Senhor Presidente
Tanto o Relatório do Secretário-Geral, como
a "Nova Iniciativa Africana" chamaram continuamente a atenção
para a necessidade das iniciativas integradas. Estas são necessárias não só
para evitar a duplicação que ainda caracteriza muitos programas
internacionais, mas também para garantir que todos os nossos esforços visem a
participação e a inclusão, e sejam eficazes através de um processo
abrangente.
A globalização só servirá verdadeiramente
a família humana, se se tornar um processo de inclusão. O processo de
globalização deve realçar o respeito pela dignidade de cada pessoa
individualmente. Deve promover a unidade da família humana e servir a
administração responsável de toda a criação, que foi confiada à
humanidade. Se a globalização fosse acompanhada de uma vasta exclusão,
simplesmente não seria global.
A globalização é um facto, mas também um
desafio. Ela pode gerar grandes oportunidades para a criatividade e a
iniciativa, tornando irrelevantes muitas das barreiras do passado. Contudo, a
globalização é orientada por seres humanos e influenciada pelas suas decisões.
Não está isolada das aspirações humanas mais vastas. A globalização dotada
da inclusão só pode ser alcançada mediante um esforço consciente no campo da
solidariedade, fruto de decisões concretas por parte dos seres humanos.
Realizar a globalização com inclusão a nível
internacional exige esforços concertados que visem identificar e ultrapassar os
factores responsáveis pela exclusão. Requer o estabelecimento de uma série de
normas e regras, mas também de ideais. Exige a compreensão de que corresponder
às necessidades dos mais frágeis é um investimento a longo prazo, para o bem
de todos, inclusivamente dos mais fortes e poderosos. O Papa João Paulo II
evidenciou o facto de que "é do próprio interesse das nações ricas
optar pelo caminho da solidariedade, porque só assim será possível garantir a
paz e a harmonia duradouras à humanidade" (Ecclesia in Africa, 114).
O Relatório do Secretário-Geral explica a
necessidade de criar novos modelos de aliança, visando a inclusão da África e
de todos os Africanos, mulheres e homens, como protagonistas do seu próprio
futuro e como parceiros na nossa busca conjunta de uma visão do progresso digno
da pessoa humana. Nos nossos esforços globais, temos necessidade de formas de
aliança que façam da África uma parceira forte, a nível de igualdade com
todas as regiões do mundo. Estas alianças devem colocar no centro da sua atenção
a redução da pobreza, de tal forma que todas as pessoas humanas na África
possam ser ajudadas a dar-se conta do potencial divino de que dispõem.
Existe algo na solidariedade que a coloca
acima do simples cálculo. Não podemos construir uma ordem mundial fundamentada
na solidariedade, tendo como ponto de partida apenas uma vaga noção do
interesse nacional ou económico e, menos ainda, uma noção inspirada na protecção
do benefício financeiro ou do domínio. A solidariedade na era da globalização
exige um novo conceito da cidadania e da responsabilidade globais. É
evidentemente injusto exigir que os países mais pobres abram os seus mercados,
e ao mesmo tempo fomentar uma forte protecção dos produtos, em cujo comércio
eles têm uma relativa vantagem. Um sistema aberto, assente no livre mercado e
na concorrência, deveria ser profundamente analisado, mesmo a partir de uma sua
lógica interior, quando se dá conta de que a participação da África no
mercado mundial está a diminuir.
Já abordámos os problemas da África em
muitos dos nossos debates. Deveríamos também evidenciar a oportunidade da África,
bem como a imensa riqueza humana e cultural que esse continente possui e da qual
todos nós podemos aprender. A cultura africana e o seu profundo sentido da família
e da comunidade vivem sob pressão numa cultura global, às vezes excessivamente
dominada pelo individualismo. O respeito pelos direitos humanos de cada pessoa
pode ser alcançado de maneira mais eficaz numa cultura que também promove um
sentido de responsabilidade e de partilha.
A urbanização surpreendentemente rápida da
África, a que se refere o Secretário-Geral, também apresenta desafios
culturais e humanos. Devem fazer-se maiores esforços para assegurar que as
comunidades rurais se tornem mais sustentáveis, não só mediante uma reforma
agrária, mas inclusivamente através do investimento nas próprias comunidades
sustentáveis. Isto significa oferecer melhores cuidados médicos, educação e
água potável às comunidades rurais. Significa investir na segurança
alimentar e nas infra-estruturas das comunicações. As estratégias que visam a
redução da pobreza devem ser também abrangentes, para abordar as causas básicas
da pobreza rural e levar as comunidades agrárias a tornar-se plenamente
participantes na vida política, cultural e económica do seu país. É um dever
especial, que temos em relação à juventude das
comunidades africanas, as quais têm o direito a esperar no futuro das
comunidades a que pertencem (cf. Ecclesia in Africa, 115).
Em muitas ocasiões, nos nossos debates falámos
sobre as consequências do conflito na África. Temos necessidade de novos esforços
concertados para levar a paz às mulheres, crianças e homens que conheceram
unicamente os terrores da guerra, em certos casos durante gerações. Esta é a
responsabilidade de todos, tanto na África como no estrangeiro. É inaceitável
falar aqui sobre a paz, sem dar os passos necessários para a construir,
mediante o revigoramento de normas democráticas e participativas inequívocas.
É inaceitável exigir esforços em favor da paz e, ao mesmo tempo, fechar os
olhos para os ignominiosos factores de interesse económico que alimentam
determinados conflitos, como observou o próprio Secretário-Geral ou, pior
ainda, para o incessante tráfico de armas que continua a atingir as áreas de
conflito ou de elevado risco.
Somente programas globais abrangentes, que
tenham em conta os cidadãos dos países em vias de desenvolvimento, poderão
levar à obtenção de um progresso verdadeiramente sustentável.
Devemos investir nos povos da África e ter
confiança no facto de que eles próprios são os primeiros a desejar a paz, a
almejar um futuro melhor e mais próspero para si mesmos e para as suas famílias.
São eles que mais aspiram a um continente unido e deveras florescente.