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DIÁLOGO DO PAPA FRANCISCO
COM OS FIÉIS NORTE-AMERICANOS
DURANTE A VIDEOCONFERÊNCIA TRANSMITIDA
 PELA REDE TELEVISIVA ABC
DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

[Multimídia]


(do L'Osservatore Romano, Edição semanal em português n. 37, 10/09/2015)

 

«Poder encontrar-me convosco enche-me de esperança. Rezo por vós, por todo o povo americano, e peço-vos por favor que oreis por mim. Obrigado!».

Foi assim que o Papa Francisco marcou encontro com os fiéis norte-americanos, em vista da sua próxima viagem, programada de 23 a 28 de Setembro a Washington, Nova Iorque e Filadélfia. O Pontífice proferiu estas palavras na conclusão da videoconferência gravada nos dias passados e transmitida no final do dia 4 pela rede televisiva Abc. Do Vaticano, acompanhado pelo apresentador David Miur do programa «World News Tonight», o Papa entrou em contacto via satélite com três grupos: estudantes do colégio jesuíta Cristo Rei, no centro histórico de Chicago, que se dedica à formação de jovens pobres e marginalizados; mulheres e homens desabrigados de Los Angeles e voluntários que se ocupam deles; e fiéis da paróquia do Sagrado Coração, de McAllen, no Texas, perto da fronteira com o México. A transmissão durou cerca de noventa minutos, durante os quais o Santo Padre respondeu em espanhol e com algumas frases em inglês. Publicamos a seguir na íntegra a transcrição das palavras do Pontífice e uma síntese dos testemunhos dos seus interlocutores e das perguntas que lhe foram dirigidas.

Depois de lhe apresentar os grupos de interlocutores — em relação ao primeiro o Papa Francisco comentou, sorrindo: «Se são jesuítas, são bons!» — o jornalista televisivo pediu-lhe imediatamente que transmitisse uma mensagem ao povo dos Estados Unidos, antes da viagem.

Uma grande saudação! Uma grande saudação à comunidade católica dos Estados Unidos e a todos os cidadãos dos Estados Unidos. Esta é a minha mensagem, com uma carinhosa saudação.

Do colégio jesuíta de Chicago chegou o testemunho da jovem Valery Herrera, que falou sobre a doença de pele da qual sofre e do modo como superou as dificuldades, com a ajuda da família e participando num coral. A música também a ajudou a aproximar-se da fé e a sentir-se menos sozinha. Gostaria de se matricular na universidade — seria a primeira a fazê-lo na sua família — e de estudar farmácia. Depois, perguntou ao Pontífice o que espera dos jovens.

Valery, gostaria de ouvir-te cantar; posso pedir-te para cantar uma canção para mim? Espero que o faças. Vai em frente, vai em frente. Sê corajosa [Valery canta uma canção]. Obrigado. Foste muito gentil. A minha primeira resposta à tua pergunta é a seguinte: o que espero dos jovens é que não caminhem sozinhos na vida. É o primeiro passo, mas espero muito mais! Que tenham a coragem de caminhar com o amor e a ternura dos outros. Que encontrem alguém — na tua canção, pediste à Virgem que pegue em ti ao colo, que te leve a caminhar de mãos dadas contigo — que os ajude a caminhar na vida. É difícil, muito difícil, caminhar sozinho na vida; perdemo-nos, confundimo-nos, podemos enganar-nos no caminho, podemos perder-nos num labirinto ou, pior ainda, desanimar porque nos sentimos cansados de caminhar. Devemos caminhar sempre de mãos dados com alguém que nos ama, com alguém que nos transmite ternura, e foi isto que tu disseste a Nossa Senhora. Caminhar de mãos dadas com Jesus, caminhar de mãos dadas com a Virgem infunde segurança. É a primeira coisa que espero dos jovens: que se deixem acompanhar, mas por boas companhias, ou seja, que prossigam bem acompanhados. No meu país existe um provérbio que reza assim: «Melhor sozinho do que mal acompanhado». É verdade, mas devemos caminhar em companhia. Cada jovem deve procurar na vida alguém que o ajude ao longo do caminho: pode ser o seu pai, a sua mãe, um parente, um amigo, um avô, uma avó — os avós são bons conselheiros! — um professor, alguém que te ajude a confrontar-te com a realidade da vida. Em primeiro lugar, os jovens devem caminhar acompanhados. Segundo: espero que os jovens caminhem com coragem. Há pouco, foi-te difícil dar o primeiro passo neste caminho que te pedi, isto é, cantar uma canção. Estavas emocionada, não sabias como agir, mas foste corajosa, deste o primeiro passo e depois cantaste muito bem. Continua a cantar, cantas muito bem! Ou seja, tem a coragem de dar o primeiro passo, a coragem de ir em frente. Vós sabeis como é triste ver um jovem que não é corajoso. É um jovem triste, um jovem com cara de funeral, um jovem sem alegria. A coragem dá-nos alegria e a alegria infunde-nos esperança, que obviamente é um dom de Deus. É verdade que no caminho da vida existem muitas dificuldades. Não tenhais medo das dificuldades! Sede prudentes, prestai atenção, mas não tenhais medo! Tendes a força para as superar. Não vos assusteis, não pareis! Não há nada pior do que um jovem aposentado antes do tempo. Não sei com que idade as pessoas vão para a reforma nos Estados Unidos, mas podeis imaginar um jovem de 25 anos já aposentado? É terrível! Ide sempre em frente, com coragem e esperança. E se a pedirdes a Deus, Ele dar-vos-á a esperança. Eis a minha resposta, Valery. E obrigado pela canção!

Depois do testemunho de Alexandra Vázquez, de Chicago — no final do qual o Papa disse: «Obrigado, Alexandra. Vai em frente por este caminho. Deus te abençoe!» — teve lugar a ligação com Los Angeles, onde estava reunido um grupo de pessoas que vivem em várias estruturas de acolhimento para pobres e desabrigadas. Marco, de 19 anos, que deseja ser músico, perguntou ao Pontífice por que motivo a viagem aos Estados Unidos é tão importante para ele.

Para mim, é muito importante porque me encontrarei convosco, cidadãos dos Estados Unidos, que tendes a vossa história, a vossa cultura, as vossas virtudes, alegrias e tristezas, os vossos problemas como todos. Estou ao serviço de todas as Igrejas e de todos os homens e mulheres de boa vontade. Para mim, há algo que é muito importante: é a proximidade. Para mim é difícil não estar perto das pessoas. Ao contrário, quando me aproximo das pessoas, como farei convosco, para mim é mais fácil entendê-las e ajudá-las no caminho da vida. Por isso, esta viagem é deveras relevante, para eu me aproximar do vosso caminho e da vossa história.

Portanto, é significativo o testemunho de Rosemary, mãe solteira, com as suas duas filhas. Depois de ter vivido numa estrutura de acolhimento, agora receberam uma casa totalmente para si.

Obrigado, Rosemay, pelo teu testemunho. Quero dizer-te algo: sei que não é fácil ser mãe solteira, sei que às vezes as pessoas podem ter uma má impressão de ti, mas digo-te uma coisa: és uma mulher corajosa, porque foste capaz de dar à luz estas duas filhas. Podias matá-las quando estavam no teu ventre, mas respeitaste a vida, respeitaste a vida que estava dentro de ti, e Deus recompensar-te-á por isto, dar-te-á o prémio. Não te envergonhes, caminha de cabeça erguida. «Eu não matei as minhas filhas, mas dei-as à luz!». Congratulo-me contigo, e que Deus te recompense!

Em seguida, a ligação com o Texas, de onde Ricardo, que imigrou com quatro anos, falou da sua experiência de vida pessoal. A de um jovem que depois de um acidente que o seu pai teve, aos 16 viu-se a manter por um período a própria família, composta por seis membros. Em seguida, foi recompensado pelo pai, que o ajudou a pagar os seus estudos. E a sua pergunta não podia deixar de se referir a alguns dos problemas sociais mais contemporâneos — a pobreza, o sistema educativo e a imigração — e as suas possíveis soluções.

Obviamente, ouvindo a tua história, posso dizer-te que a vida fez de ti um pai antes do tempo, porque tiveste que manter a tua família durante a doença do teu pai, quando ainda eras muito jovem. Mas conseguiste fazê-lo porque o teu pai teve a coragem de te iniciar no caminho do trabalho e da luta, e depois, com coragem, deixou-te estudar à custa de sacrifícios. Nesta vida existem muitas injustiças, e como crente, como cristão, o primeiro que as padeceu, que as concentrou em si mesmo, foi Jesus. Ele nasceu na estrada, nasceu como um homeless, a sua mãe não sabia onde podia dá-lo à luz. É necessário olhar sempre para a figura de Jesus. E tu perguntas-me como. Olhando para a figura de Jesus damos mais um passo. Às vezes, Deus fala-nos com palavras, como na Bíblia, transmitindo-nos a sua Palavra. Por vezes, Ele fala-nos com gestos, através da história, das situações. E muitas vezes Deus fala-nos com o seu silêncio. Quando vejo — aquilo que me perguntaste — quantas pessoas sofrem de fome, não têm o necessário para crescer, para a saúde, morrem na infância, não dispõem do necessário para a educação, e quantas pessoas não têm uma casa, quantas pessoas hoje em dia — podemos ver — deixam o próprio país em busca de um futuro melhor, e morrem; muitos morrem ao longo do caminho. Então, olho para Jesus na Cruz e descubro o silêncio de Deus. O primeiro silêncio de Deus encontra-se na Cruz de Jesus. Foi a maior injustiça da história, e Deus permaneceu em silêncio. Contudo, serei mais concreto na resposta a outros níveis, mas não te esqueças de que Deus nos fala com palavras, com gestos e com o silêncio. E aquilo que me perguntaste só se entende no silêncio de Deus, e o silêncio de Deus só o compreendemos olhando para a Cruz. Que fazer? O mundo deve ter mais consciência de que a exploração recíproca não é um caminho. Todos nós fomos criados para a amizade social. Todos somos responsáveis por todos. Ninguém pode dizer: «A minha responsabilidade chega até aqui!». Todos somos responsáveis por todos, e devemos ajudar-nos cada qual a seu modo. Amizade social, foi para isto que Deus nos criou. Contudo, existe uma palavra muito feia que aparece também na primeira página da Bíblia. Deus diz ao diabo, ao pai da mentira, à serpente: «Porei inimizade entre ti e a mulher». A palavra inimizade cresceu ao longo da história, e pouco depois houve a primeira inimizade fraterna: Caim mata Abel. Foi a primeira injustiça. A partir de então, houve guerras e destruições. A partir de então, houve ódio. Falando em termos futebolísticos, diria que o jogo se disputa entre a amizade social e a inimizade social. Cada um deve fazer esta escolha no seu coração, e nós temos o dever de ajudar os outros a fazer esta opção no coração. A fuga através das dependências ou da violência não ajuda; só ajudam a proximidade e fazer o melhor que se pode, como tu fizeste, quando eras adolescente, mantendo a tua família. Não te esqueças, a amizade social contra a proposta do mundo, que é a inimizade social: «Arranja-te, e que o próximo se arranje sozinho!». Não é este o desígnio de Deus. Era isto que eu queria dizer-te, enquanto te manifesto a minha admiração; a vida fez de ti um pai, quando eras muito jovem. Quando fores verdadeiramente um pai e tiveres os teus filhos, que tu possas continuar a educá-los no caminho que aprendeste do teu pai. Obrigado!

Depois, com uma pulseira electrónica no tornozelo, interveio Vilma, imigrada ilegalmente de El Salvador com a finalidade dar uma esperança de vida melhor ao seu filho Ernesto, que nasceu com uma enfermidade congénita nos olhos, a qual não lhe permite ver. Pediu e recebeu a bênção do Papa que, sucessivamente, perguntou quem era uma religiosa que ele entreviu no ecrã. Chama-se irmã Norma.

Irmã, através de ti quero agradecer a todas as religiosas dos Estados Unidos. É grandioso o trabalho que vós, religiosas, levastes a cabo e ainda realizais nos Estados Unidos. Congratulo-me convosco. Sede corajosas! Ide em frente, sempre na primeira linha. E digo-vos mais uma coisa — é um mal que o diga o Papa? Não sei — gosto muito de vós!

A conferência terminou com o testemunho de Wendy, uma menina de apenas onze anos recém-chegada com a sua mãe, proveniente de El Salvador, que elas abandonaram por causa da violência das quadrilhas. Depois de ter narrado com lágrimas os dias dramáticos da sua viagem, a menina mostrou um desenho ao Papa, que recebeu também um crucifixo feito pelos estudantes de Chicago.

 

 



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