Eminentíssimos Senhores
Excelentíssimas Autoridades
Senhor Bispo D. Ximenes Belo
Queridos Amigos em Cristo
Este é o dia que o Senhor fez; exultemos e
alegremo-nos nele! É com os corações transbordantes de alegria que aqui nos
juntamos, porque vós, povo de Timor Leste, encontrastes recentemente a
liberdade e a independêmcia; um benefício conquistado por alto preço.
Agradeço profundamente ao Senhor D. Carlos
Filipe Ximenes Belo, não só por me convidar a presidir à celebração desta
Santa Missa, mas também pela sua função importante no longo e difícil
processo para uma serena independência de Timor Leste; função essa que lhe
obteve o Prémio Nobel da Paz em 1996 uma honra bem merecida por ti, meu Irmão
no Episcopado, e por quantos se encontram hoje aqui connosco e que trabalham
contigo como arquitectos da liberdade e independência.
D. Ximenes Belo, tu és um bom pastor que
conhece o seu rebanho! Agradeço-te pelo testemunho do Evangelho e pela
solicitude para com o Povo de Deus!
Celebramos hoje esta Missa no mesmo lugar onde
o fez o Papa João Paulo II, no dia 12 de Outubro de 1989. A sua decisão de
celebrar Missa em Díli foi uma expressão da grande esperança que depositava
no Povo timorense e um sinal de encorajamento. O Santo Padre sempre esteve e
continua solidário convosco, manifestando as suas pessoais congratulações a
cada um de vós aqui presentes nesta especial ocasião. Além disso, exorta-vos,
com as palavras de São Pedro, a "comportar-vos como homens livres, não
como aqueles que fazem da liberdade como que um véu para encobrir a malícia,
mas como servos de Deus".
O facto de Sua Santidade me ter querido seu
enviado Extraordinário à Proclamação da Independência de Timor Leste
constitui para mim uma grave honra e privilégio. Sinto-me verdadeiramente feliz
por estar aqui, não só porque pessoalmente interessado numa serena independência
desta nobre terra, mas também porque durante os últimos quinze anos, na minha
qualidade de Núncio Apostólico e Observador Permanente da Santa Sé junto das
Nações Unidas, tive repetidas oportunidades de trabalhar para esta importante
causa. Mesmo quando a outros na Família das Nações lhes pareceu o contrário,
a Santa Sé sempre se manteve activamente empenhada procurando ajudar o Povo
timorense na concretização da sua liberdade e independência.
No Antigo Testamento, Moisés ensinou o seu
povo a recordar-se das grandes obras que Deus fez por eles; como Ele os fez sair
juntos, caminhou à sua frente através do deserto, alimentou-os com o pão do céu,
libertou-os da escravidão e guiou-os através de terras vastas e perigosas.
O mesmo sucedeu com o povo de Timor Leste, que
há-de manter vivo na memória também "quem nos conduziu juntos?",
"qual foi o nosso percurso?", "quem nos levou através do
deserto, dando-nos alimento e bebida?", "quem nos libertou?".
Estas são as interrogações acerca da vossa identidade, unidade, história,
segurança e fé comum. São as perguntas que alimentam a vossa busca de
independência, que alcançastes pagando um alto preço.
Quer a nível pessoal, quer como Nação,
muitas vezes reflectis sobre a causa das vossas inquietações. Os fracassos e
frustrações, juntamente com ameaças, guerra e violência, deixam-vos não
raro abatidos. A realidade política e social muitas vezes vos amedronta. Uns
preocupam-se com o futuro da Igreja, outros com o estado da Nação. Muitos
vivem alarmados com a situação mundial. Em todo este alvoroço da alma, subjaz
o mesmo refrão: "Onde está a nossa âncora? Em quem podemos
confiar?". São Paulo, na Carta aos Efésios, ajuda-nos a discernir nestas
questões. Diz que Cristo é a fonte da nossa unidade, e que a nossa identificação
com o Senhor é uma força de onde brota justiça e paz.
Quando Jesus apareceu aos discípulos depois
da sua ressurreição, deu-lhes o único dom que poderia libertá-los das
cadeias que os imobilizavam; cadeias de tristeza e mágoas, de confusão e medo.
Jesus deu-lhes o Espírito Santo e eles sentiram-se livres, com uma nova coragem
e energia para irem ensinar todas as nações, para serem um povo santo, um
sacerdócio real, uma nação sagrada.
O Espírito, que encheu os discípulos no
Pentecostes, foi tão forte como confirmação da fé em Jesus que os crentes
eram capazes de falar de forma não apenas unânime mas compreensível
universalmente. É o Espírito, como recorda o grande hino Veni, Sancte
Spiritus, que habita no coração do pobre e desvalido; que gera alegria e
consola o triste; que dá uma inteligência profunda e transforma aflições,
enchendo de gozo o coração humano.
Como suspirou o Povo timorense pelos efeitos
vigorosos e libertadores do Pentecostes! Quanto vos sacrificastes para chegar a
esta hora! Quantos milhares de vidas se perderam ao longo do caminho! No
Evangelho de hoje, Jesus lembra-nos que não há amor maior do que este:
dar a própria vida pelos seus amigos. Nós queremos lembrar nesta Missa todos
aqueles que perderam as suas vidas na luta pela liberdade; encomendamos as suas
almas à misericórdia amorosa de Deus, com a certeza e firme esperança de que
um dia havemos de vê-los de novo, quando o amor de Cristo, que tudo domina,
destruir por fim a própria morte. Rezamos também por aqueles que choram a sua
perda: os familiares e amigos que, em seus corações, conservam viva a
lembrança dos seus entes queridos.
Também São Paulo diz que o amor, a alegria,
a paz, a confiança, a benignidade, a bondade, a mansidão, a paciência e a
continência desarmam os efeitos perversos da idolatria, das divergências, das
acções, da inveja e do ódio. Os dons do Espírito Santo tornam-nos capazes de
ultrapassar as tristes divisões da nossa humanidade dilacerada, e permitem-nos
exprimir a nossa união de irmãos no Senhor. O Senhor Jesus diz-nos, no
Evangelho de São João, que devemos amar-nos uns aos outros como Ele nos amou.
Não se trata de uma gentil sugestão; é um mandamento. Temos de continuar a
pedir os dons do Espírito Santo, para que a alegria de sermos livres sempre se
radique na verdade, na justiça e na paz para com todos.
Uma verdadeira liberdade e uma autêntica
independência são dom do Espírito de Deus; um dom sumamente prezado pelas
pessoas que sofreram a sua privação, que suspiraram e lutaram para ser livres.
Isto mesmo está bem espelhado na bandeira do vosso País novo; são quatro
cores que simbolizam o percurso feito até chegar à independência e à esperança
de um amanhã mais promissor: o preto simboliza os sofrimentos e aflições
passadas; o vermelho, o sangue derramado pela liberdade; o dourado traduz o
anseio dum futuro próspero; o branco, a paz; e por fim uma estrela, para guiar
o vosso caminho pátrio.
Hoje é um dia glorioso para o Povo timorense.
É um dia igualmente glorioso para os católicos timorenses. Sim! É o Espírito
Santo que nos consola com a certeza de que realmente os nossos trabalhos e esforços
modificaram o mundo, mas neste aqui, como em todos os âmbitos da vida, não há
solução última que não saia das mãos de Deus. Muitas vezes nos ensinou a
história que, quando as declarações de independência colocam Deus fora da
cena, prepara-se o desastre, tanto dos indivíduos como da nação. Só Deus é
o nosso refúgio, e um baluarte contra os nossos temores. Em todas as coisas,
devemos perguntar-nos: qual é a nossa rocha, a nossa esperança, a nossa
protecção, a nossa força? Em tudo, a resposta é Deus, o único que pode
servir como nossa segurança sem tornar-se um ídolo que nos escravize no medo.
Por este motivo, nesta maravilhosa ocasião em
que nos congregamos para celebrar a Declaração de Independência, convido-vos
a deixar espaço para uma certa dependência de Deus; uma dependência que todos
nós devemos manter, se queremos ser verdadeiramente livres. Na verdade, a
dependência de Deus pode ser o maior contributo para a democracia que agora
rege esta terra; este nobre e soberano Estado que, com ufania, chamamos Timor
Leste.