Nova Iorque, 27 de Abril de 2004
Senhor Presidente
Esta terceira sessão da Comissão preparatória da conferência para a revisão dos
signatários do Tratado de não proliferação das armas nucleares (TNP), que se
realizará em 2005, foi convocada para fazer algumas recomendações em vista da
acção futura na longa luta que visa libertar o mundo das armas nucleares.
No início, a Santa Sé gostaria de frisar que tais recomendações deveriam derivar
do desejo conjunto de salvaguardar a integridade do Tratado. Este Tratado tem
contribuído para a promoção da paz e a segurança a nível internacional, mas
ainda resta muito a fazer. São a integridade do Tratado e a sua aplicação em boa
fé que, hoje, estão ameaçadas e que devem ser abordadas. Há que reconhecer,
infelizmente, que mais de três décadas depois do advento do Tratado de não
proliferação das armas nucleares, nove anos após a sua extensão indefinida e
quatro anos a seguir ao "empreendimento inequívoco", assumido pelos Estados
membros em ordem a alcançar a eliminação total de tais armas, através da
aplicação progressiva dos chamados 13 Passos Práticos, a integridade do Tratado
de não proliferação das armas nucleares encontra-se gravemente comprometida.
Em síntese, o Tratado de não proliferação das armas nucleares prometeu um mundo
do qual tais armas seriam eliminadas, e a cooperação da tecnologia nuclear para
o desenvolvimento passaria a ser difundida. O cerne desta cooperação antecipada
foi a negociação estipulada entre os Estados livres de armas nucleares, que
concordaram em não comprar armas nucleares, enquanto os Estados dotados de armas
nucleares se empenhariam em eliminar os seus próprios arsenais nucleares.
Senhor Presidente
A actual situação geopolítica, especialmente se considerarmos a ameaça
apresentada pelas redes de terrorismo global, que estão a adquirir armas de
destruição de massa, exige que reforcemos estes compromissos assumidos. Ao mesmo
tempo, está a tornar-se óbvio que o comércio nuclear naturalmente não pode
continuar.
Os Estados dotados de armas nucleares não deram evidência do cumprimento da
obrigação contida no seu Artigo VI, ou seja, a negociação de medidas efectivas
relativas à eliminação dos seus arsenais nucleares. Hoje, estão a ser promovidos
a modernização das armas nucleares e o desenvolvimento de novas tecnologias na
produção de armas nucleares, desafiando directamente a viabilidade do Tratado.
Continua a ser uma nota discordante no campo das relações internacionais, o
facto de alguns Estados, que se professam ardentes promotores do Tratado de não
proliferação das armas nucleares, ainda estarem ligados a políticas militares
que consideram que as armas nucleares são essenciais para a suprema garantia da
segurança. Os Estados dotados de armas nucleares deveriam ser impelidos a
revelar sob quais condições de segurança e garantias poderiam eliminar os seus
arsenais nucleares. De modo mais positivo, a obra levada a cabo pelo Grupo de
Provedores Nucleares deveria revigorar as obrigações contidas no seu Artigo I,
que consistem em não transferir armas nucleares, nem ajudar, encorajar ou
induzir qualquer Estado livre de armas nucleares a adquirir tais armamentos.
Por outro lado, os Estados membros, livres de armas nucleares, cumprem as
obrigações contidas no Artigo II, que incluem a proibição de receber,
transferir, fabricar ou então adquirir qualquer arma nuclear. Enquanto o Artigo
IV admite "o direito inalienável de todos os Estados membros, a desenvolver a
investigação, a produção e o uso da energia nuclear para finalidades pacíficas",
está a tornar-se óbvio que estas actividades pacíficas podem ser muito
facilmente transformadas em programas armamentistas. Todos nós sabemos que o
papel da Agência Internacional de Energia Atómica (A.I.E.A.) é fundamental a
este propósito e deveria ser revigorado, com uma maior vigilância da parte de
todos os Estados membros.
Outro problema é levantado pelos Estados que permanecem fora ou separados do
Tratado de não proliferação das armas nucleares. A permanência fora do contexto
do Tratado não deveria pôr tais Estados também fora das mais amplas solicitudes
no campo da não-proliferação. Pelo menos, várias formas de influência política, económica e segurança podem e devem ser utilizadas para garantir a sua
condescendência em relação às finalidades da não-proliferação e do desarmamento.
A nível da doutrina de segurança, existe a grande necessidade de ir para além da
proibição nuclear. Chegou a hora que todos os Estados respeitem a conclusão
unânime do Tribunal de Justiça Internacional, segundo a qual as negociações no
campo do desarmamento nuclear devem ser perseguidas e realizadas em boa fé, sob
um controle internacional estreito e efectivo.
A Santa Sé reitera a sua posição, de que a "paz" fundamentada nas armas
nucleares não pode constituir a paz de que estamos em busca no século XXI.
Confirmando a oposição fundamental às armas nucleares como uma ameaça à
sobrevivência da humanidade, agora os Estados membros devem centrar a sua
atenção nas recomendações que são susceptíveis de exigir o apoio de todos.
Há que prestar atenção aos chamados 13 Passos Práticos para os esforços
sistemáticos e progressivos, em vista de cumprir o Artigo VI do mencionado
Tratado; à importância de completar a ratificação exigida para a pronta entrada
em vigor do Tratado global de proibição dos testes nucleares; à necessidade de
desmantelar de modo irreversível os depósitos armamentistas tácticos e
estratégicos, de maneira transparente e verificável; ao processo de abordagem e
de controle das matérias físseis a nível mundial, de acordo com os princípios
contidos no Tratado de não proliferação das armas nucleares; e ao revigoramento
da capacidade da Agência Internacional de Energia Atómica e da adesão aos seus
protocolos.
Para que a presente agenda progrida, é necessário um diálogo a nível global.
Este diálogo deveria ser multilateral, informado pela opinião pública e
acompanhado dos pontos de vista de analistas peritos na matéria. Deve-se ter em
consideração a possibilidade de realizar uma conferência internacional, para
identificar os modos de eliminar os perigos nucleares, como foi mencionado de
forma explícita pela Declaração do Milénio, da Organização das Nações Unidas.
Profundamente preocupada com a presente crise do regime de não proliferação, a
Santa Sé oferece o seu apoio a esta iniciativa, em ordem à realização de tal
conferência.
As soluções para o terrível dilema, representado pelas armas nucleares, não
estão fora do nosso alcance. Um programa de acção que vise a eliminação de tais
armas só poderá progredir, se todos os Estados membros expressarem a sua
determinação em salvaguardar a integridade do Tratado de não proliferação das
armas nucleares.
Obrigado, Senhor Presidente!