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SECRETARIA DE ESTADO
INTERVENÇÃO DA SANTA SÉ NA PLENÁRIA DA 59ª SESSÃO GERAL DA ONU NO
CONTEXTO "NOVA PARCERIA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ÁFRICA"
DISCURSO DE SUA EX.CIA D. CELESTINO MIGLIORE
19 de Outubro de 2004
Senhor Presidente
A minha Delegação sente-se feliz por apresentar a sua intervenção acerca
deste aspecto do progresso na implementação e na assistência internacional à
NEPAD (New Partnership for Africa Development Nova Parceria para o
Desenvolvimento da África). O contexto é o do dever que a Comunidade
internacional tem, especialmente os países mais poderosos, de voltar a estudar
os desequilíbrios económicos que continuam a penalizar a África e de a ajudar a
resolver os seus conflitos regionais e nacionais, para além do simples debate
acerca das suas causas. Os conflitos na África são do conhecimento de todos.
Contudo, as razões dos mesmos são complexas e os protagonistas ou os motivos que
estão por detrás dos mesmos não são atribuíveis exclusivamente aos Estados ou
facções africanos, mas encontram-se inclusive para além dos confins da
África e dos seus interesses.
A minha Delegação deseja reconhecer que, a propósito da construção da paz, da
segurança comum, da prevenção dos conflitos, da pacificação e da manutenção da
paz, a África está a tomar cada vez mais iniciativas, não obstante as numerosas
diversidades que deve enfrentar e a escassez de meios para as superar. O
Relatório do Secretário-Geral sobre a Promoção da Paz Duradoura e do
Desenvolvimento Sustentável na África (cf. A/59/285) analisa oportunamente os
resultados da cooperação política e militar efectiva permanente entre a
Organização das Nações Unidas (ONU), a União Africana (UA) e outras Agências
regionais e sub-regionais, como a Comunidade Económica dos Estados da África
Ocidental (ECOWAS), a Autoridade Intergovernamental sobre o Desenvolvimento (IGAD)
e numerosas outras Organizações.
A gestão dos conflitos na África Ocidental também merece ser mencionada de
modo especial. A tendência actual na harmonização dos níveis internacional,
regional e sub-regional não é apenas uma medida do bom êxito alcançado por parte
dos membros da União Africana; trata-se de um resultado que contém em si mesmo
lições valiosas para a resolução das crises inclusive noutras regiões do mundo e
para a reforma da própria Organização das Nações Unidas.
Analogamente, a nível nacional, deve-se reconhecer que há numerosos exemplos
de bom governo, direito da lei e luta contra a corrupção, sob o impulso do APRM
(African Peer Review Mechanism Mecanismo Africano de Avaliação dos
Pares), o mecanismo africano de autocontrole, fundado pela União Africana em
vista de dar continuidade à iniciativa da NEPAD, à qual um bom número de países
já aderiu. Esta gestão solidária das questões africanas por parte dos Africanos
dará lugar a importantes progressos na resolução das necessidades elementares
água potável, alimentação, alojamento, acesso à assistência médica e redução da
propagação da malária e do Hiv, sem mencionar a necessidade de um ambiente
seguro onde viver, trabalhar e educar a própria família no mundo. Juntamente com
a cooperação regional para a paz, também o papel útil desempenhado pelo
Mecanismo Africano de Avaliação dos Pares, na promoção de políticas e práticas
sólidas a nível nacional, constitui um exemplo e também um precedente para as
outras regiões do mundo inteiro.
Também deve ser acolhida a adopção do chamado "Pacote de Julho", da WTO
(Organização Mundial do Comércio), que voltou a abordar as negociações da
Reunião de Doha sobre o Desenvolvimento, especialmente desde que reconheceu
algumas das dificuldades expressas pelas nações africanas. A realização das
políticas económicas adequadas para a África, em vista da promoção do bem-estar
das famílias que vivem tanto nas regiões urbanas como rurais, e da preservação
dos valores da África, é certamente uma urgente obrigação internacional. Por
isso, é lamentável que os recentes Conselhos dos Governadores do FMI (Fundo
Monetário Internacional) e do BM (Banco Mundial), assim como o encontro dos
Ministros das Finanças dos G-8, que precederam tais Conselhos, não tenham
conseguido entrar num acordo em vista de anular a dívida dos 27 países mais
pobres do mundo. Pelo menos pode-se dizer que, pela primeira vez na história,
se alcançou um consenso sobre a necessidade de anular esta dívida.
Por outro lado, a administração dos recursos naturais merece maior atenção,
tanto da parte dos próprios Africanos como da comunidade internacional. Quando
os conflitos chegarem ao seu termo, a durabilidade da paz dependerá em grande
medida da capacidade de cada governo assumir o controle dos seus próprios
recursos naturais e de administrar a riqueza da nação de maneira transparente,
em vista de beneficiar todo o povo. Além disso, a comunidade internacional
deveria aumentar a sua contribuição para os mecanismos que previnem, a nível
internacional, a introdução de produtos que fomentam a guerra. A este propósito,
o Processo de Kimberley sobre o tráfico diamantífero é uma conquista
significativa e, ao mesmo tempo, um importante precedente que deveria ser
alargado a outros produtos estratégicos ou de alto valor.
Ainda há muito a fazer, em ordem a restabelecer a confiança entre os povos e
os grupos étnicos em todos os países, de tal maneira que uma nova estrutura de
solidariedade possa pavimentar o caminho rumo ao desenvolvimento. A evidência do
papel activo dos próprios Africanos na resolução dos conflitos mais recentes
demonstra que já começaram a surgir soluções africanas para os problemas da
África. Se permitirmos o florescimento do rico património de amizade e de
solidariedade familiar na África, ele poderia chegar a desempenhar também um
papel notável na resolução dos conflitos e da edificação da paz. A promoção de
uma maior cooperação entre as religiões na África pode vir a constituir também
um factor determinante na construção e na manutenção da paz.
Senhor Presidente, a minha Delegação formula votos sinceros por que a
colaboração em prol da paz, promovida pela Organização das Nações Unidas, pela
União Africana e por outras Agências regionais e sub-regionais, assim como pelas
iniciativas da NEPAD, alimente uma aliança verdadeira, fundamentada sobre o
sentido da responsabilidade comum. As actuais dificuldades da África, que não
são de modo algum diferentes dos problemas que se têm manifestado nas demais
regiões do mundo, deveriam ser consideradas como um leque de oportunidades para
a criação de um renovado paradigma de solidariedade global. A Organização das
Nações Unidas tem o dever de aproveitar este ensejo para demonstrar que é
realmente uma Família de Nações, pronta para ajudar as pessoas em necessidade.
Obrigado, Senhor Presidente!
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