SECRETARIA DE ESTADO
INTERVENÇÃO DE D. CELESTINO MIGLIORE NA 59ª SESSÃO DA ASSEMBLEIA GERAL DA
ONU NA APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO DA «COMISSÃO DE ALTO NÍVEL SOBRE
AS AMEAÇAS, OS DESAFIOS E AS MUDANÇAS»
31 de Janeiro de 2005
Senhor Presidente
A minha Delegação gostaria de o felicitar pela promoção deste encontro informal
da Assembleia Geral, para um intercâmbio de opiniões a propósito do "High-Level
Panel on Threats, Challenges and Change" (Relatório da
Comissão de alto nível sobre as ameaças, os desafios e as mudanças).
As recomendações do citado Relatório envolvem claramente o delineamento e a
adaptação da estrutura e dos métodos de trabalho desta mesma Organização.
Trata-se de um tema que deve ser considerado no contexto mais vasto da reforma
do governo global no seu conjunto.
A minha Delegação toma a palavra, impelida pelas expectativas que a Santa Sé tem
depositado ao longo destes últimos anos, no papel primário da lei internacional
na promoção da coexistência pacífica e do bem-estar dos povos do mundo inteiro,
assim como na parte que desempenha a Organização das Nações Unidas como seu
garante e sua força-motriz.
O documento que está a ser examinado na presente circunstância encontra-se nas
indicações da agenda relativa mais à consecução das Finalidades de
Desenvolvimento do Milénio ("Millennium Development Goals"), contidas na
Declaração do Milénio, do que aos pontos que dizem respeito à reforma da Carta
ou ao fortalecimento do sistema da Organização das Nações Unidas, e de maneira
incomparável em relação aos outros documentos mais recentes. Esta posição parece
indicar que o Relatório deve ser considerado como um documento compreensivo e
programático, propenso a ter um forte impacto a longo prazo.
No que se refere à sua forma essencial e às possíveis mudanças estruturais, o
Relatório sugere um exercício interno reformador, que empenhe o Conselho de
Segurança e a Assembleia Geral; o revigoramento do Secretariado como o principal
interlocutor; e a reforma da ECOSOC através de uma lente ligeiramente nova, isto
é, a do vínculo entre o desenvolvimento e a segurança. A minha Delegação julga a
abordagem deste último tema particularmente interessante, porque se aplica não
apenas à relação entre o conflito e a pobreza, mas inclusivamente às causas do
terrorismo, à promoção dos direitos sociais e à luta contra a pobreza e o
desemprego, entendidas como medidas de prevenção.
Por conseguinte, a Santa Sé deseja elogiar os esforços extremamente necessários
em vista de encontrar os critérios adequados para a agremiação do Conselho de
Segurança e para a actualização do sistema eleitoral da Organização das Nações
Unidas, enquanto está persuadida de que o importante e abrangente debate destes
dias ajudará a criar e a adoptar a fórmula mais oportuna para reflectir a índole
democrática, representativa e global desta Organização.
Entre os elementos concretos que podem ajudar a estimular uma
reconsideração da Organização das Nações Unidas, o Relatório apresenta um
conceito de segurança que, sob muitos aspectos, coincide com os pontos de vista
da Santa Sé acerca deste tema, uma vez que ela promove também os conceitos da
clarividência e da prevenção, e não apenas os da prevenção e da intervenção.
Deste modo, a minha Delegação sente-se feliz por manifestar o
seu apoio já expresso por numerosos oradores aqui, em prol de um debate mais
aprofundado acerca da instituição de uma Comissão de Pacificação, como se propõe
no mencionado Relatório, e sobre a sua posição mais apropriada no contexto dos
diversificados organismos vinculados à Organização das Nações Unidas.
O Relatório não põe em dúvida o delineamento da Carta nas suas propostas e nos
seus princípios ou, aliás, a lei primária desta Organização; pelo contrário, a
mesma permanece intacta. No passado, quando a Santa Sé desejou abordar a
reforma, jamais deixou de reconhecer o papel insubstituível dos princípios que
constituem o fundamento para o bom funcionamento da Organização das Nações
Unidas, como aqueles que se encontram no Artigo 2 da referida Carta,
incessantemente susceptíveis de melhorar a resposta a uma situação internacional
que se transforma de maneira contínua, e de levar à formulação de um quadro
legalmente vinculante, em vista de uma resolução pacífica e equitativa das
contendas internacionais.
Por este motivo, a Santa Sé tem o prazer de unir a sua voz à das pessoas que
elogiam a Comissão por ter abordado a problemática do recurso à força e do
direito à autodefesa. Neste sentido, formulamos votos a fim de que se continue a
abordar ulteriormente a questão do recurso à força, em sintonia com as
orientações já expressas na Recomendação 56 do citado Relatório, cujos critérios
de legitimação foram particularmente bem formulados.
A Comissão declara-se favorável à manutenção intacta do Artigo 51 da Carta, a
respeito do direito à autodefesa. A este propósito, a minha Delegação gostaria
de confirmar que a legítima defesa deve prestar uma atenção especial às pessoas
e à sua segurança. Cada Estado tem a responsabilidade de proteger o seu próprio
povo; contudo, quando ele não se demonstra capaz ou desejoso de agir deste modo,
tal responsabilidade deve ser assumida pela comunidade internacional mais vasta.
Muitas vezes, durante os conflitos mais recentes, a Santa Sé teve a oportunidade
de reiterar esta sua convicção, quando se falava sobre a "intervenção
humanitária" como de legítima defesa, e quando tal intervenção era apresentada
como uma obrigação que incumbe sobre a comunidade internacional, em ordem a
garantir a sobrevivência dos indivíduos e das comunidades, diante da acção ou
da inacção de um Estado ou até mesmo de um grupo de Estados.
A minha Delegação está convicta de que uma reforma apropriada destas
instituições irá revestir a Organização das Nações Unidas das necessárias
autoridade, credibilidade e legitimidade, para que assim ela possa agir com
maior determinação em favor da paz e do bem-estar de todos.
Obrigado, Senhor Presidente!
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