Senhor Presidente
Uma vez que existe um relacionamento muito
estreito entre os armamentos e a violência, entre as armas e a destruição,
entre os armamentos e o ódio responsável pela desintegração social, as armas
não podem ser tratadas como simples produtos comerciais. Esta afirmação, por
si só desconcertante, pode orientar os trabalhos da presente Conferência
internacional sobre o tráfico ilícito das armas pequenas e das armas ligeiras
em todos os seus aspectos, durante a qual tenho a honra de representar a
Santa Sé.
Desde o próprio início, é óbvio que a
importância ética, social e humanitária do tema que está a ser abordado não
pode ser separada mas, efectivamente, deve servir como contexto para qualquer
consideração do fornecimento e da exigência de armas pequenas e ligeiras, por
motivos políticos, económicos e de segurança.
No que diz respeito a determinados tipos de
armas, tais como as minas anti-homem, foi possível estabelecer uma Convenção
que proíbe o seu uso, armazenamento, produção e transferência, enquanto para
os outros tipos de armamentos convencionais, que podem considerar-se
excessivamente prejudiciais ou portadores de efeitos indiscriminados, existe uma
Convenção da Organização das Nações Unidas que proíbe ou limita a sua
utilização. Contudo, sabe-se muito bem que as armas pequenas e ligeiras são
os principais instrumentos utilizados em conflitos de todos os tipos, no mundo
inteiro.
Todavia, infelizmente é impossível proibir
todas as espécies de armas pequenas e ligeiras. "Num mundo assinalado pelo
mal... existe o direito à legítima defesa mediante o uso das armas. Este
direito pode tornar-se um sério dever para as pessoas que são responsáveis
pela vida dos outros, pelo bem comum da família ou da comunidade civil em
geral. Só este direito pode justificar a posse ou a transferência de
armas" (Pontifício Conselho para Justiça e a Paz, "O Comércio
internacional dos armamentos: uma reflexão ética", em: Origins
8 [24], 7 de Julho de 1994, pág. 144).
Não se trata de um direito absoluto, dado que
existem condições específicas acerca da liceidade da produção, da posse e
da negociação dos armamentos. Contudo, no nosso encontro de hoje, este tema é
bastante limitado. De facto, estamos a debater sobre o comércio ilícito das
armas pequenas e ligeiras. De certa forma, esta é uma afirmação negativa da
questão fundamental da legitimidade do comércio internacional das armas.
A presente Conferência apresenta várias
medidas concretas que visam abordar o problema do comércio ilícito antes
mencionado, assim como evitar que as armas pequenas e ligeiras terminem no
mercado clandestino. São particularmente significativos os mecanismos em ordem
à prevenção, redução, responsabilidade e controlo, tais como a criação de
sistemas de marcação, de seguimento de pistas e de conservação de registos;
a definição dos critérios para a exportação das armas ou para a determinação
do momento em que existe efectivamente um número demasiado excessivo das
mesmas; a regulamentação das actividades comerciais; a inclusão de mecanismos
para a recuperação e a destruição dos armamentos durante os processos de
paz; o estabelecimento de padrões adequados para a administração e a segurança
dos depósitos de tais armas; e, considerando a questão das reivindicações do
tráfico ilícito das armas pequenas e ligeiras, também a realização de
actividades de educação e de consciência, que visem a promoção de uma
cultura da paz e da vida mediante, entre outras coisa, o compromisso de
diferentes protagonistas na sociedade civil.
A Santa Sé reconhece este desejo político e
oferece o seu apoio e cooperação integrais, enquanto formula bons votos a fim
de que se alcancem quanto antes resultados concretos.
Sem dúvida, nesta fase inicial encontramo-nos no limiar de um novo e, talvez,
longo processo neste campo do controlo das armas. A presente Conferência
internacional constitui um passo essencial, dado que oferece uma oportunidade
importante para alargar a finalidade tanto do debate internacional como da
consciência pública, em ordem a mobilizar a aspiração política e a definir
e revigorar normas e medidas destinadas à prevenção e ao combate deste fenómeno.
Enquanto noutras frentes o processo de
desarmamento parece estar numa fase de hesitação, se não até mesmo de
regresso, esta nova abordagem que considera a questão do comércio ilícito das
armas pequenas e ligeiras manifesta-se como um sinal de esperança. Este
processo exige, uma vez mais, que demos um passo fundamental para a frente, o
que consiste numa específica e decisiva transformação das relações
internacionais, que devem fundar-se não na lei do mais forte ou das pessoas que
se acham melhor preparadas sob o ponto de vista militar, mas na força da lei em
si, em conformidade com os padrões e os instrumentos capazes de garantir a
segurança, independentemente do recurso à violência.
Isto significa que as acções devem
fundamentar-se nas complexas condições sociais e económicas que se encontram
na base do fornecimento e das exigências de tais armas, e há-de promover uma
verdadeira cultura da paz e da vida. Esta abordagem está orientada também
contra a cultura da violência alimentada, entre outras coisas, inclusivamente
pelo comércio ilícito das armas pequenas e ligeiras, que às vezes podem ser
erroneamente reconhecidas como um dos instrumentos mais eficazes para resolver
os conflitos da vida quotidiana.
A finalidade derradeira que nos une neste
sector é a protecção da vida e da dignidade de cada pessoa humana. Por este
motivo, parece oportuno assegurar, durante este processo, a centralidade da
pessoa humana e, por conseguinte, realçar a importância de considerar a dimensão
humana perante o problema do comércio ilícito das armas. Sabe-se muito bem que
as populações civis sofrem as consequências mais trágicas do uso das armas
pequenas e ligeiras; o maior número das vítimas de tais armamentos são
pessoas civis, cuja maioria é formada por mulheres e crianças.
Em particular, as crianças sofrem um efeito duplamente maléfico, dado que por
um lado estão expostos de maneira passiva aos perigos destas armas e, por
outro, desempenham um papel activo nos conflitos em que são obrigadas à
ignominiosa função de crianças-soldado. A minha Delegação julga também
importante realçar aqui o facto de que estas situações exigem a acção
determinada da parte da comunidade internacional, que deve demonstrar uma
solicitude particular pelas crianças atingidas por situações de conflito em várias
regiões do mundo, e há-de trabalhar para as reunir às suas famílias e as
integrar novamente na sociedade, mediante oportunos instrumentos
de reabilitação.
Senhor Presidente
Todos nós estamos conscientes de que, em
termos de realismo político e económico, quem se envolve no comércio ilícito
dos armamentos, assim como os senhores da guerra e os grupos armados que
alimentam intenções terroristas ou criminosas, têm muito pouco a lucrar de um
acordo internacional específico contra as armas. Além disso, é triste
observar que a solidariedade para com as vítimas do uso das armas pequenas e
ligeiras que são efectivamente armamentos de destruição maciça dos mais
pobres nem sempre é considerada como uma prioridade importante.
Por conseguinte, a minha Delegação está
persuadida de que o nosso debate tem uma dimensão muito vasta, eloquentemente
humana, que nos põe diante da opção entre o interesse nacional ou de
organismos e uma cultura da paz e da solidariedade. Como o Papa João Paulo II
afirmou na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, no início do ano
corrente: "A cultura da solidariedade está intimamente ligada ao
valor da paz... O aumento preocupante dos arsenais de armas... traz consigo o
risco de alimentar e estender uma cultura da competição e conflito, que
envolve não apenas os Estados mas também entidades não institucionais, como
grupos paramilitares e organizações terroristas... Frente a tais ameaças,
todos devem sentir o dever moral de tomar decisões concretas e oportunas, para
promover a causa da paz e da compreensão entre os homens".
Obrigado, Senhor Presidente.