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MENSAGEM DO CARDEAL TARCISIO
BERTONE, EM NOME DO SANTO PADRE, POR OCASIÃO DO «30º MEETING
PARA A AMIZADE ENTRE OS POVOS»
(Rímini, 23-29 de agosto de 2009)
Excelência Reverendíssima
Por ocasião do Meeting para a amizade entre os povos, que este ano
celebra o seu trigésimo aniversário, é-me particularmente grato transmitir a
saudação do Santo Padre a Vossa Excelência e a quantos promoveram e organizaram
esta manifestação cultural, que em três décadas já viu a participação de
milhares e milhares de homens e mulheres, sobretudo jovens, e a intervenção de
centenas de relatores nas tribunas preparadas nas salas da feira de Rímini.
Coadjuvados por estudiosos de todas as disciplinas, por artistas, autoridades
religiosas, representantes do mundo da política, da economia e do desporto, foi
possível o confronto sobre questões e exigências fundamentais da existência
humana e aprofundar as razões de ser cristão nesta nossa época. Sua Santidade
formula votos a fim de que o Meeting continue a enfrentar os desafios e
as interrogações que os tempos de hoje apresentam à fé, e a responder-lhes
valorizando o ensinamento do saudoso Mons. Luigi Giussani, fundador do movimento
eclesial Comunhão e Libertação.
A temática do Meeting de 2009 é sobre o conhecimento que é sempre
um acontecimento. "Acontecimento" é uma palavra com que Mons. Giussani
tentou manifestar de novo a própria natureza do cristianismo, que para ele é um
"encontro", ou seja, um dado experimental de conhecimento e de comunhão.
Precisamente a partir da aproximação entre as palavras "acontecimento" e
"encontro" é possível compreender melhor a mensagem do Meeting. A
reflexão gnoseológica e epistemológica contemporânea esclareceu o papel
determinante do sujeito do conhecimento, no próprio acto de conhecer.
Contrariamente aos pressupostos do "dogma" positivista da pura objectividade, o
princípio de indeterminação de Heisenberg tornou evidente como isto é
verdade até para as ciências naturais: também nestas disciplinas, cujo
"objecto" parece ser regulado por invariáveis leis da natureza, a perspectiva do
observador é um factor que condiciona e determina o resultado da experiência
científica, e por conseguinte do conhecimento científico como tal. Por isso, a
pura objectividade é pura abstracção, expressão de uma gnoseologia inadequada e
irrealista.
Mas se isto é verdadeiro para as ciências naturais, é-o ainda mais para
aqueles "objectos" de conhecimento que, por sua vez, estão estruturalmente
ligados à liberdade dos homens, às suas opções e diversidades. Pensemos nas
ciências históricas, que se baseiam em testemunhos para os quais convergem, como
factores que influenciam o seu modo de comunicar a realidade que transmitem, as
visões do mundo de quem as compôs e as suas convicções, por sua vez vinculadas
às da sua época, às suas situações pessoais, às escolhas com que eles se puseram
em relação com a realidade que descrevem, à sua envergadura moral, às suas
capacidades, ao seu engenho e à sua cultura. Portanto, o estudioso que se
aproxima do seu objecto deverá discernir tudo isto, para compreender e avaliar o
significado e o alcance da mensagem transmitida num contexto de conjunto, agindo
como se se encontrasse diante de uma pessoa que ainda não conhece bem, mas que
lhe está a narrar algo que, contudo, ele considera que é importante conhecer. A
consequência mais relevante de tal situação é que o conhecimento não pode ser
descrito como a gravação de um espectador indiferente. Pelo contrário, o
compromisso com o objecto conhecido por parte do sujeito conhecedor é uma
conditio sine qua non do próprio conhecimento. E portanto, não é a
indiferença nem a ausência de compromisso o ideal a perseguir, de resto em vão,
na busca de um conhecimento "objectivo", mas sim um compromisso adequado com o
objecto, um compromisso apto para fazer chegar a quem interroga o conhecimento,
a sua mensagem específica.
Eis por que motivo o conhecimento pode ser um "acontecimento". Ela "acontece"
como um verdadeiro "encontro" entre um sujeito e um objecto. Que tal encontro
seja necessário, para que se possa falar de conhecimento, faz-nos então
considerar o sujeito e o objecto não como duas grandezas que se podem manter
reciprocamente a uma distância asséptica, em vista de preservar a sua pureza;
pelo contrário, eles são duas realidades vivas que se influenciam uma à outra,
precisamente quando entram em contacto recíproco. A honestidade intelectual
daquele que conhece está inteiramente naquela máxima arte de "acolher o
objecto", de modo que ele possa revelar-se a si mesmo como é verdadeiramente,
embora não de maneira integral e completa. E o acolhimento do objecto, a
disponibilidade da escuta que caracteriza o sujeito conhecedor como verdadeiro
amante da verdade, pode descrever-se como uma espécie de "simpatia" pelo
objecto. Há aqui, como uma boa parte do pensamento medieval nos transmitiu, uma
particular força cognoscitiva, própria do amor. "Amar" significa "desejar
conhecer", e o desejo e a busca do conhecimento são um impulso interior do amor
como tal. Por conseguinte, considerando bem, isto estabelece uma relação
insuprimível entre amor e verdade. Por sua natureza, o conhecimento pressupõe
uma certa "conformação" de sujeito e objecto: uma intuição fundamental, já
condensada no antigo axioma de Empédocles, segundo o qual "o semelhante conhece
o semelhante". O evangelista João evoca-o de maneira implícita, onde
escreve que quando Deus "se manifestar, nós seremos semelhantes a Ele, porque
O veremos como Ele é" (1Jo 3,2).
Poderíamos perguntar-nos se existe conhecimento mais necessário para o homem
que o do seu Criador; se há conhecimento mais adequadamente descrito pela
palavra "encontro", do que a relação fundamental que existe precisamente entre o
espírito do homem e o Espírito de Deus. Então, compreende-se porque os Padres da
Igreja insistiram sobre a necessidade de purificar o olhar da alma para chegar a
ver Deus, inspirando-se na bem-aventurança evangélica: "Bem-aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5, 8). A racionalidade do
homem só pode ser exercida, e portanto alcançar a finalidade que lhe é própria,
que é o conhecimento da verdade e de Deus, graças a um coração purificado e
sinceramente amante da verdade que ele procura. Purificado de tal maneira, o
espírito humano pode abrir-se à revelação da verdade. Por conseguinte, existe um
nexo misterioso entre a bem-aventurança evangélica e as palavras dirigidas por
Jesus a Nicodemos, citadas por São João: "O que nasceu da carne é carne, e o
que nasceu do Espírito é espírito... Tendes de nascer de novo" (Jo 3,
6-7).
O Santo Padre Bento XVI faz votos para que estas palavras de Cristo ressoem
no coração dos participantes na 30ª edição do Meeting de Rímini, como
apelo a dirigir-se com confiança a Ele, para acolher a sua presença misteriosa,
que para o homem e a sociedade é nascente de verdade e de amor. Com tais
sentimentos, enquanto formula votos de pleno bom êxito a esta manifestação,
concede a Vossa Excelência, aos responsáveis e a todos aqueles que estão
presentes, uma especial Bênção Apostólica.
Uno de bom grado os meus bons votos, e aproveito o ensejo para me confirmar
com sentimentos de distinto obséquio,
de Vossa Excelência Reverendíssima
dev.mo no Senhor
Tarcisio Card. Bertone
Secretário de Estado
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