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SECRETARIA DE ESTADO DA SANTA SÉ
INTERVENÇÃO DA SANTA SÉ NO CONSELHO ECONÓMICO E SOCIAL DA O.N.U.
1° de Julho de 2003
Senhor Presidente
Esta é uma circunstância singular para a
comunidade internacional debater e abordar a eliminação da pobreza e a sua
relação com o desenvolvimento sustentável nas áreas rurais. Os nossos trabalhos
contribuem para a realização das nobres finalidades realçadas pelo Consenso de
Monte Rei, da Conferência Internacional sobre o Financiamento ao Desenvolvimento,
e pela Declaração de Joanesburgo, do Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento
Sustentável. Eles abordam também, directa ou indirectamente, os oito objectivos
da Declaração do Milénio, da Organização das Nações Unidas. Na medida em que
progredimos nas nossas deliberações, devemos também ter em consideração o
reconhecimento da Declaração Ministerial de Doha, sobre a necessidade de
facilitar a ligação entre o desenvolvimento rural e a redução da pobreza.
Antes de abordar e de confirmar as suas
preocupações acerca das questões rurais, a minha Delegação gostaria de prestar
uma calorosa e reconhecida homenagem aos milhares de mulheres e de homens que
dedicam a sua própria vida ao trabalho nos campos, oferecendo à humanidade os
frutos do seu trabalho. Quereríamos confirmar o nosso compromisso, de modo
particular em relação às pessoas cuja existência e dignidade humanas são
ameaçadas pela pobreza das áreas rurais.
A criação de uma vigorosa aliança de
desenvolvimento, que conte inclusivamente com a participação de organizações
internacionais, governos, organizações não governamentais (ONGs), toda a
sociedade civil, investimentos nos campos da agricultura e da lavoura, tanto nos
países mais desenvolvidos como nas nações em vias de desenvolvimento, há-de
realçar a unidade da família humana. Esta aliança deve reconhecer que os
indivíduos mais abençoados com recursos económicos e com o poder de os utilizar
são chamados a abordar de forma solidária o flagelo das pessoas mais vulneráveis.
A unidade da própria humanidade está em perigo, quando as desigualdades
internacionais e económicas dividem os membros da família humana em castas
económicas injustificáveis. Além disso, esta aliança pode ainda contribuir para
a manutenção da paz e da segurança a nível internacional, que a Organização das
Nações Unidas é obrigada a fomentar.
E ela pode promover também o relacionamento
entre todos os povos, o que fortalecerá os vínculos da solidariedade.
Existe, outrossim, a questão da justiça, que
deve prevalecer no mundo da economia. Já se afirmou que a forma mais verdadeira
de justiça é a fraternidade autêntica. Contudo, como é que pode a verdadeira
justiça existir, se o nosso vizinho pobre, que trabalha no campo da agricultura,
não é considerado como amigo, nem como nosso semelhante em humanidade? O
reconhecimento da inter-relação e da interdependência dos interesses sociais,
económicos e políticos de todos os países e povos vai levar a comunidade das
nações a percorrer de novo o caminho de promoção da justiça autêntica. As
ameaças materiais que, actualmente, desafiam as nações já desenvolvidas serão
reduzidas e talvez mesmo eliminadas, se a pobreza for diminuída. A prosperidade
e o progresso autênticos, a nível mundial, dependem da unificação dos interesses
de todas as pessoas.
A Santa Sé aproveita esta oportunidade para
fazer um apelo a uma estratégia integrada que leve a uma série de generosas
concessões económicas e comerciais, sem exigir a reciprocidade, pelo menos a
curto prazo. No centro desta estratégia existe um princípio de responsabilidade
colectiva, mediante a qual as deficiências e as condições menos favoráveis dos
países mais pobres deveriam ser melhoradas e resolvidas pelas nações mais ricas,
como se fossem seus próprios problemas internos. Na realização desta estratégia,
a aliança em benefício do desenvolvimento deveria ter em mente os seguintes
elementos:
O limite das práticas económicas estrangeiras,
que oferecem uma forma de alivio temporário mas não revigoram a economia das
áreas rurais, de tal maneira que os seus habitantes possam tornar-se actores
económicos e sociais activos, capazes de oferecer a sua própria contribuição
para o bem comum nacional e também internacional.
As novas práticas, que privilegiam tanto o
desenvolvimento sustentável como a expansão da produtividade das lavouras
familiares, deveriam ser encorajadas juntamente com as oportunidades de produção
de empregos no contexto das áreas rurais.
A definição e o revigoramento de regras de
igualdade, reguladoras do comércio internacional que, por sua vez, fomente a
participação determinante nas economias rurais e que não favoreça unicamente os
interesses das economias dos países desenvolvidos. Estas regras deveriam
promover uma maior igualdade entre as partes interessadas, de tal maneira que
mesmo os Estados mais pobres se tornem participantes competitivos nas economias
mundiais. As regras que eliminam ou que, pelo menos, reduzem os subsídios para a
exportação, oferecidos pelos Estados mais desenvolvidos ao sector da agricultura
doméstica, seriam uma demonstração deste elemento.
A diminuição da divida, prevista para eliminar os obstáculos que impedem a
recuperação e o crescimento das economias dos países em vias de desenvolvimento,
e também para promover novos recursos financeiros com vista ao desenvolvimento
agrícola.
O encorajamento dos investimentos
particulares e públicos, em ordem a uma educação primária e secundária mais
sólida para as crianças e a um sistema de assistência médica básica, que
reduziria substancialmente o impacto não apenas do hiv/sida, mas também de todas
as enfermidades que ameaçam os pobres das áreas rurais, como a malária, o tifo,
a cólera e a tuberculose.
A ajuda económica em beneficio dos programas
de assistência médica pública deve ser considerada não simplesmente como um
alívio humanitário aos membros mais vulneráveis da comunidade rural, mas também
como parte de uma estratégia económica e social destinada a melhorar as
condições dos trabalhadores que constituem a força-trabalho nas áreas rurais do
mundo inteiro. Os membros sadios da força-trabalho hão-de permitir que os
Estados em vias de desenvolvimento mantenham relações comerciais a longo prazo
com os outros Estados.
O encorajamento de investimentos que ajudem a eliminar a subalimentação e
contribuam para o desenvolvimento de fontes adequadas de água potável. A
alimentação e a hidratação apropriadas são elementos essenciais para a
participação vigorosa das pessoas nas relações comerciais com os outros.
A identificação e a eliminação das causas
fundamentais dos conflitos armados regionais que atingem os cidadãos inocentes
e, muitas vezes, os habitantes das áreas rurais, como vítimas dos mesmos
conflitos.
A promoção da partilha da tecnologia entre os
países mais desenvolvidos e os Estados em vias de desenvolvimento, de maneira
especial das tecnologias que o desenvolvimento rural sustentável, a segurança
alimentar, a salvaguarda do meio ambiente e a exportação dos produtos agrícolas
tornam mais compativeis reciprocamente.
Senhor Presidente
O mundo contemporâneo está a viver numa paz
frágil. Um número demasiado elevado de pessoas vive desprovido de esperança,
desiludido com promessas feitas mas não mantidas, enquanto continua a perder a
confiança na eficácia dos encontros regionais e mesmo internacionais.
É a procura de uma solução para o desespero dos pobres que deverá fomentar a
continuação do trabalho da comunidade internacional. Não podemos deixar que o
nosso trabalho termine aqui. A comunidade internacional não pode permitir que se
passe sequer mais um dia sem procurar, com toda a energia e determinação
possíveis, alcançar os objectivos e obter um progresso notável rumo à eliminação
da pobreza.
Já se alcançou um determinado progresso,
definindo uma aliança pública e particular em benefício do desenvolvimento, que
será fundamental na eliminação da pobreza, de maneira especial da pobreza que
está a ser experimentada pelas pessoas que vivem nas regiões rurais do mundo
inteiro. A nossa reunião conjunta aqui mostra que existe uma esperança, um
compromisso e um movimento honesto rumo à eliminação da pobreza, a qual impede o
desenvolvimento autêntico de todos os povos e sociedades. Um bom fundamento para
a edificação de um futuro mais promissor para toda a humanidade está realmente
ao nosso alcance. Oxalá sejamos abençoados com a sabedoria e a coragem, em ordem
a construirmos sobre a promessa que está a ser feita por parte desta aliança, em
benefício de toda a humanidade.
Obrigado, Senhor Presidente!
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