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XII SESSÃO DA CONFERÊNCIA PERMANENTE
DOS MINISTROS EUROPEUS DA EDUCAÇÃO SOBRE O TEMA «A EDUCAÇÃO DAS
CRIANÇAS DOS 3 AOS 8 ANOS NA EUROPA, NOS ANOS 80»
INTERVENÇÃO DO CHEFE DA
DELEGAÇÃO DA SANTA SÉ
Lisboa, 3-4 de Junho de 1981
A educação das crianças de três a oito anos é tanto mais importante quanto os
sete ou oito primeiros anos da vida da criança constituem período decisivo para
o seu desenvolvimento ulterior e para a construção da sua personalidade.
Durante este período, a educação da criança dá-se, essencialmente, por
impregnação. Segundo a expressão tão evocadora de Maria Montessori, ela é "um
espírito absorvente". Assim, para se realizar harmoniosamente, tem a criança
necessidade de um meio educador rico e estimulante, de um clima afectivo e
relacional que dê segurança.
Ora, no contexto da vida social contemporânea, os pais vêem-se muitas vezes
obrigados a recorrer, para os seus filhinhos mais novos, a maneiras de educação
pouco satisfatórias no plano educativo e que oneram pesadamente o orçamento
.familiar.
As instituições pré-escolares (escolas maternais, classes infantis, jardins
de infância), tais como existem em certos países, apresentam este meio educativo
favorável ao desenvolvimento das potencialidades da criança, à tomada de
consciência de si mesma e à sua socialização. A educação pré-escolar permite,
além disso, à criança adquirir os pré-requisitas indispensáveis para as
aprendizagens fundamentais dos dois primeiros anos da escola primária: prática
mais desenvolvida, do que na família, da língua pátria, conhecimento das letras
e dos algarismos, e para certos países, que atrasam a entrada na escola primária
(7 anos), a aprendizagem da leitura.
Toca portanto aos Estados pôr em execução uma política que tenda a oferecer,
durante um período maior ou menor, em todos os países da Europa, um serviço de
educação pré-escolar para todas as crianças, a partir dos três anos até à idade
da escolaridade obrigatória.
Importa, com efeito, que todos os pais que o desejem possam confiar os filhos
pequeninos a um serviço de educação pré-escolar gratuito.
Para este efeito, é muito para desejar que os Estados promovam uma
infra-estrutura educativa em que possam ser recebidas as crianças desde a idade
dos três anos. Isto poderia implicar as medidas seguintes:
— estabelecer um orçamento da educação pré-escolar;
— criar ou desenvolver estabelecimentos pré-escolares nas várias
circunscrições;
— reconhecer e subvencionar os estabelecimentos pré-escolares criados por
associações de pais e por outras associações ou organismos competentes.
Primeiros responsáveis pela educação dos filhos, os pais deveriam ser parte
decisiva na educação pré-escolar dos filhos, isto em graus e níveis diferentes:
— cooperação na gestão e na vida da escola maternal ou no jardim de
infância;
— colaboração nas actividades do despertar e da aprendizagem dos filhos,
tendo em conta as possibilidades e competências de que dispõem, sem
discriminação de meio social ou de cultura;
— participação nas reuniões de pais.
Esta colaboração, entre os educadores profissionais e os pais, será benéfica
para a educação da criança e fonte de enriquecimento mútuo.
Só estabelecimentos pré-escolares, que ofereçam um serviço educativo
competente e de qualidade, com garantias de instalação, de higiene e de valor
pessoal, merecerão a confiança dos pais.
Cuidado particularíssimo será atribuído ao recrutamento e à formação do
pessoal. Com efeito, todo o pessoal (de vigilância, de serviço e de cantina) de
uma escola maternal ou de um jardim de infância desempenha uma tarefa educadora.
Seria para desejar que todos recebessem, ao seu nível, uma formação
psicopedagógica.
A política de generalizar a educação pré-escolar para todas as crianças não
deveria impor sistema uniforme. Mas, pelo contrário, um sistema diversificado —
que tivesse em conta as particularidades regionais ou locais, até mesmo de
bairros, as características próprias de certos meios sociais (migrantes, quarto
mundo...) — parece mais apto para responder às necessidades das crianças e para
favorecer a igualdade das probabilidades futuras. O pluralismo garantirá aos
pais a livre escolha da instituição educativa para os filhos, em conformidade
com o sistema de valores abraçados pelos pais, e com as convicções filosóficas e
religiosas que os mesmos seguem.
A diversidade das instituições pré-escolares não seria, de maneira nenhuma,
um inconveniente para a entrada no ciclo primário, contanto que os objectivos da
escola maternal sejam definidos e realmente procurados. Pelo contrário, a
educação dada será mais adaptada à criança, nos particularismos locais e
familiares e na atenção às características dos grupos de crianças e dos desejos
das famílias. Estas primeiras educações de grupo obrigarão os professores do
curso primário a diversificar o acolhimento que oferecem às crianças e a
especializar a pedagogia que seguem.
Importa, por outro lado, nesta idade — em que a criança não é ainda capaz de
discernimento e de escolha livre mas em que ela é perfeitamente maleável — que
haja concordância entre a educação recebida na família e no jardins de infância,
e que os sistemas de valores sejam os mesmos. Só então, encontrará ela a
segurança e as referências necessárias à estruturação da sua interioridade. É
nesta medida que mais tarde ela será capaz de abertura ao pluralismo, na sua
descoberta do próximo como sujeito social, o que não é possível senão a partir
dos seis-sete anos, idade em que se manifesta o despertar da socialidade; antes,
não podemos falar senão de período pré-social ou egocêntrico. Ultrapassado este
limiar, que muitas vezes corresponderá à entrada na escola primária, será
indispensável pôr em prática uma educação que leve à tolerância das maneiras de
ser e de pensar, maneiras diferentes das suas próprias.
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