Nova Iorque, 11 de Julho de 2005
Senhor Presidente
O Programa de Acção, adoptado em 2001 para prevenir, combater e erradicar o
comércio ilícito de armas ligeiras e de pequeno calibre em todos os seus
aspectos, nos planos nacional, regional e global, é o primeiro documento a nível
da Organização das Nações Unidas que visa a descoberta de iniciativas que os
Estados devem tomar para enfrentar tal problemática. Este encontro constitui uma
oportunidade para rever a realização do referido Programa de Acção e para
verificar se ele ainda constitui a pedra angular, como deveria ser, da nova
estrutura legal internacional para o controle das armas ligeiras e de pequeno
calibre. Os esforços levados a cabo pelo Grupo de Trabalho destinado a abordar o
instrumento internacional em vista de tornar os Estados capazes de identificar e
de investigar, de maneira oportuna e responsável, sobre as armas ligeiras e de
pequeno calibre, parecem orientar-se nesta direcção.
Este regime constitui mais um passo rumo à promoção concreta dos direitos do
homem e da lei humanitária, capazes de "garantir o respeito pela vida e pela
dignidade da pessoa humana através da promoção de uma cultura da paz", como
ressalta o próprio Programa de Acção.
Graças também ao processo empreendido pela Organização das Nações Unidas,
parece que há uma crescente consciência internacional acerca desta questão tão
complexa. A partir de 2001, verificou-se um aumento de informações, de
experiências e de práticas mais desenvolvidas neste campo; além disso, a
sociedade civil e diversas Organizações Não Governamentais desempenharam também
um importante papel a este propósito, e continuam a fazê-lo. Contudo, tendo em
consideração a necessidade de uma abordagem que seja multidimensional e, ao
mesmo tempo, multidisciplinar, será preciso uma maior cooperação a nível
internacional, a fim de impedir de modo eficaz a propagação e a disponibilização
das armas em questão.
Tais esforços devem realizar-se em sintonia com as indicações contidas no
relatório do Secretário-Geral, intitulado In Larger Freedom ["Em maior
liberdade"], que justamente estimula a adopção de um conceito mais abrangente da
segurança colectiva, que procure fazer face às ameaças novas e antigas, e que
tenha em consideração as várias solicitudes no campo da segurança, por parte de
todos os Estados, uma vez que as ameaças que estamos a enfrentar estão
claramente interligadas. Sem dúvida, as ameaças contra os pobres tornarão
vulneráveis também os ricos.
Não é difícil aplicar esta afirmação ao problema sobre o qual estamos a
discorrer. Os esforços internacionais em vista de controlar o comércio ilícito
de armas ligeiras e de pequeno calibre está perfeitamente em sintonia com o
juízo do Secretário-Geral, segundo o qual "não pode haver desenvolvimento sem
segurança, nem segurança sem desenvolvimento".
O comércio ilícito de armas ligeiras e de pequeno calibre constituiu uma
óbvia ameaça contra a paz, o desenvolvimento e a segurança. É por este motivo
que a Santa Sé acrescenta a sua voz aos apelos em prol de uma abordagem comum
não só do comércio ilícito de armas ligeiras e de pequeno calibre, mas também
das actividades a ele relacionadas, como o terrorismo, o crime organizado e o
tráfico de pessoas, sem deixar de mencionar o comércio ilícito de drogas ou
outras actividades que visam o lucro.
Além disso, quando consideramos a oferta ilícita de armas, devemos recordar
também as dinâmicas da procura de tais armas. Esta parte da equação requer ainda
uma ulterior investigação, enquanto exige da comunidade internacional um sério
esforço concertado, em ordem a promover uma cultura de paz entre todos os
membros das nossas respectivas sociedades.
Outro aspecto que a Santa Sé considera importante são as particulares
necessidades sentidas pelas crianças vítimas dos conflitos armados, como são
descritas no Plano de Acção. As crianças precisam de ser levadas em consideração
nos programas de desarmamento, de desmobilização e de reintegração (DDR), nas
situações de pós-conflito, nas acções de manutenção e de construção da paz, bem
como nos programas de desenvolvimento, através das várias abordagens a nível das
comunidades de base.
Neste sentido, a Santa Sé corrobora as observações feitas pelo
Secretário-Geral, contidas no seu relatório de Fevereiro sobre as armas ligeiras
e de pequeno calibre, em que sugere que os programas de desarmamento, de
desmobilização e de reintegração abordem também as necessidades dos
ex-combatentes, inclusive das mulheres e das crianças, e das
comunidades receptoras.
Há que desenvolver estratégias a longo prazo, que tenham a finalidade de
debelar o flagelo da proliferação ilícita de armas ligeiras e de pequeno
calibre, em vista de promover a paz e a segurança, tanto interna como
externamente. A Santa Sé está persuadida de que o investimento na prevenção e
nos programas de manutenção e de construção da paz tem a capacidade de salvar
milhões de vidas.
Em última análise, a comunidade internacional agiria bem, se considerasse com
seriedade o debate sobre a formulação de um tratado acerca do comércio de armas,
fundamentado nos melhores princípios da lei internacional sobre os direitos do
homem e a lei humanitária. Tal instrumento poderia ajudar a contribuir para a
erradicação do comércio ilícito de armas, sublinhando também a responsabilidade
dos Estados no revigoramento do Plano de Acção que hoje estamos a abordar.
Obrigado, Senhor Presidente!