Transcorreram vinte e cinco anos depois da primeira memorável viagem de João
Paulo II à França, ocasião em que pronunciou o célebre Discurso à UNESCO, a
2 de Junho de 1980. Vinte e cinco anos, mas aquelas palavras ainda ressoam com
uma actualidade surpreendente, e com uma carga profética, se forem tomadas como
lente através da qual ler os problemas e as preocupações de hoje. Este discurso
excepcional teve o mérito de antecipar, no cerne, parte das ideias básicas do
magistério deste grande, incansável Papa sobre os temas da cultura, da relação
da cultura com a fé, com a educação e com a instrução, com a ciência e a
comunicação social, com um desenvolvimento da economia e do rosto humano, com os
direitos humanos e com um direito internacional regulado pela lógica do amor, e
não pela mera lógica do homo homini lupus. "A humanidade integral do
homem exprime-se na cultura", afirmava João Paulo II, quando ainda a palavra
"cultura" não se tinha tornado porta-bandeira, (a palavra de ordem) de
reivindicações de identidade e de batalhas para o reconhecimento. Porque falar
hoje de cultura significa ter que enfrentar todos os problemas e os desafios da
diversidade cultural e do diálogo intercultural. De facto, é através da cultura
que se abre o caminho à necessidade humana de dar voz, espessura e corpo à
questão da identidade: dado que "nem só de pão vive o homem", cada homem tem
necessidade de encontrar e assumir-se a si mesmo a partir do universo de valores
e de sentido, de representações e de expressões artísticas no qual nasceu e no
qual se formou, e para cuja transformação contribui: sempre "produto" e ao
mesmo tempo "artífice".
Longe de ser uma simples celebração, que une ao aniversário do acontecimento
a despedida pelo fim da aventura terrena de João Paulo II, a releitura atenta
deste documento conduz-nos àquela actualidade que ele tinha sempre lucidamente
presente: já consciente, nos anos em que o tema da "globalização" ainda não
estava na moda, das aspirações de dignidade e justiça, não só económicas, que
agitavam e ainda agitam por vezes dramaticamente inteiras populações. E
anunciando profeticamente que a libertação dos totalitarismos, dos imperialismos
ou das hegemonias, "para os quais o homem não conta a não ser como objecto de
domínio e não como sujeito da sua existência humana" só se poderá verificar se a
diversidade das culturas for inserida no horizonte da perspectiva fundamental da
unidade do género humano: porque só numa consideração contextual das
diversidades e da unidade é possível uma compreensão plena da verdade de cada
cultura humana. Num certo sentido, João Paulo II indicava o "choque de
civilizações", como um possível êxito terrível, o que naqueles anos era
apresentado sob forma de um apocalipse nuclear (e que ainda hoje está longe de
ser esconjurado), mas não como a natureza profunda do humano: "a paz do mundo
depende da primazia do espírito... o futuro pacífico da humanidade depende do
amor" (n. 23). Compreende-se então todo o pathos com o qual o Pontífice
exortava os membros da UNESCO a "dar provas da solidariedade mais nobre com a
humanidade: a que se funda na dignidade da pessoa humana" e a construir "a paz
começando pelo fundamento: o respeito de todos os direitos do homem, tanto dos
que estão ligados à sua dimensão material e económica como dos que se referem à
dimensão espiritual e interior da sua existência neste mundo" (n. 22).
A todos estes grandes temas João Paulo II não deu respostas "sociológicas",
ou sugestões "técnico-políticas", mas indicou caminhos luminosos e totalmente
partilháveis por quantos sabem colocar no centro de tudo o homem. Mas não um
homem que se satisfaz a si mesmo, que se interpreta prometeicamente, como
artífice e fim último, "produtor" de qualquer sentido e de todo o valor.
A fé, na sua tensão dinâmica com a cultura, "vínculo orgânico e constitutivo"
(n. 9), mostra a origem e o destino sobrenatural da pessoa humana, que é
verdadeiramente ela mesma só em relação viva com aquele Amor que é a raiz
transcendente de qualquer bem.