No mundo actual já nada se pode esconder. Os
acontecimentos verificam-se por toda a parte onde nós estamos e com eles as
nossas responsabilidades. É impossível fugir porque o mundo se tornou pequeno
e o isolamento já não pode ser um alibi para ninguém.
Esta nova dimensão da nossa existência -
quer dizer a impossibilidade de nos escondermos - tem também um profundo
significado ético. Comporta, de facto, que não possamos mais esconder-nos nem
sequer diante das nossas responsabilidades morais. Também neste sentido o mundo
se tornou pequeno. Não podemos pensar que nada aconteceu nem voltar-nos para
outro lado, porque já não há outro lugar por onde andar.
Sem dúvida, também isto é globalização:
a globalização das problemáticas éticas e das responsabilidades morais, dos
apelos e dos compromissos. Já não podemos dizer "nada tenho a ver com
isso", ou "isso não diz respeito ao meu País", ou ainda
"isso acontece tão longe, que nada posso fazer".
Os terríveis acontecimentos de 11 de Setembro
e quanto se lhes seguiu fizeram compreender isto, em particular aos cidadãos do
mundo chamado desenvolvido, para quem a guerra aparecia, até àquele dia,
alguma coisa longínqua. Enquanto os aviões desviados caíam nos escritórios
das Torres Gémeas de Nova Iorque, fazendo rebentar juntamente com aqueles muros
múltiplas tensões mundiais, as imagens do desastre chegavam às casas, fazendo
irromper no seu carácter concreto e eminente o drama da violência e da morte.
Foi como se, de repente, o mundo inteiro, com todas as suas tensões e todos os
seus conflitos, entrasse num quarto; foi como se os dramas do mundo se fizessem
visita de nossa casa. O apelo tornava-se assim próximo e, com ele, também a
exigência urgente e inadiável de um compromisso, de uma resposta. A história
bateu a todas as nossas portas e recordou-nos que nem mesmo ali, nas nossas
casas, era possível esconder-nos. Toda a "distância" foi assim
superada e entre mundo externo e interno, privado, desapareceu toda a diferença
clara.
Ao mesmo tempo, todos demos conta,
principalmente, da inédita radicalidade do problema da paz. Mesmo, o irromper
da guerra no dia-a-dia e daí a perda de todo os seus aspectos de
convencionalidade, mesmo a sua posição potencial ao lado de cada um nós,
mostrou o seu rosto niilista e o seu desenvolvimento para além de toda a lógica.
Isto assustou-nos, porque o homem sempre procurou agir, de modo a que a guerra,
mesmo no seu carácter trágico, fosse controlável de qualquer modo, delimitado
e reconduzível a uma lógica qualquer.
Por todos estes motivos, parece-me que todos
os apelos à paz ressoam de modo particular no dia-a-dia. Diante deste quadro,
novo em parte, a Igreja sente a necessidade e o dever de convidar todos os
homens a uma maior reflexão sobre a paz, para compreender o seu novo rosto
neste início de milénio e o compromiso que ela pede a cada um de nós.
Quando falamos de dia-a-dia, pensamos
erroneamente voltar a uma dimensão de escassa e menor importância. Por outro
lado, o quotidiano é o âmbito que nos fica mais próximo e, precisamente
porque envolve a nossa pessoa, particularmente denso de significado. O sentido
de viver mostra-se sobretudo nas acções e nas relações quotidianas entre as
pessoas. O quotidiano não é o "privado", ele tem um forte valor público
enquanto é lugar de encontros e de projectos. A guerra, sobretudo mas não só
a do terrorismo, invadiu também este campo existencial de cada dia. Cada um de
nós se sentiu ameaçado na vida quotidiana pela possibilidade que rebente uma
bomba mortífera ou que seja conduzida de qualquer forma, mais ou menos
invasiva, uma guerra química ou bacteriológica. Um escritório invadido por um
avião desviado é uma imagem forte, que produziu esta nova sensação de também
ver penetrar o conflito no lugar do nosso trabalho quotidiano. As notícias de
bombas que rebentam nas praças e restaurantes e a possibilidade de ser
atingidos pela morte, como inimigos de guerra, enquanto estamos ocupados a fazer
os gestos mais banais de cada dia, insinuam um sentido de insegurança que diz
respeito ao aspecto diário da existência de tantas mulheres e homens.
É por isso que a resposta de paz deve começar
precisamente pelo quotidiano. Hoje, a primeira virtude é mesmo a de revestir os
gestos quotidianos de um novo significado de paz e de fraternidade, de estar no
lugar próprio, de cumprir com dedicação o dever que nos compete. O nosso
trabalho de cada dia, a vida em família e com os nossos vizinhos e com o nosso
"próximo" pode assumir uma nova tonalidade de pacificação e de
acolhimento, de entendimento e de compreensão recíproca.
A paz tem necessidade de fortes pacificadores,
mas ninguém acredite que o quotidiano seja menos comprometedor do que tudo o
que era julgado excepcional. Muitas vezes, um gesto concreto de proximidade
torna-se muito difícil e exige uma notável força moral. Diz o Senhor:
"Quem crê em Mim realizará as obras que Eu realizo e fará coisas cada
vez maiores" (Jo 14, 12). Com a força da fé e com a ajuda do
Senhor podem realizar-se grandes coisas em favor da paz, mas não se julgue que
"grandes" queira dizer excepcionais. Grande pode ser também um gesto
do dia-a-dia. Nas suas múltiplas intervenções sobre o tema da paz, depois dos
massacres do 11 de Setembro e durante a guerra no Afeganistão, o Santo Padre
pediu muitas vezes gestos concretos de paz e, se quisermos, simples: a
compaixão pelas vítimas, as ajudas aos sobreviventes, a solidariedade com os
prófugos, a oração por todos. Esta oração - escreve ele na Mensagem para o
Dia Mundial da Paz - "não é um elemento que "vem depois" do
empenho pela paz. Pelo contrário, está no âmago do esforço para a edificação
de uma paz na ordem, na justiça e na liberdade. Orar pela paz significa abrir o
coração humano à irrupção da força renovadora de Deus. Com a força
vivificadora da sua graça, Ele pode criar oportunidades mesmo onde pareça que
existam somente obstáculos e retraimento; pode reforçar e ampliar a
solidariedade da família humana, apesar de velhas histórias de divisões e
lutas" (n. 14).
O cristianismo tem muito a dizer a este propósito.
Cristo disse: "deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz" (Jo 14,
27). Expressa no dia-a-dia, enquanto dada e vivida no encontro pessoal com Ele,
na casa de Nazaré ou no Cenáculo, vendo bem, trata-se de uma paz destinada a
entrar no nosso quotidiano. Os "pacificadores" (Mt 5, 9),
felizes aos olhos do Filho de Deus, inserem a profecia nos pequenos gestos de
cada dia, porque "quem é fiel no pouco, é fiel também no muito" (Lc
16, 10). Se a guerra entrou nas nossas casas, ou seja, no quotidiano da
nossa vida, torna-se ainda mais urgente que parta precisamente das nossas casas
o trabalho de pacificação e de nova humanização das relações sociais.