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INTERVENÇÃO DA DELEGAÇÃO DA SANTA SÉ Viena, 17 de Setembro de 2003
Senhor Presidente A Delegação da Santa Sé une-se aos porta-vozes que a precederam,
felicitando-o pela sua eleição como Presidente da 47ª Conferência Geral e
gostaria inclusivamente de exprimir a sua estima pela liderança do
Director-Geral neste importantíssimo ano para a Agência. Dirijo a mesma
expressão de agradecimento ao Secretariado e aos membros do Escritório, pelo
seu serviço dedicado. Senhor Presidente 1. As notícias que, diariamente, nos chegam das várias regiões
do mundo aumentou o sentido de precariedade e de medo na sociedade. Isto
deve-se, entre outras coisas, ao terrorismo, que parece ter dado início a uma
"guerra sem fim"; à situação corrente no Iraque e na Terra Santa; a numerosos
flagelos que ameaçam a segurança das nossas sociedades; e a algumas tendências
ameaçadoras nos campos da incolumidade e da segurança nuclear. O momento actual
da história apresenta renovados desafios e novas oportunidades à Agência
Internacional para a Energia Atómica que, desde a sua fundação, se tem dedicado
à realização e à promoção de uma visão dos "Átomos pela Paz", com a finalidade
de impedir a proliferação das armas nucleares e a sua eventual eliminação, e de
compartilhar tecnologias nucleares incólumes seguras, em aplicações pacíficas
para o benefício da humanidade. As três áreas de actividade da Agência, ou seja, os programas de
cooperação nos campos da tecnologia e da técnica nuclear; a incolumidade e a
segurança nuclear; e a verificação nuclear estão ao serviço desta única
perspectiva fundamental. 2. A paz é um edifício em construção perene e o mundo inteiro é
chamado a fomentar a promoção autêntica da cultura da paz, fundamentando-se no
primado do direito e do respeito da vida humana. No início do terceiro milénio,
deveríamos promover incansavelmente um clima de confiança, de cooperação e de
respeito entre todos os Estados. Um aspecto indispensável para a realização
concreta de uma cultura de vida e de paz é na opinião da minha Delegação a
prontidão para o diálogo. Nesta ocasião, a minha Delegação gostaria de recordar
o papel central dos princípios do direito como uma garantia das relações
internacionais, orientadas para a promoção da paz entre as nações. Neste momento
decisivo da história, o espírito da ilegitimidade deve ser recuperado no campo
internacional. A volta ao valor do direito e às instituições, que deveriam estar
em condições de garantir a sua validade, é o melhor modo de impedir os conflitos.
Senhor Presidente 3. A Agência Internacional para a Energia Atómica tem prestado
grandes serviços aos seus Estados membros e a toda a comunidade internacional.
Agora, gostaria de abordar alguns sectores do trabalho da Agência, que a minha
Delegação considera de enorme importância. No que diz respeito às actividades de verificação nuclear,
permiti-me mencionar as pessoas que trabalharam ou que hoje trabalhm como
inspectores da segurança nos diferentes Estados membros. Sem dúvida, o seu
profissionalismo e o seu compromisso no cumprimento do mandato que lhes é
próprio, especialmente no que se refere às resoluções 687 (1991) e 707 (1991),
do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, em seguida retomadas
pela resolução 1441 (2002) do mesmo Conselho de Segurança, receberam um grande
reconhecimento. As experiências dos últimos dois meses esclareceu que a Agência
e os seus inspectores realizaram muitas vezes um trabalho excelente. Este facto
chama a nossa atenção para outro requisito necessário para o funcionamento
eficaz da verificação nuclear e para o trabalho dos nossos inspectores: todas
as partes interessadas deveriam facilitar a sua missão, ofercendo-lhes tempo
suficiente, assistência material, serviço informativo e ajuda científica. Ao
mesmo tempo, encorajamos a Agência a revigorar o seu sistema de salvaguarda para
aumentar a possibilidade de interceptar qualquer programa clandestino de
armamento nuclear. 4. O ano passado foi um período extremamente difícil para a
Agência, no campo da verificação. Esta actividade principal torna-se cada vez
mais crucial, nos esforços da comunidade internacional, em ordem a impedir a
proliferação das armas nucleares. É importante que a verificação seja realizada
mediante inspecções imparciais internacionais, uma vez que somente tais
actividades podem gerar a credibilidade e dar bons resultados. Contudo, para que
o mundo seja mais seguro, não é suficiente verificar a situação actual no campo
das armas nucleares: temos necessidade de revigorar o processo de desarmamento
nuclear, incluindo um progresso concreto na desmontagem das armas nucleares.
Neste contexto, gostaria de citar as palavras que o Papa João Paulo II dirigiu
ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: "O direito internacional, o
diálogo franco, a solidariedade entre os Estados e o exercício nobre da
diplomacia são os meios dignos do homem e das nações para resolver as suas
contendas. Digo isto, pensando em quantos ainda põem a sua confiança nas armas
nucleares e nos demasiados conflitos que ainda mantêm como reféns os nossos
irmãos em humanidade" (Discurso durante a apresentação dos bons votos
para o novo ano, 13.1.2003, em: L'Osservatore Romano de 18 de
Janeiro de 2003, pág. 6, n. 4). 5. O incremento da pobreza, que é causado também pela falta de
acesso à água e não apenas de água potável para um número cada vez maior de
habitantes da terra, e o controle dos recursos aquáticos do nosso planeta exigem
soluções novas e criativas. A Agência foi eleita para presidir, nos anos de
2002-2004, à "UN Water", uma Comissão de coordenação entre várias
Agências, em favor da água potável. Elogiamos a liderança da Agência na "UN
Water"; a participação activa dos funcionários da Agência Internacional para
a Energia Atómica tem levado à definição de programas conjuntos neste campo. Já
passaram quarenta anos desde que a Agência Internacional para a Energia Atómica
realizou a sua primeira Assembleia a nível mundial, sobre os recursos aquáticos;
ao longo deste período, foram organizados cerca de cento e cinquenta
projectos, em sessenta países, para melhorar o controle da água, recorrendo à
hidrologia isótopa. 6. A Agência tem sido activa no campo da utilização da potência
nuclear em ordem à beneficiação da água do mar. Para a minha Delegação, parece
ser uma excelente decisão centrar as actividades de beneficiação nuclear da
Agência em prol de projectos a realizar num determinado país. Encorajamos a
Agência a dar continuidade a estas actividades, em cooperação com os interesses
dos Estados membros. Senhor Presidente 7. Fugit irreparabile tempus! escrevia o poeta Virgílio,
há dois mil anos. Isto significa que a cada dia envelhecemos um pouco; contudo,
não só nós, mas também as nossas instalações nucleares. O desmantelamento das
usinas e das instalações nucleares está a tornar-se uma actividade significativa
a nível mundial. Já existem algumas experiências neste contexto, mas ainda há
muitas interrogações a responder. Como o Director-Geral mencionou no seu
Relatório à Conferência Geral, no documento GC (47)/INF/3, "ainda não existe um
acordo internacional acerca de alguns dos pontos-chave para o desmantelamento;
de modo particular, (não há) critérios para a reciclagem ou a disposição de
enormes quantias de material de construção levemente contaminado, e para a
cessão das terras e dos edifícios descontaminados para um novo uso geral". Estão
a ser empreendidas negociações internacionais neste sentido. Exortamos a Agência
a participar activamente nelas, oferecendo a sua vasta experiência e os seus
excelentes recursos humanos, para fazer com que tais negociações cheguem a obter
bom êxito. Em síntese, gostaria de exprimir a estima da Santa Sé pelos
esforços levados a cabo pela Agência, em ordem a colocar a energia nuclear ao
serviço da paz e de um desenvolvimento sustentável e duradouro para toda a
família humana. Obrigado, Senhor Presidente! |
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