Muito obrigado, Senhora Mary Robinson, por me ter convidado para esta mesa
redonda, no início da Conferência Mundial sobre o Racismo, simbolicamente
programado para Durban, na África do Sul cujas cicatrizes frágeis do apartheid
mostram até que ponto pode chegar o desprezo pelo homem. Testemunha
durante 15 anos de tantos horrores e da vergonha em todos os continentes, o
que é que eu vos posso dizer em cinco minutos?
Vivemos numa época em que as evidências
mais elementares têm necessidade de ser divulgadas, proclamadas e até mesmo
clamadas para se impor. É assim também com o racismo. Não se transige com
ele, suplantando-o lá onde ele se esconde e combatendo-o até ao fundo. Nunca
se consegue derrotar suficientemente este mal, que não cessa de renascer das
suas cinzas; assim, se o seu nome acabou por ser desacreditado, a realidade
racista é mais viva do que nunca, sob diversificadas máscaras. Como explicar
tal persistência, depois de tantas campanhas vigorosas e generosas das Nações
Unidas, da Igreja e de numerosas ONGs?
O racismo constitui uma chaga que permanece
misteriosamente aberta no lado da humanidade. Diante da sua propagação e da
sua banalização, o anti-racismo do passado parece ser pouco adequado no
presente e tem necessidade não só de vivificar as suas convicções
permanentes, mas também de renovar as suas argumentações e às vezes até
mesmo de mudar de meta. Alguns analistas chegaram a afirmar que o racismo tem
o seu par num certo anti-racismo: existe uma forma de militantismo que,
longe de debilitar, provoca uma exacerbação do racismo. A própria noção
de racismo deve ser utilizada de forma delicada, e não sem o risco de a
dissolver, classificando sob a sua rubrica todas as espécies de comportamento
de desigualdade.
Um debate sobre o racismo não pode fazer a
economia da sua história. Não se elimina com um golpe de mão, como se fosse
uma mosca irritante, o zumbido de um passado maculado pelo desprezo do homem,
até à negação do humano. Esta memória é necessária para esclarecer e
orientar o presente ao longo do caminho da justiça, mas não deve ser
extenuante. Ninguém pode ser prisioneiro do seu passado, por mais difícil
que este tenha sido. A memória cura-se tão bem quanto o corpo, é chamada a
deixar-se purificar e não a manipular. "A reiterada vingança mortífera
deve ser substituída pela novidade libertadora do perdão", afirmou o
Papa João Paulo II (cf. Mensagem por ocasião do Ano Novo de 1997),
convidando a uma "nova e correcta leitura da história... que é um
verdadeiro desafio a nível pedagógio e também cultural, um desafio da
civilização!".
Numa anatomia do racismo, hoje não se pode
observar somente os movimentos dos homens e dos povos, mas inclusivamente o
funcionamento dos Estados e das Nações, sobretudo quando uma nação tende a
tornar-se a medida suprema dos seus cidadãos, identificando-se com uma das
suas etnias. João Paulo II ensina-nos muito mais: "A história
demonstra que, quando os Estados deixam de ser iguais, também as pessoas
terminam por não o ser. Desta forma, a solidariedade natural entre os povos
é destruída, o sentido das proporções é deturpado e o princípio da
unidade do género humano desprezado" (cf. Discurso ao Corpo Diplomático
acreditado junto da Santa Sé, 15 de Janeiro de 1994).
A seguir ao descobrimento do Novo Mundo, as
grandes interrogações que surgiram e se tornaram objecto de uma sábia "disputatio"
foi: "Diz-me, quem é o homem? Os Índios têm alma?".
Percorrendo o mundo inteiro, quem poderia
afirmar que hoje ela não se apresenta de modo igualmente urgente e anormal?
Diante de pontos de referência que mudam ou desaparecem, o homem moderno
titubeia, começa a ter dúvidas acerca de si mesmo e o combate anti-racista
interrompe-se. Esta batalha é como uma guerra de corrosão, é sem dúvida o
mais árduo de todos os combates em favor dos direitos do homem. Ele tem como
objecto a igualdade natural entre todos os homens e constitui uma espécie de
desafio do espírito contra a natureza, uma vez que os homens apreciam mais a
diferença do que a igualdade. Reconhecer que o outro, na sua diferença, é
verdadeiramente meu semelhante é algo difícil e tem consequências incalculáveis.
Não há nada menos natural, do que dizer "todo o homem é meu irmão"
e efectivamente viver esta fraternidade, sobretudo quando, na narração de
Caim e de Abel, a Bíblia nos revela a nossa genealogia: todos nós
somos descendentes de um criminoso fratricida!
Como homem de Igreja, é mais um espírito
do que propriamente um programa que desejei confiar-vos. Na sua luta contra o
racismo, ninguém pode limitar-se unicamente ao seu carácter racista, por
mais obstinado que seja. Também ele é "meu irmão"! O Evangelho
apresenta a todos uma possibilidade para sair do impasse racista. A
Igreja está consciente das falhas históricas de alguns dos seus próprios
membros: contudo, toda a discriminação racial é contrária à sua fé
cristã, enquanto o respeito integral pelo outro vai muito além da simples
resignação à tolerância como experiência inevitável.
Senhora Mary Robinson, a minha oração
acompanha a sua comitiva até Durban, a fim de que a Conferência mundial de
que Vossa Excelência é responsável em nome das Nações Unidas, seja um
verdadeiro sinal de que todos os homens e todas as mulheres do primeiro ao
quarto mundo são chamados a entrar juntos no "mundo de todos", para
ali viver livres e felizes. Num livro publicado pela UNESCO há mais de trinta
anos ("O direito de ser homem"), o seu director de então, René
Maheu, cadenciava o seu prefácio com as seguintes expressões:
"Por mais ingentes que tenham sido os esforços despendidos e os
desenvolvimentos alcançados, por mais heróicos que sejam os inúmeros sacrifícios,
o preço do homem livre ainda não foi pago pelo próprio homem e nem sequer
definido no seu justo valor... Neste preciso momento, milhões de seres
humanos, nossos semelhantes, oprimidos ou revoltados, esperam por nós, por ti
e por mim".
Vós e eu... de Genebra a Durban.