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HOMILIA
DO CARDEAL ANGELO SODANO DURANTE SANTA MISSA NA BASÍLICA
DE SÃO PEDRO PELO JUBILEU DOS REPRENTANTES PONTIFÍCIOS
17 de
Setembro de 2000
Queridos Irmãos no Episcopado
Beneméritos Representantes
Pontifícios!
O nosso encontro jubilar teve início ontem,
com a festa da Exaltação da Santa Cruz, e continua hoje, na recordação da
Virgem das Dores. A liturgia destas duas jornadas vem assim iluminar estas
reuniões fraternas tal como, aliás, a luz da fé nos indica, cada dia, o
nosso caminho.
No Evangelho escutámos de novo as palavras
proféticas dirigidas pelo velho Simeão à Mãe de Jesus: "Ele
está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel... Uma espada
trespassará a tua alma" (Lc 2, 34-35).
1. A imagem da Virgem das Dores
A representação da espada que trespassa o
coração de Maria permaneceu gravada fortemente no povo cristão, inspirando
também magníficas composições literárias e obras de arte. Jacopone de
Todi deixou-nos a bonita sequência do Stabat Mater. Os Servos de Maria
chegaram depois a representar-nos a Mãe do Senhor como que trespassada por
sete espadas, em recordação dos sete episódios particularmente
significativos da sua vida sulcada pela dor: desde a vivida em Belém ao
dar à luz Jesus na pobreza de uma gruta, até ao suplício da deposição do
corpo de Cristo da cruz. Na representação da Pietà, Miguel Ângelo
esculpiu no mármore a dor de Maria.
Todas estas imagens nos mostram a Mãe de Jesus como intimamente unida à Paixão
do Filho, verdadeira "Socia Redemptoris".
2. O caminho da cruz
Queridos Irmãos, viestes a Roma para vos
renovardes no espírito, participando no Grande Jubileu do Ano 2000, com o
empenho da contínua conversão e com o propósito da revigorada fidelidade à
própria missão. Nesse contexto, a memória litúrgica de Nossa Senhora das
Dores recorda a todos o caminho da cruz, aquele caminho que todo o apóstolo
de Cristo deve percorrer se quiser cooperar na obra da redenção.
Desta Basílica, o Apóstolo Pedro parece
repetir-nos quanto dizia aos primeiros cristãos: "Christus
passus est pro vobis, vobis relinquens exemplum ut sequamini vestigia eius"
(1 Pd 2, 21). Sim, Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a
fim de seguirmos as suas pegadas.
3. A vida dos Núncios
A experiência comum ensina-nos que a existência
quotidiana de um Enviado pontifício comporta renúncias não leves: a
distância do próprio ambiente, as dificuldades de adaptação em outro
contexto cultural, nalguns casos a provação da solidão ou da doença, sem
considerar os espinhos ligados ao trabalho metódico e silencioso, como é a
obra típica de um Núncio Apostólico.
Ao mesmo tempo, porém, bem sabemos que este é o contributo pessoal que cada
um de nós deve oferecer para a edificação do Reino de Cristo.
A este respeito, é significativo o título
que o saudoso Cardeal Agostino Casaroli quis dar às suas memórias: O
martírio da paciência (Turim, Ed. Einaudi, 2000).
Ele recordava quanto, certa vez, lhe
confidenciara um Bispo lituano, enquanto se referia ao martírio da prudência,
que ainda o fazia sofrer. O Prelado tinha voltado à diocese depois de ter
cumprido uma longa pena de prisão, mas observava que tinham sobrevindo outras
provas, igualmente pesadas.
"Passei anos na Sibéria dizia e
jamais chorei; sabia que sofria por causa da fidelidade à Igreja, e isto
dava-me paz e tranquilidade; dormia os meus sonos tranquilos, e ao
despertar-me de manhã sabia o que devia fazer durante o dia. Agora não mais.
Todos os dias estou a perguntar-me que decisões devo tomar, ao serviço da
Igreja... Críticas, queixas, exortações de todas as partes; uns me julgam
muito débil ou condescendente diante do governo, e outros me censuram por ser
pouco prudente ou pouco previdente" (Ibid., pág. XXV).
Ao saudoso Secretário de Estado aquele martírio
da prudência era semelhante ao martírio da paciência, que se
prova quando se deve trabalhar em ambientes difíceis. Este é o nosso
contributo pessoal para a difusão do Reino de Deus.
4. O ensinamento do Papa
Para este valor salvífico do sofrimento
remetia-nos o Santo Padre João Paulo II, na sua conhecida Carta Apostólica Salvifici
doloris (em AAS, 1984, pp. 201-250), partindo do exemplo do Apóstolo
Paulo que via nas suas tribulações um instrumento de graça e de redenção,
de maneira a exclamar diante dos Colossenses: "Alegro-me nos
sofrimentos suportados por vossa causa e completo na minha carne o que falta
aos sofrimentos de Cristo, pelo Seu Corpo, que é a Igreja" (Cl
1, 24).
Eis a contribuição que somos chamados a
dar; um contributo oferecido com amor, que nos faz sentir alegres, mesmo nas
tribulações. Também o Apóstolo Pedro nos dirige o mesmo convite, quando
afirma: "Alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de
Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada a
Sua glória" (1 Pd 4, 13).
5. A teologia da cruz
Os teólogos discutiram muito sobre os
motivos pelos quais a Providência Divina quis unir ao sofrimento o preço da
Redenção. Dois famosos professores da Pontifícia Universidade Gregoriana,
os saudosos Padres Flick e Alszeghy, S.I., dedicaram ao tema o esplêndido
volume intitulado "O mistério da Cruz. Ensaio de teologia sistemática",
Bréscia, Ed. Queriniana, 1978.
Sem dúvida, é útil que os estudiosos tenham indagado a relação entre a
cruz de Jesus e a Redenção do mundo, entre teologia da glória e teologia da
cruz. É justo que continuem a fazê-lo também hoje. Os Santos de todos os
tempos, porém, entenderam-no bem, contemplando o Crucificado e Aquela que
estava "iuxta crucem Domini". É a lição que nos foi
transmitida pelos Apóstolos e mártires, por inumeráveis pastores e doutores
da Igreja, com a sua vida evangélica e o seu serviço ao próximo.
Seja esta a graça que também nós
imploramos ao Senhor pela intercessão de Maria, sua Mãe das Dores. O nosso
Jubileu marcará assim uma renovação na nossa vida interior e confirmar-nos-á
no santo propósito de oferecer toda a nossa existência para a redenção do
mundo.
6. Conclusão
Queridos Irmãos, deitámos a mão ao arado,
trabalhando em campos diversos, lá onde a Providência Divina nos chamou. O
nosso dever é dar continuidade ao compromisso quotidiano, estimulados por um
grande amor aos nossos irmãos e repetindo aquilo que o Apóstolo Paulo dizia
a Timóteo: "Omnia sustineo propter electos. Por amor dos
escolhidos tudo suporto" (2 Tm 2, 10).
As dificuldades do nosso trabalho parecem
hoje aumentar com o surgir de novos problemas. Porém, como Paulo poderemos
sempre testemunhar diante do mundo a nossa fé inabalável, dizendo:
"Omnia possum in eo qui me confortat. Tudo posso n'Aquele que me
conforta" (Fl 4, 13).
Amém.
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