SECRETARIA DE ESTADO
INTERVENÇÃO DE D. CELESTINO MIGLIORE NA 59ª SESSÃO DA ASSEMBLÉIA GERAL
DA ONU
5 de Outubro de 2004
Ponto 94 a: "Desenvolvimento social que inclui questões relativas à
situação social mundial, aos jovens, às pessoas portadoras de deficiência e à família".
Senhor Presidente
No âmbito da Organização das Nações Unidas, ouve-se discorrer frequentemente a
respeito do desenvolvimento em geral, mas talvez seja necessário fazê-lo de modo
mais específico acerca do desenvolvimento social. Quando reflectimos sobre as
finalidades desta nobre Organização, compreendemos que os seres humanos se
encontram no centro de tudo aquilo que realizamos. O seu desenvolvimento social
está em sintonia com a consecução da paz e da segurança, e tem um papel vital a
este propósito.
Ao longo dos anos, determinadas forças de globalização agravaram as inseguranças
associadas à pobreza e à vulnerabilidade. Os jovens, os idosos, as pessoas
portadoras de deficiência, as povoações indígenas, os migrantes, as mulheres e
as famílias têm sido marginalizados a vários níveis, tornando-se assim mais
predispostos para a pobreza. O progresso económico não é suficiente por si
mesmo, mas deve ser acompanhado pelo desenvolvimento sociopolítico, que há-de
assegurar que uma parte dos benefícios gerais tenham uma finalidade social.
Neste sentido, as estruturas políticas e os projectos de desenvolvimento, tanto
a nível nacional como internacional, deveriam criar um ambiente propício que,
por sua vez, leve à integração social, ao acesso aos serviços sociais, à
educação e aos cuidados primários da saúde, ao benefício da família, à promoção
e à salvaguarda dos direitos humanos e às liberdades fundamentais, de tal
maneira que todos se tornem protagonistas do seu próprio desenvolvimento.
É necessário recordar-nos da exortação a promover o desenvolvimento social,
feita por algumas importantes declarações publicadas pela Organização das Nações
Unidas ao longo da última década.
A minha Delegação está feliz por ver que tais declarações são citadas nos vários
documentos, desde no de Copenhaga até no de Joanesburgo, porque acreditamos no
desenvolvimento que tem como centro a pessoa humana e o desenvolvimento que
realiza a capacidade humana.
Esta concepção exige que se passe do assistencialismo à concessão dos poderes.
Significa passar de uma política em que as pessoas ou os grupos são considerados
como o objecto das intervenções, para outra política, em que eles se tornem os
protagonistas do seu próprio desenvolvimento. Para fazer com que se tornem o
centro das preocupações, seria necessário reconhecer também as suas capacidades
e potencialidades.
Senhor Presidente, permita-me chamar a atenção geral para algumas questões
específicas, a propósito do desenvolvimento social:
As políticas sociais em vista da salvaguarda das pessoas mais vulneráveis só
terão sentido e serão eficazes, se forem capazes de refortalecer os grupos
sociais naturais tanto as pequenas comunidades como as famílias em geral e na
medida em que gerarem na sociedade civil um sentido de responsabilidade em
relação às camadas mais vulneráveis.
Há que reconhecer a natureza social das crianças, das pessoas idosas e dos
portadores de deficiência. Somente a criação e o revigoramento de uma rede
social diversificada, que comece na família e seja considerada nos diferentes
níveis da sociedade, serão capazes de salvaguardar as pessoas que ainda vivem
desprotegidas.
Uma vez mais, a Santa Sé chama a atenção para a protecção da família. A minha
Delegação está firmemente convencida de que "os homens e as mulheres adultos,
sem qualquer limite de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de casar e
de instituir uma família". Neste contexto, a minha Delegação participou com
determinação no X Aniversário do Ano Internacional da Família, vista como uma
ocasião extremamente significativa para dar continuidade aos debates que hão-de
contribuir para tonificar o papel da família no mundo contemporâneo.
A Santa Sé está activamente comprometida na actual tarefa de redacção de uma
Convenção Internacional Global e Integral sobre a Salvaguarda e a Promoção dos
Direitos e da Dignidade das Pessoas Portadoras de Deficiência, enquanto se
está a preparar para redigir uma Convenção que tutele ulteriormente os direitos
das pessoas interessadas. O que está em jogo é nada menos do que o direito que
os indivíduos têm de ser membros plenos da sociedade. Os trabalhos em vista
desta Convenção devem tornar-se um veículo através do qual possamos ter em
consideração os interesses e as preocupações autênticas das pessoas que são
portadoras de deficiência.
Hoje em dia, numa sociedade rica de conhecimentos científicos e técnicos, é
possível realizar ulteriores progressos nos vários campos exigidos pela
coexistência civil: da investigação biomédica para a prevenção das
deficiências, aos tratamentos, à assistência, à reabilitação e a uma nova
integração social. Esta Convenção está a ser redigida em benefício das pessoas
portadoras de deficiência, de tal maneira que elas possam participar plenamente
no direito à vida, o qual deve ser garantido para todos.
Posso assegurar aos delegados que a Santa Sé continuará a trabalhar em prol de
um porvir melhor para todos, através do reconhecimento da dignidade
humana, que todos nós compartilhamos.
Obrigado, Senhor Presidente!
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