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SÍNODO  DOS BISPOS
X  ASSEMBLEA GERAL  ORDINÁRIA

 

O BISPO SERVIDOR DO 
EVANGELHO DE JESUS CRISTO 
PARA A ESPERAÇA DO MUNDO

 

Instrumentum laboris

© Copyright 2001
Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e Libreria Editrice Vaticana.

 

Este texto pode ser reproduzido pelas Conferências Episcopais ou com a sua autorização, desde que o seu conteúdo não seja modificado de modo algum e que duas cópias do mesmo sejam enviadas à Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, 00120 Cidade do Vaticano.

 

INTRODUÇÃO

 

 

No limiar de um novo milénio 

1.      Cristo Jesus, nossa esperança (1 Tm  1, 1), o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13, 8), pastor supremo (1 Pd  5, 4), guia a sua Igreja para a plenitude da verdade e da vida, até ao dia do seu retorno glorioso no qual se cumprirão todas as promessas e serão colmadas as esperança da humanidade.

         No início do terceiro milénio cristão, a humanidade e a Igreja encaminham-se para um futuro que traz consigo a herança de um século, já transcorrido, repleto de sombras e de luzes.

         Encontramo-nos num momento novo da história humana. Muitos se interrogam sobre as metas futuras da humanidade e se perguntam qual será o futuro do mundo, que, por um lado, parece imerso num dinamismo de progresso, com uma crescente interdependência na economia, na cultura e nas comunicações, e por outro, ainda cheio de conflitos locais, com amplas zonas onde fome, doenças e pobreza estão a crescer.

         O início de um novo milénio põe no centro da consciência mundial um futuro a construir e, com ele, o tema da esperança, condição existencial do homo viator  e do cristão, que tende para o cumprimento das promessas de Deus. Uma esperança entendida também como chama da fé e estímulo da caridade, rumo a um futuro de êxitos imprevisíveis.

 

2.      Neste novo início coloca-se a celebração da X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, prevista inicialmente para o Ano Jubilar e agora programada para o mês de Outubro de 2001.

         Com intuito profético João Paulo II quis indicar a essa Assembleia um tema de grande relevo: Episcopus minister Evangelii Iesu Christi propter spem mundi.

         Diversas e sugestivas são as razões que tornam este tema particularmente apropriado ao actual momento da vida da Igreja e da humanidade. Elas são, acima de tudo, de carácter teológico e eclesiológico, mas também de ordem antropológica e social. 

 

 

Na esteira das Assembleias sinodais precedentes 

3.      Antes de tudo, há razões de carácter teológico. A Igreja inteira celebrou com alegria o Grande Jubileu do ano 2000 para honrar a memória do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, há dois mil anos; não só para recordar com gratidão a sua vinda ao meio de nós, mas também para celebrar a sua presença viva na Igreja, nestes vinte séculos da sua história, a sua acção de único Salvador do mundo, centro do cosmo e da história.

         Na indissociável unidade entre Cristo e o seu Evangelho, o tema do Sínodo tem em vista ressaltar que é Ele, Jesus Cristo, Filho de Deus, enviado pelo Pai e ungido pelo Espírito Santo (cf. Jo 10,36), a esperança do mundo e do homem, de todos os homens e do homem todo.[1]

         De facto, Cristo é Palavra definitiva e dom total do Pai, o verdadeiro Evangelho de Deus, no qual se tornam realidade todas as promessas e no qual está o Amen de Deus (cf. 2 Cor 1,20), o cumprimento da esperança do mundo. O seu Evangelho é a noticia sempre nova e boa, força de vida que  continua a iluminar as estradas do mundo rumo ao futuro, como o fez durante vinte séculos. Com efeito, são inseparáveis a sua doutrina e a sua pessoa, a sua obra e o seu ensinamento, a sua mensagem e a sua Igreja, onde Ele continua a estar presente. A Igreja, no início do terceiro milénio, propõe ainda com alegria a sua mensagem de vida e de esperança a toda a humanidade.[2]

 

4.  Há depois razões de ordem eclesiológica. Algumas são de carácter permanente, outras de ordem conjuntural.

         O Senhor Jesus, no fim da sua permanência no meio de nós, enviou os apóstolos como suas testemunhas e mensageiros até aos confins da terra e até ao fim dos tempos. Também sobre esta palavra  se apoia a importante tarefa de propor ao mundo a sua pessoa e a sua doutrina como suprema esperança: «Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28,19-20). Nesta tarefa os Bispos, em comunhão com o Papa, são hoje chamados, juntamente com todos os membros da Igreja, a ser as testemunhas do Evangelho de Cristo no mundo, embora lhes pertença, como sucessores dos apóstolos, «o nobre objectivo de serem os primeiros a proclamar as “razões da esperança” (cf. 1 Pd 3,15): esperança esta que se fundamenta nas promessas de Deus, fundada sobre a fidelidade à sua palavra e tem como certeza inequivoca a ressurreição de Cristo, a sua vitória definitiva sobre o mal e o pecado».[3]

         A importância da celebração da X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, centrada de modo particular no ministério do Bispo como servidor do Evangelho para a esperança do mundo, emerge com clareza se se considera que as últimas Assembleias ordinárias trataram respectivamente da vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo (1987), da formação dos sacerdotes nas circunstâncias actuais (1990) e da vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo (1994). Fruto das assembleias sinodais foram as respectivas Exortações Apostólicas pós-sinodais de João Paulo II: Christifideles laici, Pastores dabo vobis e Vita consecrata.

         Portanto, parecia oportuno enfrentar o tema do ministério do Bispo sob o aspecto da proclamação do Evangelho e da esperança, como que vértice e síntese. De facto, as várias assembleia sinodais ordinárias deram um novo impulso de renovação às diversas vocações no Povo de Deus, para uma maior complementaridade, numa eclesiologia de comunhão e de missão, atenta à natureza hierárquica e carismática da Igreja. Agora o específico desenvolvimento do tema desta assembleia indica a necessidade de orientar para o futuro a missão do inteiro povo de Deus, em comunhão com os seus pastores.

 

5.      Acrescente-se, além disso, que na última década do século XX, no final do segundo milénio da era cristã, os Bispos dos diversos continentes foram convocados pelo Romano Pontífice em diversas Assembleias sinodais especiais, para tratar da Igreja na Europa (1991 e 1999), em África (1994), na América (1997), na Ásia (1998) e na Oceânia (1998). Fruto destes encontros são os respectivos documentos pós-sinodais publicados ou em vias de publicação.

         A próxima Assembleia ordinária, com o seu tema característico, poderá assim usufruir da experiência de um período particularmente intenso de comunhão sinodal, como jamais acontecera antes.

         Na realidade, todos os Sínodos dos últimos decénios interessaram ao ministério episcopal, não só porque se tratou de Sínodo de Bispos, mas porque de algum modo ajudaram a configurar o carácter ministerial episcopal nas últimas décadas em relação à Evangelização (1974), à Catequese (1977), à Família (1981), à Reconciliação e penitência  (1983), aos Fiéis leigos  (1987), aos Presbíteros  (1990), à Vida Consagrada (1994) e à actuação do Concílio Vaticano II, no Sínodo extraordinário de 1985.

 

6.      O aspecto doutrinal e pastoral específico do tema do Sínodo concentra-se, portanto, no anúncio do Evangelho de Cristo para a esperança do mundo. É nesta perspectiva que a temática da próxima Assembleia ordinária se torna de máxima importância também a nível antropológico e social. A Igreja, que quer compartilhar «as alegrias e esperanças, as tristeza e angústias dos homens de hoje»,[4] deverá interrogar-se sobre que veredas caminhará a humanidade do nosso tempo, na qual ela mesma está inserida como sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-14). E deverá perguntar-se como anunciar hoje a verdadeira esperança do mundo que é Cristo e o seu Evangelho.

         Estamos no início de um novo milénio da era cristã, marcado por particulares situações sociais e culturais, como que uma «aetas nova», uma época nova, às vezes definida como pós-modernismo ou pós-modernidade. É preciso que, com novo impulso, ressoe no mundo o anúncio da salvação, de tal maneira que suscite aquele dinamismo teologal que é próprio do Evangelho, a fim de que a humanidade inteira «ouvindo, acredite na mensagem da salvação, acreditando, espere, e esperando ame».[5]

         Com efeito, a esperança cristã está intimamente unida ao anúncio corajoso e integral do Evangelho, que sobressai entre as funções principais do ministério episcopal. Por isto, nos múltiplos deveres e tarefas do Bispo, «para lá de todas as preocupações e dificuldades que estão inevitavelmente ligadas ao trabalho fiel de todos os dias na vinha do Senhor, a esperança deve estar sempre em primeiro lugar».[6]

 

 

Continuidade e novidade 

7.      Nesta esteira de graça é que se colocam a preparação e a próxima celebração da X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.

         O texto dos Lineamenta,  publicado em 1998, suscitou interesses e consensos e ofereceu a ocasião de um aprofundamento das temáticas inerentes ao ministério do Bispo. Fruto das respostas das Conferências Episcopais e de outros organismos, bem como de muitos Bispos e de outros membros do Povo de Deus, é o presente «Instrumentum laboris», que quer propor e ilustrar o tema escolhido pelo Papa, incorporando questões e propostas, em continuidade com os Lineamenta,  de maneira a oferecer um plano para um ordenado desenvolvimento do debate sinodal.

         A rica experiência que os Bispos do mundo fizeram nas últimas assembleias ordinárias e especiais dos Sínodos e o precioso património de doutrina que delas brotou, estão portanto na base de uma preparação bastante profícua da próxima assembleia. Por esta razão, o Instrumentum laboris  não quer dilagar-se numa ampla descrição da situação mundial, e menos ainda chamar a atenção para questões de carácter particular ou regional, já examinadas nas precedentes Assembleias continentais.

 

8.      A maneira específica de tratar do ministério do Bispo como servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo, coloca-se no interior duma continuidade magisterial que remete aos Documentos do Vaticano II; de modo especial, sob o ponto de vista doutrinal, à Constituição dogmática Lumen gentium e ao Decreto conciliar Christus Dominus.

         Devido à sua integridade e ao seu aspecto concreto prático na ilustração da figura e do ministério do Bispo na sua Igreja particular, o Directório Pastoral da Congregação para os Bispos, Ecclesiae imago de 22 de Fevereiro de 1973, conserva uma validade essencial ainda hoje.[7] Do ponto de vista teológico-canónico, deve-se tomar como ponto de referência o Codex iuris canonici (CIC) de 1983 e o Codex canonum Ecclesiarum Orientalium  (CCEO) de 1990, para as devidas actualizações.

         Além disso, muitos são os documentos do Magistério pós-conciliar que de modo específico dizem respeito ao ministério pastoral dos Bispos, entre esses em especial as Alocuções dos Romanos Pontífices às diversas Conferências episcopais, por ocasião das «visitas ad limina» ou das viagens apostólicos dos últimos decénios.

         Entre outros documentos mais recentes que se referem a problemas específicos do ministério pastoral dos Bispos na Igreja universal e nas Igrejas particulares, é preciso recordar, do ponto de vista eclesiológico, a Carta da Congregação para a Doutrina de Fé Communionis notio, de 28 de Maio de 1992, sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão[8] e, finalmente, a Carta apostólica em forma de Motu proprio de João Paulo II Apostolos suos, de 21 de Maio de 1998, sobre a natureza teológica e jurídica das Conferências dos Bispos.[9]

 

9.      A referência ao Bispo no tema indicado pelo Santo Padre João Paulo II para a próxima Assembleia sinodal, merece também um esclarecimento. Trata-se do ministério episcopal, como foi ilustrado pela Constituição dogmática Lumen gentium e pelo Decreto conciliar Christus Dominus, em toda a sua rica gama de argumentos e tarefas pastorais. Com efeito, todos os Bispos têm em comum a graça da ordenação episcopal, são sucessores dos apóstolos e, em comunhão com o Romano Pontífice, fazem parte do Colégio episcopal.

         O Concílio Vaticano II, de facto, põe de novo em consideração a realidade do Colégio episcopal que sucede ao Colégio dos Apóstolos e é expressão privilegiada do serviço pastoral prestado pelos Bispos em comunhão entre si e com o Sucessor de Pedro. Enquanto membros deste Colégio todos os Bispos «são consagrados não só em benefício duma diocese mas para salvação de todo o mundo»[10]. Por instituição e vontade de Cristo eles «estão obrigados à solicitude sobre toda a Igreja, a qual, embora não se exerça por um acto de jurisdição, concorre, contudo, grandemente para o bem da Igreja universal».[11]

         De facto, todo o Bispo, legitimamente consagrado na Igreja católica, participa da plenitude do sacramento da Ordem. Como ministro do Senhor e sucessor dos apóstolos, com a graça do Paráclito, deve trabalhar para que toda a Igreja cresça como família do Pai, corpo de Cristo e templo do Espírito, na tríplice função que é chamado a desempenhar, ou seja, a de ensinar, de santificar e de governar.

         De modo particular, contudo, o Sínodo tem uma referência mais concreta ao Bispo diocesano na plenitude do seu ministério na Igreja particular. Ele é presença viva e actual de Cristo «pastor e bispo» das nossas almas (1Pd 2, 25); é seu vigário na Igreja particular que lhe foi confiada, não só da sua palavra mas também da sua própria pessoa.[12]

         Por outro lado, a importância do tema do Sínodo parece clara quando se considera como nos últimos decénios foi mudada a figura do Bispo; ele apresenta-se na experiência dos fiéis, mais próximo e presente no meio do seu povo, como pai, irmão e amigo; mais simples e acessível. Entretanto aumentaram as suas responsabilidades pastorais e ampliaram-se as tarefas ministeriais, numa Igreja sempre mais atenta às necessidades do mundo, a ponto que o Bispo parece hoje onerado de muitas tarefas ministeriais e muitas vezes torna-se sinal de contradição devido à defesa da verdade. Ele, pois, permanece aberto a uma constante renovação do seu ofício pastoral, numa sempre mais profunda dimensão de comunhão e de colaboração com os presbíteros, as pessoas consagradas e os leigos.

         A X Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos será, sem dúvida, a ocasião para verificar que, quanto mais firme for a unidade dos Bispos com o Papa, entre si e com o povo de Deus, tanto mais enriquecidas por ela se tornarão a comunhão e a missão da Igreja, e tanto mais por ela será fortalecido e confortado o seu próprio ministério.

 

 

Um renovado anúncio do Evangelho da esperança 

10.    Muitos são os motivos de esperança com que a Igreja olha para a celebração do próximo Sínodo. O tempo oportuno do Grande Jubileu do Ano 2000, preparado pelo caminho trinitário realizado nos anos precedentes, ofereceu ao inteiro povo de Deus a graça de viver um Ano santo na conversão, na reconciliação e na renovação espiritual.

         Em Roma e na Terra Santa, ao lado do sucessor de Pedro, nas Igrejas particulares à volta dos próprios pastores, os fiéis fizeram a jubilosa experiência de um ano de misericórdia e de santidade. Tanto é verdade que muitos se interrogaram como dar prosseguimento, no início do novo século e milénio, à graça e às experiências positivas do Grande Jubileu.

         A Igreja pôs-se de novo diante do mundo como sinal de esperança, de maneira especial pelo testemunho de muitas categorias do povo de Deus, como os jovens e as famílias; mas também pelos gestos fortes de carácter ecuménico, de purificação da memória e de pedido de perdão, pela corajosa evocação das testemunhas da fé do século XX.

         Fortes e significativas foram as solicitações de clemência para os encarcerados e de redução ou remissão total da dívida internacional que pesa sobre o destino de muitas nações.

         Também os Bispos tiveram a possibilidade de viver momentos de intensa comunhão e renovação espiritual no seu específico Jubileu, juntamente com o Papa e unidos à Virgem Maria, como no Cenáculo do Pentecostes.

         O Evangelho de Cristo demonstra-se, ainda hoje, força de vida, palavra que humaniza e une os povos numa só família e promove o bem de todos para além das diferenças de língua, raça ou religião.

11.    Sobre o fundamento da esperança cristã que não engana (cf. Rm 5, 5), a Igreja move os seus passos rumo ao futuro, com um impulso renovado para uma nova evangelização.

         O mundo que cruzou o limiar do novo milénio espera uma palavra de esperança, uma luz que o guie no futuro. Na história também temporal dos homens, o Evangelho foi, é e será um fermento de liberdade e de progresso, de fraternidade, de unidade e de paz.[13]

         O próximo Sínodo dos Bispos, espera oferecer à Igreja e ao mundo o anúncio corajoso e confiante do Evangelho de Cristo, que abre os corações à esperança terrena e eterna. Quer fazê-lo com o testemunho de unidade, de alegria e de solicitude pela humanidade do nosso tempo por parte dos sucessores dos apóstolos em comunhão com o Papa, aos quais o próprio Senhor assegurou a sua assistência até ao fim dos tempos (cf. Mt 28, 20).

 


CAPÍTULO I 

UM MINISTÉRIO DE ESPERANÇA

 

Um olhar sobre o mundo com os sentimentos de Bom Pastor 

12.  Com que atitude se põe hoje o Bispo para ser servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo?

         Antes de tudo com um olhar contemplativo, diante da realidade do nosso mundo, no aspecto concreto do próprio ministério e na comunhão com a Igreja universal e particular, para cujo cuidado ele está destinado. Depois, com um coração compassivo, capaz de entrar em comunhão com os homens e as mulheres do nosso tempo, para os quais deve ser testemunha e servidor da esperança.

         Um ícone evangélico torna viva a atitude que lhe é pedida. No início do seu ministério, Jesus apresenta-se como o arauto da Boa Nova do Pai e confirma-o indo ao encontro das necessidades do povo: «Contemplando a multidão, encheu-Se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36).

         Com a graça do Espírito Santo que alarga e aprofunda o seu olhar de fé, o Bispo revive os sentimentos de Cristo Bom Pastor diante dos anseios e exigências do mundo de hoje, anunciando uma palavra de verdade e de vida e promovendo uma acção que chegue ao próprio coração da humanidade. Só assim, unido a Cristo, fiel ao seu Evangelho, aberto com realismo para este mundo, amado por Deus, ele se torna profeta da esperança.

         Torna-o para os homens e as mulheres do nosso tempo, os quais depois da derrocada das ideologias e  utopias, esquecidos com frequência do passado e bastante ansiosos quanto ao presente, têm ao contrário projectos efémeros e limitados e muitas vezes são manipulados por forças económicas e políticas. Por isso têm necessidade de redescobrir a virtude da esperança, possuir válidas razões para crer e esperar, e portanto também para amar e trabalhar para além do imediato quotidiano. Com um sereno olhar sobre o passado e uma perspectiva de futuro.

         A Igreja, e nela o Bispo, como pastor do rebanho, na continuidade das atitudes de Jesus, propõe-se como testemunha da esperança que não engana (cf. Rm 5, 5), recordando-se da força propulsora que  a orienta para o cumprimento das promessas de Deus: com efeito, «o amor de Deus foi derramado em nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi concedido» (ibid.).

         À Igreja e aos seus pastores foi confiado o Evangelho da esperança. Esta apoia-se na certeza das promessas de Deus, é a esperança viva para a qual o Pai nos regenerou com a ressurreição de Cristo (cf. 1 Pd 1,3), vitória sobre a morte e sobre o pecado. E como consequência apoia-se na certeza da perene presença de Cristo, Senhor da história, Pai do século futuro (cf. Is 9,6).

         É preciso, pois, abrir e viver sob o sinal da confiança teologal o terceiro milénio do cristianismo, com a proclamação do Evangelho das promessas de Deus.

         Nas Escrituras sagradas e na tradição da Igreja encontramos a semente escondida dos desígnios de Deus, que deve germinar no futuro dos homens e dos povos, confiada à acção do Espírito Santo, sábio tecedor da trama da história com a nossa colaboração. 

 

No sinal da esperança teologal 

13.  A esperança teologal, que tem confiança total nas promessas de Deus, reveste hoje também um papel importante, no início de um século e de um milénio. A expectativa e a preparação dos últimos decénios para alcançar uma meta tão importante da história humana, como o ano 2000, marcado pelo memorial bimilenário do nascimento de Jesus, já se dilatam também do ponto de vista simbólico rumo ao futuro. Já não em direcção de uma meta alcançada, mas como que para um horizonte distante, com a tarefa de construir o futuro de maneira paciente.

         A esperança apresenta-se como força motriz do novo, capacidade de sonhar o futuro e de marcar traços duradouros no tempo com a novidade das obras, de construir a história com a força do Evangelho, ou, pelo menos, de dar sentido à história, antes ainda que sejam as forças do mundo a estabelecer o sentido do futuro ou a programar os espaços de tempo.

         E isto na fidelidade à tarefa característica dos cristãos, que é a de serem como a alma do mundo. «Os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo» afirma a carta a Diogneto.[14] A Igreja de Jesus é chamada a ser inspiradora e promotora de história, à escuta das expectativas mais profundas e das esperanças mais autênticas dos homens e das mulheres deste mundo.

         A esperança de que o Bispo deve ser testemunha, para ser servidor do Evangelho de Cristo, é a virtude teologal ou teológica da esperança, na unidade da fé que crê e do amor que actua.

         O Directório pastoral Ecclesiae imago tinha evidenciado a respeito disso algumas características do ministério do Bispo, numa síntese que vale a pena recordar a propósito da esperança em Deus, que é fiel às suas promessas: «O Evangelho, do qual por fé o Bispo vive e que anuncia aos homens sobre a palavra de Cristo, é “fundamento das realidades que se esperam e prova daquelas que não se vêem” (Hb 11, 1). Apoiando-se, portanto, nessa esperança, o Bispo com firme certeza espera de Deus todo o bem, e repõe na divina Providência a máxima confiança. Repete com Paulo: “Tudo posso n’Aquele que me dá força” (Fl  4,13), recordando-se dos santos apóstolos e dos antigos Bispos que, embora experimentassem grandes dificuldades e obstáculos de todo o tipo, contudo pregavam o Evangelho de Deus com toda a franqueza (cf. Act 4, 29.31; 19, 8; 28, 31). A esperança, que “não engana” (Rm 5, 5), estimula no Bispo o espírito missionário e, como consequência, o espírito de criatividade, isto é, de iniciativa. Com efeito, ele sabe que foi enviado por Deus, Senhor da história (cf. 1 Tm 1, 17), para edificar a Igreja no lugar, tempo e momento que “o Pai reservou ao seu próprio poder” (Act 1, 7). Daqui também aquele sadio optimismo que o Bispo vive pessoalmente e, por assim dizer, irradia nos outros, especialmente nos seus colaboradores».[15]

 

14.    Sustentado por esta esperança teologal, o Bispo prepara-se para programar, intuir e como que sonhar o futuro, relendo a Palavra de Deus, sob a graça do Espírito Santo e na comunhão eclesial.

         A Palavra de Deus, fecundada pelo Espírito no coração do Bispo unido aos seus sacerdotes e fiéis, será sempre fonte perene de inspiração e de recursos para enfrentar os desafios do futuro. Segundo uma feliz expressão de Paulo VI: «A Igreja precisa do seu perene Pentecostes, tem necessidade de fogo no coração, de palavras nos lábios, de profecia no olhar».[16]

         O Papa, o Colégio Episcopal, os Bispos das Conferências Episcopais nacionais ou regionais, todo o povo santo de Deus têm em comum também a vocação à mesma esperança (cf. Ef  4,4).

         Esta comunhão na esperança assegura a presença de Cristo e a inspiração do Espírito, ao qual foi confiado levar à plena compreensão e actuação o Evangelho de Jesus na história humana.[17]

         A comunhão na esperança deve ser aprofundada e compartilhada como fonte de inspiração, fecundada pela oração do Bispo, pelo diálogo da caridade com todo o povo de Deus, de modo especial, com os seus mais íntimos colaboradores, para chegar a reflexões e programações concretas e compartilhadas.

         A esperança dos cristãos é o motor do futuro. É a virtude que não só deixa vestígios na vida da humanidade, mas abre também novos sulcos na história, para depor a semente das promessas divinas e guiar as veredas do futuro com a força de Deus. A Igreja será efectivamente sinal de esperança se souber estar atenta ao desígnio de Deus, que garante um futuro de plenitude, se seguir de maneira fiel a sua vontade e souber discernir as expectativas mais válidas da humanidade, das quais deve ser intérprete e orientadora. 

 

Entre o passado e o futuro 

15.    A Igreja cruza o limiar da esperança no início do terceiro milénio com uma particular atenção à humanidade de hoje, compartilhando as suas alegrias e esperanças, as suas tristezas e angústias, mas sabendo que possui a palavra da salvação.[18] Contudo, é preciso reflectir sobre o mundo  para o qual são enviados os Bispos a anunciar o Evangelho.

         A esperança teologal, que cresce e se desenvolve como confiança nas promessas de Deus, às vezes é purificada na expectativa; mas torna-se tanto mais autêntica quanto mais for provada; enraíza-se nos sinais positivos que germinam, entre o já e o não ainda do Reino, presente neste mundo, mas orientado para o seu cumprimento final na glória.

         Ela é memória fundamental, isto é, fixa na revelação, que manifesta não só a história da salvação, mas também o projecto e o desígnio de Deus para o futuro. Não por acaso o último livro da Escritura sagrada tem o título de Apocalipse, revelação. A esperança suscita nos corações um dinamismo activo, capaz de se reacender continuamente na quotidianidade.

         Trata-se daquela «perseverança» fiel, de que falam os Actos dos Apóstolos (cf. Act 1,14; 2,42) como atitude própria dos discípulos de Jesus, imersos todos os dias na vida de fé. É a firme confiança posta em Deus, Pai do Senhor Jesus Cristo, o qual, com a ressurreição do seu Filho, projecta o hoje quotidiano rumo ao seguro cumprimento das promessas.

 

16.    Muitas vezes, de maneira especial no último decénio, foi traçado pelo Magistério o panorama da realidade do mundo de hoje.

         Também no Sínodo dos Bispos esta análise foi realizada durante as assembleias especiais continentais para a Europa, a África, a Ásia e a Oceânia, assim como nas respectivas Exortações apostólicas pós-sinodais até agora publicadas.[19]

         Portanto, não é o momento de refazer esta análise que, embora tendo traços comuns, pela crescente globalização dos aspectos gerais, contudo precisa de uma atenta visão local dos problemas e das soluções.

         No texto dos Lineamenta foi de igual modo ilustrada a situação geral, que em parte é confirmada e enriquecida pelas respostas das Conferências Episcopais. 

 

 

Entre luzes e sombras no panorama mundial 

17.    O panorama que oferece o nosso mundo é muito variado. Contudo, a Igreja com o olhar vigilante e o coração compassivo do Bom Pastor (cf. Mt  9,36) não pode deixar de advertir com realismo, para além das análises políticas, sociológicas ou económicas, os sinais de desconfiança ou até mesmo de desespero que estão no mundo, para oferecer a medicina da consolação e o conforto da confiança e da libertação em Cristo. Não é uma consolação transitória e débil, que se revela efémera, mas a das certezas da fé, redescobertas por corações capazes de amar e de servir, fundadas na visão unitária e real dos aspectos da vida pessoal e social, sem reduções pessimistas ou optimistas. Tudo isto pode ser oferecido pelo Evangelho da esperança.

         Permanecem ainda hoje situações problemáticas que empenham e estimulam o ministério da Igreja que oferece uma esperança para uma contínua renovação do mundo e da sociedade, também na concretitude do ministério do Bispo na sua Igreja particular.

 

18.    Em muitas partes do nosso mundo a situação de pobreza, a falta de liberdade, o não pleno exercício dos direitos humanos, os conflitos étnicos, o subdesenvolvimento que faz crescer a pobreza das grandes massas populares, criam situações de sofrimento e de falta de esperança no futuro.

         Os mass media oferecem-nos constantemente os rostos do desespero: rostos de crianças privadas do necessário nutrimento e muitas vezes exploradas de maneira indigna; rostos de meninos aos quais se nega a educação e são constrangidos ao trabalho juvenil; rostos de jovens desempregados, voltados para o desespero e a indiferença, fácil presa da manipulação ideológica ou do encaminhamento para a degradação moral e espiritual; rostos de mulheres privadas da sua dignidade; rostos de anciãos necessitados de assistência; massas de pobres que na emigração procuram uma esperança do futuro e de refugiados em busca de uma pátria; rostos de indígenas privados das suas terras.

         Ainda não foram superados os conflitos que, no final do precedente século e milénio, provocaram morte e destruição, emigração, pobreza, conflitos étnicos e ódios tribais, deixando morte e feridas profundas no corpo e no espírito.

         Ainda não foram cicatrizadas as lacerações de alguns recentes conflitos locais que dividiram profundamente culturas e nacionalidades, chamadas a integrar-se num diálogo de paz. De vez em quando surgem fundamentalismos religiosos, inimigos do diálogo e da paz.       

         Também nas nações mais progredidas se encontram muitas vezes grandes áreas de depressão económica e moral; nota-se um progresso da corrupção e da ilegalidade, também no campo político.

 

19.    Já se sentem os efeitos da globalização com a lógica impiedosa de programas económicos inspirados num liberalismo desenfreado, que torna os ricos sempre mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, excluídos como são dos programas de desenvolvimento, a ponto de alguns já falarem de uma nova desordem mundial. Preocupa, com razão, o futuro se são deixadas fora da justa participação no bem comum inteiras populações que pertencem à mesma família de Deus e têm em comum os mesmos direitos. Muitas vezes as comunidades indígenas são espoliadas das riquezas das matérias-primas e dos recursos naturais dos próprios países, numa desleal exploração do território e das populações.

         Até mesmo a terra, não obstante uma sensibilidade sempre mais positiva para com a ecologia, sofre, talvez como nunca antes acontecera na história da humanidade,  de mudanças climáticas do ecossistema  que suscitam interrogativos sobre o futuro do nosso planeta. Preocupa a degradação do ambiente; a Igreja faz-se porta-voz das mais autênticas aspirações em favor de um equilíbrio ecológico, que não ponha em perigo a nossa terra e a inteira criação, saídas das mãos plasmadoras do Criador, oferecidas à humanidade como habitáculo de beleza e de equilíbrio, dom e recurso fundamental da existência humana. 

 

Entre o retorno ao sagrado e a indiferença 

20.    Embora não faltem sinais de despertar religioso, de novo interesse pelas realidades espirituais e de um certo retorno ao sagrado, os pastores vêem com preocupação aquela que foi definida uma silenciosa e tranquila apostasia das massas da práxis eclesial. Avança uma cultura imanentista não aberta ao sobrenatural; também entre os cristãos há uma crescente indiferença a respeito do futuro escatológico e sobrenatural da vida, que torna a existência no mundo verdadeiramente digna de ser vivida.

         Isto traduz-se num individualismo privado de comunhão eclesial e de prática sacramental. Por esta razão, cai-se às vezes no extremo da procura de compensação espiritualista nos movimentos religiosos alternativos e nas seitas, na adopção de formas de religiosidade, que são em parte imitação das práticas ascéticas mais nobres de algumas religiões não cristãs. Muitos hoje se contentam de uma ambígua religiosidade sem uma referência pessoal ao Deus verdadeiro de Jesus Cristo e à comunidade eclesial.

         Para muitos pastores é motivo de preocupação e de sofrida visão do futuro a escassez de vocações sacerdotais e religiosas, mesmo só em vista de uma pastoral ordinária de evangelização, de uma adequada vida sacramental e eucarística, com o relativo cuidado da vitalidade da fé e da prática cristã. 

 

Um novo horizonte de problemas éticos 

21.    São causa de preocupação o crescimento do relativismo moral, uma certa cultura que não faz prevalecer a vida e não a respeita, uma dessacralização do início e do fim da existência humana, tão ligados ao mistério do Deus da vida.

         São sinal de esperança no Deus Criador a transmissão da vida física, a educação dos filhos, o empenho na promoção dos valores da existência humana na sua plenitude de sentido e de destino.

         Nunca como neste momento da história a dissimulada equação que, aquilo que é cientificamente possível é de igual modo eticamente justo, nos levou a uma verdadeira e própria manipulação biológica. Dela derivam consequências para o homem que é imagem e semelhança de Deus em Cristo, nossa Vida (cf. Jo 1,4; 14,16). Daqui provêm os problemas que se manifestaram nos últimos anos, que se estendem como uma sombra em direcção do futuro.

         A apaixonada defesa que o Magistério da Igreja tem feito da dignidade de toda a vida humana, desde o seu surgir até ao seu declínio, está a influir também na opinião pública e, de igual modo, está a dar alguns frutos no sector da ética mundial. Estão em jogo o futuro da humanidade e a dignidade da pessoa humana com os seus direitos intangíveis e inalienáveis.

 

22.    A crise da família  e da sua estabilidade, assim como as dissimuladas insídias contra o instituto familiar, apresentam-se hoje como graves ameaças para a vida e a educação dos filhos.

         Constante é no nosso tempo a acção doutrinal na Igreja a favor da vida e no campo da vida matrimonial e familiar. São pontos de referência desta constante acção alguns documentos de ampla dimensão do Magistério Pontifício e de outros Dicastérios da Santa Sé, [20] assim como as Jornadas internacionais da Família, que servem de ajuda em vista de uma adequada espiritualidade matrimonial e familiar. 

 

Situações eclesiais emergentes 

23.    Uma nova situação eclesial surge nos territórios que durante longo tempo permanecerem sob regimes totalitários. Aquelas Igrejas vivem numa reencontrada liberdade de culto e numa nova presença apostólica; experimentam o florescimento das vocações e um incipiente impulso missionário fora dos confins das próprias Igrejas particulares. Nelas a fadiga e a alegria de um novo início, o frequente testemunho de uma alegre vitalidade e de um fervor da fé desconhecido noutros países fazem esperar num futuro frutuoso.

         Permanecem, porém, problemas estruturais e de organização, como a dificuldade de um diálogo fraterno e de uma concreta comunhão e colaboração ecuménica com as outras Igrejas, especialmente as ortodoxas.

         Contudo, a Igreja não renuncia à sua tarefa de corajoso anúncio do Evangelho nestes países envolvidos pelo vazio, deixado pela cultura dos regimes totalitários. Antes, deve promover a educação para a liberdade e uma reencontrada comunhão entre todos os cristãos. Uma necessária educação da fé pode influir na superação de uma certa práxis devocional sem fundamentos sólidos e no impulso de uma renovada evangelização; torna-se necessária a promoção de uma fé adulta, de uma vida moral convicta, de modo especial diante do assédio das seitas e do perigo de cair, como alguns lamentam, na busca de um excessivo consumismo.

 

24.    O futuro da Igreja do terceiro milénio foi-se aos poucos configurando como uma decentralização da presença dos católicos para os países de África e da Ásia, onde, como também na América Latina, florescem jovens Igrejas, repletas de fervor e de vitalidade, ricas de vocações sacerdotais e religiosas que, com frequência, vão em ajuda à escassez de forças vivas que se regista no Ocidente.

         Não se podem esquecer os imensos e populosos territórios do continente asiático onde ainda muitos fiéis não podem exprimir plena e publicamente a sua fé católica na comunhão com a Igreja universal e o seu Pastor supremo. A Igreja olha também para estes países com uma grande esperança e tem confiança na acção silenciosa do Espírito Santo, a fim de que os fiéis possam finalmente exprimir a plenitude da comunhão eclesial visível e da ajuda recíproca, para fazer com que todos conheçam Cristo Salvador. 

 

Sinais de vitalidade e de esperança 

25.    Entre os sinais positivos que no final do século e do milénio foram percebidos também nas recentes assembleias sinodais, encontramos o anseio da paz, o desejo de uma participação solidária das nações na soluções de eventuais conflitos locais, a crescente consciência dos direitos humanos, a igual dignidade de todas as nações, a busca de uma maior unidade no planeta, com uma solidariedade efectiva a nível mundial entre países pobres e países ricos. É semente de esperança a dedicação crescente de muitos ao serviço dos pobres e dos países mais necessitados, através do voluntariado. Cresce a estima do génio feminino e percebe-se uma maior responsabilidade das mulheres na sociedade e na Igreja.

         Não faltam os temores pelos excessos da globalização; há, porém, salutares reacções como as formas de solidariedade, a maior sensibilidade na salvaguarda dos valores culturais dos povos e das nações, a consciência de fazer prevalecer os valores éticos e religiosos sobre os económicos e políticos. Existe no nosso mundo uma acentuada procura da verdadeira liberdade, um crescente sentido de comunhão contra os individualismos.

         O anúncio da publicação do Compêndio da Doutrina social da Igreja faz bem esperar em vista do empenho no campo social e económico, em benefício de todos os povos.

         Na alternância das sombras e das luzes, verificam-se às vezes, também a nível mundial, movimentos de opinião a favor de alguns aspectos que parecem ameaçados. Contra a manipulação genética e o desprezo pela vida nascente, está a surgir uma maior atenção pela vida humano e o seu valor transcendente, que a liga ao Deus da vida. Procura-se fortemente uma convergência sobre os valores éticos a nível internacional, enquanto do perigo de um desequilíbrio ecológico nasce um sentido mais acentuado do valor da criação.

 

 

Rumo a um novo humanismo 

26.    A massificação e a globalização suscitam, como justa reacção, um desejo intenso de personalismo e de interioridade. Hoje, é em grande medida valorizado o equilíbrio entre a unidade e o pluralismo: unidade que pertence ao desígnio de Deus que criou a única natureza humana, fundamento da unidade da família dos povos, da sua origem e do seu destino; pluralismo de nações, línguas, culturas que reflecte a riqueza da multiforme sabedoria de Deus (cf. Ef 3,10). Neste contexto, assistimos também ao despertar das culturas como contraponto a uma mundialização que oprime e empobrece. Ao contrário, a identidade cultural provoca, também no intercâmbio dos bens, um enriquecimento recíproco.

         Nas problemáticas situações de desespero de muitos, como são a solidão, o egoísmo, os pequenos projectos humanos sem transcendência, muitas vezes inclinados para o egocentrismo das pessoas e dos grupos, a esperança traça amplas veredas de comunhão, de colaboração, de acções comuns, de voluntariado generoso e gratuito. Tais valores se integram no grande desígnio de Deus através da vida pessoal, eclesial, familiar, na qual cada um responde com a consciência de uma vocação.

         Existe também hoje uma busca do sentido e da qualidade da vida a todos os níveis, também espiritual. Manifesta-se uma maior sensibilidade ao personalismo e ao sentido comunitário das relações interpessoais, tendo como base uma verdadeira comunhão entre as pessoas.

         O mundo actual e a Igreja sentem a urgência da unidade, ainda que muitas vezes seja ameaçada a plena e autêntica «cultura» da unidade e da comunhão. 

 

 

Os frutos do Jubileu 

27.    A nível eclesial continua, de modo especial depois do Grande Jubileu do Ano 2000, a renovação da vida cristã, da participação solidária de todos na nova evangelização.

         A preparação do Jubileu da Encarnação, segundo o programa pastoral e espiritual traçado na Tertio millennio adveniente  de João Paulo II, foi vivida a nível universal com válidas iniciativas de catequese e de vida sacramental. Os três anos dedicados à contemplação do mistério do Filho, do Espírito Santo e do Pai, com precisos empenhos de carácter sacramental (redescoberta do baptismo, da confirmação e da penitência), de vida teologal (a fé, a esperança, o amor) e ético-sociais, estão a dar os seus frutos.

         O Jubileu do Ano 2000, vivido no espírito da instituição bíblica do quinquagésimo ano (cf. Lv 25) com a sua plena realização em Jesus de Nazaré (cf. Lc  4,16 ss.), foi deveras um ano de progresso espiritual. A graça da conversão multiplicou-se, alimentando a esperança de uma continuidade, e também de um novo início, que coincide com o início do terceiro milénio.

 

28.    Alguns momentos do Jubileu foram um sinal especial para a Igreja e para o mundo. A Jornada mundial da juventude ofereceu um testemunho de fé, de piedade e de vigor eclesial com a jubilosa presença e participação de tantos jovens, provenientes de todo o mundo e reunidos em Roma à volta do Papa. A sua presença eclesial é um desafio, a pastoral juvenil apresenta-se como uma das fronteiras dos próximos decénios. Sente-se nos jovens cristãos a exigência de uma clara e decidida vida evangélica.

 

 

Sob a guia do Espírito 

29.    Como foi notado nas diversas assembleias sinodais continentais, e emergiu especialmente por ocasião do Pentecostes de 1998, a Igreja sente com muita intensidade que o Espírito Santo, assim como fez noutras épocas da história, semeou novas energias espirituais e apostólicas, autênticos carismas de vida evangélica e de impulso missionário, adaptados às necessidades do mundo de hoje, de maneira especial nos movimentos eclesiais e nas novas comunidades. Esta semeadura faz pressentir uma messe abundante favorecida pelas vocações sacerdotais, religiosas e laicais de muitos jovens, desejosos de consagrar a própria vida ao serviço do Evangelho.

         Respondendo aos critérios de eclesialidade traçados pelo Magistério [21] e ao seu próprio carisma, estas novas realidades são já, juntamente com as existentes, o presente e o futuro da Igreja no mundo.[22]

 

Rumo a veredas convergentes de unidade 

30.    O século e o milénio que se abrem, encontram certamente os fiéis e os pastores das diversas Igrejas e comunidades cristãs mais unidos, através dos inegáveis progressos do diálogo ecuménico, fruto precioso do Espírito no século já transcorrido. Um diálogo que teve as suas variáveis vicissitudes nos últimos decénios. Uma retomada dos contactos ecuménicos nos últimos anos encoraja este irreversível empenho da Igreja e das outras Igrejas e Comunidades cristãs.

         Alguns eventos jubilares, como a abertura da Porta santa da Basílica de São Paulo, a comemoração ecuménica das testemunhas da fé do século XX, a viagem do Papa à Terra Santa, juntamente com outras iniciativas recentes, são o sinal de uma renovada vontade, por parte dos cristãos, de caminharem juntos pelas vias do Senhor.

         Também o diálogo inter-religioso está aberto a novos desenvolvimentos na busca da paz e no reconhecimento dos valores religiosos e transcendentes. É preciso citar em primeiro lugar as relações com representantes do povo de Deus da primeira aliança. Esses encontros abrem veredas de esperança, no início de um milénio que muitos vêm como a época do grande diálogo entre as religiões mundiais, guardiães dos valores do espírito.

         O diálogo, entendido como encontro entre pessoas e grupos, no respeito das diversas identidades e na rejeição do irenismo e do sincretismo, não é só o novo nome da caridade, como teve ocasião de dizer Paulo VI,[23] mas é hoje também o novo nome da esperança, num renovado cenário mundial.

 

 

Um forte pedido de espiritualidade 

31.    É um sinal de esperança o pedido de espiritualidade que é exigência do tempo presente e assume diversos aspectos.

         Antes de mais, como forte chamada à experiência primigénia cristã que é o encontro com Alguém que está vivo. Isto significa a necessária passagem da proclamação da fé para a fé vivida. Pede também uma liturgia viva no encontro com a bondade de Deus misericordioso, que nos oferece redenção e salvação, como Aquele que é «médico da carne e do espírito».[24]

         Em ãmbito moral, sente-se a necessidade de «vivificar» com o sopro do Espírito a experiência cristã nas suas exigências éticas. Com efeito, a moral cristã «expande toda a sua força missionária, quando se realiza com o dom não só da palavra anunciada, mas também da palavra vivida. É particularmente a vida de santidade, resplandecente em tantos membros do povo de Deus, humildes e, com frequência, despercebidos aos olhos dos homens, que constitui o caminho mais simples e fascinante, onde é permitido perceber imediatamente a beleza da verdade, a força libertadora do amor de Deus, o valor da fidelidade incondicional a todas as exigências da lei do Senhor, mesmo nas circunstâncias mais difíceis».[25]

         Observa-se como consequência a urgente necessidade de uma pastoral mais espiritual que responda às exigências da nova evangelização; apresenta-se a necessidade de qualificar a pastoral de modo que tenda a suscitar o encontro pessoal e místico com Cristo, à imitação dos apóstolos, antes e depois da ressurreição, e dos primeiros cristãos.

 

 

Bispos testemunhas de esperança 

32.    Esta visão da situação da Igreja no mundo, com as suas luzes e sombras, no período inicial do terceiro milénio da era cristã, é o testemunho que todo o Bispo deve dar ao Evangelho de Cristo para a esperança do mundo, no vasto horizonte tanto da Igreja universal como nas diversas Igrejas particulares.

         Disto resulta a concreta responsabilidade espiritual e pastoral do Bispo na Igreja particular, numa sociedade que vive na aldeia global das comunicações, participante da vida do inteiro planeta.

         Nem se pode esquecer o empenho que essa situação comporta para uma ordenada visão da Igreja que vive no mundo, pedindo aos Bispos a necessária palavra e acção em vista do bem comum.

 

 

Fiéis às expectativas e às promessas de Deus como a Virgem Maria 

33.    A esperança da Igreja vem de Cristo, o Ressuscitado, que já possui a vitória e é a antecipação escatológica das promessas de Deus na glória futura.

         Diante das provações quotidianas, no tecido de uma existência que se torna expectativa de algo de novo que deve vir de Deus, o Bispo é para a sua Igreja como Abraão, que «teve fé esperando contra toda a esperança», plenamente convicto da fidelidade de Deus no cumprimento daquilo que havia prometido (cf. Rm 4,18-22). Ele confia com certeza na palavra e no desígnio de Deus, como Maria, mulher da esperança, que aguardou o cumprimento das promessas de Deus fiel, em Nazaré, em Belém, no Calvário e no Cenáculo.

         A história da Igreja é uma história de fé e de caridade, mas também uma história de esperança e de coragem. O Bispo que sabe ser vigilante profeta de esperança, como uma sentinela de Deus na noite (cf. Is 21,1), pode dar confiança ao seu rebanho, traçando no mundo veredas de novidade.

         Todo o Bispo, ao repor em Deus a sua fé e a sua esperança (cf. 1 Pd 1, 21), deve poder fazer próprias as palavras de S. Agostinho: «Quem quer que sejamos, não seja posta em nós a vossa esperança. Como Bispo, inclino-me para dizer isto: quero alegrar-me de vós, não ser exaltado. De modo algum me congratulo com qualquer um que seja, ao descobrir que em mim depositou a esperança: ele deve ser corrigido, não tranquilizado; deve mudar e não ser encorajado... a vossa esperança não seja colocada em nós, nem nos homens. Se somos bons, somos ministros; se somos maus, somos ministros. Mas se formos ministros bons, fiéis, somos realmente ministros».[26]

 

34.    Neste amplo horizonte é que se coloca o ministério da Igreja para o próximo milénio, de modo especial a missão do Bispo como testemunha e promotor de esperança cristã.

         Para todo o pastor da Igreja, trata-se de levar de modo corajoso e arrojado a presença de Deus ao quotidiano transcorrer da vida. O inteiro serviço episcopal é ministério para «o renascimento de uma esperança viva» (1 Pd 1, 3) do povo de Deus e de todo o homem. É, por isso, necessário que o Bispo oriente toda a tarefa de evangelização ao serviço da esperança, sobretudo dos jovens, ameaçados por ilusões míticas e pelo pessimismo de sonhos que desaparecem, e de quantos, angustiados pelas múltiplas formas de pobreza, olham a Igreja como sua única defesa, graças à sua esperança sobrenatural.

         Fiel à esperança, cada Bispo deve conservá-la firme em si mesmo, porque é o dom pascal do Senhor ressuscitado. Ela está fundada no facto de que o Evangelho, a cujo serviço o Bispo é essencialmente posto, é um bem total, o ponto crucial no qual se centra o ministério episcopal. Sem a esperança toda a sua acção pastoral permaneceria estéril. O segredo da sua missão está, pelo contrário, na inflexibilidade da sua esperança teologal e escatológica. A respeito dela, S. Paulo afirma: «tivestes conhecimento pela palavra da verdade, o Evangelho, que chegou até vós» (Cl 1, 6).

         A esperança cristã tem o seu princípio em Cristo e alimenta-se de Cristo, é participação no mistério da sua Páscoa e penhor de um destino análogo ao de Cristo, uma vez que o Pai com Ele  «nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus» (Ef 2,6).

         O  Bispo é sinal e ministro desta esperança. Cada Bispo pode acolher para si estas palavras de João Paulo II: «Sem a esperança nós seríamos, não só homens infelizes e dignos de compaixão, mas também toda a nossa acção pastoral se tornaria infrutífera; não ousaríamos empreender mais nada. Na inflexibilidade da nossa esperança reside o segredo da nossa missão. Ela é mais forte que as desilusões frequentes e as dúvidas penosas, porque vai buscar a sua força a uma fonte que, nem a nossa distracção, nem a nossa negligência podem levar ao esgotamento. A fonte da nossa esperança é o próprio Deus, que por meio de Cristo venceu o mundo de uma vez por todas e continua hoje, por nosso intermédio, a missão salvífica entre os homens».[27] 


CAPÍTULO II 

MISTÉRIO, MINISTÉRIO E CAMINHO ESPIRITUAL DO BISPO

 

O ícone de Cristo Bom Pastor 

35.    Muitos são os textos da Escritura que reflectem a figura espiritual do Bispo, à luz de Cristo, sumo sacerdote e pastor das nossas almas. Eles são tirados do Antigo e do Novo Testamento, e estão centrados na imagem do sumo sacerdote ou do pastor.

         Todos os textos se referem ao arquétipo que é Cristo. Ele apresentou-se nas parábolas evangélicas como o pastor em busca da ovelha tresmalhada (cf. Lc 15, 4-7), definiu-se a Si mesmo «bom» pastor do rebanho (cf. Jo 10, 11.14.16; Mt 26, 31; Mc 14, 27); foi reconhecido pela comunidade apostólica com este título: «pastor e bispo das... almas (1 Pd 2, 25), «príncipe dos pastores» (1 Pd 5, 4), «grande pastor das ovelhas» (Hb 13, 20), ressuscitado pelo Pai. Na visão do Apocalipse, o Senhor ressuscitado é o Cordeiro-Pastor (cf. Ap 7, 17) que congrega em si a realidade da oferta sacrifical pascal e da salvação, as figuras do sacerdote e pastor do Antigo e do Novo Testamento.

         A primitiva iconografia cristã gostou de representar Cristo como pastor bom e belo, vivo no esplendor da sua ressurreição, cantado pela liturgia como o bom pastor ressuscitado, que deu a vida pelas suas ovelhas.[28]

         Jesus Cristo, portanto, é o pastor, que reúne em si a verdade, a bondade e a beleza do dom de si pelo rebanho. A beleza do bom pastor está no amor com que se entrega a si mesmo por cada uma das suas ovelhas e estabelece com elas uma relação directa de conhecimento e de amor.

         Lugar do encontro com o Bom Pastor é a Igreja, onde Ele se torna presente, apascenta o seu rebanho com a palavra e os sacramentos, o guia para as pastagens do rebanho. A beleza do pastor irradia-se na beleza de uma Igreja que ama e serve. Ela é motivo de esperança para toda a humanidade, impelida também pelo instinto divino, que traz no coração, para a beleza que salva, expressa no rosto do Cordeiro-Pastor.

 

36.    Só Cristo é o Bom pastor. D’Ele, como de uma fonte, se irradia na Igreja o ministério pastoral, que Jesus confiou a Pedro (cf. Jo 21,15.17); uma graça que foi percebida como a continuidade do ministério apostólico de guiar e de velar: «Apascentai o rebanho que Deus vos confiou, velando por ele, não constrangidos, mas de boa vontade» (1 Pd 5,2).

         A figura do Bispo como pastor, portanto, é familiar à tradição cristã nas palavras, nos gestos, nas insígnias episcopais, sempre contudo na contemplação do único pastor e na imitação dos seus sentimentos, em virtude da graça d’Ele recebida.

         «O bom pastor Jesus confiou-lhe (ao Bispo), mediante o sacramento do episcopado, os seus mesmos poderes: pois bem, o Bispo considera como uma obrigação de amor apascentar o rebanho do Senhor e como resposta de amor o seu empenho em viver e exercer o ministério com as mesmas disposições que teve Cristo, o supremo pastor (cf. 1 Pd  5, 4), o Bispo das nossas almas (cf. 1 Pd 2, 25)».[29]

         O ministério episcopal torna-se na Igreja um amoris officium, segundo as palavras de Agostinho[30], um serviço de unidade, na comunhão e na missão. Este altíssimo arquétipo, que é Cristo, serve como ponto de referência para o nome de pastor e para todas as expressões que dele derivam.

 

 

I. MISTÉRIO E GRAÇA DO EPISCOPADO

 

A graça da ordenação episcopal 

37.    Com a consagração episcopal «é conferida a plenitude do sacramento da Ordem, isto é, aquela que pelo costume litúrgico da Igreja e pela voz dos santos Padres é chamada sumo sacerdócio, o ápice do sagrado ministério».[31] A íntima natureza do mistério e do ministério do Bispo é expressa pelas palavras e gestos da ordenação episcopal, na liturgia sacramental que, justamente, é chamada pela antiga tradição «natalis Episcopi».

         A imagem eclesial do Bispo é, desde a antiguidade cristã, delineada nas várias liturgias da ordenação episcopal no Oriente e no Ocidente, como o momento em que. com a imposição das mãos e as palavras da consagração, a graça do Espírito Santo desce sobre o eleito e com o carácter sagrado imprime em plenitude a imagem viva de Cristo mestre, pontífice, pastor, para agir em seu nome e na sua pessoa.[32]

         O Bispo é consagrado também com a unção do santo crisma para ser partícipe do sumo sacerdócio de Cristo, de modo tal que possa plenamente exercer o ministério da palavra, da santificação e do governo. Como pontífice é tomado dentre os homens, é constituído em favor dos homens em tudo aquilo que se refere a Deus (cf. Hb 5,1). O episcopado, diz-se, não é um termo que indica primariamente uma honra, mas um serviço; é destinado antes a fazer o bem do que manifestar uma preeminência. Com efeito, também para o Bispo valem as palavras do Senhor «que o maior entre vós seja, como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve» (Lc 22,26).[33]

 

 

Em comunhão com a Trindade 

38.    A dimensão trinitária da vida de Jesus, que o une ao Pai e ao Espírito como consagrado e enviado ao mundo e se manifesta em todo o seu ser e agir, plasma também a personalidade do Bispo, como bom pastor, sucessor dos apóstolos.

         Esta participação na vida e missão trinitária tem uma primeira aplicação nos apóstolos, como primeiros partícipes na comunhão e missão: «Como o Pai Me amou, também Eu vos amei; permanecei no meu amor» (Jo 15, 9; 17, 23); «Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21). Além disso, Jesus ora para que os discípulos estejam envolvidos no mesmo amor trinitário: como o Pai e o Filho são um só, assim os discípulos sejam um só (cf. Jo 17, 21).

         Esta referência à Trindade faz remeter o ministério do Bispo até à sua fonte. Depois, a sucessão apostólica não é apenas física e temporal, mas também ontológica e espiritual, mediante a graça da ordenação episcopal. Com efeito, os Bispos foram enviados pelos apóstolos, como seus sucessores, os apóstolos foram enviados por Cristo, Cristo foi enviado pelo Pai.[34]

 

39.    O selo trinitário da graça do episcopado é expresso de modo apropriado pela liturgia romana da ordenação episcopal: «Dado que o Espírito Santo te pôs para reger a Igreja de Deus, cuida do inteiro rebanho, no nome do Pai, do qual na Igreja és a imagem; no nome de Jesus Cristo seu Filho, do qual assumes a função de mestre, sacerdote e pastor; no nome do Espírito Santo, que é a alma viva da Igreja de Deus e o sustento da nossa debilidade».[35]

         Torna-se além disso manifesto, através das palavras e dos gestos da ordenação com a imposição das mãos, um gesto que, segundo Ireneu de Lião, evoca as duas mãos do Pai, do Filho e do Espírito;[36] ele plasma e configura o eleito para a plenitude do sacerdócio, como o dom do «Espírito do Sumo sacerdócio» é derramado sobre Cristo e transmitido aos apóstolos, que por toda a parte fundaram a Igreja.[37]

 

 

Do Pai por Cristo no Espírito 

40.    A tradição que apresenta o Bispo como imagem do Pai é muito antiga. Encontramo-la especialmente nas Cartas de Inácio de Antioquia. Com efeito, o Pai é como o Bispo invisível, o Bispo de todos.[38] Por sua vez, o Bispo deve ser reverenciado por todos porque imagem do Pai.[39] De modo semelhante, um antigo texto adverte: amai os Bispos que são, depois de Deus, pai e mãe.[40]

         Também hoje na ordenação episcopal se alude a esta dimensão paterna: o Bispo é chamado a cuidar do povo santo de Deus com afecto paterno, como um autêntico pai de família, para o guiar, com a ajuda dos presbíteros e diáconos, pelo caminho da salvação.[41] A redescoberta da Igreja como família de Deus, já presente no Vaticano II, torna mais eloquente a imagem paterna do Bispo.[42]

         Em continuidade com a pessoa de Cristo, que é o ícone original do Pai e a manifestação da sua presença e misericórdia, também o Bispo, mediante a graça sacramental, se torna imagem viva do Senhor Jesus como cabeça e esposo da Igreja a ele confiada. Nela exerce como sacerdote o ministério da santificação, do culto e da oração; como mestre,  o serviço da evangelização, da catequese e do ensinamento; como pastor, a função de governo e da guia do povo. São ministérios que ele deve exercer com aqueles traços característicos do bom pastor: a caridade, o conhecimento do rebanho, o cuidado de todos, a acção misericordiosa para com os pobres, os peregrinos, os indigentes, a busca das ovelhas tresmalhadas para as reconduzir ao único rebanho da Igreja.[43]

         Tudo isto é possível porque o Bispo, na sua ordenação, recebe em plenitude a unção do Espírito Santo que desceu sobre os discípulos no Pentecostes, Espírito do sumo sacerdócio, que o habilita interiormente, configurando-o a Cristo, para ser viva continuação do seu mistério em favor do seu Corpo místico.

         Esta visão trinitária da vida e do ministério do Bispo marca também em profundidade a sua constante referência ao mistério que resplandece também na Igreja, imagem da Trindade, povo reunido na paz e na concórdia, pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.[44]

 

 

O ícone eclesial do Bispo 

41.    As próprias recomendações e insígnias episcopais que o Bispo recebe na sua ordenação episcopal, como expressões da graça e do ministério, são eloquentes no seu simbolismo eclesial.

         O livro do Evangelho, posto sobre a cabeça do Bispo, é sinal de uma vida inteiramente submetida à Palavra de Deus e despendida na pregação do Evangelho, com toda a paciência e doutrina.

         O anel é símbolo de fidelidade, na integridade da fé e da pureza da vida, para com a Igreja, que ele deve conservar como Esposa de Cristo. A mitra alude à santidade episcopal e à coroa da glória que o Príncipe dos Pastores entregará aos seus servos fiéis. O báculo é símbolo da função de Bom pastor, que cuida e sustenta com solicitude o rebanho a ele confiado pelo Espírito Santo.[45]

         Também o pálio, que os Bispos vestem desde sempre no Oriente e alguns Bispos recebem agora no Ocidente, tem diversos e vários significados. Para os metropolitas que o recebem no Ocidente é sinal de comunhão com o Romano Pontífice, símbolo de unidade, compromisso de comunhão com a Sé Apostólica, vínculo de caridade e estímulo de fortaleza na confissão e defesa da fé. O pálio, contudo, como o omophorion dos Bispos nas Igrejas orientais, teve na antiguidade e ainda hoje conserva outros significados de grande valor espiritual e eclesial. Confeccionado com lã e ornado com sinais de cruz, é emblema do Bispo, identificado com Cristo, o Bom Pastor imolado, que deu a vida pelo rebanho e traz nos ombros a ovelha desgarrada, a significar a solicitude por todos, de modo especial por aqueles que se afastaram do redil. Assim o atesta a tradição oriental[46] e a ocidental.[47]

         A cruz que o Bispo traz visivelmente no peito é sinal eloquente da sua pertença a Cristo, da confissão da sua confiança n’Ele, da força haurida constantemente da cruz do Senhor para o dom da vida. Longe de ser uma jóia  ou um ornamento exterior, representa a cruz gloriosa de Cristo, sinal de esperança, segundo a eloquente palavra do apóstolo: «Quanto a mim, Deus me livre de me gloriar a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo» (Gl 6, 14).

         Estas simples indicações põem em evidência o simbolismo ínsito na solenidade da ordenação episcopal.

         Tudo isto traz em si uma conotação de universalidade para todos aqueles que receberam a ordenação episcopal e, em comunhão com o Romano Pontífice, fazem parte do Colégio Episcopal e, com ele, compartilham a solicitude por toda a Igreja.[48]

 

 

O Espírito de santidade 

42.    Da figura do Bispo, como é expressa pelas palavras e os ritos da ordenação, emerge a chamada à santidade, a sua peculiar espiritualidade, o seu caminho de santidade e de perfeição evangélica. É uma tradição confirmada pelos ritos do Ocidente e do Oriente que referem ao Bispo a plenitude da santidade a ser vivida diante de Deus e em comunhão com os fiéis.

         O antigo Eucológico de Serapião  exprime este conceito na oração da consagração do Bispo: «Deus da verdade, fazei do vosso servidor um bispo vivente, um bispo santo na sucessão dos Santos apóstolos; e dai-lhe a graça do Espírito divino, que concedestes a todos os servos fiéis, profetas e patriarcas».[49]

         Trata-se duma chamada à santidade, vivida na caridade pastoral, no serviço contínuo do Senhor, na oferenda dos santos dons, no ministério da remissão dos pecados, sendo agradável a Ele com mansidão e pureza, oferecendo-se a si mesmo como sacrifício de suave odor.[50]

         Destas premissas emerge para o Bispo a chamada à santidade própria, em virtude do dom recebido e do ministério de santificação a ele confiado.

 

 

II. A SANTIFICAÇÃO NO PRÓPRIO MINISTÉRIO

 

A vida espiritual do Bispo 

43.    A vida espiritual do Bispo, como vida em Cristo segundo o Espírito, tem a sua raiz na graça do sacramento do baptismo e da confirmação, onde, enquanto «christifideles», renascido em Cristo, se tornou capaz de acreditar em Deus, de ter esperança n’Ele e de O amar por meio das virtudes teologais, de viver e agir sob a moção do Espírito Santo mediante os seus santos dons. Com efeito, o Bispo não de modo diferente de todos os outros discípulos do Senhor, que foram incorporados a Ele e se tornaram templo do Espírito, vive a sua vocação cristã consciente da sua relação com Cristo, como discípulo e apóstolo. Bem o expressou Agostinho com a sua conhecida fórmula referida aos seus fiéis: «Para vós sou Bispo, convosco sou cristão».[51]

         Também o Bispo, pois, como baptizado e crismado, é alimentado pela santa Eucaristia e tem necessidade do perdão do Pai, por causa da fragilidade humana. Além disso, juntamente com todos os presbíteros, deve também percorrer caminhos específicos de espiritualidade, chamado à santidade em razão do novo título derivante da Ordem sagrada.[52]

 

44.    Trata-se, ainda, de uma espiritualidade própria, que o Bispo haure da sua realidade, orientado a viver na fé, na esperança e na caridade o ministério de evangelizador, de liturgo e de guia na comunidade. É uma espiritualidade eclesial porque cada Bispo é configurado a Cristo Pastor e Esposo para amar e servir a Igreja.

         Não é possível amar Cristo e viver na sua intimidade sem amar a Igreja, que Cristo ama: com efeito, possui-se o Espírito de Deus, na medida em que se ama a Igreja «una em todos e toda em cada um; simples na pluralidade pela unidade da fé, múltipla em cada um pelo cimento da caridade e pela variedade dos carismas».[53] Só do amor à Igreja, amada por Cristo até ao dom de si mesmo por ela (cf. Ef 5,25), nasce uma espiritualidade orientada para a medida total com que o Senhor Jesus amou os homens, isto é, até à cruz.

         Trata-se, pois, de uma espiritualidade de comunhão eclesial, isto é, propensa a construir a Igreja com uma atenção vigilante, de maneira que as palavras e as obras, os gestos e as decisões, que empenham o serviço pastoral, sejam sinal do dinamismo trinitário da comunhão e da missão.

 

 

Uma autêntica caridade pastoral 

45.    Fundamento da espiritualidade específica do Bispo é o exercício do seu ministério, informado interiormente pela fé e pela esperança, de modo especial pela caridade pastoral, que é a alma do seu apostolado, num dinamismo de «pro-existentia» pastoral, isto é, um viver para Deus e para os outros, como Cristo, voltado para o Pai e totalmente ao serviço dos irmãos, no dom quotidiano de si num exercício gratuito de amor, em comunhão com a Trindade. «Os pastores do rebanho de Cristo, afirma a Lumen gentium, devem, à imagem do sumo e eterno sacerdote... desempenhar o próprio ministério santamente e com alegria, com humildade e fortaleza, o qual, assim cumprido, também para eles será um sublime meio de santificação. Escolhidos para a plenitude do sacerdócio, receberam a graça sacramental para que, orando, sacrificando e pregando, com toda a espécie de cuidados e serviços episcopais. realizem a tarefa perfeita da caridade pastoral, sem hesitarem em oferecer a vida pelas ovelhas e, feitos modelos do rebanho (cf. 1 Pd 5, 3), suscitem na Igreja, também com o seu exemplo, uma santidade cada vez maior».[54]

         Já o Directório pastoral Ecclesiae imago tinha dedicado um inteiro e detalhado capítulo às virtudes teologais necessárias a um Bispo.[55] Naquele contexto, para além da referências às virtudes sobrenaturais da obediência, da continência perfeita por amor do Reino, da pobreza, da prudência pastoral e da fortaleza, encontra-se também uma chamada à virtude teologal da esperança; apoiando-se nela, o Bispo espera de Deus, com firme certeza, todo o bem e põe na divina Providência a máxima confiança, «recordado dos santos apóstolos e antigos Bispos que, embora experimentando grandes dificuldades e obstáculos de todo o género, todavia, anunciavam o evangelho de Deus com toda a coragem»».[56]

         Desde os primeiros séculos do cristianismo, e até ao século XX, muitos Bispos foram modelos de sabedoria teológica e de caridade pastoral; uniram na sua existência o ministério da pregação e da catequese, a celebração dos santos mistérios e a oração, o zelo apostólico e o amor intenso pelo Senhor. Fundaram Igrejas, reformaram os costumes, defenderam a verdade; foram corajosas testemunhas no martírio e deixaram uma marca na sociedade, com iniciativas de caridade e de justiça, com gestos de coragem diante dos poderosos do mundo, em favor do próprio povo.[57] 

 

 

O ministério da pregação 

46.    A espiritualidade ministerial, enraizada na caridade pastoral e expressa no tríplice múnus do ensino, da santificação e do governo, não deve ser vista pelo Bispo ao lado do seu ministério, mas na unidade de vida do seu ministério

         O Bispo é, antes de mais, ministro da verdade que salva, não somente para ensinar e instruir, mas também para conduzir os homens à esperança e, por conseguinte, ao progresso no caminho da esperança. Portanto, se um Bispo quer verdadeiramente apresentar-se ao seu povo como sinal, testemunha e ministro da esperança não pode senão alimentar-se da Palavra da Verdade, com total adesão e plena disponibilidade a ela, segundo o modelo de Maria, a santa Mãe de Deus, que «acreditou no cumprimento das palavras do Senhor» (Lc 1, 45).

         Dado que, depois, esta divina Palavra está contida e expressa na Sagrada Escritura, um Bispo deve recorrer a ela constantemente, com uma leitura assídua e um estudo diligente, para receber nova ajuda no seu ministério.[58] Isto não só porque ele seria um vão pregador da Palavra de Deus para o exterior se não a escutasse interiormente, [59] mas também porque esvaziaria o seu ministério em favor da esperança. Com efeito, da Escritura o Bispo haure o alimento para a sua espiritualidade, de modo a desenvolver, com veracidade,  o seu ministério de evangelizador. Só assim, como S. Paulo, ele poderá dirigir-se aos fiéis, dizendo: «Em virtude da perseverança e da consolação que nos vêm das Escrituras mantemos viva a esperança» (Rm 15,4).

         No ministério episcopal repete-se a opção dos apóstolos no início da Igreja: «Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da palavra» (Act 6, 4). Como escreveu Orígenes: «São estas as duas actividades do Pontífice: ou aprender de Deus, lendo as Escrituras divinas e meditando-as com frequência, ou instruir o povo. Mas, ensina as coisas que ele mesmo aprendeu de Deus!».[60] 

 

Orante e mestre da oração 

47.    O Bispo é também o orante, aquele que intercede pelo seu povo, com a fiel celebração da Liturgia das Horas a que deve presidir também no meio do seu povo.

         Consciente de que somente através da sua própria oração pessoal será mestre de oração para os seus fiéis, o Bispo dirigir-se-á a Deus para Lhe repetir, juntamente com o salmista: «Na vossa palavra pus a minha esperança» (Sl 119, 114). De facto, a oração é o espaço privilegiado e expressivo da esperança ou, como diz S. Tomás, ela é a «intérprete da esperança».[61]

         É próprio do Bispo o ministério da oração pastoral e apostólica, diante de Deus pelo seu povo, à imitação de Jesus que ora pelos apóstolos (cf. Jo 17) e do apóstolo Paulo que ora pelas suas comunidades (cf. Ef  3, 14-21; Fl 1, 3-10). De facto, ele também na sua oração, deve ter presente toda a Igreja, rezando de modo especial pelo povo que lhe foi confiado. Ao imitar Jesus na escolha dos Apóstolos (cf. Lc 6, 12-13), também ele submeterá ao Pai todas as suas iniciativas pastorais e Lhe apresentará, mediante Cristo, no Espírito, as suas expectativas e esperanças. E o Deus da esperança o cumulará de toda a alegria e paz, para que transborde em esperança pela virtude do Espírito Santo (cf. Rm 15,13).

         Um Bispo deve também procurar os momentos em que possa viver a sua escuta pessoal da Palavra de Deus e a sua oração juntamente com o seu presbitério, os diáconos permanentes, os seminaristas e os consagrados e consagradas presentes na Igreja particular e, onde e quando for possível, também com os leigos, em particular aqueles que vivem o seu apostolado de forma associada.

         Tal modo de proceder favorece o espírito de comunhão e apoia a sua vida espiritual, apresentando-se na sua Igreja particular como «mestre de perfeição», empenhado em «fazer progredir no caminho da santidade os seus sacerdotes, os religioso e os leigos, segundo a vocação particular de cada um».[62] Ao mesmo tempo, faz voltar à sua origem divina e confirma na comunhão da oração os vínculos das relações eclesiais, nas quais foi colocado como centro visível da unidade.

         Nem descurará as ocasiões para viver em conjunto com os irmãos Bispos, sobretudo se mais próximos porque da mesma província e região eclesiástica, momentos análogos de encontro espiritual. Nesses encontros pode-se experimentar a alegria que brota do viver em conjunto entre irmãos (cf. Sl 133,1), manifesta-se e incrementa-se o afecto colegial.

 

 

Alimentado pela graça dos sacramentos 

48.    A eficácia da guia pastoral de um Bispo e do seu testemunho de Cristo, esperança do mundo, depende em grande parte da autenticidade do seguimento do Senhor e do viver na amizade com Ele.

         Só a santidade é anúncio profético da renovação que o Bispo antecipa na própria vida mediante a aproximação à  meta a que conduz os seus fiéis. Todavia, no seu itinerário espiritual, como todo o cristão, também ele experimenta a necessidade da conversão em virtude da consciência das suas fraquezas, dos seus desânimos e do seu pecado. Mas dado que, como pregava S. Agostinho, não se pode fechar à esperança do perdão aquele ao qual não foi fechado o pecado,[63] o Bispo deve recorrer ao sacramento da penitência e da reconciliação. Quem tem a esperança de ser filho de Deus e de poder vê-Lo  tal como Ele é, purifica-se a si mesmo como é puro o Pai celeste (cf. 1 Jo 3, 3).

         Também os apóstolos, aos quais Jesus Ressuscitado comunicou o dom do Espírito Santo para perdoar os pecados (cf. Jo 20, 22-23), tiveram necessidade de receber do Senhor a palavra da paz que reconcilia e a exigência do amor arrependido que cura (cf. Jo 20, 19.21; 21,15 ss.).

         É, sem dúvida, sinal de esperança para o povo de Deus ver que o próprio Bispo é o primeiro a aproximar-se do sacramento da reconciliação em circunstâncias particulares, como quando preside à sua celebração de forma comunitária.

         Também da celebração da santa Liturgia o Bispo, juntamente com todo o povo de Deus, tira alimento para a esperança. De facto, quando a Igreja celebra a sua Liturgia sobre a terra, saboreia de antemão, na esperança, a Liturgia da Jerusalém celeste, para a qual caminha como peregrina e onde Cristo está sentado à direita do Pai «qual ministro do santuário e da verdadeira tenda, construída pelo Senhor e não por um homem» (Hb 8, 2).[64]

 

49.    Todos os Sacramentos da Igreja, a Eucaristia primeiro entre todos, são memorial das palavras, das obras e dos mistérios do Senhor, representação da salvação realizada por Cristo de uma vez para sempre e antecipação da posse plena, que será o dom do tempo final.[65] Até então a Igreja celebra-os como sinais eficazes da sua expectativa, da invocação e da esperança.

         Tanto no Oriente como no Ocidente, a espiritualidade do ministério episcopal está unida à celebração dos santos mistérios, a qual é presidida pelo  Bispo e por ele celebrada juntamente com o seu presbitério, os diáconos e o povo santo de Deus.

         A variedade dos ritos da Igreja e a sua especificidade, tanto no Oriente como no Ocidente, marcam a vida do povo de Deus, conferem-lhe uma sua identidade e são fonte de uma rica espiritualidade eclesial. Por isso o Bispo, como sumo sacerdote do seu povo, deve não só celebrar com atenção os santos mistérios, mas fazer com que a sua celebração seja uma autêntica escola de espiritualidade para o povo. Nisto será ajudado pelo conhecimento da teologia e da liturgia episcopal, como é mostrado no Caeremoniale episcoporum.[66]

         Os Bispos das Igrejas Orientais, fiéis ao próprio e rico património litúrgico com várias e particulares celebrações, poderão viver em plena sintonia com os valores espirituais das próprias tradições.[67]

 

 

Como sumo sacerdote no meio do seu povo 

50.    Entre as acções litúrgicas há algumas nas quais a presença do Bispo tem um significado particular. Antes de tudo a Missa crismal, durante a qual são benzidos o Óleo dos Catecúmenos e o dos Enfermos e consagrado o santo Crisma: é o momento da mais alta manifestação da Igreja local, que celebra o Senhor Jesus, sumo e eterno Sacerdote do seu próprio Sacrifício. Para um Bispo é um momento de grande esperança, dado que ele encontra o presbitério diocesano reunido à sua volta para juntos voltarem os olhos, no horizonte festivo da Páscoa, para o Grande Sacerdote e para, assim, reavivarem a graça sacramental da Ordem mediante a renovação das promessas que, desde o dia da Ordenação, estabelecem o carácter especial do seu ministério na Igreja. Nesta circunstância, única do ano litúrgico, os estreitos vínculos da comunidade eclesial são para o povo de Deus, embora atormentado por inumeráveis preocupações, um vibrante grito de esperança.

         A esta celebração se juntará a solene liturgia da ordenação de novos presbíteros e diáconos. Aqui, recebendo de Deus os novos cooperadores da ordem episcopal e os novos colaboradores no ministério, o Bispo vê atendidas pelo Espírito, Donum Dei e dator munerum, a sua oração pela abundância das vocações e as suas esperanças por uma Igreja ainda mais resplandecente através do seu rosto ministerial.

         O mesmo se pode dizer da administração do sacramento da Confirmação, do qual o Bispo é ministro originário e, no rito latino, ministro ordinário.

        

         Também neste sacramento da efusão do Espírito Santo, que comporta muitas vezes para os pastores um grande empenho de tempo e no qual se apresenta a ocasião para realizar a visita pastoral nas paróquias, o Bispo vive um momento de intensa espiritualidade ministerial e de comunhão com os seus fiéis, de maneira especial com os jovens. O facto de este sacramento ser administrado pelo pastor da diocese, evidencia que ele tem como efeito unir mais intimamente todos ao mistério do Pentecostes, à Igreja de Deus nas suas origens apostólica, à comunidade local, e associar aqueles que o recebem à missão de testemunhar Cristo.[68]

 

 

Uma espiritualidade de comunhão 

51.    Sinal de uma forte espiritualidade de comunhão e elemento de grande valor para a santidade e santificação do Bispo é a comunhão com os seus presbíteros, com os diáconos, os religiosos e as religiosas, com os leigos, tanto no relacionamento pessoal como nas diversas reuniões. A sua palavra de exortação e a sua mensagem espiritual tendem a favorecer e garantir a presença activa e santificante de Cristo no meio da sua Igreja e o fluxo da graça do Espírito que cria um particular testemunho de unidade e de caridade.

         Por isso é oportuno que o Bispo anime e promova também, com a sua presença e palavra,  os «momentos do Espírito» que favorecem o crescimento da vida espiritual, como são os retiros, os exercícios espirituais, as jornadas de espiritualidade, usando de igual modo os meios de comunicação social que podem atingir também os mais distantes.

         Deverá também saber usufruir dos meios comuns da vida espiritual, tais como a busca de conselho espiritual, a amizade e a comunhão fraterna, para evitar o risco da solidão e o perigo do desânimo diante dos problemas.

         Deste modo, ele poderá viver e animar uma espiritualidade de comunhão com os agentes da pastoral, através da escuta, da colaboração e da responsável atribuição das tarefas e ministérios.

         Um meio especial para manter viva esta espiritualidade é a comunhão afectiva e efectiva do Bispo, na sua oração e nas suas relações, com o Papa e os outros Bispos.

         O Bispo não está sozinho no seu ministério: deve dar e receber aquele fluxo de caridade fraterna que vem da relação com os outros irmãos no episcopado, num verdadeiro exercício de amor recíproco, como o que foi pedido por Jesus aos discípulos (cf. Jo 13, 34; 15, 12-13), que se torna também partilha de oração, de experiências espirituais e pastorais, de discernimento.

         Por essa razão, são importantes as ocasiões de diálogo e de partilha, os retiros espirituais, os momentos de distensão e de repouso, nos quais também os Bispos podem exercitar a comunhão e a caridade pastoral. 

 

Animador de uma espiritualidade pastoral 

52.    Ele mesmo é chamado a ser no meio do povo promotor e animador de uma pastoral da santidade, mestre espiritual do seu rebanho, com o estilo de vida e o testemunho credível nas palavras e acções.

         A chamada à santidade empenha o Bispo a ser também promotor da vocação universal à santidade na sua Igreja. Para isto, ele deve promover a espiritualidade e a santidade do Povo de Deus com iniciativas específicas, acolhendo os carismas antigos e recentes, sinal da riqueza do Espírito Santo. 

 

Em comunhão com a Santa Mãe de Deus 

53.    Sustento do Bispo na vida espiritual é a especial presença materna de Maria, honrada com uma relação pessoal de autêntico amor filial.

         Todo o Bispo é chamado a reviver aquela particular entrega de Maria e do discípulo João aos pés da cruz (cf. Jo 19, 26-27); é também chamado a reflectir-se na oração unânime e perseverante dos discípulos com Maria, a Mãe de Jesus, desde a Ascensão ao Pentecostes (cf. Act 1, 14). Cada Bispo e todos os Bispos na comunhão fraterna são entregues aos cuidados maternos de Maria no ministério, na comunhão e na esperança.

         Isto comporta uma sólida devoção mariana, que é uma intensa comunhão com a Santa Mãe de Deus no ministério litúrgico de santificação e de culto, no ensino da doutrina, na vida e no governo. Este estilo mariano no exercício do ministério episcopal brota do próprio perfil mariano da Igreja.

 

 

III. O CAMINHO ESPIRITUAL DO BISPO

 

Um necessário caminho espiritual 

54.    A espiritualidade cristã é um caminho com as suas etapas, provações e surpresas, num dinamismo de fidelidade à própria vocação. Os períodos da vida, a tensão constante para a perfeição e a santidade pessoal, segundo o desígnio de Deus, ajudam também o Bispo a captar no seu ministério um verdadeiro e próprio itinerário espiritual. No meio das alegrias e provações, que não faltam na vida do pastor, ele viverá a própria história e a do seu povo. Um caminho que deve percorrer diante do seu rebanho, na fidelidade a Cristo, com um testemunho também público até ao fim.

         Poderá e deverá fazê-lo com confiança serena e animado pela esperança teologal, mesmo quando estiver nas condições de apresentar a renúncia ao cargo. Contudo, não deverá cessar de viver até ao fim, nas formas mais oportunas, o espírito do ministério, na oração ou noutras tarefas.

 

 

Com o realismo espiritual do quotidiano 

55.    O realismo espiritual ensina de igual modo a avaliar como o Bispo deve viver a sua vocação à santidade também na sua debilidade humana, na multiplicidade dos empenhos, nos imprevistos quotidianos, nos muitos problemas pessoais e institucionais. Às vezes, empenhado e solicitado por inúmeras responsabilidades, corre o perigo de ficar transtornado pelos problemas, sem encontrar válidas resposta e soluções.

         Todo o Bispo experimenta quotidianamente o peso da vida e da história; também sobre ele incumbem a responsabilidade, a compartilha dos problemas e das alegrias do seu povo. Às vezes, será submetido à pressão dos meios de comunicação, diante de fenómenos que envolvem a Igreja e a defesa da verdadeira doutrina e da moral; deverá enfrentar acusações injustas ou problemas de carácter social.

         Por isso, ele precisa de cultivar um sereno teor de vida que favoreça o equilíbrio mental, psíquico, afectivo, capaz de fomentar uma atitude à relação interpessoal, a acolher as pessoas e os seus problemas, a identificar-se com as situações tristes ou alegres do seu povo, que nele quer encontrar a maturidade e a bondade do seu ministério e de um mestre espiritual.

         Ao Bispo é necessária a coragem na fadiga do seu ministério, em levar a cruz com dignidade e experimentar a glória de servir, em comunhão com o Crucificado-Glorioso.

 

 

Na harmonia do divino e do humano 

56.    O Bispo é chamado a cultivar uma espiritualidade segundo a medida da própria humanitas  de Jesus, na qual possa exprimir o aspecto divino e humano da sua consagração e missão. Deste modo, dará equilíbrio a si mesmo nos seus compromissos: a celebração litúrgica e a oração pessoal, a programação pastoral, o recolhimento e o repouso, a justa distensão e um côngruo tempo de férias, o estudo e a actualização teológica e pastoral.

         O cuidado da própria saúde física, psíquica e espiritual e o equilíbrio da existência são para o Bispo também um acto de amor pelos fiéis, uma garantia de maior disponibilidade e abertura às inspirações do Espírito.

         Munido com estes subsídios de espiritualidade, ele encontra a paz do coração e a profundidade da comunhão com a Trindade, que o escolheu e consagrou. Na graça que Deus lhe assegura, todos os dias ele saberá exercer o seu ministério, atento às necessidades da Igreja e do mundo, como testemunha de esperança.

         Com efeito, todos os dias o Bispo renova a sua confiança em Deus e orgulha-se como o Apóstolo «na esperança da glória de Deus..., bem sabendo que a tribulação produz paciência, a paciência uma virtude provada e a virtude provada a esperança» (Rm 5, 2-4). Da esperança deriva também a alegria. A alegria cristã, de facto, que é alegria na esperança (cf. Rm 12, 12), é também objecto da esperança. O Bispo, testemunha da alegria cristã que nasce da cruz, não só deve falar da alegria, mas deve também «esperar a alegria» e testemunhá-la diante do seu povo.[69]

 

 

Fidelidade até ao fim 

57.    Será paciente e perseverante na esperança, quando no exercício do seu ministério for submetido à prova da doença ou conduzido pelo Senhor a viver o seu fim como uma oferta pelo seu rebanho ou for chamado a dar testemunho de Cristo em difíceis condições de perseguição e de martírio, como não raro aconteceu e acontece no nosso tempo.

         Também estas serão ocasiões preciosas para que todo o povo a ele confiado saiba que o seu pastor vive o dom total de si, como Cristo na Cruz.

         Por esta razão, será também belo ver o Bispo que, consciente da sua doença, recebe o sacramento da Unção dos Enfermos e o santo viático com solenidade e acompanhamento do clero e do povo.[70]

         Neste último testemunho da sua vida terrena, ele tem a oportunidade de ensinar aos seus fiéis que nunca se deve trair a própria esperança e que toda a dor do momento presente é aliviada com a esperança das realidades futuras.

         No último acto da sua partida deste mundo para o Pai, ele pode resumir e voltar a propor a finalidade do seu próprio ministério na Igreja: o de indicar a meta escatológica aos filhos da Igreja, como Moisés, no monte Nebo, indicou a terra prometida aos filhos  de Israel (cf. Dt 34, 1 ss).

         Como consequência, também a conclusão do seu itinerário espiritual com a morte e as exéquias solenes celebradas na igreja catedral, devem ser um momento espiritual de grande valor para a vida dos fiéis, um canto à Ressurreição do Senhor que acolhe os seus servos fiéis. É ocasião propícia para deixar como dom à Igreja as palavras de um testamento espiritual e a marca de um rosto amigo e próximo, ao lado da plêiade dos pastores que o precederam na Igreja particular.

 

 

O exemplo dos santos Bispos 

58.    O caminho espiritual do Bispo é iluminado pela grande multidão de pastores da Igreja que, a partir dos apóstolos, iluminaram com o seu exemplo a vida da Igreja em todas as épocas e lugares. Seria árduo fazer um elenco destes ilustres modelos que brilham na Igreja, cuja santidade foi ou será reconhecida pela Igreja. Mas os seus nomes e as suas figuras estão bem presentes na vida da Igreja universal e das Igrejas locais, também na celebração cíclica do ano litúrgico ou nas leituras da liturgia das Horas.

         Pensamos nos santos pastores que desde o início da Igreja uniram a santidade da vida com a pregação e a sabedoria, o sentido pastoral e também social da mensagem evangélica. Alguns deles deram a sua vida no testemunho do martírio. Há santos pastores fundadores de Igrejas recordados e celebrados como santos padroeiros.

         Houve pastores que resplandecem pela sua doutrina, que deram um contributo específico nos Concílios ecuménicos e actuaram com sabedoria as directrizes de reforma e de renovação. São Bispos  santos muitos missionários que levaram o Evangelho a novas terras e organizaram a vida das Igrejas locais nascentes. Não faltaram até aos nossos dias testemunhas da fé que pagaram com o cárcere, o exílio e outros sofrimentos, a sua fidelidade à Igreja católica e à comunhão com a Sé de Pedro. Outros em circunstâncias difíceis deram a vida pelo seu rebanho como defensores dos direitos humanos e religiosos.

         A comunhão espiritual com estes pastores é motivo de esperança e fonte de impulso apostólico. Todo o Bispo vê neles expressas a graça e a força do Espírito Santo e a medida da fidelidade, à qual é chamado no próprio ministério pastoral.

  


CAPÍTULO III 

O EPISCOPADO MINISTÉRIO DE COMUNHÃO
E DE MISSÃO NA IGREJA UNIVERSAL

 

Amigos de Cristo, escolhidos e enviados por Ele 

59.    As palavras de Jesus na última Ceia, de modo especial no cap. 15 de João, referem-se à vocação dos apóstolos na luz da comunhão e da missão. Jesus fala da videira e dos ramos numa figura bíblica, que exprime com clareza a necessidade da comunhão e a fecundidade da missão. Ainda que a palavra de Jesus tenha uma sua referência eclesial e eucarística, que atinge todos os fiéis, tem uma primeira referência ao círculo dos apóstolos e, por conseguinte, aos seus sucessores.

         No discurso de Jesus sobre a videira e os ramos emerge o dinamismo trinitário da comunhão e da missão. O Pai é o agricultor; Cristo é a videira verdadeira; a linfa interior de comunhão e fecundidade é o Espírito Santo, que vivifica os ramos unidos à videira, destinados a dar fruto abundante e duradouro. No centro desta parábola encontra-se um ensinamento fundamental: os discípulos de Jesus são chamados a permanecer em comunhão vital com Cristo, com a sua palavra e os seus mandamentos, para crescerem através da poda de Deus e dar frutos em abundância (Jo 15, 1-10).

         Daí deriva a necessidade da comunhão com Cristo e, n’Ele, com o Pai e o Espírito, na videira mística na qual está velada a Igreja.

         «Sem Mim nada podeis fazer» (Jo 15, 5). Segundo o sentido da parábola da videira, no Evangelho de João, Jesus indica aos seus discípulos a comunhão com Ele como fidelidade de uma amizade divina: «Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15, 14). Na amizade de Cristo está compreendida a partilha do conhecimento dos segredos do Pai, o dom da vida até à morte, a comunhão recíproca no amor. Ela supõe, da parte de Jesus em continuidade com a sua missão que vem do Pai, a escolha e o envio missionário dos discípulos: «Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos nomeei, para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permaneça» (Jo 15, 16). Da parte do discípulo é pedida a fidelidade à palavra e à missão.

 

60.    O Bispo, ramo vivo enxertado na videira que é Cristo, seu amigo, discípulo e apóstolo, traz em si a chamada pessoal e ministerial à comunhão e à missão.

         No dinamismo da sucessão apostólica, entendida não só como investidura de autoridade mas como extensão trinitária da comunhão e da missão, está enraizada a identidade do Bispo na Igreja. Escolhido pelo Senhor, chamado a uma constante comunhão com Ele, enviado ao mundo, ele identifica-se com a pessoa de Jesus na transmissão da vida divina, na comunhão do amor, no sacrifício da sua existência.

 

 


I.    O MISTÉRIO EPISCOPAL NUMA  
ECLESIOLOGIA DE COMUNHÃO

 

Na Igreja ícone da Trindade 

61.    O Concílio Vaticano II privilegiou na sua reflexão teológica a Igreja, como lugar dos mistérios da fé, com uma particular atenção ao tema central da comunhão. De facto, a Igreja é definida desde o início da Constituição Lumen gentium como «o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano».[71]

         Com razão, pois, o documento da Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos de 1985 afirmou: «a eclesiologia de comunhão é a ideia central e fundamental nos documentos do Concílio».[72] O conceito de comunhão está «no coração da autoconsciência da Igreja».[73] Ela é ao mesmo tempo vertical e horizontal, comunhão com Deus e entre os homens, dom da Trindade e empenho da fé e do amor, visível e invisível.[74]

         A comunhão eclesial fundada sobre a palavra de Deus e sobre os sacramentos, especialmente a Eucaristia, expressa na fé, fundada sobre a esperança, animada pela caridade, enraizada na unidade do ministério do ensino e do governo do sucessor de Pedro e dos Bispos, possui ao mesmo tempo uma força de unidade e um dinamismo missionário. De maneira análoga ao mistério da Trindade, com a própria força do Espírito, é convocação (ekklesia) e manifestação (epiphania) missionária para a salvação do mundo.

         A Igreja deve ser sempre e em toda a parte, em media crescente, participação e sacramento do amor trinitário, para a salvação do mundo. Como consequência, tem a própria força do Espírito, que na Trindade é princípio de comunhão e de missão no amor.

 

62.    A Igreja, portanto, é o mistério-sacramento  para o qual convergem a evangelização e a catequese, a celebração dos mistérios, a espiritualidade eclesial, a vida de caridade dos cristãos, a acção e o testemunho missionário. Só numa autêntica perspectiva eclesial podem ser entendidos os compromissos morais, as estratégias pastorais, as vias de espiritualidade vivida.

         Comunhão e missão exigem-se reciprocamente. A força da comunhão faz crescer a Igreja em extensão e profundidade. Mas a missão faz crescer também a comunhão, que se estende, como círculos concêntricos, até atingir todos. Com efeito, a Igreja irradia-se nas diversas culturas e introdu-las no Reino,[75] de modo que tudo o que de Deus saiu possa retornar a Deus. Por isso foi afirmado: «A comunhão abre-se para a missão e converte-se ela própria em missão».[76]

         A comunhão corresponde ao ser da Igreja, recorda a destinação de todos os carismas ao ágape, à comunhão na unidade, no mesmo desígnio de salvação, no mesmo projecto eclesial.

         A unidade da Igreja como comunhão e missão não pertence só à essência do seu mistério e da sua missão no mundo, ela é também a garantia e o selo do seu agir divino: tudo provém do desígnio trinitário de Deus que, na sua unidade, está na origem de tudo e é também o ancoradouro final de tudo, segundo a visão da história da salvação que envolve a humanidade e o cosmo.

 

 

Numa eclesiologia de comunhão e de missão 

63.    Também no nosso tempo a unidade é um sinal de esperança, quer se trate dos povos, quer se fale do agir humano para um mundo reconciliado. Mas a unidade é também sinal e testemunho credível da autenticidade do Evangelho, Daqui nasce a urgência também no nosso mundo da unidade da Igreja e, de modo particular, da unidade de todos os discípulos de Cristo, a fim de que o mundo creia (cf. Jo 17, 21).

         O mistério trinitário, que é mistério de comunhão na reciprocidade, é como o quadro referencial da vida da Igreja, da sua missão, dos seus ministérios e por conseguinte do ministério episcopal.

         Essa perspectiva é um sinal de esperança para o mundo no meio de dissoluções da unidade, contraposições, conflitos. A força da Igreja é a comunhão, a sua debilidade é a divisão e a contraposição.

 

64.    O ministério episcopal enquadra-se nesta eclesiologia de comunhão e de missão que gera um agir em comunhão, uma espiritualidade e um estilo de comunhão.

         Neste ministério, de facto, exprime-se a unidade da sucessão apostólica no Colégio dos Bispos, sob o ministério petrino. Além disso, para o Bispo converge a Igreja particular, a comunidade do povo de Deus, com os presbíteros, os diáconos, as pessoas consagradas, os leigos.

         Esta comunhão na unidade é sustentada pela caridade pastoral e pela esperança sobrenatural na actuação do desígnio divino com a força do Espírito Santo.

 

 

Unidade e catolicidade no ministério episcopal 

65.    Enviado em nome de Cristo como pastor de uma Igreja particular, o Bispo cuida da porção do povo de Deus que lhe foi confiada e faz com que ela cresça como comunhão no Espírito, por meio do Evangelho e da Eucaristia. Nela, ele  é princípio e fundamento visível da unidade da fé, dos sacramentos e do governo em virtude do poder recebido.[77]

         Todavia, todo o Bispo é pastor de uma Igreja particular enquanto é membro do Colégio dos Bispos. Neste mesmo Colégio cada Bispo está inserido em virtude da consagração episcopal e mediante a comunhão hierárquica com a Cabeça do Colégio.[78] Disto derivam para o ministério do Bispo algumas consequências que, embora em forma sintética, é oportuno considerar.

         A primeira é que um Bispo nunca está sozinho. Isto é verdade não somente a respeito do seu lugar na própria Igreja particular, mas também na Igreja universal, unido como está - pela natureza mesma do episcopado uno e indiviso [79] - ao inteiro Colégio episcopal, o qual sucede ao Colégio apostólico. Por esta razão, todo o Bispo está simultaneamente em relação com a Igreja particular e a Igreja universal.

         Princípio e fundamento visível da unidade na sua Igreja particular, cada Bispo traz em si também o vínculo visível da comunhão eclesiástica entre a sua Igreja e a Igreja universal. Todos os Bispos, por isso, embora residentes nas diversas partes do mundo, mas sempre guardando a comunhão hierárquica com a Cabeça do Colégio episcopal e com o próprio Colégio na sua totalidade, dão consistência e forma à catolicidade da Igreja; ao mesmo tempo, conferem à Igreja particular, à qual presidem, a mesma nota da catolicidade.

         «O Bispo é princípio e fundamento visível da unidade na Igreja particular confiada ao seu ministério pastoral, mas para que cada Igreja particular seja plenamente Igreja, isto é, presença particular da Igreja universal com todos os seus elementos essenciais, constituída portanto à imagem da Igreja universal, nela deve estar presente, como elemento próprio, a suprema autoridade da Igreja: o Colégio episcopal “juntamente com a sua Cabeça, o Romano Pontífice, e nunca sem ele”».[80]

         Na comunhão das Igrejas, por conseguinte, o Bispo representa a sua Igreja particular e, nesta, ele representa a comunhão das Igrejas. De facto, mediante o ministério episcopal cada Igreja particular, que é também uma portio Ecclesiae universalis, [81] vive a totalidade da una-santa e, nela, está presente a totalidade da católica-apostólica.[82]

 

66.    A segunda consequência, sobre a qual parece justo determo-nos, é que precisamente esta união colegial, ou comunhão fraterna de caridade, ou afecto colegial, é a fonte da solicitude que cada Bispo, por instituição e ordem de Cristo, deve ter por toda a Igreja e pelas outras Igrejas particulares. Amplia-se deste modo também a sua solicitude por «aquelas regiões do mundo onde ainda não foi anunciada a palavra de Deus, ou em que, sobretudo por causa da escassez de sacerdotes, os fiéis correm o perigo de se afastarem da prática dos mandamentos e até de perderem a fé».[83]

         Por outro lado, já os próprios dons divinos, mediante os quais cada Bispo edifica a sua Igreja particular, ou seja o Evangelho e a Eucaristia, são os mesmos que não só constituem qualquer outra Igreja particular como reunião no Espírito, mas também a abrem, cada uma, à comunhão com todas as outras Igrejas. Na verdade, o anúncio do Evangelho é universal e, por vontade do Senhor, dirige-se a todos os homens e é imutável em todos os tempos.

         A celebração da Eucaristia, depois, pela sua própria natureza e como todas as outras acções litúrgicas, é acto de toda a Igreja, pertence ao  Corpo inteiro da Igreja, manifesta-o e implica-o.[84] Também daqui deriva o dever de todo o Bispo, como legítimo sucessor dos apóstolos e membro do Colégio episcopal, ser de certo modo garante da Igreja inteira (sponsor Ecclesiae).[85]

 

 

Em comunhão com o Sucessor de Pedro 

67.    A eclesiologia de comunhão característica da Igreja Católica exprime as múltiplas relações de unidade não só na mesma fé, esperança e caridade, na mesma doutrina e nos sacramentos, entre todas as Igrejas particulares, mas também na concreta comunhão visível com um centro de unidade que é o ministério petrino do Romano Pontífice, princípio e fundamento da unidade da Igreja. Assim a unidade da Igreja manifesta-se como comunhão visível na santificação e no culto, na doutrina e no governo, como convém ao projecto divino de Cristo que quis Pedro e os seus sucessores como princípio de unidade visível, para que confirmassem os irmãos na fé.[86]

         A unidade da Igreja, em comunhão e sob a guia do sucessor de Pedro, é também fonte de esperança para o futuro do mundo. O desígnio de Deus é a unidade da inteira família humana e a Igreja católica conserva na sua estrutura este precioso dom.

         Essa unidade é fonte de confiança e de esperança para o futuro da missão dos cristãos no mundo. Com efeito, ela é garantia da continuidade da verdade e da vida do Evangelho: a plenitude de uma Igreja que seja una, santa, católica e apostólica, como foi querida por Cristo, e que «subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele».[87]

 

68.    Múltiplos são os vínculos que unem cada um dos Bispos com o ministério de Pedro. Em primeiro lugar, a comunhão na vida divina, de modo especial através da celebração da Eucaristia, fundamento da unidade da Igreja em Cristo.[88] Toda a celebração da Eucaristia, sinal da «sanctorum communio», isto é, da comunhão dos santos e das coisas santas, segundo a expressão querida à antiguidade cristã,[89] é realizada em união não só com o próprio Bispo, mas antes de tudo com o Papa e com a ordem episcopal, por conseguinte com o clero e com o inteiro povo de Deus, como se exprimem os diversos formulários da Oração eucarística.[90]

         Acrescente-se ainda a comunhão na pregação do Evangelho e na recta doutrina, na fidelidade ao magistério da Igreja que o Romano Pontífice exerce, especialmente nas questões da fé e dos costumes. O cordial acolhimento e difusão do magistério pontifício é sinal de autêntica comunhão e garantia de unidade na Igreja, também para guiar o povo de Deus pelos caminhos da verdade, de maneira especial em campos doutrinais que exigem também o estudo diligente e específico de novas problemáticas.[91]

         Enfim, também a necessária unidade na disciplina eclesiástica é sinal de comunhão na verdade e na vida, também nas variedades legítimas, segundo o direito.

 

 

Colaboração no ministério petrino 

69.    A pertença ao Colégio dos Bispos, que não pode ser concebida sem a comunhão com a sua Cabeça visível que é o Romano Pontífice, tem várias formas de participação e de exercício da colegialidade.

         Precisamente enquanto membro do Colégio episcopal, todo o Bispo no exercício do seu ministério se encontra e está em viva e dinâmica comunhão com o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro e Cabeça do Colégio, e com todos os outros irmãos Bispos espalhados pelo mundo inteiro. Nessa comunhão se actua a solicitude por todas as Igrejas espalhadas pelo mundo e a dimensão de missão, de cooperação e de colaboração missionária que é própria do ministério episcopal.

         Um específica forma de colaboração com o Romano Pontífice na solicitude pela Igreja inteira é o Sínodo dos Bispos, onde se dá uma frutuosa troca de notícias e de sugestões e são delineadas, à luz do Evangelho e da doutrina da Igreja, as orientações comuns que, se feitas próprias pelo Sucessor de Pedro e por ele propostas à Igreja inteira, revertem em benefício das próprias Igrejas locais. Desse modo a Igreja inteira é validamente sustentada para manter a comunhão na pluralidade das culturas e das situações.

         Fruto e expressão desta união colegial é a colaboração dos Bispos que pertencem a todas as partes do orbe católico nos organismos da Santa Sé, em particular nos Dicastérios da Cúria Romana e em várias comissões, onde podem de maneira eficaz trazer o seu próprio contributo como pastores de Igrejas particulares.

 

 

As visitas «ad limina» e as relações com a Santa Sé 

70.    Um momento importante, manifestação da comunhão com o Papa e com os organismos da Santa Sé, é constituído pelas visitas ad limina. Elas são feitas na comunhão sacramental da celebração eucarística, na oração, no encontro pessoal dos Bispos com o Papa e os seus colaboradores. São ocasião de discernimento que traz ao centro da comunhão visível as realidades, os anseios, as esperanças, as alegrias e os problemas das Igrejas particulares para um enriquecimento da catolicidade e uma particular experiência da unidade.

         Nos últimos tempos, por ocasião dessas visitas, os próprios pastores tiveram a oportunidade de compartilhar entre si momentos de oração, em companhia dos mais estreitos colaboradores diocesanos e de algum grupo de fiéis, acentuando assim um verdadeiro e autêntico sentido renovado das visitas dos pastores das Igrejas particulares «ad limina apostolorum».[92]

         Muitos Bispos, nas respostas aos Lineamenta, fizeram votos por que a relação entre o Sucessor de Pedro e os Bispos diocesanos, através dos Dicastérios da Santa Sé e os Representantes pontifícios, seja sempre mais marcada por critérios de colaboração recíproca e de estima fraterna, como actuação concreta de uma eclesiologia de comunhão, no respeito das competências.

 

 

 

 

 

As Conferências Episcopais

 

71.    Os Bispos vivem a sua comunhão com os outros Pastores no exercício da colegialidade episcopal. Desde a antiguidade essa realidade de comunhão encontrou uma expressão particularmente qualificada na celebração dos Concílios ecuménicos, e também dos Concílios particulares, quer plenários quer provinciais, Concílios que ainda hoje têm uma sua utilidade, contemporaneamente com o consolidar-se das Conferências Episcopais.

         A partir do século passado, de facto, surgiram as Conferências Episcopais que no Decreto Christus Dominus  encontraram um acolhimento particular e no CIC uma normativa precisa.[93] Recentemente, seguindo as recomendações do Sínodo Extraordinário de 1985, que pedia um estudo sobre a natureza teológica e jurídica das Conferências Episcopais, João Paulo II promulgou quanto a isto o Motu proprio Apostolos suos, que esclarece e define todo o argumento.[94]

         No Directório Ecclesiae imago estava de algum modo expressa a sua natureza, com estas palavras: «a Conferência Episcopal foi instituída a fim de poder cada dia oferecer um multíplice e fecundo contributo à aplicação concreta do afecto colegial. Por meio das Conferências é formulado de maneiras excelentes o espírito de comunhão com a Igreja universal e as diversas Igrejas particulares entre si».[95]

 

72.    Tendo presente a autoridade de cada um dos Bispos na sua Igreja particular, «na Conferência Episcopal os Bispos exercem em conjunto o ministério episcopal em favor dos fiéis do território da Conferência; mas para que esse exercício seja legítimo e obrigatório para os Bispos individualmente, é preciso a intervenção da suprema autoridade da Igreja que, mediante a lei universal ou especiais mandatos, confia determinadas questões à deliberação da Conferência Episcopal».[96]

         «O exercício conjunto do ministério episcopal concerne também à função doutrinal».[97] Os Bispos reunidos na Conferência Episcopal devem, antes de mais, cuidar de que o magistério universal chegue ao povo que lhes está confiado.[98] Para que as declarações doutrinais da Conferência Episcopal obriguem os fiéis a aderir a elas com religioso obséquio da alma, devem ser aprovadas por unanimidade, ou então, aprovadas com maioria qualificada, obter a recognitio da Sé Apostólica.[99]

         As Igrejas orientais patriarcais e arquiepiscopais maiores têm as suas próprias instituições de carácter sinodal, como o Sínodo patriarcal[100] e a assembleia patriarcal, e gozam de leis próprias. O mesmo CCEO contempla as assembleias dos hierarcas de diversas Igrejas sui iuris.[101]

         Existem também organismos como as Reuniões Internacionais de Conferências Episcopais a nível continental ou regional devido à sua proximidade, que, embora não tenham as competências das Conferências Episcopais, propriamente ditas, segundo as normas do direito canónico, contudo são instrumentos úteis, através dos quais se estabelecem relações de colaboração entre os Bispos em vista do bem comum.[102]

 

 

Comunhão afectiva e efectiva

 

73.    As relações que se estabelecem entre os Bispos quer no âmbito dos Sínodos patriarcais das Igreja orientais, quer através das Conferências Episcopais, quer mediante outras formas de colaboração e de comunhão, cada uma segundo a própria natureza teológica e jurídica, não devem ser vistas só em função do despacho burocrático de questões internas e externas. Antes, no espírito de comunhão entre os pastores das Igrejas e no affectus collegialis, próprio da participação sacramental na solicitude pelo inteiro povo de Deus, elas devem constituir uma verdadeira experiência de espiritualidade, um exercício de comunhão afectiva e efectiva.

         As assembleias episcopais devem, portanto, realizar-se na escuta recíproca em virtude da comum responsabilidade e solicitude eclesial. Elas constituem momentos de responsabilidade pastoral, de fraternidade evangélica, de partilha de problemas, de verdadeiro discernimento eclesial e espiritual; são momentos em que os Bispos, com a sabedoria do Evangelho, iluminam os problemas do nosso tempo, numa ajuda mútua que confia na graça do Senhor, presente no meio daqueles que estão reunidos no seu nome (cf. Mt 18, 20), e na assistência do Espírito Santo que guia a Igreja.

 

74.    Esta ajuda recíproca entre os Bispos, e de modo especial por parte dos metropolitas, pode e deve transformar-se em encorajamento, em apoio no discernimento, em conselho recíproco e eventualmente numa oportuna correcção fraterna, segundo o Evangelho, em momentos de dificuldade.

         Alguns fazem votos por que, em virtude da comunhão fraterna na graça do Episcopado e na unidade da Igreja, se estabeleçam relações de ajuda recíproca entre dioceses grandes e pequenas, com aquelas ajudas que se revelarem oportunas, como o intercâmbio de agentes pastorais, meios económicos, subsídios e a constituição de estruturas e ofícios comuns, quando as dioceses são próximas. Devem ser encorajadas as gemelagens entre as dioceses, como Igrejas espalhadas pelo mundo, especialmente com as mais necessitadas e jovens, em sinal de solicitude pela Igreja universal.

         Nas respostas aos Lineamenta pede-se que sejam esclarecidas as relações quando, por várias razões, sobretudo devido à diversidade de Igrejas “sui iuris”, dentro do mesmo território diversos Bispos estão a presidir os seus respectivos fiéis. É preciso que se estabeleçam determinados critérios para favorecer o testemunho da unidade.

 

 

 

 

 

II.    ALGUMAS PROBLEMÁTICAS PARTICULARES

 

Diversas tipologias do ministério episcopal

 

75.    Das respostas aos Lineamenta emergem algumas questões que merecem uma particular atenção a fim de esclarecer, à luz da experiência dos últimos anos, particulares tarefas, direitos e deveres, no respeito dos dons próprios de cada Bispo.

         A primeira refere-se à variedade do ministério episcopal  como se delineia através da história e das tradições da Igreja.

         No interior da Igreja emerge o ministério do Bispo eleito e consagrado para o serviço de uma Igreja particular. Entre estes, é pelo Senhor investido de uma função particular o  Bispo de Roma. A Igreja que está em Roma preside à caridade, possui uma particular principalidade e, pelo seu particular vínculo com o apóstolo Pedro, o seu Bispo é Cabeça e Pastor da Igreja universal.[103] Ele, animado pelo Espírito do Bom Pastor, apascenta o rebanho universal de Cristo e confirma os irmãos na verdade, como sinal de comunhão e de unidade diante de todas as outras Igrejas e Confissões cristãs, diante de outras religiões e da inteira sociedade.

         Uma particular figura episcopal, segundo a tradição da Igreja, revestem os Bispos que com o título de Patriarcas presidem às Igrejas católicas orientais. Ao Patriarca está reservada uma particular honra como Pai e Cabeça da sua Igreja patriarcal.[104] Nas Igrejas orientais católicas encontram-se também os Arcebispos maiores que são Metropolitas de uma determinada sede reconhecida pela suprema autoridade da Igreja, os quais presidem a uma inteira Igreja oriental sui iuris, à qual não é atribuído o título patriarcal.[105]

         Os Arcebispos e Bispos diocesanos ou das eparquias são constituídos pastores das suas Igrejas particulares.

         Existem, além dos Arcebispos e Bispos postos à frente de uma Igreja particular residencial, outros Arcebispos e Bispos, distinguidos pela graça e dignidade episcopal, ao serviço de toda a Igreja e com um particular vínculo com o ministério petrino no governo da Igreja; entre estes os Bispos criados Cardeais, mesmo sem uma sede particular. Outros colaboram com o Romano Pontífice na solicitude da Igreja universal e estão ao serviço da Santa Sé, com encargos na Cúria Romana ou nas Nunciaturas e Delegações apostólicas.

         Devem ser mencionados também os Bispos Metropolitas das Igreja do Oriente que presidem a uma província dentro dos confins do território de uma Igreja Patriarcal, segundo as normas do próprio direito particular. Também na Igreja latina encontramos os Metropolitas, que presidem a uma província eclesiástica com próprios direitos e deveres, nos termos do direito.

         Os Bispos Coadjutores  e Auxiliares, tanto diocesanos como das eparquias, estão ao serviço das próprias dioceses ou eparquias e vão em ajuda do Bispo diocesano ou da eparquia quando as circunstâncias o aconselham, nos termos do próprio direito.

         Esta simples enumeração ilustra a rica variedade do ministèrio episcopal na Igreja universal e particular, a partir do ponto de vista teológico e institucional.

 

 

Os Bispo eméritos

 

76.    Hoje, aumentaram de modo considerável os Bispos que, pelas razões previstas pelo direito, renunciaram ao ofício pastoral. Repetidas vezes foi posto o problema de uma sua maior participação na vida eclesial.

         Os Bispos eméritos, continuando a ser membros do Colégio Episcopal, mantêm o direito/dever de participar nos actos do Colégio, segundo os modos previstos pelo direito.[106]

         Além disso, tendo em consideração a sua experiência pastoral, devem ser consultados sobre as questões de índole geral. Para que, depois, permaneçam informados sobre os problemas de maior importância, são a eles enviados com antecipação os documentos da Santa Sé e do Bispo diocesano o boletim diocesano, assim como outros documentos. Em vista da sua competência em determinadas matérias eles podem ser incluídos como membros adjuntos dos Dicastérios da Cúria Romana e nomeados consultores dos mesmos; ser eleitos, nos casos previstos pelos estatutos das diversas Conferências Episcopais, para o Sínodo dos Bispos; se pelos estatutos das Conferências dos Bispos não fosse prevista a sua presença com voto deliberativo, participar em alguma reunião ou comissão de estudo.[107]

         Nas respostas aos Lineamenta  faz-se voto por que quanto previsto pelo direito seja aplicado fielmente.

         Pede-se que não falte a nenhum Bispo emérito um conveniente tratamento económico e se procurem louváveis soluções que evitem o seu isolamento e favoreçam a sua plena vitalidade eclesial.

         Convém tomar em consideração as necessárias atenções devidas aos Bispos idosos ou doentes que constituem, também na Igreja e no meio dos fiéis, um exemplo de amor a Cristo e de doação da vida no seu ministério, na oração e no sofrimento.

         Enfim, o conselho dos coirmãos Bispos pode ser de grande ajuda e alívio no momento em que chega o tempo de renunciar ao ofício. Da sabedoria, compreensão e encorajamento de outros Bispos pode vir também a ajuda, a fim de que nesta difícil passagem humana e espiritual, as decisões que dizem respeito ao próprio futuro possam ser tomadas com serenidade e confiança na divina Providência.

 

 

Eleição e formação dos Bispos

 

77.    Entre as repostas aos Lineamenta algumas se referem ao argumento das consultações prévias à eleição dos Bispos, a fim de que através delas se possa favorecer a escolha do candidato mais apto à missão para a qual é destinado.

         Dada a especial responsabilidade do ministério episcopal, considera-se sempre cada vez mais a oportunidade de particulares iniciativas a favor de Bispos de recente nomeação. Nos últimos anos, foram predispostas para eles actividades formativas a fim de terem ocasião de se preparar melhor para responder às exigências do ministério sob o ponto de vista teológico, pastoral, canónico, espiritual e administrativo.

         Através de oportunos programas de formação permanente é promovida a necessária actualização doutrinal, pastoral e espiritual dos Bispos, juntamente com um incremento da sua comunhão colegial e da eficácia pastoral nas respectivas Dioceses.

         Depois, em vista das decisões, tanto ordinárias como graves, a serem tomadas, sente-se a necessidade particular de convidar os Bispos a dedicarem um adequado tempo de meditação e de contemplação nas vicissitudes quotidianas do ministério, quando a urgência das questões bate à porta do coração e a solicitude do pastor invoca uma paragem de piedade e a escuta do Espírito na serenidade da alma.

 


CAPÍTULO IV

 

O BISPO AO SERVIÇO DA SUA IGREJA

 

 

O ícone bíblico do lava-pés: Jo 13, 1-16

 

78.    No ápice da sua vida, quando Jesus empreende a última etapa do seu êxodo pascal, para se oferecer livremente ao Pai para a nossa salvação, Ele apresenta-se diante dos seus discípulos como o servo de todos.

         Com o lava-pés, Jesus deixou-nos o ícone do amor serviçal até ao dom da vida, como modelo para os verdadeiros discípulos do Evangelho. O exemplo de Cristo requer uma continuidade das suas próprias atitudes: «Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, façais vós também» (Jo 13, 15). Este gesto do serviço humilde, que todo o Bispo é chamado a repetir de maneira ritual cada ano na Quinta-Feira Santa, na celebração da Ceia do Senhor, está ligado ao ministério da caridade, ao mandamento novo do amor recíproco (cf. Jo 13, 34-35) e revela-se como um sinal que tem a sua plena realização na Eucaristia e na morte sacrifical na Cruz. Serviço, caridade, Eucaristia, cruz e ressurreição, estão intimamente unidos na vida de Jesus, no seu ensinamento e exemplo para a sua Igreja, no seu memorial.

         À luz deste ícone joanino, o ministério do Bispo na sua Igreja particular apresenta-se como um serviço de amor e a sua figura como a de Cristo, servo dos irmãos. Com estes sentimentos, Jesus realizou aquele gesto também como sinal de esperança, sabendo que o Pai pusera tudo nas suas mãos e que Ele viera do Pai e ao Pai retornava, na expectativa certa de rever os seus discípulos depois da Páscoa (cf. Jo 13, 3). Assim também o Bispo na humildade do seu serviço proclamará a esperança com a palavra, celebrá-la-á com os sacramentos, actuá-la-á no meio do seu povo e com a sua gente, como o humilde inclinar-se sobre todas as necessidades dos fiéis, de modo especial dos mais necessitados.

 

 

 

 

 

 

I.    O BISPO NA SUA IGREJA PARTICULAR

 

A Igreja particular

 

79.    A tarefa específica do ministério episcopal adquire um seu particular valor e consistência na Igreja particular, para a qual o Bispo diocesano é eleito e consagrado. O ministério dos Bispos especifica-se como um serviço às Igrejas particulares espalhadas pelo mundo, nas quais e a partir das quais («in quibus et ex quibus») só existe a única Igreja católica.[108]

         A mútua relação de identidade e de representação que põe o Bispo no centro da Igreja particular exprime-se na afirmação da tradição, expressa com as palavras de Cipriano: «Deves saber que o Bispo está na Igreja e a Igreja está no Bispo, e se alguém não estiver com o Bispo, nem sequer estará na Igreja»,[109] Deste modo, o ministério do Bispo está inteiramente em relação à sua Igreja, que o abrange a si mesmo, e representa uma série de elementos de comunhão e de unidade na Igreja universal. Por outro lado, não se pode pensar numa Igreja particular sem a referência ao seu pastor. A Igreja particular pode explicar-se a partir do tríplice múnus episcopal da santificação, do magistério e do governo, que se entrelaça com a dimensão profética, sacerdotal e real do Povo de Deus.[110]

         Por essa razão, como já recordava o Directório Ecclesiae imago, o Bispo «deve harmonizar em si mesmo os aspectos de irmão e de pai, de discípulo de Cristo e de mestre da fé, de filho da Igreja e, num certo sentido, de pai da mesma, sendo ele ministro da regeneração sobrenatural dos cristãos».[111]

 

 

 

Um mistério que converge para o Bispo juntamente com o seu povo

 

80.    Para a pessoa do Bispo, unido ao seu povo, convergem os caracteres da comunhão eclesial. Manifesta-se nele a comunhão trinitária, para que ele se torne o sinal do «Pai»; é presença de Cristo, «cabeça, esposo e servo»; é «ecónomo» da graça e homem do Espírito. Realiza-se no Bispo a comunhão apostólica, que o faz testemunha da tradição viva do Evangelho que se relaciona com a sucessão apostólica. Actua nele a comunhão hierárquica que o une ao carisma petrino, como os apóstolos estavam unidos a Pedro em Jerusalém.

         Concretiza-se na graça do seu ministério de mestre, sacerdote e pastor a unidade da Igreja particular, que encontra nele o ponto da comunhão entre os presbíteros e as diversas paróquias e assembleias locais, que em comunhão com ele se tornam «legítimas». Ele é, enfim, animador da comunhão dos carismas e dos ministérios dos outros fiéis de Cristo, consagrados e leigos, que nele encontram o princípio de unidade e de força missionária.

         Também na pessoa do Bispo se exprime a reciprocidade entre a Igreja universal e as Igrejas particulares que, abertas umas às outras, se reencontram como porções do povo de Deus e «portiones Ecclesiae»[112] na una, santa, católica e apostólica, a qual preexiste a elas e nelas se encarna como comunidades históricas, territoriais e culturais concretas.

 

 

Palavra, Eucaristia, comunidade

 

81.    No Decreto sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus  encontramos delineado em termos teológicos o ícone da Igreja particular, com estas palavras, referidas explicitamente à diocese: «Diocese é a porção do Povo de Deus, que se confia a um Bispo para que apascente com a colaboração do presbitério, de tal modo que, unida ao seu pastor e reunida por ele no Espírito Santo por meio do Evangelho e da Eucaristia, constitui uma Igreja particular, na qual está e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica».[113]

         Os elementos constitutivos da Igreja particular à volta do Bispo podem ser resumidos nestas   instâncias fundamentais da eclesiologia do Novo Testamento.[114]

         a) A pregação do Evangelho como presença de Cristo e da sua Palavra. Esta Palavra faz a Igreja. A Igreja nasce, antes de mais, da Palavra; ela é «creatura Verbi», no sopro vivificante do Espírito. Com efeito, a Igreja inicia a ser «ecclesia», comunidade dos convocados através da Palavra do Evangelho; é formada e como que plasmada pela Palavra proclamada, acolhida com fé, continuamente pregada, como nos ensinam os Actos dos Apóstolos (cf. Act 2, 42 ss). Por isso, é intrínseca à Igreja a proclamação litúrgica da Palavra, a evangelização e a catequese, no poder vivificante do Espírito.

         b) O mistério da Ceia do Senhor ou a Eucaristia que faz a Igreja. É Cristo, de facto, a Cabeça e o Esposo da Igreja e a Eucaristia é o memorial sacramental da morte e ressurreição de Cristo glorioso, que torna a Igreja una, santa, católica e apostólica.

         c) Esta sinaxe, que se torna concreta também em «comunidades pequenas, pobres e dispersas», pressupõe e gera a vida teologal: o amor, a esperança e a caridade, isto é, a existência cristã que se exprime na comunhão entre os fiéis e na sua missão. A Eucaristia permanece fonte e ápice da vida da Igreja.[115]

         Nestes três sinais podem-se divisar três características originais do facto de sermos cristãos. Com efeito, a Igreja na sua ligação visível com o Mestre invisível e com o seu Espírito recebe a Palavra do Evangelho, celebra o mistério da Ceia do Senhor e vive na caridade mediante a mesma fé  e esperança.

 

 

 

 

Una, santa, católica e apostólica

 

82.    A Igreja particular traz em si toda a complexa realidade da Igreja como Povo de Deus, uma vez que envolve todos os baptizados na sua multíplice e intensa realidade sacerdotal, profética e real, com a variedade dos ministérios ordenados e dos carismas.

         Trata-se de um povo marcado pela graça dos sacramentos, constituído Igreja em Cristo e no Espírito para a glória do Pai. Mas é também um povo peregrino, enraizado aqui e agora numa terra, numa história e numa cultura.

         A Igreja particular é chamada continuamente a medir-se com a riqueza da Igreja universal, que ela mesma actualiza, torna presente e operante. É Igreja local, particular, mas projectada no desígnio escatológico que compreende: a unidade na vida teologal, no ministério, nos sacramentos, na vida, na missão, em comunhão com Pedro; a santidade na riqueza do Evangelho vivido e na amadurecida e rica experiência dos dons do Espírito Santo; a catolicidade como comunhão cordial com todos, na abertura à universalidade da Igreja e às suas múltiplas riquezas, capazes de ser integradas na reciprocidade; a apostolicidade, em virtude da tradição de fé e de vida sacramental que vem dos apóstolos, com a força do mandato missionário até aos confins da terra e até ao fim dos tempos.

 

 

Uma Igreja com o rosto humano

 

83.    Se a Igreja é a convergência do divino e do humano, a sua raiz divina é a Trindade, mas ela está também, como campo e vinha de Deus, plantada nesta terra; como povo em caminho vive num lugar, tem uma história, um presente e um futuro. Com efeito, uma Igreja particular possui as suas tradições, às vezes também litúrgicas, conserva os traços da história da salvação passada e presente, das quais vive e se projecta para um futuro.

         É preciso valorizar esta realidade terrena da Igreja particular, que vive aqui e hoje. E isto, para captar até ao fundo o seu ser e o seu agir, as suas riquezas e debilidades, as suas necessidades, em vista da evangelização e do testemunho. Como Igreja particular, depois, tem a consciência de estar na comunhão das coisas santas e dos santos do céu e da terra, que é a verdadeira e grande «communio sanctorum».

         A Igreja, além disso, é comunhão de pessoas e de rostos, onde cada um é irrepetível e onde nenhuma individualidade é cancelada. Os rostos, depois, indicam  a realidade existencial do modo de viver das pessoas, homens e mulheres de toda a idade e condição.

         Nesta «igreja dos rostos» pode-se ler uma mensagem concreta, uma urgência de presença, de evangelização, de testemunho, uma oferta de diálogo, uma exigência de autenticidade. Todas as vezes que se pensa na Igreja particular não se devem esquecer os rostos concretos, porque neles se reflecte a imagem viva de Cristo. Paulo VI recordou que «a Igreja universal se encarna de facto nas Igrejas particulares, e essas são constituídas por tal ou tal porção da humanidade em concreto, que fala uma determinada língua e é tributária de uma certa herança cultural, de uma visão do mundo, de um passado histórico e, enfim, de um substrato humano específico ».[116]

         Na realidade, também cada Igreja particular tem o seu rosto peculiar, humano e geográfico, que determina de igual modo uma particular organização pastoral. Há dioceses que abrangem especialmente populosas cidades modernas; outras se estendem em territórios grandes e difíceis de serem atingidos pelo Pastor.

 

 

Igreja universal, Igreja particular

 

84.    O Documento da Congregação para a Doutrina da Fé Communionis notio,  a fim de determinar alguns valores e limites da eclesiologia de comunhão e da eclesiologia eucarística, quis especificar com razão alguns aspectos da plenitude e dos limites da Igreja particular, que respondam à sua autêntica perspectiva católica.

         Assim, por exemplo, põe de sobreaviso contra um conceito de Igreja particular que apresente a comunhão de cada uma das Igrejas de modo a enfraquecer, no plano visível e institucional, a concepção da unidade da Igreja. «Chega a afirmar-se que cada Igreja particular é um sujeito em si mesmo complexo, e que a Igreja universal é o resultado de reconhecimento recíproco das Igrejas particulares. Esta unilateralidade eclesiológica, redutiva tanto do conceito de Igreja universal como do de Igreja particular, manifesta uma insuficiente compreensão do conceito de comunhão».[117]

         Precisamente para não ameaçar a comunhão na sua dimensão de universalidade, no mesmo Documento se encontra uma afirmação esclarecedora: «na Igreja ninguém é estrangeiro: especialmente na celebração da Eucaristia, cada um dos fiéis se encontra na sua Igreja, na Igreja de Cristo».[118] De facto, todo o fiel pertencente ou não à diocese, à paróquia ou à comunidade particular, na celebração da Eucaristia deve sentir-se sempre na sua Igreja. Com efeito, ele, embora pertença a uma Igreja particular na qual foi baptizado ou vive ou participa na vida de Cristo, pertence de algum modo a todas as Igrejas particulares.[119]

         Este mistério de unidade está confiado ao ministério do Bispo na indissolúvel referência da Igreja particular à Igreja universal.

 

85.    Nesta porção do Povo de Deus uma comunidade pertencente à única família de Deus vive em plenitude a referência ao Reino de Cristo, no qual estão integradas todas as riquezas da catolicidade,[120] ocultas na Igreja do Pentecostes.[121]

         A referência à Igreja de Jerusalém faz com que cada Igreja tenha um necessário vínculo com Pedro, cabeça desta Igreja das origens. Esse vínculo dá carácter apostólico a cada  Igreja local através da sucessão apostólica dos Bispos. A comunhão na única Igreja e em cada uma das Igrejas supõe também a unidade no carisma de Pedro e, por conseguinte, a comunhão com todas as outras Igrejas espalhadas pelo mundo.

         Neste desígnio da unidade universal e das peculiaridades desenvolve-se como que uma espécie de desígnio trinitário, que sela e modela a existência própria de cada um das Igrejas na Igreja católica e a sua mútua relação. Não é, portanto, sem significado a realidade social, cultural, geográfica, histórica de cada Igreja. Na realidade das Igrejas locais espalhadas pelo mundo, a Igreja universal realiza o mistério da unidade e da reconciliação de todos em Cristo. E esta comunhão de todos os membros da Igreja particular tem no Bispo o sinal e o garante.

 

 

II.   A COMUNHÃO E A MISSÃO NA IGREJA PARTICULAR

 

Em comunhão com o presbitério

 

86.    Um necessário acto da comunhão é o da união sacramental do presbitério à volta do seu Bispo. Segundo os textos mais antigos da tradição, como os de Inácio de Antioquia, ele é parte essencial da Igreja particular. Entre o Bispo e os presbíteros existe a «communio sacramentalis» no sacerdócio ministerial ou hierárquico, participação no único sacerdócio de Cristo e portanto, ainda que em grau diverso, no único ministério eclesial ordenado e na única missão apostólica.

         Em virtude disto e, por conseguinte, da cooperação no ministério episcopal os presbíteros «reúnem a família de Deus  em fraternidade animada por um mesmo espírito».[122]

         Na esteira do Vaticano II, João Paulo II pôs em evidência a pertença dos presbíteros à Igreja particular como fundamento de uma rica teologia e espiritualidade: «É necessário que o sacerdote tenha a consciência de que o seu estar numa Igreja particular constitui por natureza um elemento qualificante para viver uma espiritualidade cristã. Nesse sentido, o presbítero encontra, precisamente na sua pertença e dedicação à Igreja particular, uma fonte de significados, de critérios de discernimento e acção, que configuram quer a sua missão pastoral quer a sua vida espiritual».[123]

         Ao presbitério da diocese pertencem também todos os presbíteros dos Institutos de vida consagrada e das Sociedades de vida apostólica. Estes vivem os próprios carismas na unidade, na comunhão e na missão da Igreja particular. Nela contribuem para pôr em comum a riqueza dos dons de espiritualidade e de apostolado que lhes são próprios. Assim as Igrejas particulares podem ser enriquecidas a nível  carismático «à imagem» da Igreja universal, à qual fazem referência certas instituições supradiocesanas.[124]

         Na realidade, a dimensão de universalidade está ínsita na comunhão com todas as Igrejas e na própria natureza do ministério presbiteral, que tem uma missão universal.[125]

 

87.    O Concílio Vaticano II descreveu as relações recíprocas entre o Bispo e os presbíteros com imagens e termos diversos. Indicou no Bispo o «pai» dos presbíteros,[126] mas também uniu ao chamado da paternidade espiritual o da fraternidade, da amizade, da necessária colaboração e do conselho. É verdade, porém, que a graça sacramental chega ao presbítero através do ministério do Bispo e esta mesma lhe é dada, em vista da cooperação com o Bispo para a missão apostólica. Esta mesma graça une os presbíteros às diversas funções do ministério episcopal, de modo particular à de servidor do Evangelho de Jesus Cristo, para a salvação do mundo. Em virtude deste vínculo sacramental e hierárquico os presbíteros, necessários colaboradores e conselheiros, assumem, segundo o seu grau, os ofícios e a solicitude do Bispo e o tornam presente em cada uma das comunidades.[127]

         A relação sacramental-hierárquica traduz-se na busca, constantemente cultivada, de uma comunhão real do Bispo com os membros do seu presbitério e confere consistência e significado à atitude interior e exterior do Bispo em relação aos seus presbíteros. Lugar em que se realiza essa comunhão é o Conselho presbiteral, que, representando o presbitério, é o senado do Bispo e o ajuda no governo da diocese, para promover de modo mais eficaz o bem de todos os fiéis. É tarefa do Bispo consultá-lo e acolher de bom grado o seu parecer.[128]

 

 

Um particular cuidado pelos sacerdotes

 

88.    Como modelo do rebanho (cf. 1 Pd 5, 3), o Bispo deve sê-lo antes de tudo para o seu clero, ao qual se propõe como exemplo de oração, de sentido eclesial, de zelo apostólico, de dedicação à pastoral de conjunto e de colaboração com todos os outros fiéis.

         Ao Bispo, depois, incumbe em primeiro lugar a responsabilidade da santificação dos seus presbíteros e da sua formação permanente. À luz destas instâncias espirituais ele age de modo a impregnar o ministério dos presbíteros no modo mais côngruo possível. Ele deve quotidianamente velar para que todos os presbíteros saibam e percebam de modo concreto que não estão sozinhos ou abandonados, mas são membros e partes de «um único presbitério».

         Nas respostas aos Lineamenta emerge o facto que, como os sacerdotes têm necessidade de referência espiritual, eles devem encontrar no Bispo o seu apoio. O Bispo, como pai e pastor, exprime e promove relações, tanto pessoais como colectivas, com os seus sacerdotes ao envolvê-los de maneira responsável no Conselho presbiteral ou noutros encontros formativos de carácter pastoral e espiritual. Toda a divisão entre Bispo e presbíteros constitui um escândalo para os fiéis e, portanto, torna não credível o anúncio; ao contrário, no sinal da fraternidade o exercício da autoridade torna-se realmente um serviço. Além disso, o Bispo, estabelecendo uma relação profunda com os seus presbíteros, vem a conhecer os seus dotes e assim a cada um poderá confiar a tarefa que melhor lhe convém.

 

 

O ministério e a cooperação dos diáconos

 

89.    Na comunhão da Igreja particular participam os diáconos, quer os que são ordenados em ordem ao sacerdócio, quer os diáconos permanentes. Eles estão ao serviço do Bispo e da Igreja particular no seu ministério da pregação do Evangelho, do serviço da Eucaristia e da caridade.[129]

         Quanto aos diáconos ordenados não para o sacerdócio mas para o ministério é certo que, pelo seu grau na Ordem sagrada, estão intimamente unidos ao Bispo e ao seu presbitério.[130] Por isso, o Bispo é o primeiro responsável pelo discernimento da vocação dos candidatos,[131] e pela sua formação espiritual, teológica e pastoral. É sempre o Bispo que, tendo em conta as necessidades pastorais e as condições familiares e profissionais, lhes confia as tarefas ministeriais fazendo com que sejam organicamente inseridos na vida da Igreja particular e que não seja descuidada a sua formação permanente e a promoção de uma sua específica espiritualidade.[132]

 

O Seminário e a pastoral vocacional

 

90.    Da importância fundamental dos presbíteros e dos diáconos na Igreja particular, nasce também a primordial preocupação do Bispo pela pastoral vocacional em geral e pela pastoral das vocações sacerdotais e diaconais em especial, com um cuidado particular pelo Seminário, muitas vezes designado na tradição eclesiástica como a pupila do olho do pastor. O Seminário como lugar e ambiente comunitário, onde crescem, amadurecem e se formam os futuros presbíteros, é sinal daquela esperança de que vive uma Igreja particular diante do futuro.

         Diante da escassez de vocações numa Igreja que não pode renunciar à plenitude do ministério sacerdotal para celebrar a palavra e os sacramentos, de modo especial a Eucaristia e a remissão dos pecados, é necessária a coragem de propor a vida sacerdotal. Por essa razão, também como específico testemunho de esperança, entre as tarefas mais importantes do Bispo deve-se incluir o cuidado das vocações e o directo interesse pela formação integral dos futuros sacerdotes, segundo as directrizes do Magistério. Isto exige do Bispo um conhecimento pessoal daqueles que devem receber a ordenação sacerdotal e diaconal.

         Hoje, deve ser proposta de novo com confiança a estima pela chamada ao sacerdócio, com a colaboração das famílias, das paróquias, das pessoas consagradas e dos movimentos eclesiais e comunidades. Uma Igreja, na qual falte a necessária referência ao presbítero ordenado, corre o perigo de perder a sua identidade. Portanto, não se pode supor uma comunidade cristã que prescinda do ministério presbiteral, em vista do ensino, do governo e dos sacramentos, especialmente da penitência, da unção dos enfermos e da Eucaristia.

 

 

Em relação aos outros ministérios

 

91.    Ao lado do presbiterado e do diaconato, a Igreja desenvolve a sua missão também através dos ministérios instituídos e de outras tarefas e ofícios. Em consideração desta multiplicidade é preciso que o Bispo promova os vários ministérios com que a Igreja se torna adequada a toda a obra boa. Estes devem ser confiados tanto às pessoas consagradas como aos fiéis leigos, em virtude da comum vocação e missão que nasce do baptismo e da confirmação e em base dos particulares dotes que cada um põe com alegria ao serviço do Evangelho.

         É aqui que emerge o tríplice aspecto ministerial eclesial, unido à tríplice dignidade dos baptizados no povo de Deus: do múnus profético nascem a evangelização e a catequese, hauridas na escuta da Palavra; do múnus sacerdotal irradiam-se os ministérios ligados com a celebração litúrgica, como também o culto espiritual da vida quotidiana e a oração, para fazer da existência um dom, uma adoração em Espírito e verdade; do múnus real surgem todos os ministérios que estão ao serviço do Reino de Deus no mundo, nas estruturas da sociedade, na família, nas fábricas, com todas as formas concretas da caridade, da acção social, da sã e intensa «caridade política».

         Se em tudo vigorar a comunhão, então a força da Trindade, que é a caridade, actua e manifesta-se e renova-se na comunhão recíproca a esperança.

 

 

Solicitude pela vida consagrada

 

92.    A vida consagrada é expressão privilegiada da Igreja, Esposa do Verbo, ou melhor, como é recordado desde o princípio na Exortação Apostólica pós-sinodal Vita consecrata, sua parte integrante, colocada «no próprio coração da Igreja como elemento decisivo para a sua missão»[133]. Por ela, na variedade das suas formas, com uma visibilidade típica e permanente, tornam-se de algum modo presentes no mundo e são indicados como valor absoluto e escatológico, os traços característicos de Jesus, casto, pobre e obediente. A Igreja inteira está agradecida à Santíssima Trindade pelo dom da vida consagrada. Isto mostra como a vida da Igreja não se esgota na estrutura hierárquica, como se fosse composta unicamente por ministros sagrados e por fiéis leigos, mas faz referência a uma mais ampla, rica e articulada estrutura fundamental, que é carismático-institucional, querida pelo próprio Cristo e que inclui a vida consagrada.[134]

         A vida consagrada provém do Espírito e é um seu dom constitutivo para a vida e a santidade da Igreja. Ela está necessariamente numa relação hierárquica com o ministério sagrado, especialmente com o do Romano Pontífice e o dos Bispos. Na Exortação Apostólica Vita consecrata, João Paulo II recordou que os vários Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica têm com o Sucessor de Pedro um peculiar vínculo de comunhão, no qual está também radicado o seu carácter de universalidade e a sua conotação supradiocesana.[135]

         Aos Bispos em união com o Romano Pontífice, como já enunciavam as notas directivas  de Mutuae relationes, Cristo-cabeça confia a tarefa «de cuidar dos carismas religiosos, tanto mais porque a mesma indivisibilidade do ministério pastoral os torna aperfeiçoadores de todo o rebanho. Deste modo, promovendo a vida religiosa e protegendo-a em conformidade com as suas próprias características, os Bispos cumprem um genuíno dever pastoral».[136]

         Na Exortação Vita consecrata está sempre presente a exigência de incrementar as relações mútuas entre as Conferências Episcopais, os Superiores maiores e as suas próprias Conferências, com o fim de favorecer a riqueza dos carismas e de agir para o bem da Igreja universal e particular.

         As pessoas consagradas, onde quer que se encontrem, vivem a sua vocação para a Igreja universal no interior de uma determinada Igreja particular, onde exprimem a sua pertença eclesial e desempenham tarefas significativas. De modo especial, em razão do carácter profético inerente à vida consagrada, elas são anúncio vivido do Evangelho da esperança, testemunhas eloquentes do primado de Deus na vida cristã e do poder do seu amor na fragilidade da condição humana.[137] Daqui nasce a importância, para o desenvolvimento harmonioso da pastoral diocesana, da colaboração entre cada Bispo e as pessoas consagradas.[138]

         A Igreja está agradecida aos inúmeros Bispos que, no decurso da sua história até hoje, estimaram a tal ponto a vida consagrada como peculiar dom do Espírito para o povo de Deus, que eles próprios fundaram famílias religiosas, muitas das quais ainda hoje são activas no serviço da Igreja universal e das Igrejas particulares. O facto, depois, de o Bispo se dedicar à tutela da fidelidade dos institutos ao seu carisma, é um motivo de esperança para os mesmos institutos, especialmente para aqueles que se encontram em dificuldade.[139]

 

 

Um laicado empenhado e responsável

 

93.    O Concílio Vaticano II, a Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos de 1987 e a sucessiva  Exortação Apostólica Christifideles laici de João Paulo II esclareceram amplamente a vocação e missão dos fiéis leigos na Igreja e no mundo.[140] A dignidade baptismal, que os torna participantes do sacerdócio de Cristo, e um dom particular do Espírito, conferem-lhes um lugar próprio no Corpo da Igreja e chamam-nos a participar, segundo uma modalidade própria, na missão redentora que ela exerce, por mandato de Cristo, até ao fim dos séculos.

         Os leigos exercem a própria e característica responsabilidade cristã nos vários campos da vida e da família, da política, do mundo profissional e social, da economia, da cultura, da ciência, das artes, da vida internacional e dos mass media.

         Em todas as suas múltiplas actividades os fiéis leigos estão chamados a unir o seu talento pessoal e a competência adquirida, ao testemunho claro da sua fé em Jesus Cristo. Empenhados nas realidades temporais, os leigos, como todo o cristão, são chamados a dar a razão da esperança teologal (cf. 1 Pd 3, 15) e a ser solícitos no trabalho relativo a esta terra precisamente porque estimulados pela expectativa de uma «nova terra».[141] Eles estão em condição de exercer uma grande influência sobre a cultura, alargando-lhe as perspectivas e os horizonte de esperança. Fazendo assim, dão também um contributo especial para a sua evangelização, tanto mais necessária, quanto, no nosso tempo, ainda persiste o drama da separação entre o Evangelho e a cultura. Depois, no âmbito das comunicações que muito influencia a mentalidade das pessoas, cabe também aos fiéis leigos uma responsabilidade particular sobretudo em vista de uma divulgação correcta dos valores éticos.

         Nas respostas aos Lineamenta recomenda-se aos Bispos, para evitar as intervenções impróprias ou o silêncio sobre os problemas emergentes, que criem alguns «fóruns» em que os leigos intervenham, segundo o carisma próprio da secularidade laical, com as suas competências, preenchendo a distância entre o Evangelho e a sociedade contemporânea.

        

94.    Se bem que os leigos, por vocação, tenham prevalentemente ocupações seculares, não se poderá esquecer que eles pertencem à única comunidade eclesial, da qual numericamente constituem a maior parte. Depois do Concílio Vaticano II desenvolveram-se, felizmente, novas formas de participação responsável dos leigos, homens e mulheres, na vida de cada uma das comunidades diocesanas e paroquiais. Estão, pois, presentes nos vários conselhos pastorais, desempenham um papel crescente em diversos serviços como a animação da liturgia ou da catequese, estão empenhados no ensino da religião católica nas escolas, etc.

         Um certo número de leigos aceita mesmo  dedicar-se a tais tarefas com compromissos permanentes e, por vezes, perpétuos. Esta colaboração dos fiéis leigos é certamente preciosa para as exigências da «nova evangelização», particularmente onde se regista um número insuficiente de ministros ordinários.

         A reflexão sobre os fiéis leigos deve incluir também a que diz respeito à necessidade da sua adequada formação. É óbvio, por outro lado, que o Bispo esteja atento em sustentar particularmente no plano espiritual, todos os que colaboram mais de perto na missão eclesial.

         Um lugar especial na formação dos fiéis leigos deve ser reconhecido à doutrina social da Igreja, para que esta os ilumine e estimule na sua acção, segundo as exigências urgentes de justiça e bem comum, à qual devem levar o seu contributo decisivo nas obras e serviços que a sociedade reclama. Por esta razão, torna-se necessária a promoção de escolas diocesanas de formação social e política, como instrumento pastoral indispensável.

         Sempre das respostas aos Lineamenta, observa-se que um laicado adulto, bem formado não só doutrinal mas também eclesialmente, é essencial para o ministério da evangelização. Sem esse laicado há o perigo de que em certas zonas a própria missão evangelizadora da Igreja venha a cessar,  sobretudo onde se lamenta uma forte falta de sacerdotes e os leigos desempenham a função de ministros assistentes. Em muitos territórios assume uma grande relevância a figura do catequista. É preciso, portanto, uma solida formação doutrinal, pastoral e espiritual de válidos catequistas, mas também de outros agentes pastorais capazes de actuar na diocese e nas paróquias, com uma autêntica acção eclesial também nos diversos campos em que o Evangelho deve tornar-se fermento da sociedade actual, como sinal de transformação e de esperança. Pede-se uma maior confiança, por parte dos Bispos e presbíteros, em relação aos leigos, que muitas vezes se sentem apreciados como adultos na fé e gostariam de se sentir mais participantes na vida e nos projectos diocesanos, especialmente no campo da evangelização.

 

 

Ao serviço da família

 

95.    Igualmente importante é a formação dos jovens para a vida matrimonial e familiar, segundo as suas esperanças e expectativas, mediante um amor profundo e autêntico, à luz do plano de Deus sobre o matrimónio e a família. A pastoral e a espiritualidade familiar, a atenção aos casais em dificuldade, a experiência de casais amadurecidos e a formação para o sacramento do matrimónio num itinerário de iniciação sacramental, são meios eficazes para enfrentar a crise de instabilidade e de infidelidade na aliança matrimonial.

         A proximidade do Bispo aos cônjuges e aos seus filhos, também através de jornadas diocesanas da família, é motivo de encorajamento recíproco.

 

 

Os jovens: uma prioridade pastoral para o futuro

 

96.    Um especial cuidado dos pastores é dirigido aos jovens. Eles são o futuro da Igreja e da humanidade. Um ministério de esperança não pode deixar de construir o futuro com aqueles aos quais está confiado o futuro. Como «sentinelas da noite», os jovens aguardam a aurora de um mundo novo, prontos a empenhar-se na vida e na acção da Igreja, se lhes forem propostas uma autêntica responsabilidade e uma verdadeira formação cristã. Como evangelizadores dos seus coetâneos, os jovens, com frequência distantes da Igreja, são um estímulo e um impulso para os Pastores em vista da renovação no interior das paróquias.

         O exemplo de João Paulo II, que através das Jornadas mundiais da Juventude demonstrou acreditar no futuro, abrindo um caminho de esperança, pode servir de apoio aos pastores da Igreja na proposta de uma autêntica pastoral juvenil, fundada sobre Cristo. A paixão pelo bem espiritual dos jovens do terceiro milénio é um forte motivo para os educar a fim de que transmitam o Evangelho às futuras gerações.

 

 

As paróquias

 

97.    No centro das Igrejas particulares encontram-se, como tecido cristão, as paróquias. A Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles laici, tomando como ponto de referência a teologia e a linguagem da Lumen gentium, descreve as comunidades paroquiais como uma presença da Igreja particular no território. Pode-se falar então do mistério eclesial da paróquia, ainda que pobre em pessoas e em meios, como que absorvida pelos edifícios em caóticos e populosos bairros modernos ou então dispersa em populações entre as montanhas e as aldeias ou nas extensões vastíssimas de certas regiões.[142]

         Portanto, a paróquia deve ser vista como família de Deus, fraternidade animada pelo Espírito,[143] como casa de família, fraterna e acolhedora.[144] Ela é a comunidade dos fiéis,[145] que se define como comunidade eucarística: comunidade de fé, onde vivem os fiéis de Cristo destinatários de carismas e serviços ministeriais e actuam o pároco, os presbíteros e os diáconos. Nela, depois, a comunhão com o Bispo exprime a unidade orgânica e hierárquica com toda a Igreja particular.

         Através dos leigos realiza-se a mediação humana da comunidade evangelizada e evangelizadora. Eles actuam a conjunção entre a Igreja e o mundo, entre a assembleia que se reúne em unidade e os povos onde se difunde em missão.

         No interior da comunidade paroquial é necessário que encontrem particulares momentos e expressões de presença e de convergência, no respeito pela própria vocação e carisma, os religiosos e as religiosas, os membros dos institutos seculares e das sociedades de vida apostólica, as diversas associações de fiéis e os movimentos eclesiais. Todos representam, pela sua vida em comum, a Igreja que permanece unida na oração, no trabalho, na partilha dos aspectos fundamentais da existência quotidiana.

As famílias, depois, reflectem a realidade de uma igreja doméstica, onde se torna viva a presença de Cristo. Assim a Igreja pode tornar-se, na sua tradicional e sempre válida expressão paroquial, usando as palavras do Beato João XXIII, o «fontanário da aldeia», uma fonte transbordante para saciar a sede de Deus e oferecer a água viva do Evangelho de Cristo.[146]

 

98.            Para coordenar o trabalho pastoral e fazer crescer a unidade nas Igrejas particulares é tarefa do Bispo promover a coordenação das paróquias através de foranias, decanatos, prefeituras ou outras denominações, segundo as diversas formas de trabalho pastoral das dioceses. Trata-se de estruturas muitas vezes submetidas a uma revisão, a fim de que melhor respondam às finalidades de cada uma das Igrejas particulares.

     Através dessas estruturas de comunhão e de missão promove-se a fraternidade entre os sacerdotes, o discernimento e a programação, com reuniões periódicas sob a guia de um responsável. Pode-se favorecer assim a eventual suplência e ajuda no ministério, como também a atenção aos coirmãos doentes ou impedidos. Além disso, são facilitadas entre os fiéis de um mesmo território iniciativas de evangelização e de catequese, de formação e de testemunho de carácter interparoquial.[147]

 

Movimentos eclesiais e novas comunidades

 

99.            É responsabilidade do Bispo dedicar atenção aos chamados movimentos eclesiais e a outras novas realidades que surgem na Igreja particular, como experiência de vida evangélica. A Igreja particular, de facto, é o espaço onde os aspectos institucional e carismático, coessenciais no desígnio de Deus sobre a Igreja, se encontram e se vivificam reciprocamente. Na experiência da verdadeira comunhão, os dons concedidos por Deus para o bem comum não se esgotam em si mesmos, não se decentralizam do ágape e da Eucaristia, não se tornam narcisistas, antes manifestam a sua medida humilde e discreta, e no entanto necessária, integrando-se com os outros dons do Espírito.

     Os diversos carismas - religiosos, laicais, missionários - tornam a Igreja local aberta a uma dimensão de universalidade, enquanto encontram a consistência do serviço e do empenhamento apostólico, querido pelos Fundadores.

     Nas respostas aos Lineamenta são indicados com particular insistência alguns movimentos eclesiais que são verdadeiramente construtivos a nível universal, diocesano e paroquial; outros, que, quando permanecem à margem da vida paroquial e diocesana, não ajudam o crescimento da Igreja local; outros ainda que, ao gloriarem-se de pretensões particulares, correm o risco de se subtraírem à comunhão entre todos.

     Por isso, pede-se que seja enfrentado o tema dos estatutos teológico e jurídico desses movimentos no interior da Igreja particular, e seja determinada a sua relação concreta com o Bispo.

     Quanto às novas comunidades que ainda não receberam uma aprovação eclesial, o necessário discernimento é confiado aos pastores, que devem com atenção examinar as pessoas e avaliar a espiritualidade, também com um necessário tempo de prova.

     Uma atenção ainda mais cuidadosa é pedida quando se trata de examinar vocações sacerdotais que surgissem no interior destes grupos. Os candidatos necessitam de uma sólida formação sob a responsabilidade do Bispo, a quem compete também o necessário discernimento em vista da ordenação aos ministérios e à atribuição de tarefas apostólicas na diocese.[148]

     Na fidelidade ao Espírito, os vários carismas devem ser integrados na comunhão e missão da Igreja. Evita-se, assim, o perigo do isolamento e favorecem-se a generosidade no dom de si, a fraternidade e a eficácia na missão, para o bem da Igreja.

 

 

III.   O MINISTÉRIO EPISCOPAL AO SERVIÇO DO EVANGELHO

 


100. O tríplice ministério do ensinamento, da santificação e do governo, constitui um serviço ao Evangelho de Cristo para a esperança do mundo. Com efeito, o Bispo proclama com a palavra, celebra na liturgia, vive e difunde com o seu serviço pastoral o Evangelho da esperança.

         Não se trata de três dimensões diversas mas da única esperança proclamada e acolhida com a adesão da fé, celebrada no coração mesmo do mistério pascal que é a Eucaristia, vivida de modo que ilumine e informe toda a vida pessoal e social dos crentes.

         Contudo, por mais que se considere esta unidade, é necessário também captar a intenção do Concílio o qual, quando no seu magistério enuncia estes tria munera em relação ao Bispo e aos presbíteros, prefere pôr o ensino em primeiro lugar. Aqui o Vaticano II retoma idealmente a sucessão presente nas palavras que o Ressuscitado dirige aos seus discípulos: «Foi-Me dado todo o poder no céu e na terra. Ide pois e ensinai todas as nações, baptizando-as... ensinando-as a observar tudo o que vos mandei» (Mt 18, 18-20). Nesta prioridade dada ao múnus episcopal do anúncio do Evangelho, que é uma característica da eclesiologia conciliar, o Bispo pode encontrar o sentido daquela paternidade espiritual, que fazia o apóstolo S. Paulo escrever: «Podereis ter ainda dez mil pedagogos em Cristo, mas certamente não tereis muitos pais, porque fui eu que vos gerei em Cristo Jesus, mediante o Evangelho» (1 Cor  4, 15).

 

 

1.   O MINISTÉRIO DA PALAVRA

 

Proclamar o Evangelho da esperança

 

101. A função que, mais do que as outras,  identifica o Bispo e que, de certo modo, resume todo o seu ministério é, como ensina o Concílio, a de vigário e embaixador de Cristo na Igreja particular que lhe está confiada.[149] Ora, o Bispo exercita a sua função sacramental enquanto expressão viva de Cristo, exercendo precisamente o ministério da Palavra. Como ministro da Palavra de Deus, que actua pela virtude do Espírito e mediante o carisma do serviço episcopal, ele manifesta Cristo ao mundo, torna presente Cristo na comunidade e comunica-o de forma eficaz àqueles que lhe dão espaço na sua vida.

         Trata-se da proclamação do Evangelho da esperança como tarefa fundamental do ministério episcopal.

         A pregação do Evangelho, portanto, sobressai entre os deveres principais dos Bispos, que são «os anunciadores da fé... os doutores autênticos, isto é, revestidos da autoridade de Cristo, que anunciam ao povo que lhes está confiado, a fé na qual acreditar e a aplicar na vida moral».[150] Daqui deriva que todas as actividades do Bispo devem ter como finalidade a proclamação do Evangelho, «força de Deus para a salvação de quem acredita» (Rm 1, 16) e ser orientador para ajudar o povo de Deus a prestar a obediência da fé (cf. Rm 1, 5) à Palavra de Deus e a abraçar integralmente o ensinamento de Cristo.

 

 

O centro do anúncio

 

102. Qual seja o objecto do magistério do Bispo é expresso, de forma feliz, pelo Concílio Vaticano II, quando unitariamente o aponta na a acreditar e a praticar na vida.[151] Dado que o centro vivo do anúncio é Cristo, precisamente Cristo, crucificado e ressuscitado, é Ele que o Bispo deve anunciar: Cristo, único salvador do homem, o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13, 8), centro da história e de toda a vida dos fiéis.

         Desse centro, que é o mistério de Cristo, irradiam todas as outras verdades da fé e irradia também a esperança para todo o homem. Cristo é a luz que ilumina cada homem e todo aquele que é regenerado n’Ele, recebe as primícias do Espírito que o habilitam a cumprir a nova lei do amor.[152]

 

103. A tarefa da pregação e da guarda fiel do depósito da fé, exercida pelo Bispo em comunhão com o Papa e com todos os outros irmãos Bispos, implica o dever de defender a Palavra de Deus de tudo o que poderia comprometer a sua pureza e integridade, usando os meios mais adequados, reconhecendo contudo a justa liberdade no ulterior aprofundamento da fé.[153] Com efeito, na sucessão apostólica, o Bispo recebeu, segundo o beneplácito do Pai, o carisma seguro da verdade que deve transmitir.[154]

         Nenhum Bispo pode subtrair-se a tal dever, mesmo que isto lhe possa custar sacrifício ou incompreensão. Como o apóstolo S. Paulo, o Bispo tem consciência de ter sido enviado a proclamar o Evangelho «não com um discurso sábio, para que não se torne vã a cruz de Cristo» (1 Cor 1, 17); mas, como o apóstolo, também o Bispo anuncia a palavra da Cruz (cf. 1 Cor  1, 18), não por um consenso humano, mas como uma revelação divina.

 

 

Educação da fé e catequese

 

104. Mestre da fé, o Bispo é também educador da mesma, à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. Trata-se da sua obra de catequese, que merece a plena atenção dos Bispos enquanto pastores e mestres, enquanto «catequistas por excelência».

         Variadas e numerosas são as formas através das quais o Bispo exerce o seu serviço à Palavra de Deus. O Directório Ecclesiae imago  recordava, a propósito, a peculiar forma de pregação à comunidade já evangelizada que é a Homilia, a qual sobressai entre todas as outras pelo seu contexto litúrgico e pela sua ligação à proclamação da Palavra mediante as leituras da Sagrada Escritura. Uma outra forma  de anúncio é exercida pelo Bispo através das suas Cartas Pastorais.[155]

         A propósito disso, o uso discreto de meios de comunicação diocesanos, interdiocesanos ou nacionais, será de grande ajuda para a divulgação dos documentos do Magistério, dos programas pastorais, dos acontecimentos eclesiais.

 

Toda a Igreja empenhada na catequese

 

105. O carisma magisterial dos Bispos é único na sua responsabilidade e não pode, de modo algum, ser delegado. Todavia, como testemunham as respostas aos Lineamenta ele não está isolado na Igreja. Cada Bispo exerce o seu próprio serviço pastoral numa Igreja particular onde, intimamente unido ao seu ministério e sob a sua autoridade, os presbíteros são os seus primeiros colaboradores, aos quais se juntam os diáconos. Uma ajuda muito válida provém também das religiosas e religiosos e de um crescente numero de fiéis leigos que colaboram, segundo a constituição da Igreja, na proclamação e na vivência da Palavra de Deus.

         Graças aos Bispos, não só a autêntica fé católica é transmitida aos pais para que, por sua vez, a transmitam aos filhos; isto acontece também para os mestres e os educadores, a todos os níveis. Todo o laicado dá testemunho da pureza da fé que os Bispos se empenham incansavelmente por manter e é importante que cada Bispo não deixe de proporcionar aos leigos, com escolas apropriadas, os meios para uma conveniente formação.

 

 

Diálogo e colaboração com teólogos e fiéis

 

106. Particularmente útil, para os objectivos do anúncio, é ainda a colaboração com os teólogos, os quais concentram a sua atenção no aprofundar, com o seu método próprio, a insondável riqueza do mistério de Cristo. O magistério dos pastores e o trabalho teológico, mesmo tendo funções diferentes, dependem ambos da única Palavra de Deus e têm o mesmo objectivo de conservar o povo de Deus na verdade que liberta. Também daqui nasce a relação entre o magistério e a teologia e, para os Bispos, o dever de dar aos teólogos o encorajamento e o amparo que os ajudem a orientar o seu trabalho para a fidelidade à Tradição e para  a atenção às emergências da história.[156]

         Em diálogo com todos os seus fiéis, o Bispo saberá reconhecer e apreciar a sua fé, acolher as suas intuições, fortalecê-la, libertá-la de acrescentos supérfluos e dar-lhe um conteúdo doutrinal apropriado. Por isso, também com a finalidade de elaborar catecismos locais que tenham em conta as diversas situações e culturas, o Catecismo da Igreja Católica será o ponto de referência para que seja conservada com cuidado a unidade da fé e a fidelidade à doutrina católica.[157]

 

 

Testemunha da verdade

 

107. Chamado a proclamar a salvação em Jesus Cristo, com a sua pregação, o Bispo deve ser entre o povo de Deus o sinal da certeza da fé. Mesmo não tendo, tal como a Igreja, respostas já prontas para a solução dos problemas do homem, todavia, ele é ministro do esplendor de uma verdade capaz de iluminar os seus caminhos.[158] Embora não possuindo conhecimentos específicos para a promoção da ordem temporal, o Bispo, ao exercer o seu magistério e educar na fé as pessoas e as comunidades a ele confiadas, prepara, contudo, os fiéis leigos que, interiormente transformados, por sua vez transformarão o mundo, através das soluções que a eles compete oferecer em conformidade com as competências respectivas..

         Como repetidas vezes ressaltam as respostas aos Lineamenta, a mentalidade secularizada de grande parte da sociedade, bem como a ênfase exagerada sobre a autonomia do pensamento e a cultura relativista, levam as pessoas a considerarem as intervenções do Bispo, e também do Papa, sobretudo em matéria de moral sexual e familiar, como opiniões entre outras opiniões, sem influência na vida. Isto, se por um lado apresenta um desafio radical, por outro é também o terreno para um anúncio de esperança, por parte do Bispo.

 

108. Além disso, o Bispo, embora no respeito pela autonomia daqueles que são competentes em questões seculares, não pode renunciar ao carácter profético da sua mensagem portadora de esperança, ainda que saiba que ela não será aceite. Isto acontece especialmente quando com coragem, não só com palavras, mas com a promoção de meios eficazes para isto, denuncia a guerra, a injustiça e aquilo que é destrutivo da dignidade do homem.

         Tornar presente no mundo a força da Palavra que salva é o grande acto de caridade pastoral que um Bispo oferece aos homens e é também a primeira razão de esperança.

 

 

Tarefas para o futuro

 

109. Das respostas aos Lineamenta são apresentadas algumas exigências para ampliar e actualizar as tarefas do magistério dos Bispos.

         Segundo as circunstâncias é conveniente que sejam promovidas iniciativas de ampla dimensão diocesana ou interdiocesana, como a criação de universidades católicas para uma adequada influência na vida social, com a formação de um laicado que surja nos diversos campos da ciência e da técnica ao serviço do homem e da verdade. Nesta perspectiva, pede-se também que se dê um impulso particular à pastoral universitária, segundo as directrizes da Santa Sé.

         Como empenho no campo educativo, tornam-se necessárias instituições idóneas para a promoção e defesa das escolas católicas, através da obra de sacerdotes e leigos. Delas se pede o reconhecimento por parte dos governos, enquanto fazem referência aos direitos dos pais por uma adequada educação dos filhos, segundo os valores culturais e religiosos por eles livremente escolhidos.

         A promoção dos meios de comunicação social numa sociedade pluralista requer uma adequada formação de comunicadores, através de várias iniciativas diocesanas ou interdiocesanas.

 

 

Cultura e inculturação

 

110. A proclamação do Evangelho por parte do Bispo no âmbito da cultura requer a promoção da fé nos campos mais sensíveis à mensagem do Evangelho.

         Deve-se favorecer o diálogo com as instituições culturais leigas, mediante encontros entre pessoas preparadas, nos quais a Igreja ofereça a sua imagem de amiga de tudo aquilo que é autenticamente humano.

         Pode ajudar este diálogo a valorização do património cultural, artístico e histórico da diocese. De facto, existem nas dioceses riquezas culturais históricas, arquivos e bibliotecas, obras de arte que merecem uma atenção particular como testemunho cultural. As iniciativas a favor de museus e exposições, a adequada conservação, catalogação e exposição dos tesouros da tradição artística e literária podem tornar-se instrumento de evangelização e de contemplação da beleza, testemunho de um particular cuidado da Igreja pela própria história humana, geográfica e cultural.[159]

         Pertence ao ministério do Bispo, segundo as directrizes da Santa Sé e em colaboração com a Conferência Episcopal, levar a fé e a vida cristã às diversas culturas segundo as directrizes oferecidas por ocasião das Assembleias do Sínodo dos Bispos, sobretudo a respeito da liturgia, formação sacerdotal e vida consagrada.[160]

 

 

2.   O MINISTÉRIO DA SANTIFICAÇÃO

 

111. A proclamação da Palavra de Deus está na origem da reunião do povo de Deus em Ekklesìa, ou seja, em convocação santa. Ela, porém, alcança e encontra a sua plenitude no Sacramento. Palavra e sacramento, de facto, formam como que um todo, são inseparáveis entre si e devem ser considerados como dois aspectos ou momentos de uma única obra salvífica. Ambos tornam actual e operante, em toda a sua eficácia, a salvação operada por Cristo. Ele próprio, como Verbo que se fez carne, é a razão exemplar da ligação íntima que une Palavra e Sacramento o que, aliás, está em singular consonância com a complementaridade que, na vida humana, existe entre o falar e o agir. Isto é verdade para todos os sacramentos, mas é-o de modo particular e excelente, para a santa Eucaristia, que é a fonte e o cume de toda a evangelização.[161]

         Por esta unidade da Palavra e do Sacramento, assim como os Apóstolos foram enviados pelo Ressuscitado para ensinar e baptizar todos os povos (cf. Mt 28, 19), também cada Bispo, sucessor dos Apóstolos, em virtude da plenitude do Sacramento da Ordem com o qual foi agraciado, recebe, juntamente com a missão de arauto do Evangelho, a de «administrador da graça do supremo sacerdócio».[162] Na verdade, o serviço do anúncio do Evangelho «está orientado para o serviço da graça dos sacramentos da Igreja. Como ministro da graça, o Bispo realiza o munus sanctificandi  para o qual aponta o munus docendi que desenvolve entre o povo de Deus a ele confiado».[163]

         O ministério da santificação está intimamente unido à celebração da salvação em Cristo, numa perspectiva de esperança que projecta os fiéis para o cumprimento das promessas, enquanto como povo atravessam o mundo em peregrinação rumo à cidade definitiva.

 

 

O Bispo como sacerdote e liturgo na sua catedral

 

112. A função de santificar é inerente à missão do Bispo. De facto, ele é na sua Igreja particular o principal dispensador dos mistérios de Deus: em primeiro lugar, da Eucaristia que está no centro do serviço sacramental do Bispo e em cuja presidência ele se apresenta aos olhos do seu povo, sobretudo como o homem do novo e eterno culto a Deus, instituído por Jesus Cristo pelo sacrifício da Cruz. Orienta também a administração do Baptismo, em razão do qual os fiéis participam no sacerdócio real de Cristo; é ministro originário da Confirmação, dispensador das Ordens sagradas e moderador da disciplina penitencial.[164] O Bispo é liturgo da Igreja particular, principalmente na presidência do Sinaxe Eucarística.[165]

         Aqui, onde se realiza o acontecimento mais excelso da vida da Igreja, encontra plenitude também o munus sanctificandi, que o Bispo exerce na pessoa de Cristo, sumo e eterno Sacerdote. Bem o exprime um insigne texto do Vaticano II: «Por isso, todos devem dar a maior importância à vida litúrgica da diocese que gravita em redor do Bispo, sobretudo na igreja catedral, convencidos de que a principal manifestação da Igreja se faz numa participação perfeita e activa de todo o Povo santo de Deus na mesma celebração litúrgica, especialmente na mesma Eucaristia, numa única oração, ao redor do único altar a que preside o Bispo rodeado pelo presbitério e pelos ministros».[166]

         Lugar privilegiado das celebrações episcopais é a catedral, onde está colocada a cátedra dos Bispo e ele educa o seu povo. É a igreja mãe e o centro da Diocese, sinal da continuidade de uma história, espaço simbólico da sua unidade. O Caeremoniale episcoporum dedica a este argumento um capítulo inteiro, sob o título: A Igreja catedral.[167]

         É o lugar das celebrações mais solenes do ano litúrgico; de modo especial, da consagração do crisma e das sagradas ordenações. imagem da Igreja de Cristo, da unidade do corpo místico, da assembleia dos baptizados e da Jerusalém celeste, ela deve ser em si mesma um exemplo para as outras igrejas da diocese na ordem dos espaços sagrados, no decoro e no modo com que se celebra a liturgia segundo as prescrições.[168]

         A figura do Bispo celebrante exprime e desenvolve a sua verdade interior também através dos lugares destinados à liturgia: a cátedra, sede do Bispo, de onde ele preside à assembleia e guia a oração;[169] o altar, símbolo do corpo de Cristo e mesa do Senhor onde se celebra a Eucaristia;[170] o presbitério, onde tomam assento o Bispo, os presbíteros, os diáconos e outros ministros;[171] o ambão onde se faz o anúncio do Evangelho e da pregação da palavra, a não ser que o Bispo, se preferir, o faça da sua cátedra;[172] o baptistério onde se celebra eventualmente o baptismo na noite da Páscoa.[173]

 

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A Eucaristia no centro da Igreja particular

 

113. Um dos deveres proeminentes do Bispo é o de providenciar para que na Igreja particular os fiéis tenham a possibilidade de se aproximar da mesa do Senhor, sobretudo ao Domingo, dia em que a Igreja celebra o mistério pascal e os fiéis, na alegria e no repouso, dão graças a Deus «que os regenerou para a esperança viva por meio da Ressurreição do Senhor, de entre os mortos» (1 Pd 1, 3).[174]

         Em muitas partes, devido à escassez dos presbíteros ou por outras razões graves, torna-se difícil prover à celebração eucarística. Isto aumenta o dever do Bispo de ser o administrador da graça, sempre atento a discernir a presença de necessidades reais e a gravidade das situações, procedendo a uma distribuição sábia dos membros do seu presbitério e a prover a que, mesmo em emergências semelhantes, as comunidades dos fiéis não sejam privadas da Eucaristia durante muito tempo. O mesmo se diga em relação àqueles fiéis que por doença, velhice ou outros motivos razoáveis somente podem receber a Eucaristia em sua casa ou nos lugares onde estão hospedados.

 

114. A Liturgia é a forma mais elevada de louvor à Santíssima Trindade. Nela, sobretudo pela celebração dos Sacramentos, o povo de Deus, reunido localmente, exprime e realiza a sua índole sagrada e orgânica de comunidade sacerdotal.[175] Exercendo o munus santificandi, o Bispo age para que a Igreja particular na sua totalidade se torne uma comunidade de orantes, comunidade de fiéis, todos perseverantes e concordes na oração (cf. Act 1, 14).

         Penetrado em primeiro lugar ele, juntamente com o seu presbitério, pelo espírito e pela força da Liturgia, o Bispo tem o cuidado de favorecer e de desenvolver na própria Diocese uma educação intensiva onde sejam descobertas as riquezas contidas na Liturgia, celebrada segundo os textos aprovados e vivida acima de tudo como um acontecimento de ordem espiritual. Como responsável do culto divino da Igreja particular, ele, enquanto orienta e protege a vida litúrgica da Diocese, agindo juntamente com os Bispos da mesma Conferência Episcopal e na fidelidade à fé comum, alimenta ainda o esforço para que, na correspondência às exigências dos tempos e dos lugares, seja enraizada nas culturas, tendo em conta o que nela é imutável, porque de instituição divina, e o que, pelo contrário, é susceptível de mudança.[176]

 

 

Atenção à oração e à piedade popular

 

115. A oração, em todas as suas várias formas, é o acto em que se exprime a esperança da Igreja. Toda a oração da Esposa de Cristo, desejosa da união perfeita com o Esposo, se resume na invocação que o Espírito lhe sugere: «Vem!» (Ap 22, 17).[177] O Espírito pronuncia esta oração com a Igreja e na Igreja. É a esperança escatológica, a esperança da realização definitiva em Deus, a esperança do Reino eterno, que se realiza pela participação na vida trinitária. O Espírito Santo, dado aos apóstolos como consolador, é o guardião e o animador desta esperança no coração da igreja. Na perspectiva do terceiro Milénio depois de Cristo, enquanto «o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: “Vem!”»,[178] esta sua oração está carregada, como sempre, de um alcance escatológico.

         Consciente disto, o Bispo está quotidianamente empenhado em comunicar aos fiéis a plenitude da vida em Cristo, com o seu testemunho pessoal, com a palavra, a oração e os sacramentos.

         Em tal contexto, o Bispo orienta também a sua atenção para as várias formas da piedade popular cristã e para a sua relação com a vida litúrgica. Enquanto expressão da atitude religiosa do homem, a piedade popular não pode ser, nem ignorada, nem tratada com indiferença ou desprezo, porque, como escrevia Paulo VI, é rica de valores.[179] Porém, ela tem necessidade de ser constantemente evangelizada para que a fé que exprime se torne um acto cada vez mais maduro. Uma autêntica pastoral litúrgica, biblicamente formada, saberá apoiar-se nas riquezas da piedade popular, purificá-la e orientá-la para a liturgia como oferta dos povos.[180]

 

Algumas questões particulares

 

116. Nas respostas aos Lineamenta são ressaltadas algumas tarefas próprias do ministério litúrgico do Bispo, que convém  recordar aqui brevemente.

         Antes de mais, o Bispo é na sua Igreja o primeiro responsável pela celebração e pela disciplina da iniciação cristã. De modo especial é o promotor, o vigilante guardião e ministro dos ritos da iniciação cristã dos adultos. Por isso convém que seja ele a presidir às celebrações mais características do catecumenato, sobretudo na preparação próxima para o baptismo e na iniciação cristã dos adultos na Vigília pascal.

         Para  uma mais autêntica e profunda promoção da liturgia convém que ele presida com frequência, também nas visitas, à Liturgia da Palavra e à Liturgia das Horas, como é previsto pelo Caeremoniale Episcoporum.[181] Neste sentido, ele poderá apresentar-se na sua característica função de mestre que celebra a palavra da salvação e de sacerdote que ora e intercede pelo seu povo.

 

 

3.    O EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO DE GOVERNO

 

O serviço do governo

 

117. A função ministerial do Bispo completa-se no ofício de ser guia da porção do povo de Deus que lhe foi confiada. A Tradição da Igreja sempre associou esta tarefa a duas figuras que, segundo o testemunho dos Evangelhos, Jesus aplica a si próprio, ou seja a do Pastor e a do Servo. O Concílio descreve assim o ofício específico dos Bispos, de governar os fiéis: «governam as Igrejas particulares a eles confiadas, como vigários e legados de Cristo, com o conselho, a persuasão e o exemplo, mas também com a autoridade e o poder sagrado, do qual todavia não se servem senão para edificar o próprio rebanho na verdade e na santidade, recordando-se de que quem é o maior se deve tornar como o mais pequeno, e quem é chefe, como o servo (cf. Lc 22, 26-27)».[182]

         João Paulo II explica que «se deve insistir sobre o conceito de serviço, que vale para todo o ministério eclesiástico, a começar pelo dos Bispos. Sim, o episcopado é mais um serviço que uma honra. E se também é uma honra, é-o quando o Bispo, sucessor dos Apóstolos, serve com espírito de humildade evangélica, a exemplo do Filho do homem... Nesta óptica de serviço como bons pastores é entendida a autoridade, que o Bispo possui em si mesmo, ainda que sempre submetida à do Sumo Pontífice».[183] Por isso, com razão, o Código de Direito Canónico designa este cargo como munus pastoris e lhe associa a característica da solicitude pastoral.[184]

 

 

Exercício de autêntica caridade pastoral

 

118. A caritas pastoralis  é virtude típica do Bispo e com ela imita Cristo «Bom» Pastor, que é tal pelo dom da própria vida. Ela realiza-se, portanto, não somente pelo exercício das acções ministeriais, mas mais ainda, pelo dom de si, que mostra o amor de Cristo pelo seu rebanho.

         Uma das formas pelas quais se exprime a caridade pastoral, é a compaixão, à imitação de Cristo, Sumo Sacerdote, que é capaz de se compadecer da fraqueza humana tendo sido ele mesmo submetido à prova em tudo, como nós, excepto no pecado (cf. Hb  4, 15). Tal compaixão, que o Bispo aponta e vive como sinal da compaixão de Cristo, não pode, todavia, ser separada do sinal da verdade de Cristo. Uma outra expressão da caridade pastoral, de facto, é a responsabilidade face a Deus e à Igreja em relação à verdade a anunciar «em toda a ocasião oportuna e não oportuna» (2 Tm 4, 2).

         A caridade pastoral torna o Bispo ansioso por servir o bem comum da própria Diocese que, subordinado ao de toda a Igreja, reúne o bem das comunidades particulares da Diocese. O Directório Ecclesiae imago indica, quanto a isto, os princípios da unidade, da responsável colaboração e da coordenação.[185]

         Graças à caridade pastoral, que é o princípio interior unificante de toda a actividade ministerial, «pode encontrar resposta a essencial e permanente exigência da unidade entre a vida interior e as muitas acções e responsabilidades do ministério, exigência sempre mais urgente num contexto sócio-cultural e eclesial fortemente marcado pela complexidade, desagregação e dispersão».[186] Ela deve, por isso, determinar os modos de pensar e de agir do Bispo e da forma de se relacionar com todos aqueles que encontra.

         No governo da Diocese o Bispo tem também o cuidado de que seja reconhecido o valor da lei canónica da Igreja, cujo objectivo é o bem das pessoas e da comunidade eclesial.[187]

 

 

Um estilo pastoral confirmado pela vida

 

119. A caridade pastoral exige, por conseguinte, estilos e formas de vida que, realizados à imitação de Cristo, pobre e humilde, permitem estar próximo de todos os membros do rebanho, do maior ao mais pequeno, disposto a partilhar as suas alegrias e dores, não somente nos pensamentos e nas orações, mas também junto deles, a fim de que através da presença e do ministério do Bispo, que se aproxima de todos sem se envergonhar nem fazer envergonhar, todos possam experimentar o amor de Deus pelo homem.[188]

         Das respostas aos Lineamenta  por parte das Conferências Episcopais emergem algumas características da figura do Bispo, tal como são percebidas nos vários lugares e sociedades. Às vezes aparece uma certa visão «monárquica» ou «autoritária», que tende a atribuir ao Bispo uma parte imprópria na Igreja e no mundo; outras vezes, considera-se, ao contrário, o Bispo como «pastor no meio do seu rebanho», «pai na fé», de maneira que os presbíteros e os leigos não são simplesmente «ajudas» do Bispo, mas seus «colaboradores».

         Um aprofundamento da realidade da «communio» pode conduzir a ver o Bispo como autêntico «servo dos servos de Deus», isto é, o primeiro entre os servos de Deus. Com efeito, o Bispo será fiel à sua missão recordando que a sua responsabilidade pessoal de pastor é, nos próprios modos, participada por todos os fiéis em virtude do baptismo, por alguns em virtude da Ordem sagrada e por outros, em virtude da especial consagração  mediante os conselhos evangélicos.

 

120. Uma condição desfavorável a esta «communio», como é por muitos advertida, com frequência é dada pela vastidão da diocese e pelos muitos compromissos do Bispo.

         Com efeito, as respostas ressaltam que há perigo de que também no modo de governar do Bispo se introduzam elementos menos condizentes a uma pastoral genuinamente evangélica, a ponto de o povo correr o perigo de o comparar aos notáveis seculares. Às vezes, a própria presença do Bispo ao lado de autoridades civis pareceria fazer sombra à sua autonomia e portanto à sua figura.

         Além disso, naquelas sociedades que nutrem sentimentos contrários a um certo exercício da autoridade, manifesta-se uma certa tendência a rever a figura do Bispo, dando interpretações particulares ao princípio de subsidiariedade e ao instituto da consultação. Isto porque com frequência a autoridade só é vista como «poder».

         Os Bispos podem superar tudo isto com o exercício da sua prerrogativa de pais, razão por que se apresentam como sucessores dos Apóstolos não só na autoridade que exercem, mas na sua forma de vida evangélica, coerente com tudo o que anunciam, nos sofrimentos apostólicos, no cuidado amoroso e misericordioso dos fiéis, de modo especial dos mais pobres, necessitados e sofredores.

         Nisto serão sinal de Cristo no meio do povo de Deus e o seu próprio governo verdadeiramente pastoral será um anúncio do Evangelho da esperança. Certas formas e atribuições exteriores, como títulos honoríficos e vestes, não devem ofuscar o ministério episcopal de ensinamento com palavras e obras.

         Aquele que deve ser ícone vivo de Cristo, que lavou os pés aos seus discípulos como Senhor e Mestre, deve demonstrar com a sua vida simples e pobre o rosto evangélico de Jesus e a sua qualidade de verdadeiro «homem de Deus» (cf. 2 Tm 3, 17).

 

 

 

 

 

As visitas pastorais

 

121. A tradição eclesiástica aponta algumas formas específicas através das quais o Bispo exerce na sua Igreja particular o ministério de pastor. Recordam-se duas em particular: a primeira tem, por assim dizer, a forma do empenho pessoal e a segunda tem, por seu lado, uma forma sinodal.

         A visita pastoral não é uma simples instituição jurídica, prescrita ao Bispo pela disciplina eclesiástica, e muito menos uma espécie de instrumento de inquirição.[189] Pela visita pastoral o Bispo apresenta-se concretamente como princípio visível e fundamento da unidade da Igreja particular e ela «reflecte de qualquer modo a imagem da singularíssima e em tudo maravilhosa visita, por meio da qual o “supremo pastor” (1 Pd 5, 4), o Bispo das nossas almas (cf. 1 Pd  2, 25), Jesus Cristo, visitou e redimiu o seu povo (cf. Lc 1, 68)».[190] Além disso, uma vez que a Diocese, antes de ser um território, é uma porção do povo de Deus confiada aos cuidados pastorais de um Bispo, oportunamente o Directório Ecclesiae imago escreve que, na visita pastoral, as pessoas estão em primeiro lugar. Para melhor se dedicar a elas é, pois, oportuno que o Bispo delegue noutros o exame das questões de carácter mais administrativo

         As visitas pastorais, preparadas e programadas, são ocasião propícia para um conhecimento mútuo entre o Pastor e o povo a ele confiado.

         Nas paróquias deve ser privilegiado o encontro com o pároco e os outros sacerdotes. A visita pastoral é o momento em que se exerce o ministério da pregação e da catequese, do diálogo e do contacto directo com os problemas das pessoas, ocasião para celebrar em comunhão a Eucaristia e os sacramentos, compartilhar a oração e a piedade popular. Nesta circunstância impõem-se à atenção do Pastor algumas categorias: os jovens, as crianças, os doentes, os pobres, os marginalizados, os que estão afastados.

         A experiência ainda sugere outros encontros do Bispo com as componentes da diocese, por ocasião de assembleias diocesanas de programação pastoral e de verificação, assim como em vista de ordenações sacerdotais ou diaconais e de festas patronais ou, enfim, nas jornadas dedicadas a pessoas particulares, como clero, religiosos e religiosas, famílias.

 

O Sínodo diocesano

 

122. A celebração do Sínodo Diocesano, do qual o Código de Direito Canónico traça o perfil jurídico,[191] tem um indubitável lugar de proeminência entre os deveres pastorais do Bispo. De facto, de entre os organismos, através dos quais se processa e se desenvolve a vida da Igreja particular, o Sínodo é o primeiro a ser indicado pela disciplina eclesiástica. A sua estrutura, como a de outros organismos chamados «de participação», responde às exigências eclesiológicas fundamentais e é expressão institucional de realidades teológicas como são, por exemplo, a necessária cooperação do presbitério com o ministério do Bispo, a participação de todos os baptizados no múnus profético de Cristo, o dever de os pastores reconhecerem e promoverem a dignidade dos fiéis leigos servindo-se, de bom grado, do seu conselho prudente.[192] Na sua realidade, o Sínodo diocesano insere-se no contexto da co-responsabilidade de todos os diocesanos à volta do seu Bispo em ordem ao bem da Diocese. Na sua composição, como pretende a disciplina canónica vigente, é expressão privilegiada da comunhão orgânica na Igreja particular. No Sínodo, que deve ser bem preparado e ser convocado com objectivos bem determinados,[193]o Bispo, responsável pelas decisões definitivas,[194] escuta aquilo que o Espírito diz à Igreja particular, de modo que todos permaneçam firmes na fé, unidos na comunhão, abertos à missionariedade, disponíveis às necessidades espirituais do mundo e cheios de esperança diante dos seus desafios.

 

 

Um governo animado pelo espírito de comunhão

 

123. Pelo seu múnus pastoral, o Bispo é o ministro da caridade na sua Igreja particular, edificando-a por meio da Palavra e da Eucaristia. Já na Igreja apostólica os Doze providenciaram à instituição de «sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria» (Act 6, 2-3), aos quais confiaram o serviço das mesas. O próprio S. Paulo tinha como ponto assente do seu apostolado recordar-se dos pobres, deixando-nos a indicação de um sinal fundamental da comunhão entre os cristãos. Assim o Bispo é, também hoje, chamado a exercer e a organizar pessoalmente a caridade na sua Diocese, mediante estruturas apropriadas.

         Deste modo ele testemunha que as tristezas e as angústias dos homens, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as ânsias dos discípulos de Cristo.[195] Diversas, sem dúvida, são as pobrezas e às antigas juntaram-se novas. Em tais situações, o Bispo está na linha da frente na solicitação de novas formas de apostolado e de caridade onde a indigência se apresenta sob novos aspectos. Servir, encorajar, educar para estes deveres de solidariedade e de proximidade em favor do homem, renovando cada dia a antiga história do Samaritano é, também isto, já por si, um sinal de esperança para o mundo.

 

124. Para exercer o ministério de guia pastoral e de discernimento o Bispo tem necessidade da colaboração de todos os fiéis, em espírito de comunhão e de missionariedade.

         Para este objectivo existem estruturas de diálogo, comunhão e discernimento, como já foi recordado, o Conselho presbiteral e o Conselho pastoral.

         As crescentes necessidades pastorais levaram a configurar ordinariamente, segundo as normas canónicas, a Cúria diocesana com os diversos ofícios, segundo as possibilidades de cada Igreja particular e a competência do clero diocesano, das pessoas consagradas e dos leigos, de maneira a ir ao encontro de todas as instâncias da diocese.

         É tarefa do Bispo não só favorecer a acção responsável e coordenada, a iniciativa e o trabalho assíduo dos responsáveis pelos diversos ofícios diocesanos, mas também estimular com o exemplo e favorecer os encontros colegiais de coordenação. É preciso infundir em todos um sereno sentido de confiança, amizade e responsabilidade nos diversos organismos da Cúria, a fim de que a unidade e o entendimento mútuo criem um estilo eclesial de trabalho.

 

 

A administração económica

 

125. Particular importância tem neste tempo, também em vista das responsabilidades civis, a administração dos bens da diocese. É necessária a vigilância e a seriedade da administração económica das dioceses, como exemplo também para as outras instituições diocesanas, através do trabalho de pessoas competentes e eclesialmente peritas nos conselhos diocesanos de administração.

         Trata-se de uma tarefa de governo da máxima importância, voltado para garantir o bem comum da diocese e a comunhão dos bens com a obrigação da caridade em favor das missões e dos mais pobres.

 

 

Questões práticas atinentes à Igreja particular

 

126. Parece oportuno enumerar aqui de maneira sintética algumas questões práticas, já desenvolvidas noutros pontos, para que, conforme às indicações que emergem das respostas aos Lineamenta, o Sínodo lhes preste uma particular e adequada atenção.

         É desejo de muitas Conferências Episcopais que se insista sobre a presença do Bispo na diocese a tempo pleno, pois ausências frequentes e prolongadas ameaçam a continuidade do serviço pastoral.

         A presença e permanência do Bispo na sua sede ou em visita às suas paróquias, a disponibilidade ao encontro com os sacerdotes, religiosos e leigos, e as visitas pastorais são garantia de estabilidade e de co-responsabilidade no exercício quotidiano do ministério. O Bispo apresenta-se deste modo como um modelo de serviço inalterado da sua Igreja.

         Outros recomendam a estabilidade do Bispo na diocese para a qual foi eleito, para que se confirme nele uma mentalidade de doação à Igreja que lhe foi confiada com um vínculo de fidelidade e amor esponsal. Desejar-se-ia assim evitar, na medida do possível, certos problemas como a mentalidade de um compromisso transitório em favor da diocese, o desejo de mudança ou de transferência a outras Igrejas particulares mais prestigiosas ou menos problemáticas, a descontinuidade dos programas e das iniciativas pastorais.

         Recorda-se também o problema das dioceses deixadas durante muito tempo sem o pastor, por atrasos na nomeação dos Bispos. Essas situações criam mal-estar no presbitério e no povo de Deus, privados do ministério episcopal da unidade e da comunhão.

         Emerge também a necessidade de um melhor ordenamento das responsabilidades de governo do Bispo, muitas vezes sobrecarregado de demasiados problemas administrativos, burocráticos e de organização, que correm o perigo de o tornar por vezes mais dirigente que Pastor. Faz-se voto por que haja uma conveniente decentralização administrativa para um seu melhor serviço à Diocese.

         Alguns, por fim, levantam a questão do aspecto conflitante que se percebe hoje entre o foro eclesiástico e o foro civil em matéria de processos que dizem respeito às pessoas eclesiásticas. Não raro pede-se clareza no reconhecimento público das leis eclesiásticas que se referem aos processos canónicos. Devem ser reconhecidas ao Bispo a liberdade e a responsabilidade no processo em relação aos seus súditot, evitando escândalos e provendo de maneira adequada, com justiça e caridade, à salvação das almas, que é sempre a lei suprema da Igreja.[196]

 

 

 


CAPÍTULO  V

 

AO SERVIÇO DO EVANGELHO PARA

A ESPERANÇA DO MUNDO

 

 

Em Jesus Cristo o perene Jubileu da Igreja

 

127. O Jubileu do Ano 2000, há pouco concluído, ofereceu à Igreja e ao mundo a ocasião para fixar o olhar em Cristo, que veio anunciar a boa nova aos pobres (cf. Lc 4, 16 ss.). Ele, enviado pelo Pai, veio chamar todos à conversão, dar à humanidade a esperança,  revelar ao homem  a sua dignidade de filho de Deus e o seu destino de glória. Com as suas obras, sobretudo com o seu mistério pascal, manifestou o amor de Deus que procura o homem, lhe revela a sua vocação, lhe torna conhecida a sua altíssima vocação.[197]

         Toda a vida de Jesus foi um grande tempo jubilar, no qual Ele comunicou a graça e o perdão do Pai, mostrou o caminho da verdade, fez-se próximo de todos. Ele anunciou a salvação e levou-a à plena realização com as suas palavras e obras, e com a efusão do Espírito Santo.

         Na figura evangélica de Jesus de Nazaré, a Igreja reconhece um Messias jubilar, que vive no dom total de si, comunica a verdade e a vida a todos, pede a conversão, ensina a via nova do amor que Ele traz ao mundo como modo de ser e de agir da Trindade.

         N’Ele é revelado que a salvação é para todos. Ele, que se uniu com a sua encarnação a cada homem e, com a sua paixão e morte, a cada sofrimento humano, mediante a ressurreição torna-se causa de salvação e de esperança para todo o ser humano, destinado à comunhão com Deus na glória.

         A Igreja, desde o Pentecostes, com a graça do Espírito Santo, continua a missão de Jesus, anunciando todos os dias a boa nova e a libertação do mal.

 

 

 

 

O ministério de salvação da Igreja

 

128. No espírito da colegialidade e da comunhão hierárquica todos os Bispos continuam este anúncio, que põe no centro da pregação Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, único salvador do mundo.

         Ainda que nos passem despercebidas as vias com que Cristo realiza esta salvação para além das estruturas sacramentais do seu Corpo, ao qual Ele mesmo confiou o ministério da pregação e da santificação, a Igreja crê que toda a humanidade pertence a Cristo, primogénito de toda a criatura (cf. Col  1, 15 ss).

         Por isso, o horizonte da esperança, que tem como termo último a reconciliação de tudo e de todos em Cristo, ilumina a Igreja que anuncia a paz e a salvação «aos que estavam longe, e também àqueles que estavam perto, a fim de nos apresentarmos, uns e outros, ao Pai num mesmo Espírito» (cf. Ef  2, 17-18), e empreende com confiança o multíplice diálogo da salvação, a fim de que também o futuro da história pertença ao Senhor, conhecido e amado como nosso Irmão, revelação do amor do Pai. «Fazendo assim, afirma a Gaudium et spes na sua conclusão, despertaremos em todos os homens da terra uma viva esperança, dom do Espírito Santo, a fim de que finalmente um dia eles sejam assumidos na paz e na felicidade suprema, na pátria que refulge com a glória do Senhor».[198]

 

 

Uma nova situação religiosa

 

129. A situação religiosa no início do milénio é muito complexa e não torna fácil a missão da Igreja. A emergência das grandes religiões, como portadoras de autênticos valores humanos, exige da Igreja um confronto respeitoso para captar nelas o desígnio do único Deus salvador.

         Além de nos grandes continentes invadidos pelas religiões tradicionais, hoje por causa das migrações destinadas a aumentar no futuro, bem como devido à mobilidade e aos intercâmbios económicos e culturais, vive-se numa situação nova, multiétnica e multirreligiosa.

         As Igrejas jovens, que sobretudo na Ásia, África e Oceânia convivem com essas religiões, enquanto estão particularmente empenhadas no diálogo inter-religioso, prestam também uma considerável ajuda missionária noutras partes do povo de Deus.

 

130. Nas respostas aos Lineamenta algumas Conferências Episcopais referem-se à necessidade de ir ao encontro de um fenómeno, certamente não estranho à história, mas que hoje tem dimensões talvez desconhecidas. Trata-se das novas e repetidas imigrações. Estas criam problemas pastorais novos e concretos, como são a evangelização e o diálogo inter-religioso, de maneira especial para quantos professam religiões não cristãs. Quantos aos imigrados católicos, desarraigados das suas terras e dos seus hábitos, é necessária a colaboração de sacerdotes nativos para lhes sustentar e consolidar a fé e a vida cristã.

         A Igreja inteira, portanto, está voltada para um renovado empenho de evangelização, no qual jamais devem faltar o anúncio explícito da revelação como dom irrenunciável, o diálogo como método de compreensão recíproca, o testemunho evangélico, sobretudo da caridade em tudo e acima de tudo, como selo da verdade proclamada e substrato do diálogo, a fim de que Cristo seja reconhecido nos seus discípulos. Além disso, o anúncio integral da salvação requer uma solicitude da Igreja por todo o valor humano autêntico.

         Destas premissas derivam as tarefas da Igreja que não pode renunciar a proclamar o sentido da vida e da história, à luz do mistério de Cristo, confiando na força do Evangelho e na ajuda do Espírito Santo, dado por Cristo Ressuscitado para manifestar e realizar a plenitude da verdade e da vida divina.[199]

 

 

Diálogo ecuménico

 

131. O empenho da Igreja no diálogo ecuménico para a unidade dos cristãos, fruto precioso da acção do Espírito Santo, é irreversível. Ele responde à oração e às intenções do Senhor (cf. Jo 17, 21-23), à sua oblação na cruz para congregar todos os filhos dispersos (cf. Jo 11, 52), ao necessário testemunho da Igreja no mundo (cf. Ef  4, 4-5).

         Os Bispos participam na solicitude do Romano Pontífice, expressa pelo Decreto conciliar Unitatis redintegratio, e no renovado empenho da Igreja pela unidade de todos os baptizados, confirmado pela Encíclica Ut unum sint, como tarefa prioritária do novo milénio para a esperança do mundo.[200]

         Seguindo as directrizes da Santa Sé, em comunhão com a Conferência Episcopal, todo o Bispo é promotor da unidade e apóstolo do ecumenismo espiritual e do diálogo, por meio de contactos fraternos com as Igrejas e Comunidades cristãs. Com a promoção de quanto é positivo, ele não pode admitir gestos ambíguos e apressados que, com a impaciência, prejudicam o ecumenismo.

         Ele difunde entre os seus fiéis a paixão pela unidade que ardia no coração de Cristo, aguardando com esperança a graça da comunhão de todos na única Igreja de Cristo, segundo o desígnio do Espírito Santo.

         Ao Bispo e aos seus colaboradores em cada diocese está confiada a tarefa específica do ecumenismo local,[201] com todas as iniciativas possíveis, como a semana de oração pela unidade dos cristãos, os intercâmbios de oração e o testemunho do único Evangelho de Cristo Senhor. Continua a ser precioso, por fim, o diálogo da vida e o ecumenismo dos simples gestos quotidianos de comunhão e de serviço que aproximam os corações e as mentes dos cristãos.

 

 

O anúncio do Evangelho

 

132. Novas são as tarefas da missão da Igreja porque novos são os fenómenos sociais e as emergências culturais, os areópagos da evangelização, os compromissos que brotam da compreensão da mensagem evangélica: a promoção da paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos, o reconhecimento dos direitos das minorias, a promoção da mulher, uma nova preocupação pelas crianças e os jovens, a salvaguarda da criação, a promoção de uma autêntica cultura e pesquisa científica respeitosa dos valores da vida, o diálogo internacional e as novas projecções mundiais.[202]

         Neste contexto social e cultural, o Evangelho da esperança é anunciado como a verdade de sempre, mas com novas linguagens, com novo impulso e fervor, com novos métodos, sobretudo com a força que brota da santidade da Igreja e do testemunho da sua unidade. Esta tarefa está confiada àqueles que pelo Espírito Santo foram colocados como Bispos a apascentar a Igreja de Deus (cf. Act 20, 28).

 

 

Acção e cooperação missionária

 

133. À imitação de Jesus de Nazaré, evangelizador do Pai, o Bispo, animado pela esperança inerente ao anúncio da Boa Nova, alarga os confins do seu ministério ao mundo inteiro, pois todos são destinatários da sua solicitude pastoral. A própria colocação do Bispo na Igreja e a missão que nela é chamado a realizar fazem dele o primeiro responsável da permanente missão de levar o Evangelho a quantos ainda não conhecem Cristo, redentor do homem. A missão do Bispo está intimamente ligada ao seu ministério universal de ensinamento e à plena relação com a comunidade a que preside em nome de Cristo Pastor.

         O mandato confiado pelo Senhor Ressuscitado aos seus Apóstolos diz respeito a todos os povos. Ou melhor, nos próprios Apóstolos «a Igreja recebeu uma missão universal, sem limites, referindo-se à salvação em toda a sua integridade, segundo aquela plenitude de vida que Cristo veio trazer (cf. Jo 10, 10)».[203]

         Também para os sucessores dos Apóstolos, o dever de anunciar o Evangelho não se limita ao âmbito eclesial. O Evangelho é sempre para todos os homens. A própria Igreja é sacramento de salvação para todos os homens e a sua acção não se restringe àqueles que aceitam a sua mensagem. Melhor, ela é «força dinâmica no caminho da humanidade em direcção ao Reino escatológico, é sinal e promotora dos valores evangélicos entre os homens».[204] Por isso, cabe sempre aos sucessores dos Apóstolos a responsabilidade de o difundir em toda a terra.

         Consagrados não somente para uma Diocese, mas para a salvação de todo o mundo,[205] os Bispos, quer como membros do Colégio episcopal quer como pastores das Igrejas particulares, são, juntamente com o Bispo de Roma, directamente responsáveis pela evangelização de quantos ainda não reconhecem em Cristo o único salvador e ainda não depositam nele a sua esperança.

         Neste contexto, não podem ser esquecidos tantos Bispos missionários que ainda hoje ilustram a vida da Igreja com a generosidade e a santidade. Alguns deles são também fundadores de Institutos missionários.

 

134. Como pastor de uma Igreja particular, compete ao Bispo orientar, dirigir e coordenar os caminhos missionários. Ele cumpre o seu dever de empenhar-se a fundo no impulso evangelizador da própria Igreja particular, quando suscita, promove e guia a obra missionária na sua Diocese. Procedendo assim, «torna presentes e como que palpáveis o espírito e o ardor missionário do Povo de Deus, de maneira que toda a diocese se torna missionária».[206]

         No seu zelo pela actividade missionária, o Bispo mostra-se, também aqui, servo e testemunha da esperança. De facto, a missão é, sem dúvida, motivada pela fé e é «o indicador exacto da nossa fé em Cristo e no seu amor por nós»[207] e enquanto estimula o homem de todos os tempos à novidade de vida, é também animada pela esperança e, ela própria, é fruto da esperança cristã.

         Anunciando Cristo Ressuscitado, os cristãos anunciam Aquele que inaugurou uma nova época da história e proclamam ao mundo a boa notícia de uma salvação integral e universal, que contém em si o penhor de um mundo novo, no qual a dor e a injustiça darão lugar à alegria e à beleza. Por isso, rezam como Jesus lhes ensinou: «Venha o teu Reino» (Mt 6, 10). Finalmente, a actividade missionária, no seu fim último de colocar à disposição de cada homem a salvação dada por Cristo de uma vez para sempre, tende, por si mesma, à plenitude escatológica. Graças a ela cresce o Povo de Deus, dilata-se o Corpo de Cristo e amplia-se o Templo do Espírito até à consumação dos tempos.[208]

         No início do terceiro milénio, quando a consciência da universalidade da salvação se tornou mais intensa e se experimenta que o anúncio do Evangelho deve ser renovado todos os dias, a Igreja sente que não deve abrandar no seu empenho missionário, antes, deve unir as forças numa nova e mais profunda cooperação missionária, com a colaboração de todos os sucessores dos apóstolos e das suas Igrejas particulares.[209]

 

 

Diálogo inter-religioso e encontro com as outras religiões

 

135. Como mestres da fé, os Bispos devem também prestar uma oportuna atenção ao diálogo inter-religioso, primeiro dentre todos o especial diálogo com os irmãos de Israel, povo da primeira aliança.

         De facto, é para todos evidente que, nas actuais circunstâncias históricas, este diálogo assumiu uma nova e imediata urgência. Efectivamente, para muitas comunidades cristãs, por exemplo na África e na Ásia, o diálogo inter-religioso quase faz parte integrante da vida quotidiana das famílias, das comunidades locais, do ambiente de trabalho e dos serviços públicos. Noutras, pelo contrário, como por exemplo na Europa ocidental e, a seu modo, nos países da mais antiga cristandade, trata-se de um fenómeno novo. Também aqui sucede de forma cada vez mais frequente que os crentes das diversas religiões e cultos se encontrem facilmente e muitas vezes vivam em conjunto, por causa das migrações dos povos, das viagens, das comunicações sociais e das opções pessoais.

         O diálogo inter-religioso, como recordou João Paulo II, faz parte da missão evangelizadora da Igreja e entra nas perspectivas do Jubileu do ano 2000 e dos desafios do terceiro milénio.[210] Entre as principais razões, o decreto Nostra Aetate aponta as sugeridas pela profissão da esperança cristã. De facto, todos os homens têm uma origem comum em Deus, enquanto criaturas amadas e queridas por Ele, e têm no seu amor eterno um destino comum. Deus é o fim último de cada homem.

         Neste diálogo, os cristãos devem testemunhar sempre a própria esperança em Cristo, único Salvador do homem, cultivando o dever e a determinação de proclamar, sem hesitações, a unicidade de Cristo redentor. Na verdade, em nenhum outro o cristão coloca a sua esperança porque Cristo é a realização de todas as esperanças. Ele é «a expectativa de quantos, em cada povo, aguardam a manifestação da bondade divina».[211] Além disso, o diálogo deve ser orientado e realizado pelos fiéis católicos com a convicção de que a única religião verdadeira subsiste «na Igreja católica e apostólica, à qual o Senhor Jesus confiou a missão de a comunicar a todos os homens».[212]

 

136. A todos os fiéis e a todas as comunidades cristãs compete praticar o diálogo inter-religioso, ainda que nem sempre com a mesma intensidade e ao mesmo nível. Onde, porém, as situações o exigem, ou o permitem, é dever de todo o Bispo na sua Igreja particular ajudar, com a sua instrução e acção pastoral, todos os fiéis a respeitar e estimar os valores, as tradições e convicções dos outros crentes, e também promover uma sólida e adequada formação religiosa dos próprios cristãos, para que saibam dar um testemunho convicto do grande dom da fé cristã.

         O Bispo deve também velar pela dimensão teológica do diálogo inter-religioso, quando é realizado na sua Igreja particular, de modo que nunca fique silenciada ou negada a universalidade e unicidade da Redenção operada por Cristo, único Salvador do homem e revelador do mistério de Deus.[213] Efectivamente, só em coerência com a própria fé é possível partilhar, confrontar e enriquecer as experiências espirituais e as formas de oração, como caminhos do encontro com Deus.

         O diálogo inter-religioso, todavia, não diz respeito somente ao aspecto doutrinal, mas estende-se a uma pluralidade de relações quotidianas entre os crentes, que são convidados ao respeito recíproco e ao conhecimento mútuo. Trata-se do diálogo da vida onde os crentes das diversas religiões testemunham reciprocamente os próprios valores humanos e espirituais, a fim de favorecer a convivência pacífica e a colaboração em ordem a uma sociedade mais justa e fraterna. Ao favorecer e seguir atentamente tal diálogo, o Bispo recordará sempre aos fiéis que este empenho nasce das virtudes teologais da fé, esperança e caridade e com elas cresce.

 

Uma particular atenção ao fenómeno das seitas

 

137. A solicitude do Bispo pelos seus fiéis deve captar com realismo também o perigo da sedução, que as seitas religiosas e outros movimentos alternativos, de diverso tipo e de diferentes nomes, podem suscitar nas pessoas menos preparadas. Trata-se, muitas vezes, de movimentos induzidos para corroer a fé católica, propostos em ambientes de mal-estar social e familiar, também com a manipulação das pessoas e das consciências. Difundem-se até seitas satânicas, caracterizadas por objectivos anticristãos, ritos e formas morais aberrantes.

         O estudo diligente das seitas e do seu modo de actuar, tal como o recurso a quem tem capacidade de ajudar os fiéis que permaneceram emaranhados nelas ou ameaçados por elas, podem ser de grande ajuda também para restituir às pessoas a serenidade e a profissão da fé.[214]

         Mas trata-se sobretudo de formar comunidades vivas e autênticas, repletas de vitalidade e de entusiasmo, promotoras de esperança; isto é, comunidades capazes de se tornar lugares da partilha do Evangelho, do empenho missionário, da atenção às pessoas, da ajuda mútua e de uma verdadeira e própria terapia espiritual para os homens e mulheres do nosso mundo, mediante a oração e os sacramentos.

         Depois, quanto à luta contra o mal e o maligno, compete ao Bispo encarregar, segundo a lei canónica, sacerdotes dotados de piedade, ciência, prudência e integridade de vida para o uso dos exorcismos e prover também à prática das orações para obter de Deus a cura.[215]

 

Diálogo com pessoas de outras convicções

 

138. A Igreja, no seu empenho de evangelizar e anunciar a salvação em Cristo a todos, não deixa de estabelecer de modos mais idóneos o diálogo com pessoas de outras convicções religiosas. Elas são com frequência sensíveis ao fascínio do Evangelho, à pessoa de Jesus, aos valores autenticamente humanos da sua pregação e do seu exemplo. Muitas vezes esperam da Igreja a palavra esclarecedora, a superação dos preconceitos, a busca atenta dos valores críveis da verdade e da justiça. Sentem, por vezes, uma secreta nostalgia do cristianismo onde se juntam também as razões da fé e as da esperança, enquanto hoje, com a derrocada das utopias, a falta de fé se traduz numa atitude incapaz de cruzar o limiar da esperança.

         Por isso, o Bispo na sua Igreja deve favorecer encontros que possam envolver homens e mulheres que estão em busca da verdade, sensíveis aos valores transcendentes da bondade, da justiça e da beleza, preocupados com a humanidade do nosso tempo. E isto com a finalidade de favorecer a busca comum de veredas para a promoção dos valores do homem, de maneira especial através do diálogo com autorizados expoentes da cultura e da espiritualidade.

         Pastor de todos, responsável pelo anúncio do Evangelho na complexa situação da nossa sociedade, o Bispo não deve esquecer que é defensor dos direitos dos fiéis católicos e também da Igreja, com frequência negados ou contestados em diversos lugares ou em certas circunstâncias sociais ou políticas. Apoio dos seus fiéis, o Bispo deve infundir e promover a esperança nos momentos de perseguição e de hostilidade contra os próprios fiéis, fortalecido pelo testemunho da verdade e pela coerência da própria vida.

 

 

Atenção aos novos problemas sociais e às novas pobrezas

 

139. Um anúncio privilegiado da esperança é a solicitude pelos pobres exercida nesta nossa sociedade, na qual ninguém deve esquecer que da vida económica e social, como recordou o Concílio, o homem é o autor, centro e fim.[216] Daqui a preocupação da Igreja para que o desenvolvimento não seja entendido em sentido exclusivamente económico, mas sobretudo em sentido integralmente humano.

         A esperança cristã orienta-se, certamente, para o Reino dos céus e para a vida eterna. Este destino escatológico, todavia, não atenua o empenho pelo progresso da cidade terrena. Pelo contrário, dá-lhe sentido e força, uma vez que «o ímpeto da esperança preserva do egoísmo e conduz à alegria da caridade».[217] A distinção entre progresso terrestre e crescimento do Reino, efectivamente, não é uma separação, dado que a vocação do homem à vida eterna, mais do que abolir, confirma o dever de o homem pôr em acção as capacidades recebidas do Criador para o desenvolvimento da sua vida temporal.

        

140. Não é tarefa específica da Igreja oferecer soluções para as questões económicas e sociais, mas a sua doutrina social contém um conjunto de princípios indispensáveis à construção de um sistema social e económico justo. Também sobre isto a Igreja tem um «evangelho» a anunciar, do qual cada Bispo, na sua Igreja particular, deve fazer-se portador, apontando as Bem-aventuranças evangélicas como o seu coração.[218]

         Por fim, dado que o mandamento do amor ao próximo é muito concreto, é necessário que o Bispo promova na sua Diocese iniciativas apropriadas e exorte à superação de eventuais atitudes de apatia, passividade e egoísmo individual e de grupo. Do mesmo modo, é importante que com a sua pregação o Bispo desperte a consciência cristã de cada cristão, exortando-o a agir, com uma solidariedade activa e com os meios à sua disposição, em defesa do seu irmão contra qualquer abuso que atente contra a dignidade humana. Deve, a propósito, recordar sempre aos fiéis que em cada pobre e necessitado Cristo está presente (cf. Mt 25, 31-46). A própria figura do Senhor como juiz escatológico é a promessa de uma justiça finalmente perfeita para os vivos e para os mortos, para os homens de todos os tempos e de todos os lugares.[219]

 

 

 

 

Próximo de quantos sofrem

 

141. Recordado do seu título de pai e de defensor dos pobres, o Bispo tem a tarefa de animar o exercício da caridade para com os pobres com o exemplo, com as obras da misericórdia e da justiça, com intervenções particulares, mas também com amplos programas de solidariedade.

         Dos empenhamentos, que nas respostas aos Lineamenta se apontam aos Bispos como promotores da caridade no nosso tempo, é preciso recordar alguns em particular.

         Na sua diocese cada pastor, com a ajuda de pessoas qualificadas no campo da pastoral da saúde, anuncia o Evangelho no âmbito do cuidado da saúde física e psíquica. A tutela da saúde ocupa um lugar de relevo na nossa sociedade. A humanização da medicina e da assistência dos doentes, a proximidade a todos no momento do sofrimento desperta no coração de todo o discípulo de Jesus a figura compassiva de Cristo, médico dos corpos e das almas. E recorda a sua peremptória palavra de missão: «Curai os enfermos» (Mt 10, 8).

         A organização e a promoção contínua deste sector da pastoral merecem prioridade no coração e na vida de um Bispo.

 

 

Promotor da justiça e da paz

 

142. Os temas da justiça e do amor ao próximo evocam espontaneamente o tema da paz: «um fruto de justiça é semeado na paz para aqueles que constróem a paz» (Jz 3, 18). A paz que a Igreja anuncia é a de Cristo, o «príncipe da paz» que proclamou a bem-aventurança dos «que constróem a paz porque serão chamados filhos de Deus» (Mt 5, 9). Estes são não só os que renunciam ao uso da violência como método habitual, mas também todos aqueles que têm a coragem de agir para que seja destruído tudo aquilo que impede a paz. Estes construtores da paz sabem bem que ela começa no coração do homem. Por isso, agem contra o egoísmo, que impede de ver os outros como irmãos e irmãs numa única família humana, apoiados nisto pela esperança em Jesus Cristo, o Redentor Inocente cujo sofrimento é um sinal indefectível de esperança para a humanidade. Cristo é a paz (cf. Ef 2, 14) e o homem não encontrará a paz se não encontrar Cristo.

         A paz é uma responsabilidade universal, que passa pelos mil pequenos actos da vida de cada dia. Segundo o seu modo quotidiano de viver com os outros, os homens fazem uma escolha a favor ou contra a paz. A paz espera os seus profetas e artífices.[220] Estes arquitectos da paz devem encontrar-se acima de tudo nas comunidades eclesiais, de que o Bispo é pastor.

         É necessário, por isso, que ele não perca nenhuma ocasião para promover nas consciências a aspiração à concórdia e para favorecer a compreensão entre as pessoas no zelo pela causa da justiça e da paz. Trata-se de uma tarefa árdua, que exige dedicação, esforços renovados e uma persistente acção educativa, sobretudo em relação às novas gerações para que se empenhem, com renovada alegria e esperança cristã, na construção de um mundo mais pacífico e fraterno. O trabalho pela paz é também tarefa prioritária da evangelização. Por isso, a promoção de uma autêntica cultura do diálogo e da paz é igualmente um dever fundamental da acção pastoral de um Bispo.

 

143. Voz da Igreja que, evangelizando, chama e convoca todos os homens, o Bispo não se furta a agir concretamente e a fazer ouvir a sua palavra sábia e equilibrada, para que os responsáveis pela vida política, social e económica procurem, na medida do possível, as soluções mais justas para resolver os problemas da convivência civil.

         As condições em que os pastores são chamados a desenvolver a sua missão nestes âmbitos são frequentemente muito difíceis, quer para a evangelização quer para a promoção humana, e é sobretudo aqui que se vê quanto e como deva estar incluída no ministério episcopal a disponibilidade para o sofrimento. Mas, sem ela, não é possível que os Bispos se dediquem à sua missão. Por isso, deverá ser grande a sua confiança no espírito do Senhor ressuscitado e o seu coração deverá estar sempre cheio da «esperança que não desilude» (Rm 5, 5).

 

Guardiões da esperança, testemunhas da caridade de Cristo

 

144. Os cristãos cumprem a missão profética recebida de Cristo quando actuam para levar ao mundo o gérmen da esperança. Por isso, o Concílio recorda que a Igreja «caminha juntamente com toda a humanidade e experimenta com o mundo o mesmo destino terreno, e é como que o fermento e a alma da sociedade humana, destinada a renovar-se em Cristo e a transformar-se em família de Deus».[221]

         O assumir a responsabilidade em relação a todo o mundo e aos seus problemas, às suas interrogações e expectativas, pertence também ao empenho de evangelização, a que a Igreja é chamada pelo Senhor. Isso compromete em primeiro lugar cada Bispo, tornando-se atento à leitura dos «sinais dos tempos», de modo a despertar nos homens uma nova esperança. Nisto ele age como ministro do Espírito que, também hoje, no limiar do Terceiro Milénio, não cessa de realizar maravilhas para que seja renovada a face da terra. A partir do exemplo do Bom Pastor, ele indica ao homem o caminho a seguir e, como o Samaritano, inclina-se para ele a fim de lhe curar as feridas.

 

145. O homem é, também, essencialmente um «ser de esperança». É também verdade que, em várias partes da terra, não são poucos os acontecimentos que induziriam ao cepticismo e à falta de confiança: tantos e tão grandes são os desafios que hoje se colocam à esperança. A Igreja, porém, encontra no mistério da cruz e da ressurreição do seu Senhor o fundamento da «feliz esperança». Daqui tira força para se pôr, e permanecer, ao serviço do homem todo e de cada homem.

         O Evangelho, do qual a Igreja é serva, é uma mensagem de liberdade e uma força de libertação que, enquanto põe a nu e julga as esperanças ilusórias e falaciosas, conduz à realização as aspirações mais autênticas do homem. O núcleo central desta boa notícia é que, mediante a cruz e ressurreição e pelo dom do Espírito Santo, Cristo abriu caminhos novos de liberdade e de libertação para a humanidade.

         Entre os âmbitos nos quais o Bispo é chamado a conduzir a sua comunidade, delineando compromissos e actuando comportamentos que constituam espaços onde chega a força renovadora do Evangelho e sinais efectivos de esperança, indicam-se alguns de particular relevo, que dizem respeito à doutrina social da Igreja, De facto, esta não só não é estranha mas é parte essencial da mensagem cristã, porque propõe as consequências imediatas do Evangelho na vida da sociedade. Sobre ela, além disso, muitas vezes se deteve o Magistério, iluminando-a à luz do mistério pascal, onde a Igreja encontra a verdade sobre a história e sobre o homem, recordando também que compete em seguida às Igrejas particulares, em comunhão com a Sé de Pedro e entre si, orientá-la para acções concretas.

 

146. Um primeiro aspecto diz respeito à relação com a sociedade civil e política. É, a propósito, evidente que a missão da Igreja é uma missão religiosa e que o fim privilegiado da sua acção é o anúncio a todos os homens de Jesus Cristo, único Nome «dado aos homens debaixo do céu no qual está estabelecido que podemos ser salvos» (Act 4, 12). Daqui deriva, entre outras coisas, a distinção reforçada pelo Concílio, entre a comunidade política e a Igreja. Independentes e autónomas no seu campo, elas têm em comum, porém, o serviço à vocação pessoal e social das mesmas pessoas humanas.[222]

         Por conseguinte, a Igreja, aberta a todos os homens de boa vontade por mandato do Senhor, não é, nem nunca poderá ser, concorrente da vida política, mas também não é alheia aos problemas da vida social. Por isso, permanecendo no interior da sua própria competência na promoção integral do homem, a Igreja pode, igualmente, procurar soluções para problemas de ordem temporal, sobretudo onde está comprometida a dignidade do homem e são desrespeitados os seus direitos mais elementares.

 

147. Situa-se também, em tal horizonte, a acção do Bispo, o qual reconhece a autonomia do Estado e evita, por isso, a confusão entre a fé e a política servindo, pelo contrário, a liberdade de todos. Alheio a gestos que induzam a identificar a fé com uma determinada forma política, ele procura acima de tudo o Reino de Deus e é assim que, assumindo um amor mais válido e puro para ajudar os seus irmãos e para realizar, com a inspiração da caridade, as obras da justiça, ele se apresenta como guardião do carácter transcendente da pessoa humana e como sinal de esperança.[223] O contributo específico que um Bispo oferece neste âmbito é o mesmo da Igreja, isto é, «a visão da dignidade da pessoa, a qual se manifesta em toda a sua plenitude no mistério do Verbo encarnado».[224]

         A autonomia da comunidade política não inclui, de facto, a sua independência em relação aos princípios morais; pelo contrário, uma política privada de referências morais conduz inevitavelmente à degradação da vida social, à violação da dignidade e dos direitos da pessoa humana. Por isso, a Igreja toma muito a peito que seja conservada ou restituída à política, a imagem do serviço a prestar ao homem e à sociedade. Dado que, depois, é tarefa específica dos fiéis leigos o empenho directo na política, a preocupação do Bispo é a de ajudar os seus fiéis a debater as suas questões e assumir  as próprias decisões à luz da Palavra da Verdade; de favorecer e cuidar da sua formação, de modo que nas suas opções sejam motivados por uma solicitude sincera para com o bem comum da sociedade em que vivem, isto é, o bem de todos os homens e do homem todo; de insistir para que haja coerência entre a moral pública e a privada.

 

 

A plêiade das testemunhas e a âncora da esperança

 

148. Discípulo e testemunha de Cristo, o Bispo neste início de século e de milénio cuida de anunciar, celebrar e promover, como Jesus, o Reino do Pai na esperança.

         Sólido na fé, que é «o firme fundamento das coisas que se esperam e uma demonstração das que não se vêem» (Hb 11, 1), ele está pronto a fazer avançar o seu povo, como Israel no deserto, imagem viva da Igreja peregrina no tempo, «entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus».[225] Com olhar fixo em Cristo, autor e aperfeiçoador da fé, e sustentado pela plêiade das testemunhas da fé e da esperança, ele torna-se uma testemunha crível da fidelidade de Deus em todo o tempo. Por esta razão, a Igreja do final do século e do milénio quis, entre outras coisas, fazer memória ecuménica das testemunhas  da fé do século XX, como arautos da esperança cristã para as novas gerações.

         Em um mundo globalizado, o Bispo proclama a comunhão e a solidariedade, a unidade e a reconciliação. Numa sociedade em busca do sentido da vida, ele oferece a palavra libertadora do Evangelho, palavra da verdade que abre os horizontes dos homens para além da morte e ilumina as veredas da vida com a luz da Páscoa de Cristo.[226]

         O Bispo, agarrado à esperança, segura e sólida como uma âncora (cf. Hb 6, 18 ss), guia o seu povo com confiança no espírito de servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo.

 

 

 


CONCLUSÃO

 

149. Nos dias de 6 a 8 de Outubro de 2000, os Bispos de todo o mundo celebraram o seu Jubileu em comunhão com o Papa, num clima de conversão e de oração, inspirando-se no mesmo tema da próxima Assembleia ordinária do Sínodo: O Bispo servidor do Evangelho de Jesus Cristo para a esperança do mundo.[227] Como foi notado, pela primeira vez desde os tempos do Concílio Vaticano II, tantos Bispos, provenientes do mundo inteiro, encontravam-se juntos para viver momentos de autêntica espiritualidade jubilar: o rito penitencial em S. João do Latrão, a celebração missionária em S. Paulo Fora dos Muros, o Santo Rosário na Sala Paulo VI, os encontros com o Romano Pontífice, de maneira especial a solene concelebração eucarística de Domingo, 8 de Outubro, ápice do Jubileu dos Bispos.

         A devoção a Maria, que culminou na veneração da imagem da Virgem de Fátima, que guiou por veredas de esperança a conturbada história da Igreja no século XX, tornou o encontro jubilar particularmente intenso. Como muitas vezes o Papa repetiu, era como que um retorno dos sucessores dos apóstolos ao Cenáculo do Pentecostes, com Maria, a Mãe de Jesus,

        

150. Nesta particular circunstância, João Paulo II confiou à Mãe do Senhor, com uma oração vibrante, os frutos do Jubileu e os anseios do novo milénio.

         Nas palavras da oração de consagração à Virgem Maria se concentraram as esperanças para o futuro, com a certeza de que é Cristo Senhor a única salvação e o Espírito da verdade é a indispensável fonte de vida para a Igreja.

         Juntamente com a memória dos grandes progressos de uma humanidade que se encontra num bívio da história, o Santo Padre recordou as necessidades dos mais débeis: crianças que ainda não nasceram ou nasceram em condições de pobreza e de sofrimento; jovens em busca de sentido; pessoas privadas de trabalho ou provadas pela fome e doença, famílias em dificuldades, anciãos privados de assistência, pessoas sozinhas e sem esperança.[228]

         Está em jogo nas esperanças da humanidade o próprio valor da vida humana, que a Igreja defende e propõe com coragem diante de todas as ameaças, confiando-se ao Deus da vida e à Mãe d’Aquele que é o caminho, a verdade e a vida.

         Nas palavras do Sucessor de Pedro e na sua imploração pelos destinos da humanidade, voltamos a escutar a oração por um mundo em busca de razões para acreditar e esperar.

         Como numa continuidade lógica, os Bispos reunir-se-ão na próxima Assembleia sinodal para proclamar a esperança em Cristo e na acção do Espírito para o futuro da Igreja e da humanidade.

         De Maria, a humilde serva que se confiou a Deus, a Igreja aprende a proclamar o Evangelho da salvação e da esperança. No Magnificat ressoam em canto as certezas de todos os pobres do Senhor, que esperam na sua Palavra. Nela, mulher vestida de sol, assunta na glória ao lado do Filho ressuscitado, a Igreja tem a garantia do pleno cumprimento das promessas do Senhor para a humanidade, chamada à vitória final sobre o mal e sobre a morte. A ela, que para quantos são ainda peregrinos sobre a terra brilha «como sinal de esperança segura e de consolação, enquanto não chega o dia do Senhor»[229], a Igreja dirige a sua oração, invocando-a como mãe da esperança, primícias do mundo futuro.

  

 


[1] Cf. CONCILIUM OECUMENICUM VATICANO II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 45.

 

[2] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Declaratio Dominus Iesus (06.08.2000), nn. 1-2: AAS 92 (2000), 742-744.

[3] Cf. IOANNES PAULUS II, Discurso à Conferência Episcopal Colombiana (2.VII.1986), n. 8: AAS 79 (1987), 70.

[4] CONC. OECUM.VAT.II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 1.

 

[5] CONC.OECUM.VAT.II, Const. dogm. de Divina revelatione Dei Verbum, 1.

[6] IOANNES PAULUS II, Discurso aos Bispos da Áustria por ocasião da visita «ad Limina» (6.VII.1982), 2:AAS 74 (1982), 1123.

[7] Cf. CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago de pastorali ministerio episcoporum (22.02.1973).

 

[8] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Carta Communionis notio (28.05.92): AAS 85 (1993), 838-850.

 

[9] Cf. IOANNES PAULUS II, Motu proprio Apostolos suos (21.05.98): AAS 90 (1998), 641-658.

[10] CONC.OECUM. VAT. II, Decretum de activ. mission. Ecclesiae Ad gentes, 38.

 

[11] CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23.

 

[12] Cf. CON. OECUM. VAT. II, Ibidem, 27.

[13] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Decretum de activ. mission. Ecclesiae Ad gentes, 8.

[14] Epist. ad Diognetum 6; Patres Apostolici I, Ed. F. X. Funk, Tubingae 1901, 400; cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 38.

[15] SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago de pastorali ministerio episcoporum (22.02.1973), 25.

 

[16] PAULUS VI,  O Espïrito Santo  Animador e Santificador da Igreja, Audiência geral de 29/11/1972: L’Osservatore Romano, ed. port. 03.12.1972, p. 3.

 

[17] CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Divina revelatione Dei Verbum, 8.

 

[18] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 1.

[19] SYNODUS EPISCOPORUM, (Coetus specialis pro Europa, 1991) Declaratio Ut testes simus Christi qui nos liberavit (13.12.1991); IOANNES PAULUS II, Adhortatio apostolica postsynodalis Ecclesia in Africa (14.09.95), 46-52; ID., Adhortatio apostolica postsynodalis Ecclesia in America (22.01.1999), 13-25; ID., Adhortatio apostolica postsynodalis Ecclesia in Asia (06.11.1999), 5-9.

[20] Cf. A Constituição pastoral Gaudium et spes do Vaticano II, a Encíclica Humanae vitae de Paulo VI, a Exortação apostólica Familiaris consortio  e a Encíclica Evangelium vitae  de João Paulo II, juntamente com outros autorizadas e precisas intervenções, como a Carta às Famílias (02.02.1994), bem como diversos Documentos do Pontifício Conselho para a Família e da Pontifícia Academia para a Vida.

[21] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhortatio apost. postsynodalis Christifideles laici (30.12.1988), 30: AAS 81 (1989), 446.

 

[22] Cf. JOÃO PAULO II, Mensagem Ringraziamo sempre Dio, aos participantes no IV Congresso mundial dos movimentos eclesiais e das novas comunidades: L’Osservatore Romano, ed. quot. 28.5.1998, p. 6.

 

[23] Cf. PAULUS VI, Litt. Encycl. Ecclesiam suam III, (06.08.1964): AAS 56 (1964), 639.

 

[24] S. IGNATIUS ANTIOCHENUS, Ad Ephesios 7,2; Patres Apostolici I, Ed. F.X. Funk. Tubingae 1901, 218; cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. de sacra liturgia Sacrosanctum Concilium, 5.

 

[25] JOÃO PAULO II, Carta Enc. Veritatis splendor (06.08.1993, 107: AAS 85 (1993), 1217.

[26] S. AUGUSTINUS, Serm. 340/A, 9: PLS 2, 644.

[27] IOANNES PAULUS II, Discurso aos Bispos da Áustria por ocasião da visita «ad Limina» (06.07.1982), 2: AAS 74 (1982), 1123.

[28] Surrexit pastor bonus qui animam suam posuit pro ovibus suis et pro grege suo mori dignatus est»: MISSALE ROMANUM, Dominica IV Paschae, Antif. ad communionem.

[29] SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 22.

 

[30] Cf. S. AUGUSTINUS, Tractatus 123 in Ioannem: PL 35, 1967.

 

[31] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 21.

[32] Cf. Ibid.

 

[33] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n.39, Homilia.

[34] Cf. CLEMENS ROMANUS, Epist. ad Corinthios, 42-44: Patres apostolici I, Ed. F. X. Funk, Tubingae 1901, 154-159.

 

[35] PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, Ibid, 39.

 

[36] Cf. S. IRAENEUS, Adversus haereses, IV, 20, 1.3: PG 7, 1032; Demonstratio praedicationis apostolicae, 11, Sources Chret. 62, 48-49; cf. Catecismo da Igreja Católica, 704

 

[37] PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 47: Prex. ordinationis.

 

[38] Cf. S. IGNATIUS ANTIOCHENUS, Ad Magnesios, 6,1; 3,1;  Patres apostolici I, ed. F. X. Funk, Tubingae 1901, 232-233; 234-235.

[39] Cf. S.IGNATIUS ANTIOCHENUS, Ad Trallianos 3,1; Ibid., pp. 244-245.

 

[40] Didascalia apostolorum II, 33,1, em Didascalia et Constitutiones apostolorum, II, ed. F. X. Funk, Paderborn 1905, 114-105.

 

[41] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 40, p. 13: Promissio electi. «plebem Dei sanctam .... ut pius pater fovere et in viam salutis dirigere».

 

[42] Cf. C0NC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 6. 28; IOANNES PAULUS II, Adhort, apost. postsyn. Ecclesia in Africa, 65.

 

[43] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 40, p. 14: Promissio electi

[44] Cf. S.CYPRIANUS EPISCOPUS, De oratione dominica, 23: PL 4,553: «Sacrificium Deo maius est pax nostra et fraterna concordia, et de unitate Patris, et Filii et Spiritus Sancti, plebs adunata»; (cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 4).

 

[45] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 50-54, pp. 26-27: Unctio capitis et traditio libri evangeliorum atque insignium.

[46] Cf. ISIDORUS PELUSIOTA Erminio comiti, Epistularum lib. I, 136: PG 78, 271-272: «Id autem amiculum, quod sacerdos humeris gestat, atque ex lana, non ex lino contextum est, ovis illius, quam Dominus aberrantem quaesivit inventamque humeris suis sustulit, pellem designat. Episcopus enim qui Christi typum gerit, ipsius munere fungitur...».

 

[47] Cf. BENEDICTUS XIV, Const. Rerum ecclesiasticarum (12.08.1748): De pallii benedictione et traditione, in S.D.N. Benedicti Papae XIV Bullarium, tom. II, 494-497: «Ut quam mysticae repraesentant pastoralis officii plenitudinem, atque excellentiam, pleno quoque operentur effectu... Sit boni magnique illius imitator pastoris, qui errantem ovem humeris suis impositam caeteris adunavit, pro quibus animam posuir».

 

[48] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 49-54, pp. 26-27: Unctio capitis et traditio Libri Evangeliorum atque insignium.

[49] Sacramentarium Serapionis, 28, em Didascalia et Constitutiones Apostolorum, II, Ed. F.X. Funk, Paderborn 1905, 191.

 

[50] Cf. PONTIFICALE ROMANUM, De ordinatione episcopi, n. 47, p. 24-25: Prex ordinationis.

[51] S. AUGUSTINUS, In natale episcopi: CCL 104, 919,1: «Vobis enim sum episcopus; vobiscum sum christianus. Illud est nomen suscepti officii, hoc gratiae; illud periculi est, hoc salutis».

[52] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Presbyterorum ordinis, cap. III; cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Pastores dabo vobis (25.03.1992) cap. III.

 

[53] S. PETRUS DAMIANUS, Opusc. XI (Liber qui appellatur Dominus vobiscum) 5: PL 145, 235; cf. S.AUGUSTINUS, In Ioann. 32, 8: PL 35, 1645.

[54] CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 41.

 

[55] Cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), pars I, cap. IV, 21-31.

 

[56] Ibid. 25.

 

[57] Cf. IOANNES PAULUS II, Homilia na celebração eucarística do Jubileu dos Bispos (08.10.2000) n. 4: L’Osservatore Romano, ed. quot. de 8-9 de Setembro de 2000, p. 5.

[58] Cf. ISIDORUS HISPALENSIS, De ecclesiasticis officiis, lib. II, 16-17: PL 83, 785.

 

[59] Cf. S.AUGUSTINUS, Serm. 179, 1: PL 38, 966.

 

[60] ORIGENES, In Leviticum Hom. VI: PG 12, 474 C.

[61] S. THOMA AQ., S. Th. II-II, q. 17, a. 4,3: «Petitio est interpretativa spei».

 

[62] CONC. OECUM. VAT. II, Decret. de past. Episcoporum munere in Ecclesia Christus Dominus, 15.

[63] Cf. S. AUGUSTINUS, Enarr, in psalm. 50,5: PL 36, 588.

[64] CONC. OECUM. VAT. II, Const. de Sacra liturgia Sacrosanctum Concilium n. 8.

 

[65] Cf. S. THOMA AQ., S. Th. III, q. 60, a. 3.

 

[66] Cf. Caeremoniale episcoporum, Editio typica, Typis Poliglottis Vaticanis, 1984.

 

[67] Cf. IOANNES PAULUS II, Epistula apostolica Orientale lumen (02.05.1995): AAS  87 (1995) pp. 745-794; cf. CONGREGAÇÃO PARA AS IGREJAS ORIENTAIS, Instrução para a aplicação das prescrições litúrgicas do CCIO (06.01.1996).

[68] Cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1313.

[69] Cf. PAULUS VI, Adhort. apost. Gaudete in Domino (9.V.1975), I: AAS 67 (1975) 293.

 

[70] Cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago 22.02.1973), 89.

[71] CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 1.

 

[72] Relatio finalis, Exeunte coetu II, C, 1.

 

[73] CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 3: AAS 85 (1993), 839.

 

[74] Cf. Ibid.

[75] Cf. CONC. OECUM.VAT. II, Const. dogmat. de Ecclesia Lumen gentium, 13.

 

[76] IOANNES PAULUS II, Adhort. synod. Christifideles laici (30.12.1988), 31: AAS  81 (1989), 448.

[77] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23; CIC can. 381 § 1; CCEO can. 178.

[78] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 22; CIC can. 336; CCEO can. 49.

 

[79] Cf. S. CYPRIANUS, De catholicae Ecclesiae unitate, 5: PL 4, 516; cf. CONC. OECUM. VAT. I, Const. dogm. Pastor aeternus de Ecclesia Christi: DS 3051; CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 18.

 

[80] CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 13: AAS 85 (1993), 846.

[81] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const., dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23.

 

[82] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 9. 11-14: AAS 85 (1993), 844-847.

 

[83] CONC. OECUM. VAT. II, Decret. de past. Episc. mun. in Ecclesia Christus Dominus, 6; cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23; Decret. de past. Episc. mun. in Ecclesia Christus Dominus, 3. 5.

 

[84] Cf. CONC. OECCUM. VAT. II, Const. de sacra Liturgia Sacrosanctum concilium, 26.

 

[85] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decret. de past. Episc. mun. in Ecclesia Christus Dominus, 6.

[86] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 22-23.

 

[87] Ibid., 8; cf. CONGREGATIO PRO DOCTIRNA FIDEI, Declaratio Dominus Iesus (06.08.2000), 17.

 

[88] Ibid., 26.

 

[89] Ibid., 6.

[90] CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 14: AAS  85 (1993), 845.

 

[91] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm de Ecclesia Lumen gentium, 25.

[92] Cf. CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium pro visitatione «ad limina» Constitutioni apostolicae Pastor bonus adnexum (29.06.88).

[93] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decretum de past. episcoporum munere in Ecclesia Christus Dominus, 37-38; CIC cann. 447-449.

 

[94] Cf. IOANNES PAULUS II, Litterae Apostoliche Motu proprio datae Apostolos suos (21.05.1998): AAS 90 (1998), 641-658; cf. CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Epistola Praesibus Conferentiarum Episcopalium missa, nomine quoque Congregationis pro Gentium Evangelizatione (21.06.1999): AAS 91 (1999), 996-999.

 

[95] SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago, n. 210; cf. IOANNES PAULUS II, Litterae Ap. Apostolos suos, 5.

 

[96] IOANNES PAULUS II, Litterae Apost. Apostolos suos (21.05.1998), 20: AAS 90 (1998), 654.

 

[97] Ibidem, 21: AAS 90 (1998), 655.

 

[98] Cf. Idem.

 

[99] Cf. Ibidem, 22: AAS 90 (1998), 655.

[100] Cf. CCEO can. 110 e 152.

[101] Cf. CCEO, can. 322.

[102] Cf. IOANNES PAULUS II, Litterae Apost. Apostolos suos, 5, nota 32: AAS 90 (1998), 645.

[103] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia, Lumen gentium, 22-23, cum notis.

 

[104] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decretum de Ecclesiis orientalibus catholicis Orientalium ecclesiarum, 9; CCEO cc. 55-56.

 

[105] Cf. CCEO cc. 151-152.

[106] Cf. CIC can. 336; 337; 339.

[107] Cf. CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Normae In vita Ecclesiae sobre os Bispos que renunciam ao ofício (31.10.1988; PONTIFICIUM CONSILIUM PRO INTERPRETATIONE LEGUM, Responsio (3.12.1991): AAS  83 (1991) 1093.

[108] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23.

 

[109] S. CYPRIANUS, Epistula 69,8: PL 4, 418-419: «Unde scire debes Episcopum in Ecclesia esse et Ecclesiam in Episcopo, et si quis cum Episcopo non sit, in Ecclesiam non esse».

 

[110] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 9-13.

 

[111] SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 14.

[112] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 23.

 

[113] CONC. OECUM. VAT. II, Decretum de pastorali episcoporum munere in Ecclesia Christus Dominus, 11; cf. CIC can. 368: CCEO can. 177.

 

[114] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia, Lumen gentium, 26.

 

[115] Cf. CONC. OECUM. VAT. II,  Constitutio de sacra Liturgia, Sacrosanctum Concilium, 10.

[116] PAULUS VI, Adhortatio apost. Evangelii nuntiandi (08.12.1975), 62: AAS 68 (1076), 52.

[117] CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 8: AAS 85 (1993), 842.

 

[118] Ibid., 10: AAS 85 (1993), 844.

 

[119] Cf. Idem.

 

[120] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 9. 13.

 

[121] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 9: AAS 85 (1993), 843.

[122] CONC.OECUM. VAT. II, Const, dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 28.

 

[123] IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Pastores dabo vobis (25, 03.1992), 31: AAS 84 (1992), 708.

[124] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Litterae Communionis notio (28.05.1992), 16: AAS 85 (1993), 847-848.

 

[125] Cf. CONC. VAT. II, Decr. de Presbyt. ministerio et vita Presbyterorum ordinis, 10; IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Pastores dabo vobis (25.03.1992), 32: AAS 84 (1992), 709-710; Litterae Encyclicae Redemptoris missio (07.12.1990), 67: AAS  83 (1991), 329-330.

 

[126] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 28.

 

[127] Ibidem.

[128] Cf. Ibidem, 7; cf. CIC can. 495.

[129] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Constitutio dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 29.

 

[130] Cf. Ibidem, 29. 41.

 

[131] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. Apost. postsyn. Pastores dabo vobis (25.03.1992), 65: AAS 84 (1002), 770-772.

 

[132] Cf. CONGREGATIO DE INSTITUTIONE CATHOLICA et CONGREGATIO PRO CLERICI, Declaratio coniuncta Diaconatus permanens (22.02.1998): AAS 90 (1998), 835-842); CONGREGATIO DE INSTITUTIONE CATHOLICA, Ratio fundamentalis institutionis diaconorum permanentium, Institutio diaconorum: AAS 90 (1998), 843-879; CONGREGATIO PRO CLERIICIS, Directorium pro ministerio et vita diaconorum permanentium Diaconatus originem: AAS 90 (1998), 819-827.

[133] IOANNES PAULUS II, Adhort. postsyn. Vita consecrata (25.III.1996), 3: AAS 88 (1996), 379.

 

[134] Cf. ibidem, 29; CONC. OECUM. VAT. II, Const, dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 44.

 

[135] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Vita consecrata (25.III.1996), 47: AAS 88 (1996), 420-421.

[136] SACRA CONGREGATIO PRO RELIGIOSIS ET INSTITUTIS SAECULARIBUS et SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Notae directivae Mutuae relationes (14.V.1978), 9c: AAS 70 (1978), 479.

 

[137] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. Apost. postsyn. Vita consecrata (25.III.1996), 84.88: AAS 88 (1996), 461-462. 464.

 

[138] Cf. ibidem, 48: AAS 88 (1996) 421-422; SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973) 207.

 

[139] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort, apost. postsyn. Vita consecrata (25.III.1996), 48-49: AAS 88 (1996), 421-423.

[140] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, cap. IV; Decretum de apostl laicor. Apostolicam actuositatem; IOANNES PAULUS, Adhort, apost. postsyn. Christifideles laici (30.12.1988): AAS 81 (1989), 393-521; SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.03.1973), 153-161.208.

 

[141] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes,39.

[142] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort, apost. postsyn. Christifideles laici (30.12.1988), 26: AAS 81 (1989), 437-440.

 

[143] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia, Lumen gentium, 28.

 

[144] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. Catechesi tradendae (16.10.1979), 67: AAS 71 (1979), 1331-1333.

 

[145] Cf. CIC can. 515.

[146] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Christifideles laici (30.12.1988), 26-27: AAS 81 (1989), 437-440.

 

[147] Cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973) 184-188.

[148] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm, de Ecclesia Lumen gentium, 12; IOANNES PAULUS II, Adhort. apost. postsyn. Vita consecrata (25.III.1996), 62: AAS 88 (1996), 435-437.

[149] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 27.

[150] Ibidem, 25. Cf. Decret, de past. Episc. mun. in Ecclesia Christus Dominus, 12-14; cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 55-65.

 

[151] Cf. CIC can 386.

 

[152] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 22.

 

[153] Cf. CIC can. 386 § 2.

 

[154] Cf. S. IRAENEUS, Adversus haereses, IV, 26, 2: PG 7, 1053-1054: «Qui cum episcopali successione charisma veritatis certum secundum placitum Patris acceperunt».

 

[155] Cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago, 59-60.

[156] Cf. CONGREGATIO DE DOCTRINA FIDEI, Instructio Donum veritatis de ecclesiali theologi vocatione (24.V.1990), 21: AAS 82 (1990), 1559.

[157] Cf. IOANNES PAULUS, Const. apost. Fidei depositum (11.X.1992), 4: AAS 86 (1994), 113-118.

 

[158] Cf. CONC. OECUM. VAT. II., Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 33.

[159] PONTIFÍCIA COMISSÃO PARA OS BENS CULTURAIS DA IGREJA, Carta circular acerca da função pastoral dos Arquivos eclesiásticos (02.02.1997).

 

[160] Cf. IOANNES PAULUS II, Adhort, apost. postsyn. Ecclesia in Africa (14.09.95), 59-62: AAS 88 (1996), 37-39; Ecclesia in Asia (06.11.1999) 21-22: AAS 92 (2000), 482-487; Vita consecrata (25.03.1996), 80-81: AAS 88 (1996), 456-458.

 

[161] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decret, de presbyterorum ministerio et vita Presbyterorum ordinis, 5.

[162] CONC. OECUM. VAT. II, Const, dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 26.

 

[163] IOANNES PAULUS II, Catequese da quarta-feira (11.11.1992), 1: L’Osservatore Romano, ed. quot. (12,XI.1992), p. 4.

 

[164] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 26.

 

[165] Cf. S. IGNATIUS ANTIOCH, Ad Magn. 7: Patres Apostolici, I, Edidit F. X. Funk, Tubingae 1897, 194-196; CONC. OECUM. VAT. II, Const. de sacra Liturgia Sacrosanctum Concilium, 41; Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 26; Decretum de oecumenismo Unitatis redintegratio, 15.

[166] CONC. OECUM. VAT. II, Const. de sacra Liturgia Sacrosanctum Concilium, 41.

 

[167] Cf. Caeremoniale Episcoporum, 42-54.

 

[168] Cf. Ibid., 42-46.

 

[169] Cf. Ibid., 47.

 

[170] Cf. Ibid., 48.

 

[171] Cf. CE, 50.

[172] Cf. Ibid., 51. 17.

[173] Cf. Ibid., 52.

[174] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. de sacra Liturgia Sacrosanctum Concilium, 106; IOANNES PAULUS OO, Epistula apostolica Dies Domini, de diei dominicae santificatione (41.05.1998): AAS 90 (1998), 713-766.

[175] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 11.

[176] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. de sacra Liturgia Sacrosanctum Concilium, 21.

[177] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 4.

[178] IOANNES PAULUS II, Litt. encycl. Dominum et vivificantem (18.V.1986), 66: AAS 78 (1986), 897.

[179] Cf. PAULUS VI, Adhort. Ap. Evangelii nuntiandi (8.XII.1975), 48: AAS 68 (1976), 37-38.

[180] Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1674-1676.

[181] Caeremoniale Episcoporum, Pars III; De liturgia horarum et celebrationibus Verbi Dei.

[182] CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 27; cf. Decret, de past. Episc. mun. in Ecclesia Christus Dominus, 16.

[183] IOANNES PAULUS II, Catequese da Quarta-feira (18.11.1982), 2. 4: «L’Osservatore Romano», ed. quot. (19.XI.1994), p. 4.

[184] Cf. CIC can. 383 § 1; 384.

[185] Cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 93-98.

[186] IOANNES PAULUS II, Adhort. Ap. postsynod Pastores dabo vobis (25.III.1992), 23: AAS 84 (1992) 694.

[187] Cf. IOANNES PAULUS II, Discurso aos Bispos da Conferência Episcopal do Brasil da Região Norte, em visita «ad Limina» (28.X.1995), 5: «L’Osservatore Romano», ed. quot. (4.XI.1995), p. 4.

[188] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decret, de presbyterorum ministerio et vita Presbyterorum ordinis, 17.

[189] Cf. CIC can. 396 § 1; cf. can. 398.

[190] SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 166; cf. ibidem 166-170.

[191] Cf. CIC can. 460-468; cf. SACRA CONGREGATIO PRO EPISCOPIS, Directorium Ecclesiae imago (22.02.1973), 163-165.

[192] Cf. CIC can. 212 § 2.3.

[193] Cf. CONGR. PRO EPISCOPIS ET CONGR. PRO GENTIUM EVANGELIZATIONE, Istr.In constitutione apostolica de Synodis dioecesanis agendis (19.03.1997): AAS 89 (1997) pp. 706-727.

[194] Cf. Ibidem, V, 2.3.4; cf. CIC can. 466.

[195] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 1.

[196] Cf. CIC can. 1752.

[197] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const, past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 22.

[198] Cf. Ibidem, 93; cf. PAULUS VI, Litt. Encycl. Ecclesiam suam, III: AAS 56 (1064), 637-659.

[199] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Declaratio Dominus Iesus (06.08.2000), 20-22: AAS 92 (2000), 761-764.

[200] Cf. IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Ut unum sint (25.05.1995): AAS 87 (1995), 021-982.

[201] Cf. CONSEIL PONTIFICAL POUR L’UNITÉ DES CHRÉTIENS, Directoire pour l’application des Principes et Normes sur l’oecuménisme (25.03.1993): AAS 85 (1993), 1039-1119, sobretudo nn. 37-47.

[202] Cf. IOANNES PAULUS II, Litt. Encyc. Redemptoris missio (07.12.1990) 37: AAS (1991), 282-286.

[203] Ibidem, 31: AAS 83 (1991), 276-277.

[204] Ibidem, 20: AAS 83 (1991), 267-268.

[205] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decretum de activ. mission. Ecclesiae Ad gentes, 38.

[206] Ibidem; cf. IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Redemptoris missio, 63: AAS 83 (1991), 311-312.

[207] IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Redemptoris missio, 11: AAS 83 (1991) 259-260.

[208] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Decretum de activ. mission. Ecclesiae Ad gentes, 9.

[209] Cf. CONGREGATIO PRO GENTIUM EVANGELIZATIONE, Instructio Cooperatio missionalis (01.10.1998), de cooperatione missionali:  AAS 91 (1999), 306-324.

[210] Cf. IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Redemptoris missio (07.12.1990), 55: AAS 83 (1991), 302-304; cf. Epist. Apost. Tertio millennio adveniente (10.11.1994), 53: AAS 87 (1995), 37.

[211] S. IUSTINUS, Dialogus cum Tryphone II: PG 6, 499; cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Declaratio Dominus Iesus (06.08.2000), 13-15: AAS 92 (2000), 754-756.

[212] CONC. OECUM. VAT. II, Declar. de libert. religiosa Dignitatis humanae, 1; cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Declaratio Dominus Iesus (06.08.2000), 16-17: AAS 92 (2000), 756-759.

[213] Cf. IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Redemptoris missio (07.12.1990), 5: AAS 83 (1991), 253-254.

[214] Cf. SECRETARIADO PARA A UNIÃO DOS CRISTÃOS - SECRETARIADO PARA OS NÃO-CRISTÃOS - PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A CULTURA, Relação provisõria O fenómeno das seitas e novos movimentos alternativos religiososo (07.05.1986), 10.

[215] Cf. Rituale Romanum. De Exorcismis et Supplicationibus quibusdam, Edito typica 1999; cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Instructio de orationibus ad obtinendam a Deo sanationem (14.09.2000).

[216] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 63.

[217] Catecismo da Igreja Católica, 1818.

[218] Cf. CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDEI, Libertatis conscientia Instructio de libertate christiana et liberatione (22.III.1986) 62: AAS 79 (1987), 580-581.

[219] Cf. Ibidem, 60: AAS 79 (1987), 579.

[220] Cf. IOANNES PAULUS II, Discurso na Jornada mundial de oração pela paz em Assis (27.X.1986), 7: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IX/2, 1263.

[221] CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 40.

[222] Cf. CONC. OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 76.

[223] Cf. ibidem, 72. 76.

[224] IOANNES PAULUS II, Litt. Encycl. Centesimus annus (01.V.1991), 47: AAS 83 (1991), 851-852.

[225] CONG. PECUM. VAT. II, Const. dogmat. de Ecclesia Lumen gentium, 8.

[226] Cf. CONC.OECUM. VAT. II, Const. past. de Ecclesia in mundo huius temporis Gaudium et spes, 22.

[227] Cf. Giubileo dei Vescovi. Il Vescovo servitore del Vangelo di Gesù Cristo per la speranza del mondo, Roma 6-8 ottobre 2000: opuscolo di participazione al Giubileo dei Vescovi.

[228] Cf. IOANNES PAULUS II, Atto di affidamento alla Beata Vergine Maria, 3-4: L’Osservatore Romano, ed. quot. (9-10.10.2000), p. 6.

[229] CONC. OECUM. VAT. II, Const. dogm. de Ecclesia Lumen gentium, 68.


ÍNDICE

INTRODUÇÃO

No limiar de um novo milénio

Na esteira das precedentes Assembleia sinodais

Continuidade e novidade

Um renovado anúncio do Evangelho da esperança

CAPÍTULO I - UM MINISTÉRIO DE ESPERANÇA

Um olhar sobre o mundo com os sentimentos do Bom Pastor

No sinal da esperança teologal

Entre o passado e o futuro

Entre luzes e sombras no panorama mundial

Entre o retorno ao sagrado e a indiferença

Um novo horizonte de problemas éticos

Situações eclesiais emergentes

Sinal de vitalidade e de esperança

Rumo a um novo humanismo

Os frutos do Jubileu

Sob a guia do Espírito

Rumo a veredas convergentes de unidade

Uma forte exigência de espiritualidade

Bispos testemunhas de esperança

Fiéis às expectativas e às promessas de Deus como a Virgem Maria

CAPÍTULO II - MISTÉRIO, MINISTÉRIO E CAMINHO ESPIRITUAL DO BISPO

O ícone de Cristo Bom Pastor

I. Mistério e graça do episcopado

A graça da ordenação episcopal

Em comunhão com a Trindade

Do Pai, por Cristo, no Espírito

O Espírito de santidade

II. A santificação no próprio ministério

A vida espiritual do Bispo

Uma autêntica caridade pastoral

O ministério da pregação

Orante e ministro da oração

Alimentado pela graça dos sacramentos

Como grande sacerdote no meio do seu povo

Uma espiritualidade de comunhão

Animador de uma espiritualidade pastoral

Em comunhão com a Santa Mãe de Deus

III. O caminho espiritual do Bispo

Um necessário caminho espiritual

Com o realismo espiritual do quotidiano

Na harmonia do divino e do humano

Fidelidade até ao fim

O exemplo dos santos Bispos

CAPÍTULO III - O EPISCOPADO MINISTÉRIO DE COMUNHÃO E DE MISSÃO NA IGREJA UNIVERSAL

Amigos de Cristo, escolhidos e enviados por Ele

I. O Ministério Episcopal numa

Eclesiologia de Comunhão

Na Igreja ícone da Trindade

Numa eclesiologia de comunhão e de missão

Unidade e catolicidade no ministério episcopal

Em comunhão com o Sucessor de Pedro

Colaboração no ministério petrino

As visitas «ad limina» e as relações com a Santa Sé

As Conferências Episcopais

Comunhão afectiva e efectiva

II. Algumas problemáticas particulares

Diversas tipologias do ministério episcopal

Os Bispos eméritos

Eleição e formação dos Bispos

CAPÍTULO IV - O BISPO AO SERVIÇO DA SUA IGREJA

O ícone bíblico do lava-pés: Jo 13, 1-16

I. O Bispo na sua Igreja particular

A Igreja particular

Um mistério que converge para

o Bispo juntamente com o seu povo

Palavra, Eucaristia, comunidade

Una, Santa, Católica e Apostólica

Uma Igreja de rosto humano

Igreja universal, Igreja particular

II. A Comunhão e a Missão na Igreja particular

Em comunhão com o presbitério

Um particular cuidado pelos sacerdotes

O ministério e a cooperação dos diáconos

O Seminário e a pastoral vocacional

Em relação aos outros ministérios

Solicitude pela vida consagrada

Um laicado empenhado e responsável

Ao serviço da família

Os jovens: uma prioridade pastoral para o futuro

As paróquias

Movimentos eclesiais e novas comunidades

III. O Ministério Episcopal ao Serviço do Evangelho

1. O Ministério da Palavra

Proclamar o Evangelho da esperança

O centro do anúncio

Educação da fé e catequese

Toda a Igreja empenhada na catequese

Diálogo e colaboração com teólogos e fiéis

Testemunhos da verdade

Tarefas para o futuro

Cultura e inculturação

2. O Ministério da Santificação

O Bispo como sacerdote e liturgo na sua catedral

A Eucaristia no centro da Igreja particular

Atenção à oração e à piedade popular

Algumas questões particulares

3. O Exercício do Ministério de Governo

O serviço do governo

Exercício de uma autêntica caridade pastoral

Um estilo pastoral confirmado pela vida

As visitas pastorais

O Sínodo diocesano

Um governo animado pelo espírito de comunhão

A administração económica

Questões práticas atinentes à Igreja particular

CAPÍTULO V - AO SERVIÇO DO EVANGELHO PARA A ESPERANÇA DO MUNDO

Em Jesus Cristo, o perene Jubileu da Igreja

O ministério de salvação da Igreja

Uma nova situação religiosa

Diálogo ecuménico

O anúncio do Evangelho

Acção e cooperação missionária

Diálogo inter-religioso e encontro com as outras religiões

Uma particular atenção ao fenómeno das seitas

Diálogo com pessoas de outras convicções

Atenção aos novos problemas sociais e às novas pobrezas

Próximo de quantos sofrem

Promotor da justiça e da paz

Guardiões da esperança testemunhas da caridade de Cristo

A plêiade das testemunhas e a âncora da esperança

CONCLUSÃO

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