Senhor Presidente
No início da V Conferência dos Estados signatários da Convenção
de Otava, a Delegação da Santa Sé gostaria de exprimir-lhes as suas
felicitações, assegurando-lhe a nossa cooperação a fim de que este encontro
possa ser um sucesso tanto para todas as Partes interessadas, como para todas as
comunidades atingidas pelo problema das minas anti-homem. Quereríamos agradecer
de maneira especial o governo e o povo do Reino da Tailândia, a calorosa
hospitalidade e a disponibilidade que nos quiseram oferecer.
É-nos particularmente grato observar que a destruição eficaz dos
depósitos de minas anti-homem, por parte do governo tailandês, completada no
passado mês de Maio. Assim, a Tailândia une-se aos numerosos outros Estados
signatários da Convenção, que destruíram completamente os seus
aprovisionamentos. Contudo, ainda há uma grande necessidade de ajudar a
Tailândia a eliminar as minas e assistir as vítimas das minas, a nível
financeiro ou técnico.
A Convenção de Otava é um exemplo de um instrumento
internacional que, na sua intenção e na sua aplicação, constitui uma resposta a
uma realidade, muito trágica, que a Comunidade Internacional não pode ignorar. A
base para enfrentar este desafio encontra-se no contexto da "multilateralidade",
ou seja, a cooperação internacional, a responsabilidade compartilhada, a
participação da sociedade civil, a solicitude das comunidades particulares pelas
quais se está a levar a cabo este esforço e o respeito pelas obrigações
precedentemente assumidas.
Estes elementos da multilateralidade permanecem como o
fundamento para o bom êxito de todos os compromissos assumidos a nível
internacional. Sem dúvida, a Família das Nações pode sentir-se feliz por esta
iniciativa.
O Relatório de Controle das Minas 2003, que nos foi apresentado
pela Campanha Internacional de Proibição das Minas Anti-Homem, contém um bom
número de descobertas significativas. As notícias de novos encontros e
ratificações desde a IV Conferência dos Estados signatários são bem-vindas,
assim como o é a continuação da proibição de facto do comércio das minas
anti-homem entre os Estados.
O incremento das ofertas de ajuda no campo das minas, ao longo
do ano passado sobretudo ao Afeganistão também constituíram um sinal positivo. E
o que é mais importante, é que na maioria dos países atingidos pelas minas houve
menos vítimas de tais armas. Infelizmente, ainda não há uma assistência
suficiente para o cuidado e a reabilitação das pessoas que sobreviveram às
minas, não obstante elas sejam um dos principais objectivos desta Convenção.
Embora todos nós possamos ficar satisfeitos com estes
desenvolvimentos positivos, é necessário abordar os desafios que ainda
subsistem. Os objectivos humanitários dessa Convenção constituem os projectos
centrais que não podem ser esquecidos. A assistência às vítimas e a sua
reabilitação na vida sócio-económica são prioridades absolutas.
As vítimas necessitam de uma atenção especial durante muitos
anos, e mesmo por décadas no futuro. A assistência às vítimas não pode ser
separada do esforço que se leva a cabo em vista do desenvolvimento. A maioria
das vítimas vive em países atingidas pela guerra e pela pobreza extrema. A coisa
mais importante é escutar as comunidades e as pessoas atingidas por este
problema e, juntamente com elas, responder de maneira adequada às suas
necessidades tanto imediatas como a longo prazo.
Senhor Presidente
A destruição dos depósitos de minas parece progredir em
conformidade com o esquema definido pela Convenção. Contudo, a eliminação das
minas continua a constituir um desafio, e não apenas para os países atingidos,
mas também para as outras nações. Se quisermos libertar milhões de pessoas,
comunidades inteiras e dezenas de países do flagelo das minas anti-homem, são
necessárias uma maior cooperação e sobretudo uma assistência técnica e
financeira.
Se desejarmos que o desenvolvimento de numerosas regiões se
torne uma realidade, então os Estados signatários da mencionada Convenção devem
duplicar os seus esforços e recorrer os instrumentos necessários para apressar a
eliminação das minas. Se quisermos que as crianças do século XXI vivam livres do
medo de morrerem ou de serem feridas, então é preciso um renovado impulso de
generosidade e de humanidade. O facto de estarmos cada vez mais conscientes da
nossa responsabilidade ajudará milhares de vítimas concretas e salvará milhares
de pessoas de se tornarem, também elas, vítimas potenciais.
Os desafios são imensos, mas há a disponibilidade de
instrumentos para lhes responder. A Santa Sé considera muito importante o
processo de preparação da primeira Conferência de Revisão, a realizar em Nairobi
(Quénia). Esta Conferência é o nosso próximo passo ao longo do caminho,
longo mas difícil, rumo a um mundo sem minas anti-homem.
A resolução firme de todas as partes interessadas, em ordem a
respeitar o espírito e a letra da Convenção, é o requisito absoluto que ajudará
a encontrar soluções concretas para alcançar os nossos objectivos. Fazer com que
a nossa Convenção seja universal deve continuar a ser a nossa prioridade. Os
países importantes que produzem minas anti-homem e, em geral, as nações que são
por elas atingidas devem procurar tornar-se membros (desta Convenção),
participando nos esforços gerais levados a cabo em vista de obter um mundo livre
de minas.
Senhor Presidente
Nada pode justificar o recurso às armas que matam, mutilam ou
ferem de maneira indiscriminada, que atingem populações civis mesmo depois de
muito tempo após o termo dos conflitos, e que impedem o desenvolvimento das
regiões atingidas pela guerra.
Já chegou o momento, e agora é urgente que corrijamos os erros
do passado. Gostaríamos de esperar que a humanidade não repita os erros, ao
tomar decisões semelhantes no que se refere ao armamento. Só a paz, a justiça e
o desenvolvimento são capazes de criar, tanto a nível nacional como
internacional, as condições de uma segurança concreta para toda a
humanidade.
Obrigado!