelho e no ensinamento
social da Igreja. Não se procura aqui uma solução
predominantemente conjuntural; por conseguinte, não nos concentraremos
sobre estatísticas que ilustrem a actual situação, nem
sobre o número de pessoas que correm o perigo de morrer de fome, sobre a
percentagem de subalimentados, ou ainda sobre as regiões mais ameaçadas
e os desafios económicos a enfrentar. Inspirado pela missão
pastoral da Igreja, este documento quer constituir um apelo premente aos seus
membros e a toda a humanidade, pois a Igreja «é "perita em
humanidade" e isso impele-a necessariamente a alargar a sua missão
religiosa aos vários campos em que os homens e as mulheres desenvolvem as
suas actividades em busca da felicidade, sempre relativa, que é possível
neste mundo»9. Hoje, a Igreja faz-se eco do impelente apelo que Deus
dirige a Caim, quando lhe pede contas da vida do seu irmão Abel: «Que
fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim...»
(Gn. 4, 10). Aplicar este duras palavras, quase insuportáveis, à
situação dos nossos contemporâneos que morrem de fome não
é um exagero injusto ou agressivo: estas palavras demonstram uma
prioridade e desejam sensibilizar a nossa consciência.
Seria ilusório esperar soluções já feitas:
encontramo-nos na presença dum fenómeno ligado às opções
económicas de dirigentes, de responsáveis mas também de
produtores e de consumidores; e que tem também profundas raízes no
nosso estilo de vida. De qualquer modo, este apelo diz respeito a todos, e
alimentamos a esperança de conseguir uma melhoria decisiva, graças
a relações humanas cada vez mais solidárias.
3. Este documento dirige-se aos católicos do mundo inteiro, aos
responsáveis nacionais e internacionais que têm competência
e responsabilidade neste sector; mas pretende também chegar a todas as
organizações humanitárias, bem como a todos os homens de
boa vontade. Quer encorajar os milhares de pessoas de todas as condições
e profissões, a fim de que se prodigalizem quotidianamente para que todos
os povos tenham «o direito a sentar-se à mesa do banquete comum»10.
IAS REALIDADES DA FOME
O desafio da fome
4. O planeta poderia oferecer a cada um a sua porção
alimentar11.
Para enfrentar o desafio da fome, é neceessário em primeiro
lugar considerar os seus numerosos aspectos e as suas verdadeiras causas. Ora,
nem todas as realidades da fome e da subnutrição são
conhecidas de maneira precisa. Entretanto, identificaram-se várias causas
importantes. Começaremos por esclarecer melhor os motivos da nossa
iniciativa, passando depois a tratar das principais causas deste flagelo.
Um escândalo que dura há demasiado tempo: a fome destrói
a vida
5. Não se deve confundir fome com subnutrição. A fome
ameaça não só a vida das pessoas, mas também a sua
dignidade. Uma carência grave e prolongada de alimentação
provoca o debilitamento do organismo, a apatia, a perda do sentido social, a
indiferença e, por vezes, a hostilidade em relação aos mais
frágeis: em particular as crianças e os idosos. Assim, grupos
inteiros são condenados a morrer na desgraça. No decurso da história,
esta tragédia repete-se infelizmente, mas a consciência contemporânea
compreende melhor que outrora que a fome constitui um escândalo.
Até ao século XIX, as misérias que dizimavam populações
inteiras tinham, com muita frequência, uma origem natural. Hoje elas são
mais circunscritas mas, na maioria das vezes, derivam da acção
humana. Basta citarmos algumas regiões ou países para nos
convencermos disto: Etiópia, Camboja, ex-Jugoslávia, Ruanda,
Haiti... Nesta época em que o homem, mais que outrora, tem a
possibilidade de fazer face às misérias, tais situações
constituem uma verdadeira desonra para a humanidade.
A subnutrição compromete o presente e o futuro duma
população
6. Não obstante os grandes esforços desenvolvidos tenham
produzido frutos, todavia há que admitir que a subnutrição é
mais difundida que a fome e reveste formas muito diversificadas. Pode acontecer
que uma pessoa seja subalimentada sem ter fome. Nesse caso, o organismo perde
igualmente as suas potencialidades físicas, intelectuais e sociais12. A
subnutrição pode ser qualitativa, em virtude de regimes
alimentares desequilibrados (por excesso ou por deficiência). Ao mesmo
tempo, ela é frequentemente quantitativa e torna-se incisiva em períodos
de penúria. Por isso, algumas pessoas denominam-na «desnutrição»
ou subalimentação13. A subnutrição revigora a difusão
e as consequências de determinadas enfermidades infectivas e endémicas,
fazendo aumentar as taxas de mortalidade, sobretudo entre as crianças com
menos de cinco anos de idade.
As principais vítimas: as populações mais
vulneráveis
7. Os pobres são as primeiras vítimas da subnutrição
e da fome no mundo. Ser pobre significa quase sempre ser mais facilmente
provado pelos inumeráveis perigos que ameaçam a sobrevivência
e ter menor resistência às enfermidades físicas. Desde os
anos 80, este fenómeno agrava-se e ameaça um número
crescente de pessoas na maioria dos países. No seio duma população
pobre, as primeiras vítimas são sempre os indivíduos mais
frágeis: crianças, mulheres grávidas ou em período
de amamentação, enfermos e pessoas idosas. Há que referir
ainda outros grupos humanos a alto risco de deficiência nutritiva: as
pessoas refugiadas ou deslocadas e as vítimas de vicissitudes políticas.
Todavia, o máximo da penúria alimentar encontra-se nos
quarenta e dois países menos avançados (PMA), vinte e oito dos
quais em África14. «Cerca de 780 milhões de habitantes de países
em vias de desenvolvimento - ou seja, 20% da sua população - nem
sempre dispõem dos meios para aceder diariamente à porção
alimentar indispensável para o seu bem-estar nutritivo»15.
A fome gera fome
8. Nos países em vias de desenvolvimento, muitas vezes as populações
que vivem duma agricultura de subsistência de muito fraco rendimento
demasiado, passam fome no intervalo de duas colheitas. Se as colheitas
anteriores já foram insuficientes, a penúria pode sobrevir e
provocar uma fase incisiva de subnutrição: ela debilitará
os organismos, pondo-os em perigo precisamente no momento em que serão
necessárias todas as energias para preparar a próxima colheita. A
carência compromete o futuro: comem-se as sementes, dilapidam-se os
recursos naturais e aceleram-se a erosão, a degradação ou a
desertificação dos solos.
Portanto, além da distinção entre fome (ou carestia) e
subnutrição, há que mencionar a insegurança
alimentar como um terceiro tipo de situação que provoca a fome ou
a subnutrição, impedindo planificar e empreender trabalhos a longo
prazo, para promover e obter um desenvolvimento duradouro16.
Causas detectáveis
9. Todavia, os factores climáticos e os cataclismas de todas as espécies,
por mais importantes que sejam, estão longe de constituir as únicas
causas da miséria e da subnutrição. Para compreender
correctamente o problema da fome, é necessário considerar o
conjunto das suas causas, conjecturais ou duradouras, bem como as suas implicações.
Vejamos as causas principais, agrupando-as segundo as categorias habituais: económicas,
sócio-culturais e políticas17.
A) CAUSAS ECONÓMICAS
Causas profundas
10. A fome deriva, antes de mais, da pobreza. A segurança alimentar
das pessoas depende essencialmente do seu poder de compra, e não da
disponibilidade física de alimentos18. A fome existe em todos os países:
voltou a aparecer nos países europeus, tanto do Oeste como do Leste, e
está muito difundida nos países pouco avançados ou
subdesenvolvidos.
Contudo, a história do século XX ensina que a pobreza económica
não é uma fatalidade. Verifica-se que muitos países
progrediram economicamente e continuam a fazê-lo; outros, pelo contrário,
sofrem uma regressão, vítimas de políticas - nacionais ou
internacionais - assentes em falsas premissas.
A fome pode resultar ao mesmo tempo:
a) de políticas económicas inadequadas; as políticas
injustas dos países desenvolvidos atingem, de maneira indirecta, mas
profundamente todos os que carecem de recursos económicos, em todos os países;
b) de estruturas e costumes pouco eficazes e que contribuem mesmo para
destruir a riqueza dos países:
- a nível nacional, em países com desenvolvimento
desequilibrado (19): os grandes organismos, públicos ou privados, em
situação de monopólio (o que, por vezes, é inevitável)
acabam em muitos casos por travar o desenvolvimento em vez de o incrementar,
como têm demonstrado as reestruturações empreendidas em
numerosos países nos últimos dez anos;
- a nível nacional, nos países desenvolvidos: as suas deficiências
notam-se menos a nível internacional, mas são de igual modo
prejudiciais, directa ou indirectamente, para todos as pessoas desfavorecidas do
mundo;
- a nível internacional: as restrições ao comércio
e os incentivos económicos, por vezes desordenados;
c) de comportamentos lamentáveis a nível moral: busca egoísta
do dinheiro, do poder e da imagem pública; a perda do sentido de serviço
à comunidade, em benefício exclusivo de pessoas ou de grupos; sem
esquecer o importante grau de corrupção, sob as mais diversas
formas, de que nenhum país se pode afirmar isento.
Tudo isto manifesta a contingência de toda a acção
humana. Com efeito, apesar de todas as boas intenções,
cometeram-se erros que provocaram situações de precariedade.
Reconhecê-los ajuda a orientar-se para uma solução.
Na realidade, há que cultivar o desenvolvimento económico:
tanto as instituições como as pessoas devem compartilhar as suas
responsabilidades. A doutrina social da Igreja e o estudo das suas Encíclicas
sociais pode iluminar eficazmente o papel que toca ao Estado.
A causa profunda da falta de desenvolvimento, ou de um desenvolvimento
desequilibrado é de ordem ética. Prende-se com a vontade e a
capacidade de servir gratuitamente os homens, através dos homens e para
os homens, o que pressupõe o amor. Compreende todos os níveis, a
complexa realidade das estruturas, legislações e comportamentos;
manifesta-se na concepção e na realização de actos
cujo alcance económico pode ser grande ou pequeno.
A recente evolução económica e financeira no mundo
explica estes fenómenos complexos: a técnica e a moral interferem
neles de forma muito particular e determinam os resultados das economias.
Queremos falar aqui da crise da dívida na maioria dos países com
desenvolvimento desequilibrado e das medidas de reajuste já adoptadas ou
a adoptar.
A dívida dos países com desenvolvimento desequilibrado
11. O brusco aumento unilateral dos preços do petróleo, em
1973 e em 1979, atingiu de modo profundo os países não produtores,
disponibilizou consideráveis quantias de dinheiro, que o sistema bancário
procurou reciclar, e causou também uma crise económica geral, que
afectou de modo particular os países pobres. Por múltiplas razões,
durante os anos 70 e 80, a maioria dos países pôde contrair
consideráveis empréstimos a juros variáveis. No que se
refere aos países da América Latina e da África, foi assim
possível desenvolver de modo espectacular o seu próprio sector público.
Esse período de dinheiro fácil deu ocasião a múltiplos
excessos: projectos inúteis, mal concebidos ou mal realizados, destruição
brutal de economias tradicionais e aumento da corrupção em todos
os países. Diversos países da Ásia evitaram estes erros, o
que lhes permitiu um desenvolvimento muito rápido.
O aumento vertiginoso das taxas de juros (provocado pelo simples jogo do
mercado, incontrolado e, provavelmente, incontrolável) colocou a maioria
dos países da América Latina e da África em situação
de interrupção dos pagamentos, o que provocou fenómenos de
fuga de capital que logo se tornaram numa ameaça para o tecido social
local - já de si frágil - e para a própria existência
do sistema bancário. Verificou-se assim um amplo deterioramento da situação,
a todos os níveis: económico, estrutural e moral. Como sempre,
procuraram-se antes de mais soluções puramente técnicas e
organizativas. Ora é evidente que tais medidas (que, se forem boas, há
que adoptar) devem ser acompanhadas duma verdadeira reforma dos comportamentos
da parte de todos e, de modo particular, das pessoas que, em cada um dos países
e a todos os níveis, não conhecem a enorme pressão que
exerce a pobreza sobre o seu nível de vida.
No início do período de reajuste, as transferências
tornaram-se negativas: paralisação dos empréstimos, preço
do petróleo artificialmente mantido a um nível intolerável
para os países em vias de desenvolvimento; diminuição do
preço das matérias-primas provocada pela desaceleração
económica devida ao elevado preço do petróleo e,
simultaneamente, à crise da dívida; reacção
demasiado lenta da parte dos Organismos internacionais, com excepção
do Fundo Monetário Internacional, na disponibilização de
fundos; etc. Entretanto, o nível de vida nos países com dívidas
demasiado elevadas começava a diminuir.
Pode-se observar aqui como é necessária a sabedoria, e não
só os conhecimentos técnicos e económicos, para a
administração do dinheiro. A disponibilização de
consideráveis meios financeiros pode provocar notáveis prejuízos
estruturais e pessoais em vez de favorecer só por si um salto de
qualidade na situação dos mais desfavorecidos.
Esta é a conclusão a tirar: o desenvolvimento dos homens passa
através da sua capacidade de altruísmo, isto é, da sua
capacidade de amar, o que é da máxima importância, na prática.
Numa palavra e em termos realistas: a caridade não é um luxo, é
uma condição de sobrevivência para um elevadíssimo número
de seres humanos.
Os programas de reajuste estrutural
12. A violência dos fenómenos monetários exigiu, em
numerosos países, medidas muito enérgicas para atenuar as crises e
restabelecer os grandes equilíbrios. Por sua natureza, essas medidas
comportam fortes diminuições do poder de compra.
Estas crises económicas provocam consideráveis dificuldades e
sofrimentos, mas a sua solução permite, em última análise,
a reconstrução de um certo bem-estar.
A crise evidencia as debilidades do país, constituídas ou
adquiridas, inclusivamente as que têm a própria origem nos erros de
desenvolvimento, cometidos pelos governos sucessivos, pelos seus parceiros ou até
mesmo pela comunidade internacional. Estas debilidades assumem múltiplas
formas, que muitas vezes só «a posteriori» se manifestam; em
certos casos têm origem no processo de independência, porque aquilo
que constituía a força do poder colonial pode transformar-se na
fragilidade do país independente, sem a manifestação de fenómenos
compensatórios. Note-se, em geral, o peso dos grandes projectos, que
constituem momentos fundamentais, em que se sente muito particularmente a
necessidade de solidariedade. Na verdade, o primeiro efeito de tais políticas
de desenvolvimento é a redução dos gastos gerais e, por
conseguinte, dos rendimentos. As pessoas com poucos recursos enconómicos
só têm uma alternativa: confiar nos dirigentes que se vão
sucedendo ou procurar descartá-los. Eles próprios são
frequentemente vítimas de grupos ambiciosos que buscam o poder através
da ideologia ou da concupiscência, à margem de todos os processos
democráticos, apoiando-se, se necessário, sobre forças
externas.
Uma reforma económica requer, da parte dos dirigentes, uma grande
capacidade de decisão política. Eis um critério da
qualidade da sua acção: não apenas o bom êxito técnico
do plano de estabilização, mas a capacidade de manter o apoio da
maioria da população, inclusivamente dos mais desfavorecidos. Terão,
por isso, que saber convencer as outras camadas da sociedade a assumir uma parte
concreta do peso. Trata-se, neste caso, do pequeno grupo de pessoas com elevados
rendimentos de nível internacional, mas também dos funcionários
públicos, que antes gozavam duma situação bastante invejável
no país e que podem vir a encontrar-se, de um dia para o outro, com os
recursos fortemente reduzidos. É nestes casos que há-de entrar em
jogo a solidariedade tradicional, dado que os pobres estão sempre prontos
a socorrer o membro da família que volta à situação
precária de que julgava ter já saído.
Só progressivamente é que, nestes reajustes, os responsáveis
nacionais e internacionais foram tendo em conta a necessidade de proteger os
mais pobres. Foram necessários vários anos para que o conceito de
intervenções concomitantes, tendo em vista as populações
mais expostas, assumisse uma certa importância. Por outro lado, tanto
neste caso como nas situações de urgência, corre-se sempre o
risco de intervir demasiado tarde e de forma brusca demais, com consequências
que podem aumentar notavelmente os sofrimentos daqueles que se encontram na
extremidade da corrente.
Em África e na América Latina (20) empreenderam-se vastos
projectos, que incluíram:
- programas de reajuste estrutural que comportaram severas medidas
macroeconómicas;
- a abertura de novos créditos importantes;
- uma profunda reforma de estruturas para obviar às ineficiências
locais: estas estão parcialmente ligadas aos monopólios de Estado,
que absorvem uma parte importante do rendimento nacional sem assegurar, em
contrapartida, em benefício de todos, um serviço de qualidade
satisfactório. Em muitos desses países, foram afectados todos os
serviços públicos e, como o joio frequentemente se mistura com o
trigo, até mesmos sectores dinâmicos foram igualmente afectados
(21).
Determinados governos, com frequência pouco reconhecidos a nível
internacional, agiram de maneira admirável: tiveram a coragem política
de tomar medidas inevitáveis e, simultaneamente, tendo em consideração
os pareceres e pressões externas, esforçando-se por incrementar o
nível de cooperação e de solidariedade no seu próprio
país, e evitar incidentes. Há que reconhecer que a influência
do exemplo do principal responsável depende não só da sua
competência e dos seus dotes de dirigente, mas também da sua
capacidade de limitar as injustiças sociais que subsistem sempre em situações
destas.
Os países desenvolvidos devem colocar-se seriamente a questão
de ver se a sua atitude, e até mesmo a sua preferência em relação
aos países com desenvolvimento desequilibrado, se fundamentam na acção
dos responsáveis políticos aos níveis social, técnico
e político, ou se o seu apoio assenta noutros critérios.
B) CAUSAS SÓCIO-CULTURAIS
As realidades sociais
13. Constatou-se que alguns factores sócio-culturais aumentam os
perigos da fome e da subnutrição crónica. Os tabus
alimentares, a posição social e familiar da mulher, a carência
de formação nas técnicas da nutrição, o
analfabetismo generalizado, os partos precoces e, às vezes, demasiado próximos,
e a precariedade do emprego ou do trabalho constituem outros factores que,
juntos, podem dar origem à subnutrição e à miséria.
Recordemos que os próprios países desenvolvidos não estão
isentos deste flagelo: os mesmos factores provocam a subnutrição
ocasional ou crónica a numerosos «novos pobres», lado a lado
com pessoas que vivem na abundância e no consumismo.
A demografia
14. Há 10 mil anos, a terra contava provavelmente cinco milhões
de habitantes. No século XVII, no alvorecer dos tempos modernos,
ascendiam a quinhentos milhões. Desde então, o ritmo do
crescimento demográfico aumentou: um bilião de habitantes no início
do século XIX, 1,65 no princípio do século XX, 3 biliões
em 1960, 4 em 1975, 5,2 em 1990, 5,5 em 1993 e 5,6 em 1994 (22). Durante algum
tempo, a situação demográfica desenvolveu-se de maneira
diversificada nos países «ricos» e nos países «em
vias de desenvolvimento» (23). Esta constante está evoluindo.
Recordemos que a proliferação é uma reacção
da natureza - e, por conseguinte, do homem - às ameaças contra a
sobrevivência da espécie.
Os trabalhos de investigação indicam que, à medida que
enriquecem, os povos passam duma situação de elevada natalidade à
situação inversa: baixo nível de natalidade e de
mortalidade (24). O período de transição pode ser crítico
sob o ponto de vista dos recursos alimentares: com efeito, a mortalidade diminui
antes da natalidade. As transformações tecnológicas devem
acompanhar o crescimento da população, caso contrário o
ciclo regular da produção agrícola interrompe-se: as suas
consequências são o enfraquecimento dos solos, a redução
das terras de pousio e a falta de rotação das cultivações.
As suas implicações
15. O crescimento demográfico demasiado rápido constitui uma
causa ou uma consequência do subdesenvolvimento? Excluindo os casos
extremos, a densidade demográfica não justifica a fome. Observemos
antes de mais o seguinte: por um lado, é nos deltas e vales superpovoados
da Ásia que foram aplicadas as inovações agrícolas
da chamada «revolução verde» e, por outro, países
pouco povoados como o Zaire ou o Zâmbia, embora pudessem alimentar uma
população vinte vezes mais numerosa, sem exigir ingentes trabalhos
de irrigação, continuam a enfrentar dificuldades alimentares: os
motivos são os desequilíbrios impostos pelos Estados, a política
e a gestão económica, e não as causas objectivas ou a
pobreza económica. Hoje em dia considera-se que existem maiores
possibilidades de reduzir um excessivo crescimento demográfico,
empenhando-se em diminuir a pobreza de massa, em vez de vencer a pobreza
contentando-se em diminuir as taxas de aumento demográfico (25).
A situação demográfica evoluirá lentamente
enquanto, nos países em vias de desenvolvimento, as famílias
julgarem que a sua produção e a sua segurança só são
salvaguardadas com um elevado número de filhos. Há que recordar
que são geralmente as transformações económicas e
sociais (26) que permitem aos pais aceitar o dom representado por um filho.
Neste campo, a evolução depende em grande parte do nível sócio-cultural
dos pais. Portanto, é preciso elaborar para os casais uma educação
para a paternidade e a maternidade responsáveis, respeitando inteiramente
os princípios éticos; sobretudo, é necessário
dar-lhes acesso a métodos de controle da fecundidade, que estejam em
harmonia com a verdadeira natureza do homem (27).
C) CAUSAS POLÍTICAS
A influência da política
16. A privação de alimentos foi utilizada no decurso da história,
ontem como hoje, como arma política ou militar. Pode tratar-se de
verdadeiros crimes contra a humanidade.
O século XX conheceu um elevado número de tais casos, como por
exemplo:
a) a privação sistemática de alimentos aos camponeses
ucranianos, por obra de Estaline, em 1930, cujo resultado foi de cerca de oito
milhões de mortos. Este crime, por longo tempo desconhecido ou quase, foi
recentemente confirmado, por ocasião da abertura dos arquivos do Kremlim;
b) os recentes assédios na Bósnia, em particular o de
Sarajevo, quando se tomou como refém o próprio mecanismo de assistência
humanitária;
c) os deslocamentos das populações na Etiópia, para
alcançar o controle político por parte do partido único de
governo. O balanço foi de centenas de milhares de mortos, em virtude da
carestia provocada pela migrações forçadas e pelo abandono
da agricultura;
d) a privação de alimentos aplicada como arma contra a secessão
política nos anos 70, no Biafra.
A derrocada da União Soviética pôs parcialmente termo
aos focos de guerras civis, provocadas pela sua acção directa ou
pelas reacções à sua acção: revoluções
sem êxito, deslocamentos de populações, desorganizações
da agricultura, lutas tribais e genocídios. Contudo, numerosas situações
subsistem, ou voltaram a impor-se, e podem provocar estes mesmos fenómenos.
Ainda que não seja ao mesmo nível, eles não são
menos prejudiciais para as populações: trata-se sobretudo do
renascimento dos nacionalismos: estes são favorecidos por alguns Estados
geridos por regimes ideológicos, mas também pelas repercussões
locais das lutas de influência que os países desenvolvidos
alimentam entre si, ou ainda a luta pelo poder em determinados países,
particularmente em África.
Observemos inclusive as situações de embargo por razões
políticas, como o de Cuba ou do Iraque. Trata-se de regimes considerados
como ameaças para a segurança internacional que tomam, por assim
dizer, as suas populações como refém. Com efeito, as
primeiras vítimas deste género de actos de força são
as próprias populações que deles são objecto. É
por isso que há que tomar em consideração o preço,
em termos humanitários, destas decisões. Por outro lado, alguns
responsáveis especulam com as misérias do próprio povo,
provocadas pelos seus comportamentos, para obrigar a Comunidade internacional a
restabelecer os seus fornecimentos. Trata-se sempre duma situação
específica que é preciso abordar caso por caso, no espírito
da Declaração mundial sobre a nutrição, que
declara: «A ajuda alimentar não pode ser rejeitada por motivos de
obediência política, posição geográfica, sexo,
idade ou pertença a um grupo étnico, tribal ou religioso»
(28).
Estas são, enfim, as ulteriores repercussões da acção
política sobre a fome. Diversas vezes, viram-se países
desenvolvidos, produtores de suplementos agrícolas, exportar
gratuitamente a própria produção excedente (trigo, por
exemplo) - para países com desenvolvimento desequilibrado, onde a
alimentação de base é o arroz. O objectivo era apoiar o
desenvolvimento interno. Estas exportações gratuitas tiveram
efeitos muito negativos: fizeram com que a população mudasse os próprios
costumes alimentares, desencorajando os produtores locais que, pelo contrário,
precisam de ser fortemente estimulados.
A concentração dos meios
17. No interior dos países com desenvolvimento desequilibrado, os
desníveis económicos são superiores aos existentes nos países
desenvolvidos ou ainda entre os próprios países. A riqueza e o
poder encontram-se demasiado concentrados numa camada limitada mas complexa,
ligada aos ambientes internacionais e controlando o aparelho do Estado, este
mesmo extremamente deficiente. Verifica-se a interrupção de todo o
desenvolvimento e, às vezes, até mesmo uma regressão económica
e social. A diferença dos níveis de vida não gera apenas
situações conflituais, que podem levar a violências em
cadeia, mas favorece também o clientelismo como a única
possibilidade de realização pessoal. O resultado é a
paralização das iniciativas possíveis a nível
puramente económico e, por outro lado, a profunda limitação
das motivações altruístas que existem em todas as
sociedades tradicionais. Em tais situações, o Estado desempenha
com frequência um papel proponderante, que lhe permite favorecer os
sectores exportadores da produção - o que, por si só,
constitui um bem -, mas reserva pouco lucro ao conjunto das populações
locais.
Noutros casos, por debilidade ou por ambição política,
as autoridades estabelecem os preços dos produtos agrícolas a níveis
tão baixos que os camponeses chegam a subvencionar os habitantes das
cidades - situação esta que favorece o êxodo rural. Os mass
media, a electrónica e a publicidade contribuem de igual modo para este
despovoamento das áreas rurais. A ajuda ao desenvolvimento, em benefício
desses países, é então como que um encorajamento mais ou
menos indirecto aos governos que seguem estas estratégias perigosas,
beneficiando assim desse apoio financeiro absolutamente ilegítimo. Essas
políticas são decididamente contrárias ao verdadeiro
interesse dos seus povos. Os países industrializados devem interrogar-se
para saber se porventura não emitiram sinais negativos nesse sentido
durante longos anos.
As desestruturações económicas e sociais
18. As desestruturações económicas e sociais resultam
não só de políticas económicas inadequadas como também
das consequências de pressões políticas nacionais e
internacionais (cf. nn. 11-13 e 17). Recordemos algumas das mais frequentes e
nocivas:
a) as políticas nacionais que abaixam artificialmente os preços
agrícolas em prejuízo dos produtores locais de alimentos, sob a
pressão das populações desfavorecidas das cidades,
concebidas como uma potencial ameaça para a estabilidade política
do país. Esta situação generalizou-se em África, no
decurso dos anos 1975-1985, dando origem a uma forte diminuição
das produções locais. Numerosos países com grandes
potencialidades agrícolas, como o Zaire e o Zâmbia, tornaram-se
pela primeira vez importadores líquidos;
b) a política da maioria dos países industrializados, que
protegem enormemente a sua própria agricultura, favorecendo deste modo a
produção de excedentes que se exportam a preços inferiores
aos preços internos (dumping). Se não existisse este
proteccionismo, os preços mundiais seriam mais elevados em benefício
dos outros países produtores. Os privilegiados destas protecções
encontram-se actualmente na Europa, em situações difíceis,
depois de numerosos anos de encorajamento à produção, que
provocaram fortes desestruturações do próprio sistema agrícola.
Esta política, apoiada pela maioria das opiniões públicas
locais, pode ser fundamentalmente contrária ao interesse geral dos
consumidores mundiais, tanto dos privilegiados como dos mais desfavorecidos. Os
países com protecção pagam o custo desta política;
nos países sem esta protecção, os agricultores, elementos
essenciais para o bem-estar do país, ficam penalizados pelas importações
a preços reduzidos que prejudicam o preço dos produtos locais,
acelerando a ruína da agricultura e o êxodo para as cidades.
c) as agriculturas tradicionais de subsistência são com frequência
ameaçadas por um desenvolvimento económico erroneamente
projectado. Citemos como exemplo a substituição das produções
tradicionais por uma agricultura industrial orientada para a exportação
(grandes quantidades de géneros alimentares destinados à exportação
e tributários dos mercados agrícolas internacionais), ou então
para produções de substituição local (por exemplo, a
produção de cana de açúcar no Brasil, para obter álcool
como combustível para automóveis, a fim de economizar nas importações
de petróleo: acabou por produzir importantes migrações de
camponeses desarraigados).
D) A TERRA PODE NUTRIR OS SEUS HABITANTES
Os notáveis progressos da humanidade
19. Apesar das enormes falhas consideradas até aqui, não
devemos esquecer que é sob o efeito de progressos não menos
espectaculares que a população dos países do mundo passou
de 3 a 5,3 biliões de habitantes em trinta anos (1960-1990) (29). Nos países
em vias de desenvolvimento, «a esperança de vida à nascença
passou de quarenta e seis anos, em 1960, a sessenta e dois anos em 1987. A taxa
de mortalidade de crianças com menos de cinco anos diminuiu cinquenta por
cento, enquanto dois terços de bebés com menos de um ano são
vacinados contra as principais doenças infantis... A porção
de calorias por habitante aumentou cerca de 20% entre 1965 e 1985» (30).
De 1950 a 1980, a produção total de produtos alimentares no
mundo duplicou e, «no mundo inteiro, existem alimentos suficientes para
todos» (31). O facto de a miséria persistir a despeito disto
demonstra a natureza estrutural da questão: «O principal problema
concerne as condições de acesso a tais alimentos, as quais não
são equitativas» (32). É injusto medir o consumo alimentar
real das famílias somente com o parâmetro estatístico da
disponibilidade de cereais por habitante. A fome não é uma questão
de disponibilidade, mas de solvabilidade; trata-se dum problema de miséria.
Note-se, aliás, que a sobrevivência duma multidão de
pessoas é assegurada por uma economia informal: esta é, por
natureza, não declarada, dificilmente quantificável e precária.
Os mercados agro-alimentares
20. Os mercados agro-alimentares mundiais administram um determinado número
de produtos, que nem sempre correspondem aos que são consumidos na maior
parte dos países com desenvolvimento desequilibrado (33). As excessivas
fluctuações de preços são contrárias aos
interesses tanto dos produtores como dos consumidores. Elas são
provocadas por mecanismos espontâneos de reajuste e amplificadas pelas
características próprias de tais mercados. Todas as tentativas de
estabilização têm sido pouco satisfatórias, ou até
nocivas para os próprios produtores. Por outro lado, o próprio
funcionamento dos mercados torna impossível um novo aumento dos preços.
O reduzido número de empresas de comércio internacional não
permite a alteração dos preços; pelo contrário,
constitui um obstáculo insuperável para a chegada de novos
empreendedores, o que é sempre negativo. O desenvolvimento das
capacidades de produção depende muito mais da difusão dos
progressos técnicos na produção (progresso genético
e progresso de aplicação). Observemos que a produção
média de arroz na Indonésia passou, no arco duma geração,
de 4 a 15 toneladas/ha., o que supera grandemente o ritmo recorde de
desenvolvimento da população. Na maioria dos países em que
a agricultura progride, a produção cresce, e notavelmente, apesar
da diminuição do número de agricultores.
A agricultura moderna
21. As culturas intensivas são cada vez mais acusadas de prejudicar
o meio ambiente e de pôr em perigo os recursos naturais, como a água
e os solos, especialmente mediante o emprego inconsiderado dos adubos e dos
produtos fitossanitários. Numa primeira análise, define-se a
intensificação agrícola como o crescimento da relação
entre os consumos intermediários - essencialmente de género
industrial - e a superfície agrícola utilizada. Encontramo-nos na
presença dum movimento de isenção das tecnologias agrícolas
em relação à terra, seu sustentáculo natural. A
reciprocidade que as unia dissipa-se, em benefício duma dualidade mais
arriscada entre tecnologia agrícola e ambiente económico.
Geralmente, a intensificação agrícola exige um importante
contributo de capital financeiro. Ora, na maioria dos países em vias de
desenvolvimento, ainda se pratica uma agricultura de subsistência, fundada
essencialmente sobre o «capital» humano, com instrumentos tecnicamente
limitados e em difíceis condições de abastecimento de água.
Embora tenha registrado um determinado êxito, a «revolução
verde» não resolveu os problemas de produção alimentar
para um elevado número de países em vias de desenvolvimento.
Certamente, prevêem-se ainda progressos tanto para o aperfeiçoamento
das culturas intensivas, como para a limitação dos efeitos nocivos
para o meio ambiente. Contudo, mesmo nos países desenvolvidos, é
necessário utilizar outros sistemas de produção que
salvaguardem melhor a preservação dos recursos naturais e a
manutenção duma vasta distribuição da propriedade
produtiva. É preciso encorajar nesta direcção as associações
agrícolas e de criação de animais, a gestão «patrimonial»
da água ou ainda a formação de cooperativas.
IIDESAFIOS DE NATUREZA ÉTICA A ENFRENTAR CONJUNTAMENTE
Dimensão ética do fenómeno
22. Para progredir rumo a soluções duráveis para o
problema da fome e da subnutrição no mundo, é indispensável
compreeender a natureza ética da questão.
Se a causa da fome é um mal moral, para além de todas as
causas físicas, estruturais e culturais, os desafios são da mesma
natureza: moral. Isto pode motivar o homem de boa vontade, que acredita nos
valores universais existentes na variedade das culturas, e de modo muito
particular o cristão, que experimenta a relação
preferencial que o Senhor Omnipotente quer estabelecer com todos os homens, quem
quer que sejam.
Este desafio inclui uma melhor compreensão dos fenómenos, a
capacidade de os homens se ajudarem uns aos outros - o que pode realizar-se
mediante a simples gestão das forças económicas
correctamente compreendidas - e até mesmo o retrocesso das corrupções
de todos os géneros. Mas, mais ainda, situa-se sobretudo no plano da
liberdade que cada homem tem de cooperar, na sua acção quotidiana,
para a promoção do homem todo e de todos os homens, isto é,
para o desenvolvimento do bem comum (34). Tal desenvolvimento implica a justiça
social e a destinação universal dos bens da terra, a prática
da solidariedade e da subsidiariedade, a paz e o respeito do meio ambiente físico.
É esta a direcção que é necessário tomar a
fim de restituir a esperança e edificar um mundo mais acolhedor para as
gerações vindouras.
Para tornar possível este progresso, há que salvaguardar,
promover e eventualmente reactivar a busca orgânica do bem comum como uma
componente necessária das motivações de base de todos os
protagonistas políticos e económicos, na sua reflexão e acção,
a todos os níveis e em todos os países.
As motivações pessoais e institucionais dos homens são
necessárias para o adequado funcionamento da sociedade e, inclusive, das
famílias. Todavia, cada homem, de per si e conjuntamente, deve acolher
esta conversão, que consiste em não sacrificar a busca do bem
comum ao seu interesse estritamente pessoal ou de grupo, por mais legítimos
que sejam.
Os princípios emanados pouco a pouco pela Igreja, no seu ensinamento
social, constituem assim um guia precioso para a acção dos homens
contra a fome. A busca do bem comum é o ponto de convergência em
que se concentram:
- a busca da maior eficácia na gestão dos bens terrestres;
- um maior respeito pela justiça social consentida pela destinação
universal dos bens;
- uma prática competente e permanente da subsidiariedade - que
protege os responsáveis contra a apropriação do seu próprio
poder (que, na realidade, é um poder de servir);
- o exercício da solidariedade, que impede a apropriação
dos meios financeiros por parte dos ricos, e que há-de permitirá a
cada homem não ser excluído do corpo social e económico,
nem privado da sua dignidade fundamental.
É, portanto, todo o ensinamento social da Igreja que deve impregnar a
filosofia da acção dos responsáveis, quer o façam
conscientemente, quer não.
Corre-se o risco de acolher esta afirmação com cepticismo ou
até mesmo com cinismo. Inúmeros responsáveis desempenham a
sua actividade num ambiente difícil, às vezes cruel, gerador de
angústia, que pode levar a buscar o poder para o conservar. Estas pessoas
podem sentir-se tentadas a definir as considerações éticas
como entraves. Contudo, a experiência quotidiana nos mais diversificados
ambientes demonstra que assim não é: com efeito, só um
desenvolvimento equilibrado, visando o bem comum, poderá revelar-se autêntico
e contribuir, até mesmo a longo prazo, para a estabilidade social. A
todos os níveis e em cada país, inúmeras pessoas trabalham
habitual e discretamente, tendo em conta o legítimo interesse dos seus
semelhantes.
É tarefa imensa dos cristãos promover, em toda a parte, tais
comportamentos, actuando como fermento numa massa rija; é difícil
mas possível, graças à vivência do amor do Senhor por
todos os homens e que eles próprios experimentam no profundo do seu ser.
Esta tarefa exaltante consiste em proporcionar um exemplo a todos os níveis:
técnico, organizativo, moral e espiritual. Trata-se de ajudar-se
reciprocamente, a todos os níveis de responsabilidade, sem excepção.
O amor do próximo para alcançar o desenvolvimento
23. Esta busca do bem comum não pode fundar-se senão na
solicitude e no amor pelos homens. Nas situações mais diversas,
eles encontram-se diariamente perante a alternativa: autodestruição
pessoal e colectiva ou amor ao próximo. Portanto, este último
manifesta a consciência duma responsabilidade que não retrocede
diante dos seus próprios limites, nem perante a amplitude das tarefas a
realizar, por amor dos homens. «Como julgaria a História uma geração
que tem todos os meios para alimentar a população do planeta e que
se recusa a fazê-lo, num a cegueira fratricida? [...] Que deserto seria um
mundo onde a miséria não encontrasse o amor que faz viver?»
(35).
O amor vai além do dom propriamente dito. O desenvolvimento
cultiva-se mediante a acção dos mais corajosos, competentes e
honestos: eles sentem-se ao mesmo tempo solidários para com todos os
homens que, próximos ou distantes, dependem do que esses responsáveis
realizam ou deveriam realizar. Esta concreta responsabilidade universal é
uma manifestação essencial do altruísmo.
A solidariedade é, sem dúvida, uma exigência para todos.
Felizmente, não é necessário esperar que a maioria dos
homens se converta ao amor do próximo para se recolher os frutos da acção
daqueles que agem sem esperar, no contexto da sua própria situação.
É preciso acolher como uma sólida razão de esperança
os resultados da acção das pessoas que, a todos os níveis,
exercem a sua actividade como servidores do homem todo e de todos os homens.
A justiça social e a destinação universal dos
bens
24. O princípio da destinação universal e comum dos
bens da terra situa-se bem no âmago da justiça social. O Papa João
Paulo II expressou-o assim: «Deus deu a terra a todo o género
humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar
ninguém» (36). Nunca é demais reiterar esta afirmação
constante na tradição cristã, embora evidentemente diga
respeito à humanidade inteira, para além da pertença
confessional. O axioma constitui em si mesmo um fundamento necessário
para a edificação duma sociedade de justiça, paz e
solidariedade. Com efeito, geração após geração,
devemos considerar-nos como administradores transitórios dos recursos da
terra e do sistema de produção. Perante as finalidades da criação,
o direito de propriedade não é absoluto; constitui uma das expressões
da dignidade de cada um, mas só é justo quando é ordenado
para o bem comum e concorre para a promoção de todos. Aliás,
é exercido e reconhecido de diversas maneiras nas diferentes culturas.
O oneroso desvio do bem comum: as «estruturas de pecado»
25. A perda de vista do bem comum caminha a par e passo com a busca
exclusiva e, por vezes, exacerbada dos bens particulares como o dinheiro, o
poder e a reputação, considerados como absolutos e buscados por si
próprios, ou seja, como ídolos. É assim que nascem as «estruturas
de pecado» (37), conjunto de lugares e circunstâncias em que os
comportamentos são perversos e onde todos os recém-chegados têm
de dar provas de heroísmo para os não assumir.
São numerosas as «estruturas de pecado» e estão mais
ou menos difundidas, algumas mesmo a nível mundial (como, por exemplo, os
mecanismos e os comportamentos que geram a fome) e outras em escala muito mais
limitada, mas provocando dissemetrias que tornam mais difícil às
pessoas atingidas a prática do bem. Estas «estruturas» geram
sempre custos elevados em termos humanos: são lugares de destruição
do bem comum.
É menos frequente que se reconheça até que ponto elas são
degradadoras e onerosas a nível económico. Há exemplos
surpreendentes (38). Os obstáculos ao desenvolvimento não são
unicamente a ignorância e a incompetência: são-no também,
e em grande escala, as numerosas «estruturas de pecado». Elas agem
como um desvio contagioso - para finalidades particulares e esterilizantes - da
finalidade dos bens da terra, que na verdade são destinados a todos.
Com efeito, é óbvio que o homem não pode submeter a
terra e dominá-la eficazmente, enquanto adorar os falsos deuses que são
o dinheiro, o poder e a reputação, considerados como bens em si
mesmos e não como instrumentos ao serviço de cada um e de todos os
homens. A concupiscência, o orgulho e a vaidade cegam quem lhes sucumbe:
acaba-se até mesmo por não ver como são limitadas as próprias
percepções e autodestruidoras as próprias acções.
A destinação universal dos bens exige que o dinheiro, o poder
e a reputação sejam buscados como instrumentos para:
a) construir meios de produção de bens e serviços que
possam ter uma utilidade social concreta e promover o bem comum;
b) compartilhar com os mais desfavorecidos que encarnam, aos olhos de todos
os homens de boa vontade, as necessidades do bem comum: com efeito, os pobres
constituem as testemunhas vivas da carência deste bem. Mais ainda, para os
cristãos eles são os filhos predilectos de Deus que, mediante eles
e neles, vem visitar-nos.
A absolutização destas riquezas priva-as total ou parcialmente
da sua utilidade para o bem comum. Se o funcionamento económico mundial é
em geral medíocre - sobretudo em relação a importantes acções
realizadas por determinados países, com duração demasiado
prolongada - e tão oneroso em termos humanos (quando funciona e também
quando não funciona), é porque está profundamente
condicionado pelo ónus dos maus costumes, verdadeiro jugo moral que
grava sobre as pessoas.
Pelo contrário, quando grupos de homens conseguem trabalhar em
conjunto, de maneira a ter em conta o serviço de toda a colectividade e
de cada uma das pessoas, alcançam-se notáveis resultados: pessoas
até então pouco úteis passam a surpreender pela qualidade
dos seus próprios serviços; um efeito positivo modifica
progressivamente as condições materiais, psicológicas e
morais da vida. Na realidade, trata-se do «reverso» das «estruturas
de pecado»: poder-se-ia denominá-las «estruturas do bem comum»,
que preparam a «civilização do amor» (39). A experiência
realizada em tais circunstâncias dá-nos uma pequena ideia daquilo
que poderia ser um mundo em que os homens tivessem mais frequentemente em conta,
em cada uma das suas actividades e no exercício de todas as suas
responsabilidades, os interesses comuns e a sorte de cada um.
À escuta preferencial dos pobres e ao seu serviço: a
partilha
26. O pobre de recursos económicos, vítima da falta de
preocupação pelo bem comum, tem algo de muito especial a
dizer-nos, pois possui, sobre a realidade da vida prática, uma visão
e uma experiência próprias, que os mais privilegiados não têm.
Como o Papa João Paulo II diz, na sua Carta Encíclica Centesimus
annus, «... sobretudo será necessário abandonar a
mentalidade que considera os pobres - pessoas e povos - como um fardo e como
inoportunos maçadores, que pretendem consumir tudo o que os outros
produziram... O progresso dos pobres é uma grande ocasião para o
crescimento moral, cultural e até económico da humanidade inteira»
(40).
Os pontos de vista do pobre - que não são mais exactos nem
mais completos que os dos responsáveis - são essenciais para estes
últimos, para evitar que a sua acção a longo prazo se
transforme em autodestruição. Empenhar-se em políticas económicas
e sociais difíceis e onerosas, sem ter em consideração a
percepção da realidade que têm os mais «pequeninos»,
pode levar ao fim dum certo tempo, a impasses que ficarão caros para
todos. Foi o que aconteceu com a dívida do Terceiro Mundo. Se os credores
e os devedores tivessem tido em conta os pontos de vista pessoais dos mais
pobres, como um dos elementos essenciais da realidade, uma maior sabedoria teria
suscitado mais prudência e, num elevado número de países, a
aventura não teria sido tão negativa, ou teria sido até
mesmo positiva.
Na complexidade dos problemas a resolver, ou melhor, das situações
de vida a melhorar, esta escuta preferencial dos pobres permite evitar a
escravidão do curto prazo, a tecnocracia, a burocracia, a ideologia e a
idolatria do papel do Estado ou do mercado: um e outro têm a sua utilidade
essencial, mas como meios e não como absolutos.
A principal função dos organismos intermediários
consiste em fazer com que a voz dos pobres seja escutada e em captar as suas
percepções, bem como as suas necessidades e as suas aspirações.
Todavia, normalmente estes organismos não se encontram nada preparados
para desempenhar tal tarefa. São tentados a assumir uma posição
de monopólio, cultivando o seu próprio poder, ou posições
concorrenciais, em que outros procuram utilizar os pobres como instrumento de
acesso ao poder. A acção dos sindicatos é, assim,
particularmente necessária, e será heróica, se quiserem
desempenhar uma função tão essencial sem se deixarem
destruir nem manipularr (41).
Nestas condições, a partilha torna-se uma verdadeira colaboração
para a qual cada um contribui, oferecendo a todos aquilo de que a comunidade dos
homens tem necessidade. Os mais desfavorecidos desempenham o papel que lhes é
próprio, tanto mais essencial pelo facto de serem realmente excluídos
(42). Este paradoxo não deve surpreender o cristão.
O dever de dar a cada um o mesmo direito de acesso ao mínimo
indispensável para viver já não é unicamente
justificado como obrigação moral de compartilhar com os
desfavorecidos, o que já é notável, mas como a reintegração
na própria comunidade que, sem eles, tende a tornar-se árida e a
concorrer para a própria ruína. O lugar do pobre não é
na periferia, numa marginalidade da qual haveria absolutamente que procurar tirá-lo.
Ele deve ser posto no centro da nossa solicitude e no âmago da família
humana. É ali que ele poderá desempenhar o seu papel singular no
seio da comunidade.
Nesta perspectiva, a justiça social, que é também uma
justiça comutativa, adquire o seu pleno significado. Como fundamento de
todas as acções para a defesa dos direitos, ela garante a coesão
social e a coexistência pacífica das nações, mas também
o seu desenvolvimento comum.
Uma sociedade integrada
27. Há-de ser a ideia duma justiça arraigada na solidariedade
humana e que leve portanto o mais forte a ajudar o mais frágil, a guiar
os nossos passos em toda a parte onde se faz ouvir a voz do pobre, para criar um
espaço comum onde justiça, paz e caridade conjuguem os seus próprios
esforços.
As sociedades não podem construir-se legitimamente sobre a exclusão
de alguns dos seus membros. Para ser coerente, esta afirmação
implica evidentemente também o direito que têm os pobres de se
organizarem para melhor obter a ajuda de todos para se libertarem da miséria.
A paz, um equilíbrio dos direitos
28. Uma paz duradoura não é o fruto dum equilíbrio das
forças, mas dum equilíbrio dos direitos. A paz não é
tão-pouco o fruto da vitória do forte sobre o fraco mas, no seio
de cada povo e entre os povos, o fruto da vitória da justiça sobre
os privilégios injustos, da liberdade sobre a tirania, da verdade sobre a
mentira (43) e do desenvolvimento sobre a fome, a miséria ou a humilhação.
Para se obter uma paz verdadeira e uma segurança internacional efectiva,
não basta impedir a guerra e os conflitos; é necessário
também favorecer o desenvolvimento e criar as condições
susceptíveis de salvaguardar plenamente os direitos fundamentais do homem
(44). Neste contexto, a democracia e o desarmamento tornam-se duas exigências
da paz, que é indispensável para um verdadeiro desenvolvimento.
O desarmamento, uma urgência a tomar a sério
29. Os conflitos regionais ceifaram cerca de 17 milhões de vidas em
menos de meio século. «Nos anos 80, o total mundial das despesas
militares atingiu um nível sem precedentes em tempos de paz; avaliadas em
um trilhão [mil biliões] de dólares [por ano], representam
cerca de cinco por cento do total dos rendimentos mundiais» (45). É
necessário recordar a importância e a urgência que todos os
responsáveis políticos e económicos têm de agir de
maneira que estas enormes quantias destinadas à morte, tanto no hemisfério
Norte como no hemisfério Sul, passem a sê-lo em prol da vida. Tal
atitude corresponderai às motivações morais favoráveis
a um desarmamento progressivo; dar-se-ia, assim, a ocasião para tornar
disponíveis importantes recursos financeiros a favor dos países em
vias de desenvolvimento, indispensáveis para o seu progresso autêntico
(46).
Uma «estrutura de pecado» particularmente tenaz é a exportação
de armas, superior às necessidades legítimas de autodefesa dos países
compradores, ou destinadas a traficantes internacionais, que propõem hoje
em catálogos, àqueles que dispõem de poder de compra, as
armas mais sofisticadas. Neste campo, prospera a corrupção mas o
mal é ainda mais profundo. Podem-se congratular os governos que, tendo
alcançado o poder, após regimes que haviam empenhado os seus países
em compras de armas que superavam enormemente as próprias necessidades,
tiveram a coragem de denunciar tais contratos, correndo o inclusivamente o risco
de não poder mais contar com a boa vontade dos países
exportadores.
O respeito do meio ambiente
30. A natureza está a dar a todos nós uma lição
de solidariedade que corremos o risco de ignorar. No próprio acto da
produção alimentar, todos os homens descobrem que são
elementos activos ou passivos dum ecossistema. Abre-se à consciência
um novo campo de responsabilidade.
Não se pode pretender, ao mesmo tempo, alimentar mais bocas e
enfraquecer a agricultura. Entretanto, a agricultura revela-se tanto mais
poluidora (utilização maciça de adubos, pesticidas e máquinas)
quando atinge a fase industrial, sem que a este nível se tenha posto em
prática a capacidade de trabalhar de modo adequado. Juntamente com outros
elementos necessários à vida, o ar, a água, os solos e as
florestas são postos em perigo devido à poluição, ao
consumo exagerado, à desertificação provocada e ao
desflorestamento. Em cinquenta anos, destruiu-se metade das florestas tropicais
na maioria das vezes visando a busca de terras, ou favorecendo políticas
de exploração acelerada, tendo em vista reequilibrar o peso da dívida.
Nas regiões mais pobres, a desertificação é
provocada por práticas de sobrevivência que aumentam a pobreza:
pastagens excessivas, abatimento de árvores e arbustos para lenha de
cozinha e até mesmo para o aquecimento (47).
A ecologia e o desenvolvimento equitativo
31 . É urgente uma gestão ecologicamente sadia do planeta.
Apenas sob o ponto de vista da produção agro-alimentar, que já
é notável, salientamos aqui dois elementos. Em primeiro lugar,
esta gestão terá um preço que deverá ser integrado
na actividade económica (48); há que perguntar-se se hão-de
ser sempre os pobres a suportar esse peso, em prejuízo da sua própria
alimentação. Em segundo lugar, o cuidado da melhor compreensão
dos vínculos entre ecologia e economia encoraja a ideia actual dum
desenvolvimento duradouro. Todavia, tal objectivo não deve ocultar a
necessidade de promover ainda mais vigorosamente um desenvolvimento equitativo.
Em última análise, o desenvolvimento não pode ser duradouro
se não for equitativo. Caso contrário, às distorções
actuais outras se viriam provavelmente juntar.
Enfrentar juntos o desafio
32. Fome e subnutrição exigem acções específicas
que não podem ser separadas dum esforço de desenvolvimento
integral das pessoas e dos povos. Perante a amplitude deste fenómeno, a
Igreja católica deve contribuir cada vez mais para o melhoramento desta
situação. Por conseguinte, ela apela à participação
de todos, à harmonia e à perseverança.
Felizmente, numerosos esforços já tem sido prodigalizados a nível
das pessoas, das Organizações não-governamentais, dos
poderes públicos e das Organizações internacionais, com a
finalidade de vencer a fome. Recordemos apenas a Campanha mundial contra a fome
e outras iniciativas nas quais os cristãos participam de bom grado.
Reconhecer o contributo dos pobres para a democracia
33. O dinamismo dos pobres é pouco conhecido. Para inverter esta
tendência será necessário alterar numerosas atitudes e práticas
- económicas, sociais, culturais e políticas. Quando se excluem os
mais pobres da elaboração dos projectos que lhes dizem respeito, a
história prova que nesse caso eles não beneficiam realmente no que
se refere ao essencial. A solidariedade da comunidade humana está ainda
por construir. Não se aprenderá a compartilhar o pão
quotidiano enquanto não se conseguir dar uma nova orientação
às consciências e à acção no conjunto da
sociedade. Quando se dá responsabilidade e se escuta a opinião dos
pobres, dando lugar a uma verdadeira democracia, conseguem-se sem dúvida
frutos positivos (49).
A democracia é geralmente reconhecida como um elemento essencial para
o desenvolvimento humano, porque consente uma participação responsável
na gestão da sociedade; aliás, ambos caminham a par e passo, e a
fragilidade duma pode comprometer o outro. Se o princípio de igualdade
sucumbe perante as relações de forças, o lugar dos pobres
no seio da sociedade pode ver-se reduzido ao mínimo. Uma democracia
julga-se a partir da articulação que consegue encontrar entre
liberdade e solidariedade, distanciando-se assim radicalmente do liberalismo
absoluto ou de outras doutrinas que negam o sentido da liberdade ou que
constituem um obstáculo para a verdadeira solidariedade (50).
Iniciativas comunitárias
34. Perante a miséria, um número crescente de pessoas e de
grupos escolhem participar, em toda a parte, em acções comunitárias.
Tais iniciativas devem ser fortemente encorajadas. Hoje, cada vez mais países
apoiam a participação popular mas, há ainda certas instituições
locais que procuram anular estas iniciativas, que as incomodam (o que provoca,
por vezes, consequências extremamente graves), quando de facto elas
constituem as bases indispensáveis dum verdadeiro desenvolvimento.
As Organizações não-governamentais (ONG) de
desenvolvimento, criadas a partir de iniciativas locais, favoreceram a constituição
duma nova sociedade civil popular em vários países em vias de
desenvolvimento. Estas ONG organizaram instrumentos de concertação
e de apoio muito diversificados. Graças aos dinamismos populares que,
desta forma, abriram o caminho, um elevado número de pessoas dentre as
mais desprovidas pode finalmente sair da própria miséria, para
melhorar a sua situação no que se refere à fome e à
subnutrição.
No decurso destes últimos anos, houve Associações
Internacionais Católicas e Novas Comunidades Eclesiais que promoveram
iniciativas no campo sócio-económico. Para combater a fome e a miséria,
estas acções inspiram-se em corporações medievais e,
sobretudo, nas Uniões cooperativas do século XIX, onde os
promotores do bem comum fundavam instituições em conformidade com
o espírito evangélico e inspiradas na solidariedade social. O
primeiro a ressaltar a necessidade de se organizar para conseguir a promoção
social (Hilfe zur Selbsthilfe (51)), foi o quaker P. C. Plockboy (+ 1695).
Outros pioneiros são melhor conhecidos: Félicité Robert de
Lamennais (1782-1854), Adolf Kolping (+ 1856), Robert Owen (1771-1858), o barão
Wilhelm Emmanuel von Ketteler (1811-1877). Recentemente surgiram associações
que têm em vista o bem comum da sociedade e desejam combater o egoísmo,
o orgulho e a concupiscência que, com frequência, constituem as leis
da vida colectiva. As experiências realizadas ao longo da história
e os resultados destas novas iniciativas dão a esperança de que se
possam colher frutos no futuro (52).
O acesso ao crédito
35. «Um dos grandes resultados das ONG foi assegurar aos pobres o
acesso ao crédito» (53). Este acesso de grupos populares ao crédito
tornou-se uma prática relevante. Ela pode ajudar uma economia informal de
subsistência a progredir rumo à constituição dum
verdadeiro tecido económico de base. Talvez se esteja ainda longe de
elevar de maneira significativa o nível do Produto Nacional Bruto (PNB),
mas a importância do fenómeno reside também no que ele
significa e naquilo que está a preparar. Apoiando as iniciativas comunitárias
e confiando nos parceiros locais, evita-se a persistência dum esquema de
assistência e estabelecem-se as bases dum desenvolvimento integral (54).
O papel primordial das mulheres
36. Na luta contra a fome e em prol do desenvolvimento, o papel das
mulheres é, de facto, primordial, mas com frequência ainda não
suficientemente reconhecido e valorizado. É preciso ressaltar o papel
essencial das mulheres na sobrevivência de populações
inteiras, de maneira especial em África: não raro são elas
que produzem o essencial da alimentação das famílias.
Encarregadas de dar aos próprios familiares uma nutrição
sadia e equilibrada, particularmente nos países em vias de
desenvolvimento, as mulheres tornam-se as primeiras vítimas de decisões
tomadas sem a sua consultação, como o abandono das agriculturas de
subsistência e dos mercados locais em que elas, todavia, são as
principais administradoras. Estes comportamentos não respeitam as
mulheres e prejudicam o desenvolvimento. Nestas circunstâncias, a passagem
para a economia de mercado e a introdução das tecnologias podem, a
despeito das melhores intenções, agravar as condições
de trabalho das mulheres.
A subnutrição atinge as mulheres de maneira particular: em
primeiro lugar, são elas que sofrem, e isto repercute-se sobre as suas
maternidades, prejudicando o futuro sanitário e escolar dos seus filhos
jovens.
Todavia, o objectivo deste esforço deve fazer parte dum contexto
ainda mais ambicioso: tem em vista aperfeiçoar o estatuto social das
mulheres, nos países pobres, oferecendo-lhes um maior acesso aos cuidados
sanitários, à formação e também ao crédito.
Desta forma, as mulheres poderão desempenhar plenamente o seu papel no
aumento da produção, na prática do desenvolvimento e na
evolução económica e política dos próprios países
(55).
Mas este progresso deverá preservar os papéis do homem e da
mulher, sem criar fossos entre eles nem femininizar os homens ou virilizar as
mulheres (56). Entretanto, a evolução auspiciável da condição
da mulher não pode fazer perder de vista a atenção que ela
deve consagrar à vida que nasce e se desenvolve. Alguns países em
vias de desenvolvimento dão o exemplo, colocando barreiras aos excessos
que se manifestam actualmente no Ocidente, a propósito da modificação
da sensibilidade feminina, sem todavia limitar a mulher ao seu papel
tradicional. Com efeito, é preciso não repetir neste campo os
erros cometidos contra as estruturas tradicionais, em vantagem de modelos
ocidentais, particularmente inadequados às situações locais
e adoptados sem reajustes.
A integridade e o sentido social
37. Enfim, é absolutamente necessário motivar o conjunto dos
agentes sociais e económicos em favor de políticas de
desenvolvimento que tenham como finalidade garantir a todos os homens uma igual
oportunidade de viver na dignidade, contribuindo com os esforços e sacrifícios
necessários. E isto torna-se impossível se as pessoas responsáveis
não oferecem sinais inquestionáveis de integridade e do seu
sentido do bem comum. Os fenómenos da fuga de capitais, do desperdício
ou da apropriação dos recursos, em proveito duma minoria familiar,
social, étnica ou política, encontram-se difundidos e são
de domínio público. Estes erros são frequentemente
denunciados, mas sem que os seus responsáveis sejam de facto levados a
cessar tais actividades que lesam os pobres, até mesmo quando essas
assumem notáveis proporções (57).
Muitas vezes é sobretudo a corrupção (58) que
obstaculiza as reformas necessárias à busca do bem comum e da
justiça, que caminham a par e passo. São numerosas as causas da
corrupção. Esta constitui, em qualquer caso, um gravíssimo
abuso da confiança outorgada pela sociedade a uma pessoa mandatária
para a representar e que, pelo contrário, se aproveita de tal poder
social para obter vantagens pessoais. A corrupção é um dos
mecanismos constitutivos de numerosas «estruturas de pecado» e custo
que representa para o planeta é muitíssimo superior à
quantia total das somas desviadas.
IIIRUMO A UMA ECONOMIA MAIS SOLIDÁRIA
Para melhor servir o homem e todos os homens
38. O crescimento da riqueza é necessário para o
desenvolvimento, mas as grandes reformas macroeconómicas - que levam
sempre a uma limitação dos rendimentos - podem fracassar quando não
se empreendem, com a energia e coragem política necessárias, as
reformas estruturais, sobretudo no sector público: a reforma do papel do
Estado e as reformas dos bloqueios políticos e sociais. Nesse caso,
aquelas reformas causam sofrimentos inúteis e fazem precipitar numa nova
depressão. Essas reformas vigorosas, às vezes excessivamente
brutais, são sempre acompanhadas de ajudas da parte da comunidade
internacional, que exerce pressões sobre o poder político, com
frequência a seu próprio pedido, para pôr o país
diante das suas opções e o ajudar a tomar as decisões que
os países desenvolvidos não voltaram a ter ocasião de
tomar, desde os anos da reconstrução após a segunda guerra
mundial.
Compete às instituições internacionais incluir nos
planos elaborados pelos governos, e tendo em conta os seus conselhos, as disposições
apropriadas para aliviar o sofrimento daqueles que serão os mais
atingidos por estas medidas necessárias. Compete-lhes nutrir a confiança
em relação aos dirigentes do país para que este último
beneficie imediatamente das ajudas financeiras provenientes dos credores públicos
e privados. De igual modo, as instituições internacionais devem
exercer pressão sobre o governo a fim de que todas as categorias sociais
possam participar no esforço comum. Caso contrário, ele não
poderá promover o bem comum e a justiça social, cuja salvaguarda é
muito difícil - por mais frágil que seja - em tais circunstâncias.
Para alcançar este objectivo, o pessoal das instituições
internacionais deve dar provas do rigor técnico que felizmente lhe é
próprio, mas também da solicitude para com as pessoas, atitude que
não se pode inculcar por disposições burocráticas
nem mediante uma formação puramente económica. É
aqui que a escuta preferencial dos pobres deve ser especialmente cuidadosa:
haverá que conceber disposições precisas, em colaboração
com as ONG e as Associações católicas que estão em
contacto e ao serviço das pessoas mais expostas. Nunca se poderá
insistir demais sobre este ponto essencial, que os responsáveis nacionais
e internacionais correm o risco de descuidar facilmente, devido ao facto de o
trabalho técnico já apresentar notáveis dificuldades.
Geralmente, todos os organismos nacionais e internacionais, em relação
permanente com cada país com desenvolvimento desequilibrado, devem abrir
canais de comunicação pessoais e oficiais entre aqueles que se
encontram a trabalhar ao serviço das populações e o pessoal
técnico que define os planos de reforma. Mas isto deve ser realizado na
confiança recíproca de pessoas que têm em comum o serviço
dos homens e de cada homem, para não se cair no economismo e na
ideologia.
Fazer convergir a acção de todos
39. Os países mais ricos têm uma responsabilidade de primeiro
plano na reforma da economia mundial. Nestes últimos tempos, pelo menos
deram a prioridade às relações com os países em fase
de arranque do ponto de vista económico - aqueles que se encontram
deveras em vias de desenvolvimento - e também com os países do
Leste europeu, cuja evolução pode constituir uma ameaça
geograficamente próxima.
Nos países ricos não faltam pobres, sob o ponto de vista económico,
nem reformas difíceis a empreender no próprio território.
Por conseguinte, existe a tentação de fazer passar para um segundo
plano os pobres, sob o ponto de vista económico, dos países com
desenvolvimento desequilibrado. «Nós não somos responsáveis
pela miséria do mundo»: é uma frase repetida com frequência
nos países globalmente ricos.
Tal atitude, se fosse confirmada, seria ao mesmo tempo indigna e pouco
perspicaz. Todas as pessoas, onde quer que vivam, sobretudo as que dispõem
de meios económicos e autoridade política, devem deixar-se
constantemente interrogar pela miséria dos mais desamparados, a fim de
tomarem em consideração nas suas decisões e acções
os interesses destes. Este apelo dirige-se a todos aqueles que devem tomar decisões
concernentes aos países em vias de desenvolvimento.
Dirige-se também a todos as pessoas que, quer no interior dos
diferentes países, quer a nível internacional, obstam
efectivamente às possibilidades de acção em benefício
do bem comum, para proteger interesses que, em si, podem ser absolutamente legítimos.
A tutela de tal direito adquirido num determinado país pode ter como
consequência a conservação da fome noutra parte do mundo,
sem que se possa identificar um vínculo específico de causalidade
nem a identidade das vítimas: assim, é fácil negar a sua
existência. Outros «conservantismos», a diversos níveis e
noutros lugares, podem ajudar a contribuir para os mesmos bloqueios.
Continua-se a desejar a reforma do comércio internacional, que está
para começar a ser aplicada. Na realidade, ela diz respeito sobretudo aos
pobres dos países ricos. É fundamental, pois, que estas
prioridades não ocultem a situação dos desamparados dos países
pobres, que praticamente não têm voz a nível internacional.
Eles devem voltar a ocupar o centro da atenção mundial, em comum
com as outras prioridades. Entretanto, são motivo de júbilo as
prioridades em favor da «erradicação da miséria»
divulgadas há já alguns anos pelo Banco Mundial.
Os responsáveis dos países em vias de desenvolvimento não
devem, por sua vez, contar com uma hipotética reforma internacional,
antes de se dedicarem no seu próprio país às reformas, não
raro muito evidentes, que finalmente favoreçam um determinado impulso
económico. Tal impulso não depende de receitas especiais, mas duma
aplicação corajosa e constante de regras simples: elas permitem
que aqueles que podem tomar iniciativas válidas o façam e
conservem uma parte dos seus frutos; e elas impedem que aqueles que não são
capazes de o fazer hauram dos recursos nacionais uma recompensa não
relacionada à sua contribuição. Os povos devem «sentir,
nesse desenvolvimento económico e social, que são eles que
desempenham o papel preponderante e sobre quem recai a principal
responsabilidade» (59). Como mencionámos acima, compete aos governos
e às instituições que estão em relacionamento com os
países em vias de desenvolvimento, manifestar de modo clarividente a sua
preferência em benefício das atitudes responsáveis e
corajosas, ao serviço das comunidades nacionais.
A vontade política dos países industrializados
40. Os poderes públicos dos países globalmente ricos devem
agir sobre a opinião pública para a sensibilizar perante a situação
dos pobres, tanto próximos como distantes. Cabe-lhes, de igual modo,
apoiar vigorosamente a acção das insituições
internacionais, orientada para estes mesmos sofrimentos, a fim de as ajudar a
tomar iniciativas imediatas e perseverantes, com a finalidade de erradicar a
fome do mundo. É isto que a Igreja, por sua vez, pede com grande
tenacidade há já mais de cem anos, oportuna e inoportunamente: ela
exige que se protejam os direitos dos mais frágeis, nomeadamente mediante
intervenções do poder público (60).
Para sensibilizar e mobilizar a comunidade internacional, especialmente no
que se refere à dimensão ética dos desafios, encontram-se
referências vigorosas e precisas em numerosos textos emanados, por
exemplo, pelo Conselho económico e social (sobretudo pela Comissão
para os direitos do homem) ou pelo UNICEF. Mencionando aqui apenas os trabalhos
da FAO, bem conhecidos a este respeito, a convergência que já foi
evocada, entre o ensinamento da Igreja e os esforços de mobilização
crescente, empreendida pela Comunidade internacional, aparece com grande evidência
num determinado número de instrumentos como: a Carta dos Camponeses,
contida na Declaração mundial sobre a reforma agrária e
o desenvolvimento rural (1979) (61), o Pacto mundial de segurança
alimentar (1985) (62), a Declaração mundial sobre a nutrição
e o Plano de acção adoptado pela Conferência
internacional sobre a alimentação (1992) (63), sem esquecer
diversos códigos de comportamento ou empenhamentos internacionais - política
ou moralmente obrigatórios - sobre os pesticidas, os recursos fitogenéticos,
etc. É importante observar que este ponto de vista ético foi
adoptado há pouco tempo pelo Banco Mundial (64).
O desenvolvimento humano não será o fruto de mecanismos económicos
que funcionam por si mesmos, e que bastaria favorecer. A economia tornar-se-á
mais humana mediante um conjunto de reformas a todos os níveis,
completamente orientadas para o melhor serviço do verdadeiro bem comum,
isto é, mediante uma visão ética fundamentada sobre o valor
infinito de cada homem e de todos os homens; uma economia que se deixa inspirar
pela «a necessidade de edificar relações entre os povos, com
base num constante "intercâmbio de dons", numa verdadeira "cultura
da doação" que deveria tornar todos os países
preparados para responder às necessidades dos menos afortunados»
(65).
Estabelecer equitativamente os termos do intercâmbio
41. O funcionamento dos mercados que favorece o desenvolvimento requer,
contudo, uma sábia regulamentação; ele possui as suas próprias
leis, que vão para além da capacidade de decisão dos
participantes, por pouco numerosos e independentes que eles possam ser uns dos
outros. Infelizmente, nos mercados das máterias-primas, apesar dos notáveis
esforços empreendidos tanto pelos governos - inclusive por determinadas
instituições internacionais, sobretudo a CNUCED (Conferência
das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) -
como pelas empresas do sector privado, não se consegue ainda chegar a
termos equitativos de intercâmbio. Não é possível,
por motivos políticos ou humanitários, eximir-se do nível
dos preços derivantes do funcionamento cego dos mercados. Entretanto, é
preciso garantir que estes não constituam o objecto de tentativas de
manipulação.
Além disso, compete aos países importadores não manter
as barreiras nem erigir outras, que obstaculizam selectivamente as eventuais
importações provenientes de países em que uma porção
importante da população tem fome; de igual modo, os países
importadores devem fazer com que os benefícios locais de tais operações
comerciais sejam reservados em grande parte às pessoas mais desamparadas.
Trata-se duma questão muito delicada, que exige uma atitude corajosa e
concreta.
Superar o problema da dívida
42. Como indicámos acima, o peso da dívida é gerido,
desde 1985, pela comunidade internacional; a sua primeira preocupação
é evitar a destruição do sistema financeiro que vincula
todas as instituições financeiras de todos os países. Este
sistema permitiu, nas diferentes nações e ao longo de crises,
consolidações de créditos, com a finalidade de pôr
todos os credores dum determinado país a um mesmo nível. Isto não
está em conformidade com o direito nem com a justiça social. Por
outro lado, o conjunto dos devedores foi levado a abandonar uma porção,
variável de caso para caso, dos próprios créditos. Isto
exige muita equidade e vigilância, a fim de que os países mais
corajosos e mais eficazes em matéria de reformas não sejam
penalizados em relação aos outros.
É óbvio que a dívida deve ainda diminuir de forma notável.
Todavia, é justo que esta diminuição seja acompanhada de
reformas - em todos os países - a fim de que, esquecendo-se das circunstâncias
que levaram a essa situação, não se volte a cair em tais
desregramentos: excesso de despesas públicas, despesas públicas
empregadas erroneamente, desenvolvimento privado local sem interesses económico,
concorrência excessiva entre os países devedores e exportadores,
com o favorecimento de vendas inúteis ou até mesmo prejudiciais.
Em todo o caso, é necessário reconhecer que um melhoramento das
condições dos países com desenvolvimento desequilibrado não
será possível sem uma grande estabilidade do contexto social e político-institucional.
Aumentar a ajuda pública ao desenvolvimento
43. Para o segundo decénio do desenvolvimento, o projecto da CNUCED
previa que a ajuda aos países em vias de desenvolvimento atingisse 0,7%
do PNB dos países industrializados. Este objectivo não foi alcançado
senão por alguns países (66), mas foi definitivo de novo
recentemente, no Encontro de Copenhaga (67). Na média, a ajuda aos países
em vias de desenvolvimento representa actualmente 0,33%, ou seja, menos de
metade do objectivo estabelecido!
O facto de alguns países alcançarem tal objectivo e outros não,
demonstra com evidência que a solidariedade é o fruto da determinação
dos povos e dos Estados, e não de automatismos técnicos. De igual
modo, é preciso reservar uma parte maior de tal ajuda ao financiamento de
projectos, em cuja elaboração participem os próprios
pobres. Dado que na democracia os responsáveis políticos dependem
da opinião pública, há que desenvolver um esforço
notável junto desta, para a abrir a uma consciência mais
clarividente acerca do desafio representado pelo orçamento de ajuda ao
desenvolvimento. «Todos nós somos solidariamente responsáveis
pelas populações subalimentadas... [Por isso] é necessário
educar as consciências no sentimento da responsabilidade que pesa sobre
todos e cada um, particularmente sobre os mais favorecidos» (68).
A ajuda pública apresenta inumeráveis problemas éticos,
tanto aos países doadores como aos países destinatários. Em
toda a parte, a moralização dos circuitos responsáveis
pelos fundos recebidos é um problema difícil, e as faltas éticas
podem privilegiar grupos de interesse, mais ou menos oficiais, nos próprios
países exportadores: criam-se, assim, situações de poder
que podem ser definidas em termos de «estruturas de pecado»,
favorecendo o clientelismo de todos os lados.
Trata-se de poderosos mecanismos inibidores das verdadeiras reformas e do
desenvolvimento do bem comum: eles podem ter terríveis consequências
como, por exemplo, desordens locais e lutas intertribais nos países frágeis
sob este aspecto.
A luta contra as «estruturas de pecado» oferece uma grande esperança
aos países mais desamparados.
Reconsiderar a ajuda
44. Compete aos países industrializados não apenas aumentar a
própria ajuda aos países em vias de desenvolvimento, mas também
avaliar de novo o modo em que ela é distribuída. «A ajuda
vinculada» é objecto de crítica, quando é projectada
em função do país credor ou doador, contendo em si condições
que vinculam o país destinatário: compra de bens manufacturados no
país doador, emprego da mão-de-obra especializada expatriada em
detrimento da mão-de-obra local, conformidade com os programas de
reajuste estrutural, etc. Pelo contrário, considera-se que a ajuda não
vinculada produz realmente melhores resultados, como se verifica em muitos
casos. Todavia, não é oportuno descartar «a priori» a
ajuda vinculada, se for concebida de maneira a repartir equitativamente os benefícios
que dela contraem as diversas partes e a permitir a actuação duma
sábia gestão dos instrumentos postos à disposição.
A ajuda de urgência: uma solução temporária
45. A ajuda alimentar de urgência tem a nobre finalidade de permitir
a uma determinada população sobreviver numa situação
de crise; tem um carácter indiscutivelmente humanitário; pode
servir também como um incentivo para o desenvolvimento e, por definição,
deve ser temporária.
Existem muitas controvérsias em relação à ajuda
alimentar em geral. Alguns consideram que não incide sobre as causas da
fome propriamente ditas, que pode desencorajar os produtores locais, criar
dependências e modificar costumes alimentares; outros afirmam que pode
favorecer apenas os intermediários e ocasionar a corrupção.
Em alguns países, a ajuda alimentar prolonga-se por tanto tempo que
acaba por se converter em algo de estrutural, formando parte dos recursos ordinários
e aliviando o défice nacional.
Considera-se a ajuda estrutural duradoura um incentivo válido para o
desenvolvimento, mas alguns afirmam que se pode converter também numa
arma comercial que desestabiliza a produção e cria dependência.
A concertação da ajuda
46. Apesar das críticas que suscita, um melhoramento da ajuda
alimentar urgente parece possível, mediante a concertação
entre os sucessivos interlocutores da corrente: Estados, autoridades locais,
ONG, Associações eclesiais e população beneficária.
As ajudas poderiam ser limitadas no tempo e muito mais orientadas para as populações
realmente carecidas do ponto de vista alimentar; deveriam ser mesmo constituídas,
na medida do possível, por produtos locais. Sobretudo, a ajuda urgente
deve contribuir para libertar as populações da sua dependência.
Por isso, além de uma infra-estrutura suficiente e das capacidades locais
de distribuição, os socorros devem ser acompanhados de projectos
cujo objectivo seja alertar as populações atingidas contra futuras
penúrias alimentares. É desta forma que a ajuda urgente, exercida
sob determinadas condições, pode ser considerada como uma notável
acção de solidariedade internacional. Com efeito, este género
de assistência não poderá oferecer «uma solução
satisfatória, enquanto se permitir que as condições de
pobreza extrema persistam e se tornem cada vez mais precárias, condições
estas que levam ao aumento da mortalidade causada pela subalimentação
e pela fome» (69).
A segurança alimentar: uma solução permanente
47. O problema da fome não poderá ser resolvido enquanto não
se fomentar a segurança alimentar local (70). «A segurança
alimentar existe quando todos os habitantes, em todos os momentos, têm
acesso aos alimentos necessários para levar uma vida sadia e activa»
(71). Por isso, é importante desenvolver programas que valorizem a produção
local, uma legislação eficaz que proteja os terrenos agrícolas,
assegurando o seu acesso à população camponesa. Se isto
ainda não se realizou nos países em vias de desenvolvimento, é
porque um elevado número de obstáculos a isso se opõem. Com
efeito, torna-se cada vez mais difícil e complexo para os responsáveis
políticos e económicos dos países em vias de
desenvolvimento definirem uma política agrícola. Entre as inumeráveis
causas desta situação, as mais importantes são a fluctuação
dos preços e das moedas, provocada inclusivamente pela superprodução
de produtos agrícolas. A fim de garantir a segurança alimentar,
seria necessário favorecer a estabilidade e a equidade no comércio
internacional (72).
Prioridade à produção local
48. A importância primordial da agricultura em todos os processos de
desenvolvimento está plenamente reconhecida. Qualquer que seja a evolução
da conjuntura comercial internacional, a independência económica e
política, mas também a alimentação nos países
em vias de desenvolvimento, teriam muito a ganhar com a elaboração
de sistemas agrícolas, abertos sem dúvida para o exterior mas que
todavia privilegiem o seu desenvolvimento interior. Isto exige a criação
dum ambiente económico e social fundamentado sobre um melhor conhecimento
e uma melhor gestão dos mercados agrícolas locais, um
desenvolvimento do crédito rural e da formação técnica,
uma garantia dos preços locais remuneradores, um aperfeiçoamento
dos circuitos de transformação e de comercialização
dos produtos locais, um acordo concreto entre os países em vias de
desenvolvimento, uma organização dos próprios camponeses e
a defesa colectiva dos seus interesses. Trata-se de tarefas que requerem ao
mesmo tempo competência e vontade humanas.
A importância da reforma agrária
49. A produção alimentar local é com frequência
impedida por uma distribuição inadequada das terras e pela utilização
irracional dos solos. Mais de metade da população dos países
em vias de desenvolvimento não possui terra própria e esta proporção
está em aumento (73). Ainda que quase todos os países em vias de
desenvolvimento tenham políticas de reforma agrária, poucos a
puseram efectivamente em prática. Além disso, os espaços
agrícolas utilizados pelas sociedades multinacionais de alimentação
servem quase unicamente para nutrir as populações do Norte, e o
modo como eles são explorados tende a saturar os solos. Urge promover uma
«reforma corajosa das estruturas e novos esquemas nas relações
entre os Estados e os povos» (74).
O papel da pesquisa e da educação
50. Os deveres que incumbem sobre os responsáveis políticos e
financeiros são de primária importância. Todavia, para
enfrentar um desafio tão ingente como o da fome, da subnutrição
e da pobreza, todos os homens são chamados a interrogar-se sobre o que
fazem e sobre o que poderiam fazer. Serão necessários:
- o contributo da ciência: as elites intelectuais são
convidadas a mobilizar o próprio saber e a sua influência para
procurar resolver o problema. As pesquisas no campo biotecnológico, por
exemplo, podem contribuir para o melhoramento - tanto no Norte como no Sul - da
segurança alimentar mundial, dos cuidados à saúde ou do
fornecimento de energia. Por sua vez, as ciências humanas, para uma melhor
leitura e uma interpretação mais justa da organização
social, podem pôr em melhor evidência os desequilíbrios dos
sistemas locais e as consequências nefastas que geram, tendo em vista
ajudar a corrigi-los. De igual modo, elas podem contribuir para a definição
e a actuação local de novos itinerários para a
solidariedade entre os povos.
- a sensibilização dos indivíduos e dos povos: o amor
do próximo é uma tarefa confiada aos pais, aos educadores, aos
responsáveis políticos, independentemente do nível a que
pertencem, e aos especialistas dos mass media. Estes últimos têm um
papel principal a desempenhar no progresso da consciência da humanidade.
- um desenvolvimento autêntico em cada país: é preciso
atribuir uma importância primordial a tal educação que não
se limita a transmitir estes elementos necessários para a comunicação
ou para um trabalho de utilidade pessoal ou pública, mas que lança
também os fundamentos da consciência moral. Será necessário
eliminar uma dicotomia entre educação e desenvolvimento, dois
objectivos tão interdependentes e tão intimamente vinculados entre
si, que é preciso persegui-los de forma conjunta para a obtenção
de resultados duradouros. É um dever de solidariedade permitir a todos os
homens beneficiarem duma «educação que corresponda à
própria vocação» (75).
Os Organismos Internacionais:
Associações
e Organizações Internacionais Católicas (OIC),
Organizações
Não-Governamentais (ONG) e suas redes
51. Unindo-se a outras iniciativas precedentes, desde há décadas,
algumas organizações - fundadas também por voluntários
- têm-se prodigalizado ao serviço dos indivíduos e das
populações em dificuldade. Estes Organismos Internacionais são
geralmente conhecidos com o nome de: Associações Internacionais
Católicas, Organizações Internacionais Católicas
(OIC) e Organizações Não-Governamentais (ONG). Estes
Organismos são renomados pelo seu dinamismo: deram prova da própria
capacidade na promoção do desenvolvimento integral dos pobres e na
resolução de situações urgentes (fome e carestia, no
caso que se nos refere). Eles sabem chamar a atenção para as situações
desesperadas, mobilizando fundos privados e públicos e organizando assistências
locais. A maioria deles levou a cabo, ao longo dos anos, esta luta contra a
fome, mediante uma acção de maior impulso em favor do
desenvolvimento. Entre as suas conquistas mais notáveis, existem
projectos que favorecem novas iniciativas locais autónomas, ou projectos
que têm como finalidade revigorar as instituições e as
colectividades locais.
Por sua vez, a Igreja católica, desde sempre (mesmo muito antes de as
ONG existirem como tais) encoraja, inspira e coordena estas forças e
estes instrumentos, graças a inumeráveis associações
paroquiais, diocesanas, nacionais e internacionais e mediante vastas redes (76).
Reconhecemos aqui o trabalho das Organizações Internacionais
no seu conjunto, quer sejam de inspiração directamente cristã
(77), quer de inspiração religiosa ou de inspiração
laica.
A dupla missão dos Organismos Internacionais
52. A missão dos Organismos Internacionais é dupla:
sensibilização e acção. Se a segunda é
evidente, a primeira é frequentemente pouco conhecida. Contudo, os dois
aspectos são indissociáveis: é fundamental e primordial a
sensibilização de todos para as realidades e as causas do
subdesenvolvimento. Dela depende directamente, por um lado, a indispensável
colecta de fundos privados e, por outro lado, a tomada de conciência dum
maior número de pessoas. É necessária assegurar a formação
desta base popular para obter um aumento da ajuda pública dedicada ao
desenvolvimento e à transformação das «estruturas de
pecado».
Comparticipação solidária
53. Os Organismos Internacionais devem praticar uma verdadeira comparticipação
com os grupos a que prestam ajuda. Assim, nasce uma solidariedade com um rosto
fraterno, no diálogo, na confiança recíproca e na escuta
respeitosa.
Neste campo tão delicado da comparticipação, o Papa João
Paulo II quis dar um sinal do seu particular interesse: trata-se da Fundação
«João Paulo II para o Sahel», cuja finalidade é a luta
contra a desertificação nos países do Sul do Saara, e da
Fundação «Populorum Progressio», em favor dos mais
desamparados da América Latina, administradas em autogestão pelas
Igrejas locais das respectivas regiões (78).
IVO JUBILEU DO ANO 2000 UMA ETAPA NA LUTA CONTRA A FOME
Os Jubileus: dar a Deus o que é de Deus
54. Na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, que tem
em vista celebrar os 2000 mil anos do nascimento de Cristo, o Papa João
Paulo II recordou a prática muito antiga dos jubileus no Antigo
Testamento, arraigada no conceito do ano sabático. O ano sabático
era um tempo particularmente consagrado a Deus; era celebrado de sete em sete
anos, em conformidade com a lei de Moisés e tinha em vista deixar a terra
repousar, libertar os escravos e também perdoar as dívidas. O ano
jubilar, que tinha lugar de cinquenta em cinquenta anos, alargava ulteriormente
as prescrições precedentes: o escravo israelita, em particular,
era não apenas libertado, mas recuperava também a posse da terra
dos seus antepassados. «Santificareis o quinquagésimo ano,
proclamando no país a liberdade de todos os que o habitam. Este será
para vós um ano de júbilo: cada um de vós recuperará
a sua propriedade e voltará para a sua família» (Lv.
25, 10).
O fundamento teológico desta redistribuição era o
seguinte: «Não se podia ser privado da terra de modo definitivo,
porque esta pertencia a Deus, nem os israelitas podiam ficar para sempre numa
situação de escravidão, já que Deus os tinha "resgatado"
para Si como propriedade exclusiva, libertando-os da escravidão do Egipto»
(79).
Voltamos a encontrar aqui a exigência da destinação
universal dos bens. Assim, a hipoteca social ligada ao direito à
propriedade privada exprimia-se regularmente na lei pública, corrigindo
as transgressões: a ânsia imoderada do ganho, os lucros suspeitos e
muitos outros modos de exercício da propriedade, da posse e do
conhecimento que contrariam o facto de os bens da criação deverem
servir a todos de maneira justa.
Este quadro jurídico do ano jubilar constituía com efeito o
esboço do ensinamento social da Igreja, que veio depois a estruturar-se,
tendo como base o Novo Testamento. Decerto, poucas realizações
concretas acompanharam o ideal social vinculado ao ano jubilar. Teria sido
necessário um governo justo e capaz de impor os preceitos cujo objectivo
consiste em restabelecer uma certa justiça social. O magistério
social da Igreja, desenvolvido sobretudo a partir do século XIX,
transformou de algum modo estes preceitos num corpo doutrinal que é o
ensinamento social da Igreja. Hoje é o Estado, no seu papel de regulador,
que deve garantir a cada um a necessária e justa participação
nos bens da criação. A Igreja tem o dever de ensiar esta doutrina.
Tornar-se «providência» para os próprios irmãos
55. A prática dos jubileus refere-se sobretudo à divina
Providência e à história da salvação (80). Se
a fundamentamos sobre esta filiação, podemos considerar que a
realidade da miséria e da subnutrição constitui uma consequência
do pecado humano, revelado desde os primeiros versículos do livro do Génesis:
« Então Javé perguntou a Caim: "Onde está o teu
irmão Abel?". Caim respondeu: "Não sei. Por acaso sou eu
o guarda do meu irmão?". Javé disse: "O que fizeste? Ouço
o sangue do teu irmão, que clama da terra por Mim! Por isso, sê
amaldiçoado por esta terra que abriu a boca para receber das tuas mãos
o sangue do teu irmão. Ainda que tu cultives o solo, ele não te
dará mais o seu produto. Tu andarás errante e perdido pelo mundo"
(Gn. 4, 9-12).
Esta imagem exprime com perfeita clareza a relação entre o
respeito da dignidade da pessoa humana e a fecundidade do receptáculo
ecológico, já maculado e corrompido. Esta relação
ressoa como um eco ao longo de toda a história humana e constitui
provavelmente o esboço teológico das relações de
causalidade, analisadas antes a propósito da miséria e da subnutrição.
Tudo acontece como se as eventualidades naturais, às vezes até
mesmo desfavoráveis, se encontrassem amplificadas pelas consequências
da sede imoderada de poder e de lucro, e pelas «estruturas de pecado»
que dela derivam. O homem, ao afastar-se da intenção criadora de
Deus, já não se vê a si mesmo, nem aos próprios irmãos
e nem ao seu futuro, senão através duma miopia que o condena à
experiência do erro que caracteriza o género humano: « ... O
que fizeste do teu irmão?».
Dignidade do homem e fecundidade do seu trabalho
56. Mas Deus não cessa de restituir aos homens a criação
e de desejar, graças a Cristo Redentor, ajudá-los a cultivar e a
administrar o jardim (cf. Gn. 2, 15-17), evitando transformá-lo
numa prisão e dele excluir quem quer que seja. Em tal situação,
todos os esforços que visam restabelecer a dignidade da pessoa humana e a
harmonia entre o homem e toda a criação se inscrevem, para a
Igreja, no mistério da Redenção actuada por Cristo,
representada simbolicamente pela árvore da vida no jardim original (cf.
Gn. 2, 9). Quando entra livremente em comunhão com este mistério,
o homem transforma o erro ao qual se submetera numa peregrinação,
em lugares e itinerários de fé, onde aprende de novo a manter uma
relação justa com Deus, com os seus semelhantes e com toda a criação.
Então, ele sabe bem que tal justificação nasce e se
alimenta da fé e da confiança em Deus, e que não raro se
manifesta no homem de coração pobre. Então, este participa
de novo plenamente no cumprimento da criação, arruinada pelo
pecado original: « ... a criação aguarda ansiosa a revelação
dos filhos de Deus... para participar, livremente, da glória dos filhos
de Deus» (Rm. 8, 19.21).
Desta forma, revela-se plenamente o sentido da economia humana:
possibilidade para o homem, e para todos os homens, de cultivar a terra e de
viver nesta «terra onde cresce o corpo da nova família humana, o
qual já nos dá algum esboço do século novo»
(81). O dinamismo deste economia em vias de formação deriva da
nossa adesão a este itinerário de peregrinação, de
tal sorte que ele se «incorpore» nas nossas próprias pessoas.
Impregnar-se dele numa progressiva incondicionalidade faz com que nos
identifiquemos com a Igreja, este povo de peregrinos em caminho, e que ela
avance inteiramente rumo ao Reino de Deus. Por conseguinte, compete a cada um de
nós, baptizados em Cristo, revelar esta fecundidade de que a Igreja é
depositária e cuja missão é restabelecer a fecundidade de
toda a criação. Perante as lógicas das «estruturas de
pecado», que debilitam a economia humana, somos chamados a ser homens que
se fazem questionar intimamente por Deus, assumindo assim uma atitude crítica
em relação aos modelos predominantes.
Nesta perspectiva, a Igreja convida todos os homens a desenvolver o seu
saber, a sua competência e a sua experiência, cada um em
conformidade com os dons que recebeu e segundo a sua própria vocação.
Além disso, estes dons, estas vocações, próprios de
cada pessoa, são ilustrados de modo admirável pelas três parábolas
(do administrador, das dez virgens e dos talentos), que precedem precisamente a
parábola do Juízo universal (cf. Mt. 24, 45-25, 46), das
quais fora o objecto: a complementaridade e a diversidade das vocações
e dos carismas orientam a resposta de amor do homem chamado a tornar-se «providência»
para os seus irmãos, «uma providência sábia e
inteligente, que guia o desenvolvimento humano e o do mundo, ao longo do caminho
da harmonia com a vontade do Criador, para o bem-estar da família humana
e o cumprimento da vocação transcendental de cada indivíduo»
(82).
A economia degradada pela falta de justiça
57. A Carta Apostólica Tertio millennio adveniente propõe
iniciativas muito concretas para promover activamente a justiça social
(83), encorajando a descobrir outras expressões para resolver o problema
da fome e da subnutrição, que este Jubileu poderia incluir.
A prática jubilar é especialmente necessária no campo
da economia: com efeito, abandonada a si mesma, debilita-se porque já não
exerce justiça. Todas as crises económicas, cujo efeito extremo é
a penúria alimentar, se manifestam sobretudo como uma crise de justiça
(84), que já o povo eleito do Antigo Testamento havia sentido. Hoje, esta
crise deve ser analisada no contexto do mercado livre: no interior de cada país,
bem como nas relações internacionais, o mercado livre pode
constituir um instrumento apropriado para repartir os recursos e correspoder de
maneira eficaz às necessidades (85). A realização da justiça
social perpetua o intercâmbio mercantil: todos os homens têm o
direito de a ele ter acesso, caso contrário correm o perigo de se
dissiparem num neomalthusianismo económico que se identificaria com uma
visão congelada da solvabilidade e da eficiência.
Assim, é necessário constatar que a justiça e o mercado
são frequentemente analisados como duas realidades antinómicas,
considerando-se assim o indivíduo isento da própria
responsabilidade no que se refere à justiça social. A exigência
de equidade já não incumbe sobre o indivíduo, submetido com
resignação à ordem mercantil, mas sim sobre o Estado e,
mais exactamente, sobre o Estado-Providência.
Em geral, as filosofias morais dominantes são grandemente responsáveis
duma transformação da reflexão: passou-se do campo do
comportamento justo para o da justiça das estruturas e dos processos,
construção teórica praticamente fora do alcance. Além
disso, hoje esta providência estatal «ad intra» e «ad extra»
parece muito limitada, garantindo cada vez menos uma verdadeira justiça
distributiva e, atentando ela mesma, contra a eficácia das economias
nacionais. Não haveria aqui porventura, matéria reflectir sobre a
relação existente, por um lado, entre a carência de
contribuições individuais para o obtenção duma justiça
social e duma sobriedade nos nossos comportamentos económicos e, por
outro, a ineficácia crescente dos mecanismos de redistribuição
que, com o passar do tempo, se reflecte sobre a eficácia global da nossa
economia?
Rectidão e justiça na economia
58. Para responder a esta oposição entre mercado e justiça,
o ensinamento social da Igreja procura aprofundar a noção de preço
justo, que retoma do pensamento escolástico, relacionando-o não
apenas com o critério de justiça comutativa mas, mais amplamente,
com o critério de justiça social, ou seja, o conjunto dos direitos
e deveres da pessoa humana. Esta realização da justiça
social em função do preço justo baseia-se sobre uma dupla
conformidade: conformidade do contexto jurídico, empenhando o mercado na
lei moral; e conformidade das múltiplas acções económicas
individuais, que restabelecem o preço do mercado e a própria lei
moral.
Uma responsabilidade pessoal que só se detém perante a lei
civil é insuficiente, porque implica, em inumeráveis casos, «a
abdicação da própria consciência moral» (86).
Assim como o preço do mercado deriva da multiplicidade dos valores de uso
concordados pelos consumidores, assim também será a nossa consciência
moral, árbitro dos valores de uso concordados, que fará ou não
fará convergir o preço do mercado para o valor justo. Enquanto os
agentes não integrarem o dever de justiça social nas suas opções
económicas, o próprio mecanismo do mercado dissociará o preço
concorrencial do valor justo.
Nesta preparação para o Jubileu do Ano 2000, todos nós
somos chamados a encarnar a lei moral na quotidianidade das nossas acções
económicas (87). Daqui deriva que o carácter justo ou injusto do
preço está, de alguma forma, «nas nossas mãos»,
nas do produtor e do investidor, do consumidor e também do responsável
público.
Por conseguinte, o Estado e a comunidade dos Estados não são
dispensados de exercer uma tutela capaz, entre outras coisas, de remediar
imperfeitamente a carência do dever individual de justiça social,
esta ausência de conformidade à lei moral que incumbe sobre cada
um. Com efeito, o objecto político que constitui o bem comum tem a prevalência
sobre a simples justiça comutativa dos intercâmbios.
Um apelo a favor das propostas jubilares
59. Evidentemente, o apelo de Deus transmitido pela sua Igreja é um
apelo à partilha, à caridade activa e prática. Dirige-se não
só aos cristãos, mas a todos os homens de boa vontade, isto é,
a todos os homens sem qualquer excepção. Assim, a Igreja põe-se
na vanguarda dos movimentos que promovem o amor solidário, mediante a
solicitude para com a pessoa humana e todos os homens em particular. Presente e
actuante ao lado de todos aqueles que se prodigalizam em acções
humanitárias tendo em vista corresponder às necessidades e aos
direitos mais fundamentais dos seus irmãos, a Igreja recorda regularmente
que a «resolução» da questão social exige o esforço
de todos (88).
Com efeito, todos os homens de boa vontade podem compreender quais são
os desafios éticos ligados ao futuro da economia mundial: combater a fome
e a subnutrição, contribuir para a segurança alimentar e
para um desenvolvimento agrícola endógeno dos países em
vias de desenvolvimento, valorizar as potencialidades desses países para
a exportação, preservar os recursos naturais de interesse planetário...
O ensinamento social da Igreja reconhece neles outros tantos elementos
constitutivos do bem comum universal, que devem ser identificados e promovidos
pelas nações desenvolvidas. De igual modo, eles deveriam
constituir o objectivo essencial das organizações económicas
intenacionais e o verdadeiro desafio da globalização dos intercâmbios.
Uma vez que é reconhecido, este bem comum universal deveria inspirar um
refortalecimento do quadro jurídico, institucional e político que
rege os intercâmbios comerciais internacionais e novas propostas
jubilares. Isto exigirá coragem da parte dos responsáveis das
instituições sociais, governamentais, sindicais... dado que hoje
se tornou difícil situar os interesses de cada um numa visão
coerente do bem comum.
A este propósito, não é missão da Igreja propor
soluções técnicas, mas ela aproveita a ocasião desta
preparação do grande Jubileu para lançar um vasto apelo em
prol das propostas e sugestões jubilares, susceptíveis de apressar
a erradicação da miséria e da subnutrição.
Estas propostas abrangem particularmente dois sectores:
a) A constituição de reservas alimentares de segurança
- a exemplo de José no Egipto (cf. Gn. 41, 35) - que, em caso de
crise temporária, permitem oferecer uma assistência concreta às
populações atingidas por uma situação de calamidade.
Os mecanismos constitutivos e os mecanismos de gestão de tais reservas
deveriam ser concebidos de maneira a evitar toda a tentação burocrática,
susceptível de abrir a porta, por um lado, às lutas de influência
política ou económica e, por outro, à corrupção,
e para evitar toda a manipulação directa ou indirecta dos
mercados.
b) A promoção de hortas familiares, sobretudo nas regiões
em que a pobreza priva as pessoas, de modo especial os chefes de família
e os seus entes queridos, de todo o acesso à utilização da
terra e à alimentação básica. Dizia o Papa Leão
XIII, a favor dos operários do século XIX: «... [O homem]
chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou e que lhe
promete, a si e aos seus, não só o estritamente necessário,
mas ainda uma certa abastança... » (89).
Em todo o mundo, é preciso tomar iniciativas para que os mais
desprotegidos disponham duma porção de terra e dos conhecimentos e
instrumentos de trabalho necessários, para superarem situações
de miséria.
Devem-se recolher, enfim e numa perspectiva mais vasta, testemunhos e
estudos baseados na experiência e na observação nos
contextos específicos, para procurar constituir um banco de dados,
descrevendo as situações concretas, as «estruturas de pecado»
e as «estruturas do bem comum», sob todos os seus aspectos (90).
VA FOME: UM APELO AO AMOR
O pobre chama-nos ao amor
60. Em todos os países do mundo, se não fecharmos os olhos, a
experiência da vida quotidiana leva-nos a cruzar o nosso olhar com pessoas
que têm fome. Neste olhar, é o sangue dos nossos irmãos que
clama até nós (cf. Gn. 4, 10).
É o próprio Deus que nos chama naquele que tem fome. A sentença
do Juízo final condena sem qualquer compaixão: « ...
Afastai-vos de Mim, malditos. Ide para o fogo eterno, preparado para o demónio
e os seus anjos. Porque Eu tive fome, e vós não Me destes de
comer... » (Mt. 25, 41 ss.).
Estas palavras, que provêm do coração de Deus feito
homem, fazem-nos compreender o profundo significado da satisfação
das necessidades elementares de todos os homens perante o seu Criador: não
abandoneis aquele que é criado à imagem de Deus, pois teríeis
abandonado o próprio Senhor! É o próprio Deus que tem fome
e nos chama no lamento do faminto. Como discípulo do Deus que Se revela,
o cristão é chamado a escutar o apelo do pobre. Trata-se
efectivamente dum apelo ao amor.
A pobreza de Deus
61. Segundo os autores dos Salmos - cânticos do Antigo Testamento - «os
pobres» identificam-se com os «justos», com aqueles «que
procuram Deus», «que O temem», que «confiam n'Ele», que
«são abençoados», que «são os Seus servos»
e que «conhecem o Seu nome».
Como que reflectida num espelho côncavo, toda a luz dos «ANAWIM»,
os pobres da primeira Aliança, converge para a mulher que constitui o
ponto de conjunção entre os dois Testamentos: em Maria brilha todo
o devotamento a Javé e toda a experiência que orienta o povo de
Israel, e se encarna na pessoa de Jesus Cristo. O «Magnificat» é
o louvor que lhe dá testemunho: o hino dos pobres cuja única
riqueza é Deus (cf. Lc. 1, 46 ss.).
Este cântico inicia com uma explosão de júbilo,
exprimindo a gratidão superabundante. «A minha alma exalta o Senhor,
e o meu espírito alegra-se em Deus, meu Salvador». Mas não são
as riquezas ou o poder que fazem Maria exultar: ao contrário,
considera-se de facto «pequena, insignificante e humilde». Esta ideia
de base inspira todo o seu louvor e opõe-se completamente aos que seguiam
pela sede de orgulho, poder e riqueza, os quais serão «dispersos»,
«derrubados dos seus tronos» e «despedidos de mãos vazias».
O próprio Jesus retoma este ensinamento da sua Mãe no contexto
do sermão evangélico das Bem-aventuranças: elas têm
início - e não é por acaso - com a expressão «bem-aventurados
os pobres». Estas palavras demonstram quem é o homem novo, em oposição
às «riquezas» que constituem o objecto das suas críticas.
É aos pobres que Ele anuncia a sua Boa Nova (cf. Lc. 4, 18).
A «sedução da riqueza», pelo contrário, afasta do
seguimento de Cristo (cf. Mc. 4, 19). Ninguém pode servir a dois
senhores: Deus e o dinheiro (cf. Mt. 6, 24). A preocupação
pelo dia de amanhã é índice duma mentalidade pagã
(cf. Mt. 6, 32). Para o Senhor, não se trata apenas de lindas
palavras: com efeito, Ele testemunha-as com a Sua própria vida. «O
Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça» (Mt.
8, 20).
A Igreja está com os pobres
62. É preciso não falsificar nem dissimular o preceito bíblico:
ele vai contra a corrente do espírito do mundo e da nossa sensibilidade
natural. A nossa natureza e a nossa cultura revoltam-se diante da pobreza.
A pobreza evangélica é por vezes objecto de comentários
cínicos da parte tanto de indigentes como de pessoas ricas. Acusam-se os
cristãos de querer perpetuar a pobreza. Tal desprezo pela pobreza seria
deveras diabólico. A característica do demónio (cf. Mt.
4) consiste em opor-se à vontade de Deus fazendo referência à
Sua Palavra.
Há um discurso do Papa João Paulo II que pode ajudar-nos a
evitar esta conclusão, a armadilha que nos permitiria justificar o nosso
egoísmo. Por ocasião da sua visita à favela do Lixão
de São Pedro, no Brasil, a 19 de Outubro de 1991, o Santo Padre reflecte
sobre a primeira bem-aventurança do Evangelho de São Mateus,
explica o vínculo existente entre pobreza e confiança em Deus,
entre bem-aventurança e abandono total ao Criador e acrescenta: «Mas
bem diferente desta pobreza, que Cristo proclamava bem-aventurada, é
outra pobreza, que afecta uma multidão de irmãos nossos e
dificulta o seu desenvolvimento integral como pessoas. Frente a esta pobreza,
que é carência e privação dos bens materiais necessários,
a Igreja ergue a sua voz... Por isso, a Igreja sabe e prega que toda a
transformação social tem que passar necessariamente pela conversão
dos corações. Esta é a primeira e principal missão
da Igreja» (91).
Como já dissemos, o apelo de Deus transmitido pela sua Igreja, é
evidentemente um apelo à partilha, à caridade activa e prática,
que se dirige não só aos cristãos, mas a todos. Como sempre
e mais que nunca, a Igreja está hoje presente ao lado de todos os que
desenvolvem a acção humanitária ao serviço dos seus
irmãos em necessidade, para que possam gozar dos seus direitos
fundamentais.
O contributo da Igreja para o progresso das pessoas e dos povos não
se limita somente à luta contra a miséria e o subdesenvolvimento.
Existe uma pobreza provocada pela convicção de que é
suficiente continuar a percorrer o caminho do progresso técnico e económico
para tornar cada homem mais digno de se chamar tal. Todavia, um desenvolvimento
sem espírito não pode contentar o homem, e o excesso da opulência
é-lhe tão nocivo como o excesso de pobreza. Trata-se do «modelo
de desenvolvimento», elaborado pelo hemisfério Norte e divulgado no
hemisfério Sul, modelo em que o sentido religioso e os valores humanos
que nele se encontram correm o perigo de ser destruídos pela invasão
do consumismo.
Tanto o pobre como o rico são chamados à liberdade
63. Deus não quer a indigência do seu povo, isto é, dos
homens, já que através de cada um deles nos exorta com clamor. Ele
diz-nos simplesmente que tanto o indigente como o rico obcecado pela própria
riqueza são homens mutilados: o primeiro, pelas circunstâncias que
estão muito além do seu alcance, independentemente da sua vontade,
e o segundo, pelas suas mãos demasiado repletas, e com a sua própria
cumplicidade. Assim, ambos são impedidos de aceder à liberdade
interior à qual Deus não cessa de chamar todos os homens.
O pobre «cumulado de bens» não encontra nisso uma compensação
egoísta à má sorte, mas uma situação que
finalmente lhe permite não ser diminuído nas suas capacidades
fundamentais. O rico «despedido de mãos vazias» não é
punido por ser rico, mas é libertado do peso e da opacidade inerentes ao
seu apego demasiado exclusivo a todo o tipo de bens. O cântico do Magnificat
não é uma condenação, mas um apelo à
liberdade e ao amor.
Neste processo de dupla terapia, o pobre é chamado a curar o seu coração
ferido pela injustiça, que pode levá-lo até mesmo ao ódio
de si mesmo e dos outros. O rico é chamado a abandonar o peso da sua
carga: ele fecha os olhos e os ouvidos, recupera a intimidade do seu coração,
dissimulada por detrás das suas pobres riquezas de dinheiro, poder,
imagem e prazeres de todos os tipos, que limitam a visão de si próprio
e dos outros, fazendo crescer os seus apetites ao mesmo tempo que aumentam os
seus bens.
A necessária reforma do coração
64. A fome no mundo faz-nos pôr o dedo nas feridas dos homens a todos
os níveis: a lógica do pecado, que se insere no coração
do homem, está na origem das misérias da sociedade devido à
acção das chamadas «estruturas de pecado». Para a
Igreja, o egoísmo culpável e a busca desenfreada do dinheiro, do
poder e da glória questionam o próprio valor do progresso como
tal. «Com efeito, quando a hierarquia dos valores é desequilibrada e
quando o mal e o bem se misturam, os indivíduos e grupos já não
consideram senão os próprios interesses, e não os do próximo.
Assim, o mundo ainda não se apresenta como o lugar duma fraternidade
concreta, dado que o crescente poder do homem ameaça destruir o próprio
género humano» (92).
Ao contrário, o amor que vem habitar o coração do
homem, permite-lhe superar os seus limites e agir no mundo, criando «estruturas
do bem comum»: elas favorecem o caminho daqueles que peregrinam rumo à
«civilização do amor» (93), atraindo para esta também
o próximo.
Assim, o homem é chamado a reformar a sua acção: o que
está em jogo é vital para o mundo. Mediante um movimento de todo o
seu ser, o homem há-de orientar o seu coração para a
unificação no amor, da sua própria pessoa e da comunidade
humana. Esta transformação do homem, na sua totalidade, é
radical na sua produndidade e nos seus empenhamentos, porque o amor é
radical na sua essência: ele não sofre divisões, envolve
todos os estímulos da pessoa, quer os seus actos quer a sua oração,
tanto os seus meios materiais como as suas riquezas espirituais.
A conversão do coração do homem, de cada um e de todos
juntos, é a proposta de Deus que pode mudar profundamente a face da
terra, cancelar os aspectos hediondos da fome que desfiguram uma parte do seu
rosto. « ... Convertei-vos e acreditai na Boa Nova» (Mc. 1,
15) é o imperativo que acompanha o anúncio do Reino de Deus e
realiza o seu advento. A Igreja sabe que esta transformação íntima
e profunda estimulará o homem na sua vida quotidiana a olhar para além
dos seus próprios interesses imediatos, a mudar pouco a pouco o seu modo
de pensar, trabalhar e viver, para assim aprender a amar dia após dia, no
pleno exercício das suas faculdades e no mundo tal como ele é.
Ainda que o nosso esforço seja insuficiente neste sentido, Deus mesmo
velará sobre ele.
«Desconfiai dos ídolos!»
65. Eis a promessa que o Senhor nos faz: « ... Vou purificar-vos de
todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos. Dar-vos-ei
um coração novo e colocarei um espírito novo dentro de vós.
Tirar-vos-ei o coração de pedra e dar-vos-ei um coração
de carne. Colocarei dentro de vós o Meu espírito, para fazer com
que vivais de acordo com os Meus estatutos e observeis e coloqueis em prática
as Minhas normas» (Ez. 36, 25-27).
Esta magnífica linguagem bíblica não deve induzir-nos
em erro. Não se trata aqui dum apelo aos bons sentimentos, para produzir
uma simples partilha material, por mais legítima e eficaz que possa ser.
O que nos é proposto é a transformação mais profunda
que possa existir, a que o próprio Deus realiza, oferecendo a cada um de
nós a libertação dos nossos ídolos e ensinando-nos a
amar. Isto empenha todo o nosso ser, assim reunificado. Poderemos então
vencer os nossos temores e egoísmos para prestarmos atenção
aos nossos irmãos e os servirmos.
Todos os nossos ídolos estão próximos de nós:
trata-se da nossa busca individual ou comunitária, quer sejamos ricos
quer pobres, dos bens materiais, do poder, da reputação e do
prazer, considerados como fim em si mesmos. Servir estes ídolos subjuga o
homem e empobrece o planeta (cf. n. 25). A profunda injustiça suportada
por quem não dispõe do necessário reside precisamente no
facto de ser obrigado, por necessidade, a buscar tais bens materiais acima de
tudo.
O coração do pobre Lázaro é mais livre que o do
rico injusto e Deus, através da voz de Abraão, pede ao rico não
apenas que compartilhe o banquete com Lázaro, mas também que mude
o seu coração e aceite a lei do amor, para se tornar irmão
do pobre (cf. Lc. 16, 19 ss.).
É libertando-nos dos nossos ídolos que Deus há-de
permitir que o nosso esforço transforme o mundo, não apenas
multiplicando as riquezas de todos os géneros, mas sobretudo orientando o
trabalho dos homens para o serviço de todos. Então, o mundo poderá
reencontrar a sua beleza original, que não é somente a da natureza
no dia da Criação, mas a do jardim admiravelmente lavrado e
tornado fértil pelo homem, ao serviço dos seus irmãos, na
presença amorosa de Deus e por amor d'Ele.
«"Contra a fome: muda de vida" é um lema, nascido em
ambientes eclesiais, que indica aos povos ricos o caminho para se tornarem irmãos
dos pobres... » (94).
Escutar o pobre
66. Portanto, o cristão no mundo - no lugar em que Deus o colocou -
há-de responder ao apelo daquele que tem fome, mediante uma interrogação
pessoal sobre a sua própria vida. O apelo de quem tem fome leva o homem a
perguntar-se acerca do sentido e do valor da sua acção quotidiana.
Há-de procurar considerar as consequências, próximas e às
vezes mais distantes, do seu seu trabalho profissional, de voluntariado,
artesanal e doméstico. Há-de calcular as consequências -
mesmo imprevistas - dos seus actos, até mesmo dos mais comuns,
verificando a sua responsabilidade concreta. Há-de pôr-se a questão
do modo como dispõe do seu tempo, que no mundo contemporâneo tantas
vezes causa sofrimentos por falta ou excesso, devido ao desemprego tão
devastador. Há-de abrir os olhos do seu espírito e do seu coração,
se souber aceitar este convite, feito por Deus a todos os homens, de se colocar,
discreta e humildemente à escuta e ao serviço de quem está
em necessidade. Trata-se dum apelo muito especial, dirigido àqueles que a
linguagem corrente qualifica como «responsáveis».
São Paulo afirma, e não por acaso: « ... Jesus Cristo...
embora sendo rico, fez-Se pobre por vós» (2 Cor. 8, 9). Com
efeito, Ele quis tornar-nos ricos através da Sua pobreza e do amor que nós
devemos ter ao pobre.
Escutar a Deus
67. Escutar a Deus na presença do pobre abrirá o coração
do homem e levá-lo-á a buscar um encontro pessoal sempre novo com
Deus. Este encontro que Deus busca, Ele que não cessa de procurar todos
os homens e o homem todo, continuará no caminho quotidiano que pouco a
pouco transforma a vida de quem aceita «abrir» a Deus «a porta»
à qual Ele próprio bate humildemente (cf. Apoc. 3, 20).
Escutar a Deus exige o nosso tempo com Ele e dedicado a Ele. Só a oração
pessoal: permite ao homem mudar o próprio coração e, por
conseguinte, a própria acção. O tempo dado a Deus não
é tempo tirado aos pobres. Uma vida espiritual forte e equilibrada jamais
desviou ninguém do serviço dos seus irmãos. E se São
Vicente de Paulo (+ 1660) - tão conhecido pelo seu empenhamento em favor
dos mais desfavorecidos - dizia: «Deixa a tua oração, se o
teu irmão te pede um copo de tisana», não se deve esquecer
que o santo rezava cerca de sete horas por dia, encontrando aí o
fundamento para a sua acção.
Mudar de vida...
68. O homem que está à escuta do seu irmão e que se
abre à presença e acção divinas, pouco a pouco irá
pondo novamente em questão o seu próprio estilo de vida. A corrida
à abundância - na qual se lançam cada vez mais homens, com
frequência no meio duma miséria crescente - dará
progressivamente lugar a uma maior simplicidade de vida, já esquecida em
muitos países, mas que se torna de novo possível e até
mesmo desejável, quando cessa nas opções do consumidor a
preocupação pelas aparências.
Enfim, o homem que aceita mudar o seu modo de ver para adoptar aquele que o
próprio Deus nos mostrou nas palavras de Cristo, pôr-se-á,
graças a esse novo modo de ver, ao serviço do bem comum, da promoção
integral de todos os homens e de cada homem em particular.
...para mudar a vida
69. Progressivamente libertado dos seus temores e ambições
puramente materiais, elucidado acerca das possíveis consequências
das suas próprias acções, seja qual for o lugar que ocupe,
o homem que acolhe a presença de Deus em todos os aspectos da sua vida,
tornar-se-á um agente da civilização do amor.
Discretamente, em profundidade, o seu trabalho assumirá um carácter
de missão, na qual tem o dever de exercer e desenvolver os seus talentos,
contribuir para a reforma das estruturas e das instituições,
adoptar um comportamento de qualidade que estimule o seu próximo a agir
da mesma forma, e estar essencialmente orientado ao serviço da dignidade
da pessoa humana e do bem comum.
As circunstâncias da vida levam a considerar impossível tal
atitude em relação ao trabalho. Todavia, a experiência
ensina que até mesmo nas situações aparentemente bloqueadas
todos os homens contam sempre com uma pequenina margem de acção, e
que as suas opções possuem uma importância concreta para o
seu próximo no trabalho, e para o bem comum. De certo modo, pode-se dizer
que cada um é responsável pelos outros (95). Esta é uma das
características do apelo ao amor, que Deus não cessa de fazer
ressoar. É tarefa de cada um de nós, às vezes em circunstâncias
difíceis que podem comportar até mesmo um sofrimento próximo
ao do testemunho-mártir, fundar-nos no poder de Deus que nos promete o
seu auxílio se O pusermos no centro da nossa vida, inclusive da nossa
vida activa.
«Coragem, povo inteiro da terra... pois Eu estou convosco... o Meu espírito
estará convosco!» (Ag. 2, 4-5). O cristão torna-se
assim um agente de luta contra as «estruturas de pecado», e até
mesmo um agente de destruição destas, e difundir-se-ão
menos as práticas tão deletérias no plano do
desenvolvimento económico. Nas regiões em que os cristãos,
com coragem e determinação, arrastarem consigo os homens de boa
vontade, a miséria deixará de progredir, os costumes de consumo
mudarão, as reformas realizar-se-ão, a solidariedade florescerá
e a fome diminuirá.
Apoiar as iniciativas
70. Na vanguarda destes cristãos que lutam figuram os religiosos e
os pastores ordenados, que são chamados a dar a própria vida a
Deus e aos irmãos.
Ao longo de toda a história da Igreja, desde os diáconos dos
Actos dos Apóstolos (cf. Act. 6, 1 ss.) até ao presente,
existiram homens e mulheres extraordinários (96), ordens religiosas e
missionárias, associações de cristãos leigos,
instituições e iniciativas eclesiais, que procuraram ajudar os
pobres e os famintos. Obedientes a Cristo, combateram o sofrimento e a miséria,
sob todas as suas formas.
A Igreja exprime a sua gratidão a todos os que, actualmente, prestam
estes serviços sob a forma duma acção concreta em relação
ao próximo, nas dioceses, paróquias, organizações
missionárias, organizações caritativas e outras ONG. Eles
transmitem o amor de Deus e mostram a autenticidade do Evangelho.
A Igreja católica está presente em todos os continentes;
possui quase 2.700 dioceses ou circunscrições com características
bastante diversificadas (97), muitas das quais desde há muito estão
empenhadas na acção contra a fome e a pobreza. As dioceses e as
paróquias constituem lugares privilegiados de discernimento daquilo que
os cristãos podem fazer. Neste contexto, eles favorecem a organização
de grupos a nível popular, grupos locais e comunidades. Comunidades
acolhedoras à medida do homem, podem restituir a confiança, ajudar
a organizar-se, a viver melhor e a abandonar a resignação e a
humilhação. O Evangelho torna-se aí, de novo, esperança
para os pobres, num crisol em que se conjugam a força de Cristo e a dos
deserdados.
Todos somos chamados a participar nesta acção. O apelo ao amor
que Deus nos trasmite através da presença dos nossos irmãos
que têm fome, deve concretizar-se segundo o estado de vida de cada um e a
posição que ocupa no mundo e no seu ambiente mais imediato. A
maravilhosa variedade humana, na diversidade das culturas, dá origem à
multiplicidade dos empenhos e das missões. Há motivos, por
conseguinte, para que cada cristão promova iniciativas locais muito
variadas.
A Igreja católica sabe que partilha este empenhamento com as outras
Igrejas cristãs e Comunidades religiosas, e também com todos os
homens de boa vontade. As acções de carácter humanitário
constituem um importante campo de acção para o cristão, mas
este deverá contribuir também de maneira muito particular para que
os objectivos da associação e da sua acção permaneçam
o serviço integral do homem, sem excluir a sua dimensão
espiritual. Este serviço há-de ser, assim, uma defesa contra
aqueles que podem procurar desviar o dinamismo da associação para
finalidades políticas, inspiradas pelo materialismo e por ideologias que
são sempre, em última análise, destruidoras do homem.
Cada cristão está em missão, em todas as suas
actividades
71. O cristão está ao serviço dos seus irmãos
em todos os aspectos da sua actividade e da sua vida. O amor activo empenha
todos os cristãos, tanto nas suas actividades quotidianas como nas suas
iniciativas pessoais. Quer o empenhamento do cristão, quer as suas acções
humanitárias e caritativas, procedem do mesmo apelo à missão.
Tanto no seu trabalho remunerado como no voluntariado ou nas ocupações
caseiras, o homem e a mulher são chamados a viver a mesma missão,
a transmitir a Boa Nova e a servi-la, através das alegrias e dos
sofrimentos quotidianos e em todas as situações. A qualidade do
seu trabalho, a participação nas reformas justas, o exemplo
modesto do seu comportamento e a solicitude pelos outros, sempre presente para
além dos objectivos pessoais e institucionais legítimos, com tudo
o que isto constitui, o homem e a mulher estão realizando um apostolado.
Com a força do Senhor irão avançando na luta contra a
desordem e a injustiça.
O cristão procurará relacionar a sua acção,
qualquer que ela seja, Àquele que nos fala directamente ao coração,
pela boca de todos os pobres. O cristão, atraindo os homens de boa
vontade, com os quais partilha os valores humanos fundamentais, deverá
velar a fim de que a sua acção pessoal e a dos seus irmãos
cristãos continuem a inspirar-se na Palavra de Deus e a ancorar-se na
vida divina, em união com a Igreja e com os seus pastores. A comunidade
na acção deve ser uma comunidade com o Senhor que vigiará,
Ele mesmo, a fim de que essa acção seja projectada e realizada no
Espírito Santo e, desta forma, não perca a sua qualidade de missão
divina na sua essência; missão que se inspira e tem a sua fonte em
Jesus Cristo, que se define a si mesmo como «Servo dos homens».
O cristão encontrará apoio em todos os momentos na oração
da bem-aventurada Virgem Maria, orante e activa no seu serviço
incondicional a Deus e aos homens. A Mãe de Deus suplicará ao Espírito
Santo que inspire a inteligência e o coração do cristão,
para que este se transforme em Seu colaborador livre, responsável e
confiante, numa acção que, por si mesma, testemunhará o
amor de Deus e terá o seu peso de eternidade.
Cidade do Vaticano, Palácio de São Calisto, 4 de Outubro
de 1996, Festa de São Francisco de Assis.
PAUL JOSEF CORDES
Arcebispo Titular de Naisso
Presidente
Pontifício
Conselho «Cor Unum»
Mons. IVÁN MARÍN
Secretário
Pontifício Conselho «Cor Unum»
(*) Na elaboração deste documento, foi prestada particular
atenção aos trabalhos mais diversificados e recentes; todavia, o
facto de os mesmos serem citados neste documento não implica a sua aprovção
incondicional e integral.
1 Cf. ONU (Organização das Nações Unidas), Declaração
Universal dos Direitos do Homem, adoptada e proclamada pela Assembleia geral
da Organização das Nações Unidas na sua resolução
n. 217 A (III), de 10 de Dezembro de 1948, art. 25.1.
2 ONU, Declaração sobre o Progresso e o Desenvolvimento
no campo social, proclamada pela Assembleia geral da Organização
das Nações Unidas na sua resolução n. 2.542 (XXIV),
de 11 de Dezembro de 1969, II, art. 10 b.
3 ONU, Conferência Mundial sobre a Alimentação,
Roma, 16 de Novembro de 1974, n. 1.
4 FAO (Food and Agriculture Organization - Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e OMS (Organisation
Mondiale pour la Santé - Organização Mundial para a Saúde),
Conferência Internacional sobre a Nutrição, Declaração
mundial sobre a nutrição, Relatório final da Conferência,
n. 1, Roma, 1992.
5 Cf. ibidem, n. 1. Cf. também FAO, L'ampleur des
besoins. Atlas des produits alimentaires et de l'agriculture, Roma, 1995, pág.
16: «O planeta poderia perfeitamente oferecer a cada um dos seus habitantes
a porção alimentar média de cerca de 2.700 calorias por
pessoa/dia, ou seja, o suficiente para corresponder às suas necessidades
energéticas. Todavia, a alimentação não é
produzida nem distribuída de maneira equitativa. Determinados países
produzem mais que outros e, em última análise, são os
canais de distribuição e os rendimentos dos casais que determinam
o acesso aos produtos alimentares».
6 Cf. FAO, Agriculture: Horizon 2010, Doc. C 93/24, Roma, 1993, pág.
1.
7 Cf. CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Constituição
Pastoral Gaudium et spes (1965), n. 40: « ... A Igreja caminha a
par da humanidade, compartilha da sorte terrena do mundo e a sua razão de
ser é actuar como fermento e como alma da sociedade, que deve renovar-se
em Cristo e transformar-se na família de Deus. A bem dizer, esta
compenetração da cidade terrena e da cidade celeste só pode
ser percebida pela fé... ».
8 Cf. CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Constituição
Pastoral Gaudium et spes (1965), n. 69.
9 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis
(1987), n. 41, AAS 80 (1988), 570.
10 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Sollicitudo rei
socialis (1987), n. 33 l.c. 558; cf. também PAULO VI, Carta
Encíclica Populorum progressio (1967), n. 47, AAS 59
(1967), 280.
11 Cf. FAO, L'ampleur des besoins. Atlas des produits alimentaires et
de l'agriculture, Roma, 1995, pág. 16. Cf. também a nota n. 4.
12 Cf. Alan BERG, Malnutrition: What can be done? Lesson from World
Bank experience (Subalimentação: o que se pode fazer? Lição
da experiência do Banco Mundial), The John Hopkins University Press
for World Bank, Baltimore, MD, 1987.
13 Estudos realizados pela FAO e pela OMS estabeleceram como porção
mínima quotidiana de calorias necessárias cerca de 2.100,
considerando que a disponibilidade diária de alimentos deve ser 1,55
vezes o metabolismo de base: abaixo destes parâmetros, uma pessoa pode
considerar-se vítima da subnutrição crónica (cf. FAO
e OMS, Conferência Internacional sobre a Nutrição. Nutrição
e Desenvolvimento. Uma avaliação global, Roma, 1992). Existem
ainda no mundo cerca de 800 milhões de pessoas subalimentadas: em média,
um adulto tem necessidade de 2.500 calorias por dia. Os habitantes dos países
industrializados dispõem de cerca de 800 calorias excedentes
quotidianamente, enquanto os dos países em vias de desenvolvimento devem
contentar-se com dois terços desta porção (cf. Le Sud
dans votre assiette. L'interdépendance alimentaire mondiale), Otava,
CRDI, 1992, pág. 26).
14 Cf. Documento preparatório da CNUCED (Conferência
das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento)
para a segunda Conferência da Organização das Nações
Unidas sobre os Países Menos Avançados, Paris, 1990.
15 FAO e OMS, Conferência Internacional sobre a Nutrição.
Declaração mundial sobre a nutrição, Relatório
final da Conferência, n. 2, Roma, 1992.
16 Cf. BANCO MUNDIAL, Poverty and Hunger, 1986. Este documento
descreve os graus de insegurança alimentar (transitórios ou crónicos),
as causas económicas de tais situações e os modos de as
resolver a médio e longo prazos. Esta distinção é útil,
mas tem o inconveniente de não reflectir imediatamente sobre as correlações
entre as diversas causas, o que viria a pôr em evidência de forma
mais clarividente a sua ordem de importância, visto que determinadas
causas constituem, ao mesmo tempo, os efeitos de causas mais profundas.
17 A noção de durabilidade tinha, na origem, o significado
dum desenvolvimento compatível com o respeito pelo ambiente físico;
actualmente, esta noção compreende também a ideia da
estabilidade do desenvolvimento.
18 Cf. BANCO MUNDIAL, Poverty and Hunger, 1986.
19 Traduzida no texto português como «países com
desenvolvimento desequilibrado», a expressão francesa «pays en
mal de développement» vai para além do campo da simples
economia e aplica-se aos países cuja evolução económica
e social é excessivamente onerosa em termos de sofrimentos humanos, de
meios financeiros e, ainda, de abandono de conhecimentos e práticas
experimentados e de destruição dos bens acumulados ao longo dos séculos.
20 A Ásia teve, de maneira geral, um desenvolvimento muito mais
eficaz, vinculada no seu conjunto a melhores políticas e realizações
sem que, todavia, se possa considerar superior a qualidade das relações
interpessoais, nem mais limitados os níveis de corrupção.
21 Em matéria de educação, determinados limites
tiveram que ser impostos nalguns países. Observe-se que em muitos países
com desenvolvimento desequilibrado, a tendência a favorecer o ensino
superior em desvantagem da instrução primária constitui um
problema actual, que as instituições internacionais devem resolver
em diálogo com esses países.
22 Cf. UNFPA (United Nations Population Fund), The State of World
Population 1993, Nova Iorque, 1993; UNITED NATIONS, World Population
Prospects: the 1992 Revision, Nova Iorque, 1993. Cf. também FNUAP
(Fundo das Nações Unidas para a População), État
de la population mondial 1994, Choix et responsabilités.
23 PNUD (Programme des Nations Unies pour le Développement -
Programa das Nações para o Desenvolvimento), Rapport mondial
sur le développement humain 1990, Economica, Paris, 1990. Cf. ibidem,
pág. 94: nos países em vias de desenvolvimento, onde vive a
maioria das pessoas que padecem de fome, em 30 anos (de 1950 a 1980) a população
rural mais que duplicou e a população urbana triplicou ou
quadruplicou.
24 . Franz BÖCKLE, u.a., Armut und Bevölkerungs-entwicklung in
der Dritten Welt, Herausgegeben von der Wissenschaftlichen Arbeitsgruppe für
weltkirchliche Aufgaben der Deutschen Bischofskonferenz, s.a. Edição
francesa: Pauvreté et développement démographique dans
le tiers monde, editada pelo Grupo de trabalho científico para as
questões da Igreja universal, da Conferência Episcopal da Alemanha,
Bona, 1991.
25 Cf. PONTIFICIA ACADEMIA SCIENTIARUM, Population and Resources.
Report, Cidade do Vaticano, 1993. (As estatísticas apresentadas já
sofreram alterações).
26 Cf. PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA, Evoluções
demográficas. Dimensões éticas e pastorais, Cidade do
Vaticano, 1994. Cf. Le contrôle des naissances dans les pays du Sud:
promotion des droits des femmes ou des intérêts du Nord, «Inter-mondes»,
vol. 7, n. 1, Outubro de 1991, pág. 7: nos últimos tempos,
numerosas investigações têm demonstrado que outros três
factores, além do controle demográfico, contribuem de igual modo
para a diminuição do crescimento da população
mundial. Trata-se do desenvolvimento económico e social, do melhoramento
das condições de vida das mulheres e, paradoxalmente, da redução
da mortalidade infantil. Cf. também UNICEF (United Nations Children's
Fund - Fundo das Nações Unidas para a Infância), La
situation des enfants dans le monde, Genebra, 1991.
27 Cf. JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes na Semana
de Estudos sobre «Os Recursos e as Populações»,
organizado pela Pontifícia Academia das Ciências (22 de Novembro de
1991), nn. 4 e 6: «A Igreja está consciente da complexidade do
problema... A urgência da situação não deve induzir
ao erro, no momento de propor meios de intervenção. Aplicar métodos
que não estão em harmonia com a verdadeira natureza humana do
homem acaba, de facto, por provocar trágicos danos... e corre-se o risco
de excluir sobretudo os mais pobres e os mais fracos sectores da sociedade,
aumentando a injustiça com mais injustiça», ed. port. de L'Osservatore
Romano de 5 de Janeiro de 1992, pág. 4, AAS 84 (1992) 12,
1.120-1.122. Cf. também CARDEAL ÂNGELO SODANO, Intervenção
na Conferência do Rio de Janeiro sobre o meio ambiente (13 de Junho de
1992). O texto italiano encontra-se em L'Osservatore Romano de 15-16 de
Junho de 1992.
28 FAO e OMS, Conferência Internacional sobre a Nutrição,
Declaração mundial sobre a nutrição, Relatório
final da Conferência, n. 15, Roma, 1992.
29 Cf. FAO, Agriculture: Horizon 2010, Doc. C 93/24, n. 2.13, Roma,
1993.
30 Cf. PNUD, Rapport Mondial sur le Développement humain 1990,
Economica Paris, 1990, pág. 18.
31 FAO e OMS, Conferência Internacional sobre a Nutrição,
Declaração mundial sobre a nutrição, Relatório
final da Conferência, n. 1, Roma, 1992.
32 Ibidem.
33 A Argentina encontra-se entre os principais exportadores de trigo e de
carne bovina. Portanto, essa nação não é um país
com desenvolvimento desequilibrado: é um país industrializado,
cujo desenvolvimento económico foi decepcionante por um longo período
de tempo, devido a motivos que dependiam essencialmente da fragilidade dos seus
sistemas políticos. Esta situação mudou de maneira profunda
nos últimos anos, e as suas consequências económicas são
já evidentes.
34 Cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1.906, que contém a
definição do «bem comum», retomada da Gaudium et
spes, 26 § 1: «Por bem comum deve entender-se "o conjunto das
condições sociais que permitem, tanto aos grupos como a cada um
dos seus membros, atingir a sua perfeição, do modo mais completo e
adequado"».
35 JOÃO PAULO II, Discurso no Palácio da CEAO
(Comunidade Económica da África Ocidental), Ouagadugu, 29 de
Janeiro de 1990, ed. port. de L'Osservatore Romano de 11 de Fevereiro de
1990, n. 4, pág. 10, AAS 82 (1990) 8, 818.
36 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus annus (1991),
n. 31, AAS 83 (1991) 10, 831.
37 JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Reconciliatio
et paenitentia (1984), n. 16, AAS 77 (1985) 213-217 (em termos de
pecado social, que dá origem a males sociais); Carta Encíclica
Sollicitudo rei socialis (1987), nn. 36-37, l.c. 561-564; e
Carta Encíclica Centesimus annus (1991), n. 38, l.c. 841.
Estes documentos utilizam também expressões como «situações
de pecado», ou «pecados sociais», identificando sempre a causa
destes pecados no egoísmo, na busca do lucro e no desejo do poder.
38 A produção de armas químicas, isenta de aspectos
positivos, e que só servem para atacar ou para se defender, é um
testemunho disto. A título de exemplo, as 500.000 toneladas de produtos
mortais - susceptíveis de destruir 60 biliões de homens -,
armazenadas na União Soviética, custaram cerca de US$ 200 biliões
para serem produzidos, e custarão outros tantos para serem destruídos.
Trata-se de recursos concretos e, por conseguinte, duma perda real para o
planeta. Esta aventura perversa traduz-se numa diminuição do nível
de vida dos homens (principalmente, mas não só, na ex-União
Soviética), levando à manifestação da fome em famílias
que, pelo contrário, não a teriam conhecido.
39 Cf. PAULO VI, Homilia no Natal de 1975, por ocasião do
encerramento do Ano Santo, ed. port. de L'Osservatore Romano de 28 de
Dezembro de 1975, pág. 4, AAS 68 (1976) 2, 145. Esta expressão
foi utilizada pela primeira vez pelo próprio Papa Paulo VI.
40 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus annus
(1991), n. 28, l.c. 828.
41 Cf. Larry SALMEN, Listen to the people, Participant-Observer
Evaluation of Development Projects, The World Bank and Oxford University
Press, 1987. A este propósito, pode-se mencionar o método do
observador-participante, praticado por um consulente do Banco Mundial.
Profundamente motivado pelo amor dos homens, não hesitou em passar períodos
de três a quatro meses como habitante das «favelas» da América
do Sul (sobretudo em Quito e La Paz), para levar pessoalmente a vida da população.
Pôde, assim, aconselhar os arquitectos que trabalhavam na renovação
urbana, a fim de que as novas construções não fossem
sistematicamente danificadas pelos novos habitantes, que abandonavam os seus
alojamentos miseráveis. Trata-se da escuta preferencial do pobre, que
neste caso é também o cliente, e do próprio bom senso, mas
que exigem heroísmo. Difundiu depois este método na Tailândia,
pondo deveras em jogo a autoridade mundial do Banco, para convencer os funcionários
de Bangkok a viverem pessoalmente, por um determinado período de tempo,
com os seus concidadãos mais desfavorecidos para assegurarem o bom êxito
dos programas de alojamento urbano.
De assinalar também a extraordinária intervenção
dum pastor protestante inglês, Stephen Carr, que viveu, sucessivamente,
durante 20 anos, em duas aldeias africanas, utilizando apenas os recursos e as técnicas
tradicionais, chegando a conquistar grande influência nesses dois lugares.
Aquando duma sua imprevisível visita a Washington em 1985/1986, foi
entrevistado pelo Banco Mundial. O seu testemunho iluminou os especialistas do
Banco, que passaram a avaliar os prejuízos no âmbito dos projectos
agrícolas do Organismo, em África. Existe uma simbiose entre o
camponês e a terra. A terra de África é linda e fecunda, mas
muito frágil. As mudanças de comportamentos criadas pela economia
moderna, entre os camponeses, e a perda das crenças ancestrais levaram à
destruição da terra. Os missionários católicos - e
porventura outros também - tinham compreendido perfeitamente isto. As
antigas missões respeitavam os talentos e, sobretudo, as experiências
tradicionais. Tudo isto tem vindo a ser redescoberto por algumas ONG, entre as
quais a FIDESCO, com sede na França, e em outros países europeus.
42 Cf. a obra do Rev.do Pe. Joseph WREJINSKY e da ATD Quart-Monde.
43 Cf. JOÃO XXIII, Carta Encíclica Pacem in terris (1963),
cap. III, AAS 55 (1963) 5, 279-291.
44 Cf. JOÃO PAULO II, Discurso aos participantes na Conferência
da FAO, por ocasião da celebração do 50º aniversário
da Organização (23 de Outubro de 1995), ed. port. de L'Osservatore
Romano de 4 de Novembro de 1995, n. 2, pág. 9.
45 BANCO MUNDIAL, Rapport sur le développement dans le monde
1990, Washington, 1990, pág. 19.
46 Cf. PONTIFÍCIO CONSELHO «IUSTITIA ET PAX», O comércio
internacional das armas. Uma reflexão ética, Cidade do
Vaticano, 1994.
47 Cf. FAO Développement durable et environnement, les
politiques et activités de la FAO, Roma, 1992.
48 Cf. JOÃO PAULO II, Discurso durante a vigésima
quinta sessão da Conferência da FAO (16 de Novembro de 1989), ed.
port. de L'Osservatore Romano de 3 de Dezembro de 1989, n. 8, pp. 1 e 5,
AAS 82 (1990) 7, 672-673.
49 Cf. os Quirógrafos de instituição das
Pontifícias Fundações «João Paulo II para o
Sahel», fundada a 22 de Fevereiro de 1984, e «Populorum Progressio»,
instituída no dia 13 de Fevereiro de 1992. A sede das duas Fundações
é no Pontifício Conselho «Cor Unum», Estado da Cidade do
Vaticano; a sede do Conselho de Administração da Fundação
«João Paulo II para o Sahel» é em Ouagadugu (Burkina
Fasso), e a da Fundação «Populorum Progressio» é
em Santafé de Bogotá (Colômbia).
50 Cf. JOÃO PAULO II, Discurso à Assembleia geral da
Organização das Nações Unidas, por ocasião da
celebração do 50º aniversário da Organização
(5 de Outubro de 1995), ed. port. de L'Osservatore Romano de 14 de
Outubro de 1995, nn. 12-13, pp. 3-5.
51 «Hilfe zur Selbsthilfe» = «Auxílio para a
auto-ajuda».
52 Mencionem-se algumas destas iniciativas: Economia di Comunione/Opera di
Maria, Movimento del Focolare; AVSI/Comunione e Liberazione; FIDESCO/Communauté
Emmanuel (Paris); «Famille en Mission»/Caminho Neocatecumenal; e Obra
Social «Kolping International».
53 PNUD, op. cit., pág. 31 (cf. nota n. 30).
54 Cf. IFAD (International Fund for Agricultural Development - Fundo
Internacional para o Desenvolvimento Agrícola), The Role of Rural
Credit Projects in Reaching the Poor, Roma-Oxford, 1985.
55 Cf. JOÃO PAULO II, Carta às Mulheres (29 de Junho
de 1995), n. 4, AAS 87 (1995) 9, 805-806.
56 Cf. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Mulieris
dignitatem (1988) nn. 6-7, AAS 80 (1988) 13, 1662-1667). Cf. também
a Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles
laici (1988) 50, AAS 81 (1989) 4, 489.492.
57 Uma avaliação das dimensões da corrupção
resulta da soma das quantias de dinheiro «reciclado», calculadas pelos
serviços competentes de repressão às fraudes
(particularmente na França, TRACFIN).
58 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Sollicitudo rei
socialis (1987), n. 44, l.c. 576-577.
59 JOÃO XXIII, Carta Encíclica Pacem in terris (1963),
cap. III, AAS 55 (1963) 5, 290.
60 Cf. LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum novarum, 15
de Maio de 1891, Leonis XIII P.M. Acta, XI, Roma, 1892, 97-144.
61 Cf. FAO Charte des paysans: Déclaration de principes et
programme d'action, no Relatório da Conferência
Mundial sobre a Reforma Agrária e o Desenvolvimento Rural, Roma,
1979.
62 Cf. FAO, Relatório da Conferência da FAO, por ocasião
da sua vigésima terceira sessão, C85/REP, pág. 46, Roma,
9-28 de Novembro de 1985.
63 Cf. nota n. 4.
64 BANCO MUNDIAL, Relatório sobre o desenvolvimento mundial
1990, preâmbulo, Washington, 1990.
65 JOÃO PAULO II, Discurso por ocasião do 50º
aniversário da FAO, n. 4.
66 Cf. PNUD, Rapport mondial sur le développement humain, 1992,
Economica Paris, 1992, pág. 19; cf. também ONU, Relatório
da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, Rio de Janeiro, 1992 § 33.13: «Os países
desenvolvidos reiteram o seu compromisso em dedicar 0,7% do próprio PNB à
APD [Aide Publique au Développement - Ajuda Pública ao
Desenvolvimento] - soma estabelecida pela ONU e acolhida pelos mesmos países
- e, se já não o fizeram, aceitam reforçar os seus
programas de assistência para alcançar tal quantia quanto antes...
Alguns países aceitaram atingir esta soma antes do ano 2000... Os países
que já alcançaram a quantia em questão devem ser elogiados
e encorajados a continuar a contribuir para a acção comum, tendo
em vista a oferta dos importantes recursos suplementares necessários».
67 Cf. ONU Relatório do Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento
Social (Copenhaga, 6-12 de Março de 1995), Declaração
e Programa de Acção, par. 88 b.
68 JOÃO XXIII, Carta Encíclica Mater et magistra (1961),
cap. III, AAS 53 (1961) 8, 440.
69 JOÃO PAULO II, Discurso por ocasião do 50º
aniversário da FAO, n. 3 (cf. nota n. 43).
70 Cf. PNUD, op. cit. pp. 164-165 (cf. nota n. 66).
71 FAO, L'ampleur des besoins (cf. nota n. 11), pág. 35.
Geralmente, a segurança alimentar depende de quatro elementos: a disponibilidade
dos alimentos; o acesso a uma alimentação suficiente;
a estabilidade dos abastecimentos; a aceitação
cultural dos alimentos ou de determinadas combinações de
alimentos.
72 Cf. também o Pacto mundial de segurança alimentar (1985),
já mencionado no n. 40.
73 Cf. FAO, Landlessness. A growing problem, «Economic and
Social Development Series», n. 28, Roma, 1984; versão francesa: Le
paysannat sans terre. Un problème toujours plus aigu, «Collection
FAO: Développement économique et social», n. 28, Roma, 1985.
74 JOÃO PAULO II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1 de
Janeiro de 1990, «Paz com Deus Criador, paz com toda a criação»,
n. 11, AAS 82 (1990) 2, 153.
75 CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Declaração
sobre a Educação Cristã, Gravissimum educationis, cap.
I, que remete a PIO XI, Carta Encíclica Divini illius magistri (1929),
AAS 22 (1930), pp. 50 ss.
76 Cf. também PONTIFÍCIO CONSELHO «COR UNUM», Catholic
Aid Directory, 4ª ed. 1988 (a 5ª edição será
em breve publicada). Consideremos, a título de exemplo, os Organismos que
são Membros do «Cor Unum»: Association Internationale des
Charités de St. Vincent de Paul (AIC), Caritas Internationalis, Unione
Internazionale Superiori Generali (U.I.S.G.), Unione Superiori Generali
(U.S.G.), Australian Catholic Relief, Caritas Italiana, Caritas Liban, Catholic
Relief Services, U.S.C.C., Deutscher Caritasverband, Manos Unidas, Organisation
Catholique Canadienne pour le Développement et la Paix, Secours
Catholique, Kirche in Not, Société de Saint Vincent de Paul, Sécrétariat
des Caritas de l'Afrique francophone, Caritas Aotearoa (Nova Zelândia) ,
Caritas Bolívia, Caritas Española, Cáritas Moçambicana,
Misereor, Österreichische Caritaszentrale e Ordem de Malta.
77 De grande importância é a Unidade IV, do Conselho Mundial
das Igrejas, em Genebra; mencione-se também a obra da Cruz Vermelha no
mundo.
78 Cf. nota n. 49.
79 JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Tertio millennio
adveniente (1994), n. 12, AAS 87 (1995) 1, 13.
80 Cf. Ibidem, n. 13, l.c. 13-14.
81 CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Pastoral Gaudium
et spes (1965), n. 39.
82 JOÃO PAULO II, Meditação por ocasião
da vigília de oração no «Cherry Creek State Park»
(E.U.A.), no âmbito da celebração do VIII Dia Mundial da
Juventude, 14 de Agosto de 1993, ed. port. de L'Osservatore Romano de 22
de Agosto de 1993, I, n. 2, pág. 9, AAS 86 (1994) 5, 416.
83 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Tertio millennio
adveniente (1994), n. 51: «... propondo o Jubileu como um tempo
oportuno para pensar, além do mais, numa consistente redução,
se não mesmo no perdão total, da dívida internacional, que
pesa sobre o destino de muitas nações», l.c. 36.
84 Cf. a este propósito: H. HUDE, Ethique et Politique, capítulo
XIII «La justice sur le marché», Ed. Universitaires, Paris,
1992.
85 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus annus
(1991), n. 34, l.c. 835-836.
86 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Evangelium vitae (1995),
n. 69, AAS 87 (1995) 5, 481.
87 A Carta Encíclica Centesimus annus (1991), do Papa JOÃO
PAULO II, oferece a este propósito algumas indicações no n.
36: « ... Quando se definem novas necessidades e novas modalidades para a
sua satisfação, é necessário deixar-se guiar por uma
imagem integral do homem, que respeite todas as dimensões do seu ser e
subordine as necessidades materiais e instintivas às dimensões
interiores e espirituais. Caso contrário, explorando directamente os seus
instintos e prescindindo, de diversos modos, da sua realidade pessoal,
consciente e livre, podem-se criar hábitos de consumo e estilos de
vida objectivamente ilícitos... O sistema económico em si
mesmo não possui critérios que permitam distinguir correctamente
as novas e mais elevadas formas de satisfação das necessidades
humanas, das necessidades criadas artificialmente que se opõem à
formação de uma personalidade madura. Torna-se, por isso, necessária
e urgente uma grande obra educativa e cultural, que abranja a educação
dos consumidores para um uso responsável do seu poder de escolha, a formação
de um alto sentido de responsabilidade nos produtores e, sobretudo, nos
profissionais dos mass media, além da necessária intervenção
das Autoridades públicas... Aludo também ao facto de que a opção
de investir num lugar em vez de noutro... é sempre uma escolha moral
e cultural» l.c. 838-840.
88 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Centesimus annus
(1991), n. 60, l.c. 865-866.
89 LEÃO XIII, Carta Encíclica Rerum novarum (1891),
n. 66, Documentos Pontifícios, ed. Vozes, Petrópolis, 1990.
90 O Pontifício Conselho «Cor Unum» procurará
favorecer a concretização deste projecto.
91 JOÃO PAULO II, segunda viagem ao Brasil (12-21 de Outubro de
1991), Discurso na favela do Lixão de São Pedro, ed. port.
de L'Osservatore Romano de 3 de Novembro de 1991, n. 3, pág. 9,
Insegnamenti 1991/2, 941.
92 CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Constituição
Pastoral Gaudium et spes (1965), n. 37. Cf. também JOÃO
PAULO II, Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis (1978), nn.
27-28: «Esta concepção [do desenvolvimento]... ligada mais a
uma noção de "progresso", inspirada em considerações
filosóficas de tipo iluminista... A um optimismo mecanicista ingénuo,
veio substituir-se uma inquietude, não sem fundamento, pelo destino da
humanidade... Hoje, de facto, compreende-se melhor que a mera acumulação
de bens e de serviços, mesmo em benefício da maioria, não
basta para realizar a felicidade humana» l.c. 547-550.
93 Cf. nota n. 37.
94 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Redemptoris missio (1990),
n. 59, AAS 83 (1991) 4, 307-308.
95 Esta convicção não é difundida só
pelos cristãos. Está na base dum movimento criado recentemente nos
Estados Unidos da América, isto é, «o comunitarismo». O
sociólogo A. ETZIONI apresenta o movimento, que considera a promoção
do bem comum de todos os homens, no seu estudo The Spirit of Community.
Rights, Responsabilities and the Communitarian Agenda, Crown Publishers,
Inc., Nova Iorque, 1993.
96 Cf. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Sollicitudo rei
socialis (1987), n. 40, l.c. 569.
97 Cf. SECRETARIA STATUS RATIONARIUM GENERALE ECCLESIAE, Annuarium
statisticum Ecclesiae, Typis Vaticanis (1991), pág. 41.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO [nn. 1-3]
I
AS REALIDADES DA FOME
O desafio da fome [n. 4]
Um escândalo que dura há demasiado tempo: a fome destrói
a vida [n. 5]
A subnutrição compromete o presente e o futuro duma população
[n. 6]
As principais vítimas: as populações mais vulneráveis
[n. 7]
A fome gera fome [n. 8]
Causas detectáveis [n. 9]
A) Causas económicas
Causas profundas [n. 10]
A dívida dos países com desenvolvimento desequilibrado [n. 11]
Os programas de reajuste estrutural [n. 12]
B) Causas sócio-culturais
As realidades sociais [n. 13]
A demografia [nn. 14-15]
C) Causas políticas
A influência da política [n. 16]
A concentração dos meios [n. 17]
As desestruturações económicas e sociais [n. 18]
D) A terra pode nutrir os seus habitantes
Os notáveis progressos da humanidade [n. 19]
Os mercados agro-alimentares [n. 20]
A agricultura moderna [n. 21]
II
DESAFIOS DE NATUREZA ÉTICA A ENFRENTAR CONJUNTAMENTE
Dimensão ética do fenómeno [n. 22]
O amor do próximo para alcançar o desenvolvimento [n. 23]
A justiça social e a destinação universal dos bens [n.
24]
O oneroso desvio do bem comum: as «estruturas de pecado» [n. 25]
À escuta preferencial dos pobres e ao seu serviço: a partilha
[n. 26]
Uma sociedade integrada [n. 27]
A paz, um equilíbrio dos direitos [n. 28]
O desarmamento, uma urgência a tomar a sério [n. 29]
O respeito do meio ambiente [nn. 30-31]
Enfrentar juntos o desafio [n. 32]
Reconhecer o contributo dos pobres para a democracia [n. 33]
Iniciativas comunitárias [n. 34]
O acesso ao crédito [n. 35]
O papel primordial das mulheres [n. 36]
A integridade e o sentido social [n. 37]
III
RUMO A UMA ECONOMIA MAIS SOLIDÁRIA
Para melhor servir o homem e todos os homens [n. 38]
Fazer convergir a acção de todos [n. 39]
A vontade política dos países industrializados [n. 40]
Estabelecer equitativamente os termos do intercâmbio [n. 41]
Superar o problema da dívida [n. 42]
Aumentar a ajuda pública ao desenvolvimento [n. 43]
Reconsiderar a ajuda [n. 44]
A ajuda alimentar de urgência: uma solução temporária
[n. 45]
A concertação da ajuda [n. 46]
A segurança alimentar: uma solução permanente [n. 47]
Prioridade à produção local [n. 48]
A importância da reforma agrária [n. 49]
O papel da pesquisa e da educação [n. 50]
Os Organismos Internacionais: Associações e Organizações
Internacionais Católicas (OIC),
Organizações Não-Governamentais (ONG) e suas redes [n.
51]
A dupla missão dos Organismos Internacionais [n. 52]
Comparticipação solidária [n. 53]
IV
O JUBILEU DO ANO 2000
UMA ETAPA NA LUTA CONTRA A FOME
Os Jubileus: dar a Deus o que é de Deus [n. 54]
Tornar-se «providência» para os próprios irmãos
[n. 55]
Dignidade do homem e fecundidade do seu trabalho [n. 56]
A economia degradada pela falta de justiça [n. 57]
Rectidão e justiça na economia [n. 58]
Um apelo a favor das propostas jubilares [n. 59]
V
A FOME: UM APELO AO AMOR
O pobre chama-nos ao amor [n. 60]
A pobreza de Deus [n. 61]
A Igreja está com os pobres [n. 62]
Tanto o pobre como o rico são chamados à liberdade [n. 63]
A necessária reforma do coração [n. 64]
«Desconfiai dos ídolos!» [n. 65]
Escutar o pobre [n. 66]
Escuta a Deus [n. 67]
Mudar de vida... [n. 68]
...para mudar a vida [n. 69]
Apoiar as iniciativas [n. 70]
Cada cristão está em missão, em todas as suas
actividades [n. 71]
