Nos últimos anos, a Comunidade das Nações afirmou reiteradamente uma série
de objectivos e compromissos que têm em vista reduzir no mundo o imenso número
de homens, mulheres e crianças que se encontram a viver na pobreza mais
extrema, em condições impróprias da sua dignidade, recebida de Deus, e
que os impedem de realizar plenamente o potencial com que cada um foi
enriquecido pelo Omnipotente.
Com efeito, como o próprio título da nossa
Conferência põe em evidência, esta situação diz respeito não só aos
indivíduos mas a nações e regiões inteiras no mundo. Apesar das
enormes possibilidades que o progresso científico dos últimos anos colocou
à disposição da nossa geração, inúmeros povos continuam a ser incapazes
de obter dele um benefício equitativo.
O facto de que o número dos países
menos desenvolvidos realmente aumentou num período de tanto progresso
potencial demonstra que a globalização ainda não trouxe benefícios para
todos. Não podemos permanecer indiferentes diante desta situação. Uma
sociedade mundial que deixa um número tão elevado dos seus cidadãos nas
margens do seu progresso não pode justamente chamar-se global. Quando um
sistema económico mundial é acompanhado desta marginalização e destas
desigualdades crescentes, então todo o sistema se torna vulnerável. Nenhum
sector de tal sistema está isento.
A nossa era possui a ciência, os
instrumentos e as orientações políticas necessárias para resolver o
problema da pobreza, da exclusão e dos desequilíbrios excepcionais. Ela
reconhece que o investimento em termos de pessoas e de capacidades humanas é,
a longo prazo, o investimento mais necessário no mundo inteiro. Além disso,
reconhece que somente uma estratégia do desenvolvimento compreensivo e
global, centrado na pessoa humana, conseguirá assegurar um progresso
duradouro. Depois, reconhece a importância da educação, da saúde e do
trabalho decente, como pilares centrais para a promoção do progresso económico
e social das pessoas e das suas famílias. Enfim, reconhece a importância das
estruturas de governo transparentes e eficazes, ao serviço dos cidadãos.
Apesar deste consenso, as nossas
respostas foram parciais e por vezes até mesmo contraditórias. A
comunidade internacional ainda hoje está desequilibrada. Ainda subsiste uma
diferença persistente entre os compromissos assumidos com palavras e estratégias,
e os recursos reservados para os pôr em prática. As finalidades são
definidas, mas em seguida os recursos financeiros e humanos oportunos não
lhes são destinados, tanto da parte dos países benfeitores como dos países
em vias de desenvolvimento. Os países menos desenvolvidos são encorajados a
abrir os seus mercados, mas descobrem que os seu produtos ainda encontram as
barreiras do proteccionismo. Dizem-lhes que devem assumir a liderança do seu
próprio desenvolvimento e das estratégias que visam a redução da sua
pobreza, mas em seguida devem enfrentar uma série de condicionamentos às
vezes impossíveis, impostos a partir de fora. Sugerem-se muitas políticas de
mudança mas, ao contrário, a assistência técnica e a formação humana
oferecidas para realizar tais políticas são com frequência puramente simbólicas.
Não se salvaguarda devidamente o conhecimento urgentemente necessário para
fazer progredir o bem comum, enquanto se continua a promover o lucro
particular.
Esta III Conferência sobre os Países Menos Desenvolvidos não pode
simplesmente constituir outra ocasião, onde reiterar os objectivos e
actualizar as estratégias, que já obtiveram um vasto consentimento das
comunidades tanto políticas como financeiras. Agora, a Conferência deve
perguntar-se: por que motivo, com esse consenso, não obtivemos o
bom êxito esperado? Acima de tudo, todos nós devemos analisar com maior atenção
o que foi feito e definir sobre que base se pode construir e, se for possível,
fazer repercutir.
Devemos identificar e multiplicar o que é
"realizável". Contudo, havemos de considerar também atenta e
objectivamente as nossas políticas e as nossas actividades particulares, a
fim de vermos com exactidão o que funcionou, onde falhámos e a que nível de
eficácia foram utilizados os nossos recursos. Os nossos programas bilaterais
e multilaterais de assistência não foram modelos de eficiência, e ainda há
muito a fazer para assegurar que eles alcancem mais completamente os seus
objectivos. Devemos examinar com especial atenção a medida dos benefícios
das nossas iniciativas em relação aos mais pobres de entre os pobres. Onde
for necessário, devemos voltar incessantemente a centrar a nossa atenção
nos indivíduos mais pobres.
Efectivamente, o processo de verificação
deve empenhar as comunidades locais destinadas a ser beneficiadas. Devemos
aprender a escutá-las, a ser sensíveis às suas culturas, à sua ciência
nativa e à experiência das condições locais que só elas podem oferecer.
É importante que os lucros obtidos de empreendimentos locais bem sucedidos
sejam novamente investidos a nível local, de tal maneira que estas empresas
possam radicar-se com firmeza, florescer e criar novas oportunidades a nível
de empregos e de comércio. Com muita frequência, por exemplo, os parâmetros
de sustentabilidade da dívida são definidos a níveis demasiado altos, com o
resultado de que o lucro alcançado dos recursos genuinamente produtivos não
pode ser investido de novo no lugar, mas é destinado para o pagamento da dívida.
A nossa reflexão sobre a política do
desenvolvimento nos últimos anos levou-nos a uma maior compreensão da
centralidade da pessoa humana, mas também da importância das comunidades
humanas, como sujeitos do desenvolvimento. As nossas estratégias devem
ter em vista o fortalecimento de tais comunidades, a começar pela família,
assegurando que esse desenvolvimento se radique com firmeza nas culturas
locais e se difunda amplamente a nível nacional.
A tão almejada participação das
comunidades locais e da sociedade civil na elaboração e na análise das
estratégias de redução da pobreza devem tornar-se uma realidade. A rapidez
necessária com que as estratégias ad interim de redução da pobreza,
vinculadas à reiterada iniciativa dos Países Pobres Fortemente Endividados
(PPFE), tiveram de ser elaboradas significava que a participação da
sociedade civil só se alcançava, em muitos casos, a nível marginal. Devem
encontrar-se rapidamente modelos mais inovadores e ousados, com o esforço
cooperativo de todos os interessados.
As comunidades activas constituem um dos
requisitos para que o mercado seja eficaz. De igual forma, a edificação
comunitária é uma dimensão essencial para o bom governo. O bom governo não
pode ser alcançado simplesmente mediante a emanação de decretos ou da
promulgação de direitos. Ao contrário, há-de ser acompanhado de um
investimento na formação da capacidade humana e comunitária, nos diferentes
contextos culturais do mundo.
O desenvolvimento exige que os direitos
fundamentais das pessoas sejam respeitados e promovidos, de forma especial os
seus direitos a serem participantes activos em todos os processos decisórios
que dizem respeito às suas vidas. Recentemente, o Papa João Paulo II
recordou que nesta era de globalização, numa época em que a tecnologia e as
relações de trabalho progridem com uma rapidez que as culturas não
conseguem acompanhar, "as garantias culturais, legais e sociais que são
o resultado dos esforços voltados para a defesa do bem comum têm uma importância
vital para fazer com que os indivíduos e os grupos intermediários mantenham
a sua própria centralidade" (Discurso durante a Sessão da Pontifícia
Academia das Ciências Sociais de 2001, em: ed. port. de L'Osservatore
Romano de 5 de Maio de 2001, pág. 5, n. 3). Contudo, as estruturas e as
normas só obterão o máximo êxito quando forem assumidas por comunidades e
povos que tiverem a capacidade, o entusiasmo e a coragem de fazer com que elas
funcionem.
O crescente consenso para o desenvolvimento internacional deve ser fomentado e
acompanhado por determinados princípios-base, também de natureza ética. O
desenvolvimento diz respeito sobretudo a certas aspirações e valores humanos
básicos, compreendidos no contexto de uma visão global dos relacionamentos
entre a humanidade e o resto da criação. Num sistema económico fundamentado
na ciência, o consenso para o progresso deve centrar-se na pessoa, visando a
inserção em políticas que promovam a capacidade humana e fortaleçam
comunidades humanas participativas. O desenvolvimento deve inserir-se no
contexto da solidariedade e da responsabilidade compartilhada.
A nossa tarefa consiste em fazer da
solidariedade uma realidade. Devemos criar um movimento mundial que compreenda
a solidariedade como dever natural de cada um dos indivíduos, comunidades e
nações. A solidariedade deve ser um pilar natural e essencial de cada um dos
grupos políticos, de maneira que não seja uma posse particular da direita
nem da esquerda, do Norte nem do Sul, mas uma obrigação ética de uma
humanidade que procura confirmar a sua vocação de família global. Com
efeito, Deus "deu a terra a todo o género humano, para que ela sustente
todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém" (João Paulo
II, Centesimus annus, 31).