Senhor Presidente!
Permita-me antes de mais, felicitar-me com o
Dr. Francisco Aguirre Sacasa, e com os demais membros da mesa, pela sua eleição
para presidir a esta III Reunião de Estados Membros da "Convenção"
sobre a proibição do uso, armazenamento, produção e transferência de minas
anti-homem e sobre a sua destruição.
A minha delegação deseja também exprimir o
mais sentido agradecimento ao Governo da Nicarágua pela sua generosa
hospitalidade e a sua valorosa decisão de manter a realização desta Conferência
na data prevista. A ausência de algumas delegações e a reduzida composição
de outras levam-nos inevitavelmente aos trágicos acontecimentos que na semana
passada transtornaram não só a vida de uma nação, mas de quase
todo o mundo. Os históricos acontecimentos de 1989 na
Europa, com as suas repercussões a nível
mundial, e no início do terceiro milénio da era cristã, pareciam anunciar um
grande período de tranquilidade e de paz para todos os povos. Sem dúvida,
precisamente nestes dias, começam a soprar novos ventos de desestabilização.
A Delegação da Santa Sé ao renovar o seu
mais sentido pesar ao Governo e a todos os cidadãos dos Estados Unidos pelos
irracionais ataques terroristas que causaram milhares de vítimas e inumeráveis
feridos, toma a liberdade de fazer-se eco da imploração do Sumo Pontífice
para que esses acontecimentos, apesar de serem "de uma crueldade tão
selvagem", não originem "uma espiral de ódio e de violência",
partindo da firme convicção de que nem uns nem outros têm a última palavra.
Senhor Presidente
Como se sabe, as duas primeiras Reuniões
dos Estados-Parte da Convenção de Otava, realçaram
luzes e sombras.
Entre as primeiras, merece ser realçada a
tendência para diminuir a produção, a comercialização e o uso de minas
anti-homem.
Entre as sombras assinalam-se:
a) a carência de recursos financeiros perante
os enormes custos devidos às actividades relacionadas com os objectivos da
Convenção;
b) os limites da mesma Convenção, que não
prevê medidas de averiguação nem um sistema de sanções;
c) os perigos derivados de outros tipos de
minas, que não foram considerados pela Convenção (as minas antiveículos que
estão dotadas de um dispositivo antimanipulação e que podem ter os mesmos
efeitos dramáticos das minas anti-homem);
d) a possibilidade de fabricar novos
mecanismos substitutivos das minas anti-homem.
Por isso desejamos que esta III Reunião
contribua para dissipar todas as sombras e difundir as luzes até alcançar o
pleno dia. Em concreto, que seja uma boa ocasião para que a Comunidade
Internacional, e em particular os Estados-Parte da Convenção, renovem a sua
vontade de:
- difundir os princípios humanitários e os
objectivos de segurança que constituem o espírito da Convenção, a fim de
salvaguardar a vida e a dignidade da pessoa humana;
- prestar maior assistência "ao cuidado
e reabilitação" das vítimas "e à sua integração social e económica";
- favorecer o regresso das pessoas
"deslocadas" às suas terras de origem e de trabalho;
- restituir as terras desminadas ao seu
destino natural ou produtivo, agrícola ou industrial, para a realização de
projectos de desenvolvimento económico e social, a favor das famílias e das
comunidades que nelas habitam;
- renunciar, de uma vez para sempre, à produção,
ao comércio e ao uso destes instrumentos de morte que atingem sem fazer distinção
de pessoas.
A Santa Sé que foi um dos primeiros Estados a
ratificar a Convenção está convencida como nunca de que ela constitui um
elemento importante do direito humanitário, na medida em que as minas
anti-homem são instrumentos frios e cegos, estudados, construídos e usados
para ferir ou matar uma ou mais pessoas. E ainda, a Convenção assinala a toda
a Comunidade Internacional uma meta "que representa uma vitória da cultura
da vida sobre a cultura da morte" (João Paulo II, Angelus, 28/2/1999).
Foram dados grandes passos neste caminho, mas
contudo ainda falta fazer muito. Chegou o momento de tomar consciência de que,
num mundo em grande medida interdependente ou globalizado, não pode haver
segurança para alguns sem a segurança de todos.
Esta segurança não pode basear-se sobre o
poder da tecnologia nem está garantida por um seu uso egoísta como tristemente
nos ensina a experiência mas com o fortalecimento e a promoção dos valores éticos
fundamentais, aceites por todos e válidos em todas as partes. A segurança,
assim como a paz, deve estar fundada na verdade, na justiça, na liberdade e na
solidariedade. A liberdade não deve ter fronteiras nem fazer distinção de língua,
raça ou povo. A liberdade, como a pessoa humana, é única e indivisível. Como
realçou Sua Santidade João Paulo II, a justiça é o outro nome da paz.
O contributo dos países doadores para
destruir as minas anti-homem ou para a reabilitação das vítimas é uma
expressão concreta da solidariedade que está na base das relações
harmoniosas e pacíficas entre os povos. Neste sentido, é desejável e deve ser
apoiada qualquer iniciativa que se destine a garantir os fundos necessários
para esta finalidade. Os objectivos da Convenção não se alcançarão
plenamente enquanto não forem aceites e postos em prática por todos os
Estados. Por esta razão, a Santa Sé associa-se ao reiterado desejo, formulado
por muitos dos que aqui se encontram, de que os Estados, que contudo não
aderiram a este importante instrumento do direito
internacional humanitário, o façam quanto antes. É evidente que quando chegar
o dia em que todos os Estados aderirem e cumprirem efectivamente os seus
compromissos, jamais se temerão as ciladas de destruição e morte que as minas
causam. Uma vez reconquistada a confiança recíproca, poderemos
construir todos juntos um mundo melhor, mais seguro e próspero para toda
a família das Nações.
Muito obrigado.