Senhor Presidente
Em primeiro lugar, em nome da minha delegação, permita que lhe exprima a
nossa sincera gratidão por guiar esta Reunião de Alto Nível sobre o Hiv/Sida,
uma inciativa muito oportuna que manifesta a resolução da comunidade
internacional de criar estratégias mais efectivas para enfrentar os desafios que
esta epidemia origina e outras enfermidades que se possam prevenir, como a
malária, a cólera e a tuberculose. A minha delegação deseja prestar homenagem ao
compromisso pessoal do Secretário-Geral na luta contra o Hiv/Sida, e agradecer-lhe
a ampla informação sobre o progresso no incremento da Declaração de Compromisso
sobre o Hiv/Sida da 26ª Sessão Especial desta Assembleia Geral.
O Hiv/Sida foi e continua a ser uma das maiores tragédias do nosso tempo. Não
se trata apenas de um problema de saúde de enorme gravidade, mas também de uma
questão social, económica e política; e, como a minha delegação já realçou
muitas vezes aqui nas Nações Unidas e em foros semelhantes noutras partes,
trata-se também de uma questão moral, devido à qual as causas da epidemia
reflectem claramente uma grave crise de valores. A sua rápida difusão e as
trágicas consequências não pouparam nenhuma parte geográfica da família humana.
Calcula-se que mais de 70 milhões de pessoas morrerão devido à Sida nos próximos
vinte anos. Em 2001, por ocasião da Décima Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos
da Igreja Católica, os Bispos da África Subsariana fizeram um apelo à comunidade
internacional a fim de obter uma ajuda imediata na sua batalha contra este
flagelo que "está a fazer uma assustadora colheita de mortos" na mencionada
região (L'Osservatore Romano, 11 de Outubro de 2001). De facto, uma
grande maioria dos que faleceram e dos que se calcula que falecerão devido à
Sida, bem como dos que estão infectados com o vírus, encontram-se na África
Subsariana.
Permita-me que chame a sua atenção para um dos grupos mais vulneráveis das
vítimas do Hiv/Sida, ou seja, as nossas crianças. Muitas delas foram e continuam
a ser vítimas desta epidemia, quer porque foram infectadas pelo vírus, que lhe
foi transmitido ao nascer, quer porque ficaram órfãs devido à morte prematura
dos seus pais causada pela Sida. O Hiv/Sida está a causar um grande aumento da
mortalidade infantil: dos 19 milhões de pessoas que morreram devido à Sida no
ano passado, 3, 8 milhões eram crianças de idade inferior aos quinze anos.
Durante as últimas duas décadas, deixou mais de quatorze milhões de crianças
órfãs, mais de onze milhões das quais se encontram na África Subsariana. E, de
acordo com um cálculo, no ano de 2010, só na África, haverá mais de 40 milhões
de órfãos devido à Sida, 95% dos quais será portador do vírus.
A urgente necessidade de tratamento para estes enfermos jovens pode ser
satisfeita com os progressos da ciência médica. Infelizmente, o custo do
tratamento médico é elevado e muitas vezes não está ao alcance não só dos pobres
mas também da classe média. Este problema económico agrava-se devido a questões
legais, tais como interpretações contenciosas do direito à propriedade
intelectual. A minha delegação sente-se confortada pelo acordo da OMC
(Organização Mundial do Comércio) obtido em 30 de Agosto de 2003, que fará com
que seja mais fácil para os Estados mais pobres importar remédios genéricos mais
económicos fabricados sob licença obrigatória. Este acordo deveria dar a estes
jovens doentes maior acesso aos medicamentos. Ousamos esperar que surjam muito
depressa expressões mais concretas de vontade política e coragem moral como
esta. Mas quem padece de Hiv/Sida não recorre apenas a casas farmacêuticas em
busca de ajuda; a sua referência à vontade política e à coragem moral dirige-se
principalmente a toda a comunidade internacional. De facto, enquanto há poucas
pessoas que investem nas marcas farmacêuticas que podem fornecer os medicamentos
de que estes jovens doentes desesperadamente necessitam, todos nós, como
indivíduos e como comunidade, devemos investir na nobre causa de proteger as
crianças e os jovens da infecção do Hiv/Sida e de resgatar quantos são
portadores do vírus, porque eles são o futuro da raça humana.
Senhor Presidente!
A Santa Sé e as instituições católicas não retrocederam na luta global contra
o Hiv/Sida. A minha delegação compraz-se em notar que 12% de quantos se ocupam
de doentes de Hiv/Sida são organismos que pertencem à Igreja Católica, e 13% da
ajuda global aos afectados pela epidemia provém de organizações não
governamentais católicas. A Santa Sé, graças às suas instituições em todo o
mundo, provê 25% da atenção total que se dedica às vítimas de Hiv/Sida,
incluindo-se desta forma entre os principais promotores nesta matéria, sobretudo
entre os que estão mais presentes e os que dedicam mais atenção às vítimas.
De facto, no fim deste ano, através do Pontifício Conselho para a Pastoral no
Campo da Saúde e diversas organizações católicas, a Santa Sé terá alcançado o
seu objectivo de possuir instituições e programas em funcionamento em todos os
países da África Subsariana, e de começar novos no Brasil, Argentina, México,
Tailândia e Lituânia, que se vão juntar aos que já existem noutros países em
todo o mundo. Oferecem uma vasta gama de serviços, que vão de campanhas de
conscientização à educação para um comportamento responsável, da assistência
psicológica ao apoio moral, centros de alimentação para órfãos, tratamento
hospitalar, assistência a domicílio e nas prisões para enfermos de Hiv/Sida.
Desta forma, com a finalidade de coordenar melhor as suas actividades, a
Santa Sé criou uma Comissão "ad hoc" sobre a luta contra o Hiv/Sida. A Comissão
pretende expressar a sua preocupação especial pela África Subsariana, onde o
sofrimento é mais intenso, e prestar especial atenção aos problemas de
condenação e discriminação que acompanham esta enfermidade, ao acesso ao
tratamento e atenção, à educação para um comportamento sexual responsável,
incluídas a abstinência e a fidelidade conjugal, e à atenção aos órfãos por
causa do Hiv/Sida. Através destas novas iniciativas, a Santa Sé deseja
incrementar mais o seu compromisso e aumentar a sua colaboração na luta global
contra o Hiv/Sida, enquanto reafirma a sua coerência com o valor e o carácter
sagrado de qualquer vida humana.
Para concluir, permita que eu reitere a boa disposição da Santa Sé para
cooperar com o resto da comunidade internacional na luta contra este flagelo do
século, no alívio do actual impacto devastador, na detenção do seu espectro
ameaçador que põe em perigo o mundo inteiro e, desta forma, evitar que ceife as
vidas das futuras gerações. Não podemos deixar de responder a este desafio
angustiante.
Muito obrigado, Senhor Presidente.