SÍNODO DOS BISPOS
ASSEMBLEIA ESPECIAL PARA AMÉRICA
ENCONTRO COM JESUS CRISTO VIVO, CAMINHO PARA A
CONVERSÃO, A COMUNHÃO E A SOLIDARIEDADE NA AMÉRICA
LINEAMENTA
APRESENTAÇÃO
Sua Santidade o Papa João Paulo II, em sua Carta Apostólica
Tertio millenio adveniente, 38 (10 de novembro de 1994), manifestou a intenção
de convocar uma Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América.
Imediatamente depois deste anúncio, o Santo Padre nomeou um Conselho
pre-sinodal da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos para a Assembléia
Especial para a América. Este Conselho, na sua maioria, é composto
por Bispos da América. A Secretaria Geral começou imediatamente o
processo de preparação para esta assembléia sinodal
especial enviando uma carta de consulta a todos os interessados no continente
americano, isto é, às Conferências Episcopais e aos
Arcebispos sui iuris das Igrejas Orientais, como também à
Cúria Romana e à União dos Superiores Gerais, com o
objetivo de definir um tema de importância contemporânea, de
interesse universal e de caráter urgente, para ser tratado nesta assembléia
sinodal especial. Os resultados desta consulta, ulteriormente analisados e
discutidos pelo Conselho pre-sinodal para a Assembléia Especial da América,
assim como uma série de recomendações elaboradas pelo mesmo
conselho, foram em seguida entregues ao Santo Padre.
Levando em consideração as propostas do Conselho, o Santo
Padre escolheu o seguinte tema para esta Assembléia Especial: Encontro
com Jesus Cristo vivo, caminho para a conversão, a comunhão e a
solidariedade na América. A formulação do tema procura
responder ao contexto das circunstâncias da Igreja na América e, ao
mesmo tempo, abranger uma realidade que atinge tanta gente e tantas culturas do
continente americano. Realçando o papel central de Jesus Cristo vivo,
como caminho de conversão, de comunhão e de solidariedade, a
Igreja na América preparar-se-á melhor para celebrar o grande
Jubileu do Ano 2000 e realizará mais eficazmente a nova evangelização,
levando a todos os habitantes do continente a mensagem da salvação.
Para apresentar de modo geral este tema sinodal, a Secretaria Geral, em
cooperação com os membros do mesmo Conselho pre-Sinodal e teólogos
do continente americano, elaborou os Lineamenta, o primeiro de uma série
de documentos relacionados com a Assembléia Especial para a América.
Como o próprio nome sugere, o presente documento oferece um primeiro esboço
sobre o tema. O único propósito da elaboração deste
texto é o de oferecer uma base comum de reflexão, como também
o de suscitar sugestões e observações. Por este motivo,
inclui-se um questionário em apêndice.
É de se esperar que estes Lineamenta suscitem numerosas
observações e sugestões provenientes das distintas partes
da Igreja na América, de modo que as Conferências Episcopais e os
Arcebispos sui iuris das Igrejas Orientais possam ter a informação
necessária para elaborar as respostas oficiais que a seguir enviarão
à Secretaria Geral. A qualidade e o número das respostas
contribuirão para garantir aos Padres Sinodais, reunidos na Assembléia
Especial, a possibilidade de contar com o material necessário para o
estudo de uma temática tão importante para a Igreja que está
na América.
Portanto, os Lineamenta em si mesmos não são parte da
agenda da Assembléia Especial. Em um segundo momento será
elaborado um "documento de trabalho" ou "Instrumentum laboris",
partindo das respostas oficiais das diversas partes interessadas do continente
americano, dos dicastérios da Cúria Romana e da União de
Superiores Gerais.
Toda a Igreja na América é convidada a participar:
sacerdotes diocesanos e religiosos, mulheres e homens consagrados, mulheres e
homens leigos, seminários e faculdades de teologia, conselhos pastorais;
movimentos e grupos católicos, comunidades paroquiais e todas as organizações
da Igreja. Quanto mais numerosas forem as respostas, mais completa e substancial
será a informação para aqueles que têm a
responsabilidade de redigir os documentos oficiais. Isto garantirá o caráter
completo e substancial do texto do Instrumentum laboris, o documento no
qual se concentrará a atenção e a discussão na
Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América.
Ao preparar a resposta aos Lineamenta, é preciso ter em
conta os seguintes aspectos. O número e a variedade das perguntas do
questionário foram deliberadamente escolhidos para servir de guia na
estruturação das reflexões sobre o tema da Assembléia
Especial para a América. Estas perguntas, portanto, e não o texto
dos Lineamenta, devem ser a base de todas as respostas. Neste sentido,
todas as observações devem fazer explícita referência
às perguntas formuladas. Ao mesmo tempo, tenha-se presente que não
é necessário responder a todas e a cada uma das perguntas.
Dependendo das circunstâncias individuais, aqueles que respondem devem
sentir-se livres de escolher aquelas perguntas que lhes parecerem mais
relevantes.
No continente americano, as respostas das comunidades eclesiais e dos
grupos diocesanos e arquidiocesanos devem ser enviadas ao bispo local, que fará
uso de tal informação na preparação da sua própria
resposta. Esta, em seguida, será enviada à Conferência
Episcopal da qual o Bispo é membro. As respostas de cada uma das
mencionadas Conferências Episcopais, dos Arcebispos sui iuris das Igrejas
Orientais, da Cúria Romana e da União de Superiores Gerais, deverão
chegar à Secretaria Geral o mais tardar no dia 1· de abril de 1977.
Esta data limite deverá ser recordada por todos aqueles que desejam
contribuir de alguma maneira para este processo de reflexão.
Com a publicação dos Lineamenta, começa
uma etapa crucial da preparação da Assembléia Especial,
etapa que supõe a cooperação e a oração de
cada um dos membros da Igreja. A verdadeira comunhão na Igreja é
um mistério que se estende para além dos confins da nação
e do continente - para além dos próprios confins do mundo como o
conhecemos - através do tempo e da eternidade. Uma vez que a Igreja na América
se prepara para esta especial celebração de comunhão entre
os bispos, ela o faz em união mística com toda a Igreja. Neste espírito
a Igreja na América é sustentada no período de preparação
pre-sinodal pela oração e pelas boas obras de todos os membros da
Igreja, particularmente por aqueles que integram a comunidade celestial dos Mártires
e dos Santos, e, como sempre, dirige seu olhar para a Virgem Maria, pedindo a
sua infalível proteção.
Jan P. Cardeal Schotte, C.I.C.M. Secretário
General
Nota: Ao falar de Assembléia Especial para a América,
e não de uma Assembléia Pan-americana ou
Intercontinental, não se pretende ignorar as evidentes diferenças
culturais, sociais e histórias que caracterizam a América do
Norte, a América Central, a América do Sul e o Caribe. Não
obstante, uma vez que a Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos
pretende tratar dos problemas comuns às partes mencionadas, optou-se por
fazer referência à América como uma única realidade
geográfica, especificando, em cada caso, quando o contexto o requer, as
respectivas diferenças.
INTRODUÇAO
1. Aproximando-se o final do Segundo Milênio do Cristianismo, a Igreja
prepara-se com diversas iniciativas pastorais para celebrar com fé e
reconhecimento o Grande Jubileu do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dispõe-se,
desse modo, a entrar no terceiro Milênio da era cristã com um
renovado empenho em dar testemunho alegre da sua fé e esperança
diante do mundo inteiro. A Igreja que peregrina na América também
deseja celebrar Jesus Cristo, como quem recorda e revive o acontecimento
fundamental e decisivo da sua história. A humanidade toda vive no
presente uma época dramática e, ao mesmo tempo, capaz de causar
entusiasmo, que alguns interpretam como final de uma era cultural e como
vislumbre laborioso de uma nova civilização. Neste contexto, é
preciso refletir sobre o modo como esta situação história
afeta o Povo de Deus e também sobre a participação da
Igreja que está na América no nascimento de uma nova civilização
de justiça, de solidariedade e de amor.
2. Para favorecer a renovação da fé e da vida cristã
do Povo de Deus na América nesta encruzilhada da história, os
Bispos, provenientes em sua maioria deste continente, reúnem-se nesta
Assembléia Especial para a América, acolhendo com espírito
apostólico a proposta que o Santo Padre João Paulo II fez, pela
primeira vez, em Santo Domingo, no ano de 1992, ao inaugurar os trabalhos da IV
Conferência Geral do Episcopado latino- americano: "Nesta mesma linha
de solicitude pastoral pela situação das categorias sociais mais
carentes, esta Conferência Geral poderia considerar a oportunidade de que,
num futuro não remoto, possa realizar-se um Encontro de
representantes dos Episcopados de todo o Continente americano - que poderia
ter também caráter sinodal - , visando incrementar a cooperação
entre as diversas Igrejas particulares nos distintos campos da ação
pastoral, e no qual, no âmbito da nova evangelização e como
expressão da comunhão episcopal, se enfrentem também os
problemas relativos à justiça e à solidariedade entre todas
as nações da América(1).
Posteriormente, o Papa retomou este tema no programa global que, para a
preparação do Jubileu do Ano 2000, apresentou à Igreja Católica
universal em sua Carta Apostólica "Tertio millennio adveniente":
"A última Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano
acolheu, em sintonia com o Episcopado da América do Norte, a proposta de
um Sínodo para as Américas sobre as problemáticas
da nova evangelização em duas partes do mesmo continente tão
diversas entre si pela origem e pela história; e sobre as temáticas
da justiça e das relações econômicas internacionais,
tendo em conta a enorme disparidade entre o Norte e o Sul(2).
As finalidades principais que o Santo Padre propõe, pois, para a
presente Assembléia Especial para a América são várias:
- promover uma nova evangelização em todo o
continente como expressão de comunhão episcopal,
- incrementar a solidariedade entre as diversas igrejas particulares
nos distintos campos da ação pastoral,
- esclarecer os problemas da justiça e das relações
econômicas internacionais entre as nações da América,
considerando as enormes desigualdades entre o Norte, o Centro e o Sul.
3. Estes Lineamenta pretendem responder a tais finalidades e
recolher as propostas das diversas Conferências Episcopais da América.
Antes de tudo, é preciso afirmar que o ponto de partida é Jesus
Cristo, Salvador e Evangelizador, que oferece o seu caminho nesta
conjuntura história. Ele convida o homem de hoje, como Nicodemos, "a
nascer do alto, da água e do Espírito, para poder entrar no Reino
de Deus" (Jo 3,3-5). No momento em que o povo de Deus que está na América
se dispõe a cruzar o umbral do terceiro Milênio, mantém
sempre sua validade a antiga e sempre nova verdade da fé cristã: "Pois
Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o
que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus
não enviou o seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo
seja salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; quem não
crê, já está julgado, porque não creu no Nome do
Filho único de Deus" (Jo 3,16-18).
Jesus Cristo, hoje vivente na sua Igreja, acompanha-a ao cruzar o umbral da
esperança e ao entrar no terceiro milênio, fortalece-a para
prosseguir a missão de anunciar o Evangelho que, há cinco séculos,
vem tornando fecunda a história no Continente americano com abundantes
frutos de salvação. A fim de confirmar e robustecer a vida cristã
dos povos e fazê- la irradiar em todos os âmbitos da sociedade e da
vida contemporânea no continente, os Pastores do Povo de Deus desejam
propor uma nova evangelização que estimule o encontro pessoal dos
homens e mulheres da América com Jesus Cristo vivo. Ele convida
todos à conversão, para poderem viver em comunhão
com o Pai e para deixarem-se transformar pelo Espírito em
instrumentos de solidariedade fraterna.
PRIMEIRA PARTE ENCONTRO ATUAL COM CRISTO, MORTO E
RESSUSCITADO
I
JESUS CRISTO, SALVADOR E EVANGELIZADOR
4. Ao iniciar os trabalhos sinodais sobre a nova evangelização
na América, é fundamental ter presente que Jesus Cristo, morto e
ressuscitado, vivente atualmente na sua Igreja, deve ser sempre o ponto de
convergência de todas as reflexões e o caminho para a sua atuação
pastoral. Deve-se realçar em todo momento o papel central da pessoa
de Jesus Cristo, "pois não há, debaixo do céu,
outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (At 4,12).
Do encontro de cada homem e de cada mulher com Jesus Cristo vivo brotarão
a conversão, a comunhão e a solidariedade como exigências básicas
para fazer deles apóstolos da nova evangelização.
"Como o Pai me enviou , também eu vos envio... Recebei o Espírito
Santo" (Jo 20,21-22). Jesus Cristo evangelizador convoca, evangeliza e
envia a evangelizar. "É deste conhecimento amoroso de Cristo que
jorra o desejo de anunciá-lo, de evangelizar, e de levar outros
ao sim da fé em Jesus Cristo. Mas ao mesmo tempo se faz sentir a
necessidade de conhecer cada vez melhor esta f(3).
Que diz hoje Jesus Cristo aos homens e mulheres da América, neste
momento da sua história? A pergunta não deve ser uma interrogação
teórica e sim concreta, isto é, deve levar a um verdadeiro
encontro e a um diálogo na fé. Todos os homens e mulheres da América
são convidados a procurar encontrar-se com Cristo, como se
encontra um discípulo em busca da verdade com o seu Mestre, um amigo em
busca de amizade com um seu companheiro de caminho.
5. Os evangelhos narram diversos encontros de homens e mulheres com Jesus.
Encontram-se com Ele dois dos discípulos de João Batista, sensíveis
à chamada de Deus. Perguntaram-lhe onde vivia e Jesus os recebeu em sua
casa. Esteve dialogando com eles, os quais, finalmente, tornaram-se discípulos
seus (Jo 1,35-51). Encontrou-se com Ele, de noite, Nicodemos, o magistrado judeu
que lhe expôs as suas dúvidas religiosas. Jesus revelou- lhe a
natureza da sua missão, o amor do Pai aos homens e sua própria
identidade, convidando-o a nascer de novo (Jo 3,1-21).
Mas também Jesus adianta-se e vai ao encontro de muitos homens e
mulheres. Assim, Ele mesmo encontrou Zaqueu, o coletor de impostos que nem
sempre respeitava as exigências da justiça em sua função.
Foi comer com ele, levando a alegria e a salvação à sua
casa e Zaqueu, tocado no seu coração, prometeu devolver o quádruplo
daquilo que tinha defraudado (Lc 19,1-10). Ele também
encontrou-se com a Samaritana, pecadora, junto ao poço de Jacó;
falou-lhe da água viva que sacia a sede profunda do homem e da (Jo
4,6-42).
6. Assim deveriam aproximar-se de Jesus os homens e mulheres da América:
não para fazer teorias sobre Ele, nem para observá-lo como
espectadores neutros, mas para encontrar-se com Ele, nas próprias
circunstâncias das suas vidas, em seus compromissos familiares e
profissionais, em seus projetos, dúvidas e fraquezas. De tal encontro,
se souberem dialogar com Ele e abrirem seu coração à escuta
da Palavra de Deus, sairão transformados em discípulos seus.
O encontro é sempre com Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Com Cristo que, "por sua encarnação, uniu-se de algum modo a
todo homem". Com Cristo que "trabalhou com mãos humanas, pensou
com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração
humano". Com Cristo que, "nascido da Virgem Maria, tornou-se
verdadeiramente um de nós em tudo, exceto no pecado(4). Nada de
humano é-lhe estranho, nenhuma situação de alegria ou de
sofrimento, de pobreza ou de trabalho, nenhuma legítima aspiração
humana é-lhe alheia. Ele caminha ao lado de cada homem e de todos os
homens e os acompanha nas suas vicissitudes históricas. Identifica-se com
os mais pequeninos entre os homens e morreu na cruz para livrar a humanidade do
pecado e do mal.
Na cruz e pela cruz Cristo venceu a morte física e sobretudo
espiritual. Por sua ressurreição vive eternamente junto ao Pai e,
no tempo, junto à sua Igreja peregrina. Por seu Espírito é
doador de vida: iluminando, guiando, consolando, fortalecendo e salvando a quem
se aproxima dele em busca de paz e de bem-aventurança. Cristo, também
hoje, como no domingo da ressurreição em Jerusalém, faz-se
presente no meio de cada comunidade cristã para dizer-lhe: "A paz
esteja convosco! Como o Pai me enviou, também eu vos envio... Recebei o
Espírito Santo" (Jo 20,21-22).
II
A IGREJA E A NOVA EVANGELIZAÇÃO
7. Em vista de uma reflexão sobre a nova evangelização
da América poderia, talvez, ser fecunda uma leitura do Evangelho de São
Lucas, que apresenta a obra da salvação como caminho salvador
e evangelizador: Cristo, enviado pelo Pai, percorre este caminho conduzido
pelo Espírito. Este caminho de salvação continua,
em seguida, através da obra de evangelização que
realiza a Igreja, peregrina na história. O caminho compreende três
momentos, sendo o primeiro o tempo de preparação no Antigo
Testamento; o segundo é o tempo do cumprimento e abrange tanto a vida e o
ministério público de Jesus, como o tempo da Igreja no qual Cristo
continua agindo por meio do seu Espírito como Messias, Salvador e
Evangelizador; o terceiro é a parusia, meta final do caminho salvífico.
8. É um caminho animado pelo Espírito, que falou através
dos profetas, guiou os passos de Jesus e, a partir de Pentecostes, os da Igreja.
Cada igreja particular, cada comunidade de discípulos do Senhor, tem o
seu Pentecostes ou batismo no Espírito (Lc 3,16; At 1,5;
At 11,16). Assim aconteceu com as comunidades de Jerusalém (At
2,1ss), de Samaria (At 8,14-17), de Cesaréia (At
10,44ss), de Éfeso (At 19,6) e também o apóstolo
Saulo teve o seu próprio "batismo" (At 9,17). O Espírito
guia também as comunidades cristãs na América quando se reúnem
para escutar a Palavra de Deus e para partir o pão da Eucaristia, quando
rezam, quando vivem unidas a seus Pastores e, sobretudo, quando realizam a missão
de anunciar a todos os homens a Boa Nova.
É um caminho que, de acordo com o plano de Deus, não se detém:
tem início na Galiléia, dirige-se a Jerusalém, em seguida a
Antioquia, finalmente a Roma e, de lá, a todo o mundo gentio. Nenhuma
autoridade nem poder humano algum podem detê-lo, pois seu dinamismo é
o da Palavra de Deus que produz seus frutos pela ação do Espírito
na Igreja, independentemente das metamorfoses da história.
9. É um caminho atual: cada geração de cristãos
tem o seu "hoje" salvífico como tarefa própria, caminho
a percorrer e caminho a viver realizando a experiência do Evangelho. O
cristão atual há-de viver e realizar seu próprio caminho de
fé hoje, entre a memória salvífica - Jesus Cristo, morto e
ressuscitado, vivo também no presente - e a tensão escatológica
rumo ao futuro, quando a salvação se consumará na parusia. "Agora"
é o tempo da conversão (At 4,29), pois é o tempo em
que age a graça e a Palavra edifica a comunidade (At 20,32). É
o tempo de dar testemunho do Reino de Deus.
Toda a Igreja na América deve tomar consciência da densidade
salvífica do "hoje" de salvação e do "hoje"
do compromisso evangelizador. Para isso é necessário saber avaliar
adequadamente a prática do sacramento da reconciliação (o
perdão e a misericórdia salvífica em ato), da celebração
da Eucaristia, da escuta da Palavra. É também importante saber
captar tantas manifestações do Reino no presente da história,
testemunhos de comunhão e de caridade: a fidelidade dos esposos, a
generosidade dos leigos nos movimentos apostólicos, o sacrifício
dos sacerdotes em seu ministério, a abnegada doação dos
missionários, religiosos e religiosas, os esforços desinteressados
e heróicos de tantos homens de boa vontade pela paz e pelo bem comum,
etc. Em síntese, é necessário interpretar à luz do "hoje"
salvífico os "sinais dos tempos", com seus aspectos positivos e
negativos, em ordem a um justo redimensionamento da realidade.
10. É um caminho salvador: o primeiro a percorrê-lo foi Jesus,
verdadeiro Salvador, e, atrás dele, começando pelos apóstolos,
toda a Igreja em sua peregrinação através dos séculos
como sinal e instrumento de salvação (cf. Lc 2,11;
4,18-21; 19,9-10; At 2,47; 5,31-32; 13,23.26; 16,17;28,28). As
Escrituras dão testemunho deste caminho de salvação que
responde aos desejos íntimos de toda a humanidade, judeus e gentios, aos
quais o Filho de Deus oferece a autêntica salvação,convidando-os
a abandonar falsas esperanças. Perante o mundo judeu, Jesus Cristo
representa o cumprimento da salvação prometida pelo Pai (cf. Lc
4,21; Is 58,6; 61,1-2; Lc 7,18-23; Is 26,19; 29,18ss;
35,5ss), que se recebe por pura misericórdia e não pelos próprios
méritos e sim pelo reconhecimento do próprio pecado (cf. Lc
13,1- 9; 14,1-24; 15,11-31; 17,10; At 2,38). Perante os desejos de salvação
dos gentios, Jesus apresenta-se como verdadeiro "Soter" ou Salvador",
pois também para estes Ele é a salvação (cf. At
2,39; 28,28).
Como no areópago de Atenas ou no foro romano em tempos de São
Paulo, também hoje abundam ídolos e divindades, pululam mestres,
gurus, seitas, movimentos esotéricos e gnoses globais, que oferecem
projetos de felicidade e utopias de salvação aos homens do tempo
presente. Diante de tais realidades, é fundamental recordar a todos, de
quando em vez, que "não há, debaixo do céu, outro nome
dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (cf. At 4,12) a não
ser somente o Nome de Jesus de Nazaré.
11. A salvação que propõe este caminho é radical
e universal, pois perdoa e cancela os pecados a todo aquele que a receba com
coração sincero (cf. Lc 1,77; 3,3; 4,18; 24,47; At
2,38; 5,31; 10,43; 13,38; 26,17-18). Trata-se de uma libertação do
mais radical dos males, que é o pecado, que, porém, se prolonga na
tarefa libertadora e na exigência ética (5). Por isso Jesus inicia
o seu caminho de salvação apresentando-se como anunciador do ano
de graça de Javé, oferecendo o perdão dos pecados,
libertando de Satanás, evangelizando os pobres, libertando os cativos
(cf. Lc 4,16-21) e realizando outros sinais que anunciam a libertação
escatológica de toda dor e da morte (cf. Lc 7,18-23; 21,28).
O Espírito Santo, que guiou os passos de Jesus, é também
hoje o primeiro evangelizador no novo Povo de Deus, trabalhando para congregar
os que nunca receberam a Boa Nova e os homens e mulheres que se afastaram da fé
cristã (6). Jesus continua oferecendo a salvação por meio
do seu Espírito, durante o caminho da Igreja. A missão da
Igreja a serviço deste caminho salvador de Jesus é, após
ter recebido a salvação, dar testemunho dela e oferecê-la
aos homens. Este iter salutis ou "caminho de salvação"
que oferece a Igreja na sua obra evangelizadora, pode-se resumir, segundo Atos
2,37ss, segundo a seguinte seqüência: receber a Palavra,
converter-se, crer, ser batizado, receber o perdão dos pecados e,
posteriormente, o dom do Espírito.
12. A palavra de Deus é o meio normal pelo qual a Igreja
convida à salvação. É palavra de graça e de
salvação, é palavra poderosa, mas o seu dinamismo depende
também do modo como é acolhida no coração de quem a
escuta (cf. Lc 8,4-15). Para recebê-la, é necessário
converter-se (cf. Lc 10, 13-16; 11,29-32), sobretudo da
incredulidade (cf. At 2,38-40) e da idolatria (cf. At 17,30;
26,20), para retornar a Deus Pai, através de Jesus, no Espírito. A
incredulidade difunde-se hoje entre os povos do Norte, do Centro e do Sul do
continente, sob formas de falsos messianismos ideológicos e políticos.
A idolatria esconde-se sob o aspecto do "culto" a novos "bezerros
de ouro", como o dinheiro, a riqueza, o poder, a sensualidade, a droga,
etc.
A Boa Nova é causa de salvação para quem a recebe com fé,
como o demonstram numerosos exemplos da história sagrada (cf. Hb
11,8; Lc 1,37- 38.45.48). "O homem deve responder a Deus, crendo
por livre vontade. Por conseguinte, ninguém deve ser forçado
contra a sua vontade a abraçar a fé. Pois o ato de fé é
por sua natureza voluntário(7). Todos os homens são chamados a
este ato livre de fé em ordem à própria salvação.
No entanto, é preciso recordar que Jesus revela uma especial solicitude
para com os mais fracos. Com efeito, no contexto do universalismo da salvação
são privilegiados os pobres, os enfermos, os marginalizados da sociedade.
A todos os homens e, em modo particular, a estes irmãos mais "pequeninos",
o Senhor oferece uma salvação integral, que abrange todas as
necessidades do homem, físicas e espirituais, terrenas e transcendentes.
A etapa terrena de Jesus foi universal em sua projeção, embora
a sua realização estivesse circunscrita à Terra Santa. A
sua obra dirige-se a todos os homens pecadores (cf. Lc 5,31s), uma vez
que o Filho de Deus é também, pelo mistério da sua encarnação,
o Filho do Homem e, portanto, irmão de todos os homens, igual a eles em
tudo, exceto no pecado. Por este motivo a sua obra de redenção
possui um alcance universal (cf. Lc 2,14.30-32). É na etapa do
caminho da Igreja que o Ressuscitado, presente por meio do seu Espírito,
oferece a Boa Nova da salvação a todos os homens pelo testemunho
de seus discípulos (cf. At 4,33).
É importante tomar consciência do caráter universal da
missão no seio de cada igreja particular: missão "ad gentes"
onde ainda não foi anunciado o Evangelho; mas também missão
entre batizados que se deixaram esfriar na sua vida cristã ou que
deixaram a Igreja católica. Esta missão "ad gentes" deve
ir ao encontro das novas situações das sociedades contemporâneas,
onde já não se ouve falar de Cristo, isto é, os novos areópagos
de que fala João Paulo II na carta encíclica Redemptoris
Missio: o areópago dos meios de comunicação social, o
areópago da cultura e da ciência, da arte e do pensamento, do espetáculo,
do esporte e da política(8).
III
MARIA, EVANGELIZADA E EVANGELIZADORA
13. Maria é o modelo no caminho evangelizador, pois nela acontece a
plenitude de graça. O Espírito Santo, que a transforma por
inteiro, oferece- lhe a missão da maternidade divina, preservando a sua
virgindade (cf. Lc 1,30-35). Maria, com a perfeita obediência da fé,
dá o seu "sim" humilde e generoso a Deus (cf. Lc 1,38)
e deixa-se evangelizar plenamente, acolhendo primeiro a Palavra de Deus em seu
coração e depois em seu seio(9). Por isso ela transforma-se na
primeira evangelizadora, pois através dela o Salvador oferece-se a todos
os homens: a Isabel e a seu filho, João Batista (cf. Lc 1,39-45),
aos pastores (cf. Lc 2,16-20), aos magos (cf. Mt 2,10-11), a
Simeão e à profetisa Ana (cf. Lc 2,27-38) e a tantos
homens de boa vontade que se acercaram dele durante seu ministério público.
Finalmente, é Maria, a Nova Eva e a Mãe da Igreja, que, na figura
do discípulo amado, recebe toda a humanidade das mãos do seu Filho
agonizante no Calvário (cf. Jo 19,25-27). Desde então
Maria está sempre presente na vida da Igreja.
Também no Povo de Deus que está na América a Mãe
do Redentor faz-se presente desde o início da primeira evangelização,
sobretudo desde 1531, quando, sob a invocação de Guadalupe, na
aparição a Juan Diego, ela oferece na colina de Tepeyac proteção
materna a todos os homens e mulheres do Continente americano. Sob muitas outras
invocações a Virgem Maria é também venerada como Mãe
de Deus e Mãe de todos os homens nos diversos países e regiões,
nos quais o povo fiel manifesta, através do culto mariano, sua inconfundível
pertença à Igreja Católica. Por isso João Paulo II
atribui-lhe os títulos de Estrela da primeira Evangelização
e da Nova Evangelização(10). Também hoje, como em Belém,
em Caná e no Calvário, Maria, estrela da evangelização
na América, continua mantendo com sua presença a obra do anúncio
de Jesus Cristo, Salvador do homem.
14. O Espírito que transformou Maria na primeira evangelizada e
primeira evangelizadora, é o mesmo Espírito do Senhor que
acompanhou seu Filho ao iniciar o seu ministério público na Galiléia:
"O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu
para evangelizar os pobres..." (Lc 4,16-21). Também em nossa
época o Espírito Santo é o principal evangelizador e
impulsiona a Igreja que está na América a cantar com Maria o Magnificat,
seu "canto de louvor", confirmando mais uma vez que não se pode
separar a verdade sobre Deus que salva, da manifestação do seu
amor preferencial pelos pobres e humildes(11). No caminho para o Grande Jubileu
do ano 2000, a Virgem Maria será, para a Igreja na América, modelo
de conversão, de comunhão e de solidariedade para que a obra
salvadora do seu Filho chegue a todos os homens e mulheres do Continente. Por
isso, João Paulo II, ao anunciar a celebração do grande
Jubileu do terceiro milênio, quis confiar o empenho de toda a Igreja à
celestial intercessão de Maria, Estrela que guia os cristãos ao
encontro com o Senhor(12).
SEGUNDA PARTE JESUS CRISTO, CAMINHO PARA A CONVERSÃO
I
A CONVERSÃO PESSOAL E SOCIAL
15. "Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo.
Arrependei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). Assim iniciou Jesus
a sua missão messiânica, anunciando o cumprimento do tempo da
promessa e convidando à conversão. O kerigma dos apóstolos,
depois de Pentecostes, também se realizava proclamando Cristo morto e
ressuscitado como o único Salvador e convidando à conversão
e a crer nele (cf. At 3,19-20.26). O encontro com o Senhor ressuscitado
deve levar a uma profunda conversão do coração e a uma
constante renovação da vida em ordem a uma configuração
sempre mais perfeita com Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Tal conversão é
um dom de Deus que livra o homem do pecado sob todas as suas formas e o introduz
no mistério de Cristo Redentor. O Apóstolo dos gentios resume a
missão de Jesus Cristo explicitando a dimensão cósmica do
seu ministério de reconciliação, como recorda o Papa João
Paulo II em sua Exortação Apostólica pós-sinodal
Reconciliatio et Poenitentia: "São Paulo permite- nos,
ainda, alargar a nossa visão da obra de Cristo a dimensões cósmicas,
quando escreve que n'Ele o Pai reconciliou consigo todas as criaturas, as do céu
e as da terra (cf. Col. 1,20)(13).
Ao aproximar-se o Grande Jubileu do terceiro milênio, Cristo nos
oferece os tesouros do seu sangue redentor e da sua graça. A conversão,
porém, é uma exigência prévia para o perdão
dos pecados e a comunicação da graça divina. Também
hoje Cristo dirige-se a todos os seus discípulos na América, para
lhes dizer: "Convertei-vos e crede no Evangelho" (cf. Mc
1,15).
16. Como devemos entender esta conversão? O Papa João Paulo II
diz, na Exortação apostólica pós-sinodal Reconciliatio
et Poenitentia: "O termo e o próprio conceito de penitência
são bastante complexos... a penitência significa então a íntima
mudança do coração sob o influxo da Palavra de Deus e na
perspectiva do Reino... a penitência é a conversão que passa
do coração às obras e, por conseguinte, à vida toda
do cristão(14).
A conversão, portanto, não é um ato isolado mas um
processo constante na existência do cristão. Dura tanto quanto dura
a sua vida. Não é um fato que afeta somente às pessoas
individualmente, mas também aos grupos humanos, às instituições
e estruturas sociais enquanto criadas e dirigidas por pessoas humanas, livres e
responsáveis. Além disso, a conversão é reconciliação
com Deus, consigo mesmo e com os demais, pois supõe a superação
a ruptura radical que é o pecado.
Em preparação à celebração do Grande
Jubileu do ano 2000 o Santo Padre convida a todos os membros do Povo de Deus a
um sincero exame de consciência, que é o primeiro passo para uma
verdadeira conversão: "No limiar do novo milênio, os cristãos
devem pôr-se humildemente diante do Senhor, interrogando-se sobre as
responsabilidades que lhes cabem também nos males do nosso tempo(15).
II
LUZES E SOMBRAS
17. De um ponto de vista pastoral, existem numerosos elementos que favorecem
a conversão e que agem como fermentos de reconciliação com
Deus e com os irmãos. Pode-se constatar um evidente despertar
religioso, sob formas de sede de oração e de contemplação,
sobretudo entre os jovens. A religiosidade popular continua vigorosa, com
manifestações de uma prática religiosa simples, que sabe
descobrir o núcleo essencial do mistério cristão. Prova
disso é a participação dos fiéis na celebração
dos sacramentos, sobretudo do batismo, da Eucaristia e do matrimônio, que
costuma ser também ocasião de encontros familiares e sociais. Este
despertar religioso manifesta-se ainda no culto à pessoa de Cristo em
seus diversos mistérios e sob distintos títulos, acompanhado por
peregrinações a santuários, muitas vezes em cumprimento de
votos e promessas. Igualmente percebe-se sempre viva a devoção à
Virgem Santíssima, Estrela da Evangelização da América,
como chamou-a João Paulo II, sobretudo na sua invocação de
Guadalupe, mas também com tantos outros títulos com os quais é
venerada em cada país e quase em cada região. Não menos
importante é também a devoção aos santos da América
e da Igreja universal. O afeto e adesão ao Vigário de Cristo, o
Papa, a obediência e respeito aos pastores e sacerdotes; as inúmeras
tradições e gestos com os quais o povo marca e manifesta a sua fé,
são outros tantos sinais através dos quais faz-se evidente o
despertar religioso.
O empenho em prol da paz e da vida, a solidariedade para com os
marginalizados da sociedade e para com os que sofrem todo tipo de doença
(particularmente os doentes de AIDS e os toxicômanos, em número
sempre crescente nestes últimos tempos), a preocupação por
toda a criação que se manifesta em uma especial atenção
aos problemas ecológicos, são outros tantos sinais que preparam o
caminho para o encontro com Deus e com os irmãos.
18. É verdade, no entanto, que existem também aspectos de
sombra que exigem conversão à f(16). Com efeito, na religiosidade
dos povos da América não faltam, às vezes, elementos
alheios ao cristianismo que, em algumas ocasiões, chegam a formar uma espécie
de sincretismo construído sobre a base de crenças populares, ou
que, em outros casos, desorientam os crentes desviando-os para seitas ou
movimentos para-religiosos.
Percebe-se nas sociedades, tanto do Norte como do Centro e do Sul, um estilo
de vida materialista e consumista. O materialismo, no entanto, longe de
proporcionar a felicidade, produz uma grande insatisfação. Muitos
homens e mulheres da nossa época, movidos pelo mero desejo de posse e
desfrute dos bens materiais, experimentam um vazio interior que confirma aquelas
palavras de Santo Agostinho: "Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e o nosso
coração está inquieto enquanto não repousar em
Ti(17). Esta inquietude, presente em todo homem, revela a universalidade na
busca do sentido para a existência humana que encontra a sua razão
de ser somente em Jesus Cristo, revelação do Pai no Espírito.
Além disso, é preciso não esquecer que, junto com o
materialismo, se difunde cada vez mais uma mentalidade de recusa da vida, antes
do nascer ou em sua etapa final e um crescente recurso à violência
e à morte.
Por outro lado, constata-se no aspecto religioso uma mentalidade
secularizada que vai levando as pessoas, pouco a pouco, ao relativismo moral e
ao indiferentismo religioso. O Papa João Paulo II, na carta apostólica
Tertio Millennio adveniente, indica este aspecto como um dos pontos que
devem integrar o exame de consciência em preparação ao
Jubileu do ano 2000: "Como calar, por exemplo, a indiferença
religiosa, que leva tantos homens de hoje a viverem como se Deus não
existisse ou a contentarem-se com uma religiosidade vaga, incapaz de se
confrontar com o problema da verdade e com o dever da coerência?(18).
Não menos importante é a influência dos fatores
anteriormente mencionados sobre as vocações sacerdotais e sobre a
vida e ministério dos presbíteros(19). O resultado é a ausência
de vocações e as deserções sacerdotais. Assim,
muitas comunidades se vêem privadas da celebração da Santa
Missa, a qual é substituída, às vezes, por celebrações
da Palavra com distribuição da Eucaristia, a cargo de ministros
extraordinários ou de diáconos permanentes.
19. O indiferentismo religioso sempre crescente leva à perda do
sentido de Deus e de sua santidade, o qual se traduz, às vezes, em
uma perda do sentido do sagrado, do mistério e da capacidade de
admirar-se, como disposições humanas que predispõem ao diálogo
e ao encontro com Deus. Tal indiferentismo leva quase inevitavelmente a uma
falsa autonomia moral e a um estilo de vida secularizada que exclui Deus. Da
perda do sentido de Deus segue-se a perda do sentido do pecado, que tem
sua raiz na consciência moral do homem. Este é outro grande obstáculo
para a conversão.
O pecado, como revelam as fontes bíblicas, é antes de tudo
ruptura com Deus, desobediência à sua santa Lei (cf. Gn
3,1ss; Rm 7,7-25); mas é também ruptura e divisão
entre os irmãos (Gn 4,1-16). Para que possa ter lugar a
transformação do coração, é preciso existir
uma sensibilidade pelo pecado. "Reconhecer o próprio pecado... é
reconhecer-se pecador, capaz de pecar, é o princípio indispensável
para se tornar a Deus (Sal 51(50),53; Lc 15,18.21)... Em realidade,
reconciliar-se com Deus pressupõe e inclui, por conseguinte, fazer penitência
no sentido mais completo do termo: arrepender-se, mostrar arrependimento..."
(20).
Pio XII, em uma carta dirigida ao episcopado dos Estados Unidos, alertava os
pastores da Igreja com aquelas proféticas palavras: "O maior pecado
do século é a perda do sentido do pecado(21). Na mesma linha, o
Papa João Paulo II, no Angelus de 14 de março de 1982, dizia: "Temos
nós uma idéia justa da consciência? ... O homem contemporâneo
não vive sob a ameaça de um eclipse da consciência? ... De
um entorpecimento da consciência, ou de uma ?anestesia' da consciência'?(22).
Em algumas partes um certo abandono da prática freqüente do
sacramento da penitência não é senão a conseqüência
lógica desta dupla perda, do sentido de Deus e do sentido do pecado.
III
AGENTES DE CONVERSÃO
20. A conversão é um dom que vem de Deus, "rico em
misericórdia" (cf. Ef 2,4) e que se oferece aos homens, como
iniciativa do seu amor, em Jesus Cristo, mediador do perdão e da graça.
"Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para
que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"
(Jo 3,16). É Jesus Cristo, o Bom Pastor, que busca a
ovelha perdida e que dá sua vida pelo rebanho; é ele mesmo quem
oferece ao homem os múltiplos caminhos de conversão e de
reconciliação. Ele é a nossa reconciliação,
por isso exclama São Paulo: "...Tudo isto vem de Deus, que nos
reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação.
Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando
aos homens as suas faltas e colocando em nós a palavra da reconciliação"
(cf. 2Cor 5,18-19).
21. A Igreja, continuadora da obra salvífica de Cristo,
oferece o perdão e a reconciliação. "Tudo o que o
Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, não
conhecemos somente pela história das suas ações passadas,
mas também sentimos na eficácia daquilo que ele realiza no
presente(23). Celebrando suas ações litúrgicas (sobretudo
administrando o sacramento da reconciliação), anunciando a Palavra
de Deus, orando, promovendo a união de corações, fomentando
a solidariedade e testemunhando o amor de Deus, a Igreja convida todos os homens
e mulheres da América à conversão.
Os bispos, sucessores dos apóstolos e, portanto,
continuadores por antonomásia da missão do Bom Pastor, anunciam a
todos os homens e mulheres a bondade e o perdão de Deus e promovem a
reconciliação fraterna entre os membros da igreja particular,
entre os irmãos de outras confissões e entre todos os homens de
boa vontade. Todos os demais membros do Povo de Deus, presbíteros,
religiosos, religiosas e leigos, cada um segundo seu ministério e
carisma, com sua oração, com sua palavra, com sua ação
e seu testemunho, são chamados a cooperar com esta missão
pastoral, promovendo sempre a renovação interior e a reconciliação
entre os homens.
IV
CAMPOS PARA A CONVERSÃO
22. Assim como não é possível desconhecer as conseqüências
sociais em todo pecado pessoal, assim também não se pode esquecer
que a conversão pessoal tem seus próprios efeitos na sociedade.
Neste sentido, devem ser atentamente considerados os espaços de
reconciliação e de conversão no contexto da vida social.
Um campo elementar de reconciliação e de conversão é
aquele que, com expressão a um tempo simples e densa, se chama "a
vida cristã", isto é, a vida de oração, a
vida da graça, a participação litúrgica e
sacramental (sobretudo nos sacramentos da Eucaristia e da Penitência), o
testemunho e a realização do compromisso apostólico. Para
isso, meio privilegiado tem sido sempre - e o é ainda hoje - a catequese
integralmente considerada, que compreende, como nos ensina o Catecismo
da Igreja Católica, a profissão de fé, os sacramentos
da fé, a vida de fé (os Mandamentos) e a oração do
crente(24). Os espaços da vida social, nos quais certamente realizam-se a
reconciliação e a união de coração, são:
a família, a paróquia, as comunidades religiosas e os movimentos
leigos, a igreja particular em si mesma e em suas relações com as
demais igrejas particulares, o âmbito do próprio país e suas
relações com outros países.
23. A conversão com relação ao tema do respeito pela
vida humana é outro dos aspectos sobre os quais pode-se e deve-se
trabalhar incansavelmente. O fomento de uma mentalidade favorável à
vida humana, que a respeite, a estime e a acolha em todas as suas fases, é
uma exigência diante da "cultura de morte" que, sob distintas
formas, apresenta-se na sociedade. A formação de atitudes
positivas em favor da vida começa no lar, mas deve prosseguir na paróquia,
na escola, na universidade e nos diversos âmbitos da sociedade.
Como recorda João Paulo II na carta encíclica Evangelium
Vitae, a promoção da vida humana, desde o ponto de vista da fé,
assume uma dupla dimensão, de respeito ao próximo e de
reconhecimento a Deus: "O mandamento" não matarás'
estabelece, pois, o ponto de partida de um caminho de verdadeira liberdade, que
nos leva a promover ativamente a vida e a desenvolver determinadas atitudes e
comportamentos ao seu serviço: procedendo assim, exercemos a nossa
responsabilidade para com as pessoas que nos estão confiadas, e
manifestamos, em obras e verdade, o nosso reconhecimento a Deus pelo grande dom
da vida(25).
24. Outro campo de conversão é o dos meios de comunicação
social e o dos espetáculos. Este é um dos desafios mais
urgentes, que exige por parte da Igreja uma resposta pastoral adequada. Urge
educar as pessoas não somente para que use com responsabilidade cristã
estes meios admiráveis e, ao mesmo tempo, ambíguos, mas também
para que saiba empregá-los como instrumentos valiosos para conhecer e
anunciar a Palavra de Deus. Aqui também se faz presente o convite de
Cristo a uma mudança interior de coração e de atitudes.
Mesmo sendo meios maravilhosos de formação e de informação,
freqüentemente são manipulados para "desinformar" e "deformar",
propagando uma mentalidade materialista e hedonista, na qual se realça a
riqueza, o poder, o egoísmo, a violência e a sensualidade. Além
disso, a difusão através dos meios maciços de comunicação
social de certos modelos de vida que exaltam o individualismo e atentam contra
os valores da família e da fé, leva freqüentemente a uma
aceitação indiscriminada e inconsciente de tais modelos, dando
lugar, deste modo, a uma verdadeira infiltração cultural. Por
outra parte, com a telemática, da qual é exemplo eloqüente a
Internet ou "caminho de informação", abrem-se à
família humana e, por isso mesmo, ao Evangelho, novos campos e
horizontes de presença, de comunicação e de testemunho.
25. Também o campo das estruturas sociais é um terreno
de conversão. Existem sistemas econômicos organizados de
acordo com mecanismos de intercâmbios comerciais em base a empréstimos
e juros que geram dívidas enormes e impedem o desenvolvimento dos povos.
Existem ajudas condicionadas a ideologias de pequenos grupos, lideranças
e hegemonias políticas, que nem sempre se regem por critérios de
equidade e de solidariedade, mas por interesses egoístas. Neste sentido,
um aspecto que reclama conversão é constituído pela já
mencionada desigualdade de nível econômico entre o Norte e o Sul do
continente, a qual interpela a fé e a consciência humana e cristã.
Com relação a este aspecto, pode-se perguntar se existe uma
adequada difusão da Doutrina Social da Igreja entre os cristãos;
e, sobretudo, se há um esforço em prol de uma aplicação
da mesma, diante dos numerosos problemas sociais do Continente americano, tanto
no Norte como no Centro e no Sul. Este é um grande desafio para a Igreja
que está na América. Ela é chamada a traduzir em obras e em
iniciativas concretas o mandamento do amor fraterno e o testemunho diáfano
de Cristo que se identifica com os famintos, os enfermos, os nus, os
forasteiros, os prisioneiros, em uma palavra, com "seus irmãos mais
pequeninos" (cf. Mt 25,31ss).
26. Também o ecumenismo é outro campo fértil
para a reconciliação. Com efeito, como recorda o Concílio
Vaticano II no decreto Unitatis redintegratio, "não há
verdadeiro ecumenismo sem conversão interior(26). A prática do
ecumenismo começa, como recorda o citado decreto conciliar, por uma
renovação de toda a Igreja. Esta "perene reforma, (a Igreja)
dela necessita perpetuamente como instituição humana e
divina...Esta renovação tem, por isso, uma grande importância
ecumênica(27). A tal respeito, são muito positivas as experiências
que, acolhendo o convite do Concílio Vaticano II, promovem: a oração
em comum com os irmãos de outras confissões cristãs,
especialmente na celebração das chamadas semanas de oração
pela unidade dos cristãos; o diálogo respeitoso em busca de um
melhor conhecimento mútuo entre os irmãos separados e os membros
da Igreja Católica; a formação ecumênica dos Pastores
para que, no mencionado diálogo ecumênico, a doutrina da fé
seja exposta com clareza e com firmeza, e, ao mesmo tempo, com caridade e
humildade(28). Estas e outras iniciativas contribuem em grande medida para a
construção da unidade que Cristo suplicou ao Pai como um dom: "que
todos sejam um... para que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo
17,21).
V
PARTICULARES APELOS DE CONVERSÃO NA AMÉRICA
27. Na exortação pós-sinodal Reconciliatio et
Paenitentia, o Papa João Paulo II descobria, em 1984, a existência
de numerosas divisões existentes entre os homens e mulheres do nosso
tempo. Falava de um mundo em pedaços pelas crescentes desigualdades entre
grupos, classes sociais e países; pelos antagonismos ideológicos,
pela contraposição de interesses econômicos e polarizações
políticas, pelas várias formas de discriminação
racial, cultural ou religiosa, pela violência e pelo terrorismo, pela
distribuição não eqüitativa das riquezas do mundo e
dos bens da civilização, de acordo com uma organização
social na qual aumenta cada vez mais a distância nas condições
humanas entre ricos e pobres. Neste contexto, o Santo Padre advertia que tal
situação, de alguma maneira, repercutia na Igreja: "Para além
das cisões entre as Comunidades cristãs, a Igreja experimenta hoje
no seu seio, aqui e além, divisões entre as suas próprias
componentes, causadas pela diversidade de pontos de vista e de escolhas, no
campo doutrinal e pastoral(29).
28. Com preocupação constatam-se no Continente Americano
alguns elementos de divisão que constituem outros tantos apelos à
conversão e à reconciliação, tanto em nível
individual como social:
- Diversas formas de discriminação racial, cultural e
religiosa. A esta realidade soma-se uma tendência desumanizadora que se
difunde pelos meios de comunicação social, exaltando a
violência, o erotismo e uma mentalidade subjacente contra os valores
humanos e evangélicos dos povos da América.
- A ignorância religiosa de muitos fiéis é causa de
divisão, pois muitos apartam-se do único rebanho para ficar à
mercê de ofertas enganadores de seitas, de ideologias atéias, de
messianismos humanos, etc.
- Os contrastes e tensões entre cristãos, que tornam mais
agudas diferenças doutrinais e discordâncias em opções
pastorais ou disciplinares. A difusão de uma crise de obediência e
de fé com relação ao Magistério da Igreja. Em alguns
casos, não faltam tensões entre religiosos e bispos, entre clero
regular e clero diocesano e, inclusive, às vezes, entre alguns membros do
clero e o bispo diocesano.
- Em campo social, a inquietante desigualdade econômica entre pessoas
e classes sociais, não somente dentro de um mesmo país mas também
entre os países do Norte, do Centro e do Sul do continente.
Estes e outros aspectos foram especialmente tratados em uma reunião
convocada pela Congregação para a Doutrina da Fé e que foi
celebrada em Guadalajara (México), de 6 a 10 de maio de 1996. Neste
encontro das Comissões doutrinais das Conferências episcopais da América
Latina refletiu-se sobre alguns temas teológicos que emergem da realidade
pastoral dos países representados, buscando-se sempre critérios
iluminantes, orientados a construir a unidade sobre a verdade da revelação
e do dogma(30).
TERCEIRA PARTE JESUS CRISTO, CAMINHO PARA A COMUNHÃO
I
A COMUNHÃO COM JESUS CRISTO VIVO NA IGREJA
29. O encontro com Cristo vivo conduz sempre à conversão e à
reconciliação com Deus e com o próximo, culmina na comunhão
de vida com Ele e frutifica na solidariedade com os mais necessitados. No
momento em que o Povo de Deus que peregrina na América, enfrentando a
tarefa da nova evangelização, dispõe-se a celebrar o
Jubileu do ano 2000, será necessário perguntar-se em que medida os
cristãos vivem a comunhão querida por Cristo, quais são os
obstáculos, as exigências e os desafios apresentados à
comunhão na caridade, a partir do chamado de Cristo.
A comunhão dos discípulos com Cristo foi um dos pedidos que o
Senhor dirigiu com insistência ao Pai, após instituir a eucaristia
e o sacerdócio, pouco antes da sua paixão e morte: "...Como
tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para
que o mundo creia que tu me enviaste" (Jo 17, 21-26). Ele mesmo
expressou esta realidade, de uma maneira muito bela, na parábola da
videira e dos ramos, indicando a dimensão trinitária da comunhão:
o Pai, como vinicultor, planta e cultiva a videira, que é Cristo, cujos
ramos são os membros da Igreja. Como os ramos devem permanecer unidos à
videira para darem fruto abundante, assim os cristãos devem permanecer em
Cristo, guardando a sua Palavra e observando os seus mandamentos, sobretudo o
amor fraterno. A videira, que é imagem da Igreja, produz seus frutos de
caridade pela ação do Espírito Santo que nela age (cf. Jo
15,1-17)(31).
Outra imagem que emprega a Sagrada Escritura para exprimir a comunhão
de vida com Cristo em sua Igreja é a do corpo. Cristo Ressuscitado, cabeça
da Igreja que é o seu Corpo, identifica-se misticamente com seus membros
(cf. 1Cor 12,12-29)(32). Pela ação do Espírito
Santo, o mistério da sua morte e da sua ressurreição
faz-se presente na vida atual da Igreja, não somente em seu conjunto mas
também em cada um dos seus membros, pois aquilo que se faz aos mais
pequeninos dos seus irmãos - famintos, nus, enfermos, sem casa,
forasteiros, prisioneiros - é a Ele que se faz (cf. Mt 25,34-46).
30. Hoje, o rosto de Cristo sofredor e crucificado tem, na América,
a fisionomia dos pobres das grandes cidades, dos desempregados, dos migrantes,
dos marginalizados por diversas razões, das crianças não
nascidas, dos meninos de rua e daqueles que ficam sem escola, dos jovens sem
trabalho e sem guia, das mulheres desprezadas e exploradas, dos anciãos
abandonados, dos doentes, especialmente dos enfermos de AIDS, dos prisioneiros.
É também o rosto das minorias étnicas marginalizadas, dos índios
e dos afro-americanos, dos camponeses e dos habitantes dos bairros de periferia
das grandes cidades, no Norte, no Centro e no Sul do continente.
31. No entanto, pode-se dizer também que nas comunidades cristãs
da América transparece irradiante o rosto de Cristo ressuscitado,
cujo Espírito produz inúmeros sinais de vida nova, vencedora do
pecado, da morte e das forças do mal. Testemunho desta realidade é
a santidade de tantos membros da Igreja, freqüentemente anônimos:
pastores fiéis à sua missão; religiosos e religiosas que
oferecem o holocausto de suas vidas consagradas a Deus e ao serviço de
seus irmãos, sobretudo dos mais abandonados; os mártires e
testemunhas da fé; os inúmeros missionários que, do Norte,
vão anunciar o Evangelho entre seus irmãos do Centro e do Sul,
assim como os sacerdotes, religiosos e religiosas do Centro e do Sul que
trabalham entre seus irmãos do Norte; os esposos fiéis à
aliança matrimonial e generosos na educação de seus filhos;
os jovens que participam do compromisso apostólico e do serviço de
voluntariado, como se vê na resposta alegre e generosa aos freqüentes
apelos do Santo Padre; os leigos que trabalham como voluntários e voluntárias
nas organizações de serviço aos necessitados, etc.
A comunhão é, pois, obra da Trindade, querida pelo Pai,
realizada por Cristo no Espírito Santo e continuada na Igreja, como
realidade mistérica e como tarefa a ser realizada na história. A
Igreja vai tecendo a comunhão guiada pelo Espírito nos diversos
campos da vida do Povo de Deus e na vida da sociedade civil(33).
II
LUZES E SOMBRAS
32. A comunhão, tal como vivida atualmente nas comunidades cristãs
da América, oferece luzes e sombras. Entre as primeiras, é
oportuno realçar o papel das famílias cristãs como
verdadeiras escolas de comunhão. No núcleo familiar, as novas gerações
recebem as primeiras experiências de fé e de amor a Deus, como também
os primeiros exemplos de caridade para com o próximo. Muitas famílias
cristãs na América são células vivas de comunhão,
que testemunham a fidelidade a Cristo, o amor à sua Palavra, a observância
da sua vontade. Elas representam uma das grandes esperanças da Igreja
para a nova evangelização.
A vida consagrada no continente americano, embora não careça
de dificuldades, é também um testemunho de comunhão, que se
manifesta na vida em comum, mas também em uma atitude comunitária
para com os membros da Igreja particular e universal. Os religiosos e
religiosas, como ainda os membros de Sociedades de vida apostólica e de
Institutos seculares, apresentando a singularidade e diversidade do próprio
carisma a serviço do único Corpo que é a Igreja, fortalecem
os vínculos de comunhão eclesial(34). Como recorda o Papa João
Paulo II na exortação pós-sinodal Vita consacrata,
os consagrados têm uma importante missão na Igreja: "Em cada
lugar e situação, as pessoas consagradas sejam ardorosos
anunciadores do Senhor Jesus, prontas a responder com a sabedoria evangélica
às interpelações feitas hoje pela inquietude do coração
humano e pelas suas urgentes necessidades(35).
Outro aspecto luminoso é a vida de tantos sacerdotes, que "existem
e agem... em nome e na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor(36) e assim
edificam, com seu abnegado trabalho quotidiano, a comunhão nas igrejas
particulares, trazendo cada um seu próprio dom e ministério, no anúncio
da Palavra, na administração dos sacramentos e na condução
pastoral da comunidade paroquial.
São também construtores de comunhão os leigos que, em
virtude da sua unção batismal, assumem seu compromisso apostólico
na Igreja e na sociedade civil. Com efeito, todos aqueles que, com
responsabilidade cristã, cumprem seus deveres na família, no
trabalho, na defesa das causas do homem, nos campos dos meios de comunicação
social, do pensamento, da política, da economia e do trabalho em geral,
santificam o mundo e constroem a comunhão. Por isso diz a Carta a
Diogneto: "os cristãos são, no mundo, aquilo que a alma é
no corpo(37). Todos os homens de boa vontade que trabalham pelo bem comum, pelo
progresso dos povos, pela cultura, pela justiça e pela paz, também
contribuem para construir a comunhão querida por Deus entre todos os
membros da família humana.
Sinais desta comunhão viva entre os membros da Igreja e da sociedade
são ainda: uma sensibilidade cada vez mais aguda perante os problemas de
injustiça social, no campo econômico, político e cultural; o
anelo por uma legítima libertação e promoção
de toda a pessoa e de todas as pessoas e grupos humanos; o estudo e a aplicação
sempre mais amplos e esclarecedores da Doutrina Social da Igreja, como também
o exercício da solidariedade não somente em âmbito regional
e nacional, mas também internacional.
33. Não faltam as dificuldades e obstáculos para a vivência
prática da comunhão nas realidades eclesiais da América.
Por exemplo, nem sempre há ocasião nem espaço para o diálogo
entre os diversos membros da Igreja. Igualmente, muitas vezes não se
concretiza uma colaboração pastoral através de organismos
eficazes. No Povo de Deus não faltam tensões e atritos. Dentro da
mesma Igreja, não favorece a comunhão a crise de obediência
ao Magistério da Igreja, que se manifesta de tantas maneiras: algumas
posições teológico-pastorais sobre certos problemas, as
dissensões de alguns teólogos, as atitudes de grupos ou pessoas
que, apesar de se auto- proclamarem "católicos", encontram-se
em aberta contradição com o ensinamento da Igreja, seja em matéria
moral como em certos aspectos do dogma.
Alguns membros do Povo de Deus, não estão firmemente radicados
na fé, e por esse motivo, as seitas, com seu proselitismo enganador,
desorientam-nos e afastam-nos da verdadeira comunhão em Cristo. Além
disto, o multiplicar-se de supostas "aparições" ou "visões"
semeia confusão entre os membros da Igreja e denuncia carências de
bases sólidas de fé e de vida cristã. Estes aspectos
negativos, por outro lado, revelam uma certa sede do espiritual que,
adequadamente orientada, pode ser o ponto de partida para uma conversão à
fé em Cristo.
34. Na sociedade contemporânea não faltam agentes de erosão
da comunhão, que se manifestam especialmente no predomínio de
contravalores, como o materialismo, o egoísmo e o hedonismo. Cresce, além
disso, o subjetivismo, que freqüentemente se exprime em uma atitude
contestatária diante da autoridade, seja a da Igreja como a de qualquer
outro tipo de instituição: familiar, escolar ou civil. Entre as
famílias, mesmo entre as cristãs, verifica-se um enfraquecimento
dos valores religiosos; um relativo aumento das separações,
inclusive dos divórcios; como se constata também o fenômeno
do crescente número de filhos nascido fora do matrimônio. Por último,
não se pode deixar de aludir a uma certa "cultura de morte",
que se estende com a prática sempre mais freqüente do aborto e a
tendência potencial para a eutanásia. A falta de uma atitude
positiva com relação à vida exprime-se tanto na redução
do número dos nascimentos como em uma segregação dos anciãos
do núcleo familiar e da sociedade.
III
AGENTES DE COMUNHÃO
35. O Espírito Santo, princípio de comunhão na Igreja, "foi
enviado no dia de Pentecostes a fim de santificar perenemente a Igreja para que
assim os crentes pudessem aproximar-se do Pai por Cristo num mesmo Espírito(38).
É Ele quem guia a Igreja "para a verdade completa" (Jo
16,13) e a unifica em comunhão e ministério. Ele a provê com
diversos dons hierárquicos e carismáticos e a embelece com os seus
frutos (cf. Ef 4,11-12; 1Cor 12,4). A comunhão dos fiéis
com o Espírito Santo e entre eles mesmos foi uma das súplicas mais
insistentes que Cristo dirigiu ao Pai após instituir a Eucaristia e antes
de iniciar a sua paixão (cf. Jo 17,21-26). Os homens e mulheres
da América, na medida em que crêem em Cristo, esforçam-se
por ser agentes de comunhão, permanecendo em seu amor e observando a sua
Palavra, sobretudo na prática da caridade fraterna. Os membros do Povo de
Deus na América, cada um em sua própria vocação, são
chamados a construir a comunhão praticando a bem-aventurança de
Cristo: "Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão
chamados filhos de Deus" (Mt 5,9).
36. Os Bispos, como sucessores dos Apóstolos, "individualmente
são o visível princípio e fundamento da unidade em suas
igrejas particulares, formadas à imagem da Igreja universal(39).
Portanto, eles devem ser os primeiros artífices de comunhão,
vivendo a unidade com o Pontífice Romano, sucessor de São Pedro, e
com os demais membros do Colégio Episcopal. Assim, promovendo e
defendendo a unidade da fé e a disciplina comum de toda a Igreja e
fomentando entre os fiéis o amor a todo o Corpo místico de Cristo
- especialmente aos pobres, aos que sofrem, aos que são perseguidos por
causa da justiça e a todos aqueles que o Senhor chamou "bem-aventurados"
(cf. Mt 5,1-12)(40) - os Bispos são agentes de comunhão em
suas respectivas Igrejas particulares. Eles são também agentes de
comunhão em nível da Igreja universal.
37. A realidade mostra que é múltipla e muito fecunda a
irradiação da comunhão dentro das igrejas particulares: o
bispo com seu presbitério, os sacerdotes entre si e com
os leigos. Os religiosos e religiosas, inserindo harmoniosamente o próprio
carisma na vida e na pastoral da diocese, em diálogo com os membros da
Igreja local e em obediência ao Bispo diocesano, também se integram
nesta fecunda estrutura de comunhão eclesial.
A Igreja que se encontra na América está vivendo um momento
histórico importante, ao celebrar pela primeira vez a Assembléia
Especial do Sínodo dos Bispos que congrega Pastores das Igrejas
particulares do Continente. O povo de Deus na América e toda a Igreja
universal vêem com esperança esta assembléia, em vistas de
tornar efetiva a comunhão nos diversos âmbitos da vida eclesial e
social.
38. Os leigos têm, por sua vez, a missão de construir a
comunhão no amplo horizonte das suas atividades no mundo. Em virtude da
sua consagração batismal e da missão de dar testemunho do
Evangelho, reforçada em modo especial com o sacramento da confirmação,
os leigos contribuem com seu próprio carisma para o crescimento de todo o
Corpo místico que é a Igreja. Eles levam o fermento novo do
Evangelho em meio às atividades temporais, seja com seu testemunho de
vida cristã e de caridade na família, seja promovendo o respeito e
a convivência na sociedade civil. Acolhida de migrantes e estrangeiros,
ajuda a grupos minoritários marginalizados, compromisso com as causas da
paz, da vida, da defesa dos direitos humanos, do respeito para com a criação,
são algumas das tantas expressões concretas através das
quais os leigos tornam visível e efetiva a comunhão na Igreja e na
sociedade.
A família, "igreja doméstica" e imagem da
Trindade, é agente de comunhão, porque nela se aprende a amar a
Deus e ao próximo. "Todos os membros da família, cada um
segundo o dom que lhe é peculiar, possuem a graça e a
responsabilidade de construir, dia após dia, a comunhão de
pessoas, fazendo da família uma escola de humanismo mais completo e mais
rico(41).
Também os jovens na América deram e continuam a dar
provas de vitalidade renovadora, assumindo um espaço no tecido deste
grande tapete de comunhão entre os homens. Com seu entusiasmo e
sinceridade, com sua capacidade de amizade e de serviço às grandes
causas, eles constroem a comunhão, inserindo-se através das novas
gerações na vida da sociedade.
39. A mulher está especial dotada por seu gênio
feminino para ser construtora de comunhão: na família como espaço
de amor, de encontro e de reconciliação, na sociedade como
promotora de ajuda e de serviço a quem tem necessidade, na vida
consagrada como testemunho de amor a Deus e de disponibilidade ao serviço
dos demais, na vida cultural, profissional e política como portadora de
humanidade e de sensibilidade, de paciência e de serenidade. Com muita razão
o Papa João Paulo, na sua Carta às Mulheres, de 29 de
junho de 1995, escrevia uma bela ação de graças a todas as
mulheres do mundo, que, de modo particular, as mulheres da América têm
demonstrado merecer, com o testemunho da própria vida: "Obrigado a
ti, mulher-mãe, que te fazes ventre do ser humano na alegria e no
sofrimento de uma experiência única, que te torna o sorriso de Deus
pela criatura que é dada à luz, que te faz guia dos seus primeiros
passos, amparo do seu crescimento, ponto de referência por todo o caminho
da vida. Obrigado a ti, mulher-esposa, que unes irrevogavelmente o teu destino
ao de um homem, numa relação de recíproco dom, ao serviço
da comunhão e da vida. Obrigado a ti, mulher-filha e mulher-irmã,
que levas ao núcleo familiar, e depois à inteira vida social, as
riquezas da tua sensibilidade, da tua intuição, da tua
generosidade e da tua constância. Obrigado a ti, mulher-trabalhadora,
empenhada em todos os âmbitos da vida social econômica, cultural,
artística, política, pela contribuição indispensável
que dás à elaboração de uma cultura capaz de
conjugar razão e sentimento, a uma concepção de vida sempre
aberta ao sentido do ?mistério', à edificação de
estruturas econômicas e políticas mais ricas de humanidade.
Obrigada a ti, mulher-consagrada, que, a exemplo da maior de todas as mulheres,
a Mãe de Cristo, Verbo Encarnado, te abres com docilidade e fidelidade ao
amor de Deus, ajudando a Igreja e a humanidade inteira a viver para com Deus uma
resposta ?esponsal', que exprime maravilhosamente a comunhão que Ele quer
estabelecer com a sua criatura. Obrigado a ti, mulher, pelo simples fato de
seres mulher! Com a percepção que é própria da tua
feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a
verdade plena das relações humanas" (42).
A mulher ocupa na vida da Igreja um papel insubstituível que,
lamentavelmente, nem sempre é compreendido em toda sua verdadeira dimensão.
Provavelmente por este motivo, surgiram certos movimentos, sobretudo entre
alguns fiéis das igrejas particulares da América do Norte, que
pedem a aceitação por parte da Igreja Católica da ordem
sagrada para a mulher. O Magistério da Igreja exprimiu-se reiteradas
vezes com relação a este tema, procurando fazer compreender, não
somente a impossibilidade de mudar a precisa vontade de Jesus Cristo sobre este
aspecto, mas também a riqueza e as inúmeras possibilidades da
participação da mulher na vida e na missão da Igreja(43).
IV
CAMPOS E CAMINHOS PARA A COMUNHÃO
40. A Igreja, continuadora da obra de Cristo, é também, ela
mesma, mistério de comunhão e de unidade. Ela é a grei de
Cristo, lavoura de Deus, videira mística plantada por Deus, edifício
de Deus, família e povo de Deus e, sobretudo, Corpo místico de
Cristo, imagens todas que o Concílio Vaticano II recordou(44). Ela tem a
missão de continuar e realizar a obra de comunhão iniciada por
Cristo, de viver e de construir a comunhão entre os discípulos de
Cristo e entre todos os homens, pois "a Igreja é em Cristo como que
o sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e
da unidade de todo o gênero humano(45).
Os caminhos para estender esta comunhão, sob a direção
do Espírito, são, antes de tudo, os sacramentos, que
significam e produzem a graça e a união vital com Cristo. Por esta
razão, tem uma importância primordial, na nova evangelização
na América, a vida litúrgica das comunidades cristãs.
Com efeito, a Eucaristia é o cume e a fonte de toda a vida da Igreja(46):
"Já que há um único pão, nós, embora
muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único
pão" (1Cor 10,17). É um sinal muito positivo que em
muitas comunidades se fomenta a participação litúrgica dos
fiéis, consciente e ativa, e busca-se recuperar o sentido religioso do
Dia do Senhor, para orar ao Pai no Espírito, como nos ensinou Jesus, para
prestar ao Deus uno e trino o culto devido como Criador, Redentor e
Santificador. Deste modo, o domingo continua sendo não somente dia
festivo e de repouso, mas também, e sobretudo, um dia de culto, de oração
e de adoração. Da celebração da Eucaristia dominical
os fiéis saem fortalecidos e estimulados para dar testemunho de Cristo
diante do mundo e para realizar obras de caridade e de solidariedade.
41. O vínculo principal com que se manifesta a comunhão no
povo do Deus é o da fé: "Um só Senhor, uma só fé,
um só batismo" (Ef 4,5). A fé do Povo de Deus está
sendo enfraquecida hoje por múltiplos fatores: a mentalidade
secularizada, o materialismo, o relativismo, a agressividade e o proselitismo
das seitas, a falta de formação religiosa de alguns fiéis.
Daí que a educação da fé do Povo de Deus
deve ser uma das prioridades urgentes da Igreja na América. Por isso
promova-se o anúncio da Palavra em todos os seus níveis:
catequese infantil, juvenil, de adultos, ensino religioso nas escolas primárias,
médias e superiores, cursos sobre temas religiosos para leigos em
universidades e centros de cultura superior(47).
Neste empenho pela catequese devidamente adaptada ocupam um lugar especial
entre os destinatários aquelas categorias de pessoas que mais influenciam
na sociedade: políticos, economistas, empresários, intelectuais,
operadores do espetáculo e dos meios de comunicação social.
O exemplo de Cristo, que dirige a sua Palavra a todos os homens e mulheres,
pobres e ricos, letrados e ignorantes, crianças e adultos, indica ao
evangelizador o seu caminho.
A educação na fé está intrinsecamente unida à
educação na caridade. Por isso, outro campo no qual se cultiva a
comunhão é a prática do amor fraterno, que inclui
entre tantos outros aspectos: o serviço da caridade, a promoção
social dos mais necessitados, o diálogo em todos os níveis, com os
membros da comunidade eclesial, mas também com todos os homens de boa
vontade. Um lugar importante na prática do amor entre irmãos ocupa
a cooperação inter-eclesial como expressão da caridade
entre as igrejas particulares: cooperação em recursos humanos e
materiais, comunicação de valores culturais, cooperação
através de iniciativas pastorais comuns, solidariedade entre as diversas
igrejas locais de um mesmo País e também para além das
fronteiras nacionais.
42. O ecumenismo é também um campo privilegiado para o
exercício da comunhão. Esta dimensão da pastoral, mais ou
menos desenvolvida por iniciativa de diversas Igrejas particulares no
Continente, é uma resposta ao desejo e à súplica de Cristo
ao Pai: "que todos sejam um, como tu, Pai, em mim e eu em ti" (Jo
17,21). Pela oração, pelo diálogo respeitoso e sincero que
privilegia sempre a lealdade e a verdade, pela cooperação em campo
social, ecológico e caritativo, e através de iniciativas de paz,
vai-se construindo a unidade do Povo de Deus.
A Igreja Católica na América, confiando no Espírito
Santo, fonte de unidade e de verdade, não deixa de fazer-se promotora de
iniciativas orientadas a fomentar o diálogo ecumênico. Embora a
exigência de comunhão é a mesma para toda a Igreja, o
mencionado diálogo ecumênico é realizado tendo-se presente
as diversas situações. Em países nos quais tradicionalmente
a imensa maioria do povo é católico (como os países latino-
americanos), as iniciativas ecumênicas são concretizadas com muita
prudência, evitando que comprometam a clara adesão dos fiéis
à doutrina da Igreja, à freqüência da vida litúrgica
e sacramental, como também à participação em tradições
e atos que exprimem a própria religiosidade. Em países onde
tradicionalmente os católicos conviveram com outras confissões
(como são os do Norte e alguns das Antilhas), as iniciativas e a cooperação
com membros de outras confissões realizam-se com mais facilidade e evidência.
Um exemplo desta maior intercomunicabilidade com outras confissões é
constituído pela iniciativa de Bispos do Caribe, que contribuíram
para a fundação do único organismo ecumênico
existente nesta região.
V
METAS E DESAFIOS
43. Para poder realizar a missão de construir a unidade e a comunhão,
a Igreja que está na América propõe-se várias metas,
que são outros tantos desafios para a sua fé, a sua esperança
e a sua caridade, para a sua coragem e operosidade. Entre estas metas está
a promoção da santidade de seus membros, o impulso à missão,
o trabalho pela aculturação e a contribuição à
realização da unidade e da paz.
A Igreja, indefectivelmente santa porque o Filho de Deus a amou como
a sua Esposa, entregando-se por ela para santificá-la (cf. Ef
5,25-26) e enriquecendo-a com o dom do Espírito Santo para glória
de Deus, convida todos os fiéis, de qualquer estado ou condição,
à plenitude da vida cristã e à perfeição da
caridade(48). Na realidade, é sobretudo através da santidade que a
Igreja realiza a obra da salvação dos homens. Nos santos e santas,
nos mártires e confessores da fé, a Igreja que está na América
vê os frutos mais exímios da obra de Cristo e os melhores
instrumentos da nova evangelização. A Igreja que peregrina na América
recorda com gratidão e veneração seus santos e santas, fiéis
testemunhas de Jesus Cristo Salvador e Evangelizador: os mártires São
João de Brebeuf, Isaac Jogues e seus companheiros, Santa Rosa de Lima, São
Turíbio de Mongrovejo, Santa Francisca Xavier Cabrini, São
Martinho de Porres, Santa Isabel Ann Seton, São João Macías,
Santa Rosa Philippine Duchesne, São Ezequiel Moreno, São Pedro
Claver, São Francisco Solano, Santa Teresa dos Andes, Santa Maria Ana de
Jesus Paredes y Flores, os beatos Kateri Tekawitha, Junípero Serra,
Catarina Drexel, João Diego, Miguel Pro e Rafael Guizar y Valencia, e
tantos outros santos e beatos que deram testemunho do Evangelho na América.
44. Da catolicidade e universalidade da Igreja deduz-se que a missão
e o anúncio do Evangelho a todos os povos é uma das tarefas
essenciais. Todos, pastores e fiéis, devem considerar como próprio
o dever da missão, tanto dentro da própria Igreja particular como
para além dos seus confins. Sinal da vitalidade e autenticidade da fé
cristã no Continente são os numerosos missionários e
missionárias que, partindo de lugares mais ricos em vocações,
têm trabalhado generosamente e continuam trabalhando ainda em regiões
onde o anúncio do Evangelho não tem sido tão fecundo. A
partilha de dons, começando pelos dons vivos e pessoais que são os
sacerdotes e os religiosos, constitui uma aplicação concreta do
princípio de comunhão entre as Igrejas particulares(49). A sempre
crescente consciência na América, tanto no Norte como no Centro e
no Sul, de que a fé se fortalece ao transmitir o anúncio também
para fora da próprias fronteiras, dá nova vida e abre novos
caminhos à pastoral em todo o continente.
45. A cultura adquiriu em nossos dias uma importância de
primeira ordem, pois sendo, simultaneamente, fruto e causa da formação
e elevação do homem, é ao mesmo tempo um campo fecundo para
a evangelização e, portanto, para a comunhão. A cultura
compreende não somente aquelas realidades que desenvolvem no homem as
suas inumeráveis qualidades espirituais e corporais, mas também os
distintos estilos de vida e os diversos valores dos povos que conseguem tornar
mais humana a vida social(50). Para que a evangelização seja
realmente eficaz, será necessário que alcance as raízes da
cultura, como sugeria Paulo VI, para transformar com a força do Evangelho
"os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de
interesse, as linhas do pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida
da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio
da salvação(51).
Na América, formada por inúmeros povos, estão presentes
também diversas culturas. Esta multiplicidade, longe de empobrecê-la,
enriquece-a. Assim como cada pessoa tem a sua própria alma, assim
analogamente cada povo tem a sua própria forma espiritual que se expressa
em categorias culturais. A América enriquece-se com todo o esplêndido
manto das diversas culturas dos seus povos: indígenas, afro-americanos,
mestiços, crioulos, europeus, asiáticos e outras minorias éticas.
Neste mosaico, encontram também seu lugar as assim chamadas "culturas
modernas" e "pós-modernas" do presente, com os seus
numerosos valores, como a liberdade, a democracia, a participação,
a igualdade, a solidariedade, o progresso e o saber científico e técnico.
Uma nova evangelização já começou onde quer que
se procure evangelizar respeitando a cultura para que esta, uma vez
evangelizada, traduza na sua própria linguagem a mensagem do Evangelho. É
o chamado processo de aculturação. Para que tal processo
aconteça de maneira adequada, a evangelização deve seguir
os passos do mistério de Cristo: encarnação, páscoa
e pentecostes. Pela encarnação, o Verbo de Deus entra na nossa
realidade humana, assume-a e exprime-se nela; pela páscoa, tudo o que há
de caduco e pecaminoso na existência humana purifica-se e renasce a vida
nova; pelo pentecostes a vida humana e cristã, na multiplicidade e
diversidade dos povos, línguas e formas culturais, transforma-se pelo Espírito
em expressão do mistério da unidade da fé. Com efeito, a
Igreja, ao acolher a diversidade de povos e culturas, purifica-a e a unifica,
levando-a à confissão de uma mesma fé e à experiência
de uma mesma vida na caridade.
46. Por outro lado, a Igreja, para poder congregar efetivamente as diversas
culturas na unidade, deve ela mesma trabalhar incansavelmente para alcançar
a unidade entre os seus filhos: pastores com a sua grei, bispos com o
seu presbitério, sacerdotes com seus pastores; sacerdotes entre si e com
os fiéis, sacerdotes com religiosos, os movimentos leigos entre si e com
as estruturas eclesiais da respectiva Igreja particular, teólogos com
pastores, igrejas particulares entre si a nível regional, nacional,
continental. Por isso o Papa João Paulo II diz: "Entre os pecados
que requerem maior empenho de penitência e conversão, devem
certamente ser incluídos os que prejudicaram a unidade querida por Deus
para o seu Povo(52).
Vasto campo de trabalho em favor da comunhão é o que tem
diante de si cada comunidade cristã em sua própria Igreja
particular. Neste sentido, é sumamente precioso o esforço que cada
um possa fazer dentro da sua própria comunidade para suavizar tensões
e discrepâncias no campo doutrinal e pastoral, evitando assim exacerbar
diferenças étnicas, culturais ou nacionais. Das comunidades cristãs
da América também deveriam dizer os homens do nosso tempo o que se
dizia das primeiras comunidades cristãs: "vede como eles se amam",
ao ver que, nelas e entre elas, existe uma só alma e um único coração
pela fé em Cristo, pelo amor fraterno e pela solidariedade feita ação.
47. A grande tarefa de construir a paz e de chegar a fazer da
humanidade uma grande família humana é um desafio iniludível
para os homens e mulheres de fé do nosso tempo(53). Para isso, hão-de
trabalhar juntos católicos e membros de outras confissões cristãs,
pelo diálogo ecumênico paciente, sincero, fundado na verdade, na
caridade e na oração. Além disso, é louvável
a abertura ao diálogo com os crentes de religiões não cristãs,
sobretudo com os judeus e muçulmanos, como também com membros de
outras religiões que crêem em um Deus único. Enfim, o grande
desafio da paz e da unidade supõe também uma disposição
ao diálogo com todos os homens de boa vontade.
Para alcançar esta meta, que responde ao desígnio de Deus em
Cristo, o caminho é largo e difícil. Trata-se de um trabalho que
implica diversas etapas orientadas à formação de
comunidades intermediárias, a nível regional, nacional e
internacional. A tendência histórica a formar comunidades de povos
a nível nacional e comunidades de nações a nível
internacional e continental é sinal desta aspiração da
humanidade a se reconhecer como uma grande e única família.
Por outro lado, é já um fato a unidade que estão
fazendo os meios de comunicação social, que vão
conseguindo, aos poucos, fazer do nosso planeta uma "aldeia global".
Basta somente pensar na "Internet" (como caminho de informação
e comunicação internacional) e na programação de
certas atividades em nível internacional, como o turismo, o esporte, a
cultura, a ciência, a técnica, o comércio, a economia, etc.
Estes e outros são sinais de uma marcha lenta mas grandiosa e impossível
de se conter, que contribui para a unidade da família humana. Usando
todos os elementos mencionados que promovem a unidade, a Igreja prepara o
encontro com Cristo. Quando Ele tiver reunido em seu Corpo ressuscitado todos os
seus membros, então entregará o Reino ao Pai e Deus será
tudo em todos (cf. 1Cor 15,24-28). Esta é uma grandiosa tarefa e
um enorme desafio que a Igreja na América tem diante de si: trabalhar
pela comunhão, enquanto dispõe-se a cruzar o umbral do terceiro
milênio da era cristã.
QUARTA PARTE JESUS CRISTO CAMINHO PARA A SOLIDARIEDADE
I
A SOLIDARIEDADE NASCE DA COMUNHÃO
48. A comunhão corretamente entendida e vivida é o preâmbulo
natural e como que a raiz da solidariedade. São João, o discípulo
amado, apreendeu muito bem o espírito e o ensinamento do Mestre: "Este
é o seu mandamento: crer no nome do seu Filho Jesus Cristo e amar-nos uns
aos outros como ele nos deu o mandamento. Aquele que guarda os seus mandamentos
permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 3,23-24).
Se a prática deste mandamento do amor fraterno tem sido, ao longo dos
dois mil anos passados, o princípio de transformação das
sociedades, hoje, no limiar do terceiro milênio, continua tendo igual
validade e força para renovar a sociedade na América. Com efeito,
grande parte dos problemas que hoje afligem diversos povos no Continente tem sua
origem em causas econômicas e sociais conjunturais, que podem ser
superadas se cada um, pessoas ou grupos humanos e inclusive Estados, aplicarem o
princípio da solidariedade. O que, em outros tempos, fazia-se com pessoas
individuais, hoje deve ser realizado com povos e mesmo com nações
inteiras, dada a atual interdependência econômica, cultural e política.
49. A Doutrina Social da Igreja, este corpo de princípios deduzido
pelo Magistério dos ensinamentos da Palavra de Deus (com especial referência
à virtude da justiça e à da caridade fraterna), assim como
também das exigências do direito natural e na análise da
situação histórica concreta, apresenta uma idéia
integral do homem, da justiça, do desenvolvimento e da solidariedade(54).
Todo homem, enquanto criado por Deus à sua imagem e semelhança,
é chamado a participar da vida divina em Cristo. A criatura humana tem um
corpo e uma alma e, portanto, experimenta necessidades e aspirações
para sua plena realização, tanto em nível material e histórico,
como no mais alto nível espiritual e transcendente. Por isso, quando se
fala de promoção e desenvolvimento do homem, deve-se
afirmar que eles devem ser de "todo o homem", pois "não
só de pão vive o homem, mas também de toda palavra que sai
da boca de Deus" (cf. Dt 8,3; Mt 4,4). O homem é a
medida e o centro de toda a atividade econômica, política, social e
cultural. Pelo mesmo motivo, fala-se de um desenvolvimento integral no
sentido da passagem de "condições menos humanas" a "condições
mais humanas": pão, vestido, casa, trabalho, instrução,
liberdade, abertura ao Pai e a Jesus Cristo(55). Fala-se também de um
desenvolvimento autêntico, isto é, "mais humano, que -
sem negar as exigências econômicas - esteja em condições
de se manter à altura da vocação autêntica do homem e
da mulher(56).
50. O ser humano, criado por Deus como homem e mulher - com uma fundamental
igualdade, embora com suas respectivas peculiaridades e dons - foi colocado no
mundo para formar uma família e viver em sociedade. Portanto, não
pode ter a pretensão de se desenvolver e realizar à margem dos
demais; por outra parte, porém, o Criador quis o homem e a mulher por si
mesmos. O que significa que, embora Deus os tenha criado como membros de uma
comunidade, o problema social implica necessariamente o desenvolvimento integral
do homem e da mulher. Daqui brota o dever constante da solidariedade
entre indivíduos, grupos e povos, para que homens e mulheres possam alcançar
a própria realização de acordo com o plano de Deus(57).
O homem e a mulher desfiguraram a imagem primigênia de filhos de Deus
ao pecar contra os preceitos divinos. Pecando, afastaram-se de Deus e introduziu
-se em seus corações o egoísmo, origem de tantos pecados de
injustiça e de prepotência contra o próximo. Cristo, com a
sua graça redentora renova o homem e a mulher, indicando-lhes o caminho
da justiça e do amor, que se exprime concretamente na solidariedade. Esta
nasce da comunhão e lança suas raízes na união com
Cristo, com o Pai e com o Espírito Santo. Com efeito, afirma São
João na sua Primeira Epístola: "Se caminhamos na luz, estamos
em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos
purifica de todo pecado" (1Jo 1,7), pois "esta é a
mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros"
(1Jo 3,11). "Aquele que diz que está na luz, mas odeia o seu
irmão, está nas trevas até agora. O que ama o seu irmão
permanece na luz, e nele não há ocasião de queda" (1
Jo 2,9-10).
A caridade e a solidariedade são exigências de uma fé
operosa, pois do contrário, como diz o Apóstolo São Tiago, "meus
irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem
obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo?
Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes
faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém
dentre vós lhes disser ?Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos', e não
lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito
haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras,
está morta em seu isolamento" (Tg 2,14-17).
51. Diante das necessidades de tantos homens e mulheres na América
muitos outros irmãos despertam da indiferença, da passividade e da
resignação fatalista, para pôr-se ativamente em atitude de
serviço. Cristo dá- lhes a garantia e indica o caminho: "Confiança!
Eu venci o mundo" (Jo 16,33). Com efeito, Ele venceu o pecado com a
grandeza e o realismo do seu amor até ao sacrifício de si mesmo,
em generoso espírito de serviço: o Filho do homem não veio
para ser servido "mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos"
(Mc 10,45). Do mesmo modo que Jesus, o Senhor e Mestre, lavou os pés
de seus discípulos como sinal de amor e de humildade, os cristãos
são chamados a expressar a comunhão fraterna no serviço
solidário em favor dos outros (cf. Jo 13, 1ss). Este amor, que se
manifesta no serviço solidário e é o testemunho mais eficaz
da evangelização, encerra em si mesmo toda a potência capaz
de transformar verdadeiramente a sociedade. É um amor fundamentalmente
oblativo e de serviço, não de palavra ou de mero sentimento, que
leva a pessoa a sair de si mesma, a deixar a própria comodidade, a
superar os seus egoísmos e a servir Cristo em seus irmãos que
padecem necessidade. É um amor solidário que, definitivamente,
determinará o destino eterno pessoal: "Tudo aquilo que fizestes a um
destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes... Em verdade vos
digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim
que o deixastes de fazer" (Mt 25,40.45).
52. A Igreja que está na América, sobretudo nos países
em via de desenvolvimento, sempre manifestou uma especial solicitude em
responder às necessidades dos pobres, fazendo-se, desse modo, eco da
mensagem e da vida de Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por nós,
para nos enriquecer mediante a sua pobreza (cf. 2Cor 8,9). Esta especial
preocupação estimulou a reflexão teológica que, como
justamente assinala a Instrução da Sagrada Congregação
para a Doutrina da Fé sobre alguns aspectos da "Teologia da Libertação",
apoia-se sobre três pilares: a verdade sobre Jesus Cristo, a verdade sobre
a Igreja e a verdade sobre o homem(58). Por esta razão, a experiência
do amor preferencial pelos pobres deve interpretar-se à luz da experiência
mesma da Igreja, a qual brilha com singular esplendor na vida dos santos(59).
Para iluminar a vida pastoral e a reflexão teológica, a segunda
instrução da Sagrada Congregação sobre o mesmo tema
da libertação indica que é indispensável manter uma
clara distinção e, ao mesmo tempo, uma justa e necessária
inter-relação entre evangelização e promoção
da justiça: "A Igreja presta grande atenção em manter,
clara e firmemente, tanto a unidade como a distinção entre
evangelização e promoção humana: unidade, porque ela
busca o bem do homem todo; distinção, porque essas duas tarefas,
sob títulos diversos, integram a sua missão(60).
Será importante ter presente que a missão da Igreja que está
na América, cujo objetivo é a autêntica libertação
do homem contemporâneo submetido a duras opressões e ansioso pela
liberdade, não somente estende- se aos países menos desenvolvidos
do Centro e do Sul do Continente, mas compreende também a área
geográfica dos países mais desenvolvidos no Norte, onde nascem
novas formas de pobreza e de escravidão a partir do próprio fenômeno
do desenvolvimento industrial e tecnológico: a decadência moral, a
corrupção, a extrema pobreza e solidão de algumas pessoas
que vivem em centros urbanos densamente povoados, a delinqüência e a
violência juvenis, uma certa escravidão gerada pelo consumismo e
pelo materialismo, a marginalização social de alguns grupos ao
interno das grandes cidades, etc.
II
ALGUNS PROBLEMAS SOCIAIS URGENTES E SUAS CAUSAS
53. São numerosos e complexos os problemas que, em campo social, a
Igreja na América deve enfrentar. Também são várias
as ocasiões em que os Bispos na América, reunidos em assembléias
episcopais a nível nacional e continental, ocuparam-se destes problemas,
tratando-os em diversos documentos, como, por exemplo: A Igreja na atual
transformação da América Latina à luz do Concílio
(Medellín, 1968), A evangelização no presente e no
futuro da América Latina (Puebla, 1978) e Nova Evangelização,
Promoção Humana e Cultura Cristã (Santo Domingo, 1992),
da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano; Economic Justice
for all: Catholic Social Teaching and the U.S. Economy (1986), Moral
Principles and Policies for Welfare Reform (1995), da Conferência
Episcopal dos Estados Unidos da América do Norte; Les coûts
humains du chômage (1980), da Conferência Episcopal do Canadá
e outros tantos documentos da Comissão para os assuntos sociais da mesma
Conferência Episcopal. Estes pronunciamentos fazem-se eco da mensagem dos
Papas, nas diversas encíclicas, especialmente da "Populorum
progressio", da "Laborem exercens" e da "Sollicitudo
rei socialis".
Os problemas mais citados, nos mencionados documentos, são: a
pobreza, a injustiça, a migração, as relações
econômicas internacionais, a expansão das multinacionais, o livre
mercado, a dívida externa, a disparidade no desenvolvimento e a desigual
distribuição das riquezas entre Norte, Centro e Sul, a falta de
solidariedade, o comércio clandestino da droga, a situação
da mulher em alguns países, o direito das minorias étnicas
(sobretudo de indígenas e afro-americanos), os problemas da saúde,
etc. A estes aspectos é preciso acrescentar também os novos
problemas que, ultimamente, apresenta o avanço científico no campo
da bioética, sobretudo no que se refere à manipulação
genética(61). Os pastores de todo o Continente mostram-se bem conscientes
do problema que todos estes fatos representam para aqueles que trazem o título
de crentes em Cristo.
54. Um aspecto de particular importância no contexto da problemática
social é o do emprego. A experiência ensina que o crescimento econômico
pode causar dificuldades em relação ao emprego. O tema do trabalho
foi colocado pelo Papa João Paulo II no centro da questão social,
na sua encíclica Laborem excercens: "o trabalho humano é
uma chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social, se
nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem
do homem. E se a solução - ou melhor, a gradual solução
- da questão social, que continuamente se reapresenta e se vai tornando
cada vez mais complexa, deve ser buscada no sentido de ?tornar a vida humana
mais humana', então por isso mesmo a chave, que é o trabalho
humano, assume uma importância fundamental e decisiva(62).
Neste sentido, resulta fundamental a afirmação programática
deste mesmo documento, segundo o qual os meios de produção "não
podem ser possuídos contra o trabalho, ... porque o único título
legítimo para a sua posse - e isto tanto sob a forma da propriedade
privada como sob a forma da propriedade pública ou coletiva - é
que eles sirvam ao trabalho(63).
Outro aspecto que merece uma particular atenção é o
relacionado com as companhias transnacionais, que nos últimos anos vêm
adquirindo grande poder e que terão ainda maior importância com a
globalização do mercado. A este incremento de poder deverá
corresponder uma maior responsabilidade por parte dos executivos de tais
empresas. Por este motivo, a Igreja tem a importante missão de fazer
chegar a sua mensagem social também a este setor.
A presença da Igreja no campo social, entre tantos os outros modos,
realiza-se através da difusão dos documentos da Santa Sé e
dos Bispos neste campo. A este respeito, a comunicação é
crucial. Em alguns casos, o conteúdo de importantes documentos recebe
somente um tratamento e distribuição superficiais através
de algum meio de comunicação, por ocasião da sua publicação.
O desafio da nova evangelização no Continente americano consiste
em encontrar o modo de usar os meios de comunicação disponíveis
para que a Doutrina Social da Igreja seja mais conhecida.
Sempre no contexto da questão social, não podem deixar de
serem mencionados, além dos aspectos positivos da vida na cidade, os
problemas que surgem da revolução urbana: desenraizamento,
anonimato, solidão, imoralidade, etc. Realidade que é
particularmente preocupante quando a estes fatores acrescentam-se outros
elementos, especialmente a pobreza e a indigência, que definem o complexo
problema social dos bairros pobres ou "favelas" nas periferias urbanas
da América Central e do Sul, e de zonas marginalizadas das grandes
cidades da América do Norte. Por outro lado, tanto a urbanização
como a industrialização estão comportando uma progressiva
destruição dos recursos naturais e uma contaminação
ecológica global. Simultaneamente com a emigração do campo
rumo à cidade está se originando uma espécie de "deserto
cultural e cristão" nas sociedades urbanas, sobretudo nos países
do Sul do continente.
55. Estas suscintas observações da realidade social da América
ficariam incompletas se não houvesse uma referência a possíveis
causas dos problemas, sugerindo-se também algumas vias de superação.
As pautas de reflexão devem ser sempre os documentos da Igreja em campo
social. Entre as causas destes problemas, que são também
socio-econômicas, a Igreja realça antes de tudo a causa moral.
Na carta encíclica Sollicitudo rei socialis, o Papa João
Paulo II afirma claramente que entre as atitudes que contribuem ao desequilíbrio
econômico deve-se ter presente "o afã de ganância
exclusiva e a sede de poder(64). Tais atitudes dão origem a outras omissões
e comissões negativas, que acabam por criar as estruturas de pecado que,
por sua vez, acentuam as divisões que existem entre os poucos que têm
muito e os muitos que têm pouco.
Na linha da carta encíclica Sollicitudo rei socialis é
possível dizer: se a causa é moral, a solução também
ter que ser moral. Por isso, o Papa João Paulo II propõe o cultivo
da virtude da solidariedade(65), entendida como a reação
moralmente exigida ao constatar a injustiça das condições
sociais em que hoje vivem muitos homens. Ao falar de virtude, se quer realçar
a necessidade de uma conduta continuada e não reduzida a atos esporádicos
de boa vontade. O crescimento nesta virtude será motivado pela consciência
da interdependência que une os homens em um destino comum: alcança-se
a salvação individual na medida em que cada um assume
responsavelmente a sua preocupação pela salvação dos
demais.
É importante considerar também a dimensão completa da
solidariedade proposta pela doutrina social da Igreja. Não se trata de
uma ação unidirecional no sentido de uma assistência de cima
para baixo. Todos devem fazer a sua parte. Na carta encíclica do
Papa João Paulo II Sollicitudo rei socialis e no documento sobre
a dívida internacional da Pontifícia Comissão "Iustitia
et pax" insiste-se sobre a responsabilidade de todas as partes e categorias
sociais(66).
56. Há quem afirme que o catolicismo, ou mais propriamente a tradição
cultural de raiz católica é, em parte, "culpável"
do subdesenvolvimento de alguns países. Esta teoria é perigosa
porque se pode tentar vender o progresso às custas da fé. É
inegável que a religião influencia na cultura de um povo e no seu
conceito de história, do tempo, do trabalho e da vida em geral, porém
nem sempre em sentido negativo, como às vezes procura-se demonstrar com
respeito ao catolicismo em relação a outras religiões. Por
isso é importante continuar aprofundando o estudo e a reflexão das
relações entre a religião cristã, e mais
concretamente católica, e o desenvolvimento dos povos.
Às vezes a análise dos problemas sociais torna-se muito difícil,
pela complexidade e contingência das ciências sociais. Para certos
problemas, porém, como os da miséria, não cabe a indecisão.
Em tais casos, inclusive quando há uma diversidade de opiniões ou
quando se vê uma solução perfeita, há a obrigação
moral de agir. A este propósito, é importante recordar uma advertência
de João XXIII: "Nas aplicações (dos princípios)
podem surgir divergências mesmo entre católicos retos e sinceros.
Quando isto suceder, não faltem nunca a consideração, o
respeito mútuo e a boa vontade em descobrir os pontos sobre que existe
acordo, a fim de se conseguir uma ação oportuna e eficaz. Não
nos percamos em discussões intermináveis e sob o pretexto de
conseguirmos o ótimo, não deixemos de realizar o bom que é
possível, e portanto obrigatório(67).
Uma maneira de tornar mais efetivo o raciocínio prático é
procurar pôr-se sempre no lugar dos pobres. Para poder realizar isso, convém
não esquecer a regra de ouro: "fazer aos outros aquilo que queres
que te façam a ti". Esta, por sua vez, é uma conclusão
lógica do primeiro princípio da moral natural: "fazer o bem e
evitar o mal". Rever o ponto a partir do qual se contemplam os
problemas poderia ser uma pauta importante de conversão,
dado que a raiz da injustiça está, como foi dito anteriormente, no
campo moral.
III
AGENTES DE SOLIDARIEDADE
57. A responsabilidade dos pastores do Povo de Deus (bispos e
sacerdotes), nos campos acima indicados, é clara e iniludível. No
cumprimento desta responsabilidade, é muito apreciada a colaboração
dos religiosos e religiosas, dos movimentos apostólicos e outras
instituições que trabalham com famílias, com crianças
e jovens, que atendem centros de caridade e de assistência, que trabalham
nas escolas ou que vivem entre os mais necessitados levando o testemunho do seu
amor e da sua ajuda solidária. Todos eles, como o demonstram tantas
experiências da vida da Igreja na América, também são
eficazes agentes de solidariedade.
Nesta comum tarefa de solidariedade, os leigos têm um papel
determinante. Há nos leigos cristãos do Norte, do Centro e do Sul
do Continente, um extraordinário potencial de generosidade para acudir à
chamada de quem padece necessidade. A história passada e recente está
cheia de exemplos desta cooperação eficaz por ocasião de
catástrofes naturais, de conflitos sociais ou políticos (guerras,
guerrilhas ou outros problemas mais ou menos crônicos de índole
social ou cultural).
Em todas as partes do continente a ajuda solidária enriquece-se com a
vitalidade e a espontânea generosidade dos jovens. Há neles
uma enorme reserva de doação de si mesmos, que espera a chamada e
o convite dos pastores. São estes que podem dizer-lhes, como Cristo aos
trabalhadores ociosos: "Ide também vós à minha vinha"
(Mt 20,4). Ontem como hoje, eles respondem a esta chamada, como
sacerdotes, religiosos, religiosas, pessoas consagradas, leigos missionários
e voluntários, etc.
Também a família tem um papel primário na educação
das novas gerações para a solidariedade com os mais necessitados.
O exemplo e testemunho dos pais é decisivo para a formação
da sensibilidade e da atitude altruísta em crianças e
adolescentes. Em especial, a mulher, a quem Deus "confia de um modo
especial o homem, ou seja, o ser humano(68), ocupa um lugar de grande relevância
no campo da solidariedade. Ela, com efeito, "não pode encontrar-se a
si mesma a não ser dando amor aos demais(69). A adequada inserção
da mulher na Igreja, de acordo com a sua particular vocação à
vida e ao amor, converte-a em uma eficiente agente de solidariedade a serviço
do Evangelho.
IV
POSSÍVEIS CAMINHOS DE ACTUAÇÃO DA SOLIDARIEDADE
58. A formação de sacerdotes, religiosos e religiosas
na Doutrina Social da Igreja é um aspecto de fundamental importância
na preparação do caminho de solidariedade(70). Na medida em que os
responsáveis da condução pastoral estiverem mais
capacitados para poder entender os problemas humanos em relação a
fatores determinantes da vida social contemporânea (a política, as
finanças, a cultura, a justiça social, a economia, etc.), eles
poderão agir mais eficazmente no campo social para levar a cabo
iniciativas concretas de solidariedade. Com efeito, duplo é o objetivo
da formação nesta matéria: por um lado, à luz dos
princípios permanentes, chegar a um juízo objetivo sobre a
realidade social e, por outro lado, concretizar as opções mais
adequadas que eliminem as injustiças e favoreçam as transformações
políticas, econômicas e culturais de acordo com as circunstâncias
particulares de cada caso(71).
59. Diversas possibilidades de atuação da solidariedade
apresentam-se em distintos níveis ao interno da Igreja na América.
Um caminho de solidariedade entre as comunidades cristãs do Norte e do
Centro-Sul do Continente já foi aberto. Ele pode ser visto na iniciativa
de ensinar a língua castelhana em muitos seminários dos Estados
Unidos da América do Norte para que os futuros sacerdotes se encontrem
mais preparados quanto à assistência pastoral às comunidades
de língua espanhola e aos imigrados. É também um fato o
voluntariado dos leigos provenientes da América do Norte nas regiões
mais carentes do Centro e do Sul do Continente. Assim também, seria
positivo inspirar nos imigrantes uma atitude de respeito e de compreensão
pela cultura do país que os acolhe. Igualmente poder-se-iam promover
programas que contemplem a possibilidade de sacerdotes da América Latina
visitarem os países do Norte do continente para dar assistência
espiritual à população de origem latino-americana.
Permanece aberto também à criatividade de novas formas de
solidariedade o caminho iniciado por muitos leigos, especialmenteprofissionais,
que dão generosamente o seu tempo e seus conhecimentos em favor dos mais
necessitados. Um aspecto que merece ser tido em especial consideração
é o voluntariado, não somente em nível local mas também
em nível internacional. As três partes do continente muito têm
a partilhar neste sentido.
Também a cidade apresenta numerosos problemas, mas conhece
igualmente novas possibilidades de ação. A Igreja, com suas
estrutura de paróquias e de movimentos, integra-se na estrutura urbana
oferecendo aos homens espaços novos para que possam ter uma experiência
religiosa. A pastoral urbana continua sendo uma prioridade na formação
dos sacerdotes, dos religiosos e dos agentes leigos. Neste sentido, estão
abertas as portas à criatividade de novos métodos, de novos
caminhos e de novas linguagens de evangelização.
V
ASPIRAÇÕES E DASAFIOS DA IGREJA NA AMÉRICA
60. Na linha destas considerações, uma aspiração
para a Igreja na América é a de fomentar e praticar a
solidariedade entre Norte, Centro e Sul do continente, buscando meios que
canalizem ajudas efetivas a grupos e mesmo a nações que padecem
pobreza e carências de educação, de medicina e de estruturas
sanitárias, de habitação, de emprego, etc. Por isso
apresenta-se como um verdadeiro desafio a formação da consciência
ética daqueles que podem influir decisivamente em programas e políticas
econômicas, de comunicação social, de cultura, de saúde,
etc. Eles poderão trabalhar, não somente em benefício das
próprias comunidades locais e povos, mas também em um raio
nacional e, inclusive, internacional, promovendo adequadas estratégias
políticas, econômicas e culturais.
Não é missão da Igreja resolver todos os problemas
sociais. No entanto, a Igreja pode contribuir à solução, em
parte, de problemas elementares, como a privação das coisas mínimas
necessárias para uma vida humana digna: comida, casa, escola, roupa,
medicina, etc. Muitas Igrejas particulares na América dão
testemunho evangélico de comunhão na solidariedade, criando espaços
para que se multipliquem iniciativas de cooperação de igreja a
igreja, também em nível continental, dentro de estruturas de ajuda
já estabelecidas, porém também fora delas quando é
oportuno. O exemplo da primitiva comunidade apostólica continua sendo
inspirador no campo de uma real comunhão e participação de
bens, inclusive materiais. O claro texto dos Atos é eloqüente e
iluminante: "A multidão dos que haviam crido era um só coração
e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía,
mas tudo entre eles era comum. Com grande poder os apóstolos davam o
testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação.
Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam
terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas e os depunham aos
pés dos apóstolos. Distribuía-se então, a cada um,
segundo a sua necessidade" (At 4,32-35).
O exemplo de São Paulo, que não tinha dúvidas em
organizar uma coleta entre as igrejas da Ásia Menor em favor da
perseguida comunidade irmã de Jerusalém, oferece-nos um modelo
concreto e imediato de como acudir as necessidades dos irmãos, em nome
d'Aquele que "sendo rico, fez- se pobre por vós, afim de nos
enriquecer com a sua pobreza" (2Cor 8.9).
61. O ensino social da Igreja é exigente, porque o Evangelho também
o é, porém para entrar no espírito do Evangelho é
necessária a conversão que é mudança de coração
e de mentalidade. Esta mudança interior conduz, quando autêntica, a
mudanças no modo de agir. A Igreja na América tem mostrado e
continua mostrando ainda hoje um particular empenho no campo da promoção
social de todos os homens e mulheres do continente. Este peculiar interesse
manifesta-se na opção evangélica pelos mais fracos e
necessitados, como também no desejo de apoiar o desenvolvimento integral,
físico e espiritual, material e cultural, de todo homem e de toda mulher.
Uma promoção social em sentido cristão implica também
o desafio da formação de uma consciência social solidária
e generosa nos leigos, que permita partilhar recursos materiais e humanos de
zonas privilegiadas ou auto- suficientes, com zonas e grupos humanos menos
favorecidos.
No campo da promoção social, um aspecto do qual a Igreja na América
se interessou sempre com particular solicitude tem sido a instrução
e educação escolar primária, média e
superior, como condição fundamental para o desenvolvimento dos
povos. Esta preocupação com a educação tem sido
oferecida sempre, pela Igreja, juntamente com uma adequada formação
religiosa para que os cristãos possam dar razão da sua esperança
e responder adequadamente ao desafio da secularização e de outras
confissões religiosas. Com efeito, as seitas religiosas e
movimentos pseudo-espirituais estão minando a unidade religiosa e
cultural do povo católico da América, fazendo uso de abundantes
recursos econômicos e técnicas através de um proselitismo,
muitas vezes manipulador das consciências. Na América Latina tais
seitas atacam com freqüência a própria identidade nacional,
intimamente ligada à fé católica. Este é outro
desafio para a Igreja na América no campo da formação
religiosa.
62. Dado que no conceito de cultura entram em jogo os modos com os quais os
homens cultivam a sua relação com Deus, entre si mesmos e com a
natureza, a aculturação é outra grande aspiração
para a Igreja na América. Com efeito, evangelizando a cultura é
possível promover relações humanas que reflitam o
mandamento do amor, seja para com Deus, seja para com os homens, através
de formas concretas de solidariedade fraterna. Conhecer, respeitar, promover a
cultura de cada grupo étnico, anunciar o Evangelho a cada cultura para
que esta, uma vez evangelizada, expresse nas suas próprias formas o conteúdo
do Evangelho: tal é o processo circular da aculturação que
se apresenta como meta a alcançar na nova evangelização.
Cada povo, ao trazer para a comunidade humana e eclesial a sua própria
cultura, enriquece-a. O Evangelho, ao encarnar-se nas diversas formas culturais
dos povos, alarga a sua inesgotável riqueza. Por isto a Igreja aprecia e
defende a cultura própria de cada povo e de cada grupo humano, em tudo
aquilo que ela tem de positivo e harmonizável com a mensagem perene da
Boa Nova. Na América, existem expressões culturais heterogêneas:
a das sociedades contemporâneas, a dos grupos indígenas e autóctones
de todo o Continente (do Alasca à Terra do Fogo), a dos afro- americanos
do Norte, do Centro, do Caribe e do Sul, a das minorias étnicas que nos últimos
dois séculos foram chegando à América, enriquecendo-a com
as suas culturas. Cada um destes grupos humanos possui um patrimônio
cultural, reconhecível em suas expressões artísticas, em
sua religiosidade e em sua sensibilidade, que constitui um dom precioso para o
continente e para todo o mundo.
63. No campo ecumênico são múltiplas as
iniciativas, algumas já concretizadas e outras em via de realização,
que tentam construir a unidade através de gestos de solidariedade com os
irmãos de outras confissões cristãs, não somente
naquilo que se refere ao diálogo inter-confessional mas também em
outros campos, como, por exemplo, o assistencial, o econômico, o cultural,
o sanitário, etc. As palavras do Concílio Vaticano II estimulam os
católicos à cooperação com os irmãos de
outras confissões cristãs: "Sendo que nos tempos hodiernos se
estabelece largamente a cooperação no campo social, todos os
homens são chamados a uma obra comum, mas de modo especial os que crêem
em Deus, máxime todos os cristãos assinalados com o nome de
Cristo(72). Unindo forças diante do avanço da mentalidade
indiferentista e atéia, é possível preservar melhor o
patrimônio de verdades e valores cristãos comuns. Enquanto isso,
encontros de oração e de reflexão, organizados pelos
respectivos responsáveis, permitem continuar caminhando juntos rumo à
unidade desejada por Cristo.
64. A comunhão e a solidariedade de toda a família humana
devem ser obtidas através de um caminho feito de pequenos passos, até
alcançar uma verdadeira e sólida integração
de comunidades em nível nacional e continental, estabelecendo caminhos de
inter-relação entre o Norte, o Centro e o Sul, no respeito por
suas diversas realidades socio-culturais. Como tudo o que inicia, não
carece de dificuldades e a alguns pode parecer uma utopia inalcançável
e inoportuna. No entanto, terá que superar dificuldades não
somente técnicas - de tipo econômico, jurídico, cultural ou
político - mas sobretudo humanas: receios e desconfianças mútuas,
ressentimentos históricos, atitudes atávicas de recusa,
nacionalismos demasiadamente estreitos e exclusivos.
Os grandes problemas merecem grandes soluções que, a miúdo,
implicam gestos de generosidade e de sacrifício. Aqui estão em
jogo as causas da comunhão e da solidariedade queridas por Cristo como
modo de vida entre seus discípulos. É não somente um anelo
da humanidade, mas também, e fundamentalmente, uma meta para a qual
caminha o Povo de Deus guiado pela fé, pela esperança e pelo amor
de Jesus Cristo. Os atuais esforços em diversas partes do mundo por
formar comunidades de nações, nos campos da economia ou da cultura
- na Europa, no Pacífico oriental, no Norte, no Centro e no Sul do
continente americano - são como tesselas com as quais vai-se formando o
mosaico de uma grande comunidade de nações. A meta última,
que responde ao desígnio de Deus e à súplica de Cristo, é
sempre a unidade da família humana, cujo cimento de coesão é
a fé em Cristo. A Igreja mesma, com efeito, una em sua fé,
em seus sacramentos e em sua hierarquia, católica na universalidade dos
seus membros e das suas comunidades com suas respectivas culturas, é já
uma antecipação do único povo e da única família
querida por Deus desde o alvorecer da criação.
CONCLUSÃO
65. O mandato de Cristo: "Ide, portanto, e fazei que todas as nações
se tornem discípulos" (Mt 28,19) continua sendo tão
peremptório hoje como quando Ele o dirigiu aos apóstolos no monte
da Galiléia, pouco antes de subir ao céu. No limiar do terceiro
Milênio, Cristo envia de novo a sua Igreja que está na América
a evangelizar o mundo contemporâneo. Um dos primeiros e mais urgentes
deveres de todo o povo de Deus é o da missão. Diante de um mundo
novo que se vai configurando, diante de uma sociedade profundamente transformada
em relação às décadas anteriores, todos os cristãos
devem sentir o dever da missão como tarefa primordial. Esta missão
deve cumprir-se seguindo o mesmo caminho salvador que Cristo traçou há
dois mil anos. Hoje, como ontem e sempre, ele é "o Caminho, a
Verdade e a Vida" (Jo 14,6) do homem que peregrina rumo à pátria
definitiva.
Os objetivos indicados pelo Para João Paulo II para a Assembléia
Especial para a América são, ao mesmo tempo, árduos e
desafiadores: promover a nova evangelização em todo o território
do continente americano, incrementar a solidariedade entre as igrejas
particulares e analisar os problemas da justiça e das relações
econômicas entre o Norte, o Centro e o Sul.
66. A análise e as sugestões de ação que surgirão
como resultado da Assembléia Especial para a América não
serão primariamente sociológicas nem técnicas e sim evangélicas.
Como Pedro disse ao paralítico da Porta Formosa do templo de Jerusalém:
"Não tenho ouro nem prata, mas aquilo que tenho eu te dou: em nome
de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda" (At 3,6), assim
também a Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América,
presidida pelo sucessor do primeiro Vigário de Cristo, ajudará a
iluminar o caminho do Povo de Deus que deseja pôr-se em marcha para ir ao
encontro de Jesus Cristo vivo, Senhor do tempo e da eternidade.
Nesta hora da história, o Espírito do Senhor convida a
abandonar temores e dúvidas e a lançar-se com arrojo a anunciar a
Palavra na América com audácia ou "parresía",
com toda a sua força de transformação dos corações,
das sociedades, das culturas. Isto exige conversão e mudança
interior do próprio coração. O eco da voz do Apóstolo
chega hoje em terra americana para exortar a Igreja dizendo: "Em nome de
Cristo suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus" (2Cor 5,20).
Conversão e reconciliação com Deus, nosso Pai e com os
homens, nossos irmãos: esta é a primeira condição
que Jesus põe ao iniciar a nova evangelização: "O
Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede na Boa Nova"
(Mc 1,15). Para ser bons evangelizadores, é preciso antes
deixar-se evangelizar. Só preparando o caminho com uma autêntica
conversão, é possível dirigir-se com confiança
rumo à meta, que é a comunhão com Deus em Cristo, e
poder dar frutos abundantes de amor e de solidariedade no Espírito.
67. A Virgem Maria, Mãe do Redentor e Mãe da Igreja(73), é
a Estrela da nova evangelização, que guia com segurança o
Povo de Deus na América ao encontro com o Senhor(74). Ela faz sentir a
sua presença materna no meio do seu povo, como nos começos da vida
da Igreja, e hoje como ontem continua a convidar todos os seus filhos à
conversão, à comunhão e à solidariedade.
Nesta época em que não faltam motivos de preocupação,
na qual, porém, são numerosos os sinais de esperança, a
Assembléia Especial para a América é um acontecimento que
convida todo o Povo de Deus a deixar de lado os temores e desconfianças
para escutar com atenção o que o Espírito diz à
Igreja que peregrina no Continente: "América, abre teu coração
a Cristo!".
QUESTIONÁRIO
Encontro com Jesus Cristo vivo
1 - Como é anunciada e apresentada a pessoa de Jesus Cristo, Salvador
e evangelizador, aos homens e mulheres da época presente, em ordem a
provocar um verdadeiro encontro com Ele em meio às situações
concretas da vida? Descrever os modos com que a Igreja pode manter a
centralidade de Jesus Cristo vivo nas diversas manifestações da
vida da Igreja: a liturgia, a catequese sistemática, a formação
na fé, as atividades apostólicas e caritativas.
A conversão na Igreja e na sociedade
2 - Enumerar e descrever sinais concretos do despertar religioso na Igreja
local. Quanto ao contrário, quais são os aspectos mais
necessitados de conversão na realidade intra-eclesial?
3 - Quais elementos da sociedade contemporânea, em sua área,
podem ser considerados positivos em relação à mensagem do
Evangelho? Em que aspectos do contexto social é necessária uma
conversão?
A comunhão na Igreja
4 - Quais são os fatores que produzem as divisões mais
importantes no âmbito eclesial, em nível de: bispos, sacerdotes,
religiosos e religiosas, movimentos eclesiais, fiéis em geral? Como podem
ser superados estes obstáculos que atentam contra a comunhão?
5 - Avaliar em que medida na Igreja particular têm sido aplicados os
ensinamentos do Concílio Vaticano II, especialmente no que se refere à
comunhão. Em que modo pode-se contribuir para pôr em evidência
toda a riqueza doutrinal e pastoral deste concílio, seguindo o convite do
Santo Padre a realizar um "exame de consciência" que "deve
visar também a recepção do Concílio, este
grande dom do Espírito à Igreja no final do segundo milênio"
(Carta apostólica Tertio millennio adveniente, 36)?
Diálogo ecumênico e inter-religioso
6 - O que se faz concretamente nas Igrejas particulares ou a nível
inter- diocesano, para favorecer o diálogo ecumênico, a oração
e a cooperação solidária com os irmãos de outras
confissões cristãs? Como são preparados os agentes de
pastoral para desenvolver atividades ecumênicas orientadas à
construção da unidade do único Povo de Deus?
7 - Avaliar as relação que a sua comunidade cristã mantém
com as outras religiões não-cristãs.
A Igreja diante do problema das seitas
8 - Descrever sinteticamente o panorama religioso com relação às
seitas, aos movimentos religiosos sincretistas e a outras correntes
espiritualistas: quais são? Que tipo de atividade desenvolvem? O que a
Igreja pode fazer diante desta situação para confirmar os fiéis
na sua fé?
Evangelização e cultural
9 - O que faz a Igreja para evangelizar o mundo da cultura (artes, letras,
ciências, etc)? Como se faz presente a Igreja com programas de evangelização
nos distintos níveis do campo educativo: primário ou elementar,
secundário ou médio e universitário?
10 - Quais são os elementos mais salientes das culturas de grupos indígenas,
afro-americanos ou de imigrantes, existentes no território nacional ou
nas comunidades locais, que merecem ser revalorizados e utilizados como sementes
de evangelização? Em que medida tais elementos enriquecem a
espiritualidade cristã e em que medida devem ser purificados de elementos
alheios à fé cristã?
11 - Quais são as características mais salientes da
religiosidade popular em sua área e em que medida tais aspectos são
levados em conta na elaboração dos planos pastorais? Que lugar
ocupa a devoção à Virgem Maria na religiosidade popular?
A Igreja e os meios de comunicação social
12 -O que faz atualmente a Igreja, em sua área, para promover o reto
uso dos meios de comunicação social e para que estes sejam também
úteis instrumentos ao serviço da nova evangelização?
Qual é a presença da Igreja nos chamados "areópagos
modernos"?
A Igreja e a solidariedade social
13 - Que atividades promove a Igreja, em sua área, para a ajuda solidária
aos mais necessitados e como em geral responde o povo fiel a estas iniciativas?
Que colaborações externas em nível eclesial ou civil recebe
a Igreja em ordem a esta ajuda solidária? Existem programas de formação
da consciência solidária em pessoas ou grupos relevantes na
sociedade?
A Igreja diante dos problemas sociais
14 -Que uso se faz da Doutrina Social da Igreja, em sua área, na nova
evangelização, diante das diversas situações que
reclamam uma ação social, como, por exemplo, a promoção
e o desenvolvimento humanos, as migrações, os problemas do mundo
do trabalho, etc? Que meios se usam para difundir o conhecimento da Doutrina
Social da Igreja, dentro e fora do âmbito eclesial?
A Igreja e a promoção da vida humana
15 -Como promove a Igreja o respeito pela vida humana em todas as suas
fases, desde a concepção no seio materno até à
ancianidade? Enumerar exemplos concretos da sensibilidade da comunidade cristã
com referência a este aspecto.
Outros temas comuns
16 -Pode fazer observações ou sugestões sobre outros
problemas comuns a todo o Continente Americano relacionados com o tema da
Assembléia Especial, que, na sua opinião, não foram
suficientemente aprofundados nos Lineamenta os que não são
mencionados no presente questionário?
Cidade do Vaticano, 1996
(1) João Paulo II, Discurso inaugural, IV Conferência
Geral do Episcopado Latino- americano (12 de outubro de 1992), 17;
L'Osservatore Romano, edição portuguesa, 18 de outubro de
1992, p. 12.
(2) João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio
adveniente (10 de Novembro de 1994), 38: AAS 87 (1995), 30.
(3) Catecismo da Igreja Católica, 429.
(4) Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje Gaudium et spes, 22.
(5) Cfr. Gongregação para a Doutrina da Fé, Instrução
sobre a liberdade cristã e a libertação, Libertatis
conscientia (22 de março de 1986) 99: AAS 79 (1987), 594.
(6) Cfr. Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii
Nuntiandi (8 de dezembro de 1975), 75: AAS 68 (1976), 64-67.
(7) Catecismo da Igreja Católica, n. 160.
(8) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Redemptoris missio
(7 de dezembro de 1990), 37; AAS 83 (1991), 284.
(9) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 63. Cf. Santo Agostinho,
Sermo CCXV, 4: PL 38, 1074.
(10) Cf. João Paulo II, Discurso inaugural, IV Conferência
Geral do Episcopado Latinoamericano (12 de outubro de 1992), 31; L'Osservatore
Romano, edição portuguesa, 18 de outubro de 1992, p. 12s.
(11) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Redemptoris Mater
(25 de março de 19879: AAS 79 (1987), 410.
(12) Cf. João Paulo II, Carta apostólica Tertio millennio
adveniente (10 de novembro de 1994), 59: AAS 87 (1995), 41.
(13) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Reconciliatio et poenitentia (2 de dezembro de 1984): AAS 77
(1985), 199.
(14) Ibid., 4: AAS 77 (1985), 190.
(15) João Paulo II, Carta apostólica Tertio millennio
adveniente (10 de novembro de 1994),36: AAS 87 (1995), 27.
(16) Cf. Ibid.
(17) Santo Agostinho, Confessiones I,1: CCL 27,1.
(18) João Paulo II, Carta apostólica Tertio millennio
adveniente (10 de novembro de 1994), 36: AAS 87 (1995), 27.
(19) Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 9: AAS 84
(1992), 670s.
(20) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Reconciliatio et poenitentia (2 de dezembro de 1984), 13: AAS 77
(1985), 209.
(21) Pio XII, Radiomensagem ao Congresso Catequético Nacional dos
Estados Unidos, em Boston (26 de outubro de 1946), Discursos e
Radiomensagens, VIII, 1946, p. 288. Cf. João Paulo II, Exortação
apostólica pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia (2 de
dezembro de 1984) 18: AAS 77 (1985), 225.
(22) João Paulo II, Alocução dominical de 14 de março
de 1982, L'Osservatore Romano, edição portuguesa, 21 de
março de 1982, p.2.
(23) S. Leão Magno, Tractatus 63 (De Passione Domini),6;CCL
138/A, 386.
(24) Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 13-17.
(25) João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae
(25 de março de 1995) 76, L'Osservatore Romano, edição
portuguesa, 1º de abril de 1995, p. 16.
(26) Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto sobre o ecumenismo
Unitatis redintegra tio, 7.
(27)Ibid., 6.
(28) Cf. Ibid., 8-11.
(29) João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal
Reconciliatio et paenitentia (2 de dezembro de 1984), 2: AAS 77
(1985), 188.
(30) Cf. Comunicado dos Bispos responsáveis pelas Comissões
Doutrinais das Con ferências Episcopais da América Latina, Guadalajara
(México) 6-10 de maio de 1996: L'Osservatore Romano, edição
portuguesa, 25 de maio de 1996, p.12.
(31) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 6.
(32) Cf. Ibid., 7.
(33) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et spes, 40.
(34) Cf. João Paulo II, Carta apostólica aos religiosos e
religiosas da América Latina por motivo do V Centenário da
evangelização do Novo Mundo (29 de junho de 1990) 22: AAS
83 (1991), 37.
(35) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Vita consacrata (25 de março de 1996), 81, AAS 88 (1996),
458.
(36) João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Pastores dabo vobis (25 de março de 1992), 15: AAS 84
(1992), 680.
(37) Carta a Diogneto VI,1: FUNK F., Patres Apostolici, Tubingae
1901, vol. I, 401. Cf. Liturgia das Horas II, Ofício de leituras da
quarta-feira da V semana do tempo pascal.
(38) Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 4.
(39) Ibid., 23.
(40) Cf. Ibid., 24-27.
(41) João Paulo II, Exortação apostólica Familiaris
consortio, 22 de novembro de 1981, 21d: AAS 74 (1982), p. 105.
(42) João Paulo II, Carta do Papa às mulheres (29 de
junho de 1995) 2: L'Osservatore Romano, edição portuguesa,
15 de julho de 1995, p.6.
(43) Cf. Ibid., 11. Cf. Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé, Instrução sobre a questão da
admissão da mulher ao sacerdócio ministerial, Inter
insigniores (15 de outubro de 1976): AAS 69 (1977) 98-116; cf. João
Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodalChristifideles
laici (30 de dezembro de 1988) 51: AAS 91 (1989) 492-493.
(44) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 6-7.
(45) Ibid., 1.
(46) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
sobre a sagrada liturgia Sacrosan ctum Concilium, 10.
(47) Cf. João Paulo II, Exortação apostólica
sobre a catequese em nosso tempo Catechesi tradendae (16 de outubro de
1979), 35-45: AAS 71 (1979), 1307-1314.
(48) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, 39-40.
(49) Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal
Pastores bado vobis (25 de março de 1992), 74: AAS 84
(1992), 789.
(50) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et spes, 53.
(51) Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii
nuntiandi (8 de dezembro de 1975), 19: AAS 68 (1976), 18.
(52) João Paulo II, Carta encíclica Tertio millennio
adveniente (10 de novembro de 1994), 34: AAS 87 (1995), 26.
(53) Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição
pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 77-78.
(54) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução
sobre a liberdade cristã e a libertação Libertatis
conscientia (22 de março de 1986), 71-96: AAS 79 (1987),
585-597.
(55) Cf. Paulo VI, Carta encíclica Populorum progressio (26
de março de 1967), 20-21: AAS 59 (1967), 267-268.
(56) João Paulo II, Carta encíclica Sollicitudo rei
socialis (30 de dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988), 550.
(57) Cf. ibid.,29: AAS 80 (1988), 550 s.
(58) Cf. Sagrada Congregação para a Doutrina da Fè,
Instrução sobre alguns aspectos da "Teologia da libertação"
Libertatis nuntius (6 de agosto de 1984) V,8: AAS 76 (1984),
887. Cf. João Paulo II, Discurso inaugural da III Conferência
Geral do Episcopado latino- americano de Puebla (28 de janeiro de 1979)
I,2-9: AAS 71 (1979), 189-196.
(59) Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução
sobre a liberdade cristã e a libertação, Libertatis
conscientia (22 de março de 1986) 70: AAS 79 (1987), 585.
(60) Ibid. 64: AAS 79 (1987), 581.
(61) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Evangelium vitae
(25 de março de 1995), 4, L'Osservatore Romano, edição
portuguesa, 1º de abril de 1995, p. 3.
(62) João Paulo II, Carta encíclica Laborem exercens
(14 de setembro de 1981),3: AAS 73 (1981), 583s.
(63) Ibid., 14: AAS 73 (1981), 613s.
(64) Cf. João Paulo II, Carta encíclica Sollicitudo rei
socialis (30 de dezembro de 1987), 37: AAS 80 (1988), 563.
(65) Cf. Ibid. 38: AAS 80 (1988), 565.
(66) Cf. Ibid., 39: AAS 80 (1988), 566-568. Cf. Pontifíicia
Comissão "Iustitia et Pax", Ao serviço da comunidade
humana: uma consideração ética da dívida
internacional (17 de dezembro de 1986) Cidade do Vaticano, Tipografia
Poliglota Vaticana 1986, I - 2,5.
(67) João XXIII, Carta encíclica Mater et Magistra
(15 de maio de 1961), 238: AAS 53 (1961), 456.
(68) João Paulo II, Carta apostólica Mulieris dignitatem
(15 de agosto de 1988), 30: AAS 80 (1988), 1724-1727.
(69) Ibid., 30.
(70) Cf. Congregação para a Educação Católica,
Orientações para o estudo e o ensino da Doutrina Social da
Igreja na formação dos sacerdotes (30 de dezembro de 1988)
Cidade do Vaticano, Tipografia Poliglota Vaticana 1988, 71-77.
(71) Cf. Ibid. 13.
(72) Concílio Ecumênico Vaticano II, Decreto conciliar sobre o
ecumenismo Unitatis redintegratio, 12.
(73) Cf. Paulo VI, Discurso aos Padres conciliares por ocasião
do encerramento do terceiro período do Concílio Ecumênico
Vaticano II, 21 de novembro de 1964: AAS 56 (1964) 1015.
(74) Cf. João Paulo II, Carta apostólica Tertio millennio
adveniente (10 de novembro de 1994), 59: AAS 87 (1995), 41.
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