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INTERVENÇÃO DA SANTA SÉ NA 64ª SESSÃO
DA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU POR OCASIÃO DA PLENÁRIA SOBRE O TEMA «NOVA
PARCERIA ECONÓMICA PARA O DESENVOLVIMENTO DA ÁFRICA: PROGRESSOS NA
ACTUAÇÃO E NO APOIO INTERNACIONAL»
DISCURSO DO ARCEBISPO
CELESTINO MIGLIORE
Nova York, 21 de Outubro de 2009
Presidente
Ao felicitar o Secretário-Geral pelo seu Relatório sobre a Nova
Parceria Económica para o Desenvolvimento da África (NEPAD), a minha Delegação
deseja fazer algumas observações sobre a situação geral na África.
Em primeiro lugar, existem alguns preconceitos que devem ser
eliminados de uma vez por todas. Com frequência, quando se fala da África, quer
jornalisticamente, quer a nível académico ou político, fala-se de pobreza
extrema, golpes de Estado, corrupção e conflitos regionais. Quando se fala de
modo positivo da África é sempre relativo ao seu futuro, como se neste momento,
não tivesse nada para oferecer.
A realidade é que a África, inclusive nos seus anos mais
difíceis, conseguiu oferecer à comunidade internacional exemplos e valores
dignos de admiração, e hoje, pode mostrar também os sinais da realização de
muitas das suas esperanças. Pensamos nos vários casos em que a África demonstrou
uma grande capacidade na gestão de processos de transição rumo à Independência
ou de reconstrução após situações de conflito. Temos também em consideração a
presença de numerosos e válidos funcionários das Nações Unidas e das suas
agências, com as quais a África mostra ao mundo os seus dotes e a capacidade de
administrar o sector multilateral. Pensamos também no contributo cada vez maior
dos filhos e filhas da África para a vida científica, académica e intelectual
dos países industrializados.
Alguns países africanos conseguiram realizar o sonho de uma
agricultura diversificada, que obtém resultados que até hoje tinham sido
considerados impossíveis: demonstraram que uma agricultura com uma gestão
familiar em pequena ou até pequeníssima escala pode realmente ser
multifuncional, capaz de garantir a segurança alimentar no país e inclusive de
produzir saldos exportáveis e de gerir a conservação da terra e dos recursos
naturais. Além disso, muitos países africanos realizaram progressos notáveis no
âmbito da educação básica e do melhoramento da condição das mulheres.
De qualquer forma, permanece verdadeiro que a maioria das pessoas em situação de
pobreza extrema vivem na África e que o desenraizamento da pobreza e da fome,
diminuindo para metade a proporção de pessoas cujo rendimento é inferior a um
dólar por dia até 2015, está além das possibilidades da maior parte dos países
africanos.
Por conseguinte, a África precisa de uma solidariedade concreta,
não só para enfrentar os impactos negativos destas crises, mas também para
contribuir para o desarreigamento da inaceitável chaga da pobreza e colocar à
disposição dos outros países o seu potencial autêntico.
A África necessita de um notável reforço do seu apoio económico
de base, que consista na assistência oficial ao desenvolvimento e permita o
desenraizamento da pobreza extrema e a criação e manutenção de estruturas
sociais de base. Os programas de financiamento a longo prazo são necessários
para superar a dívida externa das nações pobres terrivelmente endividadas (HIPC),
para consolidar os sistemas económico e constitucional e criar uma rede de
segurança social. Igualmente, as condições do comércio internacional devem
adequar-se às suas necessidades e aos seus desafios económicos.
Na actual crise, os países industrializados não deveriam reduzir
a própria ajuda ao desenvolvimento da África, mas, ao contrário, deveriam
mover-se de acordo com uma visão clarividente da economia e do mundo para
aumentar o próprio investimento para aqueles que vivem nos países pobres.
Nesta linha de pensamento, a África necessita de apoio para os
seus programas ligados à agricultura. Ao enfrentar o problema da insegurança
alimentar, é preciso conciliar a devida consideração pelos sistemas estruturais,
como os subsídios nos países industrializados e a venda de produtos abaixo do
preço normal, que diminuem a capacidade dos agricultores africanos de receber um
salário suficiente para viver. Além disso, o longo processo de declínio dos
investimentos no sector agrícola na África deve ser invertido e é necessário
assumir um renovado compromisso para ajudar as empresas agrícolas de gestão
familiar a obter uma produção alimentar sustentável. A falência na ajuda aos
africanos para se alimentarem a si mesmos e aos seus vizinhos terá como
resultado apenas uma mortalidade insensata e constante por causa de uma
segurança alimentar inadequada e de uma luta cada vez mais feroz pelos recursos
naturais.
A África também precisa de apoio para poder diversificar as
próprias economias. Recentemente, o mundo assistiu de maneira quer positiva quer
negativa à institucionalização do G20 como ponto de referência válido para gerir
a economia mundial. É positivo o facto dos grandes países industrializados terem
sentido a necessidade de convocar para a mesa das negociações os maiores
mercados emergentes do Sul. Hoje, o envolvimento dos países emergentes ou em
vias de desenvolvimento permite gerir melhor a crise. Ao contrário, é negativo o
risco de exclusão dos países pequenos envolvidos nestes debates importantes.
Contudo, observa-se que as economias emergentes que influenciarão a política e a
economia mundial serão as que conseguirem, em maior ou menor medida,
diversificar as próprias estruturas industriais e agrícolas.
Por fim, Presidente, a África necessita de apoio para a
integração. O NEPAD e todas as iniciativas regionais e sub-regionais de
cooperação comercial, económica e cultural, de gestão do conflito, de manutenção
da paz e de reconstrução deveriam ser promovidas e consolidadas. A UA demonstrou
ser um forte ponto focal para ligar a África às Nações Unidas e às Organizações
financeiras e comerciais internacionais. De igual modo, a UA faz convergir e
coordena as múltiplas iniciativas multilaterais sub-regionais na África. A
economia integrada de hoje não torna redundante o papel dos Estados mas, ao
contrário, empenha os Governos a actuar uma maior colaboração recíproca. A
articulação da autoridade política nos níveis local, nacional e internacional é
uma das melhores maneiras para dar uma orientação ao processo de globalização
económica.
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