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SÍNODO DOS BISPOS
 

ASSEMBLEIA ESPECIAL PARA O MÉDIO ORIENTE

A Igreja Católica no Médio Oriente:
comunhão e testemunho

"A multidão dos que haviam abraçado a fé
tinha um só coração e uma só alma" (
Act 4, 32)

Lineamenta

Cdade do Vaticano
2009

ÍNDICE

PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

A. Objetivo do Sínodo
B. Reflexão guiada pelas Sagradas Escrituras

Perguntas

I. A IGREJA CATÓLICA NO MÉDIO ORIENTE

A. Situação dos cristãos no Médio Oriente

1. Breve excursus histórico: unidade na verdade
2. Apostolicidade e vocação missionária
3. Papel dos cristãos na sociedade, apesar de serem uma minoria

B. Os desafios que os cristãos devem enfrentar

1. Os conflitos políticos na região
2. Liberdade de religião e de consciência
3. Os cristãos e a evolução do Islão contemporâneo
4. A emigração
5. A imigração cristã internacional no Médio Oriente

C. Resposta dos cristãos na sua vida quotidiana

Perguntas

II. A COMUNHÃO ECLESIAL

A. Introdução
B. Comunhão na Igreja Católica e entre as diversas Igrejas
C. Comunhão entre Bispos, clero e fiéis

Perguntas

III. O TESTEMUNHO CRISTÃO

A. Dar testemunho do Evangelho na própria Igreja: catequese e obras
B. Testemunhar em conjunto com as demias Igrejas e Comunidades
C. Relações particulares com o judaísmo
D. Relações com os muçulmanos
E. Contribuição dos cristãos para a sociedade

1. Dois desafios aos nossos países
2. Os cristãos ao serviço da sociedade nos seus países
3. Relações Estado-Igreja

F. Conclusão: contribuição específica e insubstituível do cristão

Perguntas

CONCLUSÃO GERAL:
QUE FUTURO PARA OS CRISTÃOS DO MÉDIO ORIENTE?
«NÃO TEMAS, PEQUENINO REBANHO»

A. que futuro para os cristãos do Médio Oriente?
B. A esperança

Perguntas

Notas


 

PREFÁCIO

Os Actos dos Apóstolos, pondo em relevo a comunhão e o testemunho dos cristãos, discípulos de Jesus Cristo, ressaltam, em dois sumários, a sua comunhão de bens. No primeiro constata-se: "Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações" (Act 2, 42). Desta unidade profunda provinha o seu modo de viver: "Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum" (Act 2, 44). Foi escolhido do segundo trecho o mote da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos que terá lugar de 10 a 24 de Outubro de 2010: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma (Act 4, 32). No que se refere à aplicação desta afirmação, São Lucas apresenta dois exemplos. O primeiro, edificante, de José, chamado Barnabé, que vendeu o campo que possuía e "trouxe a importância, que depositou aos pés dos Apóstolos" (Act 4, 37). O outro exemplo, negativo, narra a vicissitude de Ananias e de sua esposa Safira que se puseram de acordo para entregar só uma parte da quantia da venda do terreno, e de conservar a outra para eles. O seu engano foi descoberto e a punição dramática suscitou "grande receio" na comunidade eclesial (cf. Act 5, 1-11). Estes exemplos ensinam que os cristãos são chamados a viver concretamente o ideal de comunhão e de testemunho, esforçando-se por o realizar não de modo parcial mas pleno, alcançando, precisamente um só coração e uma só alma (Act 4, 32).

A maravilhosa trama de evangelização narrada nos Actos dos Apóstolos, tem início na comunidade cristã na Terra Santa. Para esta Terra, abençoada pela presença do Senhor Jesus, dirigem o olhar todos os cristãos e homens de boa vontade, de modo particular por ocasião da preparação da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos que o Santo Padre Bento XVI proclamou a 19 de Setembro de 2009, durante a reunião com os Patriarcas e os Arcebispos-Mores das Igrejas Católicas Orientais. O Sumo Pontífice anunciou também o tema da Assembleia sinodal: A Igreja Católica no Médio Oriente: comunhão e testemunho. "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma" (Act 4, 32).

O Santo Padre, que visitou a Terra Santa de 8 a 15 de Maio de 2009, acolheu imediatamente o pedido de numerosos Irmãos no Episcopado para convocar uma Assembleia sinodal para o Médio Oriente. Ela deveria aprofundar o ensinamento dos Actos dos Apóstolos, para reviver a experiência da comunidade primitiva a um nível ainda mais maduro, e para dar testemunho com as palavras e, sobretudo, com as obras de uma autêntica vida cristã para glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, na complexa situação actual dos países do Médio Oriente. Desta fé deve alimentar-se a esperança cristã, firme "contra qualquer esperança" (Rm 4, 18), porque fundada não em projectos humanos mas no poder de Deus. A fé e a esperança devem desembocar, depois, na caridade para com o próximo. Na Igreja Católica no Médio Oriente ela tem uma expressão particular na presença ininterrupta dos cristãos nessa terra, que é a sua pátria, desde os tempos de Jesus. Indubitavelmente ela manifesta-se também em numerosas e preciosas obras com as quais os membros da Igreja Católica dão testemunho da sua fé e ao mesmo tempo oferecem uma notável contribuição para o progresso integral de toda a sociedade.

Para desempenhar de modo completo esta vocação, o Santo Padre Bento XVI dispôs que seja seguido um percurso regular na preparação da Assembleia sinodal. Portanto, por encargo do Sumo Pontífice, foi formado um Conselho pré-sinodal para o Médio Oriente composto por 7 Patriarcas, em representação de 6 Igrejas Patriarcais e do Patriarcado Latino de Jerusalém, por 2 Presidentes das Conferências Episcopais, e por 4 Chefes de Dicastérios da Cúria Romana, que redigiu o texto dos Lineamenta que agora é publicado em 4 línguas: árabe, francês, inglês e italiano. Cada capítulo do Documento é acompanhado por algumas perguntas que têm a finalidade de suscitar o debate em todas as Igrejas do Médio Oriente. As respectivas respostas deveriam chegar à Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos depois da solenidade da Páscoa, que este ano todos os cristãos celebram na mesma data, a 4 de Abril de 2010. Como se sabe, retomando o conteúdo destas respostas será redigido o Instrumentum laboris, Documento de trabalho da Assembleia sinodal que o Santo Padre Bento XVI entregará aos representantes qualificados do episcopado católico do Médio Oriente durante a sua Visita Apostólica a Chipre no mês de Junho de 2010.

Confiemos a preparação da Assembleia Especial para o Médio Oriente à intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, flor puríssima da Terra Santa. Trouxe Jesus ao mundo em Belém, educou-o em Nazaré, acompanhando-o pelos caminhos da Galileia e da Judeia até Jerusalém, cidade santa para Cristãos, Judeus e Muçulmanos. Em virtude do testemunho dos cristãos, a celebração da Assembleia sinodal torne-se uma ocasião propícia também para incrementar o diálogo com o mundo judaico e com o muçulmano, até alargar os confins da comunhão a todos os homens de boa vontade no Médio Oriente.

Nikola Eterović
Arcebispo Titular de Cibale
Secretário-Geral

Vaticano, 8 de Dezembro de 2009.


INTRODUÇÃO

 

1. Após a sua peregrinação na Terra Santa (8-15.05.09), a 19 de Setembro de 2009 o Santo Padre anunciou, durante uma reunião com os Patriarcas e Arcebispos-Mores do Oriente, a convocação de uma Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos, que terá lugar de 10 a 24 de Outubro de 2010. Esta iniciativa surge da "solicitude" do Sucessor de Pedro "por todas as igrejas" (2 Cor 11, 28) e constitui um acontecimento importante, que denota o interesse da Igreja universal em relação às Igrejas de Deus no Oriente. Estas mesmas Igrejas estão convidadas a viver intensamente este acontecimento, para que ele seja um evento de graça na vida dos cristãos do Oriente.

As peregrinações de Bento XVI na Terra Santa (Jordânia, Israel e Palestina), assim como a peregrinação na Turquia (28.11-1-12.06), dão-nos, com os seus discursos ricos e circunstanciados, uma luz particular para poder compreender a Palavra de Deus, ler os sinais dos tempos e definir o comportamento cristão e a vocação das nossas Igrejas.

A. Objectivo do Sínodo

2. O objectivo da Assembleia Especial para o Médio Oriente do Sínodo dos Bispos é duplo: confirmar e fortalecer os cristãos na sua identidade mediante a Palavra de Deus e os Sacramentos, e reavivar a comunhão eclesial entre as Igrejas católicas não só no Médio Oriente, porque existem também ali as Ortodoxas e as comunidades protestantes. A dimensão ecuménica é fundamental para que o testemunho cristão seja autêntico e credível. "Que todos sejam um só, para que o mundo creia" (Jo 17, 21).

3. Por conseguinte, é necessário reforçar a comunhão a todos os níveis: no interior de cada uma das Igrejas católicas do Oriente, entre todas as Igrejas católicas e com as outras Igrejas cristãs. É necessário, ao mesmo tempo, fortalecer o testemunho que damos aos judeus, aos muçulmanos e aos outros crentes ou não-crentes.

4. O Sínodo oferece-nos também a ocasião para analisar a situação religiosa e social, para dar aos cristãos uma visão clara do sentido da sua presença nas suas sociedades muçulmanas (árabe, israelense, turca ou iraniana), do seu papel e da sua missão em cada país, preparando-os, assim, para serem testemunhas autênticas de Cristo. Trata-se, portanto, de uma reflexão sobre a situação actual, a qual não é fácil porque é de conflito, de instabilidade e de maturação política e social na maior parte dos nossos países.

B. Reflexão guiada pelas Sagradas Escrituras

5. A nossa reflexão será guiada pelas Sagradas Escrituras, que foram redigidas nas nossas terras, nas nossas línguas (hebraico, aramaico ou grego), em âmbitos e expressões culturais e literárias que sentimos nossos. A Palavra de Deus é lida na Igreja. Estas Escrituras chegaram até nós através das comunidades eclesiais, foram transmitidas e meditadas nas nossas sagradas Liturgias e são uma referência indispensável para descobrir o sentido da nossa presença, comunhão e testemunho no contexto actual das nossas Nações.

6. O que diz a Palavra de Deus, aqui e agora, a cada Igreja em cada um dos nossos países? Como se manifesta a providência benévola de Deus através de todos os acontecimentos fáceis ou difíceis da nossa vida quotidiana? Que nos pede Deus nestes dias? Permanecer, para nos comprometermos durante os acontecimentos, que depois é o da Providência e da graça divina? Ou emigrar?

7. Por conseguinte, trata-se e é um dos objectivos desta Assembleia Especial de redescobrir a Palavra de Deus nas Escrituras que se dirigem a nós hoje, que nos falam hoje e não só no passado, e nos explicam, como aos dois discípulos de Emaús, o que acontece em nosso redor. Esta descoberta tem lugar antes de tudo na leitura meditada das Sagradas Escrituras, pessoalmente, em família e na comunidade viva. Mas o essencial é que ela guie as nossas opções quotidianas na vidapessoal,familiar, social e política.

Perguntas

1. Leis as Sagradas Escrituras pessoalmente, em família ou na comunidade viva?

2. Elas inspiram as vossas opções na vida familiar, profissional ou política?

I. A IGREJA CATÓLICA NO MÉDIO ORIENTE

A. Situação dos cristãos no Médio Oriente

1. Breve excursus histórico: unidade na verdade

8. Todas as Igrejas católicas no Médio Oriente, assim como cada comunidade cristã no mundo, remontam à primeira Igreja cristã de Jerusalém, unida pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes. Elas dividiram-se no século V, depois dos Concílios de Éfeso e de Calcedónia, principalmente por questões cristológicas. Antes da divisão, ela deu vida às Igrejas conhecidas hoje com o nome de "Igreja Apostólica Assíria do Oriente" (que era chamada nestoriana) e "Igrejas Ortodoxas Orientais", ou seja, as Igrejas coptas, sírias e arménias, que eram chamadas monofisitas. Muitas vezes estas divisões tiveram lugar também por motivos político-culturais, como mostram os teólogos medievais do Oriente pertencentes às três grandes tradições denominadas "melquitas", "jacobitas" e "nestorianas". Todos eles ressaltaram que na base desta divisão não havia algum motivo dogmático. Em seguida, deu-se o grande cisma do século XI, que separou Constantinopla de Roma e, sucessivamente, o Oriente Ortodoxo do Ocidente Católico. Todas estas divisões ainda hoje existem nas várias Igrejas do Médio Oriente.

9. Depois das divisões e das separações, foram empreendidos periodicamente esforços para reconstruir a unidade do Corpo de Cristo. Neste esforço de ecumenismo formaram-se as Igrejas católicas orientais: arménia, caldeia, melquita, síria e copta. No início estas Igrejas foram tentadas pela polémica com as Igrejas ortodoxas irmãs, mas com frequência foram também fervorosas defensoras do Oriente cristão.

10. A Igreja maronita manteve a própria unidade no âmbito da Igreja universal e não conheceu, no decurso da sua história, uma divisão eclesial interna. O Patriarcado Latino de Jerusalém, instituído com as Cruzadas, foi restabelecido no século XIX, graças à presença contínua dos Padres Franciscanos, sobretudo na Terra Santa, desde o início do século XIII.

11. Hoje as Igrejas católicas do Oriente são sete, na maioria árabes ou arabizadas. Algumas delas estão presentes também na Turquia e no Irão. Provêm de tradições culturais, e portanto também litúrgicas, diferentes: grega, síria, copta, arménia ou latina, o que constitui a sua admirável riqueza e complementaridade. Elas estão unidas na mesma comunhão com a Igreja universal em volta do Bispo de Roma, sucessor de Pedro, corifeu dos apóstolos (hâmat ar-rusul). A sua riqueza deriva da sua própria diversidade, mas o excessivo apego ao rito e à cultura pode empobrecê-las. A colaboração entre os fiéis é habitual e natural, a todos os níveis.

2. Apostolicidade e vocação missionária

12. De resto, as nossas Igrejas são de origem apostólica e os nossos países foram o berço do Cristianismo. Como disse o Santo Padre Bento XVI a 9 de Junho de 2007, elas são guardiãs viventes das origens cristãs[1]. São terras abençoadas pela presença do próprio Cristo e pelas primeiras gerações cristãs. Seria uma perda para a Igreja universal se o Cristianismo desaparecesse ou se debilitasse precisamente lá onde nasceu. Temos neste aspecto uma grave responsabilidade: não só manter a fé cristã nestas terras santas, mas ainda mais, manter o espírito do Evangelho nestas populações cristãs e nas suas relações com as não cristãs, e conservar a memória das origens.

13. Enquanto apostólicas, as nossas Igrejas têm a missão particular de anunciar o Evangelho a todo o mundo. Ao longo da história, este impulso estimulou diversas das nossas Igrejas: em Núbia e na Etiópia, na Península Arábica, na Pérsia, na Índia, até à China. Hoje devemos verificar que este impulso evangélico com frequência é contido e a chama do Espírito parece ter-se debilitado.

14. Agora, para a nossa história e a nossa cultura, estamos próximos de milhões de pessoas, quer cultural quer espiritualmente. Portanto, compete a nós partilhar com eles a mensagem de amor do Evangelho que recebemos. Neste momento no qual populações inteiras estão desorientadas e procuram um indício de esperança, nós podemos dar-lhes a esperança que está em nós pelo espírito que foi derramado nos nossos corações (cf. Rm 5, 5).

3. Papel dos cristãos na sociedade, apesar de serem uma minoria

15. Não obstante as suas diferenças, as nossas sociedades árabes, turcas e iranianas têm características comuns. A tradição e o modo de vida tradicional prevalecem, sobretudo no que se refere à família e à educação. O confessionalismo marca tanto as relações entre os cristãos como com os não-cristãos e reflecte-se profundamente nas mentalidades e nos comportamentos. A religião é um elemento de identificação que pode separar do outro.

16. A modernidade penetra cada vez mais na sociedade: o acesso às redes televisivas do mundo e a Internet introduziram, na sociedade civil e entre os cristãos, novos valores mas também uma perda de valores. Como resposta, difundem-se cada vez mais os grupos fundamentalistas islâmicos. O poder reage com o autoritarismo, com o controle da imprensa e da mídia, enquanto a maioria aspira por uma verdadeira democracia.

17. Apesar de os cristãos serem em todas as partes do Médio Oriente uma escassa minoria (com excepção do Líbano), que vai de menos 1% (Irão, Turquia) a 10% (Egipto), contudo eles irradiam dinamismo activo. O perigo consiste no fechamento em si e no receio do outro. Por isso, é necessário que fortaleçamos a fé e a espiritualidade dos nossos fiéis e, ao mesmo tempo, reforcemos o vínculo social e a solidariedade entre eles, sem cair numa atitude guetizante. Por outro lado, a educação é o maior investimento. As nossas Igrejas e as nossas escolas poderiam ajudar mais os menos afortunados.

B. Os desafios que os cristãos devem enfrentar

1. Os conflitos políticos na região

18. Os conflitos políticos que decorrem na região têm uma influência directa sobre a vida dos cristãos, como cidadãos e como cristãos. A ocupação israelense dos Territórios Palestinianos torna difícil a vida quotidiana para a liberdade de movimento, economia e vida religiosa (acesso aos Lugares Santos condicionado por autorizações militares concedidas a uns e outros, por motivos de segurança). Além disso, algumas teologias cristãs fundamentalistas justificam, baseando-se nas Sagradas Escrituras, a ocupação da Palestina por parte de Israel, o que torna ainda mais delicada a posição dos cristãos árabes.

19. No Iraque, a guerra desencadeou as forças do mal no país, nas confissões religiosas e nas correntes políticas. Ela semeou vítimas entre todos os iraquianos, mas os cristãos estavam entre as vítimas principais porque representam a comunidade iraquiana mais exígua e débil, e a política mundial não a tem em mínima consideração.

20. No Líbano, os cristãos estão profundamente divididos no plano político e confessional e ninguém tem um projecto que possa ser aceite por todos. No Egipto, o crescimento do Islão político, por um lado, e, por outro, o desempenho dos cristãos em relação à sociedade civil fazem com que a vida seja exposta à intolerância, à desigualdade e à injustiça. Além disso, esta islamização penetra nas famílias também mediante os mass media e a escola, modificando as mentalidades que, inconscientemente, se islamizam. Em numerosos países, o autoritarismo, isto é, a ditadura, leva a população, inclusive os cristãos, a suportar tudo em silêncio para salvar o essencial. Na Turquia, o conceito actual de laicidade apresenta ainda problemas à plena liberdade religiosa do país.

21. Esta situação dos cristãos nos países árabes foi descrita no 13 da 10ª Carta Pastoral dos Patriarcas católicos (de 2009). A conclusão estigmatiza a atitude derrotista: "face a estas diversas realidades, uns permanecem firmes na sua fé e no seu compromisso na sociedade, partilhando todos os sacrifícios e contribuindo para o projecto social comum. Os outros, ao contrário, desencorajam-se e já não têm confiança na sociedade e na sua capacidade de garantir a igualdade entre todos os cidadãos. Devido a isto abandonam qualquer compromisso e retiram-se na sua Igreja e nas suas instituições, vivendo em núcleos isolados, sem interagir com o corpo social"[2].

2. Liberdade de religião e de consciência

22. No Oriente, liberdade de religião significa, normalmente, liberdade de culto. Não se trata portanto de liberdade de consciência, ou seja, da liberdade de renunciar à própria religião ou de crer noutra. No Oriente, a religião é, em geral, uma escolha social e até nacional, não individual. Mudar de religião é considerado uma traição à sociedade, à cultura e à nação construída principalmente numa tradição religiosa.

23. A conversão é vista como o fruto de um proselitismo interessado, não de uma convicção religiosa autêntica. Para o judeu e o muçulmano, ela é muitas vezes proibida pelas leis do Estado. Também o cristão experimenta uma pressão e uma oposição, embora muito mais leve, por parte da família ou da tribo à qual pertence, mas permanece livre de o fazer. Muitas vezes, a conversão não se verifica por convicção religiosa, mas por interesses pessoais, ou sob a pressão do proselitismo muçulmano, especialmente para se poderem libertar das próprias obrigações perante dificuldades de tipo familiar.

3. Os cristãos e a evolução do Islão contemporâneo

24. Na sua última carta pastoral, os Patriarcas católicos do Oriente afirmam: "O crescimento do Islão político, a partir dos anos 70, é um fenómeno saliente que se repercute na região e na situação dos cristãos no mundo árabe. Este Islão político inclui diferentes correntes religiosas que gostariam de impor um modo de vida islâmico às sociedades árabes, turcas ou iranianas e a todos os que ali vivem, muçulmanos e não muçulmanos. Para eles, a causa de todos os males é o afastamento do Islão. Portanto, a solução é o retorno ao Islão das origens. Daqui o slogan: o Islão é a solução [...]. Com esta finalidade, alguns não hesitam em recorrer à violência"[3].

Esta atitude refere-se antes de mais à sociedade muçulmana, mas tem consequências também sobre a presença cristã no Oriente. Tais correntes extremistas são portanto uma ameaça para todos, cristãos e muçulmanos, e devemos enfrentá-las juntos.

4. A emigração

25. A emigração dos cristãos e dos não-cristãos do Médio Oriente começou nos finais do século XIX. As duas causas principais eram política e económica. As relações religiosas não eram as melhores, mas o sistema dos "millet" (comunidades étnico-religiosas) tinha garantido uma certa protecção aos cristãos no seio das suas comunidades, o que impedia sempre, ao mesmo tempo, os conflitos de carácter religioso e tribal. Esta emigração acentuou-se hoje com o conflito israelo-palestiniano e com a instabilidade que causou em toda a região, desembocando na guerra do Iraque e na precariedade política do Líbano.

26. Depois, no jogo das políticas internacionais ignora-se com frequência a existência dos cristãos, e também esta é uma das causas principais da emigração. Mas, na actual situação política do Médio Oriente, é difícil criar uma economia que possa proporcionar um nível de vida digno para toda a sociedade. Podem ser tomadas algumas medidas para limitar a emigração, mas na base estão as realidades políticas existentes. É neste ponto que seria necessário agir, e a Igreja está convidada a comprometer-se neste sentido.

27. Outro aspecto poderia ajudar a limitar a emigração: tornar os cristãos mais conscientes do sentido da sua presença. Cada um, no próprio país, é portador da mensagem de Cristo à sua sociedade e ainda mais nas dificuldades e na perseguição. Foi o que Cristo nos anunciou no Evangelho: "Bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem... Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa nos Céus" (Mt 5, 11-12). É a este nível que é preciso elevar-se com a ajuda de Cristo.

5. A imigração cristã internacional no Médio Oriente

28. Os países do Médio Oriente recebem, como trabalhadores imigrados, centenas de milhares de africanos da Etiópia e sobretudo do Sudão, e de asiáticos, principalmente das Filipinas, do Sri Lanka, de Bangladesh, do Nepal, do Paquistão e da Índia. Na maior parte dos casos, trata-se de mulheres que trabalham como empregadas domésticas para permitir aos próprios filhos uma educação e uma vida mais dignas. Estas mulheres (e homens) muitas vezes são objecto de injustiças sociais, exploração e abusos sexuais, tanto da parte dos Estados que as recebem e das agências que as contratam, como dos empregadores.

29. Isto exige uma responsabilidade pastoral para acompanhar estas pessoas, quer a nível religioso quer social. Com frequência estes imigrados devem enfrentar dramas, e a Igreja não pode fazer muito. Paralelamente, é urgente e indispensável uma educação dos nossos cristãos na doutrina social da Igreja e na justiça social, para evitar qualquer atitude de superioridade, ou seja, de desprezo. Além disso, as leis e as convenções internacionais não são respeitadas.

C. Respostas dos cristãos na sua vida quotidiana

30. O comportamento dos cristãos nas nossas Igrejas e sociedades, face aos desafios acima mencionados, é variado e diferente:

Há o cristão crente e empenhado, que aceita e vive com fidelidade a própria fé na vida privada e pública.

Existe também o cristão "leigo", que vimos, nos nossos países, especialmente ao longo da história contemporânea, comprometer-se profundamente na vida pública, fundar partidos políticos, sobretudo de esquerda, ou tornar-se seu membro, muitas vezes sacrificando a sua fé.

E, depois, o cristão que tem uma fé tradicional, feita de devoção e práticas exteriores, que não tem influência na vida concreta ou na escala dos valores. Mas ele partilha os critérios e os valores pragmáticos da sua sociedade, por vezes até em contradição com o Evangelho. Adopta as atitudes de luta da sociedade e diferencia-se dos outros apenas pelas suas práticas religiosas exteriores, as suas festas e o seu nome de cristão.

Por fim, há o cristão que se considera uma pessoa frágil. É complexado pelo número reduzido da sua comunidade numa sociedade de maioria muçulmana, tem medo, é ansioso e preocupado por ver os seus direitos violados.

31. A maneira de viver a própria fé reflecte-se directamente na pertença do cristão à Igreja. Uma fé profunda leva a uma pertença sólida e comprometida. Uma fé superficial equivale a uma pertença superficial. No primeiro caso, a pertença é autêntica e verdadeira e o crente participa na vida da Igreja e nela empenha toda a sua fé[4]. Neste caso, o fiel exige que a sua Igreja se ocupe de todos os aspectos da sua vida material e social, o que leva ao "assistencialismo" e à passividade [5].

32. Isto exige uma conversão pessoal dos cristãos, começando pelos Pastores, mediante um regresso ao espírito do Evangelho, para que a nossa vida se torne um testemunho do amor de Deus, que se expressa no amor concreto para com todos. Ser testemunha de Cristo ressuscitado: ("era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus..." [Act 4, 33]), para superar o nosso egoísmo, as nossas rivalidades e as nossas debilidades pessoais.

33. Nos nossos países a vida consagrada está presente a vários níveis. Onde falta a dimensão contemplativa, seria desejável solicitá-la. A primeira missão dos monges e das monjas é a oração e a intercessão pela sociedade: para mais justiça na política e na economia, mais solidariedade e respeito nas relações familiares, mais coragem para denunciar as injustiças, mais honestidade para não se deixar envolver nas contendas da civitas ou na busca dos interesses pessoais. Portanto, é a ética que os pastores, monges, monjas, religiosos, educadores, devem propor nas nossas instituições (escolas, universidades, centros sociais, hospitais, etc.), para que os nossos fiéis sejam eles também testemunhas autênticas da Ressurreição na sociedade.

A formação do nosso clero e dos fiéis, as homilias e a catequese, devem dar ao crente um sentido autêntico da sua fé, e a consciência do próprio papel na sociedade em nome desta mesma fé. Ele deve aprender a procurar e a ver Deus em todas as coisas e pessoas, esforçando-se por torná-lo presente na nossa sociedade, no nosso mundo, mediante a prática das virtudes pessoais e sociais: justiça, honestidade, rectidão, acolhimento, solidariedade, abertura do coração, pureza de costumes, fidelidade, etc.

35. Com esta finalidade, deve ser feito um esforço particular para descobrir e formar os "quadros" necessários, sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos homens e mulheres para que sejam, na nossa sociedade, verdadeiras testemunhas de Deus Pai e de Jesus Ressuscitado, e do Espírito Santo que Ele enviou à sua Igreja, para confortar os seus irmãos e irmãs nestes tempos difíceis e contribuir para a edificação da civitas.

Perguntas

3. Que fazem as nossas Igrejas para suscitar e encorajar as vocações à vida religiosa e contemplativa?

4. Como contribuir para melhorar o ambiente social nos vários países?

5. Que papel desempenha a vossa Igreja para ajudar a integrar a modernidade nas vossas sociedades, com a necessária visão crítica?

6. Como fazer crescer o respeito da liberdade de religião e da liberdade de consciência?

7. Que se pode fazer para impedir ou fazer diminuir a emigração dos cristãos do Médio Oriente?

8. Como seguir e permanecer em relação com os cristãos emigrados?

9. Que deveriam fazer as nossas Igrejas para ensinar aos fiéis o respeito pelos imigrados e o seu direito a serem tratados com justiça e caridade?

10. Que faz a vossa Igreja para garantir a cura pastoral aos imigrados católicos e para os proteger dos abusos e da exploração por parte do Estado (polícia e pessoal carcerário), das agências e dos empregadores?

11. As nossas Igrejas comprometem-se para formar "quadros" cristãos que possam contribuir para a vida social e política dos nossos países? Que poderiam fazer?

II. A COMUNHÃO ECLESIAL

A. Introdução

36. A comunhão cristã tem por fundamento o modelo da vida divina no mistério da Santíssima Trindade. Deus é amor (cf. 1 Jo 4, 8), e as relações entre as pessoas divinas são relações de amor. Assim a comunhão na Igreja entre todos os membros do Corpo de Cristo é fundada nos relacionamentos de amor: "Como Tu, ó Pai estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em nós" (Jo 17, 21). É necessário que, no âmbito de cada uma das Igrejas, vivamos entre nós a própria comunhão da Santíssima Trindade. A vida da Igreja e das Igrejas do Oriente deve ser comunhão de vida no amor, segundo o modelo da união do Filho com o Pai e com o Espírito.

37. Jesus recomendou-nos esta unidade de vida no exemplo da videira e dos ramos (cf. Jo 15, 1-7). São Paulo desenvolveu esta realidade de vida cristã com o exemplo da unidade de vida no corpo com a pluralidade dos membros (cf. 1 Cor 12, 12-21). Portanto, toda a Igreja funda a sua comunhão de vida no facto real que cada membro da Igreja é, mediante o baptismo, membro do Corpo de Cristo que é a sua cabeça. A comunhão entre as Igrejas ou no seio da própria Igreja consiste, portanto, em tomar consciência do facto que cada pessoa é membro de um Corpo cuja Cabeça é Cristo. Por isso, cada membro deve ser digno da cabeçaà qual está intimamente ligado.

B. Comunhão na Igreja católica e entre as diversas Igrejas

38. Esta comunhão no seio da Igreja universal manifesta-se mediante dois sinais principais: o primeiro, a comunhão na Eucaristia e, o segundo, a comunhão com o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro e cabeça de toda a Igreja. O Código dos Cânones das Igrejas Orientais codificou, no plano da lei, esta comunhão de vida na única Igreja de Cristo. Ao serviço desta comunhão estão também a Congregação para as Igrejas Orientais e os vários Órgãos da Cúria Romana.

39. A nível dos fiéis, as nossas escolas e os institutos de instrução superior, mas também as instituições caritativas como hospitais, orfanatos e casas de repouso, acolhem todos os cristãos sem distinção. Nas cidades, os fiéis católicos de diversas Igrejas praticam muitas vezes na Igreja mais próxima, mesmo se permanecem fiéis à própria comunidade confessional, na qual recebem os Sacramentos (baptismo, confirmação, matrimónio...).

C. Comunhão entre Bispos, clero e fiéis

40. A comunhão, na mesma Igreja ou Patriarcado, entre os vários membros dá-se segundo o modelo da comunhão com a Igreja universal e com o Sucessor de Pedro, o Bispo de Roma. A nível da Igreja Patriarcal, a comunhão expressa-se mediante o sínodo que reúne os Bispos de toda uma comunidade em volta do Patriarca, Pai e cabeça da sua Igreja. A nível da Eparquia, é em volta do Bispo que se realiza a comunhão do clero, dos religiosos e das religiosas, assim como dos leigos. A oração, a presença eucarística e a escuta da Palavra de Deus, são os momentos que unificam a Igreja e a reconduzem ao essencial, ao Evangelho. Compete ao Bispo preocupar-se por harmonizar tudo, não obstante os momentos de debilidade.

41. Esta graça do Bispo é comunicada a cada pastor de uma paróquia ou assembleia de crentes, na qual haverá membros fortes e outros menos fortes. Apesar dos seus limites, eles permanecem instrumentos nas mãos de Deus o qual lhes confiou um tesouro contido em vasos de barro (cf. 2 Cor 4, 7). Ele faz deles instrumento da sua graça. "Quando me sinto fraco, então é que sou forte" (2 Cor 12, 10).

42. Mas isto significa que os membros do Corpo de Cristo e quantos procuram segui-lo mais de perto, têm uma grave responsabilidade na comunidade, não só para gerir a Igreja de Deus a nível local [6], mas mais ainda a nível espiritual e moral: eles são modelo e exemplo para os outros. A comunidade espera que eles vivam concretamente, e de modo exemplar, os valores do Evangelho. Não nos admiraremos do facto que os fiéis esperem de Bispos, sacerdotes, monges e religiosas mais simplicidade de vida, um real desapego em relação ao dinheiro e aos confortos do mundo, uma prática edificante da castidade e uma pureza de costumes transparente. Nem sempre é assim e isto escandaliza profundamente os fiéis.

43. Além disso, o espírito dos apóstolos Tiago e João, que pediam que Jesus lhes concedesse o primeiro lugar à Sua direita e à Sua esquerda [7], ainda persiste e provoca perturbações entre os fiéis. Em vez de nos encontrarmos juntos para fazer face às dificuldades, por vezes contendemo-nos entre nós e contamos o número dos nossos fiéis, como para saber qual é o maior. O espírito de rivalidade destrói-nos; a emulação espiritual e pastoral, ao contrário, pode estimular a nossa criatividade ao serviço de todos. É esta emulação, para servir, que é preciso encorajar e, como todas as Igrejas do mundo, as nossas Igrejas devem purificar-se continuamente. Este Sínodo deseja ajudar a fazer um sincero exame de consciência para descobrir os pontos fortes, com a finalidade de os promover e desenvolver, e os pontos frágeis, para ter a coragem de os corrigir.

44. Devemos reencontrar o modelo da comunidade primitiva: "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas, entre eles, tudo era em comum. E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado" (Act 4, 32-34).

45. As associações e os movimentos apostólicos, de origem local ou internacional, provenientes de todos os países, devem adequar-se à mentalidade e ao ambiente de vida que lhes são oferecidos pelas tradições eclesial e a do país que os acolhe. É indispensável um espírito de humildade para obedecer ao Bispo e para se informar sobre as tradições, a cultura e sobretudo a língua do país. Alguns movimentos internacionais, mesmo desempenhando um trabalho digno de louvor, devem encarnar-se em maior medida nas nossas sociedades, sem contudo perder o seu carisma específico.

Perguntas

12. O que significa viver a comunhão na Igreja?

13. Como se manifesta a comunhão entre as várias Igrejas do Oriente com o Santo Padre?

14. Como podem melhorar as relações entre as várias Igrejas nos âmbitos da acção religiosa, caritativa e cultural?

15. Apresenta problemas a atitude das "pessoas de Igreja" em relação ao dinheiro?

16. A participação dos vossos fiéis em celebrações de outras Igrejas católicas representa um problema?

17. Como melhorar as relações de comunhão entre as várias pessoas na Igreja: entre Bispos e sacerdotes, pessoas de vida consagrada, leigos?

III. O TESTEMUNHO CRISTÃO

46. A fé vivida produz frutos abundantes: uma fé sem obras é uma fé morta (cf. Tg 2, 17). As nossas Igrejas são activas: numerosos projectos, muitos movimentos de jovens, muitas instituições educativas e caritativas, etc. Às vezes estas actividades são profissionalmente eficazes, mas nem sempre constituem um testemunho de amor desinteressado que convida a conhecer a sua fonte evangélica.

A. Dar testemunho do Evangelho na própria Igreja: catequese e obras

47. A evangelização ordinária é feita mediante as homilias, por ocasião da celebração eucarística ou da administração dos Sacramentos. É feita também na catequese nas escolas, nas paróquias ou nas "escolas do domingo", para os estudantes dos institutos estatais que não dispõem de cursos de educação religiosa cristã. É necessário fazer com que os catequistas sejam bem formados e constituam modelos vivos para os jovens (os próprios párocos fazem cada vez menos a catequese). A evangelização também se realiza através das revistas, dos livros e da internet. Existem, outrossim, centros de formação bíblica e teológica em toda a parte, para não falar das universidades e dos centros internacionais presentes em Jerusalém ou alhures.

48. Nos nossos países, mais ainda do que em outras partes do mundo, as Sagradas Escrituras devem ocupar o lugar principal, e é importante conhecer de cor muitos dos seus trechos. É igualmente essencial conhecer bem a própria tradição eclesial, assim como é importante conhecer, longe de qualquer preconceito negativo, aqueles com quem vivemos, muçulmanos ou judeus, e saber quais são as objecções dirigidas ao cristianismo, em vista de com sermos capazes de apresentar melhor a fé cristã.

49. É essencial que sobre todas estas temáticas que preocupam a sociedade civil, o ponto de vista cristão seja exposto clara, sólida e inteligentemente. É necessário formar os jovens e os fiéis no trabalho em grupo, na solidariedade com os mais pobres e no amor sincero por todos, cristãos e não-cristãos, formá-los a fim de que trabalhem pelo bem comum de toda a sociedade.

50. Os novos meios de comunicação são muito eficazes para dar testemunho do Evangelho: internet (em particular para os jovens), rádio e televisão, mas entre nós ainda são demasiado pouco utilizados. Indicamos dois meios de comunicação católicos libaneses: "La voix de la Charité" (Sawt al-Mahabba) e TéléLumière/Noursat, difundidos em todo o Médio Oriente e também no resto do mundo. Eles mereceriam ser apoiados em maior medida, ao mesmo nível dos outros centros de informação católicos nos nossos países.

51. Vivendo em sociedades onde são numerosos os conflitos de todos os tipos, a catequese deve poder preparar os jovens para se empenhar nelas, fortalecidos pela sua fé e pela luz do mandamento do amor. O que quer dizer o amor pelo inimigo? Como vivê-lo? Como vencer o mal com o bem? É necessário insistir sobre o compromisso na vida pública como cristãos, mediante a luz, a força e a docilidade da própria fé. Consideradas as numerosas divisões fundadas sobre a religião, os clãs familiares ou os grupos políticos, os jovens devem ser formados para superar estas barreiras e hostilidades internas, e para ver o rosto de Deus em cada ser humano, para colaborar juntos e edificar uma cidade comum hospitaleira. Tudo isto deve ser posto em evidência na catequese, principalmente nas nossas escolas católicas, que preparam os jovens para construir um futuro feito não de conflitos nem de instabilidades, mas de colaboração e de paz.

52. Por outro lado, a acção da Igreja manifesta-se através de um grande número de obras sociais: clínicas, hospitais, orfanatos, casas para idosos e para portadores de deficiências, etc. Também aqui os leigos desempenham um papel essencial e não subalterno. O perigo é que estas obras sociais se possam transformar em rivalidades confessionais. Então, é absolutamente necessária uma coordenação entre as Igrejas, para evitar repetições desnecessárias em determinados sectores e vazios noutros.

B. Testemunhar em conjunto com as demais Igrejas e Comunidades

53. Os vínculos de comunhão, real ainda que imperfeita, entre a Igreja católica e as outras Igrejas e Comunidades cristãs alicerçam-se sobre a fé em Cristo crucificado e glorificado, e sobre o Sacramento do Baptismo [8]. Os relacionamentos, geralmente bons e amistosos, são de dois tipos:

no plano individual ou entre Igrejas, ou entre Bispos, párocos ou fiéis leigos, em sinal de amizade ou de colaboração;

no plano comunitário, quando os Bispos de uma grande cidade se encontram de maneira regular, para abordar questões pastorais, sociais ou políticas.

54. A nível de paróquias, em geral os relacionamentos entre os párocos são amistosos, não obstante por vezes suscitem rivalidades ou críticas. A nível de Igrejas, devem-se relevar duas dificuldades.

Uma de ordem pastoral: algumas Igrejas e Comunidades eclesiais não católicas exigem, em caso de matrimónio misto, um novo baptismo do cônjuge católico. A segunda dificuldade, ainda de ordem pastoral, provém de seitas "evangélicas" que fazem proselitismo e aumentam a divisão entre os cristãos.

A outra dificuldade, de ordem histórica, diz respeito à Terra Santa, onde o estatuto dos Lugares Santos está submetido ao regime do statu quo. Às vezes os relacionamentos são difíceis [9] nos dois grandes santuários da cristandade, ou seja, o Santo Sepulcro e a Basílica da Natividade.

55. O diálogo ecuménico é conduzido no contexto do Conselho das Igrejas do Médio Oriente (comissão "fé e unidade"), que reúne todas as Igrejas em quatro famílias: a família greco-ortodoxa, a família ortodoxa oriental (as Igrejas copta, síria e arménia), a família católica com as seis Igrejas patriarcais e a Igreja latina, e a família protestante (anglicanos, luteranos, presbiterianos e outras denominações). Este Conselho representa praticamente todos os cristãos do mundo árabe e, com as suas múltiplas comissões (fé, institutos religiosos e seminários, "justiça e paz", juventude, etc.), realiza um trabalho ecuménico que oferece às Igrejasum sopro novo e uma capacidade defrequentare respeitar o próximo.

56. Além disso, a Santa Sé dá continuidade ao diálogo teológico fecundo e frutuoso com as Igrejas ortodoxas, no seu conjunto, e a um diálogo separado com toda a família de Igrejas ortodoxas orientais, em que participam activamente as Igrejas católicas orientais. A Fundação pro Oriente de Viena reúne ocasionalmente as Igrejas católicas e ortodoxas da região para encontros de reflexão teológica e ecuménica.

57. As escolas católicas acolhem todos os cristãos. Com o beneplácito dos seus pais, os estudantes ortodoxos podem aproximar-se dos Sacramentos da Penitência e da Eucaristia. Todo o proselitismo deve ser rejeitado. Os estudantes ortodoxos são convidados a conhecer a respectiva Igreja e a permanecer-lhe fiéis. Além disso, existem numerosos programas sociais comuns, iniciados e geridos pelos próprios fiéis.

58. Depois, não faltam projectos pastorais comuns, elaborados no Conselho dos Patriarcas católicos, reunidos com os Patriarcas ortodoxos do Líbano e da Síria. Eles dizem respeito a quatro pontos: os matrimónios mistos entre diversas confissões cristãs, a primeira comunhão, um catecismo conjunto e uma data comum para o Natal e a Páscoa. Foram alcançados acordos no que diz respeito às primeiras três temáticas. O catecismo comum chegou ao 6º livro para o 6º ano da escola elementar. A questão da unificação da data do Natal e da Páscoa, tratada pelo Conselho das Igrejas do Médio Oriente, encontra dificuldades insuperáveis (de disciplina, tradição, etc.). Todavia, o grande desejo dos fiéis em todos os países do Médio Oriente é de, um dia, poder celebrar estas duas festas em conjunto.

59. No plano académico as universidades, as faculdades ou os institutos de teologia colaboram entre si. O estudo do património religioso, sírio e árabe suscita um interesse real nas instituições académicas e também junto das hierarquias. Trata-se de um sector muito promissor, que poderia ser fonte de enriquecimento espiritual: o retorno à Tradição comum pode constituir um meio excelente de reaproximação teológica. Além disso, o património cristão de língua árabe, academicamente valorizado, favorece um verdadeiro diálogo cultural e religioso entre os cristãos e com os muçulmanos.

60. Existe um âmbito que mereceria uma colaboração regular entre católicos e ortodoxos: é o da liturgia. Seria desejável um esforço de renovação, arraigado na tradição, e que tenha em consideração a sensibilidade moderna e as necessidades espirituais e pastorais contemporâneas. Este trabalho deveria ser realizado, na medida do possível, a nível comum.

C. Relações particulares com o judaísmo

61. Considerando a situação política conflitual entre Palestinianos e mundo árabe, por um lado, e Estado de Israel por outro, o diálogo desenvolveu-se pouco nas Igrejas da região. Os relacionamentos com o judaísmo constituem a peculiaridade das Igrejas de Jerusalém [10]. Na Palestina e em Israel existem múltiplas associações de diálogo judaico-cristão. Do mesmo modo, existem iniciativas de diálogo entre judeus, cristãos e muçulmanos. A mais importante delas é a do "Conselho inter-religioso das Instituições religiosas", cujas origens remontam ao ano de 2001 (ele abrange o grão-rabinato, o grão-qâdi e o ministro dos waqfs, e os treze Patriarcas ou Chefes de Igrejas de Jerusalém). O diálogo mais importante é aquele que se produz a nível da Santa Sé (e que também inclui participantes das Igrejas locais) com o grão-rabinato de Israel.

62. O Conselho dos Patriarcas católicos do Oriente menciona as relações com o judaísmo já na sua segunda Carta pastoral (1992). Na décima e última Carta (2009) afirma-se: "Estas relações são uma questão que diz respeito tanto aos cristãos árabes, como a todo o mundo árabe. Por isso, devem ser consideradas a três níveis: humano, religioso e político.

No plano humano, cada pessoa humana é criatura de Deus. A este nível de encontro, cada um de nós vê o rosto de Deus no outro, reconhece a sua dignidade e respeita-o, qualquer que seja a sua religião ou nacionalidade.

No plano religioso, as religiões são convidadas ao encontro e ao diálogo, e a ser agentes de reaproximação entre os povos, sobretudo em tempos de crise e de guerra [...] Em todas as religiões, o papel do chefe religioso é difícil, principalmente quando a hostilidade continua entre duas partes [...] As nossas sociedades têm necessidade de chefes religiosos sinceros, servidores do seu povo e da humanidade, que vejam que o essencial da religião, em todas as circunstâncias, consiste em adorar a Deus e em respeitar cada uma das suas criaturas.

63. No plano político, esta relação ainda está assinalada por uma situação de hostilidade entre Palestinianos e mundo árabe, por um lado, e Estado de Israel por outro [agravada por concepções religiosas]. Causa desta hostilidade é a ocupação por parte de Israel dos Territórios Palestinianos e de alguns territórios libaneses e sírios"[11]. A este nível, compete aos líderes políticos interessados, com a ajuda da comunidade internacional, tomar as decisões necessárias de acordo com as resoluções das Nações Unidas.

64. Afirmou-o, justamente, o Santo Padre Bento XVI durante a Visita Apostólica à Terra Santa, nas duas cerimónias de boas-vindas. Em Belém, no dia 13 de Maio de 2009, ele dizia: "Senhor Presidente, a Santa Sé apoia o direito do seu povo a uma Palestina soberana na terra dos vossos antepassados, segura e em paz com os seus vizinhos, dentro de confins internacionalmente reconhecidos" [12]. E no discurso proferido no aeroporto Ben Gurion de Tel Aviv, a 11 de Maio de 2009, formulava votos a fim de "que ambos os povos possam viver em paz numa pátria que seja sua, dentro de confins seguros e internacionalmente reconhecidos" [13].

65. Compete a nós, como cristãos, encorajar todos os meios pacíficos que possam levar à paz através da justiça. Também faz parte da nossa missão recordar sempre a distinção entre plano religioso e plano político. E, como recordava o saudoso João Paulo II, "não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão" [14]. Temos o dever de aprender a perdoar, contudo sem jamais aceitar a injustiça.

66. Esforçar-se por criar grupos de amizade e de reflexão em vista da paz entre judeus, muçulmanos e cristãos é uma tarefa essencial e predominantemente cristã. Como Cristo destruiu o muro que separava judeus e gregos, assumindo o mal sobre si mesmo, sobre a sua própria carne (cf. Ef 2, 13-14), assim também nós deveríamos derrubar o muro de medo, desconfiança e ódio, com a nossa amizade com judeus e muçulmanos, israelitas e palestinianos.

67. No plano teológico, segundo o ensinamento contido no n. 4 de Nostra aetate, é oportuno explicar aos nossos fiéis o laço religioso existente entre judaísmo e cristianismo, fundado sobre o vínculo entre Antigo e Novo Testamento, para evitar que as ideologias políticas cheguem a impedir este relacionamento. É essencial distinguir bem os planos político e teológico: não utilizar a Bíblia para fins políticos, nem a política com finalidades teológicas.

D. Relações com os muçulmanos

68. As relações entre cristãos e muçulmanos devem ser compreendidas a partir de dois princípios: por um lado, como cidadãos de um mesmo país e de uma só pátria que compartilham língua e cultura, como também alegrias e dores dos nossos países; por outro, nós somos cristãos nas e pelas nossas sociedades, testemunhas de Cristo e do Evangelho. Mais ou menos frequentemente, as relações são difíceis, sobretudo pelo facto de que os muçulmanos geralmente não fazem distinção entre religião e política, o que põe os cristãos na delicada situação de não-cidadãos.

69. Durante o Concílio Vaticano II, no dia 28 de Outubro de 1965, a Igreja proclamou perante o mundo a sua posição em relação ao islão: "A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens" [15].

70. Por isso, compete a nós trabalhar com espírito de amor e lealdade, para criar uma igualdade total entre os cidadãos a todos os níveis: político, económico, social, cultural e religioso, e isto em conformidade com a maioria das Constituições dos nossos países. Com esta lealdade à pátria, e neste espírito cristão, nós enfrentamos a realidade vivida, que poderia ser cheia de dificuldades quotidianas, ou seja, de declarações e ameaças da parte de certos movimentos. Constatamos em numerosos países o crescimento do fundamentalismo, mas também a disponibilidade de um grande número de muçulmanos a lutar contra este crescente extremismo religioso.

71. Por causa desta situação geral, as relações entre cristãos e muçulmanos nem sempre são fáceis. Sem dúvida, deve ser feito tudo aquilo que possa contribuir para resolver e aplacar a situação, quaisquer que sejam as dificuldades. Na maioria das vezes, a iniciativa provém dos cristãos: ela deve ser perseverante. Estas relações (que podem evoluir rumo ao diálogo) vão da boa vizinhança à colaboração mais franca, a nível de indivíduos e de grupos das duas religiões. Os centros de diálogo entre muçulmanos e cristãos, onde já existem, são muito úteis, sobretudo em períodos de crise. O Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso tem uma função importante, em virtude da sua posição de organismo oficial da Santa Sé.

72. As nossas escolas e instituições desempenham um papel importante no aprofundamento destas relações. Elas estão abertas a todos, muçulmanos e cristãos, e constituem uma ocasião para se conhecerem melhor uns aos outros, para afastar determinados preconceitos e ter ideias mais exactas sobre o que é um cristão e o cristianismo. A educação para os direitos do homem e a liberdade de consciência faz parte da formação religiosa e humana em geral: ela é vital para as nossas sociedades e deve ser desenvolvida.

73. Conhecer-se reciprocamente é o fundamento de todo o diálogo. Por isso, deve ser feita quanto antes, juntamente com os outros cristãos da região, uma apresentação simples do Evangelho e de Cristo, na língua local, baseada essencialmente no Novo Testamento e acessível à mentalidade dos homens das nossas sociedades; ela seria benéfica tanto para os cristãos como para os muçulmanos, quer no diálogo quer na vida quotidiana.

74. Hoje existem numerosas cadeias televisivas cristãs e muçulmanas, em língua árabe ou em outros idiomas que permitem, para quem o deseja, conhecer o outro. A este propósito, seria desejável uma colaboração com todas as Igrejas. É essencial permanecer objectivo na informação transmitida, e respeitoso em relação ao próximo no diálogo, a fim de que a graça do Evangelho possa ser verdadeiramente compartilhada.

E. Contribuição dos cristãos para a sociedade

1. Dois desafios aos nossos países

75. Os desafios que hoje os nossos países devem enfrentar dizem respeito a todos: cristãos, judeus e muçulmanos, contemporaneamente. Diante dos conflitos e das ingerências militares, os desafios da paz e da violência têm uma grande relevância. Falar de paz e trabalhar pela paz, enquanto a guerra e a violência nos são praticamente impostas, constitui um desafio. A solução dos conflitos está nas mãos do país forte que ocupa um país ou que lhe impõe a guerra. A violência está nas mãos do forte, mas também do fraco que, para se libertar, pode recorrer igualmente à violência que está ao seu alcance. Diversos nossos países (Palestina, Iraque) vivem a guerra e toda a região sofre directamente por causa disto, há gerações. Esta situação é explorada pelo terrorismo mundial mais radical.

76. Com demasiada frequência, os nossos países identificam o Ocidente com o cristianismo. Se é verdade que o Ocidente (Europa e América) tem uma tradição cristã, e se é verdade que as suas raízes são cristãs, é indubitável que estes países possuem hoje em dia um regime e governos laicos, e estão longe de se inspirar, para a sua política, na fé cristã. Tal confusão, que se explica com o facto de que o mundo muçulmano não distingue facilmente entre aspectos político e religioso, prejudica gravemente as Igrejas da região. Com efeito, as escolhas políticas dos Estados ocidentais são atribuídas à fé cristã. É importante explicar o sentido da laicidade, recordando aos nossos países que não existe uma "Liga dos Estados cristãos", semelhante à Organização da Conferência Islâmica (oci).

77. Nestas circunstâncias, a contribuição do cristão consiste em apresentar e viver em conformidade com os valores evangélicos, mas também em pronunciar a palavra da verdade diante dos fortes que oprimem ou seguem políticas que vão contra os interesses do país, e daqueles que respondem à opressão com a violência. A pedagogia da paz é a mais realista, embora seja rejeitada pela maior parte; ela tem também mais possibilidade de ser acolhida, visto que a violência tanto dos fortes como dos fracos conduziu, na região do Médio Oriente, unicamente a falências e a um impasse geral. A nossa contribuição, que exige muita coragem, é indispensável.

78. A modernidade apresenta-se como uma realidade ambígua. Por um lado, existe um aspecto atraente, que promete comodidade e bem-estar na vida material, e mesmo uma libertação de tradições culturais ou espirituais opressivas. De resto, a modernidade é também luta pela justiça e igualdade, defesa dos direitos dos mais frágeis, equidade entre todos os homens e mulheres, crentes e não-crentes, etc. Em poucas palavras, é tudo aquilo que foi indicado pelos Direitos do Homem, um progresso imenso para a humanidade. Por outro lado, para o muçulmano crente ela apresenta-se com o rosto ateu e imortal. Ele vive-a como uma invasão cultural que o ameaça, deturpando o seu sistema de valores. Não sabe como enfrentá-la: alguns lutam contra ela com todas as próprias forças. A modernidade atrai e ao mesmo tempo afasta. O seu papel tanto nas nossas escolas como através dos mass media, consiste em formar pessoas que sejam capazes de discernir o positivo do negativo, para escolher apenas o que é melhor.

79. A modernidade é inclusive um risco para os cristãos. As nossas sociedades são, do mesmo modo, ameaçadas pela ausência de Deus, pelo ateísmo e pelo materialismo, e mais ainda pelo relativismo e pelo indiferentismo. É necessário que recordemos o lugar de Deus na vida civil e pessoal, e que nos tornemos cada vez mais homens de oração, testemunhas do Espírito Santo, que edifica e une. Tais riscos, ao mesmo nível do extremismo, podem facilmente destruir as nossas famílias, sociedades e Igrejas. Sob este ponto de vista, muçulmanos e cristãos devem percorrer um caminho comum.

2. Os cristãos ao serviço da sociedade nos seus países

80. Nós pertencemos ao Médio Oriente e identificamo-nos com ele. Somos um componente essencial do mesmo. Como cidadãos, compartilhamos as responsabilidades de construção e purificação. Além disso, como cristãos, este é para nós um compromisso. Daqui a obrigação, a dois níveis, de partilhar a luta contra os males das nossas sociedades, quer sejam de ordem política, jurídica, económica, social ou moral, e de contribuir para edificar uma sociedade mais justa, solidária e humana.

81. Agindo assim, seguimos os passos das gerações dos cristãos que nos precederam: a sua contribuição para a sociedade foi imensa, nos planos da educação, da cultura e das obras sociais, e isto há numerosas gerações. Eles desempenham um papel essencial na vida cultural, económica e política dos respectivos países. Foram os pioneiros do renascimento da nação árabe.

82. Hoje, a sua presença na política, com a excepção do Líbano, é mais limitada, sobretudo por causa do seu número reduzido. Não obstante, o seu papel é reconhecido na sociedade. A Igreja está presente na sociedade graças às numerosas instituições geridas pelas Igrejas e pelas Congregações religiosas, e esta presença é geralmente apreciada. É desejável que os leigos cristãos se comprometam cada vez mais na sociedade.

3. Relações Estado-Igreja

83. No islão não existe laicidade, excepto na Turquia: em geral, o islão é religião de Estado, principal fonte da legislação, inspirada pela sharia. Quanto ao estatuto pessoal (família e herança, em determinados países), existem estatutos particulares para as comunidades cristãs, cujos tribunais eclesiásticos são reconhecidos e as suas decisões, aplicadas. Todas as Constituições afirmam a igualdade dos cidadãos diante do Estado. A educação religiosa e obrigatória nas escolas particulares e públicas, mas nem sempre é garantida aos cristãos.

84. Alguns países são Estados islâmicos, onde a sharia é aplicada não apenas na vida particular, mas inclusive na social, também para os não-muçulmanos. Isto é sempre discriminatório e, por conseguinte, contrário aos direitos do homem.

Quanto à liberdade religiosa e de consciência, elas são desconhecidas na mentalidade muçulmana, que reconhece a liberdade de culto, mas não a liberdade de proclamar uma religião que seja diferente do islão, e menos ainda de abandonar o islão. Além disso, com o crescimento do integralismo islâmico, aumentam um pouco em toda a parte os ataques perpetrados contra os cristãos.

F. Conclusão: contribuição específica e insubstituível do cristão

85. O cristão tem uma contribuição específica e insubstituível a oferecer no seio da sociedade em que vive, para a enriquecer com os valores do Evangelho. É testemunha de Cristo e dos valores novos por Ele oferecidos à humanidade. E é por este motivo que a nossa catequese deve formar, simultaneamente, fiéis e cidadãos que trabalhem nos vários sectores da sociedade. Um compromisso político desprovido dos valores do Evangelho é um contratestemunho e acarreta consigo mais mal do que bem. Em vários pontos estes valores, de modo particular os direitos do homem, coincidem com os do muçulmano, e portanto há interesse em promovê-los em conjunto.

86. No Médio Oriente existem diferentes conflitos que surgiram a partir do foco principal, que é o conflito israelo-palestiniano. O cristão tem uma contribuição especial para oferecer no âmbito da justiça e da paz. Por conseguinte o nosso dever consiste em denunciar com coragem a violência, independentemente de onde ela derive, e sugerir uma solução, que não pode passar senão pelo diálogo. Além disso, enquanto por um lado se exige justiça para o oprimido, por outro é necessário introduzir a mensagem da reconciliação fundada no perdão recíproco. A força do Espírito Santo torna-nos capazes de perdoar e de pedir perdão. Unicamente esta atitude pode criar uma humanidade nova. Os poderes públicos têm necessidade desta abertura espiritual, que lhes pode oferecer uma contribuição cristã humilde e abnegada. Permitir ao Espírito que penetre nos corações dos homens e das mulheres que na nossa região sofrem situações conflituosas: eis a contribuição específica do cristão e o melhor serviço que ele pode prestar à própria sociedade.

Perguntas

18. A catequese prepara os nossos jovens para compreender e viver a fé?

19. As homilias correspondem às expectativas dos fiéis? Ajudam-nos a compreender e a viver a fé?

20. Os programas radiofónicos e televisivos cristãos são satisfatórios? Gostaríeis de dispor de algo diferente no vosso país? Que programas vos parece que faltam?

21. Como promover concretamente as relações ecuménicas?

22. A redescoberta do património comum (sírio, árabe, etc.) tem alguma importância?

23. Na vossa opinião, a Liturgia teria necessidade de ser reformulada?

24. Como dar testemunho da fé cristãnos nossos países do Médio Oriente?

25. Como melhorar os relacionamentos com os demais cristãos?

26. Como interpretar as relações com o judaísmo como religião, e como promover a paz e o fim do conflito político?

27. Quais são os âmbitos em que pode haver uma colaboração com os muçulmanos?

CONCLUSÃO GERAL:
QUE FUTURO PARA OS CRISTÃOS DO MÉDIO ORIENTE?
«NÃO TEMAS, PEQUENINO REBANHO!»

A. Que futuro para os cristãos do Médio Oriente?

87. A nossa situação actual, de presença bastante reduzida, é uma consequência da história. Mas com o nosso comportamento, podemos melhorar o nosso presente e inclusive o futuro. Por um lado, as políticas mundiais constituem um factor que há-de influenciar a nossa decisão de permanecer nos nossos países ou de emigrar. Por outro, a aceitação da nossa vocação de cristãos, nas e pelas nossas sociedades, será um factor principal da nossa presença e testemunho nos nossos países. Trata-se de uma questão de política e, ao mesmo tempo, de fé.

88. Actualmente, esta fé é vacilante e perplexa. As nossas atitudes vão do medo ao desânimo, até entre alguns pastores. Esta fé deve tornar-se mais adulta e confiante, enquanto nós mesmos temos o dever de assumir o nosso futuro. Ela dependerá do modo como soubermos tratar e estreitar alianças com os homens de boa vontade da nossa sociedade. Temos necessidade de uma fé comprometida na vida da sociedade, que recorde aos cristãos do Médio Oriente estas palavras, sempre actuais: "Não temas, pequenino rebanho!" (Lc 12, 32). Tu tens uma missão, tu irás cumpri-la e ajudar a tua Igreja e o teu país a crescer e a desenvolver-se na paz, na justiça e na igualdade de todos os seus cidadãos.

B. A esperança

89. A esperança, nascida na Terra Santa, anima todos os povos e as pessoas em dificuldade do mundo há dois mil anos. No meio das dificuldades e dos desafios, ela permanece uma fonte inesgotável de fé, de caridade e de alegria para formar as testemunhas do Senhor ressuscitado, sempre presente no meio da comunidade dos seus discípulos. Em todos os nossos países, esta esperança sustém-nos com a palavra de Jesus: "Não temas, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai conceder-vos o Reino!" (Lc 12, 32).

90. Mas a esperança significa, por um lado, voltar a depositar a própria confiança em Deus e na Providência divina, que vela sobre o percurso da história de todos os povos; por outro, quer dizer agir com Deus, ser "colaboradores de Deus" (1 Cor 3, 9), fazer o possível em vista de contribuir para esta evolução a caminho. A nossa catequese tem necessidade de uma maior abertura, segundo a medida do amor de Deus por todos, e de uma catequese que faça dos nossos fiéis verdadeiros colaboradores, com a graça de Deus, em todos os aspectos da vida pública nas nossas sociedades.

91. O nosso abandono à Providência de Deus significa também, da nossa parte, uma maior comunhão. Isto quer dizer um maior desapego sob os pontos de vista terrenos, mais libertação dos espinhos que sufocam a Palavra de Deus [16] e a Sua Graça em nós. Como recomenda São Paulo: "Amai-vos uns aos outros com afecto fraternal, concorrei na estima recíproca. Sede diligentes, sem fraqueza, fervorosos de espírito, dedicados ao Senhor, alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes da oração" (Rm 12, 10-12). E Cristo diz-nos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: muda-te daqui para lá, e ele mudar-se-á; e nada vos será impossível" (Mt 17, 20; cf. Mt 21, 21).

92. Estes são os crentes de que temos necessidade, quer a nível dos nossos chefes e pais, quer dos nossos fiéis. A Virgem Maria, presente com os Apóstolos no Pentecostes, nos ajude a ser homens e mulheres prontos para receber o Espírito Santo e agir com a Sua força.

Perguntas

28. Por que temos medo do futuro?

29. Como inserimos a nossa fé no trabalho?

30. Como inserimos a nossa fé na política, na sociedade?

31. Estamos convictos que temos uma vocação específica no Médio Oriente?

32. Outras eventuais sugestões.


Notas

[1] Cf. Bento XVI, Discurso por ocasião da visita à sede da Congregação para as Igrejas Orientais (9.06.2007): ed. port. de L'Osservatore Romano, 16.06.2007, pág. 5.

[2] Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente, 10ª Carta Pastoral sobre o cristão árabe face aos desafios contemporâneos "L'amour de Dieu a été répandu dans nos coeurs pas l'Esprit Saint quis nous (Rm 5, 5)", Edição do Secretariado Geral, Bkerké 2009, §13 f.

[3] Ibid., 7.

[4] Cf. Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente, 4ª Carta Pastoral sobre o mistério da Igreja "Je suis la vigne, vous, les sarments (Jo 15, 5)", Edição do Secretariado Geral, Bkerké 1996, 5-16.

[5] Cf. Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente, 10ª Carta Pastoral sobre o cristãos árabe face aos desafios contemporâneos "L'amour de Dieu a été répandu dans nos coeurs par l'Esprit Saint quis nous (Rm 5, 5)", Edição do Secretariado Geral, Bkerké 2009, 11.

[6] São Paulo fala duas vezes da "Igreja de Deus que está em Corinto" (cf. 1 Cor 1, 1 e 2 Cor 1, 2)

[7] Cf. Mc 10, 35-37. Em Mt 20, 20-21 é a mãe deles que faz a pergunta a Jesus.

[8] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Unitatis redintegratio, 3 e 22.

[9] Nos dois Lugares Santos, um statu quo regula as relações entre as três confissões que guardam os lugares: Latinos (representados pela Custódia da Terra Santa, ou seja, os Frades Franciscanos), Arménios e Gregos. Às vezes verificam-se oposições ou escândalos, imediatamente exacerbados pelos mass media, em grande desvantagem da Igreja.

[10] Cinco Igrejas ortodoxas, seis católicas e duas protestantes.

[11] Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente, 10ª Carta Pastoral sobre o cristão árabe face aos desafios contemporâneos "L'amour de Dieu a été répandu dans nos coeurs par l'Esprit Saint qui nous (Rm 5, 5)", Edição do Secretariado Geral, Bkerké 2009 27.

[12] Bento XVI, Visita Apostólica à Terra Santa, Cerimónia de boas-vindas aos Territórios Palestinianos (13.5.2009): ed. port. de L'Osservatore Romano de 23.5.2009, pág. 7.

[13] Bento XVI, Visita Apostólica à Terra Santa, Discurso no aeroporto Ben Gurion de Tel Aviv (11.5.2009): ed. port. de L'Osservatore Romano de 16.5.2009, pág.11.

[14] João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2002, "Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão", ed. port. de L'Osservatore Romano de 15.12.2001: aas 94 (2002), pág. 132.

[15] Concílio Ecuménico Vaticano II, Nostra aetate, 3.

[16] Cf. a parábola do semeador, por exemplo em Mt 13, 7 e paralelos.

 

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