Senhor Presidente
A minha Delegação aprecia o debate oportuno sobre o relatório que agora temos
nas nossas mãos, no contexto do corrente impasse nas consultas acerca da
Convenção sobre o terrorismo. Apoiamos também todos os esforços envidados para
superar as dificuldades que continuam a impedir o progresso neste importante
instrumento jurídico.
Os parágrafos 9-10 do relatório do Secretário-Geral contêm justamente uma
clara condenação do terrorismo, fundamentado na assunção de que nenhuma causa
independentemente do seu grau de justiça pode justificar ou legitimar a morte ou
a mutilação deliberada de pessoas civis e de não-combatentes.
O terrorismo arraiga-se muitas vezes na fragmentação cultural subjacente às
tensões e divisões que infelizmente temos visto, mesmo no seio da Organização
das Nações Unidas, nas últimas semanas e meses. Por conseguinte, a Santa Sé está
preparada para participar neste importante debate, em vista de encontrar um
fundamento comum sobre o qual as nações consigam edificar estratégias que sejam
eficazes contra o terrorismo.
No início do corrente ano, o Papa Bento XVI dirigiu-se aos católicos e a
todos os homens e mulheres de boa vontade, convidando-os a vincular os seus
esforços à reflexão, à cooperação, ao diálogo e à oração, em vista de
ultrapassar o terrorismo e construir uma coexistência justa e pacífica no seio
da família humana.
Tendo em consideração a sua convicção de que, ao analisar as causas do
fenómeno contemporâneo do terrorismo, seria necessário prestar atenção não
apenas às suas motivações políticas e sociais, mas inclusive às suas mais
profundas causas culturais, religiosas e ideológicas, a exortação do Santo Padre
já deu lugar a uma miríade de debates, de iniciativas e de experiências, tanto a
nível académico como prático no mundo inteiro. Portanto, a minha delegação
sente-se feliz por observar que o Relatório que temos nas nossas mãos inclui na
sua estratégia global um componente cultural e religioso.
Os representantes recordar-se-ão que a Organização das Nações Unidas dedicou
o ano de 2001 ao diálogo entre as civilizações e, no passado mês de Novembro, o
Secretário-Geral lançou a Aliança das Civilizações. Há pouco tempo, o Foro
tripartido sobre o diálogo inter-religioso e a cooperação em prol da paz foi
também lançado em vista de unir os vários governos, o sistema da Organização das
Nações Unidas e a sociedade civil. A minha delegação formula votos a fim de que
se faça bom uso deste novo interesse no âmbito da ONU pela cooperação entre as
religiões e pela construção de pontes entre as culturas e as civilizações. Sem
dúvida, a religião possui uma potencialidade extremamente positiva, quando se
lhe oferece a possibilidade de se manifestar.
A Santa Sé deseja contribuir para as iniciativas que encorajam os fiéis a
serem agentes de paz e unir-se a todos os construtores da nossa coexistência
pacífica. Além disso, quando é correctamente entendida e vivida, a verdadeira
natureza da religião pode tornar-se uma parte da solução, e não um problema,
porque promove o compromisso e a consideração humana pela dignidade dos outros,
para o bem comum de todos nós.
Por conseguinte, esta Organização deveria encorajar os religiosos a
oferecerem esta importante contribuição, segundo a sua própria condição: isto
é, as religiões são chamadas a criar, apoiar e promover a condição prévia para
qualquer encontro, diálogo e compreensão do pluralismo e das diferenças
culturais. Senhor Presidente, esta condição prévia é a dignidade da pessoa
humana.
A nossa comum dignidade humana é um verdadeiro requisito prévio, porque é
antecedente a qualquer outra consideração ou princípio metodológico, até mesmo
do direito internacional. Podemos encontrá-la na "Regra Áurea", presente em
todas as religiões do mundo. Outra descrição deste conceito é a reciprocidade.
O encorajamento da consciência e da experiência desta herança conjunta dentro
e entre as religiões certamente contribuirá para a tradução desta visão em
categorias políticas e sociais que, por sua vez, informem as categorias
jurídicas vinculadas às relações nacionais e internacionais.
A minha delegação sente-se feliz por observar o modo como a questão do
encorajamento ao terrorismo foi abordada no relatório que temos nas nossas mãos.
Todos nós sabemos que o uso oportuno da internet e dos meios de comunicação
transformam o terrorismo num fenómeno transnacional, mundialmente coordenado,
que exige uma solução igualmente coordenada a nível planetário.
Neste contexto, renovamos o nosso apoio à resolução 1624 do Conselho de
Segurança, que condenava, "com os termos mais vigorosos, o encorajamento aos
actos de terrorismo" e, ao mesmo tempo, rejeitava "as tentativas de justificar
ou de glorificar (apologia) os actos de terrorismos, que podem fomentar
ulteriores actos de terrorismo". Medidas que visem o confronto de qualquer
pessoa ou entidade que apoie financeiramente a intolerância ou fomente o
ódio étnico e religioso, são essenciais para uma estratégia a nível mundial.
A exclusão política, social e económica das comunidades de imigrantes
alimenta a frustração dos jovens, provocando desordens em vários lugares; no
entanto, a exigência de uma solução justa para estas problemáticas é sempre
legítima. Ao resolver estas questões, rápida e equitativamente, as nações podem
privar os terroristas do oxigénio do ódio e da injustiça, reais ou imaginários,
mediante os quais eles procuram tornar legítimas as suas más acções e recrutar
as pessoas mais facilmente impressionáveis.
Não obstante o modo de pôr fim ao uso de materiais quotidianos contra alvos
mais amenos seja frequentemente o problema mais difícil para ser resolvido,
negar armas aos terroristas inclusive as chamadas "WMD", ou armas de destruição
em massa faz obviamente parte desta luta. Neste contexto, a minha delegação
aprecia a resolução 1673 do Conselho de Segurança, sobre a não-proliferação
armamentista. Concordamos também que os Estados devem ter como sua finalidade
global assegurar, e quando for possível eliminar, as armas nucleares,
biológicas, químicas e radiológicas, aumentando controles efectivos, tanto a
nível doméstico como no plano da exportação, sobre os materiais de uso duplo,
relacionados com as mencionadas armas de destruição em massa.
Além disso, na minha opinião o bioterrorismo constitui uma ameaça grave e ao
mesmo tempo seriamente subestimada. Como pudemos ver noutras arenas de acção, o
preço de permanecer impassível poderia ultrapassar excessivamente o custo de uma
iniciativa principal a ser tomada hoje, em ordem a fortalecer a capacidade dos
sistemas públicos de assistência à saúde, de abordar esta terrível
eventualidade. Entretanto, como o presente relatório nos indica, os importantes
investimentos actuais neste campo poderiam ter também consequências positivas
para a qualidade geral da assistência à saúde já disponível.
Senhor Presidente
Em última análise, as acções contra o terrorismo devem caracterizar-se pelo
não-reconhecimento do fundamento altamente moral que os terroristas se concedem
a si mesmos. Este é apenas um dos motivos pelos quais o tratamento dos
terroristas e das pessoas suspeitas deveria estar em sintonia com as normas
humanitárias internacionais, numa luta que seja uma só, tanto para os corações
como para as mentes.
Obrigado, Senhor Presidente!