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SECRETARIA DE ESTADO
DISCURSO DE DOM DOMINIQUE MAMBERTI NA COMISSÃO DA FAO PARA A SEGURANÇA
ALIMENTAR
Roma, 30 de Outubro de 2006
Senhor Presidente
Senhor Director-Geral
Excelências
Minhas Senhoras e Meus Senhores!
Sinto-me feliz por vos transmitir as saudações de Sua Santidade o Papa Bento
XVI, que me encarregou de vos garantir o seu interesse e a sua atenção pelos
trabalhos sobre a segurança alimentar e mais geralmente pela missão da FAO no
mundo. Hoje, estais chamados a interrogar-vos, dez anos mais tarde, sobre o
seguimento dado ao Vértice mundial da Alimentação. Como não recordar a
participação de Sua Santidade o Papa João Paulo II na abertura desse Vértice, a
13 de Novembro de 1996, o qual convidava a uma mudança da maneira de viver da
nossa sociedade para uma partilha mais equitativa dos recursos. Desejo expressar
a minha profunda gratidão à FAO pelo trabalho realizado em benefício das
populações mais pobres e pelo serviço que ela presta à humanidade inteira. A
vossa presença hoje realça que unicamente um esforço comum dos Responsáveis das
nações e de todas as pessoas de boa vontade permitirá alcançar os objectivos
adoptados nesse Vértice.
Como sabeis, a Igreja, por seu lado, dá a sua contribuição em todos os
continentes para vencer a fome no mundo, e sobretudo em África, a qual as nossas
sociedades ricas, que beneficiam amplamente dos recursos do continente africano,
não podem esquecer, dedicando-se a distribuir os bens segundo os princípios da
justiça e da igualdade.
Vós pertenceis a realidades e culturas diferentes, testemunhando que, em todo
o mundo, há pessoas que se preocupam pelos seus irmãos e irmãs, e se comprometem
por uma maior solidariedade entre os povos, a fim de garantir a todos os seres
humanos condições de vida conformes com a sua dignidade inalienável e com o
respeito que lhes é devido. Os temas mencionados pela vossa reunião recordam que
a segurança alimentar quer se trate da quantidade ou da qualidade da alimentação
constitui um aspecto fundamental da vida de cada indivíduo, de cada grupo, de
qualquer povo da terra. De facto, como pode um jovem desenvolver-se física,
intelectual e espiritualmente, como pode estudar se não tem acesso à quantidade
alimentar que é considerada indispensável, segundo os critérios internacionais?
Como podem um pai e uma mãe satisfazer as necessidades da sua família, se não
têm os alimentos que lhes permitem assumir as responsabilidades que lhes
competem?
Vencer a fome no mundo é um trabalho de longo alcance. Apesar dos esforços
realizados pela FAO, pelos próprios países, pelas Organizações
intergovernamentais, pelas numerosas associações, por pessoas individuais, que
agem com frequência no silêncio e com grande humildade, os obstáculos e os
desequilíbrios permanecem, por vezes agravam-se, impedindo que milhões de homens
e mulheres possam alimentar-se como convém. A realidade das multidões cujo
direito à vida é colocado em perigo deve ser para nós uma preocupação e deve
comover as consciências para que todos, onde quer que vivam, se comprometam com
atitudes que não contribuam para agravar os desequilíbrios entre países ricos e
países pobres. A fome e a subalimentação são inaceitáveis num mundo que dispõe
de níveis de produção, de recursos e de conhecimentos capazes de pôr fim a este
flagelo e às suas consequências dramáticas.
Os recentes dados mostram que a eliminação da insegurança alimentar no mundo
permanece um objectivo ainda distante, que exige não só uma análise
pormenorizada da situação alimentar, mas também a realização de compromissos
políticos, jurídicos e económicos que permitam realizar as reformas necessárias
e intervir eficazmente. Devemos empenhar-nos sempre na consecução para todos os
seres humanos do planeta, de condições de vida pessoais e comunitárias que
permitam o seu desenvolvimento integral e lhe garantam os recursos necessários
para a sua alimentação e para todas as necessidades fundamentais.
Em numerosas partes da terra, a ausência de paz, as injustiças patentes, são
causas primárias que expõem as populações ao grave perigo de não poder
satisfazer as suas necessidades fundamentais. De igual modo, os comportamentos
dos países mais ricos que por vezes exploram sem consideração alguma as riquezas
dos países mais pobres, sem retribuição alguma, o não-respeito pelos equilíbrios
ecológicos, têm também, hoje e a longo prazo, consequências sobre as
populações pobres.
O fenómeno da mundialização, que se alastra continuamente, deve tornar a
família humana ainda mais consciente de que o problema da fome só poderá ser
resolvido graças a uma estratégia de desenvolvimento global no qual todos os
países aceitem participar, para o bem da humanidade: repartindo os recursos e
os benefícios dos recursos naturais e dos bens produzidos, pondo o homem como
critério central das decisões nas questões económicas, desenvolvendo a
transferência de tecnologias e as micro-realizações nas quais as populações
locais são parte activa, formando elites locais em todos os âmbitos e educando
os jovens que são o futuro e a primeira riqueza de cada nação.
Não devemos esquecer em particular que a Declaração e o Plano de acção
do Vértice punha a célula familiar no centro dos programas para a educação e a
formação, bem conscientes de que a família constitui, especialmente nas áreas
rurais, um instrumento privilegiado e com frequência exclusivo de educação, de
transmissão de valores, de aprendizagem e de qualificação profissional. Em
grande parte, é apoiando-se na instituição familiar que as mudanças podem ser
feitas.
A Igreja não tem por vocação propor soluções políticas, económicas ou
técnicas, para enfrentar os problemas da sociedade, mas, na sua missão de
anunciar a "Boa Nova a todas as nações", ela sente-se particularmente próxima de
quantos vivem em condições de pobreza, de sofrimento e de subalimentação,
desejando ajudá-los com os meios que lhe são próprios. Ela está sempre disposta
a apoiar as pessoas que trabalham para fortalecer a solidariedade internacional
e para promover a justiça entre os povos, sobretudo as que estão em contacto
directo com as populações provadas.
Sua Santidade Bento XVI faz votos pelo êxito dos trabalhos da trigésima segunda
sessão da Comissão para a Segurança alimentar, invocando sobre todos os membros
as Bênçãos do Altíssimo, dispensador de todos os bens e Pai de todos os homens.
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