Senhor Presidente!
1. Desejo em primeiro lugar manifestar as
minhas felicitações pela sua eleição e agradecer-lhe
por me ter permitido tomar a palavra no momento em
que se iniciam os trabalhos deste Comité.
Sem dúvida, a presença da Delegação da Santa Sé é particular: não
é uma presença de um especialista, pois, como Vossa Excelência sabe, "a
Igreja não tem soluções técnicas que possa oferecer" (Sollicitude
rei socialis, 41). Por conseguinte, desejaríamos aqui propor aos peritos
neste âmbito a "orientação intelectual indispensável" (Centesimus
annus, 43) que tem por centro as exigências da pessoa humana, orientação
que pode também contribuir para esclarecer as opções técnicas que este Comité
é chamado a fazer.
2. Em primeiro lugar, é preciso notar que os
elementos da actividade realizada pela FAO neste quadro do "Grande
Programa: produção agrícola", testemunham um empenho constante e
activo, digno de elogios, e sobretudo que corresponde cada vez mais às
necessidades dos Estados membros, especialmente dos que estão em vias de
desenvolvimento. Como bem sabemos, estas expectativas estão sem dúvida
relacionadas com as realidades naturais, mas também com as intervenções do
homem caracterizadas unicamente pela busca do seu interesse, e pela sua
indiferença perante o bem comum.
Ao mesmo tempo, precisamente na
"perspectiva" de um empenho futuro da FAO, verificamos de maneira
evidente o aparecimento de situações "novas" que dizem respeito ao
sector da agricultura, e que, por conseguinte, requerem novos esforços por
parte da Organização dos Estados membros. Entre elas, parece surgir de maneira
mais evidente a opinião que reconhece o lugar central da agricultura no âmbito
mais amplo do progresso duradouro. Este conceito, complexo devido à
multiplicidade dos factores que entram em jogo na sua definição, e dos
objectivos que persegue, é o eixo em redor do qual se elaboram as estratégias,
e por conseguinte as acções, programas e orientações políticas que daí
derivam destinadas com frequência a favorecer os sectores particulares, e não
a considerar uma justa visão do progresso duradouro como objectivo global. Os
efeitos desta forma de ver o sector agrícola revelam-se evidentes em numerosos
casos, sobretudo nas regiões mais particularmente atingidas pela pobreza, pelo
subdesenvolvimento e pela desnutrição, bem como a degradação do ambiente.
Eis por que a nossa Delegação está firmemente convencida de que os esforços
futuros da Comunidade internacional, (pensamos sobretudo no encontro "Rio;+10",
que é tratado durante os trabalhos deste Comité) não deixarão de realçam a
função de apoio essencial que a agricultura tem no processo destinado a
promover este progresso duradouro.
3. Ao mundo agrícola estão ligados hoje os
principais tipos de questões que representam o que surge de novo neste campo e
que requerem, ao mesmo tempo, ser "governados" através de regras e de
padrões. Para uma maior garantia da sua eficácia e da sua globalidade, eles
devem ser elaborados a nível internacional e depois aceites por todos os Países.
Refiro-me em primeiro lugar, considerando a
ordem do dia dos trabalhos, ao problema da protecção dos diversos ecossistemas
agrícolas, condicionados pelas variações e mutações climáticas, e também
pelas inundações que atingem regiões e populações já deserdadas. Trata-se
de fenómenos dos quais, com frequência, conhecemos as causas e para os quais
entrevemos soluções, mas que a corrida aos objectivos mais imediatos levam
muitas vezes a impedir a realização das que já seriam possíveis (e
extremamente urgentes), como os trabalhos de saneamento. O mesmo argumento,
"mutatis mutandis", é também válido para as estratégias e técnicas
destinadas aos problemas com que nos deparamos. Uma ética da responsabilidade,
que deveria acompanhar cada acção que visa as relações internacionais,
exigiria de nós, ao contrário, o esforço de nos envolvermos, começando antes
de mais por concretizar as propostas de intervenção feitas nos assembleias
intergovernamentais competentes. Neste sentido, na perspectiva dos objectivos da
Cimeira Mundial da Alimentação, que desejaríamos ver confirmados com
convicção e coerência, a FAO deve ser vigorosamente apoiada na sua acção tão
meritória como concreta.
4. Um segundo tipo de situações
"novas" que dizem respeito à agricultura e que requerem uma reflexão
construtiva durante os trabalhos do nosso Comité, diz respeito ao papel
crescente das biotecnologias, quer na fase de produção quer na do uso e da
comercialização dos alimentos. Mas uma justa prevenção dos riscos para as
pessoas e para os ecossistemas deve ser prevista em diferentes níveis, começando
pela fase da experimentação. De facto, um tipo de pesquisa que deseje ter como
objectivo o aumento da produção agrícola, e por conseguinte uma satisfação
da procura alimentar que tenha em conta os objectivos da segurança alimentar
neste campo, não pode esquecer o que está na base de uma alimentação segura
(e por conseguinte a saúde dos consumidores) e do progresso duradouro, ou seja
a protecção do meio ambiente.
As estratégias requeridas devem, neste caso,
incluir, paralelamente ao reforço das normas existentes e do seu justo
desenvolvimento progressivo, políticas específicas, a nível quer nacional
quer internacional.
Um primeiro passo que este Comité poderia
fazer seria sem dúvida a proposta de inserir no Programa de trabalho futuro,
uma maior consideração pelas possibilidades de intervenções da FAO nas questões
relacionadas com a bio-segurança, privilegiando antes de mais a prevenção.
Isto permitiria que a Organização continuasse a ajudar os Estados membros a
activar procedimentos de controlo na fase de produção dos alimentos e das
modalidades de intervenção para enfrentar as emergências. Desta forma
poder-se-ia aplicar efectivamente ao sector agrícola aquilo a que se chama o
"princípio de precaução", princípio que deveria governar o sector
das biotecnologias e da investigação, mas que deveria ser cuidadosamente
esclarecido e interpretado nos seus objectivos e conteúdos, para poder ser
incluído nas legislações e nas políticas de cada País individualmente.
Senhor Presidente!
5. A atenção dada aos compromissos que a FAO
é chamada a honrar no presente, e no futuro próximo (bem explícitos no Plano
a médio prazo), requer um esforço suplementar no âmbito dos trabalhos do
nosso Comité, para que se possa proceder, com toda a atenção requerida pelos
problemas e pelas exigências dos esquecidos, ou seja, no nosso caso, de quantos
recebem do trabalho agrícola o alimento, emprego e rendimentos muito baixos.
Esta atenção exige ao mesmo tempo que se
partilhe com maior determinação a opção determinante que permita à Organização
como a sua Contituição prevê ser o "centro" de recepção das
informações, dos estudos e da divulgação dos elementos acerca da
agricultura, e das técnicas de produção e das regulamentações. Este
objectivo, juntamente com o contributo dos Estados, requer um empenho decidido
de participação por parte da sociedade civil através das suas associações e
instituições a qual exige ser não só informada mas também formada.
A Santa Sé, por seu
lado, deseja reafirmar aqui a disponibilidade
da Igreja católica, das suas estruturas e dos seus organismos, para
contribuir para este esforço, a fim de que todas as pessoas possam ter "o
pão quotidiano", como recorda o distintivo da FAO: "Fiat
Panis"!
Obrigado.